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20 de fevereiro de 2017

ERA UMA VEZ NO OESTE (C’Era Una Volta Il West) – A ‘MAGNUM OPUS’ DE SERGIO LEONE


Sergio Leone
Estudioso da história do Velho Oeste norte-americano e de tudo que se relacionava com o gênero cinematográfico que muito o influenciou quando criança (o faroeste, claro), Sergio Leone certamente não levou em consideração a máxima do historiador William K. Everson que dizia: “Os westerns são melhores quando mais simples”. Antes o crítico André Bazin já havia alertado para o fato de superwesterns descaracterizarem o gênero, citando “Os Brutos Também Amam” (Shane) como exemplo de faroeste excessivamente elaborado. Mas em 1967, após o estrondoso sucesso de bilheteria de sua ‘Trilogia dos Dólares’, Sergio Leone pouco estava se importando com opiniões como essas. E com o orçamento de três milhões de dólares que a Paramount colocou à sua disposição Leone entendeu que era o momento de mostrar ao mundo com “Era Uma Vez no Oeste” que seu nome decididamente merecia figurar no panteão dos maiores diretores do gênero. Para se conhecer detalhes da pré-produção, escolha de elenco e outros pormenores deste filme sugiro a leitura da postagem, aqui no WESTERNCINEMANIA do link http://westerncinemania.blogspot.com.br/2013/07/era-uma-vez-um-western-dirigido-por.html


Esperança e morte no Monument Valley.
Um sonho e uma vingança - Jill McBain (Claudia Cardinale) é uma ex-prostituta de New Orleans que chega à cidade de Flagstone, no Arizona, para conhecer seu marido, o irlandês Brett McBain (Frank Wolff), com quem se casara um mês antes em New Orleans. McBain é proprietário de terras por onde passará a estrada de ferro pertencente a Morton (Gabriele Ferzetti). Este quer as terras de McBain e contrata o pistoleiro Frank (Henry Fonda) para intimidar o irlandês, mas Frank assassina friamente McBain e seus três filhos. A princípio Jill pensa em se desfazer da propriedade chamada Sweetwater, porém após conhecer o bandido mexicano Manuel ‘Cheyenne’ Gutierrez (Jason Robards) e ainda um estranho apelidado ‘Harmônica’ (Charles Bronson), Jill muda de ideia. A mulher passa então a acalentar o sonho do marido de transformar Sweetwater não apenas em uma mera estação, mas em uma pequena cidade. Cheyenne acaba de fugir de uma prisão e Harmônica quer se vingar de Frank que havia matado seu irmão há muitos anos, quando Harmônica era ainda adolescente. Morton atraiçoa Frank que então mata o magnata. Morton porém havia antes ferido mortalmente Cheyenne. Frank e Harmônica se defrontam num duelo vencido por Harmônica que só então revela a Frank quem ele é. Jill permanece em Sweetwater, vendo a cidade florescer.

Henry Fonda e  (abaixo) Charles Bronson
Western como se fosse ópera - Esta história relativamente simples, escrita por Dario Argento, Bernardo Bertolucci e pelo próprio Sergio Leone rendeu um roteiro de 420 páginas das quais somente 14 eram de diálogos. Leone costumava citar uma frase de John Ford na qual o Mestre das Pradarias afirmara que “um bom filme de ação não pode ter muitos diálogos”. Contraditoriamente, “Era Uma Vez no Oeste” não foi concebido por seu diretor para ser um filme de ação, mas sim uma espécie de ópera onde pudesse exercitar sua criatividade cinematográfica. Assim como em muitas óperas, cada personagem é caracterizado por um tema musical e disso se encarregou magistralmente Ennio Morricone. Com a música do maestro-compositor somada às ideias que tinha para as não muito numerosas sequências que o roteiro indicava, Leone contou com a preciosa colaboração do diretor de arte Carlo Simi para construir os impressionantes cenários para a magna ópera-western que o delirante diretor imaginou. Não se canta em “Era Uma Vez no Oeste”, mas este monumental e compassado western é um espetáculo que bem poderia ser encenado no Scala de Milão ou no Metropolitan Opera de Nova York.

Charles Bronson (acima; nas demais fotos
Al Mulock, Jack Elam e Woody Strode
Sequências ultraelaboradas - Para um western de 171 minutos (como foi lançado na Europa) ou 165 minutos como a duração da edição lançada em DVD duplo, “Era Uma Vez no Oeste” possui relativamente pouca ação. Mas em cada momento em que ocorrem confrontos a bala, como na sequência inicial do duelo de Harmônica contra três pistoleiros, a câmara de Tonino Delli Colli orientada por Leone explora incansavelmente através de close-ups personagens e detalhes de tudo quanto estiver ao alcance das lentes jamais apressadas do cinegrafista. Essa sequência inicial dura na tela exatos onze minutos, menor apenas àquela do epílogo em que Harmônica mata Frank, não sem antes realizarem um vagaroso balé, entrecortado por um flashback igualmente lento, sequência que dura 13 minutos. Mais apressado é o massacre dos McBain, até porque seria de extremo mau gosto que as mortes dos irmãos adolescentes Patrick (Stefano Imparato) e Maureen (Simonetta Santaniello) e do pequeno Timmy (Enzo Santaniello) fossem exploradas com requintes de violência comuns às outras mortes. A maior parte das sequências de “Era Uma Vez no Oeste” são tão arrastadas quanto perfeitas e majestosas visualmente, com Leone mudando bastante a estética de seus primeiros dois filmes com Clint Eastwood e ensaiada com “Três Homens em Conflito” (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo).

Henry Fonda com Marco Zuanelli;
Lionel Stander com Jason Robards
Diálogos antológicos, outros nem tanto - O impacto visual deste western é formidável, como a primorosa e inesquecível apresentação da cidade de Flagstone ao som de “C’Era Una Volta Il West”, assim como a entrada em Sweetwater (Monument Valley). “Era Uma Vez no Oeste” faz referências a inúmeros faroestes clássicos norte-americanos (30 referências, segundo o escritor Christopher Frayling, reconhecido como o maior conhecedor da obra de Leone) e o diretor italiano não poderia deixar de fazer uma homenagem maior com locações no espaço sagrado onde John Ford rodou oito de seus westerns. Nessa sequência ouve-se “L’America di Jill”, outra admirável composição de Ennio Morricone. Aparentemente ninguém tem pressa em “Era Uma Vez no Oeste” pois todos os personagens fazem longas reflexões antes de qualquer fala, por menor e mais irrelevante que seja o que se tem a dizer. E nenhuma frase expressada por Cheyenne (um bandido mexicano lembro) deixa de ser carregada de filosofia que até o próprio Jason Robards constrangidamente é obrigado a pronunciar. Mas se os diálogos de Cheyenne parecem ser no mais das vezes inoportunos, há aqueles que entraram para o rol das frases antológicas do faroeste, como o diálogo entre Snaky (Jack Elam) e Harmônica: “Parece que há um cavalo a menos” / “Não, trouxeram dois a mais”, após o que Harmônica liquida os três oponentes. Mais tarde o mesmo Harmônica diz espirituosamente, referindo-se aos bandidos mortos: “Uma vez vi três casacos esperando um trem; dentro deles havia três homens e dentro dos homens havia três balas”. E ainda quando Frank diz para Wobbles (Marco Zuanelli): “Como confiar em um homem que usa suspensórios e cinto; você não confia nem nas suas calças...”

Jason Robards e Gabriele Ferzetti
Roteiro falho - A história escrita por Argento, Bertolucci e Leone foi roteirizada por Sergio Donatti e transcrito para o Inglês por Mickey Knox. Mesmo com tantas mãos participando do trabalho há em “Era Uma Vez no Oeste” algumas falhas no roteiro que não passam despercebidas nem pelo mais desatento espectador. Entre elas a falta de uma razão para Cheyenne ajudar Harmônica; o mortal ferimento de Cheyenne, alvejado por Morton e que não o afeta durante seu longo diálogo com Jill que antecede o duelo final entre Frank e harmônica; Jill se envolver com Frank que massacrara a família de seu marido; Cheyenne não ter se lembrado que no encontro no bar Jill estava presente, assim como Harmônica. Tantos furos no roteiro comprometem bastante este western tão elaborado de Leone e que se prolonga em close-ups após close-ups. Sabe-se que Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach foram inicialmente pensados por Leone para interpretar respectivamente Harmônica, Frank e Cheyenne. Esse fato explica a forçada presença deste último personagem desperdiçado inteiramente no filme, a ponto de se imaginar que “Era Uma Vez no Oeste” ficaria muito melhor sem o bandido mexicano o qual certamente Eli Wallach tornaria muito mais interessante.

Claudia Cardinalle
Claudia Cardinale, beleza insuficiente - Henry Fonda está soberbo como o vilão Frank, ele que representou melhor que ninguém e em tantos filmes personagens íntegros. Charles Bronson menos taciturno e quem ouvir opiniões de outros participantes do filme no documentário que acompanha o filme compreenderá melhor o processo criativo de Bronson como intérprete. O bom ator Jason Robards passa o filme como estranho no ninho a proferir frases de descabida profundidade para seu personagem, o mais eloquente bandido mexicano do cinema. Gabriele Ferzetti como o fragilizado dono de ferrovia poderia ser mais expressivo. Claudia Cardinale inunda a tela com sua beleza mas deixa a desejar como atriz dramática num papel que a espanhola (de Almería) Nieves Navarro interpretaria com mais força, mas de olho na bilheteria prevaleceu o nome de Claudia. O vasto elenco de coadjuvantes traz os norte-americanos Jack Elam, Woody Strode e o canadense Al Mulock na sequência inicial. O ótimo Aldo Sambrell tem pouca oportunidade para aparecer.

Henry Fonda e Charles Bronson
Um filme dependente da musica - Se “Era Uma Vez no Oeste” acaba por ser um filme arrastado com os excessos impostos por Leone, por outro lado o espectador se extasia com a beleza das imagens que se sucedem, sequência após sequência. Essas imagens são extraordinariamente valorizadas, como foi dito, pela inspiradíssima trilha musical de Morricone, sublime em certos momentos e, sem dúvida uma das mais perfeitas já compostas para um filme. A exceção é o tema de Cheyenne “Addio a Cheyenne”, executado em banjo, tabla e o assovio de Alessandro Alessandroni, tema que nada tem de mexicano, com andamento semicômico e que destoa das magníficas demais peças musicais. A voz da soprano Edda Dell’Orso e o Coral de Alessandro Alessandroni entoando o “Finale” é, ao mesmo tempo, enternecedor e sombrio gravando as imagens indelevelmente na mente do espectador. A importância da musica neste western de Sergio Leone pode ser melhor estimada assistindo-se algumas das deslumbrantes sequências sem a trilha, o que empobrece sobremaneira o resultado final. Maiores informações sobre a trilha composta por Ennio Morricone podem ser lidas neste link:

Dino Mele
Suprema teatralização - Leone pretendeu mostrar a chegada da civilização ao Velho Oeste realizando um filme majestoso e deslumbrante. Atingiu seu objetivo pois nenhum outro western se compara a “Era Uma Vez no Oeste” quanto a impressionar pelo lirismo de suas imagens. Reconhecido tanto por sua criatividade quanto por seus excessos, Leone não dosou seu estilo e concebeu uma grande ópera-western, a suprema teatralização do gênero que mais justo seria ser creditada como um filme de Sergio Leone e Ennio Morricone.


4 de julho de 2013

ERA UMA VEZ UM WESTERN DIRIGIDO POR ‘SIGNORE’ SERGIO LEONE


Após o enorme sucesso alcançado por sua Trilogia dos Dólares, Hollywood passou a se interessar por Sergio Leone pois o diretor italiano significava lucro certo e lucro sempre foi o objetivo maior dos estúdios. Em 1964 Leone havia filmado “Por um Punhado de Dólares” com apenas 200 mil dólares, 15 mil deles para pagar o ator principal Clint Eastwood. Em 1968 a United Artists informou a Leone que ele poderia dirigir Kirk Douglas, Charlton Heston ou Gregory Peck em um novo faroeste nos moldes da Trilogia dos Dólares, dando, no entanto, pouca liberdade ao diretor. A Paramount foi quem ganhou a briga para financiar o novo western de Leone uma vez que ofereceu ao diretor italiano o que ele mais queria que era liberdade para conceber o novo filme. Além disso a Paramount colocou à disposição de Leone um orçamento ainda maior que sua volumosa barriga: três milhões de dólares.

Gregory Peck, Kirk Douglas e Charlton Heston, atores que a United Artists
ofereceu a Sergio Leone para um novo faroeste.

Sergio Leone conversando com Henry Fonda.
Finalmente dirigindo Henry Fonda - Com aquele punhado de dólares Leone poderia afinal contratar Henry Fonda, o ator a quem mais admirava e com quem sonhara para interpretar o estranho sem nome de seu primeiro western. E para o novo filme de Leone, em 1968, Fonda receberia os mesmo 250 mil dólares que havia pedido em 1964, mesmo sem saber que tipo de filme seria aquele. Eli Wallach disse a Henry Fonda para ele aceitar de qualquer forma pois não se arrependeria de trabalhar com Leone. A opinião de Wallach era valiosa já que ele já havia sido dirigido por alguns dos melhores diretores norte-americanos como John Huston, Don Siegel, Elia Kazan, Henry Hathaway, William Wyler, Martin Ritt, John Sturges e Richard Brooks. Era um fato conhecido que Sergio Leone pretendia mesmo era filmar uma nova versão de “E o Vento Levou”, mas a Paramount avisou que só liberaria o financiamento prometido para um faroeste e, se possível parecido com aqueles três estrelados por Clint Eastwood. Leone teve que se dobrar e criar uma história para o novo faroeste. Para isso contou com a ajuda dos amigos Bernardo Bertolucci e Dario Argento e com a história debaixo do braço Leone passou a pensar nos atores que iria contratar para contracenar com Henry Fonda. O título do filme seria “C’Era Una Volta Il West” (Once Upon a Time in the West, em Inglês).

Charles Bronson e Claudia Cardinalle.
Charles Bronson, o ‘Harmônica’ - O extravagante Leone sonhava alto e para este filme queria novamente Clint Eastwood interpretando um personagem sem nome mas desta vez apelidado de ‘Harmônica’. Clint Eastwood recusou a primeira investida de Sergio Leone que foi então atrás de James Coburn que igualmente recusou a oferta. Leone acabou contratando Charles Bronson, ator fadado a ser eterno coadjuvante nos Estados Unidos e que havia se tornado famoso na Europa depois de atuar em “Adeus, Amigo”, roubando o filme do ator principal Alain Delon. Outro ator norte-americano contratado por Leone foi Jason Robards, com notável carreira na Broadway, mas que no cinema ainda não conseguira empolgar (anos depois Robards ganharia dois prêmios Oscar como coadjuvante). O importante papel feminino de “C’Era Una Volta Il West” ficou com Claudia Cardinalle que naquele momento, entre as atrizes italianas, só perdia em prestígio para Sophia Loren. E La Cardinalle, que encantara os fãs de faroestes em “Os Profissionais”, nem italiana era pois nascera na Tunísia. Com a dinheirama da Paramount, Leone continuou contratando outros caros atores norte-americanos.

Eli Wallach, Lee Van Cleef e Clint Eastwood.
“Sergio, chega de faroestes italianos” - O novo faroeste de Sergio Leone teria uma cena marcante em seu início, envolvendo Harmônica e três bandidos. A participação desses atores seria pequena e o delirante Leone imaginou como ficaria espetacular aquele início se os três bandidos que morrem na estação fossem interpretados por Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach. Convidado pela segunda vez, Clint Eastwood foi curto e grosso em sua resposta a Leone: “Sergio, no more Italian westerns” (Sergio, chega de faroestes italianos). Com isso Leone resolveu esquecer de Van Cleef e Wallach. Os três bandidos mortos no início de “C’Era Una Volta Il West” acabaram sendo os norte-americanos Jack Elam e Woody Strode e o canadense Al Mulock. A esposa de Woody Strode, uma princesa havaiana chamada Luukialuana participa rapidamente da sequência inicial como uma índia. Outros três atores norte-americanos foram ainda contratados: Lionel Stander, que ficara doze anos sem filmar (1951-1963) por ter sido colocado na lista negra de Hollywood; Frank Wolff, que fora para a Itália participar do filme “O Bandido Giuliano” em 1962 e permanecera na Itália; e Keenan Wynn, que herdaria o papel de xerife de Flagstone quando Robert Ryan não pode aceitar por estar filmando no México, sob as ordens de Sam Peckinpah, um western intitulado “The Wild Bunch” (Meu Ódio Será Sua Herança). O restante do elenco de coadjuvantes Sergio Leone completaria ‘em casa’, com atores conhecidos de muitos westerns spaghettis e ainda Gabrielle Ferzetti, respeitado ator italiano de cinema e teatro.

Tonino Delli Colli
A cidade de Flagstone - Depois de pronto o roteiro, para o qual Leone contou com a colaboração de Sergio Donati, tinha um total de 420 páginas, das quais 14 delas eram somente de os diálogos, o que indicava que o diretor de fotografia teria muito trabalho. Leone trabalhara com o cinegrafista Tonino Delli Colli em “Três Homens em Conflito” e sabia que o experiente profissional realizaria um ótimo trabalho, especialmente depois de ouvir as peças musicais que Leone encomendara a Ennio Morricone. “C’Era Una Volta Il West” seria filmado em Almería (na Espanha), em Cinecittà (em Roma) e em Utah, no Monument Valley, local preferido do Mestre John Ford. A cidade de Flagstone, em Almería, custou 250 mil dólares para ser edificada sob supervisão do designer Carlo Simi. Dezenas de extras foram contratados recebendo cada um 14 dólares por dia de trabalho. As filmagens tiveram início em abril de 1968, em Cinecittà, onde foram filmadas as cenas interiores. A equipe rumou em seguida para Almería onde foram rodadas as sequências que abrem o filme. Dessas sequências participam Bronson, Strode, Elam e Al Mulock, este último o bandido louro com o ar ensandecido.

A inesquecível panorâmica de Flagstone.

Al Mulock
O suicídio de AL Mulock – Al Mulock (Alfred Mulock Rogers) tinha uma fisionomia marcante e havia atuado em diversos westerns spaghettis, um deles “Três Homens em Conflito” no qual interpreta o confederado maneta. Num dia após ter feito suas cenas, Al Mulock  atirou-se de uma janela do hotel onde atores e técnicos estavam hospedados, em Guadíx, cidade situada a 78 km de Almería. Claudio Mancini, gerente de produção (e também ator) e Mickey Knox conversavam em um balcão, um andar abaixo e viram o corpo de Al Mulock se estatelar no solo. Mancini e Claudio tentaram socorrer Mulock que estava vestido com os trajes que a produção lhe preparara levando-o no carro de Knox para um hospital. Apareceu então Sergio Leone gritando nervosamente: “Peguem a roupa, peguem a roupa. Vamos precisar dela!” Mulock, que era viciado em drogas, não sobreviveu à queda e provavelmente se jogou desesperado por não ter encontrado drogas para comprar em Guadíx. Mulock, que tinha 41 anos de idade, havia perdido a esposa vítima de câncer um ano antes.

Acima a plataforma da estação em Flagstone;
abaixo três atores com a poeira do Monument
Valley no ar.
Poeira do Monument Valley em Cinecittà - Ao chegar em Almería, a produção de “C’Era Una Volta Il West” encontrou uma enorme quantidade de madeira ali deixada desde o filme “Falstaff - O Toque da Meia-Noite”, dirigido por Orson Welles na Espanha em 1965. Essas madeiras foram aproveitadas para fazer a plataforma em que Harmônica se defronta com os três capangas de Frank e também para construir a cabana do rancho de Brett McBain. Leone filmou algumas sequências no Monument Valley, entre elas a tortura de Harmônica e seu irmão mais velho. As locações nos Estados unidos implicaram numa demora maior e em mais gastos da produção. Para dar maior autenticidade à cena em que Cheyenne e seus homens entram no posto da estação de diligência em Sweetwater, Leone exigiu que fossem trazidas porções de terra vermelha de Monument Valley. A poeira pode ser vista quando a porta é aberta e os homens entram, cena que foi rodada em Cinecittà. Em Almería, o local onde ainda permanece o local da casa de Brett McBain, é chamado de ‘Rancho Leone’ e é aberto à visitação pública. As filmagens de “C’Era Una Volta Il West” se encerraram no final de julho de 1968, totalizando 110 dias de filmagens e especula-se que o custo final da obra de Leone tenha atingido os cinco milhões de dólares.

Fracasso nos Estados Unidos - O lançamento de “C’Era Una Volta Il West” na Itália ocorreu no dia 21 de dezembro de 1968 e a duração do filme era de 171 minutos. “C’Era Una Volta Il West” recebeu dublagem em Italiano, Inglês, Francês, Espanhol e Alemão e fez sucesso na Europa, especialmente na França, onde foi excepcionalmente bem recebido. O western de Leone chegou às telas norte-americanas somente em maio de 1969 e com a metragem de 144 minutos. Com críticas bastante divididas, “Once Upon a Time in the West” fracassou nos Estados Unidos, onde arrecadou apenas um milhão de dólares. “A Marca da Forca”, primeiro faroeste norte-americano de Clint Eastwood que havia custado um milhão e oitocentos mil dólares foi lançado simultaneamente ao filme de Leone e rendeu sete milhões de dólares.

Cena de "O cavalo de Ferro", de John Ford,
uma das inspirações de Sergio Leone.
Referências sem fim - Entre as cenas excluídas da versão exibida nos Estados Unidos estão a agressão sofrida por Harmônica na lavanderia chinesa, bem como o interrogatório que o xerife faz com Harmônica. Não se vê ainda a cena de Frank (Henry Fonda) se barbeando antes de enfrentar Harmônica. Com essa cena Leone queria lembrar “Paixão dos Fortes”, em que Fonda (Wyatt Earp) também se barbeia antes de enfrentar os Clantons. O que não falta em “Era Uma Vez no Oeste” são referências em forma de homenagem a westerns norte-americanos. A mais óbvia referência é a cena inicial que lembra o começo de “Matar ou Morrer”, mas especialistas na obra de Leone citam referências diretas ou indiretas (nomes, lugares e cenas) a mais de 30 faroestes norte-americanos. Entre eles “O Cavalo de Ferro”, “A Conquista do Oeste”, “Os Brutos Também Amam”, “Rastros de Ódio”, “Galante e Sanguinário”, “Johnny Guitar”, “O Homem que Luta Só”, “Minha Vontade é Lei”, “O Último Pôr-do-Sol”, “Da Terra Nascem os Homens”, “Um Pecado em Cada Alma”, “Armado Até os dentes”, “Paixão dos Fortes” e “Conspiração do Silêncio”. Mesmo a famosa sequência do enforcamento do irmão de Harmônica copiou cena idêntica do euro-western “Yankee” (1966), de Tinto Brass.

Sequência do espancamento sofrido por Harmônica excluída
das versões menores de "Era Uma Vez no Oeste".

Poster com o título em alemão.
Início de uma trilogia - “Era Uma Vez no Oeste” foi lançado na maior parte do mundo, inclusive no Brasil, com uma versão de 161 minutos. Foi, no entanto, relançado nos Estados Unidos em 1984 com a versão original de 171 minutos. Tendo seu título sido traduzido literalmente na maior parte dos países em que foi exibido, “Era Uma Vez no Oeste” recebeu na Alemanha o título “Toque para Mim a Canção da Morte”; na Espanha chamou-se “Afinal Chegou a Sua Hora”; e na Suécia “Harmônica, o Vingador”.  Sergio Leone, que hoje é considerado um dos maiores diretores de todos os tempos, era bastante meticuloso, mas mesmo assim cometia alguns erros, como quando Simonetta Santaniello (Maureen) canta a canção tradicional irlandesa “Danny Boy”. Essa canção só receberia letra em 1910, décadas depois do tempo em que a história de “Era Uma Vez no Oeste” se desenrola. Sergio Leone pretendia filmar uma trilogia sobre a América e a iniciou com “Era Uma Vez no Oeste”, prosseguindo com “Quando Explode a Vingança”, fechando a trilogia com “Era Uma Vez na América”. Tanto o primeiro como o último filme dessa trilogia são considerados obras-primas do cinema mundial e lamenta-se muito que Leone tenha falecido aos 60 anos de idade sem ter realizado outros filmes. “Era Uma Vez na América” custou 30 milhões de dólares e rendeu apenas cinco milhões e esse fracasso comercial selou a sorte de Sergio Leone como diretor, uma vez que seus projetos eram sempre grandiosos, não apenas no aspecto financeiro, mas e principalmente no artístico, como se vê ao assistir “Era Uma Vez no Oeste”.


LEONE DIRIGINDO CLAUDIA CARDINALLE




Acima Charles Bronson com Leone e Claudia Cardinalle.

Acima Leone com Jason Robards.


26 de junho de 2013

ENNIO MORRICONE COMPÕE A MAIS SUBLIME CANÇÃO DE UM FAROESTE


“Era Uma Vez no Oeste” (Once Upon a Time in the West / C’Era Uma Volta Il West) é um majestoso faroeste dirigido por Sergio Leone. Muito da beleza visual desse filme deve-se ao maestro e compositor Ennio Morricone pois como é sabido, Leone pediu a Morricone que compusesse os temas musicais do filme, o que o compositor fez a partir da leitura do roteiro e de suas conversas com o diretor. Para as sequências e personagens principais, Morricone criou composições específicas e Leone executava essas peças durante as filmagens. Isso não só ajudou os atores, mas despertou nele, diretor, uma transcendente inspiração.


Ennio Morricone e Sergio Leone
Em 1968 Ennio Morricone já havia criado admiráveis e inovadoras trilhas sonoras para westerns spaghettis. Nenhuma delas, porém, atingiu a perfeição das peças musicais composta para “Era Uma Vez no Oeste”, especialmente o tema principal que tem o mesmo título do filme. Outros temas de “Era Uma Vez no Oeste” tornaram-se clássicos como “Man With Harmonica”, “Farewell to Cheyenne” e “As a Judgement”, respectivamente compostos para os personagens Harmonica, Cheyenne e Frank. A alegre canção “Bad Orchestra” mostra uma indisfarçada influência de Henry Mancini, outro grande maestro compositor que fez trilhas imortais para o cinema. “Death Rattle” é o próprio macabro caminho sonoro trilhado pela Morte. E há ainda “The Transgression”, “The First Tavern” e “The Man”, completando os momentos escolhidos para compor o extraordinário álbum de “Era Uma Vez no Oeste”.  Ouve-se durante a sequência no rancho dos McBain a canção irlandesa “Danny Boy” interpretada por Simonetta Santaniello (Maureen no filme) que não faz parte do álbum.

Edda Dell'Orso, a magnífica soprano,
que colaborou com Ennio Morricone em
muitos trabalhos do maestro-compositor.
As peças musicais “A Dimly Lit Room” e “Jill’s America” reutilizam o tema principal criando atmosferas igualmente dramáticas. O tema principal de “Era Uma Vez no Oeste” tem duas versões. A primeira delas quando Jill (Claudia Cardinalle) chega à estação de Flagstone, executada pela orquestra regida por Morricone e contando com as vozes do Coral Alessandroni. A segunda versão é ouvida no Finale, com destaque para a voz da soprano Edda Dell’Orso. Ambas as versões são exuberantes, mas a voz de Edda Dell’Orso torna a canção ainda mais assombrosa e ao mesmo tempo lânguida e enternecedora. Edda Dell’Orso fazia parte do grupo I Cantori Moderni, criado por Alessandro Alessandroni e participou de muitos trabalhos de Ennio Morricone para o cinema, entre eles o filme “Três Homens em Conflito”. Nesse clássico western spaghetti de 1966 a voz de Edda é ouvida na sequência em que Tuco (Eli Wallach) procura desesperadamente pelo ouro enterrado num dos túmulos.

O coral I Cantori Moderni, de Alessandro Alessandroni, em 1964. Edda Dell'Orso
está no centro da foto, de vestido preto, com Alessandroni à sua esquerda.

Uma das mais belas páginas musicais do cinema, “Era Uma Vez no Oeste” foi ignorada pelo Oscar, em 1969, seja como trilha sonora musical ou como canção. Sobrevive, no entanto, esse trabalho do grande compositor Ennio Morricone aos tempos e mesmo ao gênero western, ao qual extrapola, convertendo-se num dos mais ricos momentos musicais criados para um filme.