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| Samuel Fuller |
Marilyn
Monroe era o nome que a 20th Century-Fox exigia, em 1957, para interpretar
Jessica Drummond em “Dragões da Violência” (Forty Guns). A atriz, no entanto,
rejeitou fazer um western em preto e branco dirigido por um pouco conhecido
diretor de filmes “B”. O chefão da Fox Darryl F. Zanuck ofereceu então o papel
para Barbara Stanwyck que também recusou a proposta. Samuel Fuller, que havia escrito
a história “Woman with a Whip” e seria o diretor do filme, procurou Barbara
pessoalmente e disse a ela que jamais havia pensado em outra pessoa senão ela,
Barbara, para interpretar Jessica Drummond. E explicou que essa personagem
seria um misto de duas figuras históricas: Dora Hand, a mais graciosa pecadora
do Oeste e Kate ‘Big Nose’ (Narigão) Fisher, namorada de Doc Holliday. Samuel
Fuller convenceu Barbara e tiveram início as filmagens de “Dragões da
Violência”. Fuller era um nome que chamara a atenção da crítica com o policial
noir “Anjo do Mal”, de 1953, estrelado por Richard Widmark. Nesse tempo a crítica
francesa comandada por André Bazin ainda não era tão respeitada no universo
cinematográfico e o Cahiers du Cinemà não havia ainda se transformado na Bíblia
dos críticos de cinema. Os resenhistas norte-americanos, por sua vez, não davam
muita atenção a westerns ‘menores’ como “Dragões da Violência”. Mas Jean-Luc
Godard e outros críticos da revista francesa estudavam a fundo filmes como este
e outros de Samuel Fuller, colocando o excêntrico diretor norte-americano entre
os mestres do cinema. Exageros à parte, Samuel Fuller era mesmo um diretor que
não poderia passar despercebido e “Dragões da Violência” comprova isso.
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| Barbara e Barry Sullivan |
HISTÓRIA
DE AMOR, PODER E CORRUPÇÃO
- Griff Bonnell (Barry Sullivan) e seus dois irmãos mais novos Wes Bonnell
(Gene Barry) e Chico Bonnell (Robert Dix) são delegados federais (U.S.
Marshals) que chegam à pequena cidade de Cochise, próxima de Tombstone. Eles
devem cumprir um mandado de prisão contra Howard Swain (Chuck Roberson). Quem
domina essa cidade é Jessica Drummond (Barbara Stanwyck) com sua escolta de 40
homens que trabalham para ela na sua propriedade, o ‘Rancho Dragoon’. Swain é
um dos 40 homens dessa poderosa mulher. Jessica controla o sheriff Ned Logan
(Dean Jagger) e o Juiz Macy (Paul Dubov), impondo a lei à sua maneira,
acobertando a corrupção que a faz cada vez mais rica e poderosa. Griff Bonnel
vai até o ‘Rancho Dragoon’ para prender Swain e não se intimida com o aparato montado
por Jessica . Mesmo em lados opostos Jessica enamora-se de Griff mas não
consegue convencê-lo a fazer seu jogo. Jessica tem um irmão jovem e
irresponsável chamado Brockie Drummond (John Ericson), que mata Wess Bonnell.
Então Griff investe contra a estrutura do império de Jessica Drummond,
conseguindo desmontar esse império. Ao final Griff mata Brockie e Jessica
empobrecida procura ficar na companhia de Griff Bonnell.
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| Jessica admirando a arma de Griff. |
DISTANTE DA MORALIDADE DOS FAROESTES - Cada um dos personagens principais
expressa um componente psicológico de sua personalidade. Jessica é o mais
complexo deles com sua suprema arrogância e a frieza de seus gestos. No entanto
ela se transforma ao passar de dominadora a dominada pelo desejo que passa a
sentir por Griff. Compõem também esse quadro de diferentes comportamentos a
rebeldia de Brockie, a inveja e ciúmes do sheriff Logan, a determinação do
delegado Griff. “Dragões da Violência” fica longe da moralidade comum aos
westerns quando Griff claramente cumpre sua obrigação de matar se necessário (“Há dez anos não mato ninguém”,
diz), não hesitando em atirar em Jessica usada como escudo por seu próprio
irmão Brockie. “Dragões da Violência” é um filme atrevido, com inúmeras
insinuações fálicas como quando Jessica acaricia a arma de Griff ou quando
Louvenia se excita com o rifle de Wes. Afinal “Dragões da Violência” é um filme
da década de 50, antecipando corajosamente essas metáforas sexuais.
AULA DE
COMPOSIÇÃO CINEMATOGRÁFICA
- Essa história nada simples serve para Samuel Fuller executar um dos mais
notáveis exercícios de estilo já visto em um western. Inspiradíssimo e
criativo, Fuller coloca na tela cenas de grande efeito visual, a começar pela
antológica sequência de abertura do filme com Jessica Drummond inteiramente
vestida de preto cavalgando um cavalo branco seguida pelos seus ‘40 dragões da
violência’. A câmara posicionada acima dos cavaleiros cria um efeito ainda mais
impressionante que a própria grandeza do conjunto filmado em Cinemascope.
Passando ao lado da charrete em que estão os irmãos Bonnell, não fica nenhuma
dúvida do poder e autoridade daquela mulher. Magnífica também a cena em que o
ajudante de sheriff John Chisum (Hank Worden) tenta enxergar com a visão turva
pela sua cegueira produzindo trágico e notável efeito. Travellings longos nunca
foram apropriados para westerns (a não ser os de Sérgio Leone) e neste pequeno
western há um travelling com uso de dolly (espécie de elevador que sobe e desce
a câmara) de três minutos que culmina com Jessica a cavalo seguida por seus dragões
em tropel pela rua principal de Cochise. E as cenas de efeito com incessantes e
espetaculares movimentos de câmara vão se sucedendo como a do jantar na mansão
de Jessica; as mortes de Swain (Chuck Roberson), mais tarde a de Savage (Chuck
Hayward) e o suicídio de Ned Logan com a visão macabra de seu corpo balançando
e as pernas batendo contra a parede.
FAROESTE INOVADOR - Em outra sequência há uma tomada, em
que o rosto de Louvenia (Eve Brent) é visto de dentro do cano do rifle, cena
que entraria para a história do cinema, sendo imitada inicialmente por Godard
em “Acossado” e pelos filmes de James Bond. Bastante imitada também a exposição
do corpo de Savage colocado verticalmente dentro de um caixão na vitrine da
funerária. E Fuller sabe também ser engraçado ao mostrar o movimento conjunto
dos cowboys nas tinas de banho. Em “Dragões da Violência” Fuller cria uma bela
cena de suspense quando da emboscada sofrida por Griff com inusitadas tomadas
feitas de ângulos geometricamente estudados. E uma das grandes sequências do
filme é quando o tornado atinge e arrasta Jessica, Griff, cavalos e charrete,
bem como a cena final com Jessica sendo friamente baleada por Griff. A
cinematografia de Joseph F. Biroc sob o comando de Samuel Fuller é ainda mais
extraordinária por seus movimentos incansáveis passarem quase despercebidos
pelo espectador, a não ser que este se detenha mais detalhadamente sobre os
aspectos técnicos e estéticos do filme. “Dragões da Violência” é o “Cidadão
Kane” dos westerns quanto ao trabalho de iluminação e principalmente de câmara.
E o ritmo do filme é ditado por cortes até bruscos, deliberadamente malfeitos,
em contraponto com longos usos de travellings. O roteiro provoca o espectador
por não ser linear mas incapaz de confundi-lo neste western curto, de apenas 79
minutos que é uma aula de cinema moderno.
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Cena de violência com o personagem cego interpretado por Hank Worden. |
MARAVILHOSA BARBARA - “Dragões da Violência” é dominado
porBarbara Stanwyck. Dispensável falar da excepcional atriz, perfeita na
criação de Jessica Drummond (futuro modelo para Victoria Barkley de “Big
Valley”). Impossível não exaltar a estupenda profissional, perfeita e elegante
amazona. Barbara está sensual, bonita e arrojada. Atriz humilde o bastante para
fazer por três vezes, a pedido de Fuller, as cenas que as próprias dublês se
negaram a fazer na sequência do tornado, em que Barbara é arrastada pelo
cavalo. Barry Sullivan interpreta Griff Bonnell do modo como o faria Gary
Cooper em seus melhores dias, ou seja, discreto e altivo. E assim como ‘Will
Kane’ de “Matar ou Morrer”, nunca monta a cavalo, usando sempre uma charrete.
“Dragões da Violência” abre espaço pequeno mas precioso para Hank Worden
demonstrar o excelente ator que é longe dos tipos caricatos que invariavelmente
foi obrigado a fazer. E Fuller promove a atores os stuntmen Chuck Roberson e
Chuck Hayward, especialmente o ‘Bad Chuck’ Roberson, com rara oportunidade de
atuar, enquanto o ‘Good Chuck’ Hayward mais uma vez demonstra o fantástico
dublê que era.
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| Barbara e John Ericson |
CONCESSÃO À FOX - Fuller usa
exemplarmente o processo de Cinemascope e Jessica Drummond e os 40 dragões
serpenteando pela amplitude da tela larga é impactante. Uma pena que “Dragões
da Violência” tenha sido lançado em DVD em formato tela cheia, o que prejudica
impiedosamente a concepção fílmica do Cinemascope. Sorte daqueles que guardaram
uma cópia exibida nas dimensões originais pelo Canal Telecine há alguns anos.
Com tudo que foi escrito aqui, “Dragões da Violência” não é uma obra-prima.
Entre seus defeitos está a interpretação de Gene Barry usando seus esgares com
exagero e uma das canções do filme (a de Victor Young) aparece deslocada além
de a canção principal utilizada nos créditos não possuir a força necessária. O
defeito maior deste western certamente reside em Fuller ter aceitado a
imposição da 20th Century-Fox de alterar o final original em que o personagem
de Barry Sullivan atira para matar Jessica Drummond (Barbara), usada como
escudo por seu irmão Brockie. O final feliz imposto pelo estúdio macula
“Dragões da Violência” que ainda assim é um dos westerns mais importantes dos
anos 50. E não é que o maluco do Godard estava certo...