UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN
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3 de maio de 2012

VERDADES E MENTIRAS DE “O INTRÉPIDO GENERAL CUSTER”


Poucos personagens históricos foram tão focalizados pelo cinema como George Armstrong Custer, o controverso oficial da Cavalaria da U.S. Army. Entre as dezenas de faroestes que falaram de Custer, o mais famoso ainda é “O Intrépido General Custer” (They Died With Their Boots On), filme de 1941, dirigido por Raoul Walsh. Esse épico protagonizado por Errol Flynn é uma verdadeira festa para os que gostam de apontar as inverdades que Hollywood coloca nas telas.

O famoso título do western de Raoul Walsh em
Portugal: "Todos Morreram Calçados", tradução
quase literal do título original; na Itália ficou
"La Storia del Generale Custer".
CUSTER E A II GUERRA MUN-DIAL - Os muitos autores que se propuseram a biografar o extravagante militar sempre discordaram em diversos dos pontos mais obscuros da vida de Custer. O western biográfico produzido pela Warner Bros. em 1941 não fugiu à regra e apesar de reconhecido como um grande filme western foi também bastante criticado pela inacurácia com que abordou a vida de George Armstrong Custer. Nos anos 40 era moda no cinema filmar biografias, quase todas elas excessivamente romanceadas e com Custer não poderia ser diferente até porque ele considerado um herói nacional e em tempos de guerra o cinema tinha que obrigatoriamente dar sua contribuição na luta contra o Eixo. No entanto, ainda que timidamente, “O Intrépido General Custer” mostra algumas facetas nada enaltecedoras da personalidade de Custer, mas mesmo quando se propõe a ser menos fantasioso o filme erra bastante. O título original “They Died With Their Boots On” (Eles Morreram Calçados com suas Botas) é de fazer inveja aos mais bizarros título de westerns-spaghettis e foi chamado em Portugal de “Todos Morreram Calçados”. Na Itália recebeu o título “La Storia del Generale Custer” e no Brasil, ainda bem, foi chamado “O Intrépido General Custer”, condizente não só com o verdadeiro Custer mas também com o protagonista Errol Flynn, sempre intrépido em seus inesquecíveis filmes de aventuras.

Acima Custer com Sharp (Arthur Kennedy);
no centro o verdadeiro General Winfield Scott e,
olhando no espelho o grande Sydney Greenstreet,
de incrível semelhança com Scott; abaixo o
General Sheridan e o ator John Litel.
A ÚLTIMA PORÇÃO DE CEBOLAS - Como não poderia deixar de ser o filme de Raoul Walsh inventa personagens à vontade, alguns deles decisivos na vida filmada de Custer. O principal é ‘Ned Sharp’ (Arthur Kennedy) tão fictício quanto algumas passagens fantasiosas da biografia de Custer. E por falar em fantasia, nada melhor que colocar ao lado do precoce general uma espécie de sidekick, na época das filmagens figura muito comum a quase todos os mocinhos do cinema. Vale lembrar que ‘Gabby’ Hayes era tão famoso quanto os próprios mocinhos. Inventou-se então o engraçado ‘California Joe’ (Charley Grapewin) que aceita o convite de Custer para fazer parte do 7.º Regimento de Cavalaria desde que não tenha que usar aquelas calças enfeitadas (sic) que os soldados usavam. Quando o filme fala de personagens reais como os Generais Sheridan e Winfield o roteiro consegue embaralhar por completo a história no tempo e no espaço. O General Philip H. Sheridan (John Litel), famoso por ter pronunciado a frase “O único índio bom é o índio morto” é transformado no filme em tio da futura esposa de Custer, parentesco que nunca existiu. Em 1861, aos 30 anos de idade, Sheridan era apenas Tenente e não o Comandante da Academia de West Point como é mostrado em “O Intrépido General Custer”. Após o ataque ao Forte Sumter em 1861, que detonou a Guerra de Secessão, Sheridan, conseguiu a patente de Capitão. Com o General Winfield Scott (Sidney Greenstreet) o filme se dá uma liberdade ainda maior ao narrar o encontro de Winfield com o cadete Custer num restaurante do Estado Maior da U.S. Army, em Washington D.C. O cadete ultraoportunista percebendo que o apetite do General Greenfield é proporcional à sua barriga cede ao general a única porção de cebolas existente e ganha as graças do General que o protege praticamente durante toda sua carreira, ou seja, até 1876. O detalhe que deve ser lembrado é que o General Winfield deu baixa do Exército norte-americano em 1862, em plena Guerra Civil, vindo a falecer em 1866.

George Armstrong e Errol Flynn;
abaixo Custer e o general Pleasonton.
ADMIRADO POR GENERAIS - No início da Civil War o Tenente George Armstrong Custer, recém-saído de West Point, gravitou sempre na órbita de generais importantes como George B. McClellan e Alfred Pleasonton, que não são citados em “O Intrépido General Custer”. A nomeação de Custer como General de Brigada, foi narrada em tom de comédia quando na realidade ela foi fruto de mérito do então 1.º Tenente Custer que se destacou sobremaneira nas batalhas que participou sob o comando do General Pleasonton. Esse General era comandante de uma Divisão de Cavalaria e após a Batalha de Chancellorsville tornou-se o Comandante de toda a Cavalaria que lutava na região do Rio Potomac. Diante da necessidade de criação de novas Divisões de Cavalaria e da necessidade de novos comandantes, o General Pleasonton usando dos atributos de seu cargo nomeou interinamente Custer como General de Brigada. Pleasonton levava as palavras garbo e elegância muito a sério, desfilando todo emplumado, no que foi seguido por Custer que passou a usar uniformes exageradamente enfeitados. A promoção de Custer, que no filme é tratada jocosamente como erro de um escriturário, é uma farsa grosseira e desnecessária, lembrada 30 anos depois por Blake Edwards em “Um Convidado Bem Trapalhão”, com Peter Sellers.

RECORDISTA DE BAIXAS EM BATALHAS - Os comandados de Custer somente o chamavam de ‘Boy General’, pelas costas é claro, pois o exibicionista militar tinha apenas 23 anos em 1863 (Custer nasceu em 5 de dezembro de 1839). “O Intrépido General Custer” mostra de forma acidental a ascensão de Custer, mas exibe brilhantemente em flashes curtos batalhas como a de Bull Run que deram fama ao jovem General interino. O filme de Raoul Walsh exibe durante as batalhas um Custer comandando as tropas, sempre à frente de seus homens, ao contrário dos demais generais que assistiam de longe a selvageria das batalhas fratricidas. Omite, porém, que as tropas sob o comando de Custer eram as que apresentavam o maior número de baixas, ainda que conquistando avanços importantes em vitórias espetaculares. Em Gettysburg, por exemplo, em uma da ousadas investidas do 1.º Regimento de Cavalaria de Michigan, comandado por Custer contra tropas confederadas, a baixa foi de 257 homens, a maior que se tem notícia nos anais da Cavalaria. E “O Intrépido General Custer” nada fala da arrogância de Custer no trato com seus subordinados a quem humilhava cruelmente com ou sem razão. E finda a Guerra Civil haveria ainda o período da Guerra Contra os Índios, mas antes o filme se detém no romance entre George e Libbie.

Acima George Armstrong e Elizabeth Bacon;
no quadro menor livro sobre Monahsetah
escrito pela neta de Custer.
O ADÚLTERO GENERAL CUSTER - Elizabeth Bacon, a jovem Libbie (nome por vezes grafado Libby) interpretada por Olivia de Havilland nunca esteve em West Point e menos ainda para visitar o ‘Tio Phil’ (Sheridan) como se vê em “O Intrépido General Custer”. Até porque a pretensa amizade entre Sheridan e o pai de Libbie foi inventada no filme. Em 1862 Custer obteve uma licença do Exército e viajou para a cidade de Monroe, Michigan, onde passara a infância. Era Dia de Ação de Graças quando Custer foi apresentado a Libbie, a quem conhecera na infância. A razão verdadeira de o pai de Libbie não concordar com o casamento era devido às origens de Custer que era filho de um ferreiro, opinião que mudou quando Custer passou a General de Brigada. O casamento só ocorreu em 1864. Não poderia ser neste filme que glorifica a figura e Custer que seria lembrada a polêmica relação extraconjugal que Custer teria tido com uma jovem cheyenne de 17 anos chamada Monahsetah, que resultou em dois filhos. Monahsetah era filha do chefe cheyenne Little Rock que foi morto no massacre de Washita River. A relação de Custer com Monahsetah e a paternidade de duas crianças foi denunciada pelo Capitão Frederick Benteen e pelos próprios cheyennes. Alguns biógrafos de Custer não acreditam na veracidade do episódio pois sabia-se que Custer era estéril devido a ter contraído gonorréia quando ainda era cadete em West Point. Libbie sobreviveu a Custer, como viúva, por 57 anos, vindo a falecer em 1933. Durante toda sua viuvez Libbie procurou defender vigorosamente a memória do marido refutando qualquer lembrança que denegrisse sua reputação, chegando mesmo aos tribunais para conservar a imagem de herói e de homem digno de Custer. Segundo Libbie, no episódio da índia cheyenne, seu marido George Armstrong havia sido confundido com o irmão, Thomas Custer, que seria o pai dos dois mestiços. Olivia de Havilland era o par constante de Errol Flynn nos filmes da Warner e por isso foi escolhida para o papel, tendo mesmo alguma semelhança fisionômica com a verdadeira Elizabeth Bacon.

Os escroques Sharp (pai e filho)
tentando aliciar Custer.
A MAIOR DAS MENTIRAS – Entre tantas mentiras contidas em “O Intrépido General Custer”, a mais imperdoável delas é certamente tentar fazer crer que Custer era um homem de honradez e moral inatacáveis. À tentação de ser envolvido em negócios escusos Custer reage com indignação aos fictícios especuladores que visam expandir a Ferrovia Northern Pacific ao Território de Dakota. Contam para isso com a influência do nome de Custer e oferecem a ele o irrecusável salário de 10 mil dólares por ano, o que causa repulsa ao correto Custer. Muitos biógrafos afirmam que, ao contrário do que é narrado em “O Intrépido General Custer”, o próprio Custer foi o responsável pela veiculação do boato que havia ouro nas Colinas Negras, o que provocou uma verdadeira corrida do ouro ao local. Esse local denominado Black Hills em Inglês, era considerado sagrado pelos índios que não queriam abrir mão da região. O Governo norte-americano tentou em vão adquirir Black Hills que pertencia aos índios pelos tratados assinados. O Governo então passou a enviar tropas para expulsar os índios para as reservas. Inconformadas as tribos lideradas por Cavalo Doido e Touro Sentado passaram a atacar os brancos que invadiam suas terras. O clamor geral da população branca passou a exigir represálias contra os ‘selvagens’, represálias prontamente atendidas pelo presidente Ulysses S. Grant.

Acima Custer em pose de candidato;
abaixo Abraham Lincoln em visita a
Gettysburg com Custer na extrema
direita, no destaque.
AMBIÇÃO POLÍTICA - O presidente Ulysses S. Grant não tinha, de modo geral, boa imagem e sua sucessão movimentava os candidatos interessados. O megalomano Custer sonhava ser presidente dos Estados Unidos mas para isso necessitava de mais exposição pública, o que viria com novas ações militares que comprovassem ser ele não só o bravo soldado da Guerra Civil mas também um grande estrategista militar. Finda a Guerra Civil Custer tinha a patente de Capitão, mas ao receber o comando do Forte Lincoln ele passou a Tenente-Coronel, dando fama ao 7.º Regimento de Cavalaria. Com sua visão mercadológica Custer sabia que perseguindo os índios com novas exibições de sua impetuosidade, como havia feito em 1868 no massacre de uma tribo cheyenne em Washita River, voltaria a ser reconhecido como herói nacional. Paralelamente a isso sabe-se que pela região estratégica do Forte Lincoln, Custer deu proteção a todos os homens brancos que queriam expandir seus negócios em território indígena. Em “O Intrépido General Custer”, porém, Custer é mostrado como nobre amigo e defensor dos índios e de seus direitos às terras, especialmente as de Black Hills.

Cavalo Louco (Anthony Quinn)
 e Custer antes de Little Big Horn.
AMIGO DE CAVALO LOUCO – Sem nenhum constrangimento o filme de Raoul Walsh faz de Custer um homem ciente do desrespeito aos índios de quem é amigo, como o chefe Cavalo Louco (Anthony Quinn). Na realidade o chefe sioux jamais parlamentou com Custer como se vê em “O Intrépido General Custer”, ainda que seja verdadeira a cessão cada vez maior de seus territórios para que os brancos fizessem seus assentamentos. Custer desrespeitou os tratados feitos com as nações indígenas e as incursões do 7.º Regimento de Cavalaria aos territórios dos índios os levou à coalizão que juntou siouxes, cheyennes, oglalas, pés-negros e outras tribos. Quando organizou o 7.º Regimento de Cavalaria Custer não tinha mais a patente interina de General de Brigada dos tempos da Guerra Civil, sendo então Tenente-Coronel. Mais correto seria tratá-lo como Coronel Custer e foi com essa patente que desdobrou o 7.º regimento em três subdivisões para avançar contra os índios. A Divisão comandada pelo Major Marcus Reno rumou para o Norte; a Divisão comandada pelo Capitão Frederick Benteen foi para o Oeste do Território; Custer levou seu destacamento para o Leste, partindo com 208 soldados para reconhecimento do território indígena.

Abaixo Sheridan consola Libbie.
O MAIS HOMENAGEADO DOS SOLDADOS - Mesmo sabedor que as diversas tribos somavam mais de três mil guerreiros Custer investiu em sua missão suicida. Apenas um estado de total insanidade justifica ter ele acreditado que sairia daquele território coberto de glórias. Emboscado em Little Big Horn, Custer encontrou o fim de sua vida. No filme, quase que antevendo a campanha de vilificação das décadas seguintes, o General Sheridan consola a viúva Libbie dizendo a ela “seu soldado ganhou sua última batalha”. De certa forma pode-se dizer que Custer foi vitorioso como demonstram as seis cidades norte-americanas que hoje chamam-se ‘Custer’, nos Estados do Colorado, Idaho, Montana, Nebraska, Oklahoma e Dakota do Sul. Ou as vilas denominadas ‘Custer’ em Dakota, Ohio, Wisconsin e Michigan. E ainda o Cemitério Nacional Custer em Little Big Horn. Há estátuas eqüestres ou não em homenagem a Custer espalhadas por todo os Estados Unidos, assim como memoriais, estradas, pontes, parques e escolas. Cerca de 300 livros já foram escritos sobre Custer, 45 filmes falaram dele diretamente e há mais de mil pinturas mostrando Custer em ação. Mas esse soldado de vida tão trágica quanto controvertida teve no empolgante “O Intrépido General Custer” uma de suas mais belas e emocionantes (pouco realistas, é certo) lembranças.

29 de abril de 2012

O LENDÁRIO GENERAL CUSTER HÁ 100 ANOS NO CINEMA


(Matéria revista e ampliada – 1.ª publicação neste blog em 12/4/2011)

O mesmo cinema que em outros tempos romantizava e idealizava enganosamente a vida de homens célebres, passou a mostrar a verdade de suas biografias. Um das mais polêmicas personalidades da história norte-americana foi o General George Armstrong Custer, a quem Hollywood, nas primeiras cinco décadas, retratou como mártir e herói e hoje é visto nas telas de modo bastante diferente, para dizer o mínimo.

Acima o cadete George
Armstrong; abaixo o
cadete Errol Flynn.
O PIOR CADETE DE WEST POINT - Se no início da 2.ª Guerra Mundial foi importante para os Estados Unidos levantar o moral do cidadão norte-americano construindo uma imagem fantasiosa de um grande herói, em tempos de pós-Vietnã a desmistificação veio de forma até cruel. E descobrimos que Custer era péssimo aluno, tendo sido o último colocado entre os 34 cadetes graduados em West Point em 1861. Suas notas eram assombrosamente baixas, somente conseguindo se tornar 2.º tenente porque já estava em curso a Guerra de Secessão e mais oficiais eram necessários para enfrentar o Sul que estava fortemente armado e liderado por generais como Robert Lee, Jeb Stuart e Thomas 'Stonewall' Jackson. E descobrimos que Custer era um homem egocêntrico, megalomaníaco e, usando um termo em moda, perfeito ‘marqueteiro’. E descobrimos que Custer era um sádico ávido por exterminar as nações indígenas pois isso lhe dava projeção nacional. E descobrimos que, mesmo como estrategista, Custer foi um fracasso levando à morte, em Little Big Horn, praticamente todo o 7.º Regimento de Cavalaria sob seu comando. Mas independente da verdade histórica o apaixonado por cinema jamais deixará de se emocionar ao rever pela enésima vez Errol Flynn (Custer) sucumbir diante dos milhares de índios comandados por Anthony Quinn (Crazy Horse) na batalha final de “O Intrépido General Custer”.

Ronald Reagan como Custer;
Errol Flynn como J.E.B. Stuart
UM SÉCULO DE CUSTER NO CINEMA - Inúmeras vezes a vida de Custer foi levada ao cinema, outras tantas ele apareceu em filmes como personagem importante nas histórias do Velho Oeste. A TV não ficou atrás, explorou e até hoje explora a imagem do irrequieto oficial da Cavalaria Norte-Americana. A primeira vez que isso aconteceu foi em 1912, em “Custer’s Last Fight”, dirigido e protagonizado pelo então poderoso Francis Ford, que já lançava no cinema seu jovem irmão Jack (John) Ford. Era um filme de 30 minutos, curto mas suficiente para iniciar a glorificação cinematográfica de Custer. Por diversas vezes a Batalha de Little Big Horn seria assunto de westerns no cinema mudo, sendo que as últimas e mais importantes foram em 1926 com produções estreladas por atores de renome como Dustin Farnum em “Flaming Frontier” e John Beck em “General Custer at Little Big Horn”. Custer estreou no cinema falado na pele do ator William Desmond em “O Fantasma Vingador” (The Last Frontier), seriado em 12 episódios estrelado por Creighton Chaney, que depois mudaria o nome para Lon Chaney Jr. Em 1936, o lendário general foi interpretado por John Miljan na superprodução de Cecil B. DeMille “Jornadas Heróicas” (The Plaisman), em que Gary Cooper interpreta Wild Bill Hickok. Em 1940 George Armstrong foi interpretado por Paul Kelly, em “O Bamba do Sertão” (Wyoming), estrelado por Wallace Beery. Em seguida por Addison Richards em “Badlands of Dakota”, estrelado por Robert Stack. Em 1940 foi a vez de Ronald Reagan se transformar no General Custer em “A Estrada de Santa Fé”, filme em que a estrela era Errol Flynn interpretando o general sulista Jeb Stuart, numa das muitas vezes em que foi dirigido pelo diretor Michael Curtiz. E viria, então, o mais famoso filme abordando a vida de Custer.



Jamais alguém comandou um regimento
de Cavalaria como Errol Flynn.
O INTRÉPIDO ERROL FLYNN - O ano era 1941 e a Warner escalou a dobradinha Michael Curtiz-Errol Flynn para mais um sucesso garantido que seria a biografia de George Armstrong Custer, exatamente num momento em que eclodia o maior conflito mundial de todos os tempos. Errol Flynn sempre gostou de uma boa confusão e avisou Jack Warner que não queria mais trabalhar com aquele húngaro maluco (Curtiz). Como o papel de Custer era talhado para Errol Flynn, Jack Warner substituiu o detestado mas confiável diretor por Raoul Walsh que por sinal ficava muito mais à vontade no gênero western que o diretor de “As Aventuras de Robin Hood” e “Capitão Blood”. O filme biográfico se chamou “O Intrépido General Custer” (They Died With Their Boots On) e arrasou nas bilheterias, como não poderia deixar de ser. Hoje pode-se dizer que o sucesso desse filme foi tão grande quanto as críticas negativas que passou a sofrer nas últimas décadas, isto por ser um filme sem nenhum compromisso com a verdade histórica, ou seja, típico produto da Hollywood da época de ouro do cinema. Porém, todo garoto, após ver o filme, saia do cinema sonhando ser tão heróico como aquele general de cabelos longos e jaqueta de couro amarela com franjas. E nas brincadeiras de mocinho a meninada gostava de morrer de forma épica como o Custer de Errol Flynn, com a espada em uma mão e o revólver na outra em meio aos ‘covardes’ índios. Afinal o cinema sempre foi uma fábrica de ilusões.

Acima Ty Hardin, Jeffrey Hunter e Robert
Shaw; no centro Wayne Maunder, Joe Maross
e Phillip Carey; abaixo o Custer de Leslie
Nielsen com Don Murray e Guy Stockwell.
CUSTER, UM ETERNO PERSONAGEM - Errol Flynn encarnou o definitivo General Custer nas telas. No entanto o fantasma desse general rondava o cinema e seus roteiristas, até que em 1951 o ator James Millican (“Matar ou Morrer”), trouxe Custer novamente para as telas no filme “Sanha Selvagem” (Warpath), estrelado por Edmond O’Brien e pela linda atriz iniciante Polly Bergen. No ano seguinte Custer foi revivido por Sheb Wooley (também de “Matar ou Morrer”) em uma ‘pontinha’ em “O Último Baluarte” (Bugles in the Afternoon), estrelado por Ray Milland. Em 1958 foi a vez de Walt Disney se aproveitar da fama do lendário General Custer num western para toda família chamado “Tonka, o Bravo Comanche” (Tonka). Sal Mineo é um jovem índio dono do cavalo Tonka e Custer foi interpretado por Britt Lomond. Em 1965 Philip Carey interpretou Custer em “O Grande Massacre”, com Joseph Cotten como o Major Reno. Somente em 1968 o cinema se lembraria outra vez de Custer, em “As Espingardas do Faroeste”, uma refilmagem de “The Plainsman”, desta vez com Don Murray no papel que fora de Gary Cooper (Wild Bill Hickok), enquanto Custer foi interpretado por um ainda sério Leslie Nielsen. 1967 seria um grande ano para a figura de Custer pois o respeitado diretor Robert Siodmak dirigiu “Os Bravos não se Rendem” (Custer of the West), ambicioso filme programado para o processo Cinerama e que era para ser dirigido por Akira Kurosawa. O ator inglês Robert Shaw é quem interpreta Custer, coadjuvado por um elenco onde se destacam Robert Ryan, Jeffrey Hunter e Guy Stockwell. Nesse mesmo ano a TV norte-americana colocou no ar a série “Custer”, com Wayne Maunder vivendo o intrépido general e com Slim Pickens também no elenco. A série durou apenas 17 episódios, não fazendo sucesso e sendo cancelada na primeira temporada. Aproveitando os cenários da série foi produzido o longa-metragem “Os Bravos Nunca Morrem” (The Legend of Custer), feito para o cinema, com o mesmo elenco da série da TV, ou seja, Wayne Maunder interpretou Custer também na tela grande. A figura do General Custer apareceu até em séries não westerns, como em O Túnel do Tempo, no episódio “Massacre”, exibido em outubro de 1966. Nesse episódio a viagem no tempo transporta Tony (James Darren) e Doug (Robert Colbert) para o ano de 1876 quando Cavalaria e índios se enfrentavam com Custer e Crazy Horse presentes. O ator Joe Maross interpretou o discutido comandante do 7.º Regimento de Cavalaria.

Acima Richard Mulligan, o Custer de
"O Pequeno Grande Homem"; abaixo
Mastroianni como o General Custer
ao lado de Phillipe Noiret.
UM ÍNDIO CENTENÁRIO FALA DE CUSTER – A partir dos anos 60 o cinema norte-americano já havia adotado alinha revisionista e em 1970 Arthur Penn rodou “O Pequeno Grande Homem” (Little Big Man), talvez a mais cara produção envolvendo a presença do General Custer. O filme é narrado pelo índio Jack Crabb (Dustin Hoffman) que atingiu a idade centenária de 121 anos, tendo sobrevivido a Little Big Horn e tendo convivido com Custer. E é Jack Crabb quem conta de forma realista quem foi o mais famoso general da Cavalaria dos Estados Unidos. Quem interpreta Custer é Richard Mulligan e o massacre de Washita River, em 1868, é um dos pontos altos deste que foi um dos principais westerns daqueles anos. “O Pequeno Grande Homem” relata a história de Custer como nunca antes havia sido contada no cinema. O grande destaque do elenco é Chief Dan George, índio de 71 anos que teria outra brilhante atuação em “Josey Wales, o Fora-da-Lei”. E para quem achava que os europeus já haviam cansado de brincar de mocinho, eis que em 1974, o diretor italiano Marco Ferreri (de “A Comilança” e “A Crônica do Amor Louco”) decide falar de Little Big Horn. Para isso reuniu Michel Picolli, Philippe Noiret, Ugo Tognazzi e Catherine Deneuve para uma insólita recriação da vida de Custer. Ah, George Armstrong é interpretado por Marcello Mastroianni. Essa absurda comédia intitulada “Não Toque na Moça Branca” (Touche Pas à La Femme Blanche), apesar do elenco de primeira foi um fracasso de bilheteria.

100 ANOS DE GENERAL CUSTER NO CINEMA - Custer esperaria mais 12 anos para que, em 1991, outro filme focalizasse sua vida em “Son of the Morning Star”, produzido para a TV e com o personagem principal de General Custer interpretado por Gary Cole. Com 187 minutos, esse western é original porque a vida de Custer é contada a partir da visão de sua mulher Libbie (Rosanna Arquette) e de Kate Bighead (Buffy St. Mary). O papel de Custer foi oferecido a Kevin Costner que vinha do grande sucesso com “Dança com Lobos”, no entanto Costner não aceitou a proposta de trabalho para essa produção para a TV. Entre tantos intérpretes de Custer no cinema certamente Gary Cole é aquele que mais se assemelha fisionomicamente com o general. Em 2009, foi produzido para o cinema “Uma Noite no Museu 2” e entre Napoleão, Ivan o Terrível, Al Capone, Átila e Lincoln, surge o General Custer. Notícias de Hollywood dão conta que será filmado em agosto próximo e lançado em 2013 o filme “O Importante é Vencer” (The Hard Ride) com Val Kilmer de volta à sela novamente, ao lado de Wes Studi e Don Murray. Neste western passado em 1876 o ator Christopher Atkins (o menino de “A Lagoa Azul”) interpretará George Armstrong Custer. Esse lançamento ocorrerá 101 anos após Francis Ford ter interpretado o General Custer pela primeira vez no cinema e por certo não será esta a última vez que o lendário General do 7.º Regimento da Cavalaria surja orgulhoso e garbosamente nas telas.
Nas fotos à direita: o verdadeiro George Armstrong Custer;
Gary Cole em "The Son of Morning Star";
abaixo Francis Ford, irmão de John Ford, o primeiro Custer do cinema.

 

19 de julho de 2011

BELLE STARR, UMA BANDIDA LENDÁRIA


As belas atrizes Gene Tierney, Jane Russell e Elsa Martinelli viveram na tela a figura lendária de Belle Starr, mulher também conhecida como ‘A Rainha das Bandidas’ e ‘A Jesse James de Saias’. Porém a verdadeira Belle Starr era bem diferente da heroína que o cinema criou e, para dizer o mínimo, ela estava longe de ser chamada ao menos de bonitinha, quanto mais ser lembrada por Gene, Jane ou Elsa. Menos bonita foi Marie Windsor, uma espécie de Lee Van Cleef das atrizes e que também interpretou a mulher que aterrorizou o Oeste por algum tempo.

LADY BELLE - Myra Maybelle Shirley nasceu numa fazenda em Carthage, Missouri em 1848 e era chamada de ‘Belle’ por seus pais que eram simpatizantes da causa sulista durante a Guerra Civil, inclusive fornecendo cavalos para as tropas confederadas. Em sua adolescência ‘Belle’ frequentou a Carthage Female Academy, escola para moças de famílias abastadas. Com a perspectiva da vitória da União a família de ‘Belle’ migrou para o Texas em 1864, passando a viver em Scyene, próximo de Dallas. A propriedade dos pais da jovem ‘Belle’ passou a ser esconderijo das quadrilhas dos irmãos James (Jesse e Frank) e dos irmãos Younger (Cole, Jim, John and Bob). Foi então que ‘Belle’ teve com Cole a filha que recebeu o nome de Rosie Lee. Algumas fontes indicam que Rosie Lee não seria filha de Cole Younger e sim de Jim Reed, seu primeiro marido, com quem Belle teve ainda o filho James Edwin Reed, chamado de Eddie. Rosie Lee tornou-se conhecida como Pearl Younger e foi apelidada de ‘Rose of Cimarron’. Jim Reed, que era um veterano sobrevivente da quadrilha de Quantrill foi morto em 1873. Vendo-se sozinha, Myra Maybelle deixou seus filhos com parentes e passou a viver com bandidos da quadrilha do falecido marido em um território indígena em Oklahoma. ‘Belle’ tornou-se a líder do bando que praticava todo tipo de roubos e assaltos, sempre planejados por ela. Essa liderança lhe permitia escolher com quais homens ela iria dormir, o que aconteceu com praticamente todo o bando. ‘Belle’ nunca usou calças, preferindo vestidos e montando como faziam as moças que como ela estudaram na Carthage Female Academy. ‘Belle’ montava usando um tipo de sela que permitia sentar lateralmente, como uma lady o faria.

COLECIONANDO AMANTES - Mas assim como nos filmes com Gene Tierney, Jane Russell ou Marie Windsor a verdadeira bandida não dispensava seus dois six-shooters que carregava no cinturão sobre a longa saia. Algumas fontes indicam que ‘Belle’ teria se casado com Bruce Younger, casamento que durou apenas um mês, pois em seguida, em 1880 Myra Maybelle se casou com um índio Cherokee chamado Sam Starr. Passando a se chamar ‘Belle Starr’, ela e o marido foram presos por roubo de cavalos e ‘Belle Starr’ transformou-se na primeira mulher norte-americana presa e condenada por roubo de cavalos. Libertados, Sam Starr acabou morto em 1886 numa troca de tiros, enquanto sua viúva ‘Belle Starr’, dedicou-se com invejável disposição a colecionar amantes de todas as cores e idades, entre eles Jack Spaniard, Jim French e o famoso bandido Blufford Duck, o ‘Blue Duck’. Em 1889 ‘Belle Starr’ casou-se novamente, desta vez com seu enteado Jim July Starr, o filho de ‘Sam Starr’. Jim July tinha 18 anos e ‘Belle Starr’ estava com 39 anos. Em 2 de fevereiro de 1889, “Belle Starr’ estava cavalgando por uma estrada de Oklahoma quando foi emboscada e levou um tiro pelas costas. Após cair do cavalo o assassino disparou contra a cabeça da bandida para certificar-se que ela estava morta. O assassinato de ‘Belle Starr’ nunca foi esclarecido e entre os suspeitos estavam o próprio marido Jim July e também Eddie, o filho de ‘Belle Starr’. Eddie havia sido amante da própria mãe, e apesar da relação incestuosa, Eddie a odiava pela crueldade com que ‘Belle Starr’ o tratava.

VIRANDO LENDA - No mesmo ano da morte de ‘Belle Starr’, em 1889, foi publicado o folhetim “Belle Starr, the Bandit Queen or the Female Jesse James”, de autoria de Richard K. Fox. Em 1941, baseando-se nos textos de Fox, o crítico literário Burton Rascoe publicou a biografia “The Bandit Queen” que deu origem ao filme “Formosa Bandida” (Belle Starr), protagonizado por Gene Tierney e ainda com Randolph Scott (como Sam Starr) e Dana Andrews. Em 1952 foi a vez de Jane Russell interpretar Belle Starr em “Bela e Bandida” (Montana Belle), com Scott Brady e Forrest Tucker. Em 1954 a lendária bandida foi vivida por Marie Windsor na produção para a TV chamada “Belle Starr”. Também para a TV, em 1980, Elizabeth Montgomery protagonizou o filme “Belle Starr”. Antes, em 1968, a linda italiana Elsa Martinelli deu um sotaque diferente à bandida em “Il Mio Corpo per um Poker”, dirigido por Lina Wertmuller. Em “Cavalgada dos Proscritos” (The Long Raiders), de 1980, o personagem de Belle Starr aparece de modo secundário interpretado por Pamela Reed. E para aproveitar a fama da Rainha das Bandidas do Oeste foram filmados “A Filha da Foragida” (Belle Starr’s Daughter), em 1948, estrelado por George Montgomery e, em 1953 “O Filho de Belle Starr” (Son of Belle Starr), com Keith Larsen. Em Woolaroc, Oklahoma, foi erigida uma estátua de dois metros de altura em homenagem à bandida que virou lenda.

BELLE STAR CANTADA POR GENTE FAMOSA - Hollywood ajudou a reforçar a lenda sobre Belle Starr e muitos compositores como Woody Guthrie, Bob Dylan (em duas canções diferentes), Emmylou Harris em parceria com Mark Knopfler, fizeram o mesmo em canções com referências a Belle Starr, caso de Dylan e Guthrie. A canção de Emmylou e Mark Knopfler chama-se “Belle Starr”, além de outros compositores menos conhecidos. Um dos álbuns mais conhecidos de Emmylou Harris intitula-se “Rose of Cimarron”, que era o apelido de Pearl, filha de Belle Starr, famosa como a mãe não por ser bandida, mas por ser uma lendária prostituta. O filho de Belle Starr, Eddie, tornou-se ladrão de cavalos, sendo condenado a cumprir pena na prisão de Columbus, Ohio.
A mais linda Belle Starr do cinema foi Gene Tierney; outras (em sentido
horário): Marie Windsor, Elsa Martinelli, Elizabeth Montgomery e Jane Russell

13 de abril de 2011

GENERAL CUSTER NO CINEMA

O mesmo cinema que romantiza e idealiza enganosamente, se encarrega de mostrar a verdade das biografias de homens célebres. Um das mais polêmicas personalidades da história norte-americana foi o General George Armstrong Custer, a quem Hollywood, no início, retratou como mártir e herói e hoje é visto nas telas de modo muito diferente, para dizer o mínimo. Se no início da 2.ª Guerra Mundial foi importante para os Estados Unidos levantar o moral norte-americano construindo uma imagem fantasiosa de um grande herói, em tempos de pós-Vietnã a desmistificação veio de forma até cruel. E descobrimos que Custer era péssimo aluno, tendo sido o último colocado entre os 34 cadetes graduados em West Point em 1861. Suas notas eram assombrosamente baixas, somente se tornando 2.º Tenente porque já estava em curso a Guerra de Secessão e mais oficiais eram necessários para enfrentar o Sul que estava fortemente armado e liderado por generais como Robert Lee, Jeb Stuart e Thomas 'Stonewall' Jackson. E descobrimos que Custer era um homem egocêntrico e, usando um termo em moda, grande ‘marqueteiro’. E descobrimos que Custer era um sádico ávido por exterminar as nações indígenas. E descobrimos que, mesmo como estrategista, Custer foi um fracasso, levando à morte, em Little Big Horn, praticamente todo o 7.º Regimento de Cavalaria sob seu comando. Mas independente da verdade histórica, o apaixonado por cinema jamais deixará de se emocionar ao rever pela enésima vez Errol Flynn (Custer) sucumbir diante dos milhares de índios comandados por Anthony Quinn (Crazy Horse) na batalha final de “O intrépido General Custer”.

UM SÉCULO DE CUSTER NO CINEMA

Inúmeras vezes a vida de Custer foi levada ao cinema, outras tantas ele apareceu em filmes como personagem importante nas histórias do Velho Oeste. A TV não ficou atrás, explorou e até hoje explora a imagem do irriquieto oficial da Cavalaria Norte-Americana. A primeira vez que isso aconteceu foi em 1912, em “Custer’s Last Fight”, dirigido e protagonizado pelo então poderoso Francis Ford, que já lançava no cinema seu jovem irmão Jack (John) Ford. Era um filme de 30 minutos mas suficiente para iniciar a glorificação cinematográfica de Custer. Por diversas vezes a Batalha de Little Big Horn seria assunto de westerns no cinema mudo, sendo que as últimas e mais importantes foram em 1926 com produções estrelada por atores importantes como Dustin Farnum em “Flaming Frontier” e John Beck em “General Custer at Little Big Horn”. Custer estreou no cinema falado na pele do ator William Desmond em “O Fantasma Vingador” (The Last Frontier), seriado em 12 episódios estrelado por Creighton Chaney, que depois mudaria o nome para Lon Chaney Jr. Em 1936, o lendário general foi interpretado por John Miljan na superprodução de Cecil B. DeMille “Jornadas Heróicas” (The Plaisman), em que Gary Cooper interpreta Wild Bill Hickok. Em 1940 George Armstrong foi interpretado por Paul Kelly, em “O Bamba do Sertão” (Wyoming), estrelado por Wallace Beery; depois por Addison Richards em “Badlands of Dakota”, estrelado por Robert Stack; e ainda por Ronald Reagan, que foi Custer em “A Estrada de Santa Fé”, filme em que a estrela era Errol Flynn interpretando o general sulista Jeb Stuart, numa das muitas vezes em que foi dirigido pelo diretor Michael Curtiz. E viria, então, o mais famoso filme abordando a vida de Custer.



O INTRÉPIDO ERROL FLYNN

 
O ano era 1941 e a Warner escalou a dobradinha Michael Curtiz-Errol Flynn para mais um sucesso garantido que seria a biografia de George Armstrong Custer, exatamente num momento em que eclodia o maior conflito mundial de todos os tempos. Errol Flynn sempre gostou de uma boa confusão e avisou Jack Warner que não queria mais trabalhar com aquele húngaro maluco (Curtiz). Como o papel de Custer era talhado para Errol Flynn, Jack Warner substituiu o detestado diretor por Raoul Walsh que por sinal ficava muito mais à vontade no gênero western que o diretor de “As Aventuras de Robin Hood” e “Capitão Blood”. O filme biográfico se chamou “O Intrépido General Custer” (They Died With Their Boots On), fez um enorme sucesso, como não poderia deixar de ser, sucesso tão grande quanto as críticas negativas que sofreu por ser um filme sem nenhum compromisso com a verdade histórica, ou seja, típico da Hollywood da época de ouro do cinema. Porém, todo garoto, após ver o filme, sonhava ser tão heróico como Custer. E nas brincadeiras de mocinho a meninada gostava de morrer de forma épica como o Custer de Errol Flynn, com a espada em uma mão e o revólver na outra em meio aos ‘covardes’ índios. O que é o cinema se não uma fábrica de sonhos?

CUSTER, UM ETERNO PERSONAGEM

Errol Flynn encarnou o definitivo General Custer nas telas, e o fantasma desse general rondava o cinema e seus roteiristas, até que em 1951 o ator James Millican (“Matar ou Morrer”), trouxe Custer novamente para as telas no filme “Sanha Selvagem” (Warpath), estrelado por Edmond O’Brien e pela linda atriz iniciante Polly Bergen. No ano seguinte Custer foi revivido por Sheb Wooley (também de “Matar ou Morrer”) em uma ‘pontinha’ em “O Último Baluarte” (Bugles in the Afternoon), estrelado por Ray Milland. Em 1958 foi a vez de Walt Disney se aproveitar da fama do lendário General Custer num western para toda família chamado “Tonka, o Bravo Comanche” (Tonka). Sal Mineo é um jovem índio dono do cavalo Tonka e Custer foi interpretado por Britt Lomond. Somente em 1968 o cinema se lembraria outra vez de Custer, em “As Espingardas do Faroeste”, uma refilmagem de “The Plainsman”, desta vez com Don Murray no papel que fora de Gary Cooper (Wild Bill Hickok), enquanto Custer foi interpretado por um ainda sério Leslie Nielsen. 1967 seria um grande ano para a figura de Custer pois o respeitado diretor Robert Siodmak dirigiu “Os Bravos não se Rendem” (Custer of the West), ambicioso filme programado para o processo Cinerama e que era para ser dirigido por Akira Kurosawa. O ator inglês Robert Shaw é quem interpreta Custer, coadjuvado por um elenco onde se destacam Robert Ryan e Jeffrrey Hunter. Nesse mesmo ano a TV norte-americana colocou no ar a série “Custer”, com Wayne Maunder vivendo o intrépido general e Slim Pickens também no elenco. A série durou apenas 17 episódios, não fazendo sucesso. Aproveitando os cenários da série foi produzido o longa-metragem “Os Bravos Nunca Morrem” (The Legend of Custer) para o cinema com o mesmo elenco da série da TV, ou seja, Wayne Maunder interpretou Custer também na tela grande.



UM ÍNDIO CENTENÁRIO FALA DE CUSTER

“O Pequeno Grande Homem” foi talvez a produção mais cara envolvendo a presença do General Custer. O filme é narrado pelo índio Jack Crabb (Dustin Hoffman) que atingiu a idade centenária, sobrevivente de Little Big Horn e que conviveu com Custer. E é ele quem conta de forma realísta quem foi o mais famoso general da Cavalaria dos Estados Unidos. Quem interpreta Custer é Richard Mulligan e o massacre de Washita River, em 1868, é um dos pontos altos deste que foi um dos principais westerns da década de 70, não apenas por ser um western soberbo, mas por contar a história de Custer como nunca havia sido contada no cinema. O grande destaque do elenco é Chief Dan George, índio de 71 anos que teria outra brilhante atuação em “Josey Wales, o Fora-da-Lei”. E para quem achava que os europeus já haviam cansado de brincar de mocinho, eis que em 1974, o diretor italiano Marco Ferreri (de “A Comilança” e “A Crônica do Amor Louco”) decide dar a sua visão de Little Big Horn. Para isso reuniu Michel Picolli, Philippe Noiret, Ugo Tognazzi e Catherine Deneuve para uma insólita recriação da vida de Custer. Ah, George Armstrong é interpretado por Marcello Mastroianni. Essa absurda comédia intitulada “Não Toque na Moça Branca” (Touche pas à La Femme Blanche), apesar do elenco foi um fracasso de bilheteria.

Acima, à esquerda, Richard Mulligan em "O Pequeno Grande Homem";
à direita Marcello Mastroianni como o General Custer e Phillip Noiret


100 ANOS DE GENERAL CUSTER NO CINEMA

Custer esperaria mais 12 anos para que, em 1991, outro filme focalizasse sua vida em “Son of the Morning Star”, produzido para a TV e com o personagem principal de General Custer interpretado por Gary Cole. Com 187 minutos, esse western é original porque a vida de Custer é contada a partir da visão de sua mulher Libbie (Rosanna Arquette) e de Kate Bighead (Buffy St. Mary). O papel de Custer foi oferecido a Kevin Costner que vinha do grande sucesso com “Dança com Lobos” e não aceitou a proposta de trabalho para essa produção para a TV. E foi a mesma televisão que incansavelmente tem produzido séries e filmes em que Custer é lembrado. Em 2009, foi produzido para o cinema “Uma Noite no Museu 2” e entre Napoleão, Ivan o Terrível, Al Capone, Átila e Lincoln, surge o General Custer. Notícias dão conta que está prestes a ser iniciada a produção de “The Hard Ride”, que, se não houver mudanças terá Val Kilmer de volta à sela novamente, ao lado de Wes Studi e Don Murray, num western passado em 1876 em que o ator Christopher Atkins (o menino de “A Lagoa Azul”) interpretará George Armstrong Custer. Exatamente 100 anos após Francis Ford e por certo muito longe de ser a última vez que o lendário General do 7.º Regimento da Cavalaria surja orgulhoso e garbosamente nas telas.