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18 de maio de 2012

ONDE COMEÇA O INFERNO - AS BELAS IMAGENS DE UM GRANDE FAROESTE




Vídeo com imagens do western "Rio Bravo", de Howard Hawks.

ONDE COMEÇA O INFERNO (RIO BRAVO) - A ALEGRIA TOMA CONTA DO WESTERN


Os críticos franceses criaram nos anos 50 a expressão ‘Cinema de Autor’, passando assim a identificar cineastas que conseguiam ter domínio total sobre todas as etapas de produção de um filme. O cineasta-autor trabalhava no filme da idéia inicial ao roteiro e até edição final. Além disso os filmes dos chamados ‘autores de cinema’ tinham que possuir a marca inconfundível do estilo pessoal do diretor e o maior exemplo era Alfred Hitchcock. Outro cineasta que repentinamente passou a ser chamado de ‘autor’ foi Howard Hawks que, embora tenha se notabilizado por dirigir filmes diferentes um dos outros em gêneros diversos, deixou quase sempre sua marca no filmes que dirigiu. E a marca de Hawks não era outra senão fazer filmes com diálogos inteligentes, divertidos resultando em obras próximas da perfeição, como é o caso de “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo).


John Wayne, entre Olivia de Havilland e
Janet Gaynor, recebe o Oscar ganho por
Gary Cooper por "Matar ou Morrer".
UM JOVEM, UM VELHO E UM BÊBADO - Muito se comentou que “Rio Bravo” seria uma resposta de Howard Hawks e de John Wayne a “Matar ou Morrer”. Curiosamente, quando Wayne recebeu em lugar de Gary Cooper o Oscar de Melhor Ator por “Matar ou Morrer”, em 1952, Wayne disse em seu discurso de agradecimento: “Esse é um filme que eu gostaria de ter feito pois conta uma ótima história”. Está certo que há alguns pontos próximos entre os dois faroestes, entre eles Will Kane (Gary Cooper) ser um sheriff e prescindir da ajuda de um bêbado, um idoso e um garoto para enfrentar um bando de celerados. Em “Rio Bravo” o também Sheriff John T. Chance enfrenta os muitos capangas de um dono de terras contando justamente com a ajuda de um bêbado, um jovem e um velho. Mas as semelhanças praticamente terminam por aí pois se “Matar ou Morrer” é um filme soturno e tenso, “Rio Bravo” é, antes de tudo um faroeste transbordante de alegria.

UM BANDIDO POR UM BORRACHÓN - Nathan Burdette (John Russell) é um homem poderoso na região próxima à cidadezinha de Rio Bravo, na fronteira com o México. Seu irmão Joe Burdette (Claude Akins) mata um homem desarmado no saloon local e é preso pelo sheriff John T. Chance (John Wayne). Nathan Burdette, que tem a sua disposição dúzias de homens prontos para usar a violência, exige a libertação do irmão antes da chegada da autoridade federal. Chance faz cumprir a lei e para isso conta com a ajuda de seus dois assistentes, um bêbado chamado Dude (Dean Martin) e apelidado Borrachón, e um velho irascível, manco e desdentado apelidado Stumpy (Walter Brennan). Junta-se a eles um jovem rápido no gatilho que atende por Colorado (Ricky Nelson). Outras ajudas o sheriff Chance recebe da parte do mexicano Carlos (Pedro Gonzalez-Gonzalez) e da bonita Feathers (Angie Dickinson), jovem jogadora que chega a Rio Bravo. Nathan Burdette consegue seqüestrar Dude e propõe a Chance trocá-lo por seu irmão, o prisioneiro Joe Burdette. Consumada a troca Chance, Dude, Stumpy, Colorado e Carlos explodem o reduto onde o bando está escondido, prendendo os sobreviventes, inclusive Nathan Burdette. O filme termina com Chance e Feathers juntos.

Angie encabulando o Duke.
SHERIFF FRÁGIL SÓ NO AMOR - Partindo dessa história simples Howard Hawks produz um faroeste com raras cenas a cavalo, sem índios, cavalaria, estouro de gado e mesmo sem explorar os cenários naturais do Velho Oeste. A maior parte da ação se passa em lugares como cantina, saloon, cadeia ou no Álamo hotel, todos localizados na única rua da cidadezinha, fazendo de “Rio Bravo” um western quase claustrofóbico. Apenas quase, pois nem se percebe a falta dos ingredientes comuns aos faroestes em “Rio Bravo” com magníficas sequências de ação, diálogos espirituosamente brilhantes e espaço até para um delicioso interlúdio musical. Pouco a pouco o espectador é levado a conhecer o drama de Dude e o que poderia ser um ‘farrapo humano no Velho Oeste’ é tratado com solidariedade e bom humor. O mesmo bom humor mostrado na relação em que é exposta a fragilidade do duro mas embaraçado sheriff Chance diante da aparentemente aventureira Feathers. A complexa relação de ambos se transforma numa saborosa história de amor onde se misturam ingenuidade (dele) e sensualidade (dela).


O viril e corajoso John T. Chance...
ALEGRIA REINANTE NAS FILMAGENS - Apesar de ser um faroeste compassado, “Rio Bravo” é também um perfeito exercício de estilo. O melhor exemplo é a memorável e violenta sequência de abertura, sem diálogos, apresentando Dude, Chance e Joe Burdette numa assombrosa coreografia com movimento dos personagens, seus gestos e olhares. O desigual confronto entre os homens de Burdette contra Chance, Dude, Stumpy, Colorado e Carlos é igualmente criativo assim como a sequência em que Chance e Colorado enfrentam três bandidos diante do Hotel Álamo. A ação de Colorado jogando o rifle para Chance que o recebe e magicamente o dispara contra os bandidos é antológica. Mas os melhores momentos de “Rio Bravo” são aqueles em que parece que nada acontece mas muito se fala, a maior parte deles com diálogos primorosamente engraçados. Descobre-se o que é um filme de autor na alegria contagiante de cada um dos personagens, resultado incontestável do ambiente de amizade criado por Hawks no set de filmagens. Quem poderia imaginar John Wayne (Chance) como se estivesse experimentando uma roupa íntima feminina vermelha e tendo de escutar uma irreverente provocação da personagem Feathers? Cada cena de “Rio Bravo” provoca irresistivelmente o riso do espectador, com Martin, Brennan, Dickinson e o alegre Duke Wayne.

Um inesquecível Walter Brennan.
INESQUECÍVEL E INIMITÁVEL STUMPY - Se a intenção de Hawks era de fato resgatar o respeito próprio e a dignidade que o faroeste perdeu quando Will Kane jogou sua estrela de sheriff no chão ele conseguiu o que queria. E mais que isso, transformou um faroeste num exemplar filme de entretenimento. John Wayne passou do amargurado e rancoroso Ethan Edwards de “Rastros de Ódio” (The Searchers) para um tranquilo e sorridente John T. Chance. Dean Martin esbanja simpatia, charme e talento interpretativo. Angie Dickinson simplesmente maravilhosa, esplendorosa, deliciosa. Os personagens de “Rio Bravo” são inegavelmente estereótipos dos faroestes, nos quais comumente há um velho engraçado. Neste está Walter Brennan criando Stumpy, a soma de muitos de seus personagens anteriores, porém desta vez na forma de um definitivo, inesquecível e inimitável velhote simpático. Destoando dos atores principais o tímido Ricky Nelson tem participação fraca. Para alegria dos fãs de faroestes estão no elenco de “Rio Bravo” Bob Steele, John Russell, Claude Akins e os menos conhecidos Fred Graham, Myron Healey, Eugene Iglesias e George Mitchell que faria carreira nos sandálias-e-espadas italianos. Ward Bond aparece em seu último encontro no cinema com John Wayne, uma vez que viria a falecer em 1960.

A música toma conta da cadeia.
A INSPIRAÇÃO DE TIOMKIN - Capítulo especial em “Rio Bravo” é a trilha sonora de Dimitri Tiomkin que se inicia com a belíssima canção-título. No decorrer do filme Tiomkin alterna o uso de instrumentos, inclusive de percussão, dando a essa canção um sabor mais latino, no que seria imitado por Elmer Bernstein em “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven). Com versos de Paul-Francis Webster, Tiomkin recriou “My Rifle, My Pony and Me”, utilizada em “Rio Vermelho” dez anos antes. Cantada por Dean Martin, essa canção, ao lado de “Cindy, Cindy”, está entre os momentos mais agradáveis de “Rio Bravo”. Totalmente à vontade, deitado, Dean Martin canta e assobia, lembrando porque foi um dos grandes cantores norte-americanos de seu tempo. A atmosfera alegre de “Rio Bravo” torna-se quase macabra quando é executada a sinistra “El Deguello” com trumpete e cordas, canção ouvida por Stumpy, Dude e Chance dentro da cadeia. Dimitri Tiomkin compôs “El Deguello” ao saber que os mexicanos torturavam os norte-americanos no sítio ao Álamo com esse tipo de música. “Rio Bravo”, que recebeu o infeliz título nacional de “Onde Começa o Inferno” é, sem ser exatamente uma comédia, o mais alegre dos faroestes, verdadeira obra-prima que Howard Hawks legou ao gênero.

17 de maio de 2012

A RAPOSA (THE FOX) HOWARD HAWKS EM AÇÃO

Howard Hawks dirigindo os atores em "Rio Bravo".
Angie Dickinson conquistando Dino e Duke.
A amizade reinante no set de "Rio Bravo".

15 de maio de 2012

O RETORNO DE HOWARD HAWKS AO FAROESTE


Em 1958 Howard Hawks já havia dirigido um dos mais extraordinários conjuntos de filmes de Hollywood, entre eles “Scarface, a Vergonha de Uma Nação”, “Levada da Breca”, “Paraíso Infernal”, “Jejum de Amor”, “Sargento York”, “Bola de Fogo”, “Uma Aventura na Martinica” e “À Beira do Abismo”. Entre os grandes filmes de Hawks estava ainda “Rio Vermelho” (Red River), o faroeste que permitiu descobrir que John Wayne era bom ator e que revelou Montgomery Clift para o cinema. Em 1958 Howard Hawks decidiu que era hora de terminar suas prolongadas férias européias e voltar a filmar. E teria que ser um faroeste.

DOLCE VITA EM PARIS - Depois que terminou de rodar “Terra dos Faraós”, na Europa em 1954, Howard Hawks resolveu permanecer no Velho Mundo, passando a morar em Paris. “Terra dos Faraós” foi um fracasso artístico e de público, mas isso não impediu que a crítica francesa continuasse falando daquele novo residente da Cidade Luz. Num artigo no Cahiers Du Cinemà, em 1955, 0 teórico André Bazin comparou Hawks a Moliére e a Balzac. Os jovens que escreviam naquela influente revista, entre eles François Truffaut, Jean-Luc Godard e Jacques Rivette, mostravam-se igualmente impressionados com a obra de Howard Hawks, para eles o maior de todos os cineastas norte-americanos. E a boa vida do já sessentão Hawks parecia não ter hora para acabar, até que sua jovem esposa Dee Hartford cansou-se da rotina Paris-Riviera-Paris, querendo retornar aos Estados Unidos. Como viver em Paris nunca foi barato, a conta bancária de Hawks diminuía consideravelmente, ainda mais que suas duas ex-esposas também exigiam cada vez mais dinheiro. Mesmo assim Howard se recusou dirigir “A Ponte do Rio Kwai” porque entendeu que um filme sem mulheres no elenco e passado numa floresta seria um fracasso. O diretor voltou então aos Estados Unidos em 1958 e passou a ler algumas histórias que poderiam virar um bom filme.
Nas fotos ao lado à direita: Howard Hawks no Egito quando da filmagem de "Terra dos Faraós"; nas fotos menores André Bazin, Jean-Luc Godard, François Truffaut e Jacques Rivette, maiores admiradores da obra de Howard Hawks.

Gary Cooper / Glenn Ford
O XERIFE-FRANGOTE DE HADLEY-VILLE - Assim como havia acontecido com John Wayne, Howard Hawks jamais aceitou que fosse feito um filme como “Matar ou Morrer” (High Noon). Hawks detestava esse western, não pelo aspecto estético mas sim pelo ideológico. Não bastasse o faroeste de Zinnemann estar engasgado nas gargantas de Hawks e de Duke, em 1957 foi lançado “Galante e Sanguinário” (3:10 to Yuma), outro western elogiado pela crítica mas que mostrava um norte-americano sozinho na defesa da lei e da ordem. O novo filme tinha que ser um western para colocar as coisas em seus devidos lugares e, de preferência, com John Wayne no papel de um sheriff em tudo diferente de ‘Will Kane’. Hawks dizia que Gary Cooper lembrava um frangote correndo por Hadleyville em sua inútil busca de ajuda entre os acovardados moradores da cidade. Hawks descobriu uma pequena história intitulada “El Paso Red”, de autoria do desconhecido B.H. Campbell, história que serviria muito bem como base para um roteiro. Estranhamente essa história sequer havia sido publicada quando Hawks levou o projeto à Warner Bros. Jack Warner estava relutante pois achava que o tempo dos westerns já havia passado. Warner só aceitaria fazer uma parceria com a Armada Productions (nova produtora de Hawks), se o ator principal fosse John Wayne.

Hawks e Wayne, nada que 750 mil
dólares não resolvam.
BRIGUINHA COM JOHN WAYNE - As relações entre Hawks e John Wayne andavam meio estremecidas devido a uma ação na Justiça impetrada por Wayne que reclamava dinheiro a receber de Hawks por sua participação em “Rio Vermelho”. Sem ter certeza se Wayne aceitaria voltar a trabalhar com ele, Hawks pensou em Gregory Peck, Kirk Douglas, Burt Lancaster e até mesmo em Sterling Hayden para o papel do sheriff. Paradoxalmente, assim como sempre teve uma dívida de gratidão com John Ford que fez dele um grande astro, John Wayne também se sentia artisticamente endividado com Hawks que lhe dera o status de ator de verdade em “Rio Vermelho”. E mais que isso, em 1958 Duke estava precisando desesperadamente de duas coisas: dinheiro e um sucesso. Dinheiro para poder rodar “O Álamo” o que o levou a pedir a Hawks 750 mil dólares para atuar nesse faroeste. E o sucesso era porque depois de “Rastros de Ódio” (The Searchers), em 1956, os filmes de John Wayne não conseguiram mais boas bilheterias. O último desses filmes foi “O Bárbaro e a Gueixa”, um dos raros fracassos da carreira de John Wayne, em 1958, ano em que pela primeira vez depois de nove anos seguidos Duke ficou de fora da lista dos Top-Ten Money Making Stars. Depois de acertar contrato com o Wayne, o que foi relativamente fácil pois o ator nem quis ler a pequena história, o passo seguinte para Hawks era transformar o texto de Campbell em um roteiro. Hawks deu ao personagem do sheriff de Rio Bravo o nome de John T. Chance e havia uma razão para isso. Quando ainda morava em Paris Hawks se enamorou de uma modelo francesa chamada Chance de Windsedt e homenageou a moça dando o estranho nome ‘Chance’ ao principal papel masculino de seu novo filme.

Borrachón Dean Martin.
A ESCOLHA DE DEAN MARTIN - Howard Hawks chamou o veterano roteirista Jules Furthman (“Uma aventura na Martinica”, “À Beira do Abismo”) para em parceria com a roteirista Leigh Brackett desenvolver a história. Ainda jovem Leigh havia também trabalhado no roteiro de “À Beira do Abismo” e Hawks gostava do jeito da moça escrever. Para esse trabalho Furthman ganhava 2.500 dólares por semana e Leigh apenas 600 dólares, mesmo assim foi ela quem escreveu praticamente a maior parte do roteiro que recebeu o nome provisório de “Bull by the Tail”. Com o roteiro nas mãos Hawks passou a selecionar o elenco e a única certeza era John Wayne no papel principal. Hawks apresentou a Jack Warner a lista de atores que poderiam ser o co-star de Wayne: o primeiro nome da lista era Montgomery Clift que se recusou terminantemente a voltar a trabalhar com Hawks e Wayne que criaram durante as filmagens de "Rio Vermelho" um ambiente típico de homens brutos, do qual Monty não gostava. Monty nunca se esquecera dessa experiência. O segundo nome era o de Frank Sinatra que também recusou o convite. Os outros nomes da lista eram os de James Cagney, Richard Widmark, John Cassavetes, Edmond O’Brien, Rod Steiger, John Ireland, Van Johnson e Ray Milland. Quase todos estavam envolvidos com outros trabalhos. O agente de Dean Martin procurou Hawks pedindo-lhe o papel do assistente de sheriff bêbado e Hawks marcou uma entrevista com o ex-parceiro de Jerry Lewis. Uma hora de conversa bastou para Dino convencer o diretor que ele seria perfeito como ‘Dude’. Dean vinha de elogiadas interpretações sérias em “Os Deuses Vencidos” e “Deus Sabe Quanto Amei”.

Stumpy e seus dois canos.
OL’ STUMPY - Quando retornou da Europa Hawks ficou impressionado com o número enorme de séries westerns da TV, todas exibidas com sucesso mas com episódios muito parecidos uns com os outros. E a TV não só revelava novos ídolos como revitalizava carreiras de atores envelhecidos como Ward Bond que atuava na série “Caravana”, de enorme sucesso. Bond assinou para atuar no filme de Hawks num papel menor. Mais importantes eram os personagens ‘Colorado Ryan’ e ‘Stumpy’. Jack Warner sugeriu para interpretar o velho ajudante de sheriff Arthur Hunnicutt, Gabby Hayes, Burl Ives, Buddy Ebsen, William Demarest e até Lee J. Cobb. Mas Hawks gostava muito de Walter Brennan, que atuara com ele em “Uma Aventura na Martinica” e em “Rio Vermelho”. A carreira de Walter Brennan no cinema estava em baixa, mas ele era nacionalmente conhecido pelo sucesso da série “The Real McCoys”, na qual interpretava ‘Vovô McCoy’. Essa série durou seis temporadas, de 1957 a 1963. ‘Stumpy’ não poderia ser outro senão Walter Brennan.

Ricky Nelson
ROQUEIRO PISTOLEIRO - Para interpretar ‘Colorado Ryan’, que no roteiro original era um pistoleiro com mais de 30 anos, foram considerados Robert Mitchum, James Garner, Jack Lemmon, Tony Curtis, Lee Marvin, Lloyd Bridges, Chuck Connors e até Jack Palance. Assistindo a um episódio da série “As Aventuras de Ozzie and Harriet”, Hawks teve a inspiração de remoçar o personagem ‘Colorado’, usando o adolescente Ricky Nelson (17 anos). Pouco conhecida no Brasil, a série ficou 15 anos no ar nos Estados Unidos, de 1952 a 1966. Ricky era filho de Ozzie e de Harriet Nelson e irmão de David Nelson, atores da série. Ricky tinha paralelamente a carreira de cantor sendo um dos grandes ídolos do rock’n’roll, seguindo os passos de Elvis Presley. O problema era que Ricky nunca havia feito um filme, a não ser como criança, mas Howard Hawks preferiu apostar no jovem cantor justamente em razão do apelo comercial que isso teria junto aos jovens. Quanto à questão interpretativa Hawks confiava em sua própria e inquestionável experiência de diretor de atores, mesmo os novatos como Lauren Bacall, que estreou no cinema pelas mãos de Hawks. E por falar em Bacall havia um importante papel feminino em “Bull by the Tail”.

Angie Dickinson
A DESCOBERTA DE UMA ATRIZ DIFERENTE - Leigh Brackett escreveu o personagem ‘Feathers’ do jeito que Hawks queria, ou seja, uma mulher de personalidade, insinuante e impudente, nada parecida com as doces e frágeis heroínas dos faroestes. Hawks imaginava se seria possível achar alguém com o talento de Claire Trevor, a malícia e sensualidade de Marlene Dietrich e o charme de Lauren Bacall. Hawks pensou em Rhonda Fleming, Jane Greer, Martha Hyer, Carolyn Jones, Julie London, Janis Paige, Beverly Garland e mesmo em Donna Reed, até que um dia, conversando com seu grande amigo Christian Nyby, este lhe falou de Angie Dickinson. Nyby dirigira “O Monstro do Ártico”, clássico de sci-fi produzido por Hawks e depois passara a dirigir só para a TV. Nyby trabalhara com Angie Dickinson em um episódio da série “Perry Mason” e ficara impressionado com a atriz que no cinema havia atuado em vários faroestes (ver a postagem Angie Dickinson – Os 80 Anos de uma Lindíssima Atriz, neste blog). Angie fez um teste mas não acreditava ter alguma chance de estrelar um filme ao lado de John Wayne, ainda mais porque diziam que o diretor Hawks queria uma mulher um tanto diferente... E Angie era a mulher diferente que nas locações em Tucson encantaria Hawks, Duke, Dino e a quase centena de homens entre atores e técnicos que lá estavam.

Claude Akins antes da cadeia;
Harry Carey Jr. e Sheb Wooley,
cenas excluídas.
ELENCO COMPLETO - Os demais papéis importantes de “Bull by the Tail” ficaram com John Russell, experiente ator que também fazia sucesso na televisão com a série “O Homem da Lei” (Lawman); Claude Akins, já reconhecido como um dos melhores atores que interpretavam foras-da-lei; Pedro Gonzalez-Gonzalez, conhecido do programa “Bet Your Life” sucesso de Groucho Marx na TV; a cubana Estelita Rodriguez que atuara em vários faroestes B de Roy Rogers na Republic. Sheb Wooley e Harry Carey Jr. também foram para Tucson e chegaram a participar de algumas sequências que foram depois excluídas da montagem final. O nome de Harry Carey Jr., no entanto permanece nos créditos de abertura de “Rio Bravo”. Bing Russell, o pai de Kurt Russell, tem também uma cena curta em que é baleado por Joe Burdette (Claude Akins). Gordon Mitchell, antes de virar Maciste na Itália e participar de westerns-spaghetti também faz uma aparição em “Rio Bravo”. Grandes nomes dos faroestes como Yakima Cannut, Fred Graham, Bob Steele e Chuck Roberson foram escalados para pequenas participações. Howard Hawks não estava satisfeito com o título “Bull by the Tail”, qualquer coisa parecida com ‘pegando o touro pela cauda’. Como a ação se passava na cidadezinha de Rio Bravo e “Rio Vermelho” havia sido um sucesso, Hawks colocou o título definitivo de “Rio Bravo”.

Dimitri Tiomkin, autor da
memorável "Rio Bravo"
cantada por Dean Martin.
AS CANÇÕES DE “RIO BRAVO” - Dimitri Tiomkin já havia feito música para os filmes de Howard Hawks “Rio Vermelho”, “O Monstro do Ártico” e “Rio da Aventura”. Com dois cantores no elenco era mais que certo que haveria alguns momentos musicais em “Rio Bravo”, o que muito agradava Hawks que pediu a Tiomkin algumas canções para o filme, além do tema principal. O compositor russo reescreveu a canção “Settle Down”, ouvida em “Rio Vermelho”, transformando-a em “My Pony, My Rifle and Me” com letra de Paul Francis Webster. Quem deveria cantar essa canção era Ricky Nelson, mas Ricky não gostou da música que acabou cantada por Dean Martin com Nelson fazendo uma segunda voz. Ricky Nelson preferiu cantar “Cindy, Cindy” que fazia parte de seu mais recente LP. A belíssima canção-título ‘Rio Bravo’, mais tarde magnificamente gravada por Dean Martin, é ouvida no filme apenas orquestrada por Tiomkin. Essas canções acabaram fazendo de “Rio Bravo" um dos faroestes mais musicais que se conhece, mas o grande achado de Tiomkin seria mesmo “El Deguello”, assustadora canção que supostamente as tropas do General Sant’Anna tocavam no cerco ao Forte Álamo. Ela é tocada na cantina “El Toro Rojo” e escutada na delegacia-cadeia onde se passa boa parte da história de “Rio Bravo”. O significado de ‘deguello’ é degola. John Wayne que atuou em “Rio Bravo” com a atenção presa em seu projeto “O Álamo” não precisou pensar muito e pagou os direitos a Tiomkin para usar “El Deguello” no épico que filmaria em Brackettville no ano seguinte. A fotografia ficou a cargo do cinegrafista Russel Harlan que havia feito magnífico trabalho para Hawks em “Rio Vermelho”.

John (T. Chance) Wayne, sheriff de Rio Bravo.
OURO PURO - “Rio Bravo” foi rodado em 61 dias, seis a mais que o previsto, entre maio e julho de 1958. As externas foram filmadas em Old Tucson (Tucson, Arizona), onde foi construída a rua principal, cenário com 84 edificações com saloon, cantina, cadeia e várias casas. O filme custou 1.950.000 dólares e só na construção da rua principal foram gastos 100 mil dólares. Logo após assistir à primeira edição do filme Hawks, Warner e demais executivos sabiam que tinham ouro puro nas mãos. Lançado no Cine Roxy, em Nova York em 18 de março de 1959, um mês depois “Rio Bravo” havia rendido quase seis milhões de dólares, tornando-se um dos campeões de bilheteria do ano. Porém assim como outros westerns o status de obra-prima demoraria alguns anos para chegar. “Rio Bravo” não teve nenhuma indicação ao Oscar, nem mesmo com Walter Brennan, o que faz pensar que a academia não gosta mesmo de faroestes. Como aqui no Brasil o western de John Ford “Rio Grande” havia sido lançado com o título de “Rio Bravo”, para evitar confusão o faroeste de Hawks chamou-se “Onde Começa o Inferno”. “Rio Bravo”, de Howard Hawks é um dos grandes faroestes de todos os tempos, tendo gerado um famosíssimo ensaio do crítico canadense Robin Wood que termina dizendo que “Se fosse necessário escolher um único filme para representar o cinema esse filme só poderia ser ‘Rio Bravo’ de Howard Hawks”. Parece um exagero, mas vale lembrar que na opinião de Quentin Tarantino “Rio Bravo” é o segundo melhor filme já feito até hoje, em qualquer gênero, atrás apenas de “Três Homens em Conflito” (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo), de Sergio Leone.

Admiradores de "Rio Bravo": o conceituado crítico Robin Wood;
Quentin Tarantino; Martin Scorsese, que homenageou o western de Hawks
em seu primeiro filme "I Call First" (na foto Harvey Keitel e Zina Bethune).

Fãs brasileiros do western "Onde Começa o Inferno" conseguindo
um jeito de contracenar com John T. Chance.

13 de maio de 2012

O ELENCO DE "ONDE COMEÇA O INFERNO" PODERIA SER MUITO DIFERENTE

"Onde Começa o Inferno" (Rio Bravo) é uma das obras-primas do gênero e todos conhecem o excelente elenco deste faroeste de Howard Hawks. O que poucos sabem é que Hawks (diretor e produtor do filme) e Jack Warner (da Warner Bros.) pensaram em muitos nomes para os cinco papéis principais. A título de curiosidade WESTERNCINEMANIA mostra quem são os atores e atrizes que poderiam ter interpretado John T. Chance, Dude Borrachón, Old Stumpy, Colorado e a deliciosa Feathers.


11 de junho de 2011

O 'BORACHÓN' DEAN MARTIN EM "RIO BRAVO"



Nas filmagens de westerns era normal os atores irem ao guarda-roupa dos estúdios e escolherem as roupas que iriam usar no filme. Na produção de faroestes os figurinistas praticamente só trabalhavam nos trajes femininos. Nos guarda-roupas dos estúdios havia de tudo: chapéus, camisas, calças, coletes, paletós, botas, esporas, cinturões de todos os tipos, lenços, enfim qualquer coisa que um personagem do Velho Oeste precisasse usar. Claro que os figurantes recebiam algumas instruções do assistente de direção enquanto os astros do filme e os coadjuvantes principais já haviam lido os roteiros antes de começar as filmagens. Em “Onde Começa o Inferno” ocorreu uma situação bastante engraçada com Dean Martin. O ex-parceiro de Jerry Lewis já havia feito um western antes, uma comédia chamada “O Rei do Laço” (Pardners), um dos últimos filmes da dupla. Dean tentava recomeçar sua carreira como ator pois em Hollywood todos acreditavam que dali para frente, aquele canastrão sem Jerry a seu lado apenas sobreviveria como excelente cantor que era. Em “Deus Sabe Quanto Amei”, de 1958, Dean demonstrou que era muito melhor ator do que todos pensavam e passou o filme inteiro trajado com texana elegância e com um enorme chapéu de cowboy na cabeça.

Dean Martin, bom copo e bom ator
Em 1959 Dino iria participar de seu primeiro western de verdade e ao lado de John Wayne. O papel de Dean Martin era de um bêbado ajudante de sheriff a quem todos chamavam de ‘Borachón’. Dean apareceu para o primeiro dia de filmagens vestido com roupas muito parecidas com as que havia usado em “O Rei do Laço”, onde ele e Jerry interpretavam cowboys de butique. Howard Hawks olhou para John Wayne que estava bem de acordo como ‘John T. Chance’, inclusive usando o famoso cinto que ganhara de Hawks em "Rio Vermelho"; Walter Brennan entendia-se telepaticamente com Hawks e este sorriu satisfatoriamente quando viu Old Brennan vestido como ‘Stumpy’; Hawks examinou Ricky Nelson que estava ótimo como o jovem pistoleiro ‘Colorado Ryan’. E então o diretor olhou para o ‘Borachón’ Dude que parecia ter emprestado a camisa de Roy Rogers, Gene Autry ou Rex Allen. Hawks pacientemente falou para o ator: “Dino, neste filme você é um bêbado que mendiga por um trago. Um pária que procura um níquel na escarradeira. Gasta tudo que consegue em whiskey e todos debocham de você. Volte ao guarda-roupa do estúdio, procure as roupas mais surradas que você encontrar e então volte aqui.” Meia hora depois Dean Martin retornou com paletó e chapéu tão surrados e sujos que nem ninguém usaria. Só faltavam as moscas voando ao redor do ator. Hawks aprovou e disse que o que mais havia gostado era da camiseta velha de minerador que Dino colocou sob o paletó e que completou perfeitamente o ‘Borachón’ Dude. Assim vestido Dean Martin praticamente roubou o filme de John Wayne que era o astro principal. Quentin Tarantino gosta de dizer que quando arruma uma namorada, a primeira coisa que faz é assistir com ela “Onde Começa o Inferno”. Se a moça não gostar desse faroeste Tarantino diz que então não tem namoro. “Onde Começa o Inferno” é o que se pode chamar sem medo de obra-prima e Dino viria a fazer muitos outros westerns, nenhum deles, porém, tão divertido e perefeito quanto “Rio Bravo".