UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

31 de julho de 2011

HOMEM SEM RUMO (MAN WITHOUT A STAR), KIRK DOUGLAS SENSACIONAL!!!


Borden Chase é um dos mais conhecidos roteiristas de faroestes, autor dos roteiros de “Rio Vermelho” (Red River), “Winchester 73”, “E o Sangue Semeou a Terra” (Bend of the River), “Região do Ódio” (The Far Country), “Vera Cruz”, “Punido pelo Próprio Sangue” (Backlash), entre outros. Apenas esses westerns seriam suficientes para colocá-lo entre os imortais roteiristas do gênero. Em 1955, em colaboração com D.D. Beauchamps, Borden Chase preparou o roteiro de “Homem Sem Rumo” (Man Without a Star) e a Universal acertou a produção do filme no sistema ‘fifty-fifty’ (meio a meio) com a Bryna de Kirk Douglas. O ator-produtor não recebeu nada por sua participação no filme, entrando ainda com metade do custo de produção. A Universal entrou com a outra metade e quando depois de lançado o filme começasse a dar lucro, este seria dividido meio a meio entre Kirk Douglas e a Universal. “Homem Sem Rumo” foi um dos grandes sucessos de bilheteria de 1955 e não sem razão pois é um western empolgante, com ritmo de tirar o fôlego e faroeste que consagrou Kirk Douglas como cowboy. Nascido em Nova York, Kirk nunca havia montado em um cavalo até seu primeiro western “Embrutecidos pela Violência” (Along the Great Divide) e o segundo “Rio da Aventura” (The Big Sky) não o mostrava como verdadeiro cowboy. Porém sua atuação em “Homem Sem Rumo” demonstra que Kirk tornara-se um perfeito homem do oeste, montando como um se fosse Ben Johnson, exibindo impressionante destreza com o revólver, tocando banjo e cantando. Tudo isso explica o sucesso de “Homem Sem Rumo”.

CONTRATO DE AMOR - Kirk Douglas interpreta Dempsey Rae, um cowboy errante com um obscuro passado no Texas e que chega ao Wyoming onde consegue emprego numa fazenda com oito mil cabeças de gado. A proprietária é a senhorita Reed Bowman (Jeanne Crain), que pretende aumentar o rebanho até chegar às 30 mil cabeças o que irá esgotar os pastos. O enorme rebanho da senhorita Bowman invade pastos de outros fazendeiros que se vêem forçados a cercar as terras com cercas de arame farpado. Dempsey torna-se capataz da fazenda da senhorita Bowman, com quem faz um estranho contrato em que o pagamento seria ela se tornar sua amante. Dempsey tem horror ao arame farpado e traz no corpo cicatrizes deixadas pelas pontas do arame. A senhorita Bowman descobre que não conseguirá dominar Dempsey Rae e emprega também Steve Miles (Richard Boone), um homem violento que lidera um grupo de cowboys que não hesitam em matar cowboys de outras fazendas. Dempsey não aceita as manobras da senhorita Bowman, abandona o cargo de capataz e vai trabalhar para Tom Cassidy (Eddy Waller), um dos fazendeiros que passaram a usar arame farpado. Dempsey então liquida Steve Miles e seu grupo, partindo em seguida sem rumo certo.

COMO SER UM COWBOY- “Homem Sem Rumo” tem como tema central o efeito do uso do arame farpado na vida de homens acostumados com a liberdade, como Dempsey Rae (Douglas). Para ele “quando onde o arame chega, chegam também lutas e mortes”. Ele sabe que as cercas representam uma nova realidade para o Oeste. Simbolicamente elas estreitam o universo de homens como ele acostumados a serem guiados por uma estrela qualquer “mas que precisa ser a estrela certa”, como diz Dempsey para o jovem Jeff ‘Texas’ Jimson. Dempsey adota Jeff como pupilo a quem ensina os rudimentos necessários para ser um cowboy de verdade, inclusive mostrando como usar o revólver (“sacar rápido e guardar lentamente”, diz Dempsey a Jeff). Dempsey sabe como lidar com as mulheres e sua amiga Idonee (Claire Trevor) faz de tudo para ajudá-lo em troca dos agrados que só Dempsey sabe fazer. Dempsey é um lascivo e sem nenhum pudor deixa isso claro para Reed Bowman (Jeanne Crain), a quem pretende ter como amante. Logo descobre que o interesse físico da mulher é menor que o que ele Dempsey representa para seus negócios com o gado e isto é suficiente para que Dempsey se afaste dela. O arame farpado deixou marcas no corpo e sequelas mais profundas ainda em sua personalidade. Mas Dempsey tem seu lado descontraído e vê com misto de curiosidade e libidinoso prazer a mudança de costumes como o banheiro dentro da casa (“é muito prático”, diz). Dempsey tem dos cowboys o apreço pela amizade verdadeira pelos pardners, amizade demonstrada muitas vezes de forma contundente ao jovem amigo Jeff ‘Texas’. Dempsey não é um errante como o título do filme pretende pois a estrela que o guia é uma constelação das estrelas do prazer, da alegria e da amizade. Dempsey é o mais complexo exemplo de cowboy já mostrado pelo cinema.

Douglas com a maravilhosa
Claire Trevor e (abaixo) com
Jeanne Crain
CLAIRE, ADORÁVEL PROSTITUTA - Kirk Douglas tinha dúvidas quanto a aceitar King Vidor pra dirigir “Homem Sem Rumo” pois o veterano diretor estava com 61 anos e não filmava um western desde “Duelo ao Sol” (Duel in the Sun), rodado em 1946. E sabia-se que Vidor não dirigia de forma dinâmica, como Douglas gostava. Mas o diretor, a seu modo, imprimiu ao filme o ritmo sonhado pelo egocêntrico Kirk, permitindo ao ator fazer diante das câmaras malabarismos com o revólver, cantar, exercitar seu masoquismo, mostrar sua esplêndida forma física, resultando em uma de suas melhores performances. A alternação das muitas situações vibrantes de lutas com as sequências bem humoradas, acrescentando ainda frases de maliciosos duplos sentidos deve-se a Vidor que desenvolveu magnificamente o roteiro de Chase-Beauchamps. Kirk Douglas sempre foi aquela pedra no sapato de muitos críticos pois a exemplo de seu amigo Burt Lancaster, Kirk é aquele tipo de ator exuberante e espetacular. E enganam-se os que acreditam que essa seja uma forma de encobrir uma possível falta de talento dramático. Burt e Kirk demonstraram talento interpretativo em dúzias de filmes. “Homem Sem Rumo” tem a presença de Claire Trevor, a mais adorável prostituta do Velho Oeste desde “No Tempo das Diligências”. De tudo que é cowboy torto Claire já foi namorada. Pena que o papel de Claire em “Homem sem Rumo” seja infinitamente menor que seu talento. O principal personagem feminino é o de Jeanne Crain, atriz muito delicada, incapaz de convencer como mulher forte que domina fazendeiros e também bonita e ordinária no amor. A certa altura Douglas/Dempsey diz à personagem de Jeanne Crain que o que ela faz não combina com ela. Não mesmo pois ela dá saudade de Susan Hayward, por exemplo. Richard Boone foi mais cruel e violento em outros filmes, mas é sempre um ator competente. O elenco de “Homem Sem Rumo” tem também William Campbell ótimo como o ingênuo aprendiz de cowboy; tem as agradáveis presenças de Roy Barcroft (tantas vezes adversário de Rocky Lane) e de Eddy Waller (tantas vezes sidekick do mesmo Rocky Lane). Roy como um honesto xerife e Eddy como um resoluto e esperto fazendeiro. Jay C. Flippen correto como sempre, seguido de um excelente cast de coadjuvantes composto por Sheb Wooley, Mara Coorday, Paul Birch, Myrna Hansen e Jack Elam, este numa curta mas excelente participação.


CLÁSSICO AUTÊNTICO - O filme de King Vidor é aberto com uma empolgante canção interpretada com aquela força que só a voz de Frankie Laine possuía, anunciando o espetacular western que é “Homem Sem Rumo”. Henry Mancini colaborou na trilha musical e as belas imagens deste western são de Russell Metty, numa produção que infelizmente não foi rodada em Cinemascope como merecia. Parece que em certos filmes tudo dá certo, mas nem sempre isso acontece por acaso e sim pela competência daqueles que estão envolvidos nele. Um western com Kirk Douglas iluminado, Claire Trevor, Richard Boone, voz de Frankie Laine só poderia resultar num autêntico clássico, numa estrela cintilante no céu dos faroestes como é “Homem sem Rumo”.



29 de julho de 2011

CHARLES KING, UM BANDIDO MUITO QUERIDO


Charles King significou para os fãs dos B-Westerns dos anos 30 o mesmo que Roy Barcroft representou para os freqüentadores das matinês nos anos 40. Ambos, cada um nos ápices de suas respectivas carreiras era o melhor bandido, o malfeitor favorito e o vilão que todos conheciam. Charles Lafayette King Jr. nasceu em Hillsboro, no Texas, em 25 de fevereiro de 1895 e era filho de um médico. O pai de Charles queria que o filho seguisse a sua carreira, mas o cinema era a grande sensação dos primeiros anos do novo século, expandia-se irreversivelmente e oferecia muitas oportunidades para aqueles que tivessem talento. “O Nascimento de uma Nação” (1915) foi um marco do cinema não só pela inovação na forma de contar uma história, mas também pelo número de atores que constam (ou afirmavam) ter atuado no filme de D.W.Griffith. Entre eles está Charles King que até 1930 atuou naqueles filmes curtos chamados de ‘shorts’ (25 minutos), a maior parte deles comédias e alguns dramas. Exatamente em 1930, quando, o cinema falado já era uma realidade, Charles King passou a atuar em filmes de média e longa-metragens. O primeiro deles, “Missão de Amizade" (Mountain Justice) não exatamente um western, estrelado pelo cowboy Ken Maynard. Durante toda a década de 30 Charles King atuou em quase duzentos westerns pois fazia uma média de 20 filmes por ano, trabalhando seguidamente para a Universal Pictures. Nos anos 40 Charles King engordou muito e perdeu a agilidade, sendo relegado a papéis menores, deixando de ser o bandidão mais importante do filme e por vezes fazendo mera figuração. Charles já havia então passado para estúdios menores como a Monogram e a PRC. Nos anos de 1949 e 1953, Charles King só conseguiu trabalho em quatro filmes, dois deles westerns. Nesses cinco anos participou de quatro seriados, ainda que às vezes em apenas um capítulo sem ser creditado. Se o reinado de Charles King como ‘heavy’ (bandido) número um dos westerns B havia acabado nos primeiros anos da década de 40, no final dessa década quem estava agonizando era sua própria carreira.

Charles King antes dos
westerns
TENTATIVA DE SUICÍDIO - Charles King casou-se em 1913 e sua esposa se chamava Lila. O casal teve três filhos, divorciando-se em 1924. Posteriormente Charles King teve uma filha de uma relação com uma mulher com a qual não se casou. Charles era uma pessoa muito alegre e querida no meio artístico e gostava de beber com os amigos artistas, técnicos, figurantes ou qualquer um que o acompanhasse. À medida que viu seu espaço no cinema ser reduzido Charles King passou a beber cada vez mais, o que certamente lhe dificultou conseguir trabalho. Charles se tornou alcoólatra e num momento de desespero nessa fase difícil tentou o suicídio dando um tiro no peito. Charles era profundo conhecedor e colecionador de armas de fogo, algumas delas muito raras. Devia, portanto, saber que aquele revólver calibre 22 que ele usou talvez não fosse suficiente para matá-lo, ele que estava com mais de 100 quilos de peso. A bala alojou-se entre as vértebras e Charles King sobreviveu. Porém trabalho que é bom não aparecia nenhum, fato que também aconteceu com muitos outros astros das antigas matinês. Aos 60 anos de idade Charles King acreditava que sua carreira estava definitivamente encerrada, até que surgiu um convite para participar de uma série de TV chamada “Gunsmoke”.

Charles King desenhado por
Umberto 'Hoppy' Losso
HOPPY LOSSO E A LENDA DO CAIXÃO - A série "Gunsmoke" estrelada por James Arness como o Marshal Matt Dillon conseguiu ótimos índices de audiência em sua primeira temporada (1955/1956) e tudo indicava que teria vida longa (a série ficou 20 anos no ar). Charles King aceitou o convite para trabalhar na segunda temporada de “Gunsmoke”, em 1956/57, participando de um total de 27 episódios, mas fazendo apenas figuração. Charles King pode ser visto nesses episódios passando numa rua, sentado em uma cadeira e como espectador de uma luta, mas a maior parte das vezes em que participou de “Gunsmoke”, Charles King é visto mesmo no ‘Long Branch Saloon’ bebendo no balcão. E o que mais King fazia na vida era beber, tanto que contraiu cirrose hepática. Hoppy Losso, o artista cowboy lá de Santos gostava de contar como foi a morte de Charles King. Losso contava a bastante divulgada versão que Charles King teve que fazer o papel de um morto dentro de um caixão, num episódio de “Gunsmoke”, e que quando terminaram de rodar a cena Charles King não se levantava do caixão, até que perceberam que ele havia morrido em cena, de um ataque cardíaco. Porém Hoppy Losso só fez divulgar a lenda que não era o fato verdadeiramente ocorrido. Charles King faleceu mesmo no dia 7 de maio de 1957, no John Wesley County Hospital, em Hollywood, de coma hepática, devido à cirrose contraída por alcoolismo crônico. O ator estava com 62 anos de idade.

Acima Charles King com Bob Steele; no centro com Buster Crabbe e
Tom Keene; abaixo em cena rara com uma mocinha (Patty McCarthy)
e sendo ameaçado por Tex Ritter

BANDIDO MUITO QUERIDO - Charles King foi possivelmente o ator que mais vezes morreu em faroestes. Tex Ritter afirmava que devia ter matado King pelo menos 50 vezes, exagerando é certo pois só se defrontou com King em 24 filmes. Charles King enfrentou praticamente todos os mocinhos do cinema, entre eles Ken Maynard, Buck Jones, Tim McCoy, Rex Bell, Hoot Gibson, Gene Autry, Kermit Maynard, Tom Tyler, Buster Crabbe, Tom Mix, John Wayne e Roy Rogers. Charles King não era muito alto e em seu segundo filme falado que foi “Vaqueiro Ciclone" (The Oklahoma Cyclone), se encontrou com Bob Steele, ator um pouco mais baixo que ele. A dupla King-Steele seria responsável por algumas das melhores brigas do cinema. Steele tinha noções de boxe e seu entrosamento com Charles King era perfeito. Perfeito e violento, ainda que nunca se machucassem. A coreografia de suas lutas e a simulação de receber golpes emocionavam os espectadores e eram incomparáveis. Nem mesmo as fantásticas lutas entre Rocky Lane e Roy Barcroft podem ser comparadas às lutas entre Charles King e Bob Steele, sem dúvida um dos pontos altos de todos os westerns B. Bob Steele foi o mocinho que mais vezes enfrentou King, num total de 27 vezes. Durante sua carreira no cinema falado Charles King atuou em 307 filmes, 264 deles foram westerns e 43 não-westerns. Curiosamente, King nunca atuou em filmes de Hopalong Cassidy, Allan Rocky Lane, Monte Hale e Rex Allen. Além dos 307 filmes, Charles King atuou em 38 seriados. Bobby J. Copeland é o autor da biografia sobre Charles King, que teve o título “We Called Him Blackie” (Nós o Chamávamos de ‘Blackie’). O carinhoso apelido ‘Blackie’ é porque em grande parte dos filmes que atuou na década de 30 King vestia-se de preto e usava um grande bigode negro. Charles King foi um dos raros atores característicos dos westerns B que conseguiram ser tão conhecidos como os mocinhos. Nesses filmes havia muitos bandidos nos bandos e quadrilhas, mas quando surgia a figura de Charles King ele era prontamente reconhecido. Reconhecido e muito querido.

Charles King e seu sósia brasileiro, Doc Barretti
O CHARLES KING BRASILEIRO - O Dr. Aulo Barretti, fundou em sua casa em 1977, em São Paulo, o CAW, a confraria dos amigos do western. No grupo havia um sócio chamado Jorge Cavalcanti que era o responsável por criar os apelidos de cada um daqueles amigos dos faroestes. Jorge reservou para o fundador do clube o apelido de ‘Charles King’ devido à grande semelhança entre Doc Barretti e o famoso bandido. Ambos não muito altos, ambos meio gordinhos, ambos simpáticos e ambos usando um bigode que praticamente os tornavam iguais. A diferença é que Doc Barretti foi o grande mocinho da confraria dos amigos do western e Charles King o grande bandido dos queridos faroestes B das matinês. Doc Barretti nunca se queixou do apelido, ainda que por merecimento devesse ser chamado de ‘Duke Barretti’ ou quem sabe até mesmo de John Wayne. Mas quem mandou ser tão parecido com Charles King, não é mesmo, Doc?

ERNEST BORGNINE, ALAN LADD E SINATRA...


Durante as filmagens de “O Homem das Terras Bravas” (The Badlanders), Ernest Borgnine e Alan Ladd ficaram muito amigos. Ladd era uma pessoa introvertida mas gostava de conversar com Ernie sobre assuntos que não costumava conversar com outras pessoas. Certo dia, numa das visitas que Ernie fez ao amigo este lhe disse:

-- Ernie, eu não entendo os atores chamados modernos. Acabei de trabalhar em “Os Invencíveis” (All the Young Men) e havia um ator negro que falava, falava, falava, mas eu não entendia quase nada do que ele dizia. O cara falava pra dentro. Parece que hoje em dia é assim que se atua, sussurando...

-- Você está falando do Sidney Poitier, não é? – perguntou Borgnine.

-- Ele mesmo – respondeu Ladd. – Espero nunca mais ter que trabalhar com o Sidney...

Então Ernest Bognine deu uma demonstração de seu conhecido bom humor, respondendo ao amigo.

-- Olha, Alan, eu nesta profissão de ator já não estranho mais nada. Eu já me acostumei com todo tipo de ator. Imagine que teve um filme em que eu trabalhei que havia um cantor que virou ator, um acrobata que também virou ator e um outro que aprendeu a atuar na mesma escola do Sidney Poitier...

Ernie se referia a Frank Sinatra, Burt Lancaster e Montgomery Clift, com os quais contracenou em “A Um Passo da Eternidade”. A escola a que ele se referia era o Actor’s Studio de Lee Strassberg, que ensinava o famoso “Método” do russo Stanislawski. Do Actor’s Studio saíram também Brando, Paul Newman, James Dean, Steve McQueen, todos cheios de maneirismos no jeito de atuar.

Claro que Borgnine estava brincando pois o simpático gorducho sempre respeitou seus colegas de profissão. E mais ainda porque foi Burt Lancaster quem lhe proporcionou a maior oportunidade de sua carreira dando-lhe o papel do açougueiro tímido em “Marty”, filme produzido por Lancaster. Mas sabe-se lá o que mais Ernest e Alan Ladd teriam conversado sobre os colegas, especialmente sobre Frank Sinatra, o cantor que atuava. Sinatra foi um dos mais bem sucedidos grandes cantores que viraram atores. Nat King Cole se deu mal como ator, Sammy Davis Jr., Harry Belafonte, Vic Damone, Perry Como, Eddie Fischer e muitos outros ou fracassaram ou foram apenas razoáveis. Sem falar nos roqueiros que ficaram só na tentativa de se tornar atores como Elvis, Fabian, Frankie Avalon, Ricky Nelson, Pat Boone, Bob Vinton e um enorme etc. E Sinatra será sempre lembrado por suas excepcionais interpretações em “O Homem do Braço de Ouro” e “A Um Passo da Eternidade”...

Ernie e Alan Ladd fizeram muitos faroestes, dois deles obras-primas (“Os Brutos Também amam” e “Meu Ódio Será Sua Herança”). Borgnine atuou em faroestes clássicos como “Vera Cruz”, “Johnny Guitar” e “Ao Despertar da Paixão”. Se Ladd e Ernie tivessem falado de Sinatra no gênero western seria engraçado ver Alan Ladd com seu riso discreto e Ernie com sua sonora e espalhafatosa gargalhada lembrar do ‘conjunto da obra’ de Frank Sinatra no faroeste. Pois Francis Albert conseguiu um belíssimo ‘Four of a Kind’ (quadra no pôquer) com “Redenção de um Covarde” (Johnny Conchos), “Os Três Sargentos” (Sergeants 3), “Os Quatro Heróis do Texas” (4 for Texas) e “O Mais Perigoso dos Bandidos” ( Dirty Dingus Magee). Difícil é saber qual dos quatro westerns de Sinatra é o pior.

Gary Cooper fazendo o que pode para ensinar Sinatra...
Por falar em Ernest Borgnine, ele completou 94 anos em janeiro último, vendendo saúde e bom humor e o que muito nos interessa que é filmando sem parar. Em nenhum ano de sua carreira de mais de seis décadas Ernie deixou de fazer um filme. E ele vem aí em 2012 com o western “The Man Who Shook the Hand of Vicente Fernández”. E com Ernie fazendo o papel principal.

27 de julho de 2011

O GRANDE GUERREIRO (CHIEF CRAZY HORSE) - ÉPICO SEM BATALHAS


George Sherman foi o diretor que mais vezes abordou a questão dos índios norte-americanos nos anos 50, dirigindo “Terra Selvagem” (Comanche Territory), “Coração Selvagem” (Tomahawk), “A Revolta dos Peles Vermelhas” (Battle at the Apache Pass), “A Grande Audácia” (War Arrow), “Comanche” e “O Grande Guerreiro” (Chief Crazy Horse) Porém essa meia dúzia de westerns não significa em absoluto uma preocupação maior do veterano diretor em resgatar a verdade histórica do maior genocídio que se tem notícia na história da humanidade. Como contratado da Universal Pictures, Sherman dirigia tudo que lhe caia nas mãos e depois de “Flechas de Fogo” (Broken Arrow) de Delmer Daves e “O Caminho do Diabo” (Devil’s Doorway) de Anthony Mann, virou moda fazer filmes simpáticos aos índios. E a Universal, menos por razões ideológicas e sim para ganhar dinheiro, fez de Sherman uma espécie de defensor dos índios. “O Grande Guerreiro” tem história e roteiro de Gerald Drayson Adams, um inglês que estudou em Oxford e aos 40 anos de idade passou a escrever para o cinema, mais exatamente para a Universal. Assim como Sherman, Drayson Adams também era pau para toda obra, tanto que terminou sua carreira de roteirista fazendo roteiros para os filmes de Elvis Presley. Seu roteiro romanceando a vida de Crazy Horse (Cavalo Louco) até que poderia ter rendido um bom filme.

Este menino transforma-se no grande
guerreiro Victor Mature
A PROFECIA LAKOTA - Antes de morrer o chefe Urso Cinzento (Morris Ankrum) faz uma profecia na qual um índio da nação Lakota Sioux conseguirá reunir todas as tribos indígenas para vencer os brancos que lhes tomaram seus territórios. Esse índio é Cavalo Louco (Victor Mature) que antes de cumprir sua épica missão tem que superar a inveja do rival Pequeno Grande Homem (Ray Danton) para se casar com Chale Negro (Suzan Ball). Cavalo Louco se casa com a bela índia e Pequeno Grande Homem deixa a tribo ressentido, conseguindo fazer parte da Cavalaria onde se torna sargento. Brancos inescrupulosos rompem o tratado de não-agressão aos índios e Cavalo Louco assume a liderança de sua tribo provocando sensíveis baixas em guerrilhas contra tropas da Cavalaria sediada em Forte Laramie. O General Custer é chamado e leva seu 7.º Regimento de Cavalaria a um confronto com Cavalo Louco que, cumprindo a profecia de Urso Cinzento, reúne as diversas nações e extermina com Custer e seus comandados. As demais nações indígenas satisfeitas com o resultado da Batalha de Little Big Horn, voltam a se dividir e enfraquecidas são vencidas pela Cavalaria. A profecia de Urso Cinzento dizia que Cavalo Louco seria morto por um índio Lakota e isso acontece quando Pequeno Grande Homem assassina Cavalo Louco à traição dentro do Forte Laramie.

GUERREIRO SEM GUERRAS – A Universal começou errando na escolha de Victor Mature como protagonista de “O Grande Guerreiro”. O simpático e fortíssimo ator de tantas aventuras históricas estava com 42 anos e com muitos quilos a mais do que o necessário para levar à tela a figura de um heróico e ainda jovem guerreiro. Mature até que está menos excessivo em seu característico modo de atuar, mas os trajes de guerreiro Lakota o transformam numa quase caricatura. Um ator mais jovem, próximo de Charlton Heston por exemplo, tornaria muito mais convincente o personagem-título. Filmado em Technicolor e Cinemascope, Sherman demonstra completo domínio no enquadramento da câmara, tanto nas belas panorãmicas quanto nos planos médios e close-ups, fazendo um filme tecnicamente belíssimo. A cinematografia é de Harold Lipstein e o conjunto é valorizado pela retumbante trilha sonora de Frank Skinner. A direção de arte é outro destaque de “O Grande Guerreiro”, o que torna difícil entender porque as cenas de batalha são tão curtas. Fica a impressão que o orçamento de “O Grande Guerreiro” estourou justamente quando foram filmadas as cenas de batalha. Fossem mais bem trabalhadas e essas cenas dariam o necessário tom épico ao filme. Na sequência do massacre de Little Big Horn vê-se apenas dezenas de índios e outras de soldados de Custer. Quando se imagina que a sangrenta batalha vai se iniciar há um corte rápido para uma nuvem escura, outro corte e no chão jazem meia dúzia de soldados do 7.º Regimento mortos com lanças espetadas. Em outra cena de batalha não há lutas corpo a corpo, tudo é filmado de longe e assiste-se a apenas duas quedas de cavalo. Decididamente isso é pouco para um filme sobre o heroísmo de um grande guerreiro e ainda em Cinemascope. Cavalo Louco mostra-se bem melhor expressando seu heroísmo com palavras diante dos representantes do Governo do que nas batalhas que o transformaram em um grande guerreiro.


PELES ESCURECIDAS - “O Grande Guerreiro” marcou a estréia no cinema de Ray Danton interpretando o índio Pequeno Grande Homem, personagem sem nenhuma relação com aquele criado por Dustin Hoffman em “Little Big Man”, de Arthur Penn. E não foram apenas Mature e Danton que interpretaram índios em “O Grande Guerreiro” pois muitos outros nomes conhecidos do elenco também atuaram com a pele escurecida pela maquiagem e com muita pintura no rosto, entre eles Keith Larsen, Robert Warwick, Morrin Ankrum, Pat Hogan e Paul Guilfoyle. O destaque como homem branco no filme é John Lund que interpreta o Major Twist e é também o narrador de “O Grande Guerreiro”. Dennis Weaver e David Janssen, que ficariam famosos posteriormente e James Westerfield têm pouquíssimas falas neste western de George Sherman.

ÚLTIMO FILME DE SUZAN BALL - A história de amor entre Cavalo Louco e Chale Negro é prejudicada pela grande diferença de idade entre Victor Mature e Suzan Ball. Além disso é inevitável que a atenção do espectador recaía sobre a infeliz atriz que fez o filme logo após a amputação de uma das pernas e visivelmente sofrendo do mal que lhe roubaria a vida. “O Grande Guerreiro” foi rodado inteiramente no Badlands National Park, em Black Hills, Dakota do Sul, a uma temperatura média de 40 graus que literalmente levou Suzan Ball ao esgotamento de suas parcas reservas físicas. Em algumas cenas Suzan está literalmente prostrada e o realismo das imagens é doloroso e constrangedor até mesmo para os atores que com ela contracenam. A atuação de Suzan acaba sendo mais heróica que as jornadas do grande guerreiro Crazy Horse.

Acima exemplar uso do Cinemascope; no centro Suzan Ball
filmando sob os 40 graus de Black Hills, South Dakota;
abaixo Suzan Ball visivelmente doente ao lado de Mature.


26 de julho de 2011

SUZAN BALL E SUSAN CABOT, DUAS ESTRELAS SOB O SIGNO DA TRAGÉDIA


Susan Cabot e Suzan Ball tiveram em suas vidas mais que a simples semelhança de seus nomes artísticos. Entre as muitas coincidências, a maior delas foram as tragédias que se abateram sobre suas existências. Ambas foram jovens morenas e bonitas, projetadas para se tornarem estrelas do cinema, praticamente na mesma época, o que levou muitos fãs até mesmo a confundir as duas ‘Susans’. As tragédias pessoais é que ajudaram definitivamente a saber quem era Susan Cabot e quem era Suzan Ball. Ambas fizeram diversos westerns em suas curtas carreiras, ambas chamavam à atenção pela beleza e ambas tinham nome de uma das mais bonitas e talentosas atrizes norte-americanas que era Susan Hayward que afinal de contas também não foi uma mulher muito feliz. Susan Cabot era a mais velha das duas, tendo nascido em Boston, em 1927, com o nome de Harriet Pearl Shapiro, filha de judeus russos. A mãe de Harriet viveu grande parte da vida internada por problemas mentais e o pai simplesmente desapareceu, nunca mais dando notícias. Harriet morou com oito famílias diferentes em sua infância e adolescência, chegando à High School (Ensino Médio), onde se interessou pela Arte Dramática. Aos 17 anos casou-se com um decorador e, bastante bonita, as oportunidades artísticas foram surgindo até que em 1947 estreou no cinema fazendo uma ponta em “O Beijo da Morte” da Fox. Adotando o nome artístico de Susan Cabot, fez depois uma ponta em “Um Preço para Cada Crime” (Warner Bros.) e o principal papel feminino em “On the Isle of Samoa”, com Jon Hall (Columbia). Depois disso foi para a Universal onde atuou em “Coração Selvagem” (Tomahawk), estrelado por Van Heflin e Yvonne De Carlo. A outra Susan, a Ball, nasceu em 1933 em Nova York, mas sua família mudou-se para Hollywood, onde Susan tinha uma prima atriz já bastante famosa chamada Lucille Ball. Muito bonita e com vocação artística, Susan aos 17 anos era vocalista da Orquestra de Mel Baker. Encantando platéias Susan aos 18 estreava no cinema em “A Lâmpada de Aladin” com Patricia Medina, mudando o segundo ‘s’ de seu nome para ‘z’, tentando diferenciá-la das outras Susan do cinema. Foi então contratada pela Universal que apostou alto na nova contratada, lançando-a como “A Garota-Cinderella de 1952” colocando-a no elenco de “O Mundo em seus Braços”, aventura romântica estrelada por Gregory Peck. Seu próximo filme foi o western “Homens em Revolta” (Untamed Frontier), com Joseph Cotten e Shelley Winters. Os fãs tinham razão para ficar confusos pois as duas novas estrelinhas tinha nomes parecidos, trabalhavam no mesmo estúdio (Universal Pictures) e faziam filmes semelhantes.

Susan com 'S'
e Suzan 'Z'
INÍCIOS DE CARREIRA PARECIDOS - Fazia muito sucesso no início dos anos 50 os filmes de aventuras orientais e capa-e-espada. Susan Cabot apareceu em diversos filmes desses gêneros como “O Príncipe Ladrão” e “O Filho de Ali-Babá” (ambos com Tony Curtis), “Paixão de Beduíno” (com Jeff Chandler e Maureen o’Hara). Seguindo os passos de Susan Cabot, a outra Suzan da Universal, a Ball, atuou em “Capitão Pirata” (com Jeff Chandler e Scott Brady), “Cidade Submersa” (com Robert Ryan e Anthony Quinn) e “Ao Sul de Sumatra”, estrelado por Jeff Chandler e Anthony Quinn. A Universal tinha sob contrato Audie Murphy, cuja especialidade eram os westerns e uma preocupação do estúdio era encontrar atrizes que não fossem muito mais altas que Audie. Susan Cabot tinha apenas 1,57m de altura e fazia par ideal com o diminuto cowboy herói de guerra Audie Murphy. Juntos Audie e Susan atuaram nos faroestes “Onde Impera a Traição” (The Duel at Silver Creek), dirigido por Don Siegel; “A Morte tem seu Preço” (Gunsmoke); e “Traição Cruel” (Ride Clear of Diablo). Com Jeff Chandler Susan Cabot atuou em “A Revolta dos Peles Vermelhas” (The Battle at Apache Pass). Suzan Ball, por sua vez, não ficava atrás e também participou de westerns como “A Grande Audácia” (The War Arrow), com Jeff Chandler e “O Grande Guerreiro” (Chief Crazy Horse), com Victor Mature. Mas foi aí que ocorreu a primeira das tragédias com uma delas (Suzan Ball), chamando a atenção do público e fazendo-o a saber exatamente quem era Suzan Ball.


Suzan e Tony em
"Ao Sul de Sumatra"
GRANDE AMOR DE ANTHONY QUINN - O primeiro namorado famoso de Suzan Ball foi Scott Brady. A jovem atriz tinha 19 anos quando conheceu Anthony Quinn por ocasião das filmagens de “Cidade Submersa”. Quinn era um dos mais notórios conquistadores de Hollywood e não iria perder a oportunidade de aumentar sua lista de conquistas com aquela belezinha. O que ele, aos 38 anos não contava é que se apaixonaria perdidamente por Suzan. Quando do segundo filme que fizeram juntos que foi “Ao Sul de Sumatra”, Suzan seria dublada por Julie Newmar num número de dança, mas vendo que Tony Quinn assistia, quis impressioná-lo e num passo mais difícil sofreu uma queda caindo sobre o joelho direito, sofrendo grave luxação. Em um de seus livros autobiográficos, Anthony Quinn relata que havia presenteado Suzan com um Cadillac e foi com esse automóvel que Suzan sofreu novo acidente batendo justamente o joelho direito, aparentemente sem maior gravidade. Conta ainda Tony Quinn que havia iniciado a construção de uma casa para Suzan, em Hollywood. Quinn estava disposto a separar-se de Katharine DeMille, com quem estava casado desde 1937 e com quem tinha quatro filhos. Ele diz em seu livro ‘Tango Solo’: “Suzan foi o único, verdadeiro amor da minha vida... Contar nossa história é mergulhar nos recessos mais profundos da minha alma... Suzan era uma jovem atriz absolutamente espetacular, uma das belezas mais fabulosas da época. Tinha uma radiância mágica.” Tony conta que certo dia Suzan abriu a boca e um dente caiu-lhe na mão. Dias depois ela desmaiou no banheiro e em um mês seus dentes caíram todos. Tony foi então filmar na Itália e sentindo-se só e adoentada, Suzan passou a namorar com o ator Richard Long.

Suzan e Richard Long
DOLOROSO FINAL DE VIDA - Durante as filmagens de “A Grande Audácia”, Suzan Ball queixou-se de dores na perna direita e foi diagnosticado que ela tinha um tumor. Após sofrer nova queda em sua casa e ser hospitalizada, os médicos decidiram inicialmente pela remoção do tumor, descobrindo que a situação era de tal gravidade que seria necessário amputar a perna da atriz. Na tentativa de evitar a amputação um médico iniciou um tratamento estranho, segundo Anthony Quinn, à base de pílulas com uma mistura de pólvora, ouro, prata e cobre. O estado de Suzan se agravou e a amputação da perna foi inevitável. Richard Long então propôs casamento a ela, dizendo-lhe que era ela que amava e não sua perna. O casamento foi realizado com Suzan usando uma prótese e entre os convidados presentes à cerimônia estavam Rock Hudson, Lori Nelson, Jeff Chandler, Barbara Rush, Tony Curtis, Janet Leigh, David Janssen, Julie Adams, Mary Castle, Hugh O'Brian, Mala Powers e mais de uma centena de convidados. Mesmo tendo amputado a perna Suzan atuou em “O Grande Guerreiro”, fazendo praticamente a maior parte de suas cenas deitada. Seu estado piorou durante as filmagens e Suzan perdeu cerca de sete quilos. A Universal queria substituí-la por Susan Cabot, mas o diretor George Sherman não aceitou a substituição, dizendo: “Ela atua com o rosto, não com as pernas”. Percebe-se nas cenas do filme o sofrimento de Susan Ball, e também a dolorosa solidariedade de Victor Mature, John Lund e outros que contracenaram com ela. Toda Hollywood acompanhava o drama de Suzan que, em julho de 1955, durante um ensaio para um teledrama para o programa “Climax Television” sofreu um colapso. Sendo levada a um hospital o novo diagnóstico indicou que o câncer se espalhara para os pulmões e que Suzan teria apenas algumas semana de vida. Richard Long era sua companhia inseparável no hospital estando a seu lado no dia 5 agosto de 1955 quando Suzan Ball faleceu. Ele pode ouvir as última palavras da esposa que foram: “Tony, Tony”, certamente referindo-se a Anthony Quinn, o grande amor de sua vida, embora tenha sido Richard Long que a desposou e a acompanhou pela lenta agonia que durou 16 longos meses.

Susan Cabot acima com John Russell e
com Charles Bronson;
abaixo "A Mulher Vespa" de Roger Corman
SUCESSO COMO A MULHER-VESPA - Susan Cabot havia se separado do marido em 1951 e prometia muito na carreira artística pois sabia cantar e dançar razoavelmente. Mignon de magnéticos olhos negros, Susan era tão bonita que foi eleita pelos fotógrafos a ‘Miss Motion Picture Sweater Girl of 1951’. Susan pretendia ser uma nova Elizabeth Taylor porém a Universal distribuía fotos para a imprensa com a atriz vestida como índia com arco e flecha e tudo mais. Susan foi se cansando de interpretar tipos exóticos e somente apareceu em ‘trajes normais’ durante um filme inteiro em “Traição Cruel”. Fora das telas a beleza de Susan atraía pretendentes como Hugh O’Brian, Richard Anderson, Marlon Brando, e até mesmo potentados do Oriente Médio como o Príncipe Iraniano Kase Kashani. Como contratada da Universal Susan recebia salário mensal muito baixo pois o estúdio pagava pouco à legião de jovens artistas de seu cast. Quando Susan foi pedir aumento de salário, a Universal não a atendeu e ainda a colocou na ‘geladeira’ até o término de contrato. Quando se viu livre da Universal Susan assinou contrato com o produtor-diretor independente Roger Corman, só voltando a filmar em 1957 sob a direção de Corman. O já famoso e discutido Roger Corman estava decidido a fazer de Susan Cabot a principal estrela de sua produtora de filmes, todos com forte apelo popular, fossem eles sobre rock ‘n’ roll, alienígenas ou sobre os mais estranhos monstros. Dirigida por Corman, Susan atuou em “Sorority Girl”, “Carnival Rock”, “Guerra entre Satélites” e o inacreditável “A Saga das Mulheres Vikings que Viajaram para as Águas da Grande Serpente dos Mares”. Teria sido melhor continuar com Audie Murphy na Universal. As coisas melhoraram quando Susan esteve no acima da média “Dominados pelo Ódio”, filme biográfico sobre um gângster estrelado por Charles Bronson e também dirigido por Corman. Emprestada para a Mirish Corporation, Susan atuou no muito bom western “O Forte do Massacre” (Fort Massacre), com Joel McCrea. Susan teve pequena participação em “Tentação Morena”, com Cary Grant e Sofia Loren, voltando a ser dirigida por Roger Corman em “A Mulher Vespa”, que custou 50 mil dólares e se transformou em estrondoso sucesso, verdadeiro Cult Movie dos drive-ins norte-americanos, dando notoriedade a Susan.


Marlon Brando e
Rei Hussein da Jordânia,
entre os amores de
Susan Cabot
CENÁRIO DE HORROR TÍPICO DE CORMAN - Ser conhecida como ‘Mulher Vespa’ não era bem era o que Susan queria para sua carreira, mas a efêmera fama trouxe novos pretendentes a Susan Cabot que era uma das mais disputadas solteiras de Hollywood. Em uma festa, em 1959 Susan conheceu o Rei Hussein da Jordânia que se interessou por ela, convidando-a para reeditar a história de “O Rei e Eu” lá na Jordânia. Noticiou-se que Hussein ficara tão apaixonado que chegara a comprar um Rolls Royce para presentear Susan, mas não chegou a dar o presente pois descobriu que ela era descendente de judeus. Depois de Hussein Susan passou a sair com um parente do Xá do Irã e com um número enorme de namorados, entre eles um playboy brasileiro chamada Francisco ‘Baby’ Pignatari. Eram tantos os namorados de Susan que muito se especulou sobre quem seria o pai de seu filho Timothy Scott, nascido prematuramente em janeiro de 1964. A criança nasceu vítima de nanismo, a doença do crescimento, sendo-lhe aplicadas grandes doses de hormônio, o que provavelmente provocou uma doença mental no menino. Em 1968, ainda bastante bonita aos 40 anos, Susan casou-se com Michael Roman, jovem ator de apenas 25 anos. O casamento durou 13 anos, ocorrendo o divórcio em 1981, com Roman alegando que Susan era paranóica e tinha acessos de loucura. Em 10 de dezembro de 1986, Timothy,o filho de Susan que estava com 20 anos assassinou a mãe batendo-lhe na cabeça com halteres enquanto ela dormia. Susan estava com 59 anos e a suntuosa casa em que moravam estava totalmente deteriorada por falta de cuidados. Timothy foi condenado a apenas quatro anos de reclusão e a atenuante de seu advogado foi que ele sofria de doença mental agravada pelos sistemáticos abusos por parte de Susan, sua mãe. Timothy faleceu em 2003, aos 38 anos e sua paternidade sempre foi motivo de especulação, sendo atribuída tanto ao Rei Hussein da Jordânia (e não confirmada por motivos políticos) quanto a Marlon Brando, com quem Susan também se relacionava. A dúvida era motivada pelo fato de tanto Hussein quanto Brando depositarem mensalmente durante muitos anos razoáveis quantias de dinheiro na conta de Susan Cabot pois ambos acreditavam serem pais de Timothy. Susan Cabot jamais se pronunciou sobre o caso talvez porque nem ela tivesse certeza absoluta.

Susan Ball e Susan Cabot foram duas atrizes de tristes histórias. Ambas exemplificaram com suas trágicas vidas como os sonhos realizados de se transformar em estrelas de Hollywood podem se transformar em tormentos.

23 de julho de 2011

"OS COWBOYS" - JOHN WAYNE VS. BRUCE DERN

Vídeo com trecho do western "Os Cowboys" (The Cowboys), 1972,
dirigido por Mark Rydell, com cena da morte de John Wayne.



BRUCE DERN, O BANDIDO QUE MATOU JOHN WAYNE


Bruce Dern foi o bandido que matou John Wayne covardemente em “Os Cowboys” (The Cowboys), 1972. E Bruce já havia tentado antes em “Gigantes em Luta” (The War Wagon), 1967. Não bastassem essas ousadias, Bruce Dern participou do enforcamento de Clint Eastwood em “A Marca da Forca (Hang ‘Em High), 1969. E foi Bruce Dern quem atirou certeira e violentamente uma faca no peito de Charlton Heston, que sobreviveu por milagre, em “E o Bravo Ficou Só” (Will Penny), 1967. Bruce Dern já havia dado trabalho a Kirk Douglas em “Gigantes em Luta” e voltou a enfrentá-lo em “Ambição Acima da Lei” (Posse), em 1975. Quem teve vida mais tranqüila com Bruce Dern foi James Garner em “Látigo, o Pistoleiro” (Support Your Local Gunfighter), 1969, porque Bruce interpretou um desastrado bandido que somente conseguiu fazer rir. Bruce Dern participou de poucos westerns em uma carreira de quase cem filmes, mas foram participações suficientes para os fãs de westerns nunca se esquecerem dele.

Bruce Dern assassinando John Wayne em "Os Cowboys"

Bruce Dern levando a pior contra
Clint Eastwood
PERSONAGENS VIOLENTOS – Nascido em 1936 em Chicago, Bruce MacLeish Dern teve como padrinhos de batismo a primeira dama norte-americana Eleanor Roosevelt e o político Adlai Stevenson, que chefiou as Nações Unidas por vários anos. O avô de Bruce Dern havia sido governador de Utah e mais tarde Secretário da Guerra de Frank Delano Roosevelt. Mesmo crescendo num ambiente de políticos, Bruce Dern preferiu ser ator, estreando no cinema em 1960, sob a direção de Elia Kazan, em “Rio Violento”. E a violência seria a marca maior de sua carreira de ator pois o que mais fez nas telas foram papéis de psicopatas, maníacos, alucinados e drogados. Pertencente à turma de Jack Nicholson, Bruce Dern participou de vários filmes do tipo “Anjos Selvagens”, nos quais não faltavam motocicletas e LSD. Atuou em “Com a Maldade na Alma”, com Bette Davis, com quem deve ter aprendido bastante no quesito maldade. Com Alfredo Hitchcock Bruce fez “Marnie” e “Trama Macabra”, último filme do Mestre do Suspense. Esteve com Jane Fonda pela primeira vez em “A Noite dos Desesperados” e foi um dos filhos sanguinários de Ma Baker (Shelley Winters) em “Os Cinco de Chicago” (Bloody Mama). Atuou com o amigo Jack Nicholson em “O Dia dos Loucos” e participou de “Domingo Negro”. Os títulos dos filmes de Bruce Dern dão uma pálida idéia dos tipos que ele viveu no cinema, tipos que iam de ameaçadores a aterradores, passando por assassinos impiedosos. Concorreu ao Oscar de Melhor ator Coadjuvante por “Amargo Regresso”, drama em que Bruce Dern tem uma extraordinária atuação como um oficial herói da guerra do Vietnã que chega em casa e vê a esposa Jane Fonda nos braços do paraplégico John Voight. Estigmatizado pelos tipos violentos que interpretava, Bruce tentou fugir do chamado ‘typecast’ (tipo marcado) e chegou até a fazer comédias como “Meus Vizinhos são um Terror”, com Tom Hanks. Em “O Grande Gatsby” roubou literalmente o filme de Robert Redford que era protagonista. Bruce Dern foi casado com a atriz Diane Ladd, com quem teve a filha Laura Dern, musa de David Lynch (diretor dos violentos “Veludo azul” e “Coração Selvagem”). Atuando no gênero western Bruce Dern foi sempre excelente e maldoso.


Os bandidos Chuck
Roberson e Dern
e os brincalhões
que os mataram
DERN CONTRA DUKE E CLINT - John Wayne apreciou muito trabalhar com Bruce Dern, em 1972, considerando-o um formidável ator, dos melhores da então nova geração. Ao ser cruel e covardemente assassinado com cinco tiros por Dern em “Os Cowboys”, Duke lhe avisou: “Cuidado agora Bruce, meus fãs vão querer vingança...” E de fato Bruce Dern sofreu inúmeras ameaças de morte por ter interpretado com perfeição o assassino de John Wayne num western. Em “Gigantes em Luta” Bruce Dern e Chuck Roberson cometem a besteira de querer matar Duke e Kirk Douglas, numa cena que gerou o famoso diálogo entre os dois famosos atores que mantiveram saudável rivalidade no filme. Em “A Marca da Forca” Clint Eastwood enfrentou uma dezena de bandidos, entre eles até Bob Steele, mas o que mais exigiu de Clint foi Bruce Dern, que tentou enforcar Eastwood por duas vezes. No final, quem termina enforcado é o próprio Bruce.

CRUEL E ENGRAÇADO - Matar John Wayne até que foi fácil para Bruce Dern, mas matar Charlton Heston em “E o Bravo Ficou Só” ficou só nas tentativas. Em uma delas Bruce atirou com bela pontaria uma faca acertando o peito de Heston do lado do coração, mas o cowboy Heston resistiu bravamente. O western de Burt Kennedy “Látigo, o Pistoleiro” foi simplesmente hilariante e algumas das melhores gargalhadas ficaram por conta do atrapalhado Bruce Dern, filho de Walter Brennan nesse western-comédia. E um desesperado Bruce Dern terminou o filme amarrado à boca de um canhão, provocando a rendição de Ol’ Brennan e seu bando. Essa engraçada performance cômica de Dern seria tranquilamente aprovada por Lee Marvin. Bruce Dern fez uma ponta em “Pat Garrett e Billy the Kid” e possivelmente Sam Peckinpah devia estar pouco sóbrio para não entregar o papel de Billy the Kid a Bruce Dern, que certamente seria mais convincente que Kris Kristofferson. Outra notável participação de Bruce Dern num faroeste foi em “Ambição Acima da Lei”, dirigido e estrelado por Kirk Douglas que interpreta um xerife com pretensões a Senador. Para isso Kirk tem que prender o facínora Bruce Dern. O filme era todo de Kirk e para Kirk, mas adivinhem o que aconteceu? Bruce Dern não perdeu a oportunidade para mostrar o fantástico ator que era, roubando o filme de Kirk Douglas. Bruce Dern atuou em 1995 no pouco memorável “Wild Bill”, em que teve uma pequena participação. Aos 75 anos completados em 4 de junho último, Bruce Dern vem aí no western “The Big Valley” que levou à tela grande o famoso seriado da TV. Bruce, com os poucos (e longos) cabelos que lhe restaram totalmente embranquecidos certamente brindará os espectadores com mais uma bela atuação, o que é uma rotina na carreira desse grande ator.

Nas fotos abaixo Bruce Dern após esfaquear Charlton Heston;
Dern como bandido procurado por Kirk Douglas (no centro);
Bruce Dern prestes a levar um tiro de canhão na barriga sob
as vistas de James Garner e Walter Brennan

21 de julho de 2011

"MINHA VONTADE É LEI" (WARLOCK), SUBESTIMADO WESTERN QUE VIROU CLÁSSICO


Poucos westerns foram tão subestimados à época de seu lançamento como “Minha Vontade é Lei” (Warlock). Hoje esse filme dirigido por Edward Dmytryk é visto como um clássico por quase todos os autores e críticos e elevado à condição de obra-prima por alguns outros. Homossexualismo ainda era tabu no cinema norte-americano em 1959 e o western seria o gênero menos apropriado para discutir essa questão pois o Velho Oeste era, por tradição, território de machos. Certo que alguns faroestes resvalaram antes nessa questão, como “Sem Lei e Sem Alma” (Gunfight at the Ok Corral). Mas nenhum o fez da forma corajosa, ainda que subliminar, como “Minha Vontade é Lei”, o que ainda levaria muitos anos para ocorrer. Paradoxalmente essa foi a razão para a crítica ter menosprezado o filme e também para que ele não obtivesse o merecido sucesso. Rodado em Technicolor e Cinemascope e com tantos astros no elenco, “Minha Vontade é Lei” deveria ter sido mais visto pelo público e mais discutido de modo geral pois foi um western chamado de ‘psicológico’ e rotulado de ‘adulto’, como se algum dia tivesse existido essa categoria.

ESTRANHA LEI E ORDEM - A pequena cidade de Warlock tem sempre o cargo de xerife vago pois uma quadrilha de bandidos, com sede no Rancho San Pablo, inferniza a vida de seus habitantes. O Comitê de Cidadãos de Warlock decide contratar o pistoleiro Clay Blaisedell (Henry Fonda) para protegê-los dos bandidos. Blaisedell faz uma série de exigências ao Comitê e uma delas é ter a seu lado Tom Morgan (Anthony Quinn) para ajudá-lo na tarefa. Morgan é aleijado de uma perna e usa uma bota especial para poder andar ainda que mancando. Blaisedell e Morgan passam a dominar também a jogatina no saloon da cidade. A quadrilha de San Pablo é chefiada por Abe McQuown (Tom Drake) e logo sente os reflexos da nova ordem instalada em Warlock. Johnny Gannon (Richard Widmark), um dos homens de McQuown se rebela e se afasta do bando, assumindo o cargo vago de xerife, mas submete-se à autoridade de Blaisedell. Homens do bando de McQuown são mortos por Blaisedell em um tiroteio, forma de humilhação para o xerife Gannon. Uma jovem chamada Jessie Marlow (Dolores Michaels), herdeira de uma empresa de mineração, aproxima-se de Blaisedell, o que leva o pistoleiro a se afastar do amigo Morgan. Este não aceita a idéia de ver a antiga parceria desfeita e desafia Blaisedell que o mata em duelo que não consegue evitar. Inconformado por ter matado o amigo Morgan, Blaisedell promove um estranho funeral queimando o saloon de Warlock. Acreditando que Blaisedell tenha perdido o interesse em proteger a cidade, Abe McQuown e seus homens intentam matar o xerife Gannon, a quem feriram anteriormente. Gannon consegue enfrentar e dizimar McQuown e seu bando, restando-lhe agora fazer valer seu cargo expulsando da cidade o pistoleiro Blaisedell, o que de fato acontece, voltando a reinar a paz em Warlock.

TOMBSTONE EM WARLOCK - O roteiro de “Minha Vontade é Lei” foi escrito por Robert Alan Aurthur a partir de uma história de Oakley M. Hall e é um dos mais ricos e complexos roteiros já elaborados para um western. A óbvia inspiração para os autores foram as figuras de Wyatt Earp e Doc Holliday. A personagem de Henry Fonda se aproxima claramente de Earp e a de Anthony Quinn tem as características nítidas de Holliday. O dentista era tuberculoso e Tom Morgan (Quinn) é aleijado. Morgan é a sombra de Blaisedell (Fonda), assim como Holliday foi a sombra de Earp. O marshall de Tombstone usava mais sua figura física que os próprios Colts e igualmente Blaisedell só saca seus revólveres quando estritamente necessário. Doc Holliday teve como companheira a prostituta Kate Elder e Tom Morgan se vê às voltas com Lily Dollar (Dorothy Malone), cujo nome é indicativo de sua anterior ocupação. Warlock poderia ser Tombstone até mesmo pela presença de um inexpressivo xerife local, neste caso o personagem de Richard Widmark. O que torna o enredo de “Minha Vontade é Lei” mais criativo são as múltiplas subtramas, todas vitais para a história: os irmãos Johnny e Billy Gannon (Widmark e Frank Gorshin), a relação de Blaisedell com Jessie Marlow, as decisões de Johnny Gannon e Curley Burne (DeForest Kelley), de se afastar do bando de San Pablo. E a primordial subtrama que é a relação amor-ódio entre Morgan e Blaisedell. Essa série de situações conflitam e atingem um clima de verdadeira histeria, sombria e tétrica. E “Minha Vontade é Lei” tem essa atmosfera sem utilizar os recursos modernos de filmar tudo à luz de vela como nos westerns mais recentes.

UM ALEIJÃO SOCIAL - Um capítulo à parte é o desdobramento da relação entre os dois pistoleiros. Ambos vaidosos e trajando-se com elegância jamais vista num western, desfilando ternos e coletes do mais fino acabamento e requintados padrões, tudo ornamentado com os adequados acessórios. No caso de Blaisedell/Fonda complementados ainda por um par de revólveres com reluzentes coronhas de ouro. Morgan/Quinn é transbordante de paixão nos olhares e palavras que lança a Blaisedell/Fonda. O alegórico aleijão de Morgan representa a chaga ainda hoje não completamente superada nos países ocidentais. O aleijão de Morgan não é do corpo e sim da alma, do caráter, é a sua homossexualidade. Blaisedell sabe que há outra forma de vida mas confessa-se incapaz de fugir daquilo que chama de ‘hábito’. “Talvez eu não seja nada sem ele; talvez eu precise encontrar outro Morgan”, diz Blaisedell. E torno a lembrar que o filme é de 1959. A separação é mais que dolorosa. É mortal. E o sofrimento de Blaisedell é de tal forma intenso que ele faz para o amigo um funeral tão poético quanto macabro vendo as chamas devorarem o corpo de Morgan dentro daquilo que para ele era um templo, o salão de jogos. Essa cena representa o clímax de “Minha Vontade é Lei”, ainda que houvesse outra sequência menos expressiva para fechar o filme. Ressalte-se que somente atores do porte de Henry Fonda e Anthony Quinn poderiam transmitir tão impressionantes nuances de comportamento homossexual em um western.

AS DESCULPAS DE DMYTRYK - A direção de Dmytryk é sóbria e contida se levado em conta a complexidade do roteiro, a dramaticidade de diversas sequências e os tantos gunfights do filme. Edward Dmytryk foi um dos dez que fizeram parte da Lista Negra de Hollywood em 1950. Saiu da cadeia para depor diante da comissão macarthista e denunciar 15 ex-companheiros, levando-os à desgraça. Foi o preço que Dmytryk pagou para continuar a fazer filmes como “A Nave da Revolta” (The Caine Mutiny) e o western “A Lança Partida” (Broken Lance). Assim como Elia Kazan, Dmytryk nunca conseguiu justificar seu ato denunciatório, mas tentou o quanto pode como neste western. Em “Minha Vontade é Lei”, dois integrantes do bando de San Pablo passam para o lado da lei. Primeiro Gannon (Widmark) e depois Curley (DeForest Kelley). Gannon abandona o bando por não aceitar traição a determinados princípios, enquanto Curley entende que a luta deve ser justa sem a covardia das tocaias. E Dmytryk contou com um elenco soberbo encabeçado por três grandes atores, o que era raro em Hollywood, a não ser em superproduções. E “Minha Vontade é Lei”, apesar dos cuidados cênicos e do aparato técnico não é um filme de orçamento dispendioso, já que passado em sua maior parte no bastante conhecido cenário da 20th Century-Fox, a mesma rua em que Henry Fonda pisara em 1943 em “Consciências Mortas” (The Ox-Bow Incident). Dorothy Malone tem o principal papel feminino que deve ter ficado em sua maior parte na sala de edição pois sua maravilhosa presença na tela é quase inconsequente e mesmo incompreensível. Big Nose Kate Elder não conseguiu ser revivida na pequena participação de Dorothy Malone no filme como Lily Dollar. A outra atriz, Dolores Michaels, aposta da Fox na época, é inexpressiva e sem a força suficiente para fazer Blaisedell/Fonda mudar de vida. Dorothy seria uma excelente opção para o personagem interpretado por Dolores Michaels e diria com muito mais sensualidade a frase “Se você tivesse uísque nesse seu cantil eu lhe mostraria que não sou anjo...” O excepcional elenco de apoio de “Minha Vontade é Lei” tem Tom Drake inteiramente diferente dos musicais da Metro, Wallace Ford, DeForest Kelley e Frank Gorshin com maior destaque, todos muito bons. Com menores oportunidades estão também no elenco Vaughn Taylor, James Philbrook, Richard Arlen, Whit Bissell, Ian MacDonald, Regis Toomey, Don Beddoe. Para quem achou pouco, procure no filme por Don ‘Red’ Barry, Walter Coy, Roy Jenson, L.Q. Jones, Gary Lockwood, Ian MacDonald, Harry Worth e Mickey Simpson pois estão todos em “Minha Vontade é Lei”.


O SOBERBO HENRY FONDA - Acima de todos e talvez até mesmo acima do próprio filme está Henry Fonda em uma de suas mais brilhantes criações. Sergio Leone certamente escolheu Fonda para interpretar 'Frank' em “Era Uma Vez no Oeste” depois de vê-lo como Clay Blaisedell em “Minha Vontade é Lei”, seja no vestir, nos gestos, na frieza e na autoridade que Fonda deu à personagem. Toda a sequência pós-morte de Morgan/Quinn permite uma primorosa interpretação de Henry Fonda com o sentimento de dor expresso em seu olhar. Se as palavras não puderam ser mais claras devido à censura da época, a tristeza de Fonda expressa mais que cem páginas de um monólogo para dar realismo à cena. Anthony Quinn é o segundo grande nome do filme criando mais um personagem inesquecível na sua extensa galeria de tipos marcantes no cinema. Sem grandes cenas dramáticas, Quinn leva para a tela a alegria e a tristeza das relações de Morgan com Blaisedell. Uma das mais violentas cenas de um western antes que o gênero e o próprio cinema passassem a desconhecer os limites do bom senso é aquela vivida por Richard Widmark em que Tom Drake (McQuown) enterra uma faca na mão do xerife Gannon (Widmark). Cena de grande dramaticidade extraordinariamente valorizada por esse excelente ator, um dos grandes cowboys do cinema. “Minha Vontade é Lei” é daqueles faroestes que se assiste com enorme prazer, não só pelo tema fascinante, pelas interpretações soberbas, mas e principalmente porque é um belíssimo faroeste, já não mais subestimado como em outros tempos.

20 de julho de 2011

MICKEY SIMPSON, O ATOR QUE UM DIA SURROU ROCK HUDSON


“Assim Caminha a Humanidade” (Giant) é considerado por muitos um western. Entre os autores que assim pensam estão Les Adams-Buck Rainey e Phil Hardy, os dois primeiros autores de “Shoot-Em-Ups” e Hardy autor da “Encyclopedia of Western”. E essa é uma boa questão para gerar uma grande polêmica que é rotular ou não o filme de George Stevens como um faroeste. Mas seja lá qual for o gênero em que a saga dos Benedicts se encaixe, será sempre uma obra monumental, repleta de cenas inesquecíveis e cada fã de cinema certamente tem a sua preferida. Uma das cenas mais emblemáticas de “Assim Caminha a Humanidade” é quando o já grisalho Bick Benedict (Rock Hudson) reage contra um ato de racismo numa lanchonete. Pobres mexicanos deixam de ser atendidos pelo truculento Sarge, dono da lanchonete, que segue uma norma então comum no Texas daquele tempo, de não atender chicanos. E Rock Hudson, sob os olhares desesperados de Liz Taylor (Leslie Benedict), Carroll Baker (Luz Benedict II) e Elsa Cárdenas (Juana Guerra Benedict) enfrenta aquele homem maior, mais forte e mais jovem que ele. Durante a briga atingem o Juke-Box que ironicamente passa a tocar o "Dixie" enquanto os homens se socam. Sarge, o gigantesco racista que surra Rock Hudson era o ator Mickey Simpson, nome perdido entre tantas e tantas estrelas de “Assim Caminha a Humanidade” lembrado apenas por uma certa semelhança com o eterno Tarzan Johnny Weissmuller.


Simpson com Walter Brennan e
Grant Withers (acima) em
"Paixão dos Fortes"; abaixo
em "Caravana de Bravos"
INÍCIO AUSPICIOSO EM UMA OBRA-PRIMA - Mickey Simpson nasceu em Rochester, no Estado de Nova York, em 1913, filho de pais irlandeses e com o nome de Charles Henry Simpson. Mais velho de quatro irmãos, Charles parecia que nunca iria parar de crescer e tendo atingido 1,98m de altura aos 20 anos, foi encaminhado para o boxe. Depois de duas lutas e duas derrotas Charles, cujo apelido era ‘Mickey’, foi para Hollywood tentar a sorte, tendo conseguido um emprego como motorista de Claudette Colbert. Era impossível nas festas em Hollywood não notarem o enorme motorista que dirigia e abria a porta do majestoso Duesenberg da atriz. Quase todos os grandes astros e estrelas da tela tinham carros daquela marca, mas nenhum com um chauffeur de igual porte, o que fez com que Simpson fosse notado por todos. Claro que não demorou para Claudette colocar anúncio procurando novo motorista ao perder Simpson pois estava reservada para o jovem novaiorquino uma longa carreira no cinema. A estréia do ex-motorista, em 1939, não poderia ser mais promissora pois ocorreu naquele que seria um dos mais importantes filmes de toda história do cinema, um faroeste dirigido por John Ford intitulado “No Tempo das Diligências” (Stagecoach). Adotando o nome artístico de Mickey Simpson, sua participação foi pequena, mas suficiente para John Ford ‘adotá-lo’ como um ator que participaria de muitos outros filmes do Pappy. Devido a seu tamanho, Simpson obtinha invariavelmente papéis de guarda-costas, policiais ou vilões. Já havia participado de 22 filmes, entre eles “A Indomável” (The Spoilers), com Marlene Dietrich e John Wayne, quando foi convocado para servir na U.S. Army durante a II Guerra Mundial, em 1943, interrompendo sua carreira por quase três anos. Quando retornou do conflito, atuou logo em nova obra de John Ford, que foi “Paixão dos Fortes” (My Darling Clementine), de 1946, interpretando Sam, um dos filhos de Ike Clanton (Walter Brennan). A muito lembrada semelhança com Johnny Weissmuller pode ser atestada em “Tarzan e a Caçadora”, penúltimo filme de Weissmuller como Tarzan e em que Mickey atuou. Entre vários filmes, sempre em participações pequenas, em 1948 Mickey Simpson voltou a atuar sob a direção de John Ford no primeiro filme da Trilogia de Cavalaria de Ford, que foi “Sangue de Heróis” (Fort Apache). Nesse ano Simpson pode ser visto em nada menos que doze filmes. Em 1949, outra vez com John Ford, outra obra-prima, desta vez “Legião Invencível” (She Wore a Yellow Ribbon), o segundo da Trilogia de Cavalaria. Em 1950, novamente dirigido por John Ford, Mickey Simpson interpretou um dos irmãos Clegg em “Caravana de Bravos” (Wagon Master), pequeno e poético western do Mestre das Pradarias. Outra vez com Ford em 1952 em “O Preço da Glória”, Mickey Simpson trabalhava sem parar, esperando por uma oportunidade melhor. Entre as dezenas de filmes em que atuou na primeira metade dos anos 50 merecem ser lembrados “O Príncipe Valente”, com Robert Wagner; “Demetrius, o Gladiador”, com Victor Mature; "Ouro da Discórdia” (Carson City), “Feras Humanas” (The Bounty Hunter) e “Nas garras do Homem alto” (Tall Man Riding), todos com Randolph Scott; “O Justiceiro Mascarado” (The Lone Ranger), com Clayton Moore; “Os Dez Mandamentos”, com Charlton Heston, até chegar o grande momento de sua carreira que foi em “Assim Caminha a Humanidade”.

Simpson com Dolores Michaels em
 "Minha Vontade é Lei"; em "Rio Conchos"
e em "O Homem do Rifle", série de TV
UMA VITÓRIA IMPORTANTE - O rosto bastante familiar de Mickey Simpson passou a aparecer com mais frequência na tela pequena dos televisores, mas mesmo assim podemos vê-lo em “Sem Lei e Sem Alma” (Gunfight at the OK Corral), interpretando Frank McLowery e morrendo mais uma vez no famoso Corral, como já havia ocorrido em “Paixão dos Fortes”. Em 1959 Mickey Simpson esteve no elenco de “Minha Vontade é Lei” (Warlock), com Henry Fonda. Simpson refugiou-se novamente nas dezenas de trabalhos para a TV, voltando ao cinema em “Rio Conchos”, numa pequena porém boa participação em que é humilhado por Richard Boone. Se fosse para valer Boone não daria para a saída numa luta com Simpson, ainda em boa forma aos 51 anos, apesar dos muitos quilos a mais. A despedida do cinema de Mickey Simpson ocorreu em 1969 no western-comédia “O Grande Roubo do Trem” (The Great Train Robbery), ao lado de inúmeros outros veteranos da tela, comandados pela ainda belíssima Kim Novak. Afastado do cinema, Mickey Simpson passou a viver em Reseda, na Califórnia, até falecer vítima de problemas cardíacos aos 71 anos em 1985. Mickey Simpson perdeu as duas lutas de boxe que disputou em sua vida, mas venceu a mais importante, aquela pela qual será sempre lembrado, que foi contra Rock Hudson em “Assim Caminha a Humanidade” e que de alguma forma ajudou o mundo na luta contra o odioso preconceito racial.

"BELA BANDIDA" (MONTANA BELLE) - JANE RUSSELL É UMA VOLÚVEL BELLE STARR


Jane Russell foi descoberta por Howard Hughes, com quem assinou um longo contrato de exclusividade. Em 1948 Hughes cedeu a atriz ao produtor Howard Welsch que produziu “Montana Belle”, ao custo final de 525 mil dólares. Welsch entregou o filme à Republic Pictures para que este estúdio o distribuísse, mas a Republic esqueceu “Montana Belle” nas prateleiras. Em 1952 o produtor Welsch conseguiu vender o filme para a RKO, então presidida por ninguém menos que Howard Hughes, pelo preço amigo de 875 mil dólares. Esse negócio deu a Welsch o lucro bastante interessante de 350 mil dólares, numa das transações mais estranhas da história de Hollywood e na qual o excêntrico milionário Hughes tinha que estar envolvido. Este western foi dirigido pelo veterano Allan Dwan, que dirigiu seu primeiro filme em 1911, quando o cinema ainda engatinhava. Orson Welles costumava brincar dizendo que Allan Dwan começara a dirigir quando foi inventada a luz elétrica... Dwan dirigiu um total de 405 filmes, entre eles o cultuado western “Homens Indomáveis” (Silver Lode), de 1954, com John Payne e Dan Duryea. Mas “Montana Belle” está longe de um dia virar um cult.

NENHUM COMPROMISSO COM A HISTÓRIA - Lançado no Brasil como “Bela Bandida” esse western transforma em obra de ficção a vida rocambolesca de Myra Maybelle Shirley, a lendária ‘Belle Starr’ (Jane Russell) que surge no filme sendo resgatada da prisão pelo bando dos Irmãos Dalton. No esconderijo do bando ela se enamora de Bob Dalton (Scott Brady) que se enfurece com as investidas de Mac (Forrest Tucker) sobre Belle Starr. Mac é membro do bando, assim como Ringo (Jack Lambert). Os dois querem abandonar a quadrilha comandada por Bob Dalton (Ray Teal) e convencem Belle Starr a primeiro assaltar o saloon The Bird Cage, de Tom Bradfield (George Brent) e mais tarde ludibriarem Bradfield. A quadrilha de Belle Starr torna-se então mais famosa que a dos Daltons. Belle Starr, Mac e Ringo empregam-se no The Bird Cage mas Bradfield não só reconhece Belle Starr mas também se apaixona por ela. Mesmo apaixonado Bradfield alia-se a um figurão da cidade chamado Matt Towner (John Litel) e juntos tramam uma cilada para capturar os dois bandos. anunciam que há um milhão de dólares no Territorial Bank. Os Daltons conseguem sequestrar Belle Starr e todos voltam a ser uma só quadrilha disposta a se apossar da pequena fortuna.  Quando Belle Starr, Mac e Bob Dalton estão dentro do estabelecimento são surpreendidos pela força policial da cidade. Belle Starr mesmo ferida consegue escapar com a ajuda de Mac e Bob, sendo resgatada por Tom Bradfield, enquanto Mac, Bob e Ringo são mortos. Seduzida pela possibilidade de uma vida honesta. a volúvel bandida parte com Bradfield mas acaba presa, disposta porém a cumprir pena e casar-se com Tom Bradfield. O enredo de Horace McCoy e Norman S. Hall está a milhas de distância da verdadeira história de Belle Starr, fazendo acreditar que Belle é uma bandida arrependida, como quando diz para Bob Dalton: "Eu fui casada com bandidos e eles sempre morrem." E para justificar sua guinada em direção à Lei, diz para Tom Bradfield: "Os bandidos um dia sairão de moda, por isso é preciso mudar."  O roteiro no entanto proporciona excelentes cenas de ação em que Allan Dwan é mestre, entre elas a luta entre Scott Brady e Forrest Tucker, a perseguição a Belle Starr e o assalto ao Territorial Bank. Isto já bastaria para tornar “Bela e Bandida” um movimentado western B, mas o filme tem muito mais bons momentos, entre eles as duas agradáveis canções interpretadas pela própria Jane Russell e um fantástico elenco de apoio.



ELENCO CONHECIDÍSSIMO - Qualquer western que traga em seu cast Jack Lambert, John Litel, Ray Teal,  Dick Elliott e Stanley Andrews, todos em bons papéis, torna-se imediatamente agradável. Dois destaques são: Andy Devine com engraçadíssima atuação não desgrudando da garrafa ou de um copo e esquecendo-se que existem portas, tentando a todo momento passar seu corpanzil pelas pequenas janelas. E o outro destaque é Roy Barcroft como o ferreiro que orienta o trabalho dos bandidos. Entre os muitos rostos conhecidos que fazem figuração em “Bela Bandida” estão Hank Bell, George Chesebro, Iron Eyes Cody, Frank Ellis, Kenneth MacDonald, Dennis Moore, Rex Lease, Glenn Strange, Pierce Lyden, Frank Ellis e Greg Barton, todos com incontáveis participações nas séries de westerns da Republic Pictures e redondezas. Dos atores principais Scott Brady é o que brilha menos, com destaque maior para Forrest Tucker, vilão dos melhores. A escolha do irlandês George Brent foi equivocada pois ele não está à vontade como par romântico de Jane Russell. Brent foi veterano galã dos filmes de Bette Davis, sendo chamado para substituir Brian Donlevy que era o preferido para interpretar Tom Bradfield. Porém Brent está pesado e muito maduro para a exuberância de Jane Russell. A estrela do filme é Jane Russell, atriz que se sai razoavelmente bem apenas em comédias. Vê-la travestida como homem para cometer assaltos ou com uma extravagante peruca loura torna “Bela Bandida” um western ainda mais divertido. Jane também não foi a primeira escolha para interpretar Belle Starr, papel que estava reservado para Ann Sheridan, mas “Bela Bandida” acabou sendo um dos destaques da carreira da bonita Jane Russell. Produção bastante acima da média dos westerns de menor orçamento, “Bela Bandida” é daqueles faroestes que se assistido sem maiores preocupações com rigores históricos ou coerência das situações agrada o fã menos exigente que não quer sequer saber porque o filme chamou-se originalmente "Montana Belle" se não há nenhuma referência no filme a esse estado norte-americano...

Jane Russell em dois momentos como Belle Starr; acima com Scott Brady.