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18 de outubro de 2012

DUELO AO SOL – CONFRONTO ENTRE O PERVERSO E O BIZARRO


Os melhores filmes normalmente são compostos de ótimas sequências, o que não significa que ótimas sequências, isoladamente, resultem em um excelente filme. Este é o caso de “Duelo ao Sol”, faroeste pretensamente épico com alguns momentos admiráveis inseridos numa longa e excessivamente melodramática narrativa. A falta de unidade de “Duelo ao Sol” pode ser atribuída ao número recorde de diretores que dirigiram o filme, mas o grande responsável pelo enorme desperdício de dinheiro e de talentos foi mesmo seu produtor, David O. Selznick. Além de produzir, Selznick ainda assinou o roteiro, participou da edição e, sem dúvida, orquestrou o trabalho dos muitos diretores que contratou para a realização de um filme puramente comercial com pretensões a ser um clássico do gênero.


Joseph Cotten e Jennifer Jones;
Jennifer e Lillian Gish.
Pearl Chavez chega ao novo lar - Conhecedor profundo do gosto do público, Selznick temperou seu monumental faroeste com ênfase na lascividade não se esquecendo do toque bíblico de dois irmãos inimigos. Nem Cecil B. DeMille faria melhor (ou pior). Partindo de uma história de Niven Busch, Selznick deu o tom trágico e amoral à narrativa que conta como Pearl (Jennifer Jones), uma inocente mestiça, se torna órfã e vai viver na Fazenda ‘Spanish Bit’. A extensa propriedade pertence ao Senador Jackson McCanles (Lionel Barrymore), o maior criador de gado daquela região do Texas, próxima à fronteira com o México. A mãe de Pearl dançarina da megacantina local, após uma frenética dança diante de centenas de olhos dos frequentadores, sem direito mesmo a recuperar o fôlego, sobe direto para o quarto com o amante. Scott Chavez (George Marshall), o esposo jogador, acometido de repentino ataque de dignidade lava sua muito abalada honra matando os amantes. Morar na fazenda dos McCanles era uma sorte caída dos céus para Pearl e isso só ocorreu porque seu pai Scott Chavez fora amante de Laura Belle (Lillian Gish), esposa do barão de gado. O velho Senador jamais esqueceu o fato e nunca perdoou esse relacionamento da esposa. E certamente o senador é um racista, como não poderia deixar de ser. O barão de gado torna a inocente jovem de pele escurecida o alvo de seu amargo ressentimento, agredindo-a com palavras e, ainda que preso a uma cadeira de rodas, lança à moça olhares inconfessáveis. O Senador e Laura Belle têm dois filhos: Jesse (Joseph Cotten) e Lewt (Gregory Peck). A única mulher da fazenda, além de Laura Belle é a negra Vashti (Butterfly McQueen), atrapalhada para falar mas esperta o suficiente para notar que os dois irmãos disputam os encantos de Pearl.

Cotten e Peck, diferentes em tudo, até nos cintos.
Mestiça para o prazer - Jesse é advogado, culto, refinado e elegante (menos na escolha de um cinto comprado na mesma general store em que Shane comprou o seu). O certinho Jesse gosta de Pearl e a ingênua mestiça corresponde. E tudo vai bem, até que surge Lewt, o Caim da história que é arrogante, turbulento e com um código moral que não respeita mulheres. Para Lewt as mestiças são tão ardentes quanto fáceis. Pearl é naturalmente atraída pela soberba e presunção do bonito moço rebelde das planícies. Mas Pearl quer ascender socialmente e tornar-se uma nova Laura Belle. Pearl sabe que Jesse é quem lhe abrirá essa porta. No entanto a porta que se abre é a do barracão onde Pearl foi estranhamente alojada, como que se na mansão dos McCanles não houvesse um quarto para hóspedes. E quase da altura da porta do barracão iluminado por um lampeão surge o impetuoso Lewt, inicialmente rechaçado por Pearl que afinal não resiste aos braços e lábios do atrevido herdeiro McCanles. A razão de Pearl lhe diz para ficar com Jesse, enquanto o coração quer mesmo Lewt. A razão aparentemente fala mais forte, mas Pearl é bipolar e decide até se banhar nua num riacho enchendo-se de pudor ao saber que é observada por Lewt. Exatamente quando Jesse percebe que não terá chances com Pearl, ocorre um desentendimento com o pai e Jesse decide partir de Spanish Bit, liberando o caminho para Lewt. Pearl então descobre o óbvio: que o filho também racista do senador jamais se casaria com uma mestiça, de quem quer apenas o prazer.


Jennifer Jones, com Gregory Peck e com Joseph Cotten (fotos acima)
Lillian Gish com Walter Huston, os melhores do filme.

A famosa sequência final de
"Duelo ao Sol", com Jennifer e Peck.
Hollywood virando Churubusco - Surge então o capataz Sam Pierce (Charles Bickford), um infeliz disposto a se casar com Pearl, o que não se consuma porque Lewt, tomado por possessivo ciúme, mata Sam Pierce. A aliança de noivado rola dramaticamente da mão de Pierce. Jesse por sua vez, se deu bem em Austin, onde é cotado para ser governador e fica noivo de Helen Langford (Joan Tetzel) uma moça fina da sociedade da capital texana. Spanish Bit passa por maus momentos com a autorização federal para a ferrovia cortar as terras do intransigente Senador McCanles. O que o Senador é incapaz de fazer é executado por Lewt, então foragido da Justiça, provocando o descarrilamento de um trem carregado de explosivos. Em seguida o invejoso Lewt dispara contra Jesse, ferindo-o gravemente. A frágil Laura Belle não resiste a tantas desgraças e falece nos braços do marido. Lewt foge com destino ao México mas é alcançado próximo à fronteira por Pearl que hábil no manejo do rifle dispara contra ele. Lewt revida e atinge a mestiça que ferida arrasta-se até onde seu grande amor se esvai em sangue sob o sol inclemente do Texas. Pearl abraça Lewt e o amor e o ódio que atrairam os amantes os leva ao trágico fim. “Duelo ao Sol” não é uma produção da Pelmex, como se poderia deduzir da história.

Cowboys contra a Cavalaria.
Western em que tudo é ‘over’ - “Duelo ao Sol” é um faroeste com prólogo de dez minutos, pomposa introdução narrada pela inimitável voz grave de Orson Welles e epílogo com a suíte dos temas musicais criados para o filme por Dimitri Tiomkin. E não faltam em “Duelo ao Sol” os céus avermelhados do poente como cenários e nem mesmo relâmpagos e trovoadas emoldurando todo ódio e paixão dos personagens principais nos momentos mais dramáticos. Insistentes também são os close-ups de Jennifer Jones com suas expressões de escárnio e de provocante sensualidade num dos maiores exemplos de excessos de atuação do cinema. Puro overacting. Quase tudo é over (demasiado) em “Duelo ao Sol”, filme superproduzido, incluída a trilha sonora retumbante e nada sutil de Dimitri Tiomkin. Com todo esse comprometedor excesso e com mal contido riso, “Duelo ao Sol” prende o interesse do espectador pois Selznick não conseguiu destruir os pontos positivos do filme. Belíssimas são as transições de sequências, todas elas através de excepcionais composições de luzes e cores, fruto do trabalho de William Cameron Menzies, que já havia feito o mesmo em “E o Vento Levou”. Essas imagens são de autoria do cinegrafista Ray Rennahan,um dos três que trabalharam em “Duelo ao Sol”. E há as admiráveis sequências filmadas por King Vidor, entre elas o descarrilamento do trem; Lewt domando o corcel negro; a reunião das centenas de cowboys e seu tenso encontro com a Cavalaria; o pregador (Walter Huston) exorcizando os demônios de Pearl. Esses muitos momentos minimizam as incoerências do roteiro e a ênfase no trágico e na lubricidade.

"Duelo ao Sol", um western com grandes imagens e sequências.


Walter Huston tirando o diabo do corpo de Jennifer.
Esgares e arfares - O mesmo King Vidor em seu pequeno e magnífico western “Homem Sem Rumo” (Man Without a Star) tratou muito melhor do tema atração física e da sensualidade sem perder de vista o assunto principal da história que é a relação de dominação e poder dos grandes criadores. Em “Duelo ao Sol” desperdiçou-se o tema da luta do barão de gado contra o progresso, truncado que foi com o respeito do senador McCanles à bandeira de seu país. Mesmo subtramas mais interessantes, como as razões que levaram o senador a aceitar Laura Belle como esposa, foram reduzidas a poucas linhas. O histérico e pretensamente trágico final consumou o perverso e bizarro épico de Selznick. No grande elenco reunido por Selznick se destacam Lilian Gish e Walter Huston. Lillian, por vezes, parece estar ainda no cinema mudo sendo dirigida por Griffith e mesmo assim resplandece, fazendo de cada cena sua um momento de emoção. Walter Huston exuberante como o evangélico dotado de poderes divinos. Joseph Cotten está decididamente enfadonho e Lionel Barrymore colocado sobre um cavalo torna-se uma figura marcante. Gregory Peck ainda em início de carreira é convincente como o maldoso Lewt. Acredite-se: Jennifer Jones com a carregada maquiagem, constantes esgares e arfar de respiração foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz de 1946. David O Selznick, que produziria três anos depois a obra-prima “O Terceiro Homem”, não mais  retornou ao faroeste. Ainda bem.

Lewt (Gregory Peck) domando um cavalo e tentando domar Pearl (Jennifer).




17 de outubro de 2012

A MÚSICA DE DIMITRI TIOMKIN PARA "DUELO AO SOL"


Assista ao clip de "Duelo ao Sol" com trechos dos diversos
temas que Dimitri Tiomkin compôs para esse western.



12 de outubro de 2012

UM FAROESTE PARA SUPERAR EM GRANDEZA “E O VENTO LEVOU”


O livro dos piores filmes e David O. Selznick.
Entre os piores filmes de todos os tempos - Na longa história dos faroestes não há outro mais polêmico que “Duelo ao Sol”. Para muitos, um dos filmes mais importantes do gênero e para outros, um dramalhão feito com extremado mau gosto. Há ainda um terceiro grupo que dá razão tanto para os que admiram a produção de David O. Selznick mas que não deixam de concordar em parte com os que o escarnecem. Apenas dois faroestes ganharam lugar na relação dos 100 piores filmes de todos os tempos contida no livro “The Official Razzie Movie Guide”. Um deles é justamente a superprodução “Duelo ao Sol”. O outro é “Comanche Branco”, despretensioso western filmado na Espanha com William Shatner fazendo um duplo papel de irmãos gêmeos, um cowboy e outro índio. E que coincidência... Joseph Cotten, intérprete de obras-primas como “Cidadão Kane” e “O Terceiro Homem” é o principal nome masculino tanto de “Duelo ao Sol” como de “Comanche Branco”. Mas o que nos interessa mesmo é conhecer melhor “Duelo ao Sol”.

Jennifer Jones, o marido Robert Walker
e os dois filhos; abaixo Jennifer feliz ao
lado de Selznick.
A paixão de Selznick – David O. Selznick declarou certa vez que não gostaria de passar para a posteridade sendo lembrado unicamente como o homem responsável por “E o Vento Levou”. Para se livrar desse estigma, Selznick decidiu produzir “Duelo ao Sol”, épico que superaria em grandiosidade “E o Vento Levou”. No entanto a declaração de Selznick encobria a finalidade maior dessa sua nova produção iniciada em 1945. O que Selznick queria mesmo era demonstrar à atriz Jennifer Jones o quanto ele a amava, fazendo dela a maior estrela de Hollywood. O romance entre Selznick e Jennifer começou em 1944 quando ele produziu e ela estrelou “Desde que Partiste”, drama que tinha no elenco Robert Walker, então marido de Jennifer. Selznick provocou a separação do casal que possuía dois filhos, o que levou Robert Walker,  jovem ator de 26 anos, ao alcoolismo e mais tarde à morte. Jennifer já havia recebido um Oscar por sua interpretação como Bernadette Soubirous em “A Canção de Bernadette” e para consolidar sua ascensão como estrela, nada mais propício do que colocá-la como figura principal do 'maior e melhor faroeste de todos os tempos', o novo projeto de Selznick. O filme se chamaria “Duelo ao Sol”, uma espécie de “E o Vento Levou” com esporas, gado e até alguns tiroteios. E como não havia nada de errado em juntar o lucrativo ao agradável, Selznick sonhava mesmo superar a fama e o prestígio do grande sucesso que produzira em 1939.

Acima à direita, Niven Busch e a esposa,
a maravilhosa Teresa Wright; abaixo
Vivien Leigh como Scarlet O'Hara.
“Um pequeno e artístico western” – O livro “Duelo ao Sol”, de autoria de Niven Busch, fez o maior sucesso no início de 1944 e o autor vendeu a história para a Radio-Keith-Orpheum (RKO). O estúdio não se interessou em produzir esse faroeste e Selznick comprou os direitos do livro. Selznick havia sido, no início dos anos 30, um jovem e bem sucedido Chefe de Produção da RKO, passando depois a produzir seus próprios filmes. Impressionado com as críticas positivas conseguidas por “Consciências Mortas”, Selznick contratou o roteirista Oliver H.P. Garrett e o experiente diretor King Vidor, pedindo a eles que fizessem de “Duelo ao Sol” um pequeno e artístico western. Niven Busch pediu a Selznick que sua esposa Teresa Wright estrelasse o filme que teve o orçamento limitado a um milhão de dólares e cuja produção seria iniciada no começo de 1945. Nesse tempo, porém, Selznick se deixou enfeitiçar totalmente por Jennifer Jones e ocorreu uma total alteração no projeto. Selznick decidiu que a personagem mestiça do livro de Busch seria interpretada por sua amada (e ainda não esposa) Jennifer. Insatisfeito com o primeiro roteiro de Garrett, Selznick contratou o roteirista Ben Hecht para melhorar ainda mais a história. Aquilo que era para ser um ‘pequeno e artístico western’ tomou forma de superprodução, com orçamento de três milhões e meio de dólares. Pouco ainda perto do monumental “E o Vento Levou” que havia custado cinco milhões de dólares seis anos antes. Mas o que eram três e meio milhões de dólares para fazer de Jennifer Jones uma nova Scarlett O’Hara? E se possível mais bonita, mais sensual e mais desejada que a personagem interpretada por Vivien Leigh?

Grandioso elenco: Lillian Gish (acima); Huston,
Cotten, Jennifer, Peck e Barrymore.
Selznick fazendo inveja a DeMille – A composição do elenco de “Duelo ao Sol” deixou claro que Selznick não iria economizar recursos. Para interpretar os dois irmãos que formam o triângulo com Pearl Chavez (Jennifer Jones) foram contratados Gregory Peck e Joseph Cotten. Depois de cinco filmes, Peck era o mais promissor jovem ator de Hollywood. Cotten, por sua vez, era um dos mais requisitados atores do cinema, tendo atuado com Jennifer em “Desde que Partiste”. Os personagens secundários foram bastante desenvolvidos pelos roteiristas e para interpretá-los Selznick contratou nomes importantes e caros como Lionel Barrymore, Lillian Gish, Harry Carey, Herbert Marshall, Charles Bickford e Walter Huston. Para ter Huston no elenco Selznick pagou-lhe 40 mil dólares por apenas quatro dias de trabalho uma vez que o personagem de Huston tinha apenas três cenas na história. Praticamente todos os autênticos cowboys disponíveis em Hollywood foram contratados para atuar em “Duelo ao Sol”, a maioria deles conhecidos dos faroestes B. No filme podem ser reconhecidos Hank Bell, Francis McDonald, Hank Worden, Lane Chandler, Dan White, Sy Jenks, Kermit Maynard e Guy Wilkerson, entre muitos outros. Não se sabe quanto Selznick pagou a Orson Welles para a narração inicial, mas provavelmente o diretor de “Cidadão Kane” garantiu seu estoque de charutos cubanos por duas décadas pelo menos. A equipe técnica de “Duelo ao Sol” foi composta por 150 especialistas entre os melhores do cinema e só para auxiliar King Vidor foram contratados nada menos que oito diretores de segunda unidade.

O diretor King Vidor; abaixo o enorme saloon-cantina.
A greve que parou Selznick – Esse verdadeiro exército de artistas e técnicos foi todo transportado para a primeira das locações de “Duelo ao Sol”, em Tucson, onde foi construída a casa principal da enorme fazenda do Senador Jackson McCanles (Lionel Barrymore). As filmagens com a participação de atores começaram no dia 1.º de março de 1945, no deserto situado a 60 quilômetros de onde a equipe se instalara, em Tucson, Arizona. E ainda haveria outras seis locações principais, sendo que em uma delas foi construída uma pequena estrada de ferro e para lá levado um completo trem da época. Para início das filmagens havia um novo roteiro, desta vez reescrito pelo próprio Selznick e King Vidor percebeu que teria que ter muita paciência com o produtor se quisesse concluir aquele filme. Selznick se intrometia em tudo, não permitindo que nenhuma cena fosse rodada sem sua supervisão. Viciado em anfetaminas, Selznick possuía uma disposição única, parecendo estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Mas Selznick teve que parar depois de seis semanas de filmagens quando eclodiu uma greve de técnicos, em toda Hollywood, que paralisou inteiramente a produção.  Selznick aproveitou a paralisação para trocar o cinegrafista Hal Rosson, cujo trabalho não o estava agradando. Rosson foi substituído por Lee Garmes. A greve foi suspensa somente em 24 de julho de 1945 e as filmagens retomadas imediatamente, bem como os problemas criados por Selznick.

William Diertele e suas luvas brancas.
O diretor das luvas brancas – Após seis meses de filmagens, quando a equipe se encontrava em San Fernando Valley, King Vidor chegou ao seu limite e se desentendeu pela última vez com Selznick, abandonando a produção. Vidor afirmou que saiu porque Selznick gritara com ele na frente da equipe quando o diretor queria refilmar uma cena. Até a chegada do novo diretor, quem assumiu interinamente a direção foi Otto Brower. O substituto de Vidor foi o alemão William Diertele que conseguiu completar as filmagens em fins de novembro de 1945. Sempre elegantemente trajado e usando luvas brancas, Diertele era o oposto de King Vidor, este um especialista em cenas de ação comandando grande número de extras. A sequência do confronto entre cowboys e Cavalaria é um perfeito exemplo do trabalho de Vidor.  Diertele, por sua vez, cuidou mais das cenas passadas em interiores, embora a sequência final entre Lewt McCanles (Gregory Peck) e Pearl Chavez tenha sido por ele dirigida, sempre à sombra de Selznick, que supervisionava até o caminhar das formigas.

Acima Sternberg e Marlene Dietrich; abaixo
William Cameron Menzies, William Diertele,
Chester M. Franklin e Otto Brower.
O diretor de Marlene Dietrich – Parecia que “Duelo ao Sol” estava pronto, mas Selznick queria explorar mais e mais a beleza de sua amada Jennifer Jones. Lembrou-se como Marlene Dietrich aparecera maravilhosa nos filmes “O Anjo Azul” e “O Expresso de Shangai” e ligou para o austríaco Josef von Sternberg, diretor desses filmes. A ideia de Selznick era que Sternberg fizesse inúmeros close-ups de Jennifer Jones, iluminando com perfeição sua tez escurecida de modo a fazer brilhar mais intensamente os olhos e sorrisos da atriz, captando até o arfar de sua respiração. Em “Duelo ao Sol” havia mais diretores que atores e o incansável Selznick supervisionou o trabalho de nada menos que oito diretores. O filme foi dirigido percentualmente por King Vidor (45%), William Diertele (25%), Otto Brower (21%), B. Reeves Eason (3,5%), Josef von Sternberg (3,5), Hal C. Kern (1%), William Cameron Menzies (0,7%) e Chester M. Franklin (0,3%). Oficialmente a direção de “Duelo ao Sol” foi atribuída a King Vidor, ficando David O. Selznick ‘apenas’ como produtor e roteirista. Como não era músico, Selznick teve que contar com o trabalho de Dimitri Tiomkin para compor a trilha sonora de "Duelo ao Sol". Não ficando, no entanto, satisfeito com partes da trilha, Selznick exigiu que o maestro russo refizesse alguns temas, entre eles os das cenas de amor entre Lewt e Pearl. Tiomkin negou-se e ameaçou abandonar o trabalho, o que não foi aceito por Selznick que, inacreditavelmente, foi vencido nessa batalha por Tiomkin.

A famosa pose de Jane Russell para "O Proscrito",
imitada por Selznick com a clara diferença entre
as atrizes; à esquerda o Grauman's.
Boicote das igrejas – Os intermináveis gastos com a produção de “Duelo ao Sol” elevaram o orçamento final do filme para estratosféricos seis milhões de dólares. E ainda faltava o lançamento do western de Selznick, o que implicaria em novas despesas. Para qualificar “Duelo ao Sol” à competição do Oscar de 1946, Selznick promoveu o lançamento do filme no dia 30 de dezembro de 1946, no luxuoso Grauman’s, em Los Angeles. Foram duas sessões diárias durante duas semanas, sempre com ingressos antecipadamente reservados, após o que retirou o filme de cartaz. Com notícias 'plantadas' por Selznick, os jornais comentavam que “Duelo ao Sol” era um filme ainda mais escandaloso que “O Proscrito”. Essa produção de Howard Hughes, filmada em 1941, teve que lutar vários anos contra a censura antes de ser lançado oficialmente em 1946. Líderes católicos e protestantes encetaram ferozes campanhas contra o filme de Selznick, exigindo sua retirada de exibição, mas depois de 40 cortes não havia mais em "Duelo ao Sol" nenhuma cena mais erótica que impedisse a exibição do filme. Mesmo assim "Duelo ao Sol" foi banido na cidade de Memphis. Dono de seu filme e inteiramente independente dos grandes estúdios, Selznick criou uma estratégia de marketing sui-generis para a exibição de “Duelo ao Sol”. Selznick fez uma verdadeira blitz de anúncios de todos os tipos, chegando até a utilizar páraquedas descendo em praças esportivas. Para isso o produtor gastou nada menos que dois milhões de dólares, quantia que a 20th Century-Fox gastava num ano inteiro com publicidade de seus filmes. Assim Selznick preparou o público norte-americano para assistir “Duelo ao Sol” que, cinco meses após a curta exibição inicial, foi lançado no dia 7 de maio de 1947 simultaneamente em mais de 300 cinemas espalhados por todo o país.

Pearl e Lewt
Extraordinário sucesso de público – Apesar das críticas quase todas negativas que “Duelo ao Sol” recebeu, multidões corriam aos cinemas para ver Jennifer Jones agonizar nos braços de Gregory Peck que já estava morto sob um sol escaldante. O filme foi maliciosamente chamado de “Lust in the Dust” (Lúxuria na Areia), tornando-se mais conhecido pelo jocoso apelido que pelo título criado por Niven Busch. No primeiro ano de exibição “Duelo ao Sol” rendeu 17 milhões de dólares, o que fez dele o maior sucesso do ano ao lado de “A Felicidade Não se Compra”. Esse valor corrigido pela inflação faz de “Duelo ao Sol” o western de maior sucesso de todos os tempos. Martin Scorsese conta em sua “Viagem Pessoal Através do Cinema Norte-Americano”o quanto se emocionou com o drama de Pearl e Lewt. E assim como Scorsese, milhões e milhões de pessoas assistiram e ainda assistem esse que paradoxalmente é um dos filmes mais discutidos, amados e achincalhados. “Duelo ao Sol” obteve a nada honrosa menção no livro “The Official Razzie Movie Guide”, de autoria de John Wilson, ficando entre os 100 piores filmes norte-americanos de todos os tempos. Nesse livro, o dispendioso presente de David O. Selznick para sua amada Jennifer Jones está ao lado de películas como “Glen ou Glenda”, “Xanadu”, “A Lagoa Azul”, “Rambo III”, “O Beijo Amargo” (de Samuel Fuller) e de “Comanche Branco”, o euro-western com o Capitão Kirk vestido de índio.



18 de maio de 2011

"DUELO AO SOL", UMA PROVA DE AMOR EM FORMA DE FILME

Parte do grande elenco de "Duelo ao Sol": Walter Huston,
Joseph Cotten, Jennifer, Greg e Lionel Barrymoore
“Duelo ao Sol” é um western onde amor e ódio se encontram. E esse filme sempre despertou apaixonadas discussões entre aqueles que o admiram e os que decididamente não gostam dele. Independentemente das qualidades ou defeitos do filme que David O. Selznick fez para sua então recém-conquistada mulher Jennifer Jones, vale à pena conhecer um pouco mais de tudo que foi necessário para começar, filmar e concluir “Duelo ao Sol”.

Roteiro - Selznick escolheu a novela de Niven Busch que foi adaptada para o cinema por Oliver H.P. Garrett e por Ben Hetch. Mas quem escreveu a versão final, deixando-a na medida para Jennifer Jones, foi, claro, o apaixonado David. E Selznick também escreveu o texto do prólogo, que foi lido por Orson Welles.

Diretor – Oficialmente o filme é creditado a King Vidor (6.280), mas também dirigiram partes de “Duelo ao Sol” os seguintes diretores: William Diertele (3.526) que dirigiu a famosa introdução e fez vários re-takes, ou seja, tomadas pós-filmagens. William Cameron Menzies (104), dirigiu a cena da festa. Josef Von Sterberg (473), chamado para fazer close-ups especiais de Jennifer Jones, quase todos sem diálogos. Diretores de 2.ª unidade: Otto Brower (2.939) e B. Reeves Eason (496). Também dirigiram cenas não identificadas Hal C. Kern (147) e Sidney Chester Franklin (54). Os números entre parênteses indicam o número de metros de filmes que cada diretor foi responsável. Ainda atuaram na 2.ª unidade os diretores Lowell J. Farrell e Harvey Dwight.

Fotografia – Os cinegrafistas Lee Garmes e Harold Rosson filmaram “Duelo ao Sol”. Ray Rennahan foi quem filmou o prólogo. Os cinegrafistas das 2.as unidades foram Charles Boyle, W. Howard Greene e Rex Wimpy.

Editores – Para editar “Duelo ao Sol” foram necessários estes três editores, devidamente supervisionados por Selznick que pessoalmente olhava fotograma por fotograma editado: Hal C. Kern, William . Ziegler e John Faure.

Música – A música foi composta por Dimitri Tiomkin, mas houve necessidade do trabalho de sete orquestradores para deixar tudo como Selznick queria. David queria tanto agradar sua adorada Jennifer que após ouvir o tema de amor composto por Tiomkin, disse ao compositor: “Você não está entendendo nada. Eu quero uma música f..., música de verdade.” Tiomkin respondeu: “Você cuida da f... do seu trabalho que eu cuido da f... da música. E quer saber mais. Eu vou embora deste filme f...”. Selznick deu o braço a torcer e o que se ouve no filme é o tema de amor de Tiomkin.


Gregory Peck (Lewt McCanles) e Jennifer Jones (Pearl Chavez)
PROVA DE AMOR – Com centenas de pessoas envolvidas na produção, muitos deles profissionais caríssimos, o custo final de “Duelo ao Sol” ficou em inacreditáveis oito milhões de dólares, valor que ajustado pela inflação chegaria hoje a 100 milhões de dólares. Desse montante, dois milhões de dólares foram gastos com a publicidade do filme. O filme fez enorme sucesso, rendendo nos Estados Unidos 13 milhões de dólares (que hoje seriam 140 milhões de dólares). Perdeu no ano de 1946 apenas para “Os Melhores Anos de Nossas Vidas", de William Wyler, que custou somente dois milhões de dólares, ou seja, um quarto do que Selznick gastou. Quando relançado com grande sucesso em 1959, “Duelo ao Sol” conseguiu finalmente dar lucro ao produtor Selznick. Não se tem notícia em Hollywood de tamanha prova de amor traduzida em um filme, como a que David demonstrou pela sua amada Jennifer Jones. Pena que “Duelo ao Sol” não tenha repetido o quase unânime sucesso artístico de “E o Vento Levou”, também produzido por Selznick quando ainda não conhecia a atriz que roubou de Robert Walker. Ainda assim é um filme amado por muitos cinéfilos, quase tão amado quanto Jennifer Jones o foi por David O. Selznick.

Robert Walker, Jennifer e David; Selznick e Jennifer