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| Django Reinhardt e Sergio Corbucci |
Em 1965 Sergio Corbucci era apenas mais
um dos tantos cineastas italianos que passaram a explorar o filão do faroeste
na Itália, à sombra do outro Sergio, o Leone, este prontamente reconhecido como
renovador do gênero western. Para seu terceiro faroeste, rodado entre novembro
de 1965 e janeiro de 1966, Corbucci criou um personagem que nem o mais otimista
dos cineastas poderia imaginar que se tornaria a mais emblemática representação
daqueles filmes que logo viriam a ser chamados de western spaghetti. A escolha
do nome desse personagem foi um desses momentos de rara felicidade, com
Corbucci tendo a ideia de chamá-lo de ‘Django’, inspirado por Django Reinhardt,
célebre guitarrista cigano. Esse músico escapou com vida de um incêndio, aos 18
anos de idade, tendo parte do lado esquerdo do corpo queimado e tendo perdido o
movimento de alguns dedos de uma mão, o que não o impediu de continuar tocando
e se tornar um virtuoso instrumentista e jazzista famoso. O western de Sergio
Corbucci teve o título de “Django”, baseado em história escrita por ele em
parceria com seu irmão Bruno Corbucci. Outro afortunado acerto foi a escolha do
ator que personificaria Django. Inicialmente pensou-se em Mark Damon como protagonista,
mas esse ator norte-americano havia assumido outro compromisso e Franco Nero
foi então chamado. É inimaginável se pensar em outro Django que não Nero e a
prova disso é o inacreditável número de filmes que tentaram se aproveitar do
sucesso do personagem criado por Corbucci, sem que a figura de Django se
dissociasse de Franco Nero.
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| Acima José Bodalo; abaixo Eduardo Fajardo |
Renegados
contra fanáticos - Um homem solitário, arrastando um
caixão de defunto, se dirige a uma pequena cidade próxima à fronteira com o
México e salva uma prostituta de nome Maria (Loredana Nusciak) das mãos de um
grupo de sulistas. Esse homem é Django (Franco Nero), que levando Maria chega a
uma cidade aparentemente abandonada onde somente o bordel dirigido por
Nathaniel (Ángel Álvarez) funciona. Dois diferentes grupos costumam visitar a
cidade, a quadrilha dos sulistas, liderada pelo Major Jackson (Eduardo Fajardo)
e o bando dos renegados mexicanos comandado pelo General Hugo Rodriguez (José
Bodalo). Major Jackson é um racista sádico e extremado que vende proteção aos
colonos pobres e a Nathaniel e às prostitutas, enquanto o General Rodriguez tem
como objetivo conseguir armas para se engajar em uma revolução que ocorre no
México. Django é um ex-soldado ianque que retornou àquele lugar para vingar sua
esposa morta por Jackson. Dentro do caixão que Django arrasta por onde anda há
uma metralhadora e com ela o andarilho liquida quase toda a meia centena de
homens de Jackson. Embora amigo do General, Django entra em conflito com ele e
tem as mãos quebradas por um dos renegados por ordem do General, enquanto Maria
é gravemente ferida por uma bala. O grupo comandado por Hugo é dizimado numa
emboscada por um batalhão do exército mexicano. Mesmo com as mãos esmagadas
Django retorna à cidade carregando Maria e avisa ao Major Jackson que o espera
para um confronto final no Cemitério Tombstone. Django consegue abater o Major
e os últimos capangas que o acompanham.
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| Franco Nero; abaixo Flora Carosello no saloon. |
Um
homem atormentado - Inovativo em diversos aspectos,
“Django” tem o eixo da história pouco original pois o personagem central em
meio a dois grupos que se defrontam é o mesmo de “Por um Punhado de Dólares”
(Per un Pugno di Dollari), que por sua vez copiou “Yojimbo”, de Akira Kurosawa.
Porém o andarilho solitário Django difere em muito do ‘estranho sem nome’ (Joe)
do filme de Leone. Django lutou pelo Norte durante a Guerra Civil, não economiza
nas palavras como o introspectivo o homem do poncho e da cigarrilha e não
cavalga em nenhum momento (e nem poderia fazê-lo pois o caixão que arrasta
parece um complemento de seu corpo). Perguntado sobre para quem é aquele
caixão, ele responde ser para ele próprio, homem atormentado por seu próprio
passado. Entre os dois grupos contendores, Django tem simpatia pelos renegados
mexicanos, acreditando no idealismo destes. Assemelham-se, no entanto, os dois
personagens na inverossímil indestrutibilidade, na frieza com que enfrentam
inimigos mais poderosos e em maior número. Django tem uma vingança como escopo
e não é misógino pois ao final declara a vontade de recomeçar a vida ao lado de
Maria. O respeito da crítica por Corbucci tem início com “Django” porque neste
filme o diretor demonstra ter estilo próprio, contando para isso com a singular
colaboração de Carlo Simi na direção de arte e criação dos cenários. A lamacenta
rua principal do lugarejo semideserto com casario cinzento é perturbadora,
assim como a decoração opressiva do saloon onde transcorre boa parte do filme.
É nessa ambientação que rebenta uma sucessão de violência que faz de “Django”
um western-grand guignol, ou seja, palco de incontido sadismo.
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| Gino Pernice forçado a comer a própria orelha. |
Horror
e sadismo - O ritmo de “Django” é vigoroso, intenso e assustador,
partindo de uma mulher sendo chicoteada e chegando ao final com a vingança
feita pelo resoluto andarilho ainda que com todos os dedos quebrados e a mão
esmagada. Corbucci se esmerou no sadismo nas sequências em que o Major Jackson
atira em mexicanos por diversão; ao quebrar por completo as mãos de Django,
primeiro com a coronha do rifle de Miguel (Simón Arriaga) e em seguida com os
cascos dos cavalos pisoteando o desgraçado personagem; e o horror completo é
atingido quando o General Rodriguez decepa a orelha do Irmão Jonathan (Gino
Pernice), fazendo o mutilado comê-la. A criatividade de Corbucci esbarra em
lugares comuns como o poço de areia movediça tragando um mexicano e uma bizarra
luta entre prostitutas, aqui enlameadas até a alma. “Django” foi o primeiro
faroeste a ser censurado para menores de 18 anos na Itália. Pior sorte tiveram
os ingleses que sequer puderam assistir ao filme, proibido que foi de ser
exibido na Inglaterra devido à excessiva violência. Visto 50 anos depois e
mesmo diante do rumo que o cinema tomou, “Django” ainda choca na mesma medida
que envolve o espectador.
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| As mãos esmagadas de Django. |
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| José Terrón, o 'Ringo' de Sergio Corbucci. |
Luta
antológica – À parte as sequências que beiram o horror, Corbucci se mostra
estupendo na condução das cenas de ação, com a inquieta câmara de Enzo Barboni buscando
ângulos improváveis e um trabalho admirável de Remo De Angelis (o mexicano
Ricardo no filme), na coordenação de tomadas perigosas. A luta entre Django e
Ricardo no saloon é antológica, não só pelo fato de Franco Nero dela ter
participado em sua íntegra sem dublê, mas e principalmente pelo resultado
espetacularmente convincente. Não há momentos de humor neste filme trágico, porém
o caricato pistoleiro chamado Ringo (José Terrón) ser horrível e ter o rosto
marcado por enorme cicatriz não deixa de ser uma sarcástica pilhéria com a
beleza apolínea do Ringo criado por Giuliano Gemma. Django é nortista e a crueldade
do Major Jackson com seu clã de homens encapuzados com panos vermelhos externam
pouca simpatia do diretor pela causa sulista, mesmo que o bando seja composto por
fanáticos que não aceitaram a derrota na Guerra Civil. Jackson afirma “Minha guerra nunca termina”,
expressando o sentimento de quem nunca absorveu a derrota. A hipócrita
religiosidade do Irmão Jonathan em nada deve ter agradado a igreja pois o
pregador com a Bíblia na mão é um lacaio a serviço do tirano Major que explora
os oprimidos vendendo-lhes proteção.
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| A luta entre Franco Nero e Remo De Angelis. |
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| Loredana Nusciak e Franco Nero |
Senões
da produção - Realizado com pequeno orçamento, Corbucci, Barboni e Simi
conseguiram uma façanha com a atmosfera opressiva criada para “Django”. Deixaram,
no entanto escapar alguns pormenores que não chegam a comprometer o filme mas chamam
a atenção. A cidade é barrenta sem que haja chuva em nenhum momento e lembra-se
de produções mais ricas como “Pacto de Justiça” (Open Range), de Kevin Costner
e “Os Imperdoáveis” (Unforgiven) de Clint Eastwood, aquele com correnteza pelas
ruas da cidade e este com chuva constante de molhar as entranhas. E no entorno
da cidade semifantasma de “Django” não há sinal de que tenha havido mau tempo
já que, desde o Cemitério Tombstone até o forte próximo onde estão as tropas
mexicanas tudo é poeira. Apenas em uma sequência a metralhadora de Django é
montada sobre um tripé, sendo que nas demais sequências ela é segura pelas mãos
de Django, disparando intermináveis rajadas de balas sem aparentemente aquecer.
O roteiro de “Django” poderia ser alterado para que a ruiva Maria, com sua pele
alva, tivesse outra origem que não a de mestiça, descendendo de mexicanos e
peruanos. No final da sequência impactante da orelha decepada, o ator Gino
Pernice aparece visivelmente com a orelha no lugar, mesmo depois de ter sido
obrigado a comê-la.
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| Eduardo Fajardo |
Eduardo
Fajardo, o vilão - Franco Nero é perfeito como o
misterioso e torturado vingador, enquanto Loredana Nusciak, uma das mais belas
atrizes que participaram de westerns spaghetti, não brilha e nem desaponta como
Maria. O grande destaque no elenco fica para Eduardo Fajardo, excelente como o
autoritário e repulsivo Major Jackson. Por outro lado o argentino José Bodalo
faz de tudo para imitar Fernando Sancho mas só o que consegue é ser
histriônico. Outro argentino, Luís Enriquez Bacalov compôs a ótima trilha
sonora com nuances apropriadas a cada sequência, excessiva apenas no tema de
abertura martelando ‘Django, Django,
Django’. Na maior parte das versões lançadas no Brasil, o tema “Django” é
cantado por Rocky Roberts, norte-americano radicado na Itália, assim como
nessas versões, lamentavelmente, não há o áudio em italiano e sim em Inglês
(ou, pior ainda, em Português).
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| Franco Nero com Loredana Nusciak e com José Bodalo |
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| Franco Nero |
Importante
e influente - “Django” atingiu proporções inimagináveis não apenas em
termos de sucesso junto ao público, mas também pela influência que gerou. Pelo
menos 50 filmes se apropriaram do título ‘Django’ criado por Sergio Corbucci, quase
todos com personagens centrais que pouco lembravam a imagem notável concebida
por Franco Nero. Em países como França e Alemanha, era comum títulos ganharem o
nome ‘Django’ mesmo que nos filmes originais não houvesse esse personagem.
Franco Nero demorou 21 anos para retomar o estóico herói do caixão e da
metralhadora, só o fazendo em 1987 em “Django – A Volta do Vingador” (Django 2
– Il Grande Retorno). Sergio Corbucci prosseguiu fazendo westerns spaghetti,
entre eles a obra-prima “O Vingador Silencioso” (Il Grande Silenzio), muito
superior a “Django” mas sem alcançar a mesma relevância deste. Nenhum outro
western spaghetti, à exceção da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone, se
equipara a “Django” (de Corbucci), na empatia com o público e na importância no
relativamente curto percurso em que o gênero dominou as telas do mundo.
Merecidamente.
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| Franco Nero |