UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

29 de junho de 2016

QUADRILHAS DOS FAROESTES – ARTHUR KENNEDY E BANDIDOS CONTRA OS SITIANTES


No western de Anthony Mann “E o Sangue Semeou a Terra” (Bend of the River), o vilão é Arthur Kennedy que, momentaneamente, une-se a um grupo de homens dispostos a qualquer tipo de trabalho, mesmo que seja roubar e matar. Kennedy é quem comanda o grupo que quer ver James Stewart longe deles, malta formada por Harry Morgan, Royal Dano, Jack Lambert, Cliff Lyons e Chuck Hayward. Os três primeiros são mais conhecidos, enquanto Lyons e Hayward eram stuntmen de profissão, atuando como atores esporadicamente. Arthur Kennedy, magnífico intérprete já foi biografado pelo WESTERCINEMANIA, postagem que mostra a brilhante carreira desse ator.

Arthur Kennedy é Emerson Cole, conhecido fora-da-lei que atuava no Kansas e procura mudar de ares mas nunca deixando de lado sua índole de homem mau - Ao interpretar o cínico e traiçoeiro escroque Ned Sharp em “O Intrépido General Custer”, em 1941, parecia que Arthur Kennedy estava definindo sua carreira de ator. Kennedy atuou novamente com James Stewart em “Um Certo Capitão Lockhart” The Man from Laramie), faroeste clássico também de Anthony Mann. Kennedy teve bela carreira em Hollywood, onde três dos pontos mais altos foram sua participação em “Lawrence da Arábia”, em “O campeão” e em “Paixão de Bravo”. Arthur Kennedy teve, paralelamente ao cinema, reconhecida carreira como ator de teatro, dividindo o palco na temporada novaiorquina da peça “Becket” com Laurence Olivier, de quem recebeu muitos elogios. Kennedy nasceu em 1914 e faleceu aos 75 anos de idade em 1990.

Jack Lambert como ‘Red’ lidera o grupo de homens que perambula pelo porto de Portland - Feio, olhos esticados como se fosse mestiço oriental, queixo quadrado, esse conjunto formava a imagem de um perfeito facínora e era a imagem de Jack Lambert, descendente de escoceses e nascido em Nova York em 1920. Lambert estudou para ser Professor de Língua Inglesa, mas alunos e amigos lhe disseram que com aquele ar assustador de homem mau, ele deveria tentar a sorte no cinema. Foi o que Lambert fez e após algumas pontas foi notado como um dos bandidos de “Rua dos Conflitos” (Abilene Town), de 1946. A partir daí, por dezenas de vezes, Jack Lambert interpretou invariavelmente homens maus em filmes policiais e em inúmeros westerns. “Os Quatro Heróis do Texas” (Dean Martin), em 1963 foi o último filme de Jack Lambert que continuou atuando por algum tempo na televisão.  Lambert faleceu em 18 de fevereiro de 2000.

Harry Morgan é ‘Shorty’, o mais baixo do grupo de bandidos – Recém chegado da Broadway, Harry, em seu segundo ano em Hollywood, atuou no clássico “Consciências Mortas” (The Ox-Bow Incident). Belo início de uma longa carreira que durou 57 anos com participações em filmes de todos os gêneros. Na televisão Harry, que chegou a usar o nome ‘Henry Morgan’, brilhou até mais que no cinema pois foi com a série “Dragnet” que ele se tornou ainda mais conhecido. Essa série policial fez enorme sucesso nos anos 50, estrelada por Jack Webb. Em 1967 Webb decidiu relançar “Dragnet” e convidou Harry Morgan para ser o oficial ‘Bill Gannon’. A série ficou no ar por mais quatro anos, algo nunca visto antes na TV, mídia que tritura talentos como nenhuma outra. Outro sucesso de Morgan na TV foi como o Coronel Sherman T. Potter na série “Mash”, trabalho que lhe valeu um prêmio “Emmy’. Morgan faleceu aos 96 anos de idade, em 2011.

Royal Dano é ‘Long Tom’, o mais alto dos desocupados que se tornam assaltantes – Quando, nas décadas de 50 a 80, algum escritor ou roteirista colocava na história um bandido estranho, nervoso, sempre prestes a disparar sua arma ou com um toque de neurose, pensava invariavelmente em Royal Dano. Um de seus primeiros filmes foi “A Glória de um Covarde” (The Red Badge of Courage) e Dano voltou a impressionar bem como um atormentado bandido em “Johnny Guitar”. Dirigido por Anthony Mann, Royal Dano esteve em “Região do Ódio” (The Far Country” e em “O Homem do Oeste” (Man of the West), neste como o bandido mudo. Em “A Quadrilha Maldita” (Day of the Outlaw), outro clássico do faroeste, Dano interpretou o idiotizado ‘Uncle Billy’. Esse novaiorquino nascido em 1922, já em final de carreira, é o professor que morre em sala de aula e os alunos não percebem, no filme “Escola da Desordem”. Royal Dano faleceu, de verdade, em 1994.

Cliff Lyons é ‘Willie’, que se afasta do grupo de desocupados antes que se inicie o confronto final – Quando o assunto é stuntman, logo vem à lembrança o nome de Yakima Canutt, porém há um dublê contemporâneo do grande Yakima que também fez história. Ele é Cliff Lyons, nascido em 1901 e que aos 24 anos, ainda no cinema mudo, se iniciou na dura vida de dublar os atores famosos em cenas de perigo. Lyons substituiu, entre outros, William Boyd, Ken Maynard e Bill Elliott. Em “Jesse James” Lyons dublou não só Tyrone Power como também Henry Fonda. Nos anos 50, tamanha era a competência de Cliff Lyons, que ele passou não só a coordenar os trabalhos dos stuntmen, como a dirigir a 2.ª unidade responsável pelas cenas de ação. Foi o que aconteceu em “O Álamo”, épico em que John Wayne deveria ter dividido o crédito de direção com Cliff Lyons, que faleceu em 1974, aos 72 anos. Um dos últimos trabalhos de Lyons foi no violento “Jake, o Grandão” (Big Jake).

Chuck Hayward é um dos homens liderados por Jack Lambert  - Dois stuntmen que atuavam juntos em muitos faroestes chamavam-se ‘Chuck’ e eram Chuck Roberson e Chuck Hayward. Para diferenciá-los, John Wayne os apelidou de ‘Bad Chuck’ (Roberson) e ‘Good Chuck’ (Hayward), isto só porque Chuck Roberson acompanhava o Duke nas bebedeiras e Hayward preferia manter-se sóbrio. Ambos atuaram como dublês e simultaneamente como atores em muitos filmes, como em “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country), em que os dois aparecem bastante e fazem belo trabalho como stuntmen. O mesmo ocorreu em “Rastros de Ódio” (The Searchers) em que os Chucks aparecem como ‘best men’ (padrinhos) no casamento que acaba não se realizando entre Ken Curtis e Vera Miles. Os pai de Chuck Hayward possuíam um rancho no Nebraska, o que explica sua habilidade como cavaleiro. Hayward faleceu em 1998, aos 78 anos de idade.


James stewart (de costas) enfrenta Jack Lambert, Royal Dano,
Harry Morgan e Chuck Hayward.

Cliff Lyons segura James Stewart, que foi surrado,
sob os olhares de Harry Morgan e Royal Dano.

24 de junho de 2016

À SOMBRA DE UM REVÓLVER (ALL’OMBRA DI UNA COLT) – ‘UMA BALA ENTRE OS OLHOS’


Stephen Forsyth e o pôster
de "O Alerta Vermelho da
Loucura", de Mario Bava.
Stephen Forsyth, o ator principal de “À Sombra de um Revólver” (All’Ombra di una Colt) é um canadense que teve passagem rápida como ator na Europa. Forsyth, que atuou em dez filmes na Espanha e na Itália, três deles westerns, possuía múltiplos talentos, como poeta, fotógrafo, músico, dançarino, coreógrafo, compositor e produtor musical, sendo que logo descobriu que fazer filmes de qualidade duvidosa não o agradava. Cedo ele deu adeus a Cinecittà e a lugares inóspitos como Colmenar Viejo, onde foi rodada a maior parte de “À Sombra de um Revólver” (1965) e Almería. Este western foi filmado com pequeno orçamento e a produção que procurava alguém parecido com Clint Eastwood contratou o quase inexperiente Stephen Forsyth que lembra mais Gabriele Tinti. Giovanni (Gianni) Grimaldi, o diretor de “À Sombra de um Revólver” havia escrito mais de 40 roteiros para filmes, muitos deles comédias de Totó e mais tarde épicos da fase ‘sandália e espada’. Entre os roteiros de Grimaldi o mais apelativo certamente é “Totó Contra Maciste”, cujo título fala por si só. Em meados da década de 60, como fazia a quase totalidade do pessoal ligado ao cinema, Grimaldi convergiu para o gênero western, decidindo que chegara a hora de experimentar a direção. Ele próprio escreveu o roteiro deste pouco citado faroeste que não chegou a fazer sombra aos extraordinários sucessos que os dois filmes iniciais da ‘Trilogia dos Dólares’ de Sergio Leone ou "O Dólar Furado" (Un Dollaro Bucato), com Giuliano Gemma, faziam.


Stephen Forsyth com Ana Maria Polani e abaixo
Conrado San Martín e Stephen Forsyth.
A regra de um pistoleiro - Duke (Conrado San Martín) e Steve Blane (Stephen Forsyth) são dois pistoleiros que se apossam de seis mil dólares que o bando de Ramirez (Aldo Sambrell) extorquiria de um povoado mexicano a título de proteção. Durante o confronto a dupla liquida com os bandidos mas Duke é ferido e concorda que Steve fique com o dinheiro, com a condição que entregue metade para sua filha Susan (Anna Maria Polani). Duke sabe que Steve e Susan se gostam e impõe também a condição de o amigo não se casar com sua filha, ameaçando matá-lo se este descumprir essa ordem. Mas Steve quer abandonar a vida de pistoleiro, casar-se com Susan, constituir família e viver tranquilo numa fazenda. Após encontrar com a moça Steve ruma para uma cidade dominada pelos inescrupulosos empresários Jackson (Franco Ressel) e Burn (Franco Lantieri). A única propriedade que ainda não pertence à sociedade Jackson & Burns é uma fazenda que interessa a Steve, o que provoca um inevitável confronto com os bandidos travestidos de homens de negócios e seus capangas. Quando o embate está para acontecer o recuperado Duke reaparece e se junta a Steve no enfrentamento aparentemente desigual. Duke e Steve são exímios atiradores e dizimam Jackson e Burns e o bando destes. Duke, no entanto, não perdoou Steve por este ter se casado com sua filha, aplicando violenta surra no ex-companheiro que não reage. Duke parte deixando o casal seguir sua vida.

Acima Conrado San Martín;
abaixo Stephen Forsyth.
Uma bala entre os olhos - O eterno tema da vingança se faz presente em “À Sombra de um Revólver”, ainda que motivado por razão singular. Um pistoleiro experiente sabe que o futuro nessa profissão nunca é promissor. Duke não quer que sua filha se una ao amigo para que esta não venha a sofrer e se torne viúva precocemente. Sabedor que o companheiro Steve ama sua filha, avisa-o que lhe meterá “uma bala entre os olhos” se ele insistir em ficar com ela. Steve e Susan projetam uma vida juntos, o que origina a inaudita vingança e praticamente toda a ação do filme gira em torno da determinação de Steve em encontrar o lugar para viver e ser feliz com Susan e concretizar seu sonho de criar família. Steve chega mesmo a enterrar seu coldre e Colt, determinado a abandonar assim a violência, mesmo sabendo que a violência não o abandonará tão cedo. E é justamente a sanha dos poderosos que fará com que ele adie seu projeto de vida, curiosamente realizado com a ajuda daquele que prometeu colocar uma bala entre seus olhos.

Forsyth assoviando para o cavalo.
Um invencível herói - A originalidade do roteiro de Giovanni Grimaldi se esgota com a diferença entre os dois companheiros pois o filme já se inicia com um episódio inspirado no bando de Calvero em “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven). A sequência de placas no comércio local indicando Jackson & Burns serem os donos da cidade é outra demonstração que situações comuns a tantos e tantos westerns virão a seguir.  O desejo de mudar de vida foi um argumento usado á exaustão em westerns norte-americanos. Há ainda o indestrutível herói Steve Blane sobrevivendo a atentados e surras diversos e quando necessário mostrando uma perícia rara, disparando seu Colt tanto para a frente quanto matando adversários que estão às suas costas. E até seu cavalo, relembrando as montarias dos mocinhos dos antigos westerns ‘B’ sabe se fingir de morto e atende ao assovio do dono. Vale lembrar que ‘Steve’ era o recorrente nome do personagem da série ‘Durango Kid’. O espectador adquire a certeza que o destemido Steve a todos vencerá e eis que o final reserva uma surpresa: a surra que seu sogro lhe aplica, à qual ele não reage por julgar-se merecedor da punição e porque o prêmio representado por Susan vale à pena. E são justamente os lugares comuns que tornam este western leve e agradável. E isso é resultado da opção de Grimaldi por se afastar do estilo que já em 1965 dominava o subgênero que viria a ser cunhado de ‘spaghetti’ e ter uma proximidade maior com o western de Hollywood.

Stephen Forsyth como se fosse um mocinho dos westerns 'B' de Hollywood.

Conrado San Martín e Stephen Forsyth (acima).
Frases patéticas - “À Sombra de um Revólver” tem dois momentos brilhantes: a sequência em que Duke e Steve enfrentam Ramirez e seu bando e o tiroteio na rua principal da cidade dominada por Jackson & Burns. Para um diretor estreante em westerns, até que Giovanni Grimaldi se sai bastante bem nessas sequências de ação, ele que curiosamente só voltaria ao gênero em tom de comédia com a dupla Franco Franchi-Ciccio Ingrassia. Otimamente coreografado, o referido showdown peca apenas pelo excesso de homens caindo dos telhados. “À Sombra de um Revólver” é prejudicado pela mão do próprio Grimaldi em cujo roteiro ‘reluzem’ frases como esta: “Darei a ele um belo funeral, digno das primeiras e últimas lágrimas da minha filha”, frase dita por Duke falando de Steve. Fica a dúvida se este não é um daqueles dramas filmados por Emílio Fernandez em Churubusco... Ou ainda quando o mesmo Duke filosofa: “Um pistoleiro já é um velho aos 20 anos; já pode ser colocado numa cova de cemitério”. Ao ver Steve atirar certeiramente sem olhar para trás, um trio de mexicanos exclama pateticamente: “Aquele gringo atira bem...”. Como diretor de atores Grimaldi também deixa a desejar pois poucos no elenco escapam de interpretações estereotipadas quando não risíveis de tão amadoras.

Franco Lantieri e Franco Ressel;
a mão de madeira do vilão;
Franco Ressel e a cena de sua morte;
Elenco regular - Stephen Forsyth enveredou equivocadamente pela profissão de ator, ainda que esteja no mesmo nível de tantos outros anti-heróis dos westerns spaghetti. Artista multimídia, Forsyth desenvolveu brilhante carreira e certamente gostaria que seu passado como ator fosse esquecido. O canadense chegou a atuar sob a direção de Valério Zurlini em “Sentado à Sua Direita”, contracenou com Norma Bengell em “O Homem de Toledo” e estrelou o terror-cult “O Alerta Vermelho da Loucura”, de Mario Bava, após o que abandonou a carreira de ator em 1970. Os espanhóis Conrado San Martín e José ‘Pepe’ Calvo são os destaques do elenco, Conrado por sua forte expressividade dramática, e Calvo excelente como o xerife que se vê privado de sua autoridade como homem da lei. Uma pena que a participação de Aldo Sambrell, se resuma a poucos minutos na tela, ele que representaria maior ameaça junto ao grupo de bandidos escalados. Franco Ressel e Franco Lantieri deram o perfeito padrão de canastrice à dupla de bandidos que interpretaram. Interessante o bandido com mão de madeira como um Dr. Strangelove do Velho Oeste que numa gag própria de comédias debochadas termina levando um tiro na mão boa. Melhor que eles é Andrea Scotti como o guarda-costas da dupla de bandidos. A bela alemã Helga Liné é a oportunista Fabienne, enquanto Anna Maria Polani é fraquíssima como Susan. Eugenio Galadini é o pouco engraçado ‘old-timer’ Buck, personagem que nunca falta nos westerns spaghetti.

José 'Pepe' Calvo - Aldo Sambrell - Helga Liné - Stephen Forsyth

A melancólica trilha musical - Nico Fidenco, cantor que fez enorme sucesso no início dos anos 60, passou a ser um dos mais requisitados compositores de trilhas musicais para filmes, muitos deles westerns spaghetti. O tema principal que Fidenco compôs para “À Sombra de um Revólver” e que ilustra praticamente todo o filme é belíssimo, triste e pungente, remetendo mesmo aos primeiros acordes de um de seus maiores sucessos como cantor que foi “A Casa d’Irene”. Tem-se a impressão, a todo momento, que Fidenco vai cantar os conhecidos versos “...Giorni senza domani e el desiderio di te...”. O tema de abertura não foge da influência de Ennio Morricone, com direito ao clássico assovio e podem ser ouvidos os versos na voz de Nico Fidenco neste endereço  https://www.youtube.com/watch?v=CEUIVIikzW. Na versão que circula no Brasil dublada em Inglês a voz não é de Fidenco. “À Sombra de um Revólver” certamente não agradará aos fãs do estilo atrevido, impetuoso e muitas vezes tosco dos westerns spaghetti, uma vez que este filme de Giovanni Grimaldi tem mais influência de Budd Boetticher que do então já muito influente Sergio Leone. É um faroeste menor se comparado aos grandes filmes de Leone e Corbucci, mas um bom western que merece ser assistido.


A cópia de “À Sombra de um Revólver” foi gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador Thomaz Antônio de Freitas Dantas

Anúncio em jornal de São Paulo por ocasião do lançamento do western de
Giovanni Grimaldi, na semana do Natal de 1966, sucedendo a "O Dólar Furado"
que permaneceu por 25 semanas em cartaz naquela sala paulistana.

21 de junho de 2016

TOP-TEN WESTERNS DA CINÉFILA ELAINE CHRISTINE FONSECA

No álbum acima vemos Natalie Wood, Grace Kelly, Chelo Alonso, Claire Trevor, Vera Miles,
Angie Dickinson, Sonia Amelio, Shelley Winters, Joanne Dru e Jean Arthur.

Gary Cooper e James Stewart;
Humphrey Bogart e Spencer Tracy;
Cary Grant e Rex Harrison
Acredita-se que mulheres não apreciem faroestes, o que até pode ser verdade. Porém cinéfilas autênticas jamais deixam de reconhecer as qualidades de um filme, seja ele de qual gênero for. Elaine Christine Fonseca adora cinema e possui uma admirável coleção de DVDs que beira os dois mil títulos, sendo que boa parte desse acervo é composta de westerns, especialmente os clássicos. Elaine sempre gostou de assistir filmes, tanto na televisão quanto nos cinemas, tendo sido o Cine Ouro Verde, na Rua da Moóca no bairro em que residia, a sala frequentada semanalmente quando criança e adolescente. Nesse simpático cinema daquele tradicional bairro paulistano Elaine assistiu a “Nos Tempos da Brilhantina” e “Embalos de Sábado à Noite”, dos quais gostou assim como “Inferno na Torre” e “Tubarão”, sendo que este último Elaine, ao contrário do grande público, não achou tão espetacular. Era, porém, no aconchego do lar, que a moça da Moóca se iniciava como cinéfila, isto quando havia uma locadora em cada esquina. ‘Seo’ Eros Fonseca, o pai de Elaine era a princípio quem escolhia os filmes em VHS, geralmente os clássicos da chamada ‘Golden Age’ de Hollywood, películas que iriam determinar a preferência da filha. Elaine e o pai garimpavam nas locadoras atrás de filmes com Gary Cooper, Spencer Tracy, James Stewart, Humphrey Bogart, Rex Harrison e um certo John Wayne. Havia uma discordância entre eles pois o pai não gostava de Cary Grant, enquanto a filha o achava lindo. ‘Seo’ Eros adorava um bom faroeste e ambos assistiam não só aos filmes em fitas de vídeo mas também às séries exibidas na TV como “Big Valley”, “Bonanza” e “Chaparral”.

John Wayne
Embora bastante jovem, Elaine se identificava com atrizes como Audrey Hepburn, Deborah Kerr, Grace Kelly e Katharine Hepburn. Além destas a moça gostava (e ainda gosta) muito da lindíssima Gene Tierney e tem carinho especial por Maureen O’Hara. Afinal a ruiva irlandesa e John Wayne formaram um par incomparável nas telas. Elaine viu sua coleção de filmes aumentar sem parar, ainda mais pela facilidade que passou a ter nos últimos anos para adquirir títulos que nem sempre são encontrados no Brasil. A cinéfila paulistana, formada em Direito casou-se e atualmente mora em Macaé (RJ), passando, no entanto, parte do ano em Orlando, nos Estados Unidos. Lá ela encontra DVDs raros de John Wayne, aqueles da fase em que o Duke era menos conhecido que Buck Jones, Ken Maynard, Tom Mix e outros. John Wayne é o ator favorito de Elaine, pelo menos isso é o que indica o impressionante número de filmes que ela possui do maior cowboy do cinema. São 80 títulos só dos filmes feitos quando Wayne já deixara de ser um mero mocinho de faroestes ‘B’. E desta fase inicial, encerrada quando o Duke filmou “No Tempo das Diligências” (Stagecoach), em 1939, Elaine tem nada menos que 40 títulos. Mas que não se pense que a cinéfila Elaine não goste de atores das gerações seguintes pois Clint Eastwood (como cowboy ou não), Sean Connery (como 007 ou não), Denzel Washington, Tom Hanks, Leonardo Di Caprio, Brad Pitt e Tom Cruise ocupam lugar com seus filmes nas estantes das casas de Elaine. Ao lado destes estão as atrizes mais novas e entre estas suas preferidas são Anne Hathaway, Emma Watson, Angelina Jolie, Meryl Streep e Charlize Teron, demonstrando que Elaine é eclética em seu gosto por cinema. Mas não indique a ela algum filme de Woody Allen, ator-diretor que a cinéfila detesta e passa longe.

Só mesmo grandes colecionadores possuem em seus acervos tantos títulos de faroestes como Elaine, e que ela faz questão de dizer, “todos devidamente assistidos”. Esse fato foi mais que suficiente para que WESTERNCINEMANIA solicitasse a Elaine que listasse os dez melhores na sua opinião. Não foi necessário muito tempo para pensar pois alguns westerns a cinéfila já assistiu mais de uma vez, o que indica que são filmes que mereceram dela uma atenção especial. A lista de Elaine vem acompanhada de pequenos comentários e, como bônus, ela ainda listou outros dez faroestes que considera também excelentes, acima da média no gênero. Eis o Top-Ten Westerns de Elaine Christine Fonseca:

1.º) Rastros de Ódio (The Searchers), 1956 – John Ford
Um filme maravilhoso, com John Wayne em sua melhor interpretação no cinema. Filme que se assiste com emoção do princípio ao fim. O melhor de todos os faroestes.

Natalie Wood e John Wayne; Vera Miles e Jeffrey Hunter

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2.º) Matar ou Morrer (High Noon), 1952 – Fred Zinnemann
Gary Cooper foi premiado com um Oscar por sua interpretação neste faroeste que também é um dos melhores de todos os tempos. Grace Kelly está linda como a esposa que vê seu casamento ameaçado.

Grace Kelly e Gary Cooper; Grace Kelly e Katy Jurado

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3.º) Três Homens em Conflito (Il Buonno, Il Brutto, Il Cattivo), 1966 – Sergio Leone
O fecho de ouro da 'Trilogia dos Dólares' que elevou Clint Eastwood à condição de grande astro. Lee Van Cleef foi outro que aproveitou bem a oportunidade dada por Sergio Leone, assim como o muito engraçado Eli Wallach como ‘Tuco’.

Rada Rassimov e Lee Van Cleef

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4.º) No Tempo das Diligências (Stagecoach), 1939 – John Ford
Com este filme John Wayne começou para valer sua trajetória que o levou a ser o maior cowboy do cinema. Um filme maravilhoso com cenas espetaculares de perseguição feita pelos índios.

Claire Trevor e John Wayne; Claire Trevor

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5.º) O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance), 1962 – John Ford
Este faroeste em preto e branco reuniu dois dos meus atores preferidos, que são John Wayne e James Stewart. Muito interessante a história da lenda do homem que matou o famoso bandido.

Vera Miles e John Wayne; Vera e Jeanette Nolan; Vera e James Stewart

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6.º) Onde Começa o Inferno (Rio Bravo), 1959 – Howard Hawks
Faroeste bastante alegre e divertido de assistir, com John Wayne se apaixonando e música com Dean Martin e Ricky Nelson. E ainda tem o simpático velhinho sem dentes Walter Brennan.

Angie Dickinson e John Wayne; Estelita Rodriguez

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7.º) Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch), 1969 – Sam Peckinpah
Muitos consideram este filme ultraviolento, mas é um tipo de violência que se integra perfeitamente na história e por isso não chega a chocar. O final com a morte dos quatro amigos é inesquecível.

Graciela Doring - Sonia Amelio - Aurora Clavel - Lilia Castillo - Elsa Cardenas

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8.º) Winchester 73 (Winchester ’73), 1950 – Anthony Mann
Quem conhece James Stewart como homem bom e íntegro de tantos filmes não o reconhece neste faroeste em que ele mostra que é fantástico também como ator dramático.

Shelley Winters, Millard Mitchell e James Stewart; Shelley Winters e Dan Duryea

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9.º) Rio Vermelho (Red River), 1948 – Howard Hawks
Este é um filme que os fãs de John Wayne não esquecem porque ele aparece envelhecido e tem muito boa atuação. O melhor filme sobre cowboys, com o melhor dos cowboys.

Coleen Gray e John Wayne; Joanne Dru e John Wayne

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10.º) Os Brutos Também Amam (Shane) – George Stevens
Foi com este filme que passei a admirar Alan Ladd que está perfeito como o pistoleiro que salva a família que o acolheu. O pistoleiro Jack Palance, todo de preto, marcou bastante.

Jean Arthur; Jean Arthur, Alan Ladd, Van Heflin e Brandon De Wilde

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11.º) Os Imperdoáveis (Unforgiven), 1992 – Clint Eastwood
12.º) Sete Homens e Um destino (The Magnificent Seven), 1960 – John Sturges
13.º) Vera Cruz (Vera Cruz), 1954 – Robert Aldrich
14.º) Pistoleiros do Entardecer (Ride the High Country), 1962 – Sam Peckinpah
15.º) Bravura Indômita (True Grit), 1969 – Henry Hathaway
16.º) Por Uns Dólares a Mais (Per Qualche Dollaro in Più), 1965 – Sergio Leone
17.º) Os Filhos de Katie Elder (The Sons of Katie Elder), 1965 – Henry Hathaway
18.º) Por um Punhado de Dólares (Per un Pugno di Dollari), 1964 – Sergio Leone
19.º) El Dorado (El Dorado), 1967 – Howard Hawks
20.º) A Marca da Forca (Hang ‘Em High), 1968 – Ted Post

15 de junho de 2016

FORA DAS GRADES (RUN FOR COVER) – O MELHOR WESTERN DE NICHOLAS RAY


Harriet Frank Jr. e Irving Ravetch
Entre “Johnny Guitar” (1954) e “Juventude Transviada” (1955), Nicholas Ray dirigiu “Fora das Grades” (Run for Cover), um dos filmes menos lembrados de sua filmografia. Mesmo fãs de westerns raramente citam esse faroeste estrelado por James Cagney, um dos grandes nomes do cinema norte-americano e que entre tantos filmes famosos em gêneros diversos, havia atuado em apenas um western que foi “A Lei do Mais Forte” (The Oklahoma Kid), em 1939. E se em 1955 Nicholas Ray era um dos mais festejados diretores, Cagney não ficava atrás em prestígio pois nesse mesmo ano atuou nos sucessos “Ama-me ou Esquece-me” e “Mr. Roberts”. O excelente e de certa forma menosprezado “Fora das Grades” pode igualmente ser considerado um ponto alto nas carreiras de ambos. A história é de autoria de Harriet Frank Jr.-Irving Ravetch, casal mais conhecido pelos inusitados roteiros de “Hombre” e “Os Cowboys” (The Cowboys).


James Cagney e John Derek
Amizade traída - Em “Fora das Grades” o forasteiro Matt Dow (James Cagney) encontra o jovem Davey Bishop (John Derek) e ambos são confundidos com assaltantes de trem. Perseguidos por uma patrulha liderada pelo xerife de Madison (Ray Teal), Davey é ferido gravemente, enquanto Matt consegue esclarecer o equívoco. Davey é levado para a casa do sueco Mr. Swenson (Jean Hersholt), onde recebe tratamento e se recupera apesar de sequela em uma das pernas que faz com que ele tenha dificuldade de se locomover. Matt e Helga, a filha de Mr. Swenson atraem-se mutuamente e Matt é nomeado xerife da cidade, fazendo do manco Davey seu assistente. O banco local é assaltado pelo bandido Morgan (Ernest Borgnine) que é capturado pelo novo xerife. Pouco tempo depois o bando comandado por Gentry (Grant Withers) pratica novo atentado ao banco, roubando 85 mil dólares e durante a ação Mr. Swenson é morto. Perseguidos por Matt e Davey, Gentry e seus homens são encontrados chacinados, vítimas de um grupo de Comanches. O dinheiro é recuperado mas Matt descobre que Davey está envolvido com Morgan, que conseguira escapar, e que Davey pretende matar o amigo Matt para se apossar do produto do roubo juntamente com o comparsa Morgan. No confronto contra os dois, Matt leva a melhor enquanto Morgan e Davey acabam mortos. No retorno à cidade, Matt não revela que Davey havia se tornado cúmplice do assalto, preservando sua imagem de homem honesto. Matt e a sueca Helga então podem finalmente ficar juntos.

James Cagney e John Derek
Conflito de gerações - Em “O Crime Não Compensa” (1949) Nicholas Ray já havia tratado da relação entre um homem mais velho e um jovem, naquele filme Humphrey Bogart e o mesmo John Derek em um de seus primeiros trabalhos no cinema. Com “Fora das Grades” Ray retorna ao tema, desta vez com um homem (Matt Dow) amargurado pela perda do filho há 16 anos e que vê no jovem Davey Bishop a possibilidade de ajudá-lo como se seu próprio filho fosse. Mais ainda por ter se sentido responsável pelo ferimento que aleijou o rapaz. Desde os primeiros contatos Matt Dow percebe a índole criminosa de Davey e encara isso como um desafio, disposto a encaminhar o amigo feito há pouco. Em outras ocasiões Davey mostrará que é incorrigível, frustrando Matt que, como faria com seu filho, perdoa e preserva a imagem de homem íntegro de Davey. Matt resgata o produto do roubo e para os perplexos cidadãos de Madison, incrédulos com a verdadeira proeza, joga-lhes o alforje com o dinheiro e lhes diz: “Com os cumprimentos de Davey”, o mesmo Davey que ele havia matado. Essa ênfase na relação paternal é apenas parte de um western rico em sua tortuosa trama.

Ray Teal (acima) e Jack Lambert
Pena injusta - “Fora das Grades” foge do lugar comum das histórias de tantos faroestes esbarrando no tema ‘Macarthismo’ tão em voga no início dos anos 50. Matt Dow e Davey Bishop são inicialmente confundidos com bandidos e isso tem um preço bastante caro para ambos, especialmente para Davey. E quando é descoberto que Matt Dow cumpriu seis anos de prisão, a explicação é que, novamente, ele havia sido confundido com outra pessoa, pagando injustamente por um crime que não havia cometido. No Macarthismo muitos sofreram por terem simplesmente opinião, o que então era considerado crime. Ninguém melhor abordou esse tema que Allan Dwan no excepcional pequeno western “Homens Indomáveis” (Silver Lode), realizado em 1954. “Fora das Grades” resvala também no influente “Matar ou Morrer” (High Noon), com o personagem do xerife que se vê sozinho, abandonado por toda uma cidade, diante do dever a cumprir. E há espaço para mostrar como se deu a formação do Velho Oeste, não só com o confronto com foras-da-lei, mas com a presença de imigrantes, no caso pai e filha suecos.

James Cagney e Viveca Lindfors
Idílio amoroso - O romance entre Helga Swenson e Matt Dow se desenvolve com brilho raro em filmes de Nicholas Ray, nos quais predomina a dramaticidade e nunca a ternura do amor que floresce. Ray trata o encontro, namoro e declaração de amor entre Helga e Matt, de forma delicada e emocionante, como se vê nos westerns de John Ford, ainda que em meio à rudeza do Velho Oeste. Menos intenso em sua primeira metade, “Fora das Grades” ganha em ritmo na parte final jogando exemplarmente com a expectativa do público com os improváveis rumos que o filme segue. John Derek era uma dos mais promissores galãs dos anos 50 e o desfecho reservado para ele é típico de Ray, para quem a tragédia está sempre à espreita e pronta para acontecer. O final de “Fora das Grades” fica longe do ‘final feliz’ tão comum em Hollywood, como era de se esperar de um ‘outsider’ como o polêmico diretor.

Viveca Lindfors
Um western simples - “Johnny Guitar” não fez sucesso junto ao público norte-americano, mas causou comoções em boa parte da crítica, especialmente a francesa que viu, de pronto, aquele western como uma obra-prima. Toda a extravagância de cores, de caracterizações e a excessiva ornamentação de cenários de “Johnny Guitar” estão, ainda bem, ausentes em “Fora das Grades”, um western simples se comparado com o barroquismo do filme anterior de Ray. Simples e bonito na singeleza com que é mostrada a excepcional beleza da paisagem que cerca a pequena cidade, filmado que foi em sua maior parte no Colorado e ainda nas ruínas astecas no Novo México. Daniel L. Fapp, muitas vezes indicado ao Oscar de Melhor Cinematografia (venceu, finalmente, por “Amor, Sublime Amor”/ West Side Story), foi o diretor de fotografia deste belo filme de Nicholas Ray. A direção de arte ficou a cargo do aclamado Henry Bumstead, o mesmo de “Os Imperdoáveis” (Unforgiven). Mas nem tudo é perfeito neste filme de Nicholas Ray pois, naqueles anos, já que os estúdios impunham o modismo de uma canção cantada durante os créditos que deveria servir de preâmbulo para o que se iria assistir. A canção “Run for Cover” é daquelas que se esquece imediatamente após sua execução, ao contrário do filme. Sequer quem canta a canção é mencionado nos créditos.

James Cagney e John Derek
A marca de Cagney - Decididamente James Cagney é, entre os grandes atores de seu tempo, o que menos se aproximava da imagem de um cowboy, sendo difícil para ele se despir da figura marcante do gângster impiedoso de tantos clássicos do gênero. Ainda assim Cagney convence plenamente, embora por vezes pareça prestes a explodir como o Cody Jarrett de “Fúria Sanguinária”. Aos 56 anos de idade Jimmy cavalga de modo esplêndido e se apaixona, como um cowboy o faria, por Viveca Lindfors. A atriz sueca, uma das muitas cogitadas para seguir os passos de Greta Garbo e de Ingrid Bergman, está perfeita como a madura imigrante submissa ao pai como era o costume de seu povo. John Derek tenta mostrar neste filme que era muito mais que somente um rosto bonito e tem oportunidade em cenas de intensa dramaticidade, saindo-se razoavelmente bem. O dinamarquês Jean Hersholt em sua derradeira aparição no cinema, ele que por seu espírito generoso foi transformado em nome de prêmio pela Academia de Hollywood, premiando aqueles que se distinguem por trabalhos humanitários, como o próprio Hersholt fazia. Grant Withers aparece poucos minutos na tela, como chefe de quadrilha, o suficiente, porém para que se lamente o seu suicídio aos 55 anos de idade, colocando fim a uma vida de luta contra o alcoolismo. Ernest Bornine repete o bandido que interpretou em tantos filmes daqueles anos, ele que surpreendente e merecidamente ganharia o Oscar de Melhor Ator de 1956 por sua interpretação como o tímido açougueiro Marty, no filme do mesmo nome. Ray Teal ótimo coadjuvante como sempre e Jack Lambert desta vez não é um bandido.

Grant Withers; Ernest Borgnine; Jean Hersholt e Viveca Lindfors

Nicholas Ray
Descontando-se “Paixão de Bravo” (The Lusty Men), mais um drama sobre rodeios que um western, “Fora das Grades” é superior aos dois outros westerns que Nicholas Ray dirigiu. São eles o incensado “Johnny Guitar” e “Quem Foi Jesse James” (The True Story of Jesse James), filme renegado pelo inquieto diretor que não aceitou a edição feita pela 20th Century-Fox. “Fora das Grades” é um magnífico western, um dos melhores daquele excelente, para o gênero, ano de 1955.

Pôsteres de diversos países de "Fora das Grades".




10 de junho de 2016

A LEI DO OESTE (RIDE OUT FOR REVENGE) – RORY CALHOUN EM WESTERN PRÓ-ÍNDIO


Bryna era o nome da mãe de Kirk Douglas.
Entre os grandes astros do cinema, Kirk Douglas foi um dos que obteve maior sucesso como produtor com sua Bryna Productions. A Bryna produziu um total de 25 filmes, entre eles os aclamados “Glória Feita de Sangue”, “Spartacus” e “O Segundo Rosto”; no gênero western Douglas produziu nada menos que aete faroestes, sendo “Duelo de Titãs” (Last Train from Gun Hill), “O Último Por-do-Sol” (The Last Sunset) e “Ambição Acima da Lei” (Posse) os mais importantes. Em seus primeiros anos de atividades, a Bryna produziu alguns filmes modestos como o western “A Lei do Oeste” (Ride Out for Revenge), com Rory Calhoun no papel principal, um dos quatro faroestes que ele estrelou em 1957. No ano seguinte Calhoun iniciaria sua participação na série de TV “O Texano” (The Texan), isto após uma bela carreira como um dos principais cowboys do cinema.


Frank DeKova e Vince Edwards com
Lloyd Bridges e Rory Calhoun.
Usurpação de terras - Em “A Lei do Oeste” Rory Calhoun é Tate, o xerife de Sand Creek, hostilizado pelos moradores da cidade por sua declarada simpatia pelos índios. Tate namora Salgueiro Bonito (Joanne Gilbert), jovem índia filha do chefe Lobo Cinzento (Frank DeKova) e irmã de Pequeno Lobo (Vince Edwards). O Capitão George (Lloyd Bridges) da Cavalaria, tem por missão convencer os índios a seguir para a reserva, em Oklahoma, deixando suas terras situadas nas colinas de Black Hills. Lobo Cinzento e seu filho se reúnem com o intransigente Capitão e tentam negociar com ele informando-o, inocentemente, que há ouro em Black Hills. Ao sair do encontro Lobo Cinzento é alvejado e morto por Garvin (Richard Shannon), um dos mais radicais cidadãos de Sand Creek. Liderados agora por Pequeno Lobo, os Cheyennes se organizam para atacar a cidade, iniciando por roubar os cavalos dos militares. Durante essa ação o menino Billy (Michael Winkelman) é morto e Tate, destituído do cargo de xerife, decide investigar a morte do garoto. Testemunha então o assassinato de Pequeno Lobo, executado pelo Capitão George, com quem Tate duela em seguida. O militar é morto e Tate permanece com Salgueiro Bonito, ao lado de quem assiste com tristeza os Cheyennes serem encaminhados para a reserva sem nada poder fazer para salvá-los desse destino.

Acima Rory Calhoun e Joanne Gilbert;
abaixo Gloria Grahame.
Disputa pelo xerife Tate - Nos anos 50 incontáveis westerns tiveram como temática a defesa dos nativos norte-americanos, denunciando o quase total extermínio dos mesmos. “A Lei do Oeste” é mais um desses filmes que, com 78 minutos de duração e orçamento bastante reduzido (em preto e branco), consegue dar uma pálida ideia do que foi a ocupação das Black Hills, em Dakota pelos brancos. Resumidamente mostra que estes se apossaram daquelas terras e qualquer chance de negociação com os nativos desapareceu com o descobrimento de ouro nas colinas de Black Hills. Para contar esse capítulo sangrento e doloroso da capitulação dos índios que habitavam aquela região seria necessário um filme melhor produzido e por essa razão optou-se por um roteiro menos pretensioso. Para tornar este western mais interessante foi inserida uma subtrama em forma de triângulo amoroso com o xerife Tate (consciente e solidário com os Cheyennes) se apaixonando pela filha do chefe ao mesmo tempo que a viúva Amy Porter (Gloria Grahame) disputa o amor de Tate. Amy, no entanto, é preconceituosa como quase todos os brancos, julgando os índios, a quem discrimina, inferiores. Essa disputa das duas mulheres por Tate não chega a entusiasmar por ser o desenvolvimento bastante previsível.

Fotos feitas para a publicidade do filme, com Rory Calhoun entre
Gloria Grahame e Joanne Gilbert.

Acima Lloyd Bridges, Rory Calhoun e
Richard Shannon; abaixo Bridges e
Calhoun ladeando Frank DeKova e
Vince Edwards.
Os muitos defeitos dos brancos - Como mais um western pró-índio, “A Lei do Oeste” cumpre sua finalidade e surpreendentemente contém até violência em excesso para o tipo de público que pretendia atingir. O assassinato covarde do chefe Lobo Amarelo ocorre logo no início do filme; pouco depois o menino Billy é quem morre atingido por um tiro de rifle disparado por um índio que, no escuro o havia confundido; acontece ainda a morte de Lobo Pequeno para em seguida Tate colocar um ponto final na ação do Capitão George. Assim como os demais brancos do filme, George é homem de má índole, que vê os índios segundo a máxima do General Philip Sheridan que afirmava que “índio bom é índio morto”. Ambicioso, o Capitão George é mostrado ainda como alcoólatra. A viúva Amy, por sua vez, se exaspera por ser preterida por Tate que prefere ficar ao lado de uma índia que, como seria natural, com ela se casar. Afinal Amy é uma mulher atraente e dona da pensão onde Tate vivia, precisando apenas mudar para o quarto da humilhada senhoria. Os assassinatos cometidos pelos brancos são feitos de forma covarde, enquanto Lobo Pequeno enfrenta Tate numa luta justa, um dos poucos momentos de ação do filme.

Lloyd Bridges
Lloyd Bridges sempre limitado - Rory Calhoun tem pouco a fazer em “A Lei do Oeste”, ficando para Lloyd Bridges os momentos mais intensos como o maléfico Capitão. Uma pena que Bridges seja um ator tão limitado, canastrão mesmo, ele que brilharia em final de carreira como comediante, isto quando passou a ser mais lembrado como o pai do excelente Jeff Bridges. Vince Edwards em pequeno papel como índio, antes de se tornar Ben Casey, o médico-galã da série de TV com esse mesmo nome e que disputava o público feminino com o Dr. Kildare (Richard Chamberlain). Frank DeKova, ator novaiorquino especializado em interpretar nativos aparece dez minutos na tela. Joanne Gilbert, a índia por quem o personagem de Calhoun se apaixona é inexpressiva como atriz, não tendo ido adiante em sua carreira. A notar as participações apenas como figurantes de Iron Eyes Cody e de Beulah Archuletta, esta a índia ‘Look’ de “Rastros de ódio” (The Searchers). Bernard Girard, diretor que atuou mais na televisão que no cinema dirigiu “A Lei do Oeste”, filme cuja cinematografia ficou a cargo de Floyd Crosby, mais lembrado por seu trabalho em “Matar ou Morrer” (High Noon) e por ser o pai do cantor David Crosby.

Vince Edwards e Frank DeKova; Rory Calhoun.

Gloria Grahame
A desgraça de uma atriz - Gloria Grahame é a grande presença do elenco, parecendo pouco à vontade e desinteressada neste pequeno filme já da fase decadente de sua carreira. Gloria era uma estrela em ascensão, esbanjando sensualidade em cada filme que fazia, recebendo um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua participação em “Assim Estava Escrito”, curiosamente um filme em que Kirk Douglas interpreta um produtor de Hollywood. Gloria era dona de uma beleza invulgar que fugia do padrão das mais lindas atrizes, tendo participado de filmes memoráveis nos anos 40 e até meados dos anos 50. A atriz era casada com Nicholas Ray com quem viveu uma das mais estranhas histórias da capital do cinema. Gloria tornou-se amante do filho adolescente que Ray teve em casamento anterior e, após separar-se do diretor de “Johnny Guitar”, Gloria casou-se com o enteado, com quem viveu por 14 anos, até se divorciar dele. Esse escândalo e ainda o comportamento de estrela que Gloria teve durante as filmagens de “Oklahoma”, em 1955, foram determinantes para que deixasse de receber propostas para filmes melhores, levando a atriz a ser esquecida pelo grande público.

Filme para programa duplo - Se “A Lei do Oeste” tivesse potencial para se tornar um grande filme, certamente Kirk Douglas guardaria para si a oportunidade de interpretar o xerife simpático aos índios. Espertamente Kirk investiu pouco neste filme que foi exibido como complemento de programa duplo. Rory Calhoun prosseguiu em sua carreira que durou 50 anos, com muitos faroestes melhores que este, imperdível apenas para os fãs do ator.

Luta a faca entre Vince Edwards e Rory Calhoun; Calhoun com um rifle;
Lloyd Bridges atirando.

A cópia de "A Lei do Oeste" utilizada para esta resenha foi gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador Marcelo Cardoso.