![]() |
| Rubens Ewald Filho entrevistando, em Cannes, os fordianos Harry Carey Jr. e Ben Johnson (acima); abaixo alguns dos muitos livros da Coleção Aplauso que biografa artistas brasileiros. |
Entre
os membros da Confraria dos Amigos do Western de São Paulo costumava-se dizer
que Rubens Ewald Filho não gostava de faroestes. Em entrevista à revista PARDNER em 2003, Rubinho mostrou não só o carinho que tem pelo gênero, mas também o quanto
aprecia as obras de cineastas como John Ford, Anthony Mann, Sergio Leone e outros lembrados
sempre como diretores de westerns. É interessante, antes de conhecer a
preferência de Rubens Ewald Filho no gênero western, saber quais seus filmes
preferidos, conforme lista publicada na edição de março de 2013 da ‘Revista de
Higienópolis’, bairro em que reside em São Paulo. Na foto ao lado Rubens Ewald Filho segura uma edição da revista PARDNER.
1.º)
2001, Uma Odisséia no Espaço (2001,
A Space Odissey), 1968 – Stanley Kubrick
2.º)
Fellini Oito e Meio (Fellini 8-1/2),
1961 – Federico Fellini
3.º) Amor Sublime
Amor (West Side Story), 1961 – Robert Wise-Jerome Robbins
4.º) Crespúsculo
dos Deuses (Sunset Boulevard), 1950 – Billy Wilder
5.º)
Gritos e Sussurros (Viskiningar Och
Rop), 1972 – Ingmar Bergman
6.º) A Malvada
(All About Eve), 1950 – Joseph L. Mankiewicz
7.º)
Um Corpo que Cai (Vertigo), 1958 –
Alfred Hitchcock
8.º) Rashomon
(Rashômon), 1950 – Akira Kurosawa
9.º) Quanto
Mais Quente Melhor (Some Like it Hot), 1959 – Billy Wilder
10.º)
Terra em Transe, 1967 – Glauber
Rocha
Embora
na lista dos filmes preferidos de Rubens Ewald Filho não conste nenhum
faroeste, ele elaborou seu Top-Ten Westerns e autorizou a publicação dessa
lista no WESTERNCINEMANIA. Os comentários após cada um dos faroestes
listados por Rubens foram extraídos das diversas publicações de autoria do
querido crítico.
OS DEZ MELHORES FAROESTES SEGUNDO RUBENS EWALD FILHO
1.º) Matar ou Morrer (High Noon), 1952 –
Fred Zinnemann
![]() |
| Gary Cooper e Grace Kelly |
Se
não foi o primeiro, certamente é o mais famoso de um novo tipo de faroeste, o
chamado western psicológico, onde a história se tornava mais rebuscada e o
bandido podia ter complexos, medos e problemas, deixando de ser mera
perseguição de bandidos e mocinhos (ou pele-vermelhas). Havia predecessores de
qualidade, em particular “O Matador”, de Henry King, com Gregory Peck e o filme
que denunciava o linchamento, “Consciências Mortas”. Contudo foi “Matar ou
Morrer” que capturou a imaginação do público. Talvez por causa da imagem ideal
de Gary Cooper para o gênero, com seu jeito muito norte-americano, taciturno,
de poucas palavras e aparência de honesto. E que grande influência teve no
gênero. É famosa a história de que o filme não funcionou nas previews, até que
chamaram o velho montador Elmo Williams que, além de deixá-lo com apenas 85
minutos, teve a ideia de insertar frequentes imagens de um relógio com os
minutos passando até a chegada da hora fatal e, principalmente, em editar, no
ritmo de uma canção especialmente escrita para o filme, uma espécie de
balada-country – que faria muito sucesso e também provocaria imitações. Isto
fez toda a diferença e o filme acabou tornando-se uma tensa história de
suspense; um homem traído por seus amigos – os mesmo que minutos antes foram
festejar seu casamento agora lhe viram as costas – e que tem de enfrentar
sozinho três pistoleiros em duelos que se tornariam clássicos. (REF Aponta os
100 Melhores Filmes do Século 20)
2.º) No Tempo das Diligências (Stagecoach), 1939 – John Ford
![]() |
| "No Tempo das Diligências". |
Foi
graças a Ford que o faroeste ganhou status de arte e grande aventura, não
apenas diversão de matinês. Na verdade, Ford já era veterano de faroestes no
cinema mudo, quando fez muitos do gênero com seu amigo Harry Carey, que
funcionavam como complemento de programas quando foi conseguindo projetos mais
ambiciosos. Embora esteja em oitavo lugar na lista do AFI (American Film
Institute) é um dos melhores faroestes de todos os tempos. Este deve ser sem
dúvida o mais importante, o que teve mais influência. Ele tem como maior mérito
uma coisa que o tempo não lhe rouba: uma estrutura perfeita, uma narrativa
orgânica, equilibrada entre todos os personagens que conseguem marcar sua
presença (e até humanizá-los). Não é só ação e tiroteio, mas faz crítica
social, mitifica a experiência do sonho de transformação do Oeste sem ser
militarista ou populista (como, aliás, Ford era na vida real). Sem dúvida, uma
obra-prima. (Blog Rubens Ewald Filho)
3.º) Rastros de Ódio (The Searchers), 1956 –
John Ford
![]() |
| John Wayne |
O
mestre Ford praticamente deu ao western seu timbre de qualidade em “No Tempo
das Diligências”, pois, até então, os filmes do gênero eram fitinhas ‘C’ de
complemento de programa e Ford é um dos poucos cineastas de quem se pode dizer:
nunca fez um filme ruim. Modesto, simples, objetivo – apresentava-se sempre
desta forma: “meu nome é Ford, eu dirijo westerns” – rodando sempre apenas o
que ia usar; ele era um mestre da narrativa e do gênero e “Rastros de Ódio”
talvez seja seu melhor faroeste. Foi justamente em seu 12.º trabalho junto a Wayne
que ele lhe deu finalmente um personagem que lhe permitia crescer, mudar,
transformar-se, amadurecer e superar a quase paródia em que caiu no fim de
carreira. Parece que Ford tinha consciência de que construía uma elegia ao
gênero a partir do plano que abre (e depois fecha o filme). Filmado do interior
de uma casa, uma porta se abre mostrando a pradaria e o deserto, o exterior
para onde vai a família, percebendo a aproximação de um estranho, que vem a ser
Wayne, voltando da Guerra Civil para reencontrar a família. Preconceituoso,
rancoroso ainda com a guerra e com os índios (aceita com má vontade o filho
adotivo da família que ele ajudou a salvar, simplesmente porque tem ¼ de sangue
índio), ele percebe mais tarde que caiu numa cilada em que toda sua família
será massacrada, com exceção da filha mais nova Debbie. Durante cinco anos ele
e o sobrinho adotivo percorrerão a região em busca da garota, o rapaz para
salvá-la. Ethan com a certeza de que ela, adolescente, tornar-se-á mulher de
índio, provavelmente do chefe Scar (Cicatriz) e então será tarde demais; terá
de matá-la.
![]() |
| Jeffrey Hunter |
Essa
é a trama de um filme rodado em Vistavision na paisagem espetacular de Utah que
ele (Ford) considerava sua verdadeira região e, onde não chega a haver muitos
conflitos entre brancos e nativos, é mais a trajetória de um homem que aos
poucos vai ficando amigo do jovem parceiro, até da aceitação da sobrinha. E o
filme se encerra da mesma forma que se iniciou: com todos entrando pela porta
aberta, menos ele: para sempre um estranho, um outsider, caminhando com aquele
seu andar tão particular parodiado por Nathan Lane em “A Gaiola das Loucas”.
Ford gostava também de pintar um retrato da vida na fronteira, aliviando a
tensão com situações humorísticas, como: a rivalidade com o reverendo; o
romance do sobrinho com a namorada que dura cinco anos e ele chega justamente
no momento em que ela está para se casar com outro, e a mulher índia que o
rapaz “ganha” de presente. E que só aumenta sua mítica. É um dos poucos
westerns que nos envolve emocionalmente, talvez pelo conflito de gerações.
(Jeffrey Hunter e seus olhos azuis brilhantes são de impressionante sinceridade
e Vera Miles nunca aproveitou a sorte de ser a favorita de Ford e Hitchcock).
Talvez pela sua simples humanidade. (REF Aponta os 100 Melhores Filmes do
Século 20)
4.º) Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch), 1969 – Sam Peckinpah
![]() |
| Ben Johnson e Warren Oates |
Foi
com este faroeste extraordinário que renasceu o gênero. Os italianos fizeram
contrafações, mas o norte-americano meio-índio Sam Peckinpah foi quem realizou
o primeiro faroeste realmente alicerçado pela violência. Antes de tudo, é
preciso convir que o Oeste, e toda formação dos EUA, foi conquistado de forma
violenta, com muito sangue derramado. Este filme mostra os heróis do Oeste sem
sua áurea santificante e lendária. Eles matam a sangue-frio às vezes para não
morrer; às vezes por descuido ou obrigação, raramente por um ideal. Em “Meu
Ódio Será Sua Herança” sentem-se várias influências: o malabarismo dos
combatentes samurais (sangue jorrando) e a câmera lenta de “Bonnie and Clyde” e
“Butch Cassidy”. Mas ao contrário desses dois, não se procura fazer coisa
bonitinha; disfarçada em lenda ou comédia. É a morte dura e cruel; a
inevitabilidade da violência sobrepondo-se às necessidades do espetáculo.
Peckinpah situou sua história no fim da conquista do Oeste. Os heróis estão
velhos e decadentes, e os caçadores de recompensa os perseguem violentamente. A
fuga para o México resolve temporariamente o problema. E é em plena Revolução
Mexicana, como em “Os Profissionais”, que os bandidos são contratados para um
serviço e, por fim, forçados a tomar uma posição ética.
![]() |
| William Holden e Ernest Borgnine |
A
grande curiosidade é que apesar do filme ser o faroeste mais violento até então
feito, a violência nunca é gratuita. Peckinpah mostra simplesmente como ela
existia no Oeste. A imagem inicial resume tudo: crianças sorridentes brincam
juntas. A brincadeira é assistir dois escorpiões sendo devorados pelas
formigas! E depois vê-las sendo consumidas pelas chamas. Assim ele mostra como
a morte era uma coisa trivial. Um tiroteio nas ruas não respeitava realmente
nenhuma lei. Quem estivesse na frente morria, bandido ou não; uma morte
indiscriminada que não se pode deixar de comparar com os fatos recentes da
violência urbana no Brasil. E morte com os detalhes verdadeiros: a surpresa, a
podridão e a falta de razões. Por isso os caçadores de recompensa representam
uma ralé sem qualquer moral, sujos, nojentos, mas humanos nessa condição de
ignorância. A desmistificação continua com o Exército norte-americano incapaz
de comandar seus homens; assiste, impotente, o trem chocar-se. E um elemento
discutível: a visão que o diretor dá aos mexicanos é extremamente folclórica,
como se eles fossem nativos das ilhas do Sul – só falta dançarem o hula-hula. A caricatura fica assim
muito carregada com o coronel mexicano, feito pelo famoso diretor Emílio
Fernández, ou todo aquele povo visto “colonialisticamente”. A não ser que seja
uma crítica a essa visão de “gente inferior” que os norte-americanos têm dos
latinos. Francamente isso não fica muito claro. Mas depois do massacre do
início, o ritmo decai, faz-se uma pausa até que as cenas fiquem realmente
emocionantes: o mexicano matando - ao som de um palavrão – sua ex-amante, a
explosão da ponte e o grande massacre final. (REF Aponta os 100 Melhores
Filmes do Século 20)
5.º) Trilogia dos Dólares –
Sergio Leone
![]() |
| Clint Eastwood |
Trilogia
de Sergio Leone, com Clint Eastwood. Com três filmes, o diretor italiano
revolucionou o gênero no começo dos anos 60 (deixando de ser realista e
psicológico, voltando à ação e fantasia, imitando Kurosawa e utilizando
brilhantemente a trilha musical de Ennio Morricone). Clint virou o novo Cooper
nesses três faroestes. Leone fez ainda outro clássico: “Era uma Vez no Oeste”.
(Blog Rubens Ewald Filho)
Por
um Punhado de Dólares
(Per um Pugno di Dollari), 1964
Por
uns Dólares a Mais
(Per Qualche Dollaro in Più), 1965
(Per Qualche Dollaro in Più), 1965
(Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo), 1966
![]() |
| Lee Van Cleef e Eli Wallach |
6.º) Onde Começa o Inferno (Rio Bravo), 1959 – Howard Hawks
![]() |
| John Wayne, Walter Brennan e Dean Martin |
Faroeste
clássico, que lançou como estrela Angie Dickinson (embora já fosse veterana de
vários filmes) num papel forte, lembrando outras heroínas do diretor (com
frases de duplo sentido), foi várias vezes imitado e até refeito pelo próprio
diretor (em “Eldorado”, em 1966, e “Rio lobo”, em 1970. Um pouco longo, até lento, episódico e
superestimado, tem interlúdio musical (para os dois cantores fazerem dueto em
duas canções), mexicanos caricatos, mas há muito que compensar. A sequência de introdução é um
primor de clareza: Dean Martin como bêbado vai se humilhar, quando é impedido pelo xerife Wayne, que é atacado
pelo desordeiro Akins, que por sua vez mata um inocente desencadeando o conflito.
Dean é melhor ator do que as pessoas lembram
e a interação entre os protagonistas funciona, até mesmo com o cantor de
rock da época Ricky Nelson (que não fez carreira como ator e morreu em acidente
de aviação em 1985, aos 45 anos). (Blog Rubens Ewald Filho)
7.º) Consciências Mortas (The Ox-Bow
Incident), 1943 – William A. Wellman
![]() |
| Henry Fonda |
8.º) Os Brutos Também Amam (Shane), 1953 – George Stevens
![]() |
| Jack Palance |
Certamente
há faroestes com mais ação, maior aprofundamento psicológico, mas nenhum é mais
bonito, mais bem cuidado pictoricamente do que “Shane”. Cada plano é um primor
de enquadramento, composição, equilíbrio, como se Stevens tivesse passado dias
esperando pela nuvem perfeita para aquele momento (e é provável que tenha feito
isso mesmo). Concebido como uma alegoria entre o Bem e o Mal é extremamente
rigoroso e até acadêmico. Nada fora do lugar, tudo perfeitinho. O personagem
central se tornou realmente exemplar: o sujeito que veio do nada, obviamente
com um passado conturbado de pistoleiro (que nunca é desvendado), une-se por
amizade ao garoto Joey (Brandon De Wilde, numa das interpretações mais sinceras
e tocantes de um menino no cinema). Apesar da óbvia atração mútua pela esposa
do colono, esse tema nunca é levado adiante (a voz irritante de Jean Arthur
nunca esteve tão evidente quanto neste filme). O bom homem Shane é loiro, usa
roupas claras; o pistoleiro Palance usa roupas escuras, está sempre de negro. A
paisagem sempre emoldurada pelas montanhas com neve oferece também alguns momentos
realistas (a rua com lama serve para o duelo a tiros e a morte de Elisha Cook
Jr.). Mas basicamente o filme segue o ritual do gênero: o duelo a tiros, o
funeral, a luta a socos (com outro vilão Ben Johnson), mas a violência é o
último recurso, quando não há mesmo outra possibilidade. Parece que a intenção
do diretor é fazer uma elegia ao gênero e ao mito do western de forma lírica e
nostálgica, muito ajudado por uma trilha musical emblemática de Victor Young,
simbolizada principalmente pela idealização que o garoto faz do heróis Shane
(Come back... Shane!) (REF Aponta os 100 Melhores Filmes do Século 20)
9.º) O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance),
1962 – John Ford
![]() |
| Lee Marvin |
Um
dos filmes mais famosos do mestre John Ford, nem por isso sua obra-prima. Há
problemas dos que super-representam, descontrolados (como Edmond O’Brien, que
faz o jornalista), tanto Wayne quanto Stewart estão velhos demais para os
personagens (em particular Stewart, que usa perucas ridículas e maquiagem
excessiva), humor inapropriado, uma produção excessivamente modesta. Tem pouca
ação, mas nada justifica ter sido feito em preto e branco (numa época em que
isso já não se usava e com uma foto medíocre). Até mesmo Lee Marvin repete seus
trejeitos no papel do bandido-título. Ainda assim, foi neste filme que Ford
escreveu sua máxima famosa: “Quando a lenda é mais famosa que a realidade,
imprima-se a lenda” (como sempre a legenda nacional trunca a frase). Ou seja,
no Oeste como no cinema, vale mais a lenda do que a verdade. (Blog Rubens
Ewald Filho)
10.º) Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven), 1960 – John
Sturges
![]() |
| Yul Brynner |
Perfeita
adaptação para o faroeste do clássico “Os Sete Samurais”, de Kurosawa. Eles
agora são pistoleiros contratados por um povoado mexicano para lutar contra os
bandidos. Filme famoso pela trilha musical de Elmer Bernstein e o fato de que
muitos do elenco de apoio viraram astros. Yul Brynner em seu melhor momento
seguido por Steve McQueen, Charles Bronson, James Coburn e Robert Vaughn. (Blog
Rubens Ewald Filho)















