Em seu fundamental ensaio “Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano”, Martin Scorsese dedica um bloco ao que chama de ‘O Diretor como Contrabandista’. Scorsese fala daquele cineasta capaz de realizar uma obra contrariando determinadas convenções ou regimes políticos. Exemplificando essa tese Scorsese cita um quase desconhecido western de Allan Dwan intitulado “Homens Indomáveis” (Silver Lode). A partir de então esse filme foi redescoberto, tornando-se um western cult e, mais que isso, foi redescoberta uma esquecida pequena obra-prima dos faroestes.
DENÚNCIA DIRETA DO MACARTHISMO – “Homens Indomáveis” foi lançado nos Estados Unidos em julho de 1954, quando Hollywood vivia ainda sob a onda de terror espalhada pelo senador Joseph McCarthy e a famigerada HUAC, comissão formada no Congresso norte-americano para, literalmente, caçar supostos simpatizantes do Comunismo. Escritores, roteiristas, atores e técnicos foram impedidos de trabalhar na mais torpe forma de violência até então jamais exercida contra a arte cinematográfica. Com "Homens Indomáveis" se conheceu a figura, mencionada por Scorsese, a do 'Diretor Contrabandista'. Não só diretores mas e principalmente os escritores e roteiristas. Uma das vítimas do Macarthismo foi Carl Foreman, autor do roteiro de “Matar ou Morrer” (High Noon), corajoso western que mostra como toda a população de uma pequena cidade se acovarda diante do perigo representado por quatro bandidos. A alegoria de “Matar ou Morrer”, no entanto, comporta uma leitura contrária à pretendida por Carl Foreman, o que permitiu que o filme de Fred Zinnemann até ganhasse prêmios do sistema, a Academia de Artes de Hollywood. Dois anos depois, foi produzido “Homens Indomáveis”, western contendo muitos dos elementos de “Matar ou Morrer”, mas diferentemente deste, o mais direto possível na denúncia da intolerância, da covardia e até onde a maldade humana, nos atos de um crápula, pode chegar.
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| Ballard acuado pelos homens de bem de Silver Lode; a morte de McCarthy |
UMA CIDADE CONTRA UM INOCENTE - O nome do bandido que aterroriza toda uma cidade é Ned McCarthy. Poderia ser Ted ou mesmo Ed pois o sobrenome não deixa dúvida alguma a respeito de quem o filme vai falar e vale relembrar que o ano era de 1954, momento em que os radicais de direita dominavam a cena aterrorizando Hollywood. O roteiro de “Homens Indomáveis” é de Karen DeWolf, uma das vítimas da caça às bruxas e que contou com a coragem do produtor Benedict Bogeaus para levar a história à tela. Para dirigir, Bogeaus contratou o veterano Allan Dwan. “Homens Indomáveis” começa com um casamento interrompido por um suposto delegado federal chamado Ned McCarthy (Dan Duryea) que entra em Silver Lode num festivo 4 de julho com mais três homens. McCarthy tem um mandado de prisão contra o noivo Dan Ballard (John Payne) que, segundo McCarthy teria assassinado seu irmão e roubado 20 mil dólares. Ballard que chegara à cidade há dois anos tornou-se cidadão bastante estimado e noivo de Rose Evans (Lizabeth Scott), filha de Zachary Evans (Morris Ankrum), um dos homens mais ricos da cidade. Ballard nega as acusações mas não com a necessária veemência, do que se aproveita McCarthy para convencer toda a cidade que Ballard é um criminoso, ladrão e fugitivo da Justiça. Ballard consegue escapar do quarteto liderado por McCarthy. A princípio a população de Silver Lode acredita na inocência de Ballard, mas sob a influência malévola de McCarthy e diante também de algumas evidências, rapidamente passam a considerá-lo um bandido e ajudam Ballard na tentativa de recapturá-lo. Ballard refugia-se na igreja e a população incitada por McCarthy quer linchá-lo, disparando contra ele. Ballard só conta com duas pessoas que acreditam nele, sua noiva Rose e uma prostituta chamada Dolly (Dolores Moran), com quem ele antes teve um relacionamento. As mulheres usando de um ardil conseguem evitar o linchamento mas McCarthy encurrala Ballard na torre da igreja disparando várias vezes contra ele. Uma das balas ricocheteia no enorme sino e atinge o peito de McCarthy quando o telégrafo já havia recebido a mensagem dizendo que McCarthy era um impostor e assassino.
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| Excepcional Dan Duryea |
A TORPEZA DE UM HOMEM - A ira, a violência, o desejo torpe de vingança, a injustiça e a histeria coletiva estão todos presentes em “Homens Indomáveis”. Presente também a necessidade de um homem de se defender, o que o leva ao uso de uma inevitável violência, num filme sem falsos moralismos. Exemplar também é o filme de Allan Dwan na exposição da fragilidade com que a Lei e a Justiça podem ser burladas em benefício de malfeitores. Todos esses pontos vão surgindo ininterrupta e freneticamente criando uma tensão de roubar o fôlego do espectador. Como se observa são muitas as semelhanças de “Homens Indomáveis” com “Matar ou Morrer”, filme que, como se sabe, se tornou a obra-prima que é na sala de montagem com a primorosa edição de Elmo Williams. “Homens Indomáveis” é um filme igualmente dinâmico, de ritmo forte e grande suspense, devastador ao radiografar seres humanos como os que habitam Silver Lode. “Homens Indomáveis” é um espelho para criaturas infames e difamantes como era McCarthy e encontrada em certos rincões tidos como do Velho Oeste. Com ação passada em apenas algumas horas, a cidade de Silver Lode é um cenário paradoxal com enfeites vermelho, azul e branco espalhados por toda parte, como que a lembrar insistentemente que isto é a América. Se há uma falha em “Homens Indomáveis” é o comportamento de Dan Ballard que aceita com inconvincente passividade as acusações do homem que ele sabe estar mentido. O espectador sente até vontade de gritar para que ele reaja contra as mentirosas acusações de McCarthy. Ao final a mão divina intervém e a morte de McCarthy é verdadeiramente antológica.
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| Casamento de Ballard; Dolores Moran (Dolly) |
SEMPRE A BOA PROSTITUTA - Filmado em cores, “Homens Indomáveis” é um filme dominado por Dan Duryea. Perverso, incontrolável, imoral, sem nenhum princípio e com o único objetivo de destruir o homem que odeia, Duryea tem outro excepcional momento na tela como homem mau, sendo a grande força motriz do filme. John Payne compõe seu personagem sem a necessária garra, muito provavelmente obedecendo ao roteiro, porque, como as vítimas do macarthismo, seu moral é destruído impiedosamente por McCarthy. Lizabeth Scott foi uma escolha errada, tentando lembrar a 'quaker' Grace Kelly de “Matar ou Morrer”. Porém a provocante Dolores Moran é uma agradabilíssima surpresa como a garota do saloon, caso antigo de Ballard. Essa atriz era casada com o produtor Benedict Bogeaus e, lamentavelmente, “Homens Indomáveis” foi seu último filme, aos 30 anos de idade pois ela se afastou do cinema. O elenco de coadjuvantes é perfeito com atores do gabarito de Morris Ankrum, Emile Meyer (como sheriff), Robert Warwick, Frank Sully e Hugh Sanders. Os capangas de Dan Duryea são os ótimos Alan Hale Jr, Harry Carey Jr. e Stuart Whitman.
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| O veteraníssimo Allan Dwan |
“APENAS MAIS UM PEQUENO WESTERN” - O veterano diretor Allan Dwan dirigiu mais de 400 filmes e entendia do riscado. Orson Welles costumava dizer que Dwan já dirigia filmes quando foi inventada a luz elétrica e seu mais bem sucedido filme foi “As Areias de Iwo-Jima”, com John Wayne. Peter Bogdanovich o entrevistou para o livro “Afinal, Quem Faz os Filmes?”, lembrando a Dwan das qualidades de “Homens Indomáveis”. Fazendo tipo como John Ford fazia, Allan Dwan respondeu que esse era apenas mais um pequeno western. Dwan aceitou dirigir o filme para Bogeaus mas avisou que precisaria de um orçamento cinco vezes maior que o apresentado para fazê-lo bem feito. Descontente com o trabalho de Allan Dwan, que queria diminuir o forte teor político do roteiro, Benedict Bogeaus chegou a despedi-lo, mas quando viu a lista de diretores que poderia contratar para substituir Dwan, chamou o veterano diretor de volta. Ao final Dwan realizou um trabalho excepcional, mantendo o caráter denunciatório do filme, tudo isso mesmo com pouco dinheiro. Depois de “Homens Indomáveis” Dwan e Bogeaus fizeram mais dez filmes em parceria. A bonita fotografia é de John Alton com movimentos de câmara que valorizam as ações. “Uma Viagem Pessoal com Martin Scorsese Pelo Cinema Americano” é uma obrigatória aula de cinema e graças a ele “Homens Indomáveis” tem hoje o status que merece, o de pequena obra-prima do faroeste.
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| Allan Dwan faz um retrato amargo da América |







