Quando filmou “Renegando meu Sangue”,
em 1957, Samuel Fuller já era reconhecido como um cineasta controvertido. Pelo
inusitado dos temas seus filmes nunca deixavam de impressionar, o que ocorrera
nos dois primeiros westerns escritos e dirigidos por Fuller. Esses filmes foram
“Eu Matei Jesse James” (I Shot Jesse James) e “O Barão Aventureiro” (The Baron
of Arizona). Sob o ponto de vista de Fuller, Robert Ford fez um bem à
humanidade ao assassinar o perverso Jesse James. E o Barão do Arizona não
conquistara esse título com a violência típica vista em tantos filmes, mas sim
através da forja de documentos centenários. Em “Dragões da Violência” (Forty
Guns), seu quarto faroeste, Fuller mescla poder, corrupção e amor no Velho
Oeste, onde os homens são subjugados por uma mulher forte e resoluta.
“Renegando meu Sangue”, filmado no mesmo ano de “Dragões da Violência” é também
um western estranho e insólito.
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| Rod Steiger e Marlon Brando em cena de "Sindicato de Ladrões". |
Complexo
de Marlon Brando - Produzido pela moribunda RKO em
parceria com a Global Enterprises (empresa do próprio Samuel Fuller),
“Renegando meu Sangue” teve de ser ser distribuído pela Universal Pictures
devido à falência da RKO. Fuller queria Gary Cooper para liderar o elenco deste
faroeste, mas teve que se contentar com Rod Steiger, ator com ‘complexo de
Marlon Brando’ e que tinha acessos de estrelismos como se fosse o próprio
Brando. Depois de brilhar na televisão como ‘Marty’, personagem que daria um
Oscar a Ernest Borgnine, Rod Steiger chamou a atenção no cinema como o irmão de
Marlon Brando em “Sindicato de Ladrões”, atuação que lhe valeu fama e uma
indicação ao Oscar. A partir daí Rod Steiger passou a ser uma dor de cabeça
para quem o dirigisse, ‘construindo’ os personagens que interpretava do jeito
que entendia. Foi assim que Steiger quase destruiu “Ao Despertar da Paixão”
(Jubal) com sua atuação excessiva e com uma insuportável tonalidade vocal. E
Steiger se superou em “Renegando meu Sangue”, fazendo com que Sam Fuller,
durante as filmagens, mordesse raivosamente seus inseparáveis charutos. Além de
Rod Steiger havia ainda a bela Sara Montiel para comprometer este terceiro
faroeste de Fuller.
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| O'Meara dispara contra o Tenente Driscoll e em seguida come sobre o corpo inerte. |
O
último tiro da Guerra Civil - O próprio Samuel Fuller escreveu e
dirigiu a história do soldado O’Meara (Rod Steiger) da Infantaria de um
Regimento da Virginia. Esse soldado de origem irlandesa,não se conforma com a
derrota sulista e consequente rendição assinada pelo General Lee passando a
renegar sua pátria. O’Meara havia disparado o último tiro da Guerra Civil
contra um certo Tenente Driscoll (Ralph Meeker), da Cavalaria da U.S. Army. O’Meara
abandona seus parentes, amigos e o Estado da Virginia, rumando para o Oeste,
levando consigo, como souvenir, a bala do último tiro extraída do Tenente
Driscoll, ferido não mortalmente. Em contato com os índios Sioux, O’Meara passa
a admirar a cultura dos nativos e torna-se um deles ao se casar com Yellow
Moccasin (Sara Montiel) e ao ficar amigo do chefe Blue Buffalo (Charles
Bronson). Recuperado do ferimento e obstinado por uma promoção no Exército, o
Tenente Driscoll se vê incumbido de construir o Forte Abraham Lincoln em pleno
território Sioux. Para isso Driscoll confronta os índios que em número
infinitamente superior aniquilam sua tropa. Aprisionado, torturado e prestes a ter
a garganta cortada, Driscoll é morto por O’Meara que dispara a mesma bala com a
qual ferira o Tenente anteriormente, matando-o desta vez. Com isso,
piedosamente, O’Meara livra Driscoll da tortura e da morte violenta, prática comum
dos Sioux. Essa atitude demonstra que O’Meara nunca poderá ser um autêntico
Sioux e o ex-rebelde confederado segue para um novo caminho acompanhado de sua
esposa índia.
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| Acima a rendição de Lee (montado em Traveller), com Ulysses S. Grant à esquerda; abaixo O'Meara com sua mãe, interpretada por Olive Carey. |
Rebelde
sem causa - “Renegando meu Sangue” é um filme supervalorizado, menos
por suas qualidades e mais por ser outro western pró-índio, na linha iniciada
com “O Caminho do Diabo” (Devil’s Doorway) e “Flechas de Fogo” (Broken Arrow),
ambos de 1950. Cita-se frequentemente que este western de Samuel Fuller seria
ainda o inspirador de “Dança com Lobos” (Dances with Wolves), com o qual tem
algumas poucas similaridades. A crise de identidade do personagem O’Meara e seu
encontro com outra cultura a qual passa a admirar seria vista de forma muito
mais coerente (e poética) em “Lawrence da Arábia”. A rebeldia de O’Meara é
justificada por ele não aceitar a tirania ianque que gosta de impor ordens aos
derrotados na guerra. Não se explica, no entanto, por qual razão alguém tão
rancoroso e ressentido não tenha seguido outros rebeldes e imigrado para a
América do Sul, como fizeram tantos sulistas. Segundo Fuller, o personagem
odioso e vingativo de O’Meara é também “burro
e teimoso” e só mesmo alguém assim pode dar ouvidos ao batedor Walking
Coyote (Jay C. Flippen), Sioux que trabalha para o Exército como batedor.
Walking Coyote é um índio alcoólatra que abandonou sua tribo, onde, segundo diz, poderia ter
sido chefe, apenas não tendo sido por “não tolerar ter que
fazer política”, o que, por suas palavras, ocorre também entre os índios.
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| O Tenente Driscoll (Ralph Meeker), personagem calcado no General Custer. |
Sequência
imaginativa - Admirável em “Renegando meu Sangue” é a capacidade de Samuel
Fuller de realizar sequências de grande efeito visual com os escassos recursos
financeiros que teve à sua disposição. As sequências de ação, especialmente o
grande ataque final dos Sioux, são estupendas com excelente uso dos dublês,
entre eles Chuck Roberson. E esse extraordinário stuntmen, que tem pequeno
papel interpretando um sargento da Cavalaria, participa de uma imaginativa
sequência em que salva o indiozinho Silent Tongue (Billy Miller) da areia
movediça. O garoto é salvo mas o sargento é quem é engolido pela areia movediça
na qual entra literalmente de cabeça, vendo-se por último suas pernas
desaparecendo naquela armadilha natural. Cena típica de Sam Fuller que muito
provavelmente ficou ma memória de Sergio Leone pois para se salvar da areia
movediça o indiozinho mudo toca freneticamente sua gaita de boca. O tenente
Driscoll, destilando seu ódio pelos índios é um esboço da personalidade doentia
do General Custer. Menos vaidoso que o comandante do 7.º Regimento de Cavalaria,
é certo, mas capaz de criar seu próprio Little Big Horn e levar à morte quase
toda sua tropa.
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| Jay C. Flippen com a horrenda peruca; Charles Bronson no auge de sua forma física, H.M. Wynant e Rod Steiger. |
Descuidos
de Sam Fuller - O título original “Run of the Arrow”
faz referência a um cruel jogo Sioux que permite a seus prisioneiros tentar
escapar correndo descalços por uma planície pedregosa em direção a uma flecha
disparada e fincada no solo. Após o prisioneiro ter ultrapassado a flecha, um
guerreiro calçado com mocassins persegue velozmente o prisioneiro, dando
fatalmente cabo de sua vida. Se o prisioneiro escapar recebe a liberdade como
prêmio. E Fuller tenta fazer o espectador acreditar que o gorducho Rod Steiger
com os pés ensanguentados seja mais rápido que o atlético e feroz Sioux Crazy
Wolf (H.M. Wynant). E o jogo se repete de forma invertida, com Steiger correndo
atrás de um descalçado Crazy Wolf. Lembrado por ser o primeiro filme
norte-americano a mostrar sangue na tela, “Renegando meu Sangue” é também
lembrado por castigar o sempre correto coadjuvante Jay C. Flippen fazendo-o
usar a mais bizarra peruca já vista em um western, modelo ‘Moe Howard’, dos
Três Patetas e que ornava a cabeça do nosso ‘Zacarias’ dos Trapalhões. A
intenção de Fuller de ressaltar o caráter nobre e leal dos índios é
desnecessariamente enfatizada com a exibição da beleza física dos nativos,
apolíneos como Blue Buffalo (Charles Bronson) e Crazy Wolf. E há ainda a atriz
Sara Montiel que após aparecer bem em “Vera Cruz” surge tão bela quanto insonsa
como índia Sioux em “Renegando meu Sangue”. Sem falar Inglês, a atriz foi dublada por Angie Dickinson. Certamente a espanhola Sarita foi
uma imposição que Fuller teve que aceitar, pois Hollywood queria fazer dela uma
nova Dolores Del Río. Após três filmes norte-americanos e um casamento anulado
com Anthony Mann, Sara Montiel voltou para a Espanha onde se consagrou em
melodramas musicais de enorme sucesso de público.
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| O'Meara (Rod Steiger) com Yellow Moccasin Sara Montiel, sua esposa Sioux. |
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| Sam Fuller, com o charuto, ao lado do cinegrafista Joseph Biroc, com quem fez quatro filmes. |
Western
desigual - O elenco de “Renegando meu Sangue” tem ainda Brian Keith,
contraponto ao overacting de Rod Steiger e à cansativa arrogância que Ralph
Meeker dá a seu personagem. Charles Bronson com o corpo untado e luzidio é uma
pálida imagem do astro que viria a ser alguns anos depois. Os veteranos Olive
Carey e Tim McCoy têm pequenos papéis, assim como Frank DeKova e Carleton
Young. Diferentemente de “Dragões da Violência” que é um completo exercício de
como operar uma câmara cinematográfica, “Renegando meu Sangue” é um filme mais
contido nesse aspecto, ainda que o cinegrafista seja o mesmo excelente Joseph
Biroc do western com Barbara Stanwyck. A música de Victor Young pontua
discretamente este terceiro faroeste de Fuller, exceto na impactante cena
inicial, o que é típico do diretor. O final aberto diz ao espectador ‘O fim desta história só pode ser escrito
por você’. Bastante desigual, alternando momentos de grande criatividade
com outros verdadeiramente ridículos, “Renegando meu Sangue” merece ser visto
justamente por ser um filme de Samuel Fuller. Os filmes desse diretor são
polêmicos porque possibilitam discussões e novas descobertas a cada revisão. O
difícil, porém, é aguentar por mais de uma vez o sotaque irlândes de Rod
Steiger expresso com a mais irritante das vozes.










