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8 de novembro de 2011

BOB DYLAN E MARLON BRANDO EM "A FACE OCULTA DO ROMANCE EM DURANGO"


Marlon Brando nasceu em 1924 e Bob Dylan em 1941. A diferença de 17 anos não impediu que ambos fossem ídolos de uma mesma geração. Brando como o melhor ator cinematográfico dos anos 50, 60 e 70 e Dylan legando ao universo musical uma obra cuja inventividade lírica fez dele um dos maiores poetas da América. Ambos artistas liberais nunca trabalharam juntos em algum projeto mas Brando interpretou e dirigiu “A Face Oculta” (One-Eyed Jacks), western que aparentemente influenciou Dylan em uma de suas mais belas canções de seu álbum “Desire”, de 1975. Assim como fez Marlon Brando com seu filme, Bob Dylan mergulhou profundamente na cultura azteca narrando um romance passado em Durango entre Magdalena e seu amor mexicano. A reunião de algumas imagens tendo como trilha sonora a referida canção “Romance in Durango” é um interessante casamento entre o faroeste de Brando e essa história de amor contada por Bob Dylan. Uma pena que quando “A Face Oculta” foi rodado, em 1961, Dylan ainda no início de carreira não compusesse trilhas para filmes como aconteceu anos mais tarde em “Pat Garrett and Billy the Kid”. O vídeo abaixo dá uma idéia de como poderia ser a reunião de dois dos artistas mais talentosos do século passado. Emmylou Harris faz a segunda voz com Dylan.

3 de novembro de 2011

A FACE OCULTA (One-Eyed Jacks) – O WESTERN SÁDICO DE MARLON BRANDO


Era para custar 1,8 milhão de dólares mas acabou custando seis milhões de dólares. Era para ser rodado em seis semanas mas levou seis meses para as filmagens serem concluídas. Era para ter uma metragem normal, próxima dos 120 minutos mas a primeira versão tinha quatro horas e 42 minutos de duração. Era para ser dirigido por Stanley Kubrick mas quem assumiu a direção foi o ator principal que era também dono da Pennebaker, a produtora do filme. Kubrick foi despedido por ele. Era para ter Spencer Tracy num dos papéis principais mas por imposição do dono da Pennebaker esse papel acabou nas mãos do amigo Karl Malden. Em “A Face Oculta” (One-Eyed Jacks) Marlon Brando teve seu momento de Erich Von Stronheim, diretor vienense cujas excentricidades o levaram a nunca mais dirigir um filme. E curiosamente o mesmo aconteceu a Brando que nunca mais voltou à direção, ainda que tenha realizado um western único, diferente de tudo que já havia sido feito no gênero. (Para outras informações sobre “A Face Oculta”, leia neste blog os posts ‘O Maior Filme de Todos os Tempos’ e ‘A Face Oculta de Marlon Brando – Seu fascínio por Belezas Exóticas’).


UM VELHACO TRAIDOR - A novela “The Authentic Death of Hendry Jones”, de autoria de Charles Neider serviu de base para os roteiristas Calder Willingham e Guy Trosper (e ainda Rod Serling e Sam Peckinpah não créditados) contarem os destinos de dois ladrões de bancos que após praticarem um assalto em Sonora, no México, se separam pois só havia um cavalo. E a montaria fica com o ladrão Dad Longworth que ao invés de retornar com outro cavalo para salvar Rio, o bandido mais jovem, decide fugir sozinho com o dinheiro roubado. Rio é preso e cumpre cinco anos de prisão em Sonora jurando vingança a cada dia. Quando finalmente Rio é libertado forma outro bando para assaltar bancos até chegar à pequena cidade onde Dad passou a viver. Casado com uma mexicana, com uma jovem enteada e com o cargo de Sheriff, Dad recebe Rio que simula desconhecer a traição do ex-amigo. Após conquistar a confiança de Dad, Rio engravida sua enteada Louisa (Pina Pellicer) e antes de concretizar sua vingança Rio é preso por Dad que lhe quebra a mão direita. Após longo período de recuperação Rio procura mais uma vez o ex-amigo traidor para o ajuste de contas definitivo.

Louise (Pina Pellicer), a vítima de Rio (Brando)
SÁDICA VIN-GANÇA - A intensidade dramá-tica desenvolvida pelo tema da vingança em “A Face Oculta” lembra bastante os westerns de Anthony Mann, exacerbada pelo sadismo físico e psicológico que Brando enfatiza em diversas cenas. Dad (Malden) era mais que um amigo para Rio (Brando), um pouco como um pai como sugere o apelido o que explica porque a deslealdade não podia ser esquecida. Quando Chico Modesto (Larry Duran), amigo de Rio lhe diz para esquecer o sentimento de vingança, Rio responde: “Mais cedo ou mais tarde vou encontrá-lo. E se ele estiver morto vou encontrá-lo morto”. A vingança se delinea de forma cruel com Rio seduzindo a jovem Louisa (Pina Pellicer) e em seguida a desprezando, forma de atingir Maria Longworth (Katy Jurado), mãe da moça e mais ainda o próprio Dad. Porém Dad é quem passa a se considerar traído e dá a Rio uma atroz lição para não mais ser esquecida. O ódio de Rio é mais forte que sua própria dor e Dad comete o erro de não tê-lo matado quando teve a oportunidade, pois a única forma de impedir a vingança de Rio é tirando-lhe a vida. Poucas vezes num western foi vista determinação igual, implacável e estóica como a de Rio. Mal comparando, em “Estigma da Crueldade” e em “Duelo de Titãs” as razões dos personagens interpretados por Gregory Peck e Kirk Douglas eram infinitamente mais bem fundamentadas. Em “A Face Oculta” a motivação de Rio é a perda do amigo-pai.

O emocionante duelo final
A SOMBRA DE PECKINPAH - Não se sabe o que restou das páginas escritas por Sam Peckinpah para o roteiro deste western, mesmo porque o lápis de Brando retificou página por página, mas percebe-se na relação entre Rio-Dad a mesma amizade quase filial que seria vista mais tarde em “Pat Garrett and Billy the Kid”. Por razões históricas quem morre neste último é Billy the Kid, enquanto é Rio quem não perdoa o ex-amigo mais velho Dad Longworth. E o México que muitas outras vezes estaria presente em filmes de Peckinpah é palco da ação de “A Face Oculta”, com muito da cultura e costumes mexicanos. Assim como Peckinpah, Brando era também fascinado pelas coisas do México, tendo inclusive se casado com Movita Casteñada, atriz mexicana. Terminadas as filmagens de “A Face Oculta”, a Paramount que co-produziu o filme, não aceitou o final em que Louisa (Pina Pellicer) é alvejada e morta por uma bala perdida disparada pelo moribundo Dad Longworth na sequência após o duelo entre o xerife e Rio. Quase um ano depois Brando e Pina Pellicer tiveram que retornar a Monterey e filmar uma sequência de final feliz numa imposição absurda que maculou um filme trágico encerrado com o clássico otimismo hollywoodiano. Nada disso porém consegue tirar o brilho da meticulosa direção de Marlon Brando, especialmente ao criar uma cena de intensa emoção, digna de Hitchcock, quando da fuga de Rio da cadeia. Simplesmente magistral.

O MAR DE MONTEREY - Embora a edição final que sacrificou duas horas de filme tenha comprometido a unidade geral de “A Face Oculta”, o resultado é brilhante com sequências esplendidamente realizadas. Este não foi o primeiro faroeste rodado tendo o oceano por cenário. Antes houve, por exemplo, “E o Morto Venceu” (Gun Battle at Monte Rey), com Sterling Hayden e Lee Van Cleff, também com sequências à beira-mar. Poucos westerns no entanto foram tão plasticamente belos como “A Face Oculta”, com magnífica fotografia de Charles Lang Jr. Tendo sido diretor de fotografia de “A Conquista do Oeste”, “Sem Lei e Sem Alma”, “Duelo de Titãs” e “Sete Homens e um Destino”, entre outros grandes trabalhos no faroeste, Charles Lang Jr. será sempre lembrado pelas magníficas sequências de “A Face Oculta”. As locações, além da Costa da Califórnia, na Península de Monterey, foram feitas ainda no Vale da Morte, também na Califórnia. A trilha sonora que completa este western fascinante é assinada por Hugo Friedhofer.

Ben Johnson demoníaco; Katy Jurado
raivosa; Pina Pellicer angelical;
a revelação chamada Slim Pickens
ELENCO IMPECÁVEL - A substituição de Spencer Tracy por Karl Malden certamente resultou bastante proveitosa pois Brando e Malden, companheiros de palco e de outros filmes, duelam portentosamente sob a direção de Brando. O grande elenco de “A Face Oculta” tem ainda Ben Johnson já permitindo notar, a exemplo de “Os Brutos Também Amam” (Shane), o excelente ator que ele era na medida em que melhoraram seus papéis. Katy Jurado interpreta com perfeição a mãe-esposa desesperada com a destruição da felicidade que encontrou. Pina Pellicer, um tanto inexpressiva, interpreta a jovem e suave mexicana, filha de Katy Jurado, apesar de apenas dez anos mais nova que Katy. Outra atriz latina deste filme é a portorriquenha Mirian Collón, uma das prostitutas da cantina em Sonora. Quando lançado, em 1962 aqui no Brasil, o western de Brando trouxe a grata surpresa do aproveitamento de Slim Pickens, outro cowboy que a exemplo de Ben Johnson muito brilharia nas telas. Elisha Cook Jr., Ray Teal, Rodolfo Acosta, John Dierkes e Hank Worden são os rostos mais conhecidos entre os coadjuvantes. E do staff pessoal de Brando aparecem Timothy Carey e Sam Gilman, amigos pessoais do ator-diretor. Hoje, 50 anos após seu lançamento, “A Face Oculta” é merecidamente reconhecido como um dos mais inusitados e influentes westerns de Hollywood, dirigido pela lenda cinematográfica chamada Marlon Brando.

Algumas das grandes sequências de "A Face Oculta": o duelo psicológico
entre Brando e Malden; a angústia de Katy Jurado; o asqueroso Slim
Pickens; o mocinho-bandido Brando; o sadismo de Malden e o masoquista
Brando; Charles Lang Jr. numa homenagem a Gabriel Figueiroa

6 de fevereiro de 2011

O MAIOR WESTERN DE TODOS OS TEMPOS

Marlon Brando nunca havia dirigido um filme antes quando sua recém-criada produtora Pennebaker adquiriu os direitos do livro "The Authentic Death of Hendry Jones", que recebeu o título cinematográfico de "One-Eyed Jacks" (no Brasil A Face Oculta). Brando contratou o já então prestigiado Stanley Kubrick para dirigir seu filme. Kubrick não se entendeu com Brando e deixou o filme no início. Marlon tentou Sidney Lumet, que também não aceitou a empreitada, o que levou o ator a decidir que ele próprio iria se autodirigir. Talvez pouco afeito à direção Marlon Brando exagerou em quase tudo no seu exótico Western, fazendo com que uma produção programada para seis semanas demorasse seis meses em filmagem, elevando o custo que estava orçado inicialmente em 1,8 milhão de dólares para astronômicos seis milhões de dólares. Com sua mania de perfeição Brando gastou mais de 300 mil metros de filme virgem editou tudo e entregou  "A Face Oculta" para a Paramount distribuir com cinco horas de duração, ou seja, seria o mais longo western de todos os tempos. Após muitas contendas entre Brando e o estúdio o filme foi reeditado e finalmente lançado com 141 minutos. Não muito bem aceito pela crítica à época de seu lançamento, após várias revisões "A Face Oculta" tem hoje status de clássico. E é um dos mais belos westerns já filmados com excelente fotografia (Charles Lang Jr.), interpretações impecáveis e uma trama perfeitamente desenvolvida, ainda que bastante violenta para a época. "A Face Oculta" tornou-se um western dos mais influentes e vale lembrar que embora o roteiro final tenha sido creditado a Guy Trosper-Calder Willingham, a primeira versão do screenplay foi preparada por Sam Peckinpah. A cada vez que se revê "A Face Oculta" lamenta-se que Marlon Brando não tenha dirigido nenhum outro filme, especialmente outro Western.