UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN
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7 de janeiro de 2012

GLENN FORD É A LEI DIANTE DO MOGUL HARRY COHN E NA LEGIÃO ESTRANGEIRA


Glenn Ford desde o início de sua carreira mostrou que tinha futuro, não só como ator mas também como conquistador das mais belas atrizes do cinema. Glenn casou-se aos 27 anos com a bela e elegante dançarina e sapateadora Eleanor Powell, com quem teve o filho Peter Newton Ford. Porém antes e depois do casamento com Eleanor, Glenn provocava desejos incontidos em suas leading-ladies nos filmes e até mesmo em algumas com quem jamais filmou. Entre os casos de Glenn Ford com estrelas famosas podem ser lembrados aqueles com Joan Crawford, Bette Davis, Evelyn Ankers e o mais duradouro deles, com Rita Hayworth. Glenn era preso por contrato à Columbia e o dono desse estúdio, Harry Cohn, era o mais odioso de todos os poderosos moguls. E a concorrência era fortíssima pois outros adeptos do mais extremado autoritarismo eram 'apenas' Louis B. Mayer, Darryl F. Zannuck, os irmãos Jack e Harry Warner e dos estúdios menos importantes Howard Hughes e Herbert J. Yates. Harry Cohn colocava todos no bolso nos quesitos má educação, ganância e mau caratismo. E esse era o patrão de Glenn Ford.

A Rainha do Sapateado e esposa de Glenn Ford, Eleanor Powell

Adele Jergens e o maledicente Harry Kohn
A TRAIÇÃO QUE NUNCA OCORREU - Harry Cohn zelava pela vida pessoal de seus contratados, até porque eles significavam investimento e consequentemente lucro. Cohn procurava resguardá-lo de escândalos que pudessem abalar suas carreiras. E Glenn Ford, longe de ser um conquistador como Gary Cooper ou Clark Gable, ia aumentando sua lista de conquistas, tirando o sono de Harry Cohn. Exatamente quando Glenn Ford atuava em "No Velho Colorado" (The Man from Colorado), Cohn decidiu dar um basta no insaciável conquistador Glenn Ford e ligou para a casa de Glenn quando ele estava no estúdio. Eleanor atendeu e Cohn foi logo dizendo: "Ellie, você abre o olho com seu marido. Sabe aquela loura chamada Adele Jergens? Pois ele está tendo um caso com ela." Adele Jergens era uma daquelas louras que virava a cabeça de qualquer homem. Bonita e escultural, Adele era também contratada da Columbia mas nunca havia contracenado com Glenn. Eles eram colegas de estúdio e nada mais que isso. O maledicente Harry Cohn inventou o pseudo adultério de Glenn Ford para que Eleanor tomasse melhor conta do marido.

Conquistas de Glenn Ford: Rita - Bette - Joan - Evelyn Ankers

ARREBENTANDO A MESA DE HARRY COHN - Quando Glenn retornou do trabalho, Eleanor Powell que já vinha desconfiando das aventuras de Glenn, abandonou sua costumeira calma e furiosa cobrou o marido histericamente. Glenn negou tudo e nem esperou Eleanor se acalmar, rumando para o estúdio. Harry Cohn já havia ido para casa e Glenn se dirigiu para a mansão de Harry Cohn que ficava na esquina de sua própria casa, no luxuoso bairro de Beverly Hills. Glenn avisou os serviçais que precisava conversar urgentemente com Cohn e foi entrando bastante alterado. Harry estava no escritório e ficou surpreso quando viu Glenn Ford abrir a porta com um chute e gritar: "Seu bastardo. Você não se meta com a minha vida! Nunca mais telefone para a minha casa ou em acabo com você. Você ouviu o que eu disse, seu 'son-of-a-bitch'!" Havia bastões de baseball decorando uma das paredes e Glenn não teve dúvidas. Apanhou um dos bastões e passou a bater com violência na mesa de Cohn, destruindo a mesa e tudo quanto havia sobre ela. Lívido de pavor Harry Cohn não conseguiu esboçar uma única palavra e ao ver Glenn Ford jogar o bastão com força num canto, virar as costas e ir embora, respirou aliviado por ter sobrevivido à justa revolta de Glenn Ford. Desse dia em diante Cohn passou a fazer vistas grossas para as conquistas de Glenn Ford.

Geraldine Brooks acima e
abaixo em cena com Glenn
NOVO AMOR NA VIDA DE GLENN FORD - Três anos depois, em 1951, Glenn Ford havia renovado seu contrato com a Columbia e o novo contrato permitia que ele fizesse filmes para outros estúdios ou produtores independentes. E Glenn foi para a França filmar o policial noir "A Luva de Ferro" (The Green Glove). A atriz principal era Geraldine Brooks, novaiorquina de 26 anos que atuava mais na Broadway e na TV que no cinema. O romantismo de Paris contagiou Glenn Ford e Geraldine Brooks, ele casado e ela solteira. Foi um mês de intensa paixão e um amor que os dois não esconderam de ninguém, sempre de mãos dadas e trocando beijos pela Cidade-Luz e mesmo nos intervalos de filmagem. Louella Parsons espalhou a notícia, cumprindo seu papel de fofoqueira-mór de Hollywood. Naquele tempo algumas separações e casamentos sacudiam o mundo do cinema, entre eles os casamentos de Ingrid Bergman-Roberto Rosselini e o de Frank Sinatra-Ava Gardner. Ingrid havia sido banida de Hollywood chamada de adúltera e a carreira de Sinatra estava em baixa depois que ele abandonara sua esposa Nancy Barbato apaixonado que estava por Ava Gardner. Geraldine e Glenn sabiam que estavam brincando com fogo e ela mais sensata decidiu que era hora de terminar com aquele romance, o que levou Glenn ao desespero.

Geraldine Brooks pouco antes
de adoecer
O LEGIONÁRIO GLENN FORD - Glenn Ford passou a madrugada inteira bebendo nos arredores de Paris e quando o dia raiou, completamente embriagado, o ator seguindo o conselho de algum companheiro de bebedeira procurou o quartel da famosa French Foreign Legion, ou seja, a Legião Estrangeira. Glenn Ford acreditou que o melhor remédio para esquecer aquele amor era entrar para a Legión Étrangère. Glenn conseguiu se alistar e até recebeu o uniforme de legionário. No dia seguinte as filmagens de "A Luva de Ferro" foram paralisadas pois o ator principal não aparecia e começaram então as buscas por Glenn Ford em Paris. Depois de muitas investigações por parte da Sureté (polícia francesa), Glenn foi localizado e houve necessidade até da intervenção do Corpo Consular Norte-Americano para que a Legião Estrangeira liberasse Glenn Ford. Como ele havia se tornado legionário deveria proximamente embarcar para alguma parte do deserto do Sahara. Glenn Ford reencontrou Geraldine Brooks em Nova York, pouco antes dela morrer de câncer em 1977. Envelhecida e sem cabelos, efeito da quimioterapia a que estava sendo submetida, Geraldine ouviu Glenn lhe dizer, segurando suas mãos que ela estava tão bonita quanto um quarto de século antes quando ela havia conquistado seu coração.

O jovem conquistador Glenn Ford

6 de dezembro de 2011

ELI WALLACH E SERGIO LEONE - DOIS HOMENS EM CONFLITO


Um dos filmes de maior sucesso da carreira de Eli Wallach foi “Três Homens em Conflito” (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo), que deu início à amizade do ator novaiorquino com o diretor Italiano Sergio Leone. Eli chegou a declarar que depois de estudar o método de interpretar do russo Stanislawski, depois de aprender muito com Lee Strasberg no Actor’s Studio e depois de muito atuar na Broadway, rendeu-se ao personalíssimo ‘Método Leone’ de atuar. A amizade perdurou por vários anos e Sergio Leone disse a Eli que tinha um grande projeto em mente que era rodar uma nova trilogia com um dos filmes nos Estados Unidos, ambientado em Nova York. Eli que nascera e crescera no Brooklyn, em 7 de dezembro de 1915, com o nome de Eli Herschel Wallach, filho de judeus poloneses, fez questão de ciceronear Leone, levando-o para conhecer a casa onde morara (na Union Street n.º 166), a escola em que estudara e outros locais. Leone fotografou esses lugares e nunca mais esqueceu deles, tanto que o referido filme que se chamou “Era Uma Vez na América” e que viria a ser filmado em 1983 teve muitas de suas externas onde Eli Wallach vivera.  Porém Eli não participou desse filme porque ele e Sergio Leone deixaram de ser amigos muito antes, mais exatamente em 1970.

Leone acima com Eli Wallach e
abaixo com Rod Steiger
TRATO ROMPIDO - “Três Homens em Conflito”, filmado em 1966, deu grande notoriedade a Eli Wallach na Europa e fez com que muitos produtores se interessassem por contratá-lo. Nesse tempo Eli atuou em “Os Quatro da Ave Maria” (I Quattro dell’Ave Maria), “O Super Cérebro” e “The Adventures of Gerard”. Eli estava na Itália quando recebeu um telefonema de Sergio Leone que queria conversar com ele. No encontro Leone agradeceu ao amigo Eli por este ter ajudado Henry Fonda a aceitar atuar em “Era Uma Vez no Oeste” (C’Era Uma Volta Il West). Quando foi convidado para trabalhar com o diretor italiano, Fonda nunca havia ouvido falar de Leone uma vez que a famosa trilogia com Clint Eastwood só foi exibida nos Estados Unidos em 1967. Henry Fonda procurou Eli Wallach e lhe perguntou sobre Leone. Eli disse maravilhas do amigo italiano, afirmando que Fonda não se arrependeria de ser dirigido por ele. Leone então falou a Eli sobre seu novo filme que se chamaria “Giù la Testa”, dizendo a ele que o papel principal do personagem ‘Juan Miranda’ seria dele. Durante toda a conversa Leone se referia a esse western como "o nosso filme”. Eli então lembrou a Sergio que ele já havia assumido um compromisso para trabalhar num filme ao lado de Jean-Paul Belmondo. Leone retrucou dizendo que "o nosso filme" “Giù la Testa” seria muito mais importante, produzido pela United Artists, com distribuição no mundo todo e com grande campanha publicitária, isto porque o nome de Leone vinha sendo tão aclamado quanto o de Federico Fellini. Eli Wallach então rompeu o contrato que havia assumido com o produtor francês para o filme com Belmondo. Quando Eli falou novamente com Leone, por telefone, sobre o início das filmagens, o diretor disse ao ator que a United Artists havia bancado a maior parte do dinheiro para o filme, tornando-se o estúdio sócio majoritário na produção. Leone prosseguiu dizendo que quando apresentou o elenco com o nome de Eli Wallach no papel principal, os executivos da United Artists disseram que Leone teria que utilizar Rod Steiger para interpretar 'Juan Miranda' pois Steiger devia um filme para a United Artists de um contrato ainda em vigência. Leone tentou explicar que insistiu com o nome de Eli Wallach mas que a United Artists estava irredutível, ainda mais porque Rod Steiger era um nome mais forte nas bilheterias e havia ganhado um Oscar dois anos antes com "No Calor da Noite". Eli Wallach então disse a Leone que o diretor lhe devia uma compensação financeira pois ele acabara perdendo dois trabalhos. Leone respondeu que não poderia fazer nada quanto a isso e Eli então foi taxativo: "Sergio, vou processar você!" Leone bateu o telefone e eles nunca mais voltaram a se falar.

PROCESSANDO SERGIO LEONE - Como não havia nenhum documento assinado, a não ser a promessa feita por Sergio Leone, Eli Wallach decidiu processar o diretor  assim mesmo pois este era parte do consórcio que produzira "Três Homens em Conflito", filme para o qual Eli Wallach assinara um contrato que não previa exibição no mercado norte-americano. Eli acreditava que com a exibição do filme nos Estados Unidos ele deveria receber um pagamento adicional. A Justiça porém não reconheceu esse direito, assim como não havia cláusula indicando que se o filme viesse a ser exibido na TV os atores receberiam dividendos, o que ocorre nos Estados Unidos. Se Eli e Clint Eastwood tivessem exigido a colocação dessa cláusula teriam ganho muito dinheiro pelo resto de suas vidas pois os westerns de Sergio Leone nunca deixaram de ser exibidos. "Giù la Testa" teve produção bastante acidentada, estourando o orçamento e não sendo o esperado sucesso de bilheteria. Até os fãs de westerns Made-in-Italy tiveram dificuldades para conhecer o filme que, entre outros problemas, não conseguia achar o título ideal (Recomendo a leitura de artigo "Sergio Leone - Quando Explode a Vingança", de autoria de Rodrigo Mendes sobre este filme no blog http://cinemarodrigo.blogspot.com/).

Eli e Anne Jackson, 64 anos
de feliz casamento
THE KING OF BROOKLYN - Sergio Leone ainda filmaria "Era Uma Vez na América" com sequências inteiras bem próximo de onde o ex-amigo Eli Wallach passara a primeira parte de sua vida. 14 anos mais jovem que Eli Wallach, Sergio Leone morreria poucos anos depois, em 1989, aos 60 anos, enquanto Eli prosseguia sua interminável carreira no cinema e no teatro. Em 2003 Clint Eastwood convidou Eli Wallach para fazer uma pequena participação em seu filme "Sobre Meninos e Lobos", o que muito alegrou o veterano ator novaiorquino. Casado há quase 64 anos com a também atriz Anne Jackson, ambos foram agraciados por um órgão municipal de Nova York com o título de Rei e Rainha do Brooklyn. Mais importante ainda foi o Oscar Honorário que Eli Wallach recebeu na premiação da Academia em 2010. Eli Wallach, que hoje completa 96 anos (7 de dezembro), atuou em mais de 20 filmes na última década, sendo dois deles no ano de 2010, o que faz dele talvez o mais antigo entre os grandes atores ainda em atividade. Para os fãs de faroestes Eli Wallach será sempre o brilhante ator que interpretou os inesquecíveis bandidos de "Sete Homens e Um Destino" e "Três Homens em Conflito". Parabéns Eli 'Tuco-Calvera' Wallach.

6 de outubro de 2011

HENRY HATHAWAY, O DIRETOR QUE MUDOU JOHN WAYNE



A crítica sempre cobrou muito de John Wayne dizendo que ele só interpretava a si mesmo. E para comprovar essa afirmação eram citadas suas poucas boas interpretações como em “Rio Vermelho” (Red River), “Legião Invencível” (She Wore a Yellow Ribbon) e “Rastros de Ódio” (The Searchers), esta última principalmente. Em “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo) já se notava um John Wayne um pouco mais solto, mas era o velho e bom Duke de sempre. Até que ele foi dirigido por Henry Hathaway em “Fúria no Alasca” (North to Alaska), em 1960. E o cinema ganhou um novo John Wayne.

Henry Hathaway
ZERO DE PLANEJAMENTO PARA A FOX - Henry Hathaway já havia dirigido John Wayne por duas vezes. A primeira no faroeste “O Morro dos Maus Espíritos” (Shepherd on the Hills), em 1941; a segunda em 1957 no muito criticado drama “A Lenda dos Desaparecidos”. Mesmo sem fazer parte do time dos maiores diretores de Hollywood, Hathaway era considerado dos mais competentes e muitos de seus filmes se tornaram clássicos, especialmente no gênero noir. O estilo de Hathaway era um mescla de John Ford com Howard Hawks sem evidentemente a genialidade do primeiro e o grande talento do segundo. Em 1958 John Wayne assinou um contrato com a 20th Century-Fox para fazer três filmes em três anos. O prazo para completar o contrato estava acabando e só havia sido feito “O Bárbaro e a Geisha” que foi um rotundo fracasso de bilheteria. Os executivos da Fox tinham que agir rápido e sabiam que teriam que rodar faroestes com o Duke pois o lucro era certo (o terceiro filme do contrato foi "Os Comancheiros" Tthe Comancheros). O estúdio havia comprado há tempos os direitos de uma peça chamada “Birthday Gift”, de autoria de Lazlo Fodor, texto que estava engavetado uma vez que ninguém sabia direito o que fazer com ele. Então a Fox entregou a produção para o produtor Charles K. Feldman. Este escalou dois roteiristas muito experientes (John Le Mahin e Martin Rackin) para viabilizar o projeto que teria John Wayne como astro. Para dirigir esse filme que ninguém sabia o que seria foi contratado Richard Fleischer, diretor de “20 mil Léguas Submarinas” e “Vikings, os Conquistadores”. Fleischer pediu para ver o roteiro mas o roteiro não existia ainda. John Wayne pressionou o estúdio dizendo que tinha outros compromissos e não podia esperar mais. O diretor Richard Fleischer deu o ultimato à Fox e uma semana depois desistiu do projeto que não podia nem ser chamado de misterioso porque sequer existia. A Fox então chamou Henry Hathaway e lhe entregou a direção do filme. Hathaway quis ver o roteiro mas Lee Mahin e Rackin ainda trabalhavam nele. Estourou então uma greve dos roteiristas em Hollywood e a dupla de veteranos roteiristas cruzou os braços levando à loucura os executivos da Fox, Charles Feldman, Henry Hathaway e John Wayne.

Stewart Granger e Capucine;
John Wayne e Ernie Kovacs;
Capucine e Fabian - elenco
principal de "Fúria no Alasca"
UMA PORCARIA DE FILME – A essa altura sabia-se ao menos que o projeto seria um estranho western intitulado “Go North” e passado no Alaska. Feldman compôs o elenco principal com o inglês Stewart Granger, o comediante Ernie Kovacs que fazia sucesso na TV, o cantor Fabian que era mais um candidato ao trono de Elvis Presley, então vago porque o Rei do Rock estava cumprindo serviço militar na Alemanha. Para o principal papel feminino, muito antes do projeto ganhar forma já havia sido escalada a namorada de Feldman, a modelo francesa Capucine. Por exigência de Feldman a personagem de Capucine ganhou nacionalidade francesa e teve o nome mudado para Michelle, adaptando-se o roteiro à namorada do produtor Feldman. Quando começaram as primeiras tomadas ficou claro que John Wayne não simpatizara com Capucine e vice-versa, mas nenhum dos dois poderia sair do filme; John Wayne por razões de contrato e Capucine por razões de alcova. Henry Hathaway respeitava John Wayne mas com o resto do elenco o tratamento era outro, alguma coisa assim na linha de John Ford que quando cismava com um ator levava-o ao desespero. E a vítima de plantão foi Stewart Granger. Depois de levar meia dúzia de coices do diretor, Granger se queixou com John Wayne dizendo que não aguentava mais os modos de Hathaway. Duke respondeu a Granger que ele deveria dizer isso ao diretor e o inglês foi até onde estava Hathaway dizendo logo a ele: “Parece que você não gosta de mim, não é? Quem você pensa que é? Foi você quem dirigiu aquele filme no deserto com Sofia Loren, não foi? Sabe o que eu acho daquele filme? Ele é uma verdadeira...” Aí então Stewart Granger se lembrou que John Wayne era o ator desse filme (“A Lenda dos desaparecidos”) e se conteve. Duke disse a Granger: “O que você ia dizer mesmo sobre o filme?” Hathaway foi quem respondeu: “Parece que ele ia dizer que o filme é uma porcaria”. Wayne colocou o dedo no peito de Granger e perguntou: “Era isso que você ia dizer?” Granger colocou o dedo no peito de John Wayne e respondeu: “Era exatamente isso!” John Wayne voltou a colocar o dedo no peito de Granger e confirmou: “E você tem razão! Esse filme é uma porcaria!” e deu uma sonora gargalhada, no que foi acompanhado por Hathaway. Depois desse episódio Hathaway passou a respeitar Stewart Granger e em algumas cenas de “Fúria no Alasca” Duke e Granger colocam o dedo um no peito do outro...
 
Duke e Hathaway num intervalo de
"Fúria no Alasca"
DELICIOSA COMÉDIA - Alguns dias depois, terminada a greve dos roteiristas, Lee Mahin e Rackin apresentaram mais algumas páginas do roteiro e ficou claro que o filme seria um faroeste-comédia. O problema é que John Wayne nunca fora um ator de comédias. Podia quando muito se encaixar em cenas menos dramáticas, mas positivamente John Wayne sempre foi muito sem graça, sem nenhum talento para a comédia. Mas diretor de verdade consegue extrair de um ator aquilo que ninguém podia esperar e foi o que aconteceu em “Fúria no Alasca” (North to Alaska), que afinal recebera um título definitivo mas ainda sem o roteiro finalizado. Como aquilo que John Lee Mahin e Martin Rackin haviam escrito não agradara ninguém, foram convocados para colaborar no roteiro Claude Binyon, Ben Hecht e Wendell Mayes. Ninguém sabe ao certo quem escreveu o quê e quem foi o responsável pelos melhores e engraçadíssimos diálogos que fizeram de “Fúria no Alasca” o mais perfeito western-comédia. Quem pensar em “Banzé no Oeste” deve lembrar que o filme de Mel Brooks é uma debochada paródia. Se comparado a “Cat Ballou”, o filme de Hathaway ganha ares de obra-prima. Os diálogos de “Fúria no Alasca” são irresistíveis e excepcionalmente complementados pelas cenas de ação com lutas memoráveis, quesito em que Hathaway é mestre, e John Wayne acabou mostrando que tinha mais talento do que se imaginava.

John Wayne decididamente não gostou
de Capucine; percebe-se no filme
O NOVO JOHN WAYNE - Conta-se que John Ford, depois de assistir “Rio Vermelho”, exclamou referindo-se a John Wayne: “That son of a bitch can act!” (Esse filho da mãe sabe atuar). Certamente depois de assistir “Fúria no Alasca” Ford deve ter dito: “That son of a bitch can be funny!” (Esse filho da mãe pode ser engraçado!). Foi tão boa a atuação de John Wayne interpretando esse western-comédia que a carreira de Duke começou a mudar e na maioria de seus filmes seguintes, especialmente os faroestes, John Wayne apareceu mais descontraído e engraçado. Os próprios roteiros eram escritos dando oportunidade a ele de provocar algumas risadas na platéia e dar aos filmes aquela dose de alegria que o espectador recebe com prazer. O novo e engraçado John Wayne pode ser visto em “Os Comancheiros”, “Hatari”, “O Aventureiro do Pacífico”, “Quando um Homem é Homem”, “Gigantes em Luta”, “Eldorado”, “Bravura Indômita” e na série de westerns dos anos 70. Em todos eles Duke está bastante diferente do cowboy taciturno e de poucos amigos que caracterizou a maior parte de sua carreira, até atuar em “Fúria no Alasca” dirigido por seu amigo Henry Hathaway e aprender a ser também divertido.

Nenhum outro western foi mais divertido que "Fúria no Alasca"

21 de setembro de 2011

O 'GÊNIO' QUE SEPAROU DALE EVANS DO REI DOS COWBOYS ROY ROGERS


Nunca houve no cinema um casal tão feliz nos filmes e na vida real como Roy Rogers e Dale Evans. Casamentos no cinema houve muitos, mesmo no círculo dos pequenos estúdios, como os enlaces de Don Red Barry-Peggy Stewart (1940-1944), Alan Rocky Lane-Sheyla Ryan (1945-1946) e Lash LaRue-Reno Browne. O casamento de Roy Rogers com sua querida Dale Evans durou 51 anos, só terminando com a morte do ator. E mais que isso, resultou em 28 filmes para o cinema e uma longa série de sete anos para a televisão. E tem muita gente que quando se fala em casais no cinema só lembra de Lucille Ball-Desi Arnaz, Katharine Hepburn-Spencer Tracy, Doris Day-Rock Hudson ou William Powell-Myrna Loy, os três últimos, por sinal, nem casados eram.

UM GÊNIO CHAMADO YATES - Roy Rogers fez seu primeiro filme aos 24 anos, em 1935, enquanto Dale Evans só estreou no cinema em 1942, aos 30 anos de idade. Encontraram-se em 1944 no filme “Pulseira Misteriosa” (Cowboy and the Señorita), da série Roy Rogers na Republic Pictures. Roy Rogers havia tido uma longa série de partners entre elas Penny Edwards, Pauline Moore, Joan Woodbury, Helen Talbot, Estelita Rodrigues, Adrian Booth, Peggy Stewart, Carol Hughes, Jacqueline Wells, Sheyla Ryan, Sally Payne, Ethel Wales, Ruth Terry, lembrando apenas as mais conhecidas. Roy Rogers teve como leading-lady até mesmo uma certa Doris Day, homônima da grande atriz e cantora. Certa ocasião, o dono da Republic, o detestado Herbert J. Yates, cismou de juntar Roy Rogers com a linda Lynne Roberts. Só que antes Yates decidiu que ela deveria mudar de nome, passando a se chamar Mary Hart. E com esse nome fez sete filmes com Roy Rogers nos anos de 1938 e 1939 apenas porque o gênio Herbert J. Yates considerava que a dupla Rogers e Hart da Republic faria sucesso igual aos imortais compositores (Richard) Rogers e (Lorenz) Hart.


Alguns dos westerns de Roy Rogers com a atriz Lynne Roberts
que o 'iluminado' Yates cismou em mudar o nome para Mary Hart

CASAMENTO REAL - Roy Rogers parecia haver encontrado a partner perfeita em Dale Evans, tanto que nos anos de 1944 a 1946 fizeram 15 filmes juntos e o público os identificava como o mais perfeito casal de mocinho e mocinha das telas. Roy era o King of the Cowboys e Dale a Queen of the Cowboys. Em 1946 Dale Evans se divorciou de seu terceiro marido, ficando portanto disponível para novo casamento, caso alguém se interessasse. Roy Rogers, por sua vez, ficou viúvo também em 1946, cumprindo aquele período normal de luto, após o que também estava disponível. Ora, o que poderia acontecer senão o Rei e a Rainha dos Cowboys se casarem? Provavelmente já estivessem se gostando a bastante tempo, mas só se casaram em dezembro de 1947, 13 meses depois da viuvez de Roy Rogers. O casamento foi o maior acontecimento do ano não só na Poverty Row, mas em toda Hollywood, pois Roy Rogers era um dos artistas que mais lucro davam em Hollywood, tanto que em 1946 foi o 10.º colocado entre os Top Ten Money Makers Stars, atrás de Bing Crosby, Ingrid Bergman, Van Johnson, Gary Cooper, Bob Hope, Humphrey Bogart, Greer Garson, Margaret O’Brien e Betty Gable. Esta certo que era tempo de guerra, mas John Wayne, Barbara Stanwyck, Katharine Hepburn, Spencer Tracy, Joan Crawford, James Cagney e tantos outros não foram lutar contra o Eixo...

Roy e Dale separados pelo dono da Republic;
Dale Evans mostrando que era uma bela atriz
O DITADOR DA REPUBLIC - A felicidade havia se instalado não só na Republic Pictures, mas em cada um dos fãs de Roy e Dale, em sua predominância crianças. Eis que ressurge o ditador do estúdio com mais um lampejo de sua genialidade. Herbert J. Yates chamou o casal Roy e Dale e informou que eles não mais atuariam juntos pois o público, segundo ele, não iria ao cinema ver filmes onde um cowboy conquista a própria mulher. De nada adiantaram as ponderações do casal e de todos que trabalhavam na Republic. Yates, sem contemplação, separou Roy Rogers de Dale Evans. A partir de “Primavera nas Serras” (Springtime in the Sierras), em 1947, Roy Rogers teve como partner Jane Frazee em cinco filmes, Adele Mara, Gail Davis e a linda Lynne Roberts (a ex-Mary Hart, lembram?). Roy Rogers mantinha-se como o Cowboy N.º 1 na preferência dos frequentadores das matinês, mas seus filmes não eram os mesmos. Estava faltando algo. Algo, não, alguém e esse alguém era Dale Evans. Durante o tempo em que esteve distante do marido nas telas, Dale Evans atuou em dois filmes policiais que foram “The Trespasser”, com Warren Douglas e “Slippy McGee”, com Don Red Barry. Roy Rogers sempre foi um homem cordato e de boa índole, incapaz de fazer ameaças a alguém senão teria pressionado Yates. Mas não foi preciso pois o onipotente mogul da Republic reuniu Dale e Roy novamente em “Mistério do Lago” (Susanna Pass). E desta vez foi para sempre porque dois anos depois, em 1951, seria rodado “Reduto de assassinos” (Pals of the Golden West), último filme de Roy e Dale para a Republic. Partiram para uma nova vida distante daquele autocracia chamada Republic Pictures onde tinham que fazer tudo que o dono da casa ordenava. Roy e Dale fundaram a produtora própria e passaram a fazer filmes para o novo veículo que passava a dominar o cenário do show-business, a televisão. Desnecessário dizer que ficaram milionários e melhor que isso, felizes para sempre longe do tiranete da Republic.



29 de julho de 2011

ERNEST BORGNINE, ALAN LADD E SINATRA...


Durante as filmagens de “O Homem das Terras Bravas” (The Badlanders), Ernest Borgnine e Alan Ladd ficaram muito amigos. Ladd era uma pessoa introvertida mas gostava de conversar com Ernie sobre assuntos que não costumava conversar com outras pessoas. Certo dia, numa das visitas que Ernie fez ao amigo este lhe disse:

-- Ernie, eu não entendo os atores chamados modernos. Acabei de trabalhar em “Os Invencíveis” (All the Young Men) e havia um ator negro que falava, falava, falava, mas eu não entendia quase nada do que ele dizia. O cara falava pra dentro. Parece que hoje em dia é assim que se atua, sussurando...

-- Você está falando do Sidney Poitier, não é? – perguntou Borgnine.

-- Ele mesmo – respondeu Ladd. – Espero nunca mais ter que trabalhar com o Sidney...

Então Ernest Bognine deu uma demonstração de seu conhecido bom humor, respondendo ao amigo.

-- Olha, Alan, eu nesta profissão de ator já não estranho mais nada. Eu já me acostumei com todo tipo de ator. Imagine que teve um filme em que eu trabalhei que havia um cantor que virou ator, um acrobata que também virou ator e um outro que aprendeu a atuar na mesma escola do Sidney Poitier...

Ernie se referia a Frank Sinatra, Burt Lancaster e Montgomery Clift, com os quais contracenou em “A Um Passo da Eternidade”. A escola a que ele se referia era o Actor’s Studio de Lee Strassberg, que ensinava o famoso “Método” do russo Stanislawski. Do Actor’s Studio saíram também Brando, Paul Newman, James Dean, Steve McQueen, todos cheios de maneirismos no jeito de atuar.

Claro que Borgnine estava brincando pois o simpático gorducho sempre respeitou seus colegas de profissão. E mais ainda porque foi Burt Lancaster quem lhe proporcionou a maior oportunidade de sua carreira dando-lhe o papel do açougueiro tímido em “Marty”, filme produzido por Lancaster. Mas sabe-se lá o que mais Ernest e Alan Ladd teriam conversado sobre os colegas, especialmente sobre Frank Sinatra, o cantor que atuava. Sinatra foi um dos mais bem sucedidos grandes cantores que viraram atores. Nat King Cole se deu mal como ator, Sammy Davis Jr., Harry Belafonte, Vic Damone, Perry Como, Eddie Fischer e muitos outros ou fracassaram ou foram apenas razoáveis. Sem falar nos roqueiros que ficaram só na tentativa de se tornar atores como Elvis, Fabian, Frankie Avalon, Ricky Nelson, Pat Boone, Bob Vinton e um enorme etc. E Sinatra será sempre lembrado por suas excepcionais interpretações em “O Homem do Braço de Ouro” e “A Um Passo da Eternidade”...

Ernie e Alan Ladd fizeram muitos faroestes, dois deles obras-primas (“Os Brutos Também amam” e “Meu Ódio Será Sua Herança”). Borgnine atuou em faroestes clássicos como “Vera Cruz”, “Johnny Guitar” e “Ao Despertar da Paixão”. Se Ladd e Ernie tivessem falado de Sinatra no gênero western seria engraçado ver Alan Ladd com seu riso discreto e Ernie com sua sonora e espalhafatosa gargalhada lembrar do ‘conjunto da obra’ de Frank Sinatra no faroeste. Pois Francis Albert conseguiu um belíssimo ‘Four of a Kind’ (quadra no pôquer) com “Redenção de um Covarde” (Johnny Conchos), “Os Três Sargentos” (Sergeants 3), “Os Quatro Heróis do Texas” (4 for Texas) e “O Mais Perigoso dos Bandidos” ( Dirty Dingus Magee). Difícil é saber qual dos quatro westerns de Sinatra é o pior.

Gary Cooper fazendo o que pode para ensinar Sinatra...
Por falar em Ernest Borgnine, ele completou 94 anos em janeiro último, vendendo saúde e bom humor e o que muito nos interessa que é filmando sem parar. Em nenhum ano de sua carreira de mais de seis décadas Ernie deixou de fazer um filme. E ele vem aí em 2012 com o western “The Man Who Shook the Hand of Vicente Fernández”. E com Ernie fazendo o papel principal.

28 de junho de 2011

O INÍCIO DA DECADÊNCIA DE BURT LANCASTER

Burt Lancaster ficaria assim como Kid Shelleen...
Burt Lancaster foi um dos mais poderosos homens de Hollywood na década de 50. Como ator, desde o início de sua carreira, Lancaster vinha acumulando um sucesso após o outro. Tendo estreado no cinema em 1946, no filme “Os Assassinos”, Burt logo criou sua própria produtora, denominada Norma Productions (Norma era o nome da então esposa de Lancaster). Em 1953 Burt Lancaster associou-se a Harold Adolf Hecht e juntos formaram a produtora Hecht-Lancaster. Em 1958 James Hill se associaria à produtora que passou a ser Hecht-Hill-Lancaster. A companhia de Lancaster e de seus dois amigos foi a mais importante e bem sucedida produtora cinematográfica independente daqueles anos, produzindo grandes sucessos de crítica e de bilheteria como “Marty”, “Trapézio” e “A Embriaguez do Sucesso”. A Hecht-Hill-Lancaster adquiriu os direitos de dezenas de histórias e mesmo produzindo filmes num ritmo incessante, muitos textos interessantes foram deixados nas prateleiras à espera de melhor momento para serem filmados. Duas dessas histórias aguardavam que Burt Lancaster estivesse disponível para estrelá-las. A primeira chamava-se “The Way West”, de autoria de A.B. Guthrie e tinha, em 1958, um orçamento previsto de cinco milhões de dólares numa associação da Hecht-Hill-Lancaster com a United Artists. Ao lado de Burt Lancaster estariam Gary Cooper e James Stewart. Esse western só veio a ser filmado em 1967 produzido pela Harold Hecht Productions, do ex-sócio de Lancaster, e estrelado por Kirk Douglas, Richard Widmark e Robert Mitchum. Teve o título de “Desbravando o Oeste”. Quando a HHL foi dissolvida, em 1960, Hecht ficou com muitos dos roteiros que acumulavam poeira na estante. Um deles tornou-se um clássico do western-comédia.
E Lancaster parou de sorrir...
BURT LANCASTER FAZENDO A ESCOLHA ERRADA – Uma outra história que pertencia à Hecht-Hill-Lancaster era “The Ballad of Cat Balou”, de autoria de Roy Chandler. Burt Lancaster após ler o roteiro recusou-se a interpretar os irmãos gêmeos Kid Shelleen/Tim Straw pois como ator havia entrado na fase séria de sua carreira. Depois de “Vera Cruz” não mais quis mostrar seus famosos dentes nas cínicas risadas. De posse da história, em 1964, Harold Hecht decidiu que era hora de filmar “The Ballad of Cat Ballou” e tinha em mente Kirk Douglas para o papel duplo. A exemplo de Lancaster, Douglas também achou aquele papel uma aberração à qual ele não se submeteria. Lee Marvin foi quem acabou estrelando o filme que no Brasil chamou-se “Dívida de Sangue” (Cat Ballou). Lee fez o mundo inteiro rir como o pistoleiro bêbado, ganhou até um Oscar e em seguida atingiu o apogeu de sua carreira. E Lancaster que não queria fazer comédias aceitou atuar em “Nas Trilhas da Aventura”, (The Hallelujah Trail), western em tom de comédia dos mais fracos de John Sturges. Como resultado da queda de prestígio e de salário de Burt Lancaster, que não emplacava nenhum sucesso de bilheteria desde “Sem Lei e Sem alma”, o grande ator aceitou, em 1966, atuar em “Os Profissionais” com salário inferior ao de Lee Marvin. E pior que isso, com seu nome vindo em quarto lugar nos créditos iniciais, após os nomes de Lee Marvin, Robert Ryan e Woody Strode, respectivamente. Burt Lancaster só voltaria a sentir o sabor de um grande sucesso de bilheteria com “Aeroporto”, em 1970. Arrependimento maior que o de não ter atuado em “Cat Ballou”, certamente só pode ter sido a recusa de Lancaster em interpretar “Ben-Hur”, em 1959. Lancaster alfinetou Charlton Heston dizendo que ele ficava melhor nesses papéis bíblicos lembrando que Heston já havia sido ‘Moisés’ em “Os Dez Mandamentos”. E não é que Burt Lancaster também acabou tendo que pegar no cajado e vestir manto para interpretar o mesmo ‘Moisés’ para o filme “Moses”, produzido pela RAI – Radiotelevisone Italiana. E para que a coincidência fosse maior ainda, assim como Fraser Heston, filho de Charlton, interpretou ‘Moisés’ criança em “Os Dez Mandamentos”, William Lancaster, filho de Burt também interpretou ‘Moisés’ quando jovem em “A Terra Prometida – A Verdadeira História de Moisés” (Moses), protagonizado por Burt Lancaster. Há momentos na vida em que até mesmo um Lancaster faz a escolha errada...

12 de junho de 2011

POR QUE CLINT EASTWOOD VIROU AS COSTAS PARA O WESTERN?


Por mais filmes que Clint Eastwood tente sua imagem será sempre identificada com o Velho Oeste, mais especialmente com a figura do pistoleiro de poucas palavras e muitas vezes sem nome. Senão houvesse John Wayne, por certo Clint Eastwood seria sempre o primeiro nome de ator a ser lembrado quando o assunto fosse o faroeste como gênero cinematográfico. Nos anos 50 a carreira de Clint não estava indo a lugar nenhum, até que se tornou o vaqueiro ‘Rowdy Yates’ na série de TV “Rawhide”. Ainda no western Clint tornou-se célebre pelas mãos de Sergio Leone na trilogia dos dólares. Mesmo como ‘Dirty Harry’, Clint Eastwood jamais deixou de ser um cowboy na cidade grande. Alguns de seus western posteriores estão entre os melhores do cinema, como “Josey Wales”, “O Cavaleiro Solitário” e “Os Imperdoáveis”. Por sinal, o reconhecimento da crítica ao ator e cineasta Clint Eastwood confirmou-se com este último western, assim como a própria Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood lembrou que ele existia dando-lhe prêmios. Ora, por que então Clint Eastwood virou as costas para o western?

QUASE 20 ANOS LONGE DOS WESTERNS - Clint é um verdadeiro fenômeno por estar em plena atividade aos 81 anos. Seu último filme como diretor, rodado em 2011 (”J. Edgar”) biografando o discutido e eterno diretor do FBI J. Edgar Hoover deve ser lançado ainda neste ano. Depois de “Os Imperdoáveis”, filmado em 1992, Clint Eastwood participou de 16 filmes, dirigindo 15 deles (só não dirigiu “Na Linha de Fogo”) atuando em nove deles e nenhum desses 16 filmes foi um faroeste. Em “Cowboys do Espaço”, que Clint dirigiu e atuou em 2000, teve no elenco três notórios cowboys (ele próprio, Tommy Lee Jones e James Garner), transformando-os em... astronautas. Alguém que esteja lendo este texto vai dizer: “Ah, mas Clint já está velho demais para filmar um western.” Outro completará tentando justificar: “Ele é o dono da Malpaso, a produtora de seus filmes e como westerns não dão dinheiro, o produtor Clint Eastwood procura outros gêneros.” Alguns dos filmes que Clint dirigiu e/ou atuou nos últimos 19 anos, depois de “Os Imperdoáveis”, certamente foram mais difíceis de fazer que qualquer western. Quanto à questão de dinheiro, se é que nesta altura da vida Clint Eastwood ainda precisa de mais dinheiro, multimilionário que é, vale à pena fazer um rápido levantamento de quanto renderam seus filmes.

(O levantamento abaixo foi feito por Cinewestermania usando os dados do site Box Office Mojo e posteriormente sendo feita por este blog a correção da inflação até 2011. Os números apresentados são em milhões de dólares.)


Os Imperdoáveis (Unforgiven), 1992 - 182.158.000,00

Gran Torino, 2008 - 154.700.000,00

Na Linha de Fogo (In the Line of Fire), 1993 - 150.245.000,00

Menina de Ouro (Million Dollar Baby), 2004 – 119.146.000,00

Cowboys do Espaço (Space Cowboys), 2000 – 118.152.000,00

Sobre Meninos e Lobos (Mystic River), 2003 – 110.173. 000,00

As Pontes do Madison (The Bridges of Madison), 1995 – 105.540.000,00

Poder Absoluto (Absolute Power), 1997 – 70.159.000,00

Um Mundo Perfeito (A Perfect World), 1993 – 48.452.000,00

Invictos (Invictus), 2008 – 39.163.000,00

A Conquista da Honra (Flags of Our Fathers), 2006 – 37.486.000,00

A Troca (The Challenging), 2008 – 37.332.000,00

Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal (Midnight in the Garden of Good and Evil), 1997 – 35.179.000,00

Além da Vida (Hereafter), 2010 – 33.744.000,00

Dívida de Sangue (Blood Work), 2002 – 32.798.000,00

Crime Verdadeiro (True Crime), 1999 – 22.475.000,00

Cartas de Iwo-Jima (Letters from Iwo-Jima), 2006 – 15.346.000,00


Como vemos, nenhum dos filmes em que Clint Eastwood atuou e/ou dirigiu depois do sucesso do western “Os Imperdoáveis” chegou perto deste que foi o último western de sua carreira. A conclusão lógica é que o afastamento de Clint Eastwood dos westerns não foi por razões financeiras. Fosse para ganhar mais dinheiro a Malpaso deveria ter produzido muitos outros faroestes, ao invés dos tantos fracassos que foram muitos dos filmes de Clint Eastwood posteriores a “Os Imperdoáveis”. E pode ser chamado de fracasso qualquer filme que não arrecade acima de 50 milhões de dólares. Vale à pena, também, conhecer quanto renderam nas bilheterias, sempre em valores corrigidos, todos os westerns em que Clint Eastwood atuou e/ou dirigiu em sua carreira:


Doido para Brigar, Louco para Amar (Every Which Way But Loose), 1978 – 293.881.000,00

Punhos de Aço (Any Which Way you Can), 1980 – 192.936.000,00

Os Imperdoáveis (Unforgiven), 1992 – 182.158.000,00

Três Homens em Conflito (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo), 1967 – 169.016.000,00

Josey Wales, o Fora-da-Lei (Outlaw Josey Wales), 1976 – 126.694.000,00

Por uns Dólares a Mais (For a Few Dollars More), 1967 – 101.005.000,00

Por um Punhado de Dólares (A Fistful of Dollars), 1967 – 97.638.000,00

Os Aventureiros do Ouro (Paint Your Wagon), 1969 – 88.859.000,00

Cavaleiro Solitário (Pale Rider), 1985 – 86.555.000,00

A Marca da Forca (Hang ‘Em High), 1968 – 71.090.000,00

O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter), 1973 – 79.527.000,00

Bronco Billy (Bronco Billy), 1980 – 66.229.000,00

Joe Kid (Joe Kid), 1972 – 34.058.000,00

Os Abutres têm Fome (Two Mules for Sister Sara), 1970 – 31.881.000,00


Os dois maiores sucessos da carreira de Clint Eastwood foram as comédias “Doido para Brigar, Louco para Amar” e “Punhos de Aço” que não são exatamente faroestes. No entanto são filmes rurais e a persona do ‘Man With No Name’ está presente em ambas, faltando só o poncho e a cigarrilha para completar o Clint dos faroestes. A trilogia dos dólares aparece aqui com o ano de 1967 porque nos Estados Unidos esses três filmes foram lançados ao mesmo tempo, em 1967. Vale lembrar ainda que todas as cifras referem-se apenas ao mercado norte-americano. Como se sabe, no mundo todo, especialmente na Europa, a trilogia dos dólares de Sergio Leone foi estrondoso sucesso de bilheteria.

JOHN WAYNE, EXEMPLO NÃO SEGUIDO - Talvez a resposta para a pergunta ‘Por que Clint Eastwood virou as costas para o western?’ fosse a intenção de mostrar ao mundo que ele é muito mais que apenas um ator ou diretor de faroestes. Se esse foi o objetivo de Clint, a meta foi foi alcançada apenas em parte porque para a história do cinema Clint Eastwood entrou e vai permanecer como um cowboy. E perderam os fãs de westerns com a precoce despedida feita em “Os Imperdoáveis”. Mal comparando lembramos que John Wayne estava bastante doente em seu derradeiro filme “O Último Pistoleiro”, ou seja, nunca abandonou o western. Por isso também jamais John Wayne deixará de ser a própria definição do cowboy no cinema.

11 de junho de 2011

PEDRO ARMENDÁRIZ IRRITANDO JOHN FORD EM "E O CÉU MANDOU ALGUÉM"


Pedro Armendáriz representava para o cinema mexicano o mesmo que Clark Gable ou Gary Cooper significavam para Hollywood. Pedro Armendáriz era o incontestável Rei dos Galãs do México. Já havia feito quase 50 filmes quando obteve um papel em “Domínio de Bárbaros” (The Fugitive), de John Ford, filmado no México em 1947. Em seguida, também sob a direção de Ford Pedro Armendáriz atuou em “Sangue de Heróis” (Fort Apache). Em ambos esses filmes Armendáriz desempenhou militares e teve que usar trajes de soldados. Em 1948 o maior galã mexicano filmaria outra vez com John Ford em “E o Céu Mandou Alguém” (3 Godfathers), produção do próprio Ford para a Metro Goldwyn Mayer. Armendáriz interpretaria ‘Pedro Roca Fuerte’, um dos três bandidos que encontram um bebê. Os outros dois bandidos seriam John Wayne e Harry Carey Jr. Num palco da MGM John Ford estava sentado para examinar as roupas dos atores e na sua frente estavam Duke, Dobe e Armendáriz. Duke e Dobe estavam OK e foram dispensados por Ford. Ficou Armendariz, aristocrática e imponentemente vestido com um traje típico dos mariachis. Roupa escura, toda bordada em ouro, sombrero enorme também todo decorado e botas enfeitadas com pedras onde luziam enormes esporas. Uma perfeita e completa extravagância digna de um grande astro.


Sentado à frente de Armendariz, Ford estava com aquela imutável expressão que quem o conhecia sabia que era mortal. Ford colocou os óculos na testa (sem os óculos Pappy não conseguia enxergar nada) e falou para o ator mexicano: “Pedro, este é um filme passado no deserto. Você é um bandido fugitivo, sedento e faminto. Essas suas roupas parecem mais apropriadas para um desfile para turistas lá em Guadalajara.” Armendariz retrucou: “Mas Jack, eu sou um ídolo no México. Quero representar meu povo galhardamente. Quero levar ao mundo a melhor imagem do homem mexicano.” John Ford respondeu com a mais cruel ironia: “Pedro, guarde essa roupa para o próximo filme que vou fazer especialmente para você usá-la. Sente-se aqui e espere um pouco.” Ford levantou-se e foi pessoalmente ao enorme setor de vestuário da MGM e trouxe as roupas que Pedro Armendariz usa em “O Céu Mandou Alguém”. Roupas em tudo diferentes do caríssimo traje que o ator mexicano encomendou a seu alfaiate no México. “O Céu Mandou Alguém” foi bem nas bilheterias ainda que não tenha se tornado um clássico. John Wayne está excelente no filme, assim como Armendariz e Harry Carey Jr. John Ford e Pedro Armendariz continuaram amigos até a morte de Pedro aos 51 anos, em 1963. Porém nunca mais voltaram a trabalhar juntos, talvez por culpa da magnífica e resplandecente roupa de Pedro Armendáriz.

Harry Carey Jr. (Dobe), Pedro Armendáriz e John Wayne

4 de junho de 2011

O MUTILADO WESTERN DE ROY ROGERS


De uns tempos para cá tornou-se comum o lançamento dos chamados “Director’s Cut” (versão do diretor). São relançamentos de DVDs contendo cenas deletadas e não lançadas na edição normal dos filmes. Alguns desses “Director’s Cut” aumentam consideravelmente o tamanho de um filme, outros quase nada acrescentam, como é o caso da versão do diretor de “Meu Ódio será Sua Herança”, que tem um minuto a mais apenas que a versão normal. Esses lançamentos geralmente acontecem com filmes mais famosos e que despertam o interesse principalmente dos colecionadores que querem ver como o filme ficaria sem ser mutilado pelos estúdios ou, algumas vezes, pela censura. Mas ver o filme cortado aqui e ali não é privilégio apenas dos filmes mais caros. Mesmo aquelas produções menores de estúdios como a Republic Pictures também entravam na tesoura...


ROY ROGERS EM GRANDE ESTILO - Em 1942 Gene Autry seguiu para o front da 2.ª Guerra Mundial e deixou vago o trono de “Rei dos Cowboys”. Herbert J. Yates, o afamado e difamado chefão da Republic logo tratou de substituir Gene Autry e promoveu Roy Rogers a principal mocinho da casa. E preparou uma quase superprodução (para os padrões dos westerns-B) intitulada “Heart of the Golden West” para catapultar de vez a já ascendente carreira de Roy Rogers. Smiley Burnette que ficou sem mocinho com a partida de Gene Autry foi o sidekick ao lado de George ‘Gabby’ Hayes que vinha sendo o sidekick constante de Roy Rogers. E todos sabem que dois sidekicks era um luxo não permitido na Republic. A mocinha foi Ruth Terry e o elenco teve ainda Walter Catlett, Leigh Whipper, Paul Harvey, Edmund MadConald, William Haade, Fred Burns e Hal Taliaferro. Completou o elenco o maior bigode do Oeste, o inconfundível Hank Bell. Como não poderia deixar de ser, Trigger também está presente nos créditos de “Heart of the Golden West”. Yates caprichou na inevitável parte musical que ficou a cargo de Bob Nolan e dos Sons of the Pioneers (Lloyd Perriman, Tim Spencer, Carl Farr, Hugh Farr e Pat Brady), além de Roy Rogers, claro, que não perdia a oportunidade de mostrar sua bela voz. Não contente, o chefão da Republic contratou para o filme o Hall Johnson Choir, famoso coral que havia participado de muitos filmes, entre eles “Branca de Neve e os Sete Anões”, “Dumbo” “Zenóbia” (Oliver Hardy), “A Tentação de Zanzibar” (com Bing Crosby & Bob Hope), “A Princesinha das Ruas” (com Shirley Temple), “Seis Destinos” (com Rita Hayworth e Henry Fonda) e até de “Lady for a Night”, com John Wayne. Como se vê, Herbert J. Yates não economizou e entregou a direção a Joseph Kane, que por sinal dirigiu todos os oito westerns de Roy Rogers em 1942.

Ruth Terry (acima);
Roy com Smiley
DELETANDO CANÇÕES - A história de “Heart of the Golden West” é a mesma vista em dezenas (quiçá centenas) de pequenos westerns: um fazendeiro e sua filha são intimidados por um poderoso barão do gado interessado em ficar com seu gado e suas terras. Aí surge o mocinho Roy Rogers para socorrer o velho oprimido e sua delicada e bonita filha (Ruth Terry). Acontece que o filme atingiu a metragem de 68 minutos, ou seja, fora dos padrões dos westerns B que raramente chegavam aos 60 minutos. Ao saber disso Yates autorizou um corte de três minutos e uma das muitas canções foi ‘sacrificada’. E assim o filme foi lançado nos Estados Unidos em Nova York em 16 de novembro de 1942. As cópias enviadas para as cidades do interior foram reduzidas a 60 minutos e outras canções sofreram a ação da implacável tesoura de Yates. As cópias lançadas em VHS quase 50 anos depois apresentavam “Heart of the Golden West” com apenas 54 minutos. Desapareceram o Hall Johnson Choir e outras músicas cantadas por Roy e por Bob Nolan e os Sons of the Pioneers, isto para tristeza daqueles que apreciam um western recheado de músicas que nada têm a ver com a história. Para aqueles que detestam músicas em faroestes até que “Heart of the Golden West” ficou melhor pois não houve nenhum prejuízo em relação à história. Os fãs de Smiley Burnette também não têm o que lamentar pois o boboca incapaz de andar cinco passos sem tropeçar está todinho no filme. Curiosamente “Heart of the Golden West” foi exibido na Austrália com a metragem original de 68 minutos. Como não estamos na Austrália, seria interessante que fosse lançado no Brasil (e até nos States) uma espécie de “Director’s Cut” desse western- B para a alegria dos milhões de fãs de Roy Rogers, o Rei dos Cowboys e daqueles que apreciam músicas durante os faroestes.

VIDEOS COM SUCESSOS MUSICAIS DE ROY ROGERS
Clicando nos endereços abaixo o fã de Roy Rogers poderá assistir vídeos com
 fotos do Rei dos Cowboys, ao som de suas grandes interpretações musicais.

“Happy Trails” - http://youtu.be/hgw_yprN_-w

“The King of the Cowboys” - http://youtu.be/XqQL77j1ank

“Hold on Pardner” - http://youtu.be/9ClzmYSh3kw

“Rodeo Road” - http://youtu.be/k9Nm6auaL3M

“Yellow Rose of Texas” - http://youtu.be/rPM7zzElj-Q

“Little Joe the Wrangler” - http://youtu.be/Q7y43dU3spo

“Alive and Kickin’” http://youtu.be/gdKdapGY9eQ