Poucos personagens históricos foram tão focalizados pelo cinema como George Armstrong Custer, o controverso oficial da Cavalaria da U.S. Army. Entre as dezenas de faroestes que falaram de Custer, o mais famoso ainda é “O Intrépido General Custer” (They Died With Their Boots On), filme de 1941, dirigido por Raoul Walsh. Esse épico protagonizado por Errol Flynn é uma verdadeira festa para os que gostam de apontar as inverdades que Hollywood coloca nas telas.
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| O famoso título do western de Raoul Walsh em Portugal: "Todos Morreram Calçados", tradução quase literal do título original; na Itália ficou "La Storia del Generale Custer". |
A ÚLTIMA PORÇÃO DE CEBOLAS - Como não poderia deixar de ser o filme de Raoul Walsh inventa personagens à vontade, alguns deles decisivos na vida filmada de Custer. O principal é ‘Ned Sharp’ (Arthur Kennedy) tão fictício quanto algumas passagens fantasiosas da biografia de Custer. E por falar em fantasia, nada melhor que colocar ao lado do precoce general uma espécie de sidekick, na época das filmagens figura muito comum a quase todos os mocinhos do cinema. Vale lembrar que ‘Gabby’ Hayes era tão famoso quanto os próprios mocinhos. Inventou-se então o engraçado ‘California Joe’ (Charley Grapewin) que aceita o convite de Custer para fazer parte do 7.º Regimento de Cavalaria desde que não tenha que usar aquelas calças enfeitadas (sic) que os soldados usavam. Quando o filme fala de personagens reais como os Generais Sheridan e Winfield o roteiro consegue embaralhar por completo a história no tempo e no espaço. O General Philip H. Sheridan (John Litel), famoso por ter pronunciado a frase “O único índio bom é o índio morto” é transformado no filme em tio da futura esposa de Custer, parentesco que nunca existiu. Em 1861, aos 30 anos de idade, Sheridan era apenas Tenente e não o Comandante da Academia de West Point como é mostrado em “O Intrépido General Custer”. Após o ataque ao Forte Sumter em 1861, que detonou a Guerra de Secessão, Sheridan, conseguiu a patente de Capitão. Com o General Winfield Scott (Sidney Greenstreet) o filme se dá uma liberdade ainda maior ao narrar o encontro de Winfield com o cadete Custer num restaurante do Estado Maior da U.S. Army, em Washington D.C. O cadete ultraoportunista percebendo que o apetite do General Greenfield é proporcional à sua barriga cede ao general a única porção de cebolas existente e ganha as graças do General que o protege praticamente durante toda sua carreira, ou seja, até 1876. O detalhe que deve ser lembrado é que o General Winfield deu baixa do Exército norte-americano em 1862, em plena Guerra Civil, vindo a falecer em 1866.
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| George Armstrong e Errol Flynn; abaixo Custer e o general Pleasonton. |
ADMIRADO POR GENERAIS - No início da Civil War o Tenente George Armstrong Custer, recém-saído de West Point, gravitou sempre na órbita de generais importantes como George B. McClellan e Alfred Pleasonton, que não são citados em “O Intrépido General Custer”. A nomeação de Custer como General de Brigada, foi narrada em tom de comédia quando na realidade ela foi fruto de mérito do então 1.º Tenente Custer que se destacou sobremaneira nas batalhas que participou sob o comando do General Pleasonton. Esse General era comandante de uma Divisão de Cavalaria e após a Batalha de Chancellorsville tornou-se o Comandante de toda a Cavalaria que lutava na região do Rio Potomac. Diante da necessidade de criação de novas Divisões de Cavalaria e da necessidade de novos comandantes, o General Pleasonton usando dos atributos de seu cargo nomeou interinamente Custer como General de Brigada. Pleasonton levava as palavras garbo e elegância muito a sério, desfilando todo emplumado, no que foi seguido por Custer que passou a usar uniformes exageradamente enfeitados. A promoção de Custer, que no filme é tratada jocosamente como erro de um escriturário, é uma farsa grosseira e desnecessária, lembrada 30 anos depois por Blake Edwards em “Um Convidado Bem Trapalhão”, com Peter Sellers.
RECORDISTA DE BAIXAS EM BATALHAS - Os comandados de Custer somente o chamavam de ‘Boy General’, pelas costas é claro, pois o exibicionista militar tinha apenas 23 anos em 1863 (Custer nasceu em 5 de dezembro de 1839). “O Intrépido General Custer” mostra de forma acidental a ascensão de Custer, mas exibe brilhantemente em flashes curtos batalhas como a de Bull Run que deram fama ao jovem General interino. O filme de Raoul Walsh exibe durante as batalhas um Custer comandando as tropas, sempre à frente de seus homens, ao contrário dos demais generais que assistiam de longe a selvageria das batalhas fratricidas. Omite, porém, que as tropas sob o comando de Custer eram as que apresentavam o maior número de baixas, ainda que conquistando avanços importantes em vitórias espetaculares. Em Gettysburg, por exemplo, em uma da ousadas investidas do 1.º Regimento de Cavalaria de Michigan, comandado por Custer contra tropas confederadas, a baixa foi de 257 homens, a maior que se tem notícia nos anais da Cavalaria. E “O Intrépido General Custer” nada fala da arrogância de Custer no trato com seus subordinados a quem humilhava cruelmente com ou sem razão. E finda a Guerra Civil haveria ainda o período da Guerra Contra os Índios, mas antes o filme se detém no romance entre George e Libbie.
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| Acima George Armstrong e Elizabeth Bacon; no quadro menor livro sobre Monahsetah escrito pela neta de Custer. |
O ADÚLTERO GENERAL CUSTER - Elizabeth Bacon, a jovem Libbie (nome por vezes grafado Libby) interpretada por Olivia de Havilland nunca esteve em West Point e menos ainda para visitar o ‘Tio Phil’ (Sheridan) como se vê em “O Intrépido General Custer”. Até porque a pretensa amizade entre Sheridan e o pai de Libbie foi inventada no filme. Em 1862 Custer obteve uma licença do Exército e viajou para a cidade de Monroe, Michigan, onde passara a infância. Era Dia de Ação de Graças quando Custer foi apresentado a Libbie, a quem conhecera na infância. A razão verdadeira de o pai de Libbie não concordar com o casamento era devido às origens de Custer que era filho de um ferreiro, opinião que mudou quando Custer passou a General de Brigada. O casamento só ocorreu em 1864. Não poderia ser neste filme que glorifica a figura e Custer que seria lembrada a polêmica relação extraconjugal que Custer teria tido com uma jovem cheyenne de 17 anos chamada Monahsetah, que resultou em dois filhos. Monahsetah era filha do chefe cheyenne Little Rock que foi morto no massacre de Washita River. A relação de Custer com Monahsetah e a paternidade de duas crianças foi denunciada pelo Capitão Frederick Benteen e pelos próprios cheyennes. Alguns biógrafos de Custer não acreditam na veracidade do episódio pois sabia-se que Custer era estéril devido a ter contraído gonorréia quando ainda era cadete em West Point. Libbie sobreviveu a Custer, como viúva, por 57 anos, vindo a falecer em 1933. Durante toda sua viuvez Libbie procurou defender vigorosamente a memória do marido refutando qualquer lembrança que denegrisse sua reputação, chegando mesmo aos tribunais para conservar a imagem de herói e de homem digno de Custer. Segundo Libbie, no episódio da índia cheyenne, seu marido George Armstrong havia sido confundido com o irmão, Thomas Custer, que seria o pai dos dois mestiços. Olivia de Havilland era o par constante de Errol Flynn nos filmes da Warner e por isso foi escolhida para o papel, tendo mesmo alguma semelhança fisionômica com a verdadeira Elizabeth Bacon.
A MAIOR DAS MENTIRAS – Entre tantas mentiras contidas em “O Intrépido General Custer”, a mais imperdoável delas é certamente tentar fazer crer que Custer era um homem de honradez e moral inatacáveis. À tentação de ser envolvido em negócios escusos Custer reage com indignação aos fictícios especuladores que visam expandir a Ferrovia Northern Pacific ao Território de Dakota. Contam para isso com a influência do nome de Custer e oferecem a ele o irrecusável salário de 10 mil dólares por ano, o que causa repulsa ao correto Custer. Muitos biógrafos afirmam que, ao contrário do que é narrado em “O Intrépido General Custer”, o próprio Custer foi o responsável pela veiculação do boato que havia ouro nas Colinas Negras, o que provocou uma verdadeira corrida do ouro ao local. Esse local denominado Black Hills em Inglês, era considerado sagrado pelos índios que não queriam abrir mão da região. O Governo norte-americano tentou em vão adquirir Black Hills que pertencia aos índios pelos tratados assinados. O Governo então passou a enviar tropas para expulsar os índios para as reservas. Inconformadas as tribos lideradas por Cavalo Doido e Touro Sentado passaram a atacar os brancos que invadiam suas terras. O clamor geral da população branca passou a exigir represálias contra os ‘selvagens’, represálias prontamente atendidas pelo presidente Ulysses S. Grant.
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| Acima Custer em pose de candidato; abaixo Abraham Lincoln em visita a Gettysburg com Custer na extrema direita, no destaque. |
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| Cavalo Louco (Anthony Quinn) e Custer antes de Little Big Horn. |
AMIGO DE CAVALO LOUCO – Sem nenhum constrangimento o filme de Raoul Walsh faz de Custer um homem ciente do desrespeito aos índios de quem é amigo, como o chefe Cavalo Louco (Anthony Quinn). Na realidade o chefe sioux jamais parlamentou com Custer como se vê em “O Intrépido General Custer”, ainda que seja verdadeira a cessão cada vez maior de seus territórios para que os brancos fizessem seus assentamentos. Custer desrespeitou os tratados feitos com as nações indígenas e as incursões do 7.º Regimento de Cavalaria aos territórios dos índios os levou à coalizão que juntou siouxes, cheyennes, oglalas, pés-negros e outras tribos. Quando organizou o 7.º Regimento de Cavalaria Custer não tinha mais a patente interina de General de Brigada dos tempos da Guerra Civil, sendo então Tenente-Coronel. Mais correto seria tratá-lo como Coronel Custer e foi com essa patente que desdobrou o 7.º regimento em três subdivisões para avançar contra os índios. A Divisão comandada pelo Major Marcus Reno rumou para o Norte; a Divisão comandada pelo Capitão Frederick Benteen foi para o Oeste do Território; Custer levou seu destacamento para o Leste, partindo com 208 soldados para reconhecimento do território indígena.
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| Abaixo Sheridan consola Libbie. |
O MAIS HOMENAGEADO DOS SOLDADOS - Mesmo sabedor que as diversas tribos somavam mais de três mil guerreiros Custer investiu em sua missão suicida. Apenas um estado de total insanidade justifica ter ele acreditado que sairia daquele território coberto de glórias. Emboscado em Little Big Horn, Custer encontrou o fim de sua vida. No filme, quase que antevendo a campanha de vilificação das décadas seguintes, o General Sheridan consola a viúva Libbie dizendo a ela “seu soldado ganhou sua última batalha”. De certa forma pode-se dizer que Custer foi vitorioso como demonstram as seis cidades norte-americanas que hoje chamam-se ‘Custer’, nos Estados do Colorado, Idaho, Montana, Nebraska, Oklahoma e Dakota do Sul. Ou as vilas denominadas ‘Custer’ em Dakota, Ohio, Wisconsin e Michigan. E ainda o Cemitério Nacional Custer em Little Big Horn. Há estátuas eqüestres ou não em homenagem a Custer espalhadas por todo os Estados Unidos, assim como memoriais, estradas, pontes, parques e escolas. Cerca de 300 livros já foram escritos sobre Custer, 45 filmes falaram dele diretamente e há mais de mil pinturas mostrando Custer em ação. Mas esse soldado de vida tão trágica quanto controvertida teve no empolgante “O Intrépido General Custer” uma de suas mais belas e emocionantes (pouco realistas, é certo) lembranças.



























