Há certos filmes que têm tudo para dar errado. Uma fórmula infalível para o fracasso é juntar num filme o reacionário John Wayne órfão de seus amigos de tantos filmes com um pouco experiente diretor intelectual novaiorquino e claro, democrata. Some à dupla um ator negro ativista liberal, um vilão de filmes de gangs de motociclistas e... onze adolescentes. Você colocaria um centavo numa produção dessas? Pois “Os Cowboys” (The Cowboys), lançado em 1972 se transformou num razoável sucesso de bilheteria, com uma das melhores interpretações da carreira de John Wayne e é um western carinhosamente lembrado.
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Duke fazendo piada com a própria barriga |
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Roscoe, Coleen e Bruce |
MENINOS VIRANDO HOMENS - Todo garoto dos anos 40 e 50 sonhava ser mocinho, mas antes de ser mocinho precisava ser cowboy. Ainda bem que aqueles meninos, hoje beirando ou já passados dos 70 anos, só veriam John Wayne transformando meninos em cowboys neste western, já maduros e menos sonhadores. O filme de Rydell mostra como poucos westerns as agruras e a dura realidade da vida de um cowboy. Mostra como é brutal o amadurecimento dos homens do Oeste quando se defrontam não só com as adversidades geográficas ou atmosféricas, mas, e principalmente, ao travar contato com as piores espécies de seres humanos, como o Long Hair interpretado por Bruce Dern, personagens tão comuns no universo do Velho Oeste. Will Andersen (John Wayne) se vê obrigado a dissipar a inocência dos adolescentes incutindo neles não só a força necessária para o difícil enfrentamento da vida mas também para que ele ajam sempre com integridade, honra e força de caráter. E Will Andersen faz isso até com excessiva e desnecessária rudeza, como quando empurra um garoto que dorme em cima do cavalo para fora da sela. Ou quando exige de outro menino que se expresse sem gaguejar. E ao dizer aos garotos: “Vocês são meninos, não cowboys ainda. E eu vou lembrar isso a vocês a cada minuto do dia e da noite”. Mas todos os garotos, sem exceção, tornam-se precocemente amadurecidos ainda que adolescentes. E há a colaboração de Nightlinger, estranho por ser negro, até naquele parte do corpo, como pergunta um menino, também fazendo de cada garoto um homem. A magnífica história de Williams D. Jennings, mostra ainda o primeiro contato dos meninos com a bebida, com as prostitutas e especialmente com o bando de Long Hair. Toda essa transformação transcorre num filme que emociona em cada cena, em cada gesto e em cada olhar, dos homens, dos meninos e das mulheres do filme.
'THAT SON OF A BITCH CAN ACT' - A incrível beleza plástica de “Os Cowboys” deve-se ao cinegrafista Robert Surtees que realizou um magnífico trabalho. As cenas de condução de gado são deslumbrantes, assim como os cenários que vão sendo percorridos com as paisagens do Novo México, Colorado e mesmo no San Cristobal Ranch (Novo México), onde se passa a primeira parte da história. Porém a maior atração de “Os Cowboys” são as excepcionais interpretações que Mark Rydell conseguiu extrair do elenco. Exceto Robert Carradine (Slim), o mais jovem dos filhos de John Carradine e Nicolas Beauvy (Dan), todos os demais garotos faziam suas estréias no cinema e mesmo assim têm performances magníficas. A sequência em que Dan tem seus óculos quebrados por Long Hair é simplesmente sublime. Bruce Dern entrou para a galeria dos bandidos inesquecíveis não apenas por haver matado John Wayne de forma covarde, mas por haver criado um dos mais cruéis bandidos de um western. A quase desconhecida (das telas) Coleen Dewhurst tem uma participação pequena mas deliciosa. Nightlinger é interpretado magnificamente por Roscoe Lee Browne, que por pouco não domina o filme, só não o fazendo porque “Os Cowboys” é um filme de John Wayne. Na sua vasta filmografia poucas vezes John Wayne recebeu elogios por suas interpretações e Duke como Will Andersen pode ser colocado ao lado de suas grandes atuações como Ethan Edwards (“Rastros de Ódio”), Capitão Nathan C. Brittles (“Legião Invencível”), J.B. Books (“O Último Pistoleiro”) e Thomas Dunson (“Rio Vermelho”). Este último western foi aquele que John Ford, após ver o filme de Howard Hawks declarou: “That son of a bitch can act” (Esse filho da mãe é capaz de atuar). Depois de assistir “Os Cowboys” deve-se aduzir à exclamação de Ford: E como ele sabe atuar!