UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN
Mostrando postagens com marcador 1965 - O Dólar Furado (Un Dollaro Bucato). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1965 - O Dólar Furado (Un Dollaro Bucato). Mostrar todas as postagens

7 de outubro de 2013

O DÓLAR FURADO (UN DOLLARO BUCATO) – GIULIANO GEMMA CONQUISTA O FAROESTE


Burt Lancaster em "Vera Cruz".
Giuliano Gemma tinha 16 anos quando o western “Vera Cruz” foi exibido em Roma, em 1955, e o jovem ficou fascinado com a performance de Burt Lancaster. No ano seguinte Giuliano voltou a ver o ator norte-americano no cinema em “Trapézio”, filme que fez enorme sucesso na Itália. Giuliano praticava diversos esportes, entre eles a ginástica e alimentava o sonho de vir a ser ator seguindo os passos de Burt Lancaster pois, assim como Burt, Giuliano chegou a atuar em circos. Alto, com boa pinta e determinado, aos 20 anos Giuliano Gemma estreava no cinema e cinco anos depois teve uma das grandes alegrias de sua vida ao participar de “O Leopardo”, filme estrelado por seu ídolo. Mas somente em 1965, ao atuar pela primeira vez em westerns, Giuliano Gemma interpretaria um homem do Oeste, tendo como modelo Burt Lancaster. Os produtores obrigaram Gemma a utilizar o americanizado nome artístico de Montgomery Wood em seu primeiro western que foi “Uma Pistola para Ringo” (Una Pistola per Ringo). O mesmo aconteceu no faroeste seguinte, intitulado “O Dólar Furado” (Un Dollaro Bucato), com a diferença que o segundo alcançou estrondoso sucesso de bilheteria. Depois disso Giuliano Gemma exigiu voltar a ter seu nome verdadeiro nos créditos dos novos trabalhos. “O Dólar Furado” conquistou um incalculável público novo para o faroeste, inclusive no Brasil, público que passou a ter Giuliano Gemma como um de seus maiores ídolos. Assim como havia sido Burt Lancaster na década anterior.


Na trilha do sucesso de Leoni - Com o êxito de “Por um Punhado de Dólares”, de Sergio Leone, outros diretores se aventuraram a filmar westerns, entre eles o veterano Giorgio Ferroni. No cinema desde 1936, Ferroni era o que se podia chamar de diretor versátil, tendo nos anos 60 se especializado nos filmes apelidados ‘sandália e espada’ que contavam histórias épicas de heróis mitológicos. Ferroni dirigiu o musculoso Gordon Scott em quatro desses filmes, até que com o nome mudado para ‘Calvin Jakson Paget’ Ferroni se encontrou com Montgomery Wood, ou melhor, Giuliano Gemma para rodar “O Dólar Furado”. A história de autoria de Giorgio Stegani, outro ‘pau para toda obra’ em Cinecittà, foi roteirizada pelo autor em parceria com Ferroni. Produzido por um consórcio de produtoras ítalo-franco-espanhola, as filmagens que duraram 32 dias ocorreram parte nos bosques de uma região chamada Manziana, província de Roma e parte na cidade cenográfica dos estúdios de Elios, também próximo a Roma. O que nem Ferroni, nem Stegani ou os produtores e intérpretes poderiam suspeitar era que “O Dólar Furado” faria sucesso idêntico ao do faroeste de Leone produzido no ano anterior.

Acima os irmãos Gary e Phil O'Hara;
abaixo Gary com a esposa Judy.
Irmão contra irmão - “O Dólar Furado” conta a história dos irmãos Gary O’Hara (Giuliano Gemma) e Phil O’Hara (Nazzareno Zamperla)  que lutaram pelo Exército Confederado e finda a guerra se separaram. Gary retornou para a Virgínia e Phil partiu para o Oeste tentando vida melhor em Yellowstone. Tempos depois Gary deixa a esposa Judy (Ida Galli) na Virginia e decide também ir para o Oeste rumando para Yellowstone. Essa cidade é dominada por um homem inescrupuloso chamado McCoy (Pierre Cressoy). Mal tendo chegado à cidade e Gary é vítima de uma trama que o leva a ser baleado pelo próprio irmão que a seguir é morto pelos homens de McCoy. Gary O’Hara sobrevive milagrosamente sendo salvo pelo único dólar que carregava no bolso e inicia a vingança contra McCoy. A empreitada de Gary O’Hara se torna mais difícil porque McCoy tem muitos capangas e o próprio xerife da cidade (Franco Fantasia) está na sua folha de pagamento. Para piorar as coisas Judy, que fora ao encontro do marido, chega a Yellowstone e cai nas garras de McCoy e seus homens. O’Hara sozinho dizima a maior parte do bando do poderoso bandido e ainda consegue colocar McCoy contra o xerife que é morto. Ao final a população de Yellowstone se enche de coragem e liquida McCoy que não tem mais a proteção de seus homens.

Espora cortando a corda; a luz no rosto do herói
para reconhecimento do vilão.
Clichês e criatividade - A história de “O Dólar Furado” não chega a ser original e usa o eterno tema da vingança, adicionando ao mesmo o encontro dos dois irmãos de forma trágica. E sem nenhum pudor vale-se dos mais conhecidos clichês do gênero western, a começar pelo dólar que salva o herói supostamente dado como morto. Peças de metal de todo tipo já salvaram personagens do Velho Oeste em filmes anteriores, mas pela primeira vez um dólar é o objeto salvador, num criativo achado do autor da história. Entre cordas cortadas por uma espora, xerife corrupto, bandidos que se travestem, mocinho que se faz passar por bandido e heroína servindo de escudo, “O Dólar Furado” imita até mesmo “Por um Punhado de Dólares”. Isso ocorre quando no duelo final o bandido não consegue acertar o mocinho que faz uso de atrevimento nunca visto em westerns norte-americanos. O ‘Estranho sem Nome’ (Clint Eastwood) utiliza sob seu poncho parte de uma armadura medieval, impedindo que Ramón Rojo (Gian Maria Volonté) o alveje mortalmente. No filme de Ferroni é um revólver com o cano cortado, detalhe não percebido na escuridão e que impede que Gary O’Hara seja atingido. Ocorre que o mesmo revólver fez parte do início da história quando soldados sulistas são humilhados pelos ianques antes de ganharem a liberdade. A mesma sequência é antecedida por outra inovadora imagem com Gary O’Hara usando o lampião que escurece seu rosto para que o bandido o reconheça.

Ação do princípio ao fim do filme.
Herói conquistador do público - A concepção de “O Dólar Furado” ficou longe do sadismo e violência que seriam a tônica dos westerns-spaghetti. Cenas mais fortes como uma tentativa de estupro, uma faca cravada no pescoço do bandido ou o violento pontapé no rosto do herói não chegam a chocar, numa indicação clara que Giorgio Ferroni queria fazer um faroeste nos moldes dos norte-americanos, no que foi bem sucedido. O rótulo ‘western-spaghetti’ ainda não havia sido cunhado em 1965 e “O Dólar Furado” mal aceita essa classificação. Isso talvez explique seu sucesso absoluto que fez dele o faroeste de maior público em toda a história do cinema brasileiro. Havia algo de novo naquele western, algo de novo e de muito agradável que não pode ser explicado simplesmente pelas novidades que o filme apresentava. Havia a presença de um herói que imediatamente conquistou as platéias: Giuliano Gemma. Certo que 'Giuliano Gemma' somente para cinéfilos mais atentos que o conheciam de outros filmes. Para a grande maioria, ainda e por pouco tempo, ‘Montgomery Wood’, ator capaz de rivalizar e até superar Clint Eastwood no gosto do público brasileiro. “O Dólar Furado” mostrou um Giuliano Gemma que era uma mescla da figura atlética e um tanto cínica de Burt Lancaster (seu ídolo pessoal) com a simpatia e dignidade de Gary Cooper. E com carisma próximo dos dois astros de “Vera Cruz”.

Giuliano Gemma sempre espetacular.
Evocação nostálgica - O escritor Alberto Moravia escreveu que “O Dólar Furado” é “um dos mais belos e poéticos westerns realizados na Itália”. De fato, um filme bonito e bem fotografado por Antonio Secchi, o mesmo diretor de fotografia de “Sangue nas Montanhas” (Um Fiume di Dollari), estrelado por Dan Duryea. Quanto à poesia talvez Moravia se referisse à leveza do filme de Ferroni, que como foi dito não se excede na violência explícita. Há sim violência disfarçada na metáfora dos revólveres com canos cortados dos humilhados prisioneiros sulistas. Assim como há denúncia da covardia dos cidadãos de Yellowstone que ao final se arvoram em justiceiros contra o desarmado McCoy. Fosse Alberto Moravia fã dos westerns B do cinema norte-americano, então já apenas uma lembrança, e certamente veria “O Dólar Furado” de forma poética pela nostalgia que evoca quanto aqueles descompromissados faroestes. E o encanto desse primeiro western de Giorgio Ferroni deve-se também a isso pois nem mesmo o mais renitente fã de faroestes norte-americanos consegue ficar imune ao prazer de assistir a “O Dólar Furado”.

Gianni Ferrio quando jovem e já idoso.
A famosa canção-tema - “O Dólar Furado” permaneceu 38 semanas ininterruptas em cartaz na cidade de São Paulo, feito jamais igualado antes ou depois por qualquer outro faroeste. Nem mesmo somados os grandes êxitos de bilheteria “Duelo ao Sol”, “Os Brutos Também Amam”, “Butch Cassidy” e mais tarde “Banzé do Oeste” (1974), tal valor chega perto do recorde alcançado por “O Dólar Furado”. Fala-se muito que a canção-tema de autoria de Gianni Ferrio teria sido a grande responsável pelo sucesso do filme. Se a trilha incidental do filme é excelente, lembrando por vezes nuances melódicas e sonoras de Ennio Morricone, a cancão-tema é simples, modesta musicalmente, mas funcional e fácil de ser lembrada. E se tornou uma das marcas dos faroestes, westerns-spaguetti ou não. Intitulada “A Man... A Story”, foi composta por Giovanni Locatelli e é ouvida ao final do filme na voz de Fred Bongusto que a levou às paradas de sucesso. Mas o filme tem uma preciosidade musical que é a canção “Give me Bach”, de autoria de Russo e Gianni Ferrio, cantada por Lidia MacDonald, provavelmente nome fictício que encobre o de alguma cantora italiana. Há versões de “O Dólar Furado” em idiomas diversos, mas vale procurar pela versão original em idioma italiano a língua dos atores do filme, exceto Pierre Cressoy.

Um filme de Giuliano Gemma - O elenco de “O Dólar Furado” traz Benito Stefannelli, Nello Pazzafini, Nazareno Zamperla, Franco Fantasia e outros atores ‘característicos’ que seriam figuras constantes nos próximos faroestes produzidos na Itália. A bela Ida Galli, que também atuou em “O Leopardo”, faria par novamente com Giuliano Gemma em “Adeus Gringo”. Deixa a desejar a dupla de vilões que comanda Yellowstone formada pelo francês Pierre Cressoy e Tullio Altamura. Mesmo com sua larga experiência no cinema francês Cressoy só é superado na forma caricata de expressar maldade por Tullio Altamura que interpreta o dono do saloon. Giorgio Ferroni permitiu, no limite do excesso, que Giuliano Gemma demonstrasse sua fantástica habilidade atlética nas sequências de luta, dando às mesmas o toque de western B que é uma das atrações do filme. Ferroni dirigiria Giuliano Gemma novamente em “Ringo não Perdoa” (Per Pochi Dollari Ancora) e em “Wanted – O Procurado” (Wanted). Mas “O Dólar Furado” é menos um filme de Ferroni e sim o filme que tornou astro de primeira grandeza o inesquecível Giuliano Gemma.



O curioso cartaz do lançamento de "O Dólar Furado" em São Paulo.
Note-se que o filme foi lançado simultaneamente em bairros e mesmo assim
permaneceu 24 semanas no Cine Coral e outras 14 semanas no Cine Éden,
ambos no centro da cidade.
Giuliano Gemma é chamado de 'Ringo Wood' no filme que
'As mulheres vão gostar e os homens vão temer'.
E o cartaz fala ainda de uma 'luta entre pistoleiros sem alma e sem lei'.

6 de outubro de 2013

GIULIANO GEMMA E O TEMA MUSICAL DE "O DÓLAR FURADO"



Nenhuma outra canção emoldura melhor a imagem inesquecível de Giuliano Gemma
que a composição de Gianni Ferrio para o western "O Dólar Furado"
(Un Dollaro Bucato). No vídeo abaixo ao som desse marcante tema musical
 relembramos o saudoso mocinho em seu filme de maior sucesso.


28 de fevereiro de 2013

O DÓLAR FURADO ENFRENTA O DOUTOR JIVAGO PELO TÍTULO DE CAMPEÃO DE BILHETERIA



Poster original do lançamento
de "O Dólar Furado".
Numa segunda-feira, dia 2 de maio de 1966, os Cines Coral e Windsor, cinemas da já decadente Cinelândia Paulistana, estrearam um faroeste intitulado “O Dólar Furado”. O espectadores menos avisados até podiam acreditar que se tratava de mais um western norte-americano pois os cartazes anunciavam como ator principal Montgomery Wood e como coadjuvantes Evelyn Stewart e Peter Cross. Outros cartazes diziam ainda que aquele era “o maior western de todos os tempos” e que “as mulheres vão gostar e os homens vão temer”. Não poupando superlativos, podia-se ler ainda que “este filme bateu o recorde de bilheteria no mundo inteiro” e de forma mais honesta avisavam que: “Itália vence Hollywood no gênero bang-bang!”. Nessa mesma semana de maio de 1966 quatro importantes cinemas de bairros (Pigalle, Fiametta, Bruni Vila Mariana e Bruni Santo Amaro) também passaram a exibir “O Dólar Furado”, assim como o Cine St. Tropez, na Rua Aurora, cinema que ficava próximo à Av. São João. Em Eastmancolor e Cinemascope, “O Dólar Furado” tinha como diretor Kelvin Jakson Paget, que assim como Montgomery Wood era um ilustre desconhecido para qualquer cinéfilo. Mas não precisou de mais de uma semana para que “O Dólar Furado” se tornasse a principal atração cinematográfica da cidade.


O crítico Orlando Lopes Fassoni.
O.L. Fassoni fala do faroeste italiano - Nessa época o jovem jornalista Orlando Lopes Fassoni era o resenhista de cinema da “Folha de S. Paulo” e escreveu este texto sobre “O Dólar Furado” na página dominical do caderno ‘Ilustrada’ que anunciava os novos filmes: “O argumento deste filme no qual um irmão jura vingar a morte do outro, após terminada a Guerra Civil, não impressiona ninguém. Não existem atores conhecidos e o diretor é daqueles que seguem rigorosamente as ordens da produção. Mas as cores são bem jogadas. “O Dólar Furado” é um dos primeiros da série de westerns que o cinema italiano vem produzindo para concorrer com os norte-americanos. Pode agradar pelo gênero, pela quantidade de tiros disparados e por não conter tanta poeira como no Oeste norte-americano”. O querido Fassoni estava razoavelmente informado ao falar do filme e acertou quando afirmou que aquele faroeste poderia fazer sucesso. Outros exemplares da produção italiana de faroestes já haviam sido lançados no Brasil, embora a palavra western-spaghetti ainda não fizesse parte do vocabulário cinematográfico, como se pode ver pelo texto de Fassoni.

Os filmes de arte do Cine Coral, aquele que apresentava
'sempre um filme excepcional'.
24 semanas no Cine Coral - O Cine Windsor era um dos mais luxuosos da capital paulista e foi inaugurado com o lançamento de “El Cid”, em 1962. Nessa sala “O Dólar Furado” permaneceu três semanas em exibição. Já o Cine Coral, cujo slogan era “Sempre um filme excepcional”, era, de certa forma, o cinema preferido da intelectualidade paulistana. Lá foram lançados “La Dolce Vita” e “Fellini 8 1/2”. O Cine Coral era o espaço no qual eram exibidas as aguardadas semanas de cinema europeu, nas quais a cada dia era projetado um filme diferente. No Cine Coral foi exibido pela primeira vez em São Paulo “O Demônio das Onze Horas” (Pierrot Le Fou), de Jean-Luc Godard. Jamais naquela sala, com quase uma década de existência, um filme conseguira permanecer em exibição por mais de dez semanas, recorde obtido justamente por “La Dolce Vita”. Isso porque o público do chamado 'cinema de arte' nunca foi muito numeroso. Esse recorde de dez semanas foi superado com a longa permanência em cartaz de “O Dólar Furado” devido ao impressionante sucesso de público que lotava o Cine Coral todos os dias da semana, mesmo nas sessões vespertinas. Esse faroeste italiano só foi retirado de exibição no Cine Coral no dia 17 de outubro, após 24 semanas (quase seis meses) de exibição, constituindo-se no faroeste de maior sucesso de todos os tempos na Cinelândia Paulistana.

“Doutor Jivago” enfrenta “O Dólar Furado” - Entre os filmes de sucesso em São Paulo, “O Dólar Furado” teve um rival que foi “Doutor Jivago”, lançado no dia 13 de julho de 1966 no Cine Metro. Um enorme cartaz na frente desse tradicional cinema anunciava a exibição do drama de David Lean que concorreu ao prêmio Oscar em dez categorias, vencendo em cinco delas. O filme “Doutor Jivago” foi levado ao cinema precedido de enorme publicidade pois Boris Pasternak,  autor do livro em que se baseou o filme, havia sido obrigado pelo regime soviético a renunciar ao Prêmio Nobel de Literatura. E Pasternak acabou falecendo pouco depois, em 1960. Em tempos de Guerra Fria esses fatos foram bastante explorados pela imprensa mundial, especialmente pela norte-americana. E o filme “Doutor Jivago” não fez feio pois parecia não mais querer sair de cartaz, sempre no Cine Metro, dando a impressão de estar concorrendo com “O Dólar Furado”. Quando este chegou à 24.ª semana consecutiva de exibição no Cine Coral, “Doutor Jivago” estava na 14.ª semana no Cine Metro. “O Dólar Furado” saiu de exibição e aparentemente “Doutor Jivago” iria ganhar a batalha de maior sucesso de público de 1966 em São Paulo. Mas um fato inusitado, jamais ocorrido em São Paulo e quiçá no mundo todo, estava para acontecer.

Mais dólares no mercado de faroestes - Depois de quase seis meses em exibição numa das maiores e mais respeitáveis salas de cinema de São Paulo (o Cine Coral) e de ser retirado de cartaz, os exibidores ouviram reclamações do público que exigiam o retorno de “O Dólar Furado” aos cinemas. Nesse ínterim, exatamente em 5 de setembro de 1966, foi lançado em São Paulo outro faroeste produzido na Itália que se tornaria lendário. Esse filme era igualmente estrelado por um ator quase desconhecido chamado Clint Eastwood e tinha como diretor um certo 'Bob Robertson'. Intitulava-se, “Por um Punhado de Dólares”. O público fazia comparações entre esse filme e “O Dólar Furado”, discutindo qual dos dois era o melhor. Os bem informados jornalistas, por sua vez, já haviam divulgado que esses e outros faroestes eram diferentes porque produzidos... na Itália, apesar dos nomes ingleses de atores, diretores e técnicos. No dia 3 de dezembro de 1966, quando “Por um Punhado de dólares” já estava na 13.ª semana consecutiva de exibição e “Doutor Jivago” se eternizava no Cine Metro, ocorreu o relançamento de “O Dólar Furado” no Cine Éden. Essa sala exibidora ficava na Avenida São João, próximo ao Cine Metro e a ‘briga’ com “Doutor Jivago” continuou. O filme estrelado por Omar Shariff já estava na 20.ª semana de exibição e “O Dólar Furado” reiniciava sua caminhada de sucesso, agora no Cine Éden, onde permaneceu por mais 14 semanas, totalizando 38 semanas, ou oito meses em cartaz, como se dizia naquele tempo.

Vencedor moral - “Doutor Jivago” encerrou sua carreira com 49 semanas consecutivas em exibição, 47 delas no Cine Metro e as duas últimas no Cine Scala. Foi, certamente, um dos filmes com maior tempo de permanência em exibição em São Paulo. Por sua vez, o bang-bang italiano dirigido por ‘Kelvin Jackson Paget’, se considerado seu custo e a quase nenhuma publicidade que teve, foi o ‘vencedor moral’ desse embate surdo. Nenhum outro faroeste fez tanto sucesso em São Paulo, constituindo um novo público que passou a exigir mais e mais faroestes com aquele estilo, muito diferentes dos norte-americanos. “Shenandoah”, “Juramento de Vingança”, “Os Filhos de Katie Elder”, “Nevada Smith”, “Raça Brava” e outros faroestes produzidos nos Estados Unidos e exibidos naqueles meses de 1966/67 não conseguiam permanecer mais que duas ou três semanas em exibição, enquanto filmes que tinham a palavra 'dólar' no título ficavam semanas em cartaz e sempre com casas cheias. Curiosamente, com raríssimas exceções, a crítica cinematográfica detestava os faroestes made-in-Italy, o que não diminuía a procura do público pelos novos heróis que se multiplicavam com nomes diabolicamente estranhos como Django, Sartana e Sábata.

Semanalmente o público era brindado com faroestes made-in-Italy;
alguns vinham da Espanha.

Orlando Lopes Fassoni, falecido em 2010
em São Paulo, aos 67 anos.
O desabafo do crítico - Já menos simpático com a safra de faroestes europeus, o saudoso Orlando Lopes Fassoni escreveu no caderno ‘Ilustrada’ da Folha de S. Paulo em 24/09/1967, na resenha apresentando “Quatro Dólares de Vingança para Ringo” (I Dollari di Vendetta per Ringo), lançado coincidentemente no Cine Coral: “O western é o mais antigo gênero de cinema, nascido há pouco mais de 60 anos com “The Great Train Robbery” e nele se inclui a própria história dos Estados Unidos, na parte que diz respeito à colonização heróica. Há uma dramaturgia no western norte-americano. Há coerência no desenrolar da história, há o conflito dramático, há o mito. Mas que diabo tem a ver com isso os westerns europeus, os ‘oriundi’? Nada, absolutamente nada. No entanto, eles invadiram o mercado, aqui e além: na Alemanha, na Itália e até nos Estados Unidos. O pior é que a invasão não cessa, porque tem admiradores, atraem, faturam muito (não apenas quatro dólares ou um dólar furado). Esse que entra em circuito é um deles. Como os outros rodados nos campos da Espanha e nos estúdios de Cinecittà, oferece a quem gostar violência gratuita, sem qualquer motivo, e um falso herói do oeste, Ringo. Nenhuma autenticidade, nenhum sentido dramático, nenhum respeito pela coerência fílmica. Uma sucessão de tiros e mortes, com mexicanos no meio, de onde Ringo se sai muito bem. John Ford, Anthony Mann, William Wyler, jamais sonhariam com isso. Italianos e espanhóis contando histórias de Buffalo Bill, de Dodge City, de Forte Apache, do OK Corral, de Wyatt Earp, de Doc Holliday, dos Apaches, dos Cheyennes, do General Custer, de Touro Sentado. Enquanto houver filas para westerns como esses, eles aí estarão. Enquanto renderem ‘um punhado de dólares’, não nos livraremos deles”.