BAZIN E OS MELHORES WESTERNS - Andrè Bazin surpreendeu o universo da crítica cinematográfica quando escreveu no Cahiers Du Cinemà, em 1957, que “Sete Homens Sem Destino” (Seven Men From Now), 1956, era um dos três melhores westerns do cinema, superado apenas por “Rastros de Ódio” (The Searchers) e por “O Preço de um Homem” (The Naked Spur). O celebrado crítico francês faleceu em 1958, sem ter visto os derradeiros westerns do trio Budd Boetticher-Burt Kennedy-Randolph Scott. Tivesse vivido para assistir “O Homem Que Luta Só” (Ride Lonesone), de 1959, escrito por Kennedy e dirigido e interpretado por Boetticher e Scott, que também eram os produtores e certamente Bazin ficaria numa situação desconfortável. Teria o crítico que aumentar de três para quatro seu leque dos melhores westerns com outro filme de Boetticher, pois “O Homem Que Luta Só” se situa no mesmo nível estético e psicológico do tão elogiado “Sete Homens Sem Destino”, assemelhando-se ao mesmo ainda na ação e no cenário. A diferença, se ela existe, chama-se Lee Marvin brilhante em “Sete Homens Sem.
A IMPORTÂNCIA DE BURT KENNEDY - Os faroestes da famosa série Boetticher-Scott são todos econômicos e relativamente curtos, mal passando dos 70 minutos de duração. O ponto alto desses westerns não é a ação, já que ela é quase sempre concentrada no final do filme, lembrando bastante os filmes em série para a TV, cujo desfecho de cada história semanal funcionava também como seu epílogo. Dos sete westerns da série, os cinco que merecem mais atenção são justamente aqueles escritos por Burt Kennedy, cujos pontos altos são os roteiros inteligentes, com frases impressivas e com situações que se alternam inesperadamente. Uma melhor observação denota que Burt Kennedy foi fortemente inspirado na criação de suas histórias pelos westerns de Anthony Mann estrelados por James Stewart. Isso pode ser percebido já no seu primeiro roteiro para o cinema, justamente “Sete Homens Sem Destino”, onde o tema constante da obsessiva vingança e da amoralidade se faz presente, o que também permeia os roteiros posteriores de Kennedy para a série com Randolph Scott e Boetticher.
OUTRA HISTÓRIA DE VINGANÇA - Em “O Homem Que Luta Só”, Ben Brigade (Scott) ex-sheriff de Santa Cruz prende o assassino Billy John (James Best), a quem deve conduzir até aquela cidade onde será julgado e enforcado. Brigade retarda sua caminhada até Santa Cruz para dar tempo para que o bandido Frank (Lee van Cleff), irmão de Billy, os alcance e possibilite o ajuste de contas entre ele Brigade e Frank. No trajeto até Santa Cruz encontram Sam Boone (Pernell Roberts) e Whit (James Coburn), foragidos da justiça que tencionam deixar de ser malfeitores, usando para isso a entrega do bandido Billy como se eles e não Brigade o tivessem capturado. Encontram também a senhora Carrie Lane (Karen Steele), cujo marido foi morto pelos índios. Para entregar Billy à justiça e serem anistiados de seus crimes, Boone e Whit precisam eliminar Brigade. A razão do ajuste de contas entre Brigade e Frank é que este havia enforcado a esposa de Brigade como forma de vingança. Frank teve que cumprir pena na prisão de Yuma depois de ser preso por Brigade. Quando afinal Frank se defronta com Brigade, acaba sendo morto por este. Surpreendentemente Brigade permite que Billy seja levado a Santa Cruz não por ele, mas sim pelos dois foras-da-lei que tencionam se recuperar aos olhos da Justiça. A cena final se passa exatamente onde está a árvore na qual Frank havia enforcado a esposa de Ben Brigade.
ROTEIRO DE AMBIGUIDADES - “O Homem Que Luta Só” foi filmado inteiramente em locações, a maior parte delas em Alabama Hills, que foi cenário também de “Sete Homens Sem Destino” e “O Resgate do Bandoleiro” (The Tall T). A memorável sequência final na qual Brigade vinga-se de Frank foi filmada em Lone Pine. O fato de não haver cenas de estúdio foi determinante para que a aridez de Alabama Hills desse maior autenticidade às ásperas conversas mantidas entre os personagens. O laconismo de Ben Brigade (Scott) com respostas secas transforma-o num ser amargo e obcecado pelo único propósito de sua vida. Quando Carrie Lane (Karen Steele) tenta percrustar seu interior ele lhe responde: “Dona, você sabe fazer um café como ninguém” e retira-se. Whit (James Coburn) e Boone (Pernell Roberts) conversam tão aberta quanto ambiguamente. E ambíguas são diversas situações de “O Homem Que Luta Só”, tão comuns nos cinco westerns roteirizados por Burt Kennedy. Em certo momento Whit segura o espelho para Boone se barbear enquanto Carrie exibe sua silhueta tentadora. Em outro momento Boone diz para o amigo que o quer como sócio no futuro, porque gosta muito dele, palavras estranhas para quem libidinosamente olha para Carrie. E mais uma vez o homem que quase sempre luta só (Randolph Scott) distancia-se da provocante mulher que desaparece com os amigos Whit e Boone. Solitário, Brigade vê queimar a árvore que serviu duas vezes de forca. Nenhum dos roteiros de Burt Kennedy posteriores aos feitos de encomenda para a série com Boetticher e Scott, tiveram igual dose de ambigüidade, solidão do herói ou obsessão por vingança. Muito pelo contrário, os roteiros de Kennedy foram marcados por muita ação e pelo tom alegre de comédia, o mesmo valendo para os western que dirigiu, sendo exemplos maiores “Gigantes em Luta” (The War Wagon) e as comédias “Uma Cidade Contra o Xerife” (Support Your Local Sheriff) e "Látigo, o Pistoleiro" (Support Your Local Gunfighter). Inequivocamente Burt Kennedy escreveu para a persona criada por Randolph Scott, persona essa, como já foi dito tantas vezes, evocativa dos personagens de William S. Hart.
ELENCO HETEROGÊNEO - “O Homem Que Luta Só” marcou a estréia de James Coburn no cinema e como Whit ele está longe do tipo sarcástico que marcaria sua presença na tela. Pernell Roberts, por sua vez é o próprio Adam Cartwright que personificaria por vários anos na série Bonanza: cínico e atrevido. Lee Van Cleff com bigodinho e chapéu que o Coronel Mortimer e Sabata usariam na sua fase de westerns Made-in-Italy. James Best mais uma vez exibe seu irritante cacoete de rir na hora errada, sua marca registrada que só funcionou bem quando ele virou o hilariante Sheriff Roscoe P. Coltrane na bem sucedida série The Dukes of Hazzard, feita para a TV. Excesso ainda maior em “O Homem Que Luta Só” é a figura de Karen Steele, inteiramente deslocada da atmosfera criada para o western. Sua cinturinha de pilão e seios de pin-up, lembrando Mamie Van Doren destoam do rigor formal do restante da produção. E assim como John Wayne era sempre John Wayne, Randolph Scott sempre personificou Randolph Scott nos seus westerns. Alguns deles clássicos como este “O Homem Que Luta Só”.