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9 de dezembro de 2014

“PAIXÃO DOS FORTES” (MY DARLING CLEMENTINE), SUBLIME WESTERN DE JOHN FORD


Tela de abertura da versão exibida
no lançamento de "Paixão dos
Fortes"; Ford em plena direção.
John Ford costumava dizer que sua atividade como cineasta era apenas ‘a job of work’, ou seja, um trabalho como outro qualquer. Essa frase respondia também àqueles que consideravam muitos de seus filmes obras-primas cinematográficas e em número tão grande que não havia como escapar de considerá-lo um mestre, quando não um gênio. “It’s only a job of work” repetia invariavelmente o diretor de “Vinhas da Ira”, isto quando estava de bom humor pois o normal era desconsiderar o jornalista e encerrar a entrevista se a pergunta fosse ligeiramente complexa. Imagina-se o quanto Ford deve ter se divertido com o que escreveu Tag Gallagher sobre “My Darling Clementine” (Paixão dos Fortes). Para Gallagher, esse western foi concebido como uma metáfora à participação dos Estados Unidos nas duas Grande Guerras. Wyatt Earp simbolizando os Estados Unidos apaziguou Dodge City (1.ª Grande Guerra); deu uma lição a um índio rebelde e violento (representação dos nativos) e recusou ser homem da lei em Tombstone (entrar na 2.ª Grande Guerra). Até que seu irmão James Earp foi brutalmente morto (Pearl Arbor). Então Wyatt Earp se vê forçado a lutar contra o bando liderado por Old Man Clanton (Hitler?) e mais uma vez impõe a lei e a ordem a uma conturbada cidade que metaforicamente seria o mundo entre 1939-1945. Elocubrações como esta jamais passaram pela cabeça do grande diretor. Mais ainda porque “Paixão dos Fortes” sequer era um projeto pessoal de John Ford e sim mais um ‘job of work’ que Ford deveria fazer para encerrar seu contrato com a 20th Century-Fox. O mesmo havia ocorrido com “Vinhas da Ira”, baseado no livro de John Steinbeck, que também não era um projeto de Ford mas que ele transformou no maravilhoso filme que enterneceu o mundo. E aí reside a grandiosidade desse diretor, capaz de transformar ‘a job of work’ em ‘work of art’ (obra de arte). Isso aconteceu com “Paixão dos Fortes”.


Acima Wyatt Earp com os Clantons;
abaixo Morgan, Wyatt e Virgil.
Earps versus Clantons - O roteiro de “Paixão dos Fortes” indicava que esse filme seria mais uma versão para o cinema do historicamente questionável livro de Stuart N. Lake “Wyatt Earp: Frontier Marshal”, obra que é um primor de ausência de acurácia. Contrariando a autenticidade dos fatos, os quatro irmãos Earp após deixar Dodge City dedicam-se à criação de gado. Nas imediações de Tombstone o gado é roubado e James Earp (Don Garner), mais jovem dos irmãos é morto pelos ladrões. Wyatt Earp (Henry Fonda) torna-se o Marshal de Tombstone e seus irmãos Morgan (Ward Bond) e Virgil (Tim Holt) passam a ser delegados. Retorna a Tombstone o médico e jogador John ‘Doc’ Holliday (Victor Mature) que mantém um caso com a cantora de saloon Chihuahua (Linda Darnell). Holliday sofre de tuberculose e por essa razão a professora Clementine Carter (Cathy Downs), que também foi namorada de Holliday, viaja a Tombstone para ajudá-lo. Os Earps descobrem que Old Man Clanton (Walter Brennan) e seus quatro filhos são responsáveis pelo assassinato de James Earp e pelo roubo do gado. Billy (John Ireland), um dos filhos de Clanton é morto pelos Earps e Old Man Clanton vinga-se matando Virgil Earp. Desesperado com a morte do filho, Clanton desafia Wyatt para um confronto no Curral OK. Ajudados por Doc Holliday os Earps levam a melhor no embate matando todos os Clantons. Holliday é mortalmente ferido no encontro. Wyatt Earp e seu irmão Morgam partem de Tombstone depois do extermínio da família Clanton.

Os irmãos Earp: Wyatt (Henry Fonda), Morgan (Ward Bond),
James (Don Garner) e Virgil (Tim Holt).

Alan Mowbray como o ator
shakesperiano; abaixo Wyatt Earp
embelezado pelo barbeiro.
A ‘Americana’ de John Ford - “Paixão dos Fortes” é um faroeste cujo ponto principal deveria ser o célebre duelo travado no Curral OK. No entanto John Ford com sutileza e com sequências de enternecedor lirismo envolve o espectador fazendo-o acompanhar os passos de um homem com os ideais de Lincoln e a nobreza de Tom Joad, personagens interpretados pelo mesmo Henry Fonda em filmes de Ford (“A Mocidade de Lincoln” e “Vinhas da Ira”). A chegada dos novos hábitos indicando o processo de civilização do Velho Oeste foi o que Ford imprimiu a este western com pouca ação mas denso em sentimentos e conflitos entre os personagens. O salão de barbeiro com suas loções recendendo a madressilva; a troca das roupas de vaqueiro pelos ternos com estilo importado do Leste; o médico-pistoleiro-jogador que recita Shakespeare quando o ator esquece o texto; a própria presença da companhia que apresentará uma peça clássica numa cidade onde gente de bem se mistura a assassinos e ladrões de gado como os Clantons. A culminância desses momentos incomuns a faroestes é o baile para comemorar a construção da igreja, quando o ‘square dance’ é interrompido e Wyatt Earp tímida e elegantemente dança com Clementine Carter. Mais que qualquer outro diretor, Ford com muitos de seus filmes criou a denominada ‘Americana’, documentos cinematográficos da história dos Estados Unidos. A simplicidade, idealismo e poesia das imagens de “Paixão dos Fortes” fazem desse western um sublime exemplo da ‘Americana’ de John Ford.

O erguimento da igreja em Tombstone foi comemorado com um baile,
momento precioso de "Paixão dos Fortes".

Doc (Mature) e Wyatt (Fonda),
tentando se entender.
Wyatt e Holliday, admiração mútua - Embora não falte a “My Darling Clementine” o componente clássico da vingança, ele é quase uma subtrama paralela às relações entre os amigos Wyatt Earp e Doc Holliday e mais a provocante Chihuahua e a doce Clementine. Wyatt e Doc se admiram mutuamente, ainda que Doc não se conforme com a perda do poder conquistado em Tombstone. Wyatt é a lei que Doc desconhecia pela covardia dos que aceitavam o distintivo de marshal da cidade. E menos ainda a prostituta Chihuahua que mal consegue se insinuar junto ao novo e agora elegante homem da lei. A chegada de Clementine a Tombstone piora as coisas pois Wyatt fica fascinado com a professora, seus modos educados, sua elegância e tudo que ela representa para aquele lugar. Os acessos de tosse de Doc Holliday não o consomem tanto quanto ver Wyatt se fazer respeitar e ser admirado pela dona do prostíbulo Kate Nelson (Jane Darwell), pelo diácono (Russell Simpson), pelo prefeito (Roy Roberts) e mais que todos por Clementine. Apesar do antagonismo, Doc se posta ao lado dos Earps no enfrentamento no OK Corral. Earp, por seu lado, admira em Doc a cultura e o título de doutor, mais que a fama conquistada com o revólver, nas mesas de jogo ou com as mulheres.

O vício de Doc Holliday e o comiserado Wyatt: extraordinária sequência.

Wyatt Earp e Clementine Carter.
Henry Fonda, como diz a canção - A razão do título “My Darling Clementine” pode ser atribuída a tudo que Clementine Carter representa, não só para Tombstone, mas para o próprio Wyatt. No entanto o título mais adequado seria mesmo ‘Wyatt Earp’, isto pela soberba atuação de Henry Fonda. Mesmo nos momentos em que a intenção seria fazer rir, Fonda emociona com a serena sinceridade de seu personagem. Ao perceber que o amor entrou em seu coração Fonda é comovente na timidez com que se aproxima e fala com Clementine, que gosta ainda de Doc Holliday. Ao final, o beijo respeitoso e a vaga promessa da volta condensa tudo de sublime que o filme mostrou ao longo de 97 minutos. Entre dezenas de atuações esplêndidas na tela, o Wyatt Earp de Henry Fonda permanece como um dos grandes momentos desse ator no cinema e inesquecível no gênero western. Justíssimo o verso da canção “Esconderijo de Heróis”, de Jorge Cavalcanti, que diz: ‘Henry Fonda, admirável Wyatt Earp’.

O perfume espargido pelo barbeiro em Wyatt Earp no ar.

Wyatt na campa do irmão James
no Monument Valley;
Doc Holliday e Clementine Carter.
Composição de imagens clássicas - O amor de John Ford pelo Monument Valley fez com que Tombstone fosse localizada nessa região, um dos muitos erros de fato do roteiro. Para Ford o que interessava era criar o retrato da simplicidade de um tempo e da vida daquelas pessoas, além, é claro de contar uma bonita história de amor. Esqueça-se, ao assistir “Paixão dos Fortes” das muitas críticas feitas às inverdades que o filme conta; fique-se com a beleza da composição de imagens semiexpresionistas externas ou dentro do ‘Oriental Saloon’. Em seu filme seguinte – “Domínio de Bárbaros” (The Fugitive) – também com Henry Fonda, John Ford usaria à exaustão a influência sofrida do estilo expressionsita de filmar. O Cinemascope ainda não havia sido inventado mas Ford nos cria a magnífica ilusão de horizontalidade quando filma o balcão do saloon onde transcorrem muitas das sequências do filme. O preto e branco iluminado pelo cinegrafista Joseph MacDonald dá dramaticidade ímpar aos rostos muitas vezes filmados em close. E o duelo do Curral OK que, de verdade, durou apenas 30 segundos foi filmado de modo simples sem heróis invulneráveis tão comuns ao cinema. Quem passar alguns anos sem assistir “Paixão dos Fortes” certamente se lembrará de inúmeras sequências, mas não do duelo que, como foi dito, é apenas parte da história, ainda que seja o desfecho da história.

John Ford em sua fase expressionista.

Walter Brennan
Criação de uma linhagem de vilões - Além do excepcional desempenho de Henry Fonda, “Paixão dos Fortes” tem também o melhor trabalho dramático de Victor Mature no cinema. Personificar Doc Holliday com o físico de Mature seria um contrassenso, mas o ator de “Sansão e Dalila” não só convence como também emociona. O mesmo pode ser dito de Linda Darnell que sempre se destacou mais pela beleza que pelo talento dramático; Linda está muito bem como a estrepitosa Chihuahua. Walter Brennan criou com seu ‘Old Man Clanton’ uma linhagem de bandidos envelhecidos mas cruéis que o cinema nunca cansou de exibir. O último deles Michael Gambon de “Pacto de Justiça” (Open Range), western de Kevin Costner. Uma pena a quase inexpressividade de Cathy Downs, num papel que poderia ser entregue à adorável Teresa Wright. O grande elenco traz os ótimos Ward Bond e Tim Holt e ainda John Ireland em um de seus primeiros filmes, sem falar na Ford Stock Company que desta vez conta com Francis Ford, Jane Darwell, Russell Simpson, J. Farrell MacDonald e outros.

Os Earps: Ward Bond, Henry Fonda e Tim Holt; Bond e Holt.

Darryl F. Zanuck, o homem poderoso da
20th Century-Fox.
A little help from Zanuck - “Paixão dos Fortes” é um dos grandes westerns do cinema, mas deve-se registrar que a versão inicial de John Ford tinha aproximadamente 30 minutos a mais que a exibida os cinemas. Darryl Zanuck era o editor-mór da 20th Century-Fox, ainda que sua função fosse a de diretor geral de produção. Zanuck considerou insatisfatório o filme finalizado por John Ford e como o contrato com o diretor permitia ao estúdio fazer modificações na película, Zanuck filmou novas sequências e reeditou o filme, deixando de fora muito material filmado por John Ford. Entre as modificações a principal delas foi o final em que Wyatt Earp beija Clementine ao som de “My Darling Clementine”. O DVD lançado no Brasil traz uma versão alternativa com 103 minutos de duração, apresentada como a versão do diretor. Deve-se, por uma razão de honestidade, atribuir a Darryl F. Zanuck, parte do sucesso do filme que custou dois milhões de dólares e rendeu nas bilheterias quando de seu lançamento 4,5 milhões de dólares. Inúmeros outros filmes sobre o tiroteio do Curral OK e sobre a vida de Wyatt Earp seriam feitos, mas nenhum com o brilho e poesia de “Paixão dos Fortes”. Segundo Ford um mero ‘job of work’...

A morte de Virgil Earp (Tim Holt), violenta para 1946.

Doc Holliday tendo um acesso de tosse durante o showdown no OK Curral;
Wyatt atirando, Morgan disparando no Old Man Clanton;
Clanton na última foto.

Pôster original do lançamento de "Paixão dos Fortes" com destaque maior
para Victor Mature e Linda Darnell, grandes astros da 20th Century-Fox
nos anos 40; pouco destaque para a protagonista Cathy Downs.

Pose para publicidade de Henry Fonda e Victor Mature.

Wyatt Earp/Henry Fonda.



2 de dezembro de 2014

COM ESTE ELENCO “PAIXÃO DOS FORTES” (MY DARLING CLEMENTINE) SERIA BEM DIFERENTE


Sem nenhuma dúvida “Paixão dos Fortes” (My Darling Clementine), de 1946, é um dos grandes filmes de John Ford e como western é um clássico absoluto. Rodado entre os meses de abril e junho de 1946, o filme produzido por Darryl F. Zanuck começou a ser preparado quase um ano antes. Seria o último trabalho de John Ford para a Fox, estúdio onde vinha trabalhando desde 1921 após deixar a Universal. Zanuck começou a escalar o elenco principal de “Paixão dos Fortes” pensando em Henry Fonda que ainda estava na U.S. Army após três anos participando da II Guerra Mundial. Caso não pudesse contar com Henry Fonda, Zanuck tinha preferência, pela ordem, por Tyrone Power (acima à direita) e Douglas Fairbanks Jr. (acima à esquerda) Com a baixa de Fonda da U.S. Navy em outubro de 1945, John Ford exultou de alegria pois Henry Fonda era então seu ator preferido depois de dirigi-lo em “A Mocidade de Lincoln”, “Ao Rufar dos Tambores” (Drums Along the Mohawk) e “Vinhas da Ira”.

Os possíveis Doc Holliday - Escolhido o Wyatt Earp as atenções se voltaram para o segundo papel em importância do filme, o de Doc Holliday. Entre as muitas possibilidades Darryl F. Zanuck selecionou três candidatos: James Stewart, Vincent Price e Victor Mature. Price ainda não consumara sua imagem de ator de filmes de terror, o que só aconteceria nos anos 50 e dividia sua participação nos filmes às vezes como galã e outras como vilão. “Laura”, “A Canção de Bernadette”, “Amar foi Minha Ruína” foram alguns dos filmes de sucesso que tiveram a participação de Price. James Stewart era já um ator consagrado, especialmente após seus sucessos dirigidos por Frank Capra: “Do Mundo Nada se Leva” e “A Mulher Faz o Homem”. James tinha recebido um Oscar por “Núpcias de Escândalo” e brilhado no western “Atire a Primeira Pedra” (Destry Rides Again). Mas foi mesmo Victor Mature o escolhido para interpretar o tísico Doc Holliday. Tanto Mature quanto Stewart haviam, assim como Henry Fonda, passado os três últimos anos defendendo a pátria no conflito mundial. Victor Mature mostrara seu físico privilegiado em “O Despertar do Mundo”, mas a maior parte de seus papéis foram em filmes noir como o ótimo “Quem Matou Vicky?”. Se a escolha fosse pelo físico certamente James Stewart seria a melhor opção e Mature esbanjando saúde seria inimaginável como um tuberculoso como Doc Holliday. Mesmo assim Victor tornou-se o amigo de Waytt Earp no filme.

Victor Mature, Vincent Price e James Stewart.

Jovens Clementine Carter - O grande cast da Fox tinha sob contrato muitas estrelas bonitas e Linda Darnell era uma das preferidas do público, ficando para ela o papel de Chihuahua. Mas a protagonista Clementine ainda não havia sido definida. Ela teria que ser morena, suave e discreta em contraponto com a irriquieta e explosiva Chihuahua. Na lista de possibilidades estavam as jovens Anne Baxter (23 anos), Jeanne Crain (22 anos) e Donna Reed (25 anos), todas com razoáveis experiências no cinema. Estranhamente Zanuck preferiu uma atriz contratada da 20th Century-Fox que tivera pequena participação em três filmes do estúdio e destaque em apenas em “Envolto em Sombras”, ainda assim como o sexto nome do elenco. Seu nome era Cathy Downs, 20 anos de idade, a escolhida para ser a Clementine Carter de “Paixão dos Fortes”. Anne, Jeanne e Donna fizeram belas carreiras no cinema (Anne Baxter e Donna Reed seriam premiadas com Oscar) enquanto Cathy Downs só é lembrada por esse western de John Ford. Cathy faleceu em 1956, aos 50 anos de idade.

Cathy Downs (acima), Donna Reed, Jeanne Crain e Anne Baxter.

Asas à imaginação - Ao núcleo principal de atores se somou o premiadíssimo Walter Brennan, detentor de três prêmios Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente em 1937, 1939 e 1941. E John Ford teria a incumbência de consumar a lenda de Wyatt Earp, homem da lei que o cinema nunca cansou de levar à tela. E ficamos a imaginar como seria “Paixão dos Fortes”, por exemplo, com Tyrone Power como Wyatt Earp, Vincent Price como Doc Holliday e Anne Baxter como Clementine Carter.