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| O verdadeiro Emmett Dalton e o diretor George Marshall. |
Em 1939 o cinema assistiu à romanceada
biografia cinematográfica dos irmãos foras-da-lei do Missouri em “Jesse James”,
com Tyrone Power, Henry Fonda e mais Randolph Scott e Brian Donlevy. Dois anos
depois, em 1941, após o sucesso desse western de Henry King, foi a vez dos
irmãos Dalton chegarem à tela, num filme dirigido por George Marshall e mais
uma vez com Randolph Scott e Brian Donlevy no elenco. O veterano Marshall fora
o responsável pelo delicioso “Atire a Primeira Pedra” (Destry Rides Again),
surpreendente versão da história de Max Brand em tom de comédia ainda que com
final infeliz. Para contar a vida dos Daltons, Marshall optou pelo mesmo
estilo, dando a uma história familiar trágica um andamento irresistivelmente
alegre e dinâmico. Os créditos iniciais do filme indicam que o roteiro de Harold Shumate
foi baseado no livro “When the Daltons Rode”, de autoria de Emmett Dalton
(1871-1937), único dos irmãos que foi capturado vivo. Após ser condenado à prisão perpétua,
Emmett ganhou a liberdade por bom comportamento depois de cumprir 14 anos da
pena, escrevendo então suas memórias dos tempos de crime. E como diz a legenda
explicativa inicial, “...eram tão
incríveis os Daltons, que ninguém pode afirmar onde terminam os fatos e onde
começa a fantasia”.
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| Bob Dalton (Broderick Crawford) como homem da lei e assaltando um banco com o irmão Grat (Brian Donlevy. |
Opressão
e revolta - O western de George Marshall recebeu o título “A Vingança
dos Daltons” (When the Daltons Rode) e conta que Grat (Brian Donlevy), Bob
(Broderick Crawford), Ben (Stuart Erwin) e Emmett (Frank Albertson) são os
quatro irmãos que vivem com Ma Dalton (Mary Gordon). A família tem uma fazenda
nos arredores de Coffeyville, no Kansas e Ben é o xerife da cidade e namorado
de Julie King (Kay Francis). Caleb Winters (George Bancroft) é o proprietário
da empresa Kansas Land and Development, que pretende se apropriar das terras dos Daltons. Acidentalmente Ben Dalton mata um funcionário da Kansas Land and
Development e vai a julgamento, sendo condenado. Inconformados com a injustiça
os demais irmãos, com a ajuda do amigo Ozark Jones (Andy Devine), livram Emmett
da cadeia. A partir de então iniciam uma vida de crime, ainda que não sejam os
responsáveis por todos os roubos a banco e assaltos a trem que lhes são
imputados. Os Daltons cometem assaltos nos territórios do Kansas, Missouri,
Oklahoma e Colorado e passam a ser procurados vivos ou mortos. Ocorre um confronto com
um numeroso agrupamento de homens reunidos pelo xerife de Oklahoma (Edgar Dearing). Em seguida a quadrilha decide retornar a Cofeyville e assaltar o banco local, ocasião em que três Daltons e Ozark são mortos. Em meio ao intenso tiroteio
Emmett é apenas ferido. Julie, que se envolvera com o advogado Tod Jackson
(Randolph Scott), amigos dos Daltons, fica com este após a morte de Ben Dalton.
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| Os Daltons com 'Ma Dalton' posando para uma foto; os Daltons levando pânico ao Velho Oeste. |
Ritmo
de cliffhanger - O cinema norte-americano, mesmo desafiando a vigência do
Código Hays (1930/1968), sempre gostou de mostrar bandidos de forma simpática,
especialmente nos faroestes. Billy the Kid, John Wesley Hardin, Butch Cassidy,
Sundance Kid, os irmãos James, os Youngers e os Daltons são alguns deles, sem esquecer
aqueles com licença para matar como George Armstrong Custer. Sem nenhuma
preocupação com a acurácia dos fatos narrados, alguns desses notórios
assassinos foram transformados em heróis pelo cinema e ao contar suas histórias
os filmes atribuíam o início de suas vidas criminosas a injustiças sociais. Foi
assim com “Jesse James” (1939) e a fórmula se repetiu com “A Vingança dos
Daltons”. Mas o que poderia parecer mera falta de imaginação do roteirista
Harold Shumate se torna uma história divertida e filmada em ritmo dos seriados
(cliffhangers). E com a mesma contagiante energia daquele formato de filmes em capítulos que
o cinema norte-americano produzia às dúzias na década de 40 e que desapareceu
nos anos 50. A diferença é que George Marshall contou com atores de melhor
nível no elenco e com o trabalho de dublês extraordinários como Yakima Canutt e
Cliff Lyons. O resultado é avassalador, especialmente na metade final de “A
Vingança dos Daltons”.
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| O grducho galã Andy Devine com Dorothy Granger nos braços. |
Andy Devine
galã rotundo - Essa similaridade com os seriados deve-se também à atmosfera de
western-B que domina esta história dos Daltons. Filmado em preto e branco,
George Marshall passa longe de qualquer aprofundamento psicológico dos
personagens principais, tencionando apenas entreter o espectador. Para isso
conta com a comicidade de Andy Devine como um conquistador muito acima do peso
e a voz mais esganiçada da tela. Devine havia sido galã quando começou no
cinema que era ainda silencioso e ele devia ter 50 quilos de peso a menos.
Presente em muitas sequências, ainda que não seja um dos Daltons e sim um agregado
da quadrilha, Andy Devine teve espaço até demais no filme com algumas gags
inoportunas. Ele que fora o responsável pelos momentos cômicos de “No Tempo das
Diligências” (Stagecoach) como condutor da diligência. Andy Devine funciona em “A
Vingança dos Daltons” como se fosse o sidekick do quarteto formado pelos
irmãos Dalton, ainda que nenhum deles seja exatamente o herói do filme. Com o
nome de Randolph Scott encabeçando o elenco o natural seria esperar que
coubesse a Scott a honra de ser o personagem mais valente e até ficar a
heroína.
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| Broderick Crawford e Randolph Scott. |
O janota Randolph
Scott - Um dos maiores cowboys do cinema em todos os tempos, Randolph Scott já
havia experimentado ficar em plano inferior em “Jesse James”, mas neste caso
atrás de astros mais fulgurantes que ele: Tyrone Power e Henry Fonda. Em “A
Vingança dos Daltons” Scott tem uma participação irrelevante, não disparando um
único tiro e se seu personagem fosse excluído na edição do filme sua falta não
seria sequer notada. Entende-se a presença de Randolph Scott apenas como
chamariz para atrair o público, o mesmo valendo para Kay Francis cuja carreira
entrava em franca decadência. A compensação para o insípido desempenho de
Randolph Scott foi a presença de Broderick Crawford como Bob Dalton. Aos 30
anos de idade, quatro como ator de cinema, rosto limpo sem as marcas que
rapidamente o vício do álcool lhe traria, Crawford está magnífico ao lado de
Brian Donlevy, este sempre convincente na maldade expressada. Outro destaque é
Mary Gordon como ‘Ma Dalton’, com sotaque fortíssimo de imigrante que sonhava
com seus filhos sendo felizes na América. Desperdício é a pequena participação
do admirável Edgar Buchanan como o falastrão que dá informações a Randolph
Scott no início e no final do filme.
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| Edgar Buchanan, Kay francis e Randolph Scott; Broderick Crawford e Mary Gordon. |
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| Os Daltons roubando um trem recheado por patrulheiros. |
Sequência
marcante - E George Marshall confirma que sabia como poucos dirigir
sequências com muitos atores, como naquela em que a multidão enfurecida quer
linchar Ben Dalton. Ótima também a sequência do assalto ao trem lotado de
xerifes e seus delegados, incluindo ainda alguns cavalos. Sam Peckinpah deve
ter lembrado desse trecho de “A Vingança dos Daltons” quando filmou a clássica
sequência do assalto de seu 'The Wild Bunch' ao trem com armamentos e
metralhadoras em “Meu Ódio Será Sua Herança”. Yakima Canutt tentou superar seu
trabalho em “No Tempo das Diligências” com os saltos sobre os cavalos da diligência
em disparada e sob os cascos dos cavalos e em meio às rodas do veículo. Saltos
de todos os tipos, sobre trem em movimento e inclusive o clássico mergulho de
cavalo e cavaleiro de altura proibitiva produzem emoção, mesmo sabendo-se que
nada vai dar errado, a não ser com Andy Devine, claro.
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| O show particular de Yakima Canutt e uma cena clássica dos faroestes. |
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| Pôster do filme de 1918 e a capa de um dos livros de Emmett Dalton. |
Western leve e
inocente – Randolph Scott como xerife se reencontraria com os Daltons e outros
foras-da-lei em “A Terra dos Homens Maus” (Badman’s Territory), western de 1946.
Ao contrário de outros personagens importantes do Velho Oeste, os Daltons não
tiveram até hoje um faroeste que abordasse mais acuradamente suas vidas. E
mesmo os dois livros escritos por Emmett Dalton (“When the Daltons Rode” e “Beyond
the Law”), sabe-se, distorceram os fatos históricos, ainda que neste caso a
lenda não tivesse prevalecido sobre os fatos. Além de escrever, Emmett Dalton
interpretou a si mesmo no filme de 1918 “Beyond the Law” que focalizou a vida
dos irmãos Dalton. Porém “A Vingança dos Daltons” é filme que se
assiste com imenso prazer a despeito da participação inexpressiva de Randolph
Scott interpretando um personagem sem nenhuma importância na história. Muito
melhor teria sido que Scott fosse um dos Daltons para dar ao filme muito mais
sabor. Mesmo tendo ao final as mortes dos irmãos, esse faroeste mantém a leveza
e a inocência que o cinema norte-americano abandonou. Merece, por isso mesmo, ser visto pois é um
dos modelos mais perfeitos dos westerns antes que as discutidas incursões
psicológicas mudassem a cara do gênero.
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| Randolph Scott e Kay Francis, sem graça até nas fotos para publicidade. |
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| Randolph Scott armado posa para foto em "Terra dos Homens Maus" (Badman's Territory), de 1946. |
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| Os 'James' Tyrone Power e Henry Fonda acabam de assaltar um banco; Os 'Daltons' Brian Donlevy e Broderick Crawford repetem a mesma cena. |













