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26 de abril de 2012

O FANTASMA DO GENERAL CUSTER (7th Cavalry) – RÉQUIEM PARA UM REGIMENTO


Na década de 50 Randolph Scott fez unicamente westerns, num total de 24. Alguns tão bons que chegam a frequentar listas dos melhores de todos os tempos. Dentre esses faroestes há um que desperta curiosidade por duas razões: a primeira por ter sido dirigido por Joseph H. Lewis; a segunda por tocar no massacre de Little Big Horn e consequentemente na discutida figura de George Armstrong Custer.


MISSÃO SUICIDA EM LITTLE BIG HORN - Glenson Swarthout foi o autor das histórias dos westerns “Heróis de Barro” (They Came to Cordura) e de “O Último Pistoleiro” (The Shootist), tendo também escrito “O Fantasma do General Custer” (7th Cavalry). Esta última história foi roteirizada por Peter Parker e conta como o Capitão Thomas Benson (Randolph Scott) regressa ao Forte Lincoln deparando-se com o cenário desolador de soldados embebedados e as mulheres revoltadas. Durante sua ausência o comandante do Forte, General Custer, decidiu atacar os índios que se recusavam a abandonar as colinas negras de Dakota (Black Hills), sendo massacrado com seus homens num vale denominado Little Big Horn. O Capitão Benson havia deixado o Forte Lincoln às vésperas da tresloucada empreitada de Custer. O General havia dado a Benson ordem expressa para ir buscar a noiva Martha Kellogg (Barbara Bates) em outra base militar. O Capitão Benson passa a ser acusado de covardia e deserção quando no próprio Forte Lincoln é reunida uma comissão para apurar os fatos que culminaram com a tragédia de Little Big Horn. O Coronel Kellogg (Russell Hicks), pai de Martha é designado para comandar os trabalhos da comissão, encaminhando a situação de tal maneira que o Capitão Benson deveria ser levado a uma Corte Marcial. O presidente dos Estados Unidos ordena então ao Coronel Kellogg que seja destacado um pelotão para resgatar os corpos dos oficiais mortos em Little Big Horn. Essa missão fica a cargo do Capitão Benson mesmo sob a forte ameaça dos siouxes e cheyennes. Ao retornar o Capitão Benson é visto como herói e casa-se com a filha do Coronel Kellogg.

Capitão Thomas Benson
UM ADVOGADO PARA CUSTER - Foi John Ford em “Sangue de Heróis” (Fort Apache) quem pela primeira vez no cinema mostrou um viés diferente sobre o General Custer. Ainda que o personagem se chamasse Owen Thursday (Henry Fonda), ninguém nunca teve dúvidas quem era o Comandante do Forte Apache que, assim como Custer, levou seus homens à morte. “O Fantasma do General Custer” porém fala mais abertamente sobre os erros de Custer imputando-lhe a responsabilidade pela morte das quase três centenas de homens sob seu comando. Em 1956 quando este filme foi rodado a América vivia ainda sob o governo do Republicano Dwight D. Eisenhower que tinha o notório Richard Nixon como vice-presidente. Afinado com o momento político o roteiro de “O Fantasma do General Custer” colocou o melhor dos advogados para isentar Custer de quaisquer acusações que maculassem sua imagem: Randolph Scott. O Capitão Benson, personagem de Scott passa o filme todo tentando provar que o General Custer foi uma glória da Cavalaria norte-americana. E para respaldar essa defesa os próprios índios reverenciam a imagem do ‘Cabelos Longos’ ao ver seu cavalo solitário numa elevação afastando-se de Little Big Horn na iminência de um novo massacre. A finalidade do autor da história certamente foi tocar o dedo numa ferida que nunca cicatrizou e isso foi conseguido, ainda que a imagem de Custer tenha sido aparentemente respeitada.

O cavalo do General Custer que salvou
um pelotão; abaixo os supersticiosos
índios (Charles Horvath e Paul Hogan).
CAVALO SEM CAVALEIRO - Seria inimaginável pensar que um capitão (Benson) protegido por Custer não soubesse na véspera da partida do 7.º Regimento de Cavalaria dos preparativos para essa nova investida do psicótico general contra os índios. Mesmo assim o Capitão Benson parte em busca da sua amada e o roteiro se esquece de esclarecer se a missão de Benson em resgatar o corpo de Custer é completada ou não. Com toda a liberdade tomada em relação a uma história repleta de lendas o filme deixa a impressão que Custer foi de fato uma figura heróica, como imaginavam também os supersticiosos índios de “O Fantasma do General Custer”. Muitos westerns magníficos já distorceram a verdade dos fatos do Velho Oeste transformando em mitos homens que mereceriam a forca e este é apenas mais um desses faroestes, com a agravante que nada tem de magnífico. Longe disso. O filme tem apenas duas cenas de ação, as lutas do Capitão Benson contra um índio e depois contra o soldado Vogel (Leo Gordon). Essas cenas poderiam ser consideradas muito boas não fosse o fato de vermos sempre Randolph Scott de costas nesses momentos em que quem luta de verdade é seu dublê. E o final reserva a decepção maior que é reunir dezenas de índios a cavalos que não atacam aqueles que profanaram o solo sagrado de Little Big Horn. Depois de algumas voltas em torno dos encurralados túnicas azuis os índios veêm o cavalo 'Vic' de Custer sem a excêntrica e alourada figura de seu cavaleiro e o Capitão Benson se transforma em herói.


Acima à direita espetacular golpe de Randolph Scott desarmando um
índio; abaixo Leo Gordon, Randy Scott, Frank Faylen e Jay C. Flippen.
O DIRETOR JOSEPH H. LEWIS - Randolph Scott domina todo o filme com sua imagem de indiscutível integridade, ainda que defendendo o indefensável. O bom elenco de apoio tem os ótimos característicos Jay C. Flippen, Denver Pyle, Leo Gordon e Jeanette Nolan. Barbara Bates é a leading-lady de Scott num filme que tem ainda Frank Faylen, Michael Pate, Harry Carey Jr e Pat Hogan. Coincidentes são as presenças de Russell Hicks e de Frank Wilcox, atores que participaram do clássico “O Intrépido General Custer”, em 1941. O nome de Joseph H. Lewis na direção poderia ser a garantia de cenas de grande criatividade, ele que foi um dos principais diretores de filmes “B” da Columbia. São de autoria de Lewis os clássicos “Mortalmente Perigosa”, com John Dall e Peggy Cummings e “Império do Crime”, com Cornel Wilde. Entre os faroestes de Joseph H. Lewis, sempre trabalhando com orçamentos reduzidos, estão “Obrigado a Matar” (The Lawless Street), com Randolph Scott; o ótimo “Ódio Contra Ódio” (The Haliday Brand), com Ward Bond; e o cult “Reinado do Terror” (Terror in a Texas Town), com Sterling Hayden. Reconhecido por seus inusitados movimentos de câmara, neste “O Fantasma do General Custer” não há nada que possa ser destacado na direção preguiçosa e rotineira do diretor, num filme que não merecia a assinatura de Joseph H. Lewis.