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20 de outubro de 2013

VERA CRUZ, O FAROESTE DELICIOSAMENTE AMORAL DE BURT LANCASTER


Burt Lancaster conseguiu enorme sucesso como ator dramático no início de sua carreira atuando em filmes como “Os Assassinos”, “Brutalidade”, “Uma Vida por um Fio”, “Baixeza” e “A Um Passo da Eternidade”.  Foi, no entanto, com a trilogia de capa-e-espada “O Gavião e a Flecha”, “Sua Majestade, o Aventureiro” e principalmente “O Pirata Sangrento” que Lancaster ampliou seu público mostrando que era tão bom em filmes de emocionantes aventuras como nos dramas. E Burt Lancaster foi ainda um dos primeiros atores a se envolver com a produção de filmes, iniciando essa nova aventura em sociedade com Harold Hecht, com quem produziu “O Pirata Sangrento” e o western “O Último Bravo” (Apache). Esses dois filmes tiveram excelentes bilheterias, o que possibilitou à Hecht-Lancaster Productions partir para um projeto mais ambicioso, um novo western. Esse filme seria “Vera Cruz”, baseado numa história de Borden Chase.


Dardo e Capitão Vallo
Lancaster escolhe seu personagem - “O Último Bravo” custara 1.240.000 dólares e rendera seis milhões de dólares. Para a nova produção a Hecht-Lancaster calculou um orçamento de 1.750.000 dólares e programou o filme para ser rodado inteiramente no México. Foram contratados Robert Aldrich, o mesmo diretor de “O Último Bravo” para dirigir “Vera Cruz” e Alfredo Ybarra para conceber o desenho de produção do filme. A equipe composta por 150 pessoas entre atores e técnicos chegou ao México e as filmagens tiveram início em 3 de março de 1954, prolongando-se até 12 de maio do mesmo ano. A maior parte das filmagens ocorreu em Cuernavaca (Morellos) com os interiores rodados nos estúdios Churubusco. A história de Borden Chase foi roteirizada por Roland Kibee em parceria com James R. Webb, sendo continuamente alterada durante a produção. A princípio Burt Lancaster iria interpretar o personagem ‘Ben Trane’, mas o ator-produtor percebeu o maior potencial de ‘Joe Erin’, o outro personagem principal. Lancaster orientou uma série de modificações no roteiro para que ‘Joe Erin’ fosse moldado em ‘Dardo’ e ‘Capitão Vallo’, personagens interpretados por Lancaster em “O Gavião e a Flecha” e “O Pirata Sangrento”, respectivamente.

Gary Cooper
Gary Cooper como Ben Trane - Cary Grant chegou a ser sondado para interpretar ‘Ben Trane’ mas recusou a oferta respondendo a Lancaster que não chegava perto de cavalos. O segundo nome da lista era o de Gary Cooper que aceitou trabalhar por 200 mil dólares e mais uma porcentagem nos lucros do filme (Cooper recebeu um milhão de dólares no total). O elenco principal foi completado por César Romero, George Macready, Henry Brandon, Morris Ankrum, a francesa Denise Darcel, a espanhola Sarita Montiel e coadjuvantes que em pouco tempo se tornariam famosos como Ernest Borgnine, Jack Elam e Charles Bushinsky, este adotando o sobrenome Bronson. Um dançarino negro chamado Archie Savage, que havia atuado com Lancaster em “Sua Majestade, o Aventureiro”, foi também elencado para “Vera Cruz”. Conta-se a história que Borgnine e Bronson teriam ido a um bar em Morellos onde foram confundidos com bandidos e presos, mas essa história não é verdadeira. Quem foi preso de fato numa cantina foi o stuntmen e ator Charles Horvath, confundido pela polícia mexicana com ‘Jamarillo’, um bandido procurado pela Justiça mexicana. Burt Lancaster tinha como marca registrada o hábito de sorrir bastante, até exageradamente, mostrando sua perfeita dentição em seus últimos filmes. Mas para “Vera Cruz” o vaidoso Burt gastou cinco mil dólares encapando todos os dentes que surgem na tela a todo momento, mais alvos que nunca.

A nobreza que dominava o México: Denise Darcel
com Cesar Romero acima) e com Henry Brandon.
Juaristas contra franceses - A história de “Vera Cruz” se passa durante o Segundo Império Mexicano (1864-1867), quando o México era dominado pelos franceses e quando Maximiliano de Habsburgo-Lorena era o Imperador daquele país designado que foi por Napoleão III. Nesse período teve início uma revolução e aventureiros norte-americanos chegam ao México tentando tirar proveito dos conflitos entre os revoltosos juaristas e as tropas de Maximiliano (George Macready). O imperador quer mandar um carregamento de ouro para a Europa e para isso contrata os aventureiros Joe Erin (Burt Lancaster) e Ben Trane (Gary Cooper) que lideram um bando de gringos. Erin e Trane decidem ficar com o tesouro mesmo tendo de enfrentar o pelotão comandado pelo Marquês de Labordere (Cesar Romero) e pelo Capitão Danette (Henry Brandon), ambos de confiança de Maximiliano. Para se apossar do ouro Erin e Trane precisam ser mais espertos que a Condessa Duvarre (Denise Darcel) que também planeja se apossar do tesouro. Os juaristas são comandados pelo General Ramirez (Morris Ankrum) e querem que o ouro permaneça com seus legítimos donos, os espoliados mexicanos. Após uma violenta batalha entre os revolucionários e a tropa de Maximiliano, Trane e Erin ajudam os juaristas mas não se entendem quanto ao destino do ouro, o que os leva a um decisivo confronto.

Sarita Montiel e Morris Ankrum
Discreta mensagem política - Desde o primeiro encontro entre Erin e Trane “Vera Cruz” prenuncia que nenhum deles é confiável. Aventureiros em busca de alugar coragem e experiência a quem pagar melhor. À medida que outros personagens surgem fica claro que ninguém na história, assim como Erin e Trane é totalmente honesto e que a cobiça move a todos eles. Exceção única são os juaristas que lutam por uma causa, mas mesmo Nina (Sarita Montiel), uma jovem que quer ver seu país livre do domínio francês, não perde a oportunidade para roubar a carteira do norte-americano Ben Trane distraído por seu encanto. Maximiliano, o imperador, quer usar os mercenários para depois matá-los; a Condessa Duvarre quer ludibriar o imperador e também os norte-americanos; Trane confia em Erin tanto quanto Erin merece ser confiável, ou seja, nada. Os únicos seres dignos da história seriam os revolucionários que querem o México para os mexicanos e aí estaria contida a mensagem antiimperialista, e por isso mesmo, política do filme. O filme de Aldrich porém não se preocupa com mensagem de qualquer tipo, tendo a intenção única de divertir. Um western com a dinâmica de um movimentado capa-e-espada. Capitão Vallo do Oeste na Revolução Mexicana, lembrando que Vallo era o pirata sem pátria assim como seus liderados.  Para mais se aproximar do bem sucedido “O Pirata Sangrento” os personagens de “Vera Cruz” desconhecem a honradez e mais que todos eles Joe Erin.

Show de Burt Lancaster - O grande achado de “Vera Cruz” é justamente ser um western passado num ambiente estranho ao gênero, envolvendo nobres com ascendência européia e seus refinamentos confrontados com a rudeza de cowboys. A sequência em que Joe Erin (Lancaster) choca a etiqueta da nobreza na festa do palácio, clichê de muitos capa-e-espadas e presente em “O Pirata Sangrento”, atinge o grau máximo de comicidade do filme. A soberba do Capitão Danette (Henry Brandon) é escarnecida por Joe Erin num procedimento incompatível para um herói do Velho Oeste. Mas Joe Erin não é esse herói comum a tantos westerns e sim um modelo inédito no cinema norte-americano, que seria copiado muitas vezes e personagem recorrente nos westerns-spaghetti que invadiriam as telas dez anos depois. Dono do filme, produtor que foi do mesmo, Lancaster dá um show inesquecível, como o charmoso, cativante, odioso e repugnante herói que está em meio a uma revolução apenas para ganhar dinheiro e mais tarde tentar se apropriar do disputado ouro. Seu contraponto é o ex-Coronel do Exército Confederado, para quem a brutalidade das plantações e mansões queimadas durante a Guerra Civil nunca foi esquecidas. Ao contrário de Erin, a causa revolucionária seduz Ben Trane, assim como a bela Nina. Para a suave e perfumada Condessa Duvarre, sobram os tapas desferidos por Joe Erin, a quem seus perfumes e charme não conseguem iludir.

Lancaster e Cooper em ação;
Charles Bronson beijando Sarita Montiel.
O talento de Robert Aldrich - As sequências de ação de “Vera Cruz” se sucedem num ritmo frenético, não faltando intrigas e traições, que se iniciam com o encontro de Erin e Trane; prosseguem com a fuga deles saltando fenda de despenhadeiros como nos antigos seriados; com Joe Erin mostrando quem é o líder na junção dos dois bandos de aventureiros; na exibicionista demonstração de pontaria no palácio de Maximiliano; na emboscada dos juaristas à carruagem que transporta o ouro; no ataque dos revolucionários às forças imperialistas na missão; e finalmente no clássico duelo entre o bem e o mal, clichê dos faroestes do qual “Vera Cruz” não abriu mão. Num filme relativamente curto, de apenas 94 minutos, há espaço para um excelente grupo de atores coadjuvantes, cada um se destacando em pelo menos uma sequência. O sadismo de Borgnine ao assistir a tentativa de estupro de Charles Bronson contra Sarita Montiel; os passos da dança sulista de Archie Savage em meio ao flamengo das dançarinas mexicanas; o constante desejo de ação de Jack Elam; a hostilidade de Jack Lambert; a dignidade de Morris Ankrum como o general juarista; a arrogância de Henry Brandon; a falsa simpatia de César Romero e a caliente sensualidade de Sarita Montiel. Robert Aldrich só conseguiria fazer melhor com o portentoso e bem dirigido elenco de “os Doze Condenados”.

Lancaster mais exibicionista que nunca.
A influência de “Vera Cruz” - Chama a atenção em “Vera Cruz” o desenho de produção de Alfredo Ybarra ambientando sequências em locais de grande beleza como as pirâmides de Teotiaucan e outros cartões postais do México. Gary Cooper com sua atuação discreta mas segura ajudou no grande sucesso de “Vera Cruz” que arrecadou nove milhões de dólares quando de seu lançamento, sucesso merecido para essa memorável aventura. Porém mais importante que o êxito financeiro do filme foi sua influência em tantos outros westerns passados nos conflitos políticos mexicanos. O precursor dessa série de filmes foi “Viva Zapata” (1952) que, apesar das cinco indicações ao Oscar, nenhuma influência deixou no faroeste ao contar a história do revolucionário Emiliano Zapata. Mas é a “Vera Cruz” que muito devem “Sete Homens e um Destino”, “Meu Ódio Será Sua Herança”, “Os Profissionais”, “Os Abutres Têm Fome” e até “Viva Maria”. O western-spaghetti “Chamam-me Aleluia” (Mi Chiamano Alleluya) parodiou “Vera Cruz” e Giuliano Gemma confessou sua admiração pela interpretação de Lancaster como Joe Eri. Essa interpretação rompeu com o esquematismo dos heróis do faroeste e o fascinante modelo de amoral anti-herói foi imitado à exaustão. Mas Burt Lancaster com seu inconfundível e exagerado sorriso era um só, faceta cômica desse grande ator que brilha intensamente neste fantástico faroeste.

Burt Lancaster liquída Jack Lambert com perícia sob as vistas de Gary Cooper
e Cesar Romero (acima); Lancaster desrespeitando a etiqueta.

Aventureiros de "Vera Cruz": Ernest Borgnine, Charles Bronson e Archie
Savage; abaixo James McCallion, James Seay e Jack Elam.


As pirâmides de Teotiaucan como cenário; abaixo Gary Cooper recupera
sua carteira devidamente esvaziada por Sarita Montiel.



18 de outubro de 2013

“VERA CRUZ”, A CRÍTICA, O PÚBLICO E O SORRISO DE BURT LANCASTER


Robert Aldrich
Críticas destrutivas podem fazer um filme fracassar nas bilheterias? “Vera Cruz” é um excelente exemplo e a comprovação que o sucesso de um filme independe das críticas boas ou más que receba. Bosley Crowther (1905-1981) é considerado por muitos o mais influente crítico norte-americano de cinema. De 1940 a 1967 Crowther assinou as críticas de cinema do jornal de maior circulação nos Estados Unidos, o ‘The New York Times’. Crowther praticamente determinava o que os demais críticos diriam sobre um filme e sua influência atravessava fronteiras, lido que era em países como o Brasil por exemplo. No dia 25 de dezembro de 1954 Bosley Crowther foi ao cinema Capitol, em Nova York, para assistir ao faroeste “Vera Cruz”, filme que detestou. Nem o espírito natalino atenuou a ferocidade com que Crowther massacrou o filme de Robert Aldrich.  “Vera Cruz” demorou quase um ano para chegar ao Brasil, estreando em São Paulo em 16 de novembro de 1955. Por aqui Rubem Biáfora (1922-1996), o já respeitado crítico do ‘Estadão’, foi quase tão cruel quanto seu colega norte-americano ao espicaçar “Vera Cruz”.

Bosley Crowther
Lancaster, um vilão porco - Em sua resenha sobre “Vera Cruz” publicada no ‘The New York Times’ em 27/12/1954 Bosley Crowther diz que “o filme é um desperdício de talentos num barulhento melodrama fotografado ao ar livre ... Filme muito ruim, repleto de violência inconsequente num verdadeiro show sádico... O Sr. Lancaster interpreta um personagem tão ordinário que merecia ser morto logo no início do filme. O Sr. Lancaster é um vilão porco que exibe sua maldade através de risadas diabólicas ... Nessa interminável luta entre trapaceiros e sequestradores há tiros, facadas, lutas por dinheiro e as armas são mais importantes que o Sr. Cooper ou o Sr. Lancaster. Nenhum deles impressiona nos papéis dos aventureiros... O cenário até poderia parecer bonito, não fossem as cores borradas mostradas em Superscope. Em suma, para ser franco, não há nada que possa redimir este filme”. Sem dúvida a opinião de Bosley Crowther influenciou outros críticos, possivelmente até mesmo o brasileiro Rubem Biáfora.

Rubem Biáfora
Enredo medíocre, sumário e superficial - Gervásio Rubem Biáfora foi reconhecido por décadas como o principal crítico brasileiro, ao lado de Antônio Moniz Vianna. Biáfora no jornal ‘O Estado de S. Paulo’ e Moniz Vianna no ‘Correio da Manhã’, editado no Rio de Janeiro. Após assistir “Vera Cruz” Biáfora fez eco à virulência do colega norte-americano escrevendo na edição do ‘Estadão’ de 20/11/1955: “... ‘Vera Cruz’ é uma sucessão de incidentes tão numerosos quanto romanescos e sem outro sentido senão o de esticar a ação... Fica-se diante de duas personagens ricas de psicologia e sedução, mas vivendo um enredo medíocre, sumário, de aventureirismo superficial e encadeado mais ou menos arbitrariamente ... desenrolando uma ação tão pueril quanto às dos westerns seriados, sem a legitimidade que nestes decorre da homogeneidade da ação... Robert Aldrich pertence à categoria dos diretores exibicionistas que mais iludem do que convence... Gary Cooper confirma sua excelente categoria de ator impecável e em ótima forma física... Burt Lancaster é um dos mais simpáticos e conscientes atores de Hollywood. Acontece, porém, que a sua louvável preocupação em dar existência psicológica aos tipos que encarna, às vezes o leva a excessos, como nesta fita, com a máscara exageradamente risonha que criou para tornar mais contrastante e sinistro seu amoralismo... Denise Darcel é feia e irresponsável como atriz”.

Andrew Sarris e François Truffaut
Elegante escapismo - Livros fundamentais para estudiosos do gênero western ignoraram “Vera Cruz” não dedicando a ele sequer uma linha. Entre essas obras estão o famoso guia de referência de faroestes “Shoot-em-Ups” (de autoria de Buck Rainey e Les Adams) e “A Pictorial History of the Western Films” (de autoria de William K. Everson). Nada consegue justificar que menção alguma seja feita ao western de Robert Aldrich nessas duas volumosas obras, não fosse por outra razão, pela presença de Gary Cooper e de Burt Lancaster encabeçando o elenco do filme. Nem todos os críticos na época, porém, acompanharam Bosley Crowther na sua catilinária contra “Vera Cruz”. Andrew Sarris (1928-2012), então crítico da revista ‘Film Culture’, chamou o filme de Robert Aldrich de “elegante escapismo”. Os franceses do ‘Cahiers du Cinéma’, que criaram a ‘teoria do diretor-autor’, disseram que 1955 era o ‘Ano Robert Aldrich’ após a exibição de “O Último Bravo” (Apache), “Vera Cruz” e “A Morte num Beijo” (Kiss me Deadly). François Truffaut (1932-1984), um dos jovens críticos do ‘Cahiers Du Cinéma’, comparou Aldrich a Nicholas Ray, grande ídolo dos criadores da Nouvelle Vague.

Sergio Leone
Fora dos 100 melhores westerns - Obras mais recentes sobre o gênero western também desconsideraram “Vera Cruz” como filme merecedor de atenção. Entre esses livros estão o recentemente focalizado pelo WESTERNCINEMANIA, “The 100 Greatest Western Movies of All Time” (editado pela American Cowboy Magazine) e “True West – An Illustrated Guide to the Heyday of the Western” (de autoria de Michael Barson). Ambos os livros, editados respectivamente em 2011 e 2008, listaram os 100 melhores westerns de todos os tempos omitindo “Vera Cruz”. No caso destes dois livros o pecado é ainda maior pois foram escritos após o advento dos westerns-spaghetti, vertente inegavelmente influenciada por “Vera Cruz”. O próprio Sergio Leone afirmou que sua fonte de inspiração para criar os personagens ‘Manco’ e ‘Coronel Douglas Mortimer’ em “Por uns Dólares a Mais” (Per Qualche Dollaro in Più) foram ‘Joe Erin’ (Burt Lancaster) e ‘Ben Trane’ (Gary Cooper), personagens principais de “Vera Cruz”. No Brasil foi lançado, em 2001, o livro “O Filme de Faroeste”, de autoria de Guido Bilharinho, que analisa 51 westerns. Bilharinho também desconsiderou “Vera Cruz”, não mencionando o western de Aldrich.

Burt Lancaster
O sorriso de Lancaster - Como foi lembrado no parágrafo inicial deste texto, não é a crítica que determina o sucesso ou não de um filme pois “Vera Cruz” foi o faroeste que obteve a maior bilheteria no ano de seu lançamento nos Estados Unidos (1955). No Brasil este western de Robert Aldrich lotava as salas em cada reprise ocorrida nos anos 50. Lançado em DVD por diferentes companhias pelo fato de ter caído em domínio público, “Vera Cruz” é, ainda hoje, um dos faroestes mais vendidos, assistidos e estimados de todos os tempos. Isto mesmo tendo sido repudiado pelos críticos quando de seu lançamento e muitas vezes ignorado posteriormente. O sucesso de “Vera Cruz” deve ter provocado em seu produtor Burt Lancaster sorrisos ainda maiores que aqueles que ele exibe no filme, numa evidencia clara que a crítica nem sempre tem razão.

O personagem de Burt Lancaster em "Vera Cruz" como foi visto pela revista
'Mad' de julho de 1955. A legenda diz que Lambaster sobe as escadas para
se lavar... se barbeia... se veste... e quando você está convencido que ele vai
vencer... ele morre com a cara no chão!


16 de outubro de 2013

A CANÇÃO-TEMA DE ‘VERA CRUZ’ QUE NÃO SE OUVE NO FILME




Sammy Cahn e Hugo Friedhofer.
Depois do sucesso do western “Matar ou Morrer”, êxito acompanhado pela música-tema do filme (“Do Not Forsake Me...”), que se tornou sucesso de vendagem na voz de Frankie Laine, outros filmes adotaram a novidade de ter uma canção-tema na abertura. Frankie Laine foi o campeoníssimo dessa moda. Para o western “Vera Cruz” foi composta uma canção homônima, com música de autoria do maestro-compositor Hugo Wilhem Friedhofer com letra de Sammy Cahn. Friedhofer, que apesar do nome era norte-americano e fazia música para o cinema desde 1929, compôs ou orquestrou trilhas sonoras para mais de 200 filmes, vencendo o Oscar com a trilha sonora musical composta para “Os Melhores Anos de Nossas Vidas”. O nome do letrista Sammy Cahn é ainda mais famoso e nada menos que 23 canções com letras suas concorreram ao Oscar, sendo que ele levou a estatueta para casa quatro vezes pelas músicas “Three Coins in the Fountain” (“A Fonte dos Desejos”), “All the Way” (“Chorei por Você”), “High Hopes” (“Os viúvos Também Sonham”) e “Call me Irresponsible” (“O Estado Interessante de Papai”). Em “Three Coins in the Fountain” Jules Styne foi o parceiro de Sammy Cahn; nas outras três canções vitoriosas o parceiro foi Jimmy Van Heusen. Frank Sinatra gravava tudo que Cahn e Van Heusen compunham, atestado da qualidade das composições.

Tony Martin nos anos 40 e estrelando um western.
O ‘cowboy’ Tony Martin - Como o escore musical de “Vera Cruz” foi entregue a Hugo Friedhofer, após a letra ter sido encomendada a Sammy Cahn, o próprio Friedhofer a musicou. E para gravar a canção-título foi chamado Tony Martin, ator-cantor que disputava espaço nas rádios e depois na televisão com cantores como Sinatra, Bing Crosby, Nat King Cole, Frankie Laine, Dick Haymes, Dean Martin, Perry Como e outros. Disputa inglória, tanto que jamais Tony Martin chegou ao primeiro lugar do hit-parade. Tony Martin é bastante lembrado por sua gravação de “Stranger in Paradise”, que na Inglaterra chegou ao primeiro lugar na parada de sucessos, mas nos Estados Unidos atingiu apenas à sexta posição. O azar de Tony Martin é que muitos cantores, entre eles Vic Damone e Bing Crosby, gravaram ao mesmo tempo que ele essa canção do musical “Um Estranho no Paraíso” (Kismet), estrelado por Howard Keel e Ann Blyth. O ótimo cantor Tony Martin fez muitos filmes mas como ator não chegava a empolgar. Martin fez até um faroeste chamado “Valente como Poucos” (Quincannon – Frontier Scout), em 1956, de Lesley Selander. Pode-se afirmar que o maior sucesso da vida de Tony Martin foi ter se casado com a maravilhosa Cyd Charisse em 1948, feliz casamento que durou até a morte da atriz-dançarina, em 2008. Tony Martin morreria em 2012, aos 98 anos de idade. 

Selo do disco da RCA Victor com a canção
"Vera Cruz", indicando que a mesma foi
utilizada no filme de Robert Aldrich.
Canção abortada - Desta vez Sammy Cahn não acertou na parceria com Hugo Friedhofer e a canção “Vera Cruz” ficou muito aquém do que se esperava. Foi tão grande a decepção com a canção que ela foi simplesmente excluída do filme uma vez que não acrescentaria o necessário impacto orquestral e não possibilitaria as variações melódicas imaginadas. Como Burt Lancaster e seu sócio Harold Hecht foram os produtores de “Vera Cruz” e como Lancaster se intrometeu em todas as instâncias do projeto, pode-se acreditar que a decisão de excluir a canção tenha sido do ator. Burt Lancaster era um apaixonado por música, mais especificamente por ópera. A canção “Vera Cruz” tentou dar emoção à narrativa num estilo musical próximo daquele que Dimitri Tiomkin compunha com maestria. E buscou a canção nuances que remetem à música latina, acentuando o uso de instrumentos de percussão tão em voga na época. O resultado final foi apenas um pretensioso bolero. Quem atingiu com total brilho a mescla de música para western com a latinidad foi Elmer Bernstein em “Sete Homens e um Destino” e mais tarde Jerry Fielding em “Meu Ódio Será Sua Herança”. De qualquer forma vale à pena conhecer a canção “Vera Cruz”, aquela que não foi escutada nessa incrível aventura cinematográfica dirigida por Robert Aldrich e estrelada por Burt Lancaster e Gary Cooper.


Tony Martin e sua maravilhosa esposa Cyd Charisse, dona das mais belas
pernas do cinema. Tony e Cyd foram casados e felizes por 60 anos.

31 de agosto de 2012

BURT LANCASTER E GARY COOPER NO CLÁSSICO “VERA CRUZ”, EM INDAIATUBA


Todo cinéfilo fã de faroeste tem num cantinho especial de sua DVDteca o clássico “Vera Cruz”, de Robert Aldrich. Porém assistir a esse espetacular western em tela grande e com os recursos de um cinema moderno, isso é para poucos felizardos, gente de sorte como aqueles que moram em Indaiatuba e nas cidades vizinhas. Indaiatuba é uma cidade distante 107 quilômetros da capital paulista e entre seus shopping centers está o Shopping Jaraguá com o complexo de salas cinematográficas “Topázio”, pertencente ao Sr. Paulo Antônio Lui.


Laudney Mioli
Laudney Mioli, mais conhecido por ‘Lau Shane’ na confraria dos amigos do western em São Paulo, passou há algum tempo a residir em Indaiatuba, para onde levou seu amor pelo cinema. Tornando-se amigo de Paulo Lui, Lau Shane descobriu que o empresário era também fã de faroestes. O resultado da amizade entre Lau e Lui foi a criação do “Sábado Nostálgico”, dia da semana em que sempre é programado um clássico da época de ouro do cinema com a presença de aproximadamente duas centenas de espectadores. Num desses sábados foi exibido “Bravura Indômita”, com John Wayne e está programado para hoje, dia 1.º de setembro, justamente o imperdível “Vera Cruz”, com o início marcado para 9h30. Para as exibições dos “Sábados Nostálgicos” a entrada é gratuita e a sessão começa após um saboroso café da manhã servido no próprio Shopping Jaraguá.

Paulo Lui
Paulo Antônio Lui é uma pessoa muito querida não só em Indaiatuba, mas também nas cidades vizinhas de Vinhedo e Campinas, onde igualmente possui salas exibidoras. Lui é incansável nas campanhas beneméritas que promove e também em seu trabalho pela preservação da memória cultural da cidade. São iniciativas como essa dos "Sábados Nostálgicos" que trazem alegria não só para os fãs saudosistas mas também para aqueles mais jovens que buscam o melhor do cinema, independentemente do ano de produção do filme. E nada melhor que rever “Vera Cruz” com equipamento em 3D, com muito conforto e a presença de amigos como Paulo Lui e Lau Shane. 



13 de janeiro de 2012

BURT LANCASTER X GARY COOPER, O DUELO POR TRÁS DAS CÂMARAS EM "VERA CRUZ"


Quem assiste ao espetacular faroeste "Vera Cruz" fica com a nítida impressão que o exibicionista Burt Lancaster venceu o duelo de interpretações travado com o discreto Gary Cooper. Falsa impressão pois Cooper ganhou em muitos dos quesitos em disputa, isto segundo fatos e opiniões de gente que participou das filmagens desse eletrizante faroeste. Vale à pena conhecer um pouco do que se passou nos bastidores de "Vera Cruz".

"FUJA DE BURT LANCASTER" - A companhia produtora Hecht-Lancaster havia programado mais um western, intitulado "Vera Cruz" e que deveria ser filmado no México. A história de Borden Chase sofrera alguns ajustes no roteiro que por sinal não estava pronto ainda quando as filmagens começaram. Roland Kibee, um dos roteiristas especialista em comédias, foi o responsável por tornar um texto sério sobre dois mercenários em uma aventura repleta de diálogos e momentos engraçados. Estava definido que Burt Lancaster interpretaria o personagem principal do filme, o ex-oficial confederado Benjamin Trane. Faltava contratar um outro ator para interpretar o pistoleiro Joe Erin. Como "O Último Bravo" (Apache), que também fora produzido pela Hecht-Lancaster, rendera dois milhões de dólares de lucro, os sócios Harold Hecht e Burt Lancaster decidiram investir um pouco mais em "Vera Cruz" e contratar Gary Cooper que há 25 anos era um dos principais astros de Hollywood e por isso mesmo um dos maiores salários do cinema. Gary Cooper havia recebido um Oscar de Melhor Ator um ano antes por sua atuação em "Matar ou Morrer" e Hecht-Lancaster acreditavam que com o nome de Cooper nas marquises dos cinemas "Vera Cruz" deveria fazer sucesso ainda maior que "O Último Bravo", dirigido por Robert Aldrich. O próprio Aldrich seria também o diretor de "Vera Cruz". A Hecht-Lancaster convidou então oficialmente Gary Cooper e este, conversando em uma festa com Clark Gable, foi aconselhado por Gable a não trabalhar com Lancaster porque o astro de "Pirata Sangrento" fatalmente o 'engoliria' impiedosamente no inevitável confronto dos dois na tela.

TROCA DE PAPÉIS - Cooper que há cinco anos vinha recebendo 295 mil dólares de salário por filme, pediu 600 mil dólares, acreditando que Hecht e Lancaster não aceitariam pagar quantia tão elevada. Mas a dupla de produtores fez uma contraproposta: pagariam 500 mil dólares e mais 10% dos lucros líquidos do filme, esquema financeiro parecido com o que Cooper acertou com Stanley Kramer para atuar em "Matar ou Morrer", só que nesse premiado western Cooper recebeu apenas 60 mil dólares e mais uma porcentagem. Diante da irrecusável oferta feita por Hecht e Lancaster, Gary Cooper aceitou o desafio, mesmo vivendo sérios problemas de coluna que lhe causavam terríveis dores. Burt Lancaster releu o incompleto roteiro e concluiu que o personagem Joe Erin era bem mais interessante que o de Ben Trane, este um personagem inteiramente convencional. Sem perda de tempo Burt operou a troca de papéis, passando para Cooper o papel do ex-coronel confederado. Lancaster transformou Joe Erin uma espécie de Capitão Vallo (Pirata Sangrento) mais cínico, mais amoral e mais violento. A equipe de 150 homens rumou então para Cuernavaca, no México, e no dia 3 de março de 1954 tiveram início as filmagens de "Vera Cruz" e o que se viu assustou a todos. O ator-produtor Burt Lancaster parecia um furacão aparecendo ruidosamente em todos os lugares e cuidando dos mínimos detalhes nos sets e, como não poderia deixar de ser, se intrometendo na direção em todas as sequências, o que muito irritava Aldrich. Com alguns dias de filmagem, Lancaster se reuniu com Harold Hecht, com Aldrich e ainda com James Hill. Este último, creditado como produtor (executivo) era uma espécie de secretário de Lancaster, inclusive reescrevendo o roteiro segundo as sugestões de Burt. Na reunião Lancaster disse a eles que estava insatisfeito com o trabalho de Gary Cooper pois parecia que Coop não estava dando tudo que podia dar, não estava sendo muito efetivo e que daquele jeito o filme não ficaria bom. Quando os primeiros 'dailies' (cenas que já haviam sido rodadas e reveladas) retornaram dos laboratórios de Churubusco, Lancaster assistiu e se confessou maravilhado com a interpretação minimalista de Gary Cooper e completou dizendo que ele Lancaster estava parecendo um idiota em cena. Para espanto de todos Lancaster ordenou que diversas cenas já rodadas fossem refeitas para que ele reduzisse seus próprios excessos. Burt Lancaster pode ter muitos defeitos como ator e produtor, mas é um homem de rara sensibilidade artística e seu feeling fez com que "Vera Cruz" se transformasse num dos mais influentes e por isso mesmo dos mais importantes westerns do cinema.

AULA DE HABILIDADE - Lancaster mergulhou fundo para compor o personagem de Joe Erin pois queria ganhar a 'briga surda' com Gary Cooper na tela. Para isso passava horas treinando os malabarismos que aprendera a fazer com o revólver, sempre rodeado de atores e técnicos. Certo dia, enquanto Lancaster se exibia, Gary Cooper se aproximou e disse a ele: "Caramba, você está ficando muito bom nisso!" Lancaster que havia pago cinco mil dólares a um dentista para encapar todos seus dentes e possibilitar o faiscante brilho naquela sua risada inconfundível, sorriu e agradeceu.  Dias depois, antes de uma cena com Lancaster, Gary Cooper que tinha em sua filmografia uma longa lista de westerns sacou casualmente seu revólver, rodou-o para baixo e para cima, jogou-o para o alto, aparou-o com habilidade, jogou-o por trás das costas e aparou novamente a arma, rodou-a por mais alguns segundos com incrível velocidade e a encaixou com perfeição no coldre. Ajeitou então o chapéu e se afastou com sua característica discrição. Se tivesse olhado para trás teria visto os olhos esbugalhados de Jack Elam, a admiração de Ernest Borgnine, Charles Bronson e Jack Lambert e os dentes brilhantes de Burt Lancaster na boca aberta que ele não conseguia fechar.

FAROESTE ULTRAINFLUENTE - Apesar das diferenças políticas e de personalidade entre Burt Lancaster e Gary Cooper, os dois grandes atores se entenderam bastante bem durante os 80 dias que passaram em Cuernavaca, Chapultepec, Teotihuacán e Churubusco durante as filmagens de "Vera Cruz". César Romero disse que o ambiente alegre só ficava cinzento quando Lancaster se excedia, como quando em uma tomada quando tinha que empurrar Henry Brandon fazendo o ator alemão cair ao chão. Não satisfeito, Lancaster desferiu um humilhante e desnecessário pontapé no traseiro de Brandon (essa cena foi cortada na edição final). Houve ainda o incidente com Jack Elam que partiu aos socos para cima de Lancaster após ele ter debochado de seu defeito num dos olhos. Os problemas porém foram todos contornados e as filmagens chegaram ao fim no dia 12 de maio de 1954, resultando num western diferente de todos quantos se conhecia. Não sem razão, Sergio Leone era grande admirador de "Vera Cruz" e foi enormemente influenciado em sua trilogia pelo faroeste produzido por Lancaster. E não só Leone pois "Vera Cruz" foi determinante para todo o movimento cinematográfico que ficou conhecido como "Spaghetti-Western". Sem exagero pode-se afirmar que se não houvesse "Vera Cruz", os faroestes Made-in-Italy teriam de esperar um pouco mais para aparecer, assim como os tantos anti-heróis, todos herdeiros do Joe Erin criado por Burt Lancaster.

O VENCEDOR DO DUELO - Quando lançado em 11 de abril de 1955, "Vera Cruz" se transformou em imediato sucesso, não só nos Estados Unidos mas no mundo todo, principalmente na Itália, claro. Do orçamento inicial de 850 mil dólares, o custo final de "Vera Cruz" passou para um milhão e meio de dólares, mas a arrecadação no mundo todo, só no primeiro ano de exibição ultrapassou os dez milhões de dólares. Se Lancaster ficou satisfeito pois "Vera Cruz" é um faroeste com a sua cara (nos anos 50), Cooper teve um milhão e trezentas mil razões, todas depositadas em sua conta bancária para ficar ainda mais feliz. Com "Vera Cruz" Coop atingiu um salário jamais recebido até então por nenhum outro ator e teve direito ao top-billing nos créditos, ou seja, seu nome veio à frente inclusive do título do filme. Gary Cooper e Burt Lancaster criaram em "Vera Cruz" o que passou a se chamar de "buddy movie", filmes onde dois grandes astros (ou estrelas) do cinema dividiam conjuntamente as aventuras, como aconteceria anos depois em "Butch Cassidy e Sundance Kid" e mesmo com Brigitte Bardot e Jeanne Moreau em "Viva Maria!". E alguns dos melhores faroestes norte-americanos como "Os Profissionais" (The Professionals) ou a obra-prima"Meu Ódio Será Sua herança" (The Wild Bunch), beberam também de uma fonte chamada "Vera Cruz". Mas quem venceu afinal o grande duelo entre Burt Lancaster e Gary Cooper? Ora caro leitor, foi você quem venceu! Você, eu e todos os admiradores dessa espetacular aventura que foi o frenético, despudorado mas sempre fascinante faroeste "Vera Cruz".


18 de agosto de 2011

O CONFRONTO VERDADEIRO ENTRE JACK ELAM E BURT LANCASTER


Burt Lancaster foi um dos grandes atores do cinema. Sua amizade com Nick Cravat é bastante famosa, mais ainda pela generosidade com quem tratou o amigo dos tempos em que trabalhavam no circo e formavam a dupla de acrobatas ‘Lang & Cravat’. Sempre que possível Lancaster colocava Nick Cravat em seus filmes e Nick atuou em nove filmes estrelados pelo amigo Lancaster, os mais famosos “O Gavião e a Flecha” e “O Pirata Sangrento”. Esse lado generoso de Burt Lancaster é bastante conhecido, assim como seu profissionalismo. O que poucos sabem é que ele era o terror dos diretores pois intrometia-se no trabalho de todos eles porque queria que os filmes saíssem melhores. No início dos anos 50 Burt Lancaster era uma mais brilhantes estrelas de Hollywood e o sucesso não deixou de lhe subir à cabeça conseguindo com seu temperamento algumas inimizades eternas. Entre essas inimizades conta-se a de Jack Elam. O atrito entre os dois começou quando das filmagens de “Vera Cruz”. Lancaster no auge da fama depois do sucesso de “Apache” e de “O Pirata Sangrento”, enquanto Jack Elam era um ator ainda pouco conhecido. Certo dia Lancaster levou a esposa Norma e seus cinco filhos à locação em Cuernavaca, onde estava sendo filmado “Vera Cruz”. Ao aproximar-se de Jack Elam, Lancaster disse para seus filhos: “Papai agora vai lhes mostrar o homem mais engraçado do mundo... Olhem para os olhos dele...” E começou a rir com aquela risada que o cinema tornou mundialmente conhecida. Jack Elam, como não poderia deixar de ser, ficou visivelmente aborrecido, mas como Burt Lancaster estava com os filhos preferiu ficar em silêncio. No dia seguinte, quando se preparavam para filmar uma sequência, Jack Elam disse a Lancaster: “Não gostei daquilo que você fez comigo!” Burt Lancaster respondeu: “Mas você é feio mesmo...” e começou a rir. Surpreendentemente Jack Elam partiu aos socos para cima de Lancaster que era um pouco mais forte mas não conseguiu conter a ira de Jack Elam. Gary Cooper, Charles Bronson, Ernest Bognine e Robert Aldrich que presenciavam a discussão separaram os dois antes que se machucassem seriamente. “Vera Cruz” foi finalizado em ambiente tenso com a maioria sendo solidária a Jack Elam.
Wyatt Earp dispara contra McLowery

Burt e Jack não voltaram mais a se falar. Ambos com longa carreira só voltaram a trabalhar no mesmo filme quando atuaram em “Sem Lei e Sem Alma”. Burt Lancaster não conseguiu vetar a pequena participação de Jack Elam como ‘Tom McLowery’ uma vez que o filme foi produzido por Hall B. Wallis, com quem Burt Lancaster também estava estremecido. Em “sem Lei e Sem Alma” Jack Elam e Lancaster fazem apenas uma cena juntos que é quando Wyatt Earp atira e mata Tom McLowery. Burt Lancaster era o mais importante produtor independente de Hollywood com sua companhia Hecht-Lancaster, mais tarde Hecht-Hill-Lancaster, onde citar o nome de Jack Elam era terminantemente proibido. Mas trabalho foi o que nunca faltou para Jack Elam que podia não ser um Apolo como Burt Lancaster, mas era um tipo característico marcante, um excelente ator e um das pessoas mais queridas da comunidade cinematográfica norte-americana.