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22 de setembro de 2014

A VINGANÇA DOS DALTONS (WHEN THE DALTONS RODE) – WESTERN EM RITMO ALUCINANTE


O verdadeiro Emmett Dalton e o
diretor George Marshall.
Em 1939 o cinema assistiu à romanceada biografia cinematográfica dos irmãos foras-da-lei do Missouri em “Jesse James”, com Tyrone Power, Henry Fonda e mais Randolph Scott e Brian Donlevy. Dois anos depois, em 1941, após o sucesso desse western de Henry King, foi a vez dos irmãos Dalton chegarem à tela, num filme dirigido por George Marshall e mais uma vez com Randolph Scott e Brian Donlevy no elenco. O veterano Marshall fora o responsável pelo delicioso “Atire a Primeira Pedra” (Destry Rides Again), surpreendente versão da história de Max Brand em tom de comédia ainda que com final infeliz. Para contar a vida dos Daltons, Marshall optou pelo mesmo estilo, dando a uma história familiar trágica um andamento irresistivelmente alegre e dinâmico. Os créditos iniciais do filme indicam que o roteiro de Harold Shumate foi baseado no livro “When the Daltons Rode”, de autoria de Emmett Dalton (1871-1937), único dos irmãos que foi capturado vivo. Após ser condenado à prisão perpétua, Emmett ganhou a liberdade por bom comportamento depois de cumprir 14 anos da pena, escrevendo então suas memórias dos tempos de crime. E como diz a legenda explicativa inicial, “...eram tão incríveis os Daltons, que ninguém pode afirmar onde terminam os fatos e onde começa a fantasia”.


Bob Dalton (Broderick Crawford)
como homem da lei e assaltando
um banco com o irmão Grat
(Brian Donlevy.
Opressão e revolta - O western de George Marshall recebeu o título “A Vingança dos Daltons” (When the Daltons Rode) e conta que Grat (Brian Donlevy), Bob (Broderick Crawford), Ben (Stuart Erwin) e Emmett (Frank Albertson) são os quatro irmãos que vivem com Ma Dalton (Mary Gordon). A família tem uma fazenda nos arredores de Coffeyville, no Kansas e Ben é o xerife da cidade e namorado de Julie King (Kay Francis). Caleb Winters (George Bancroft) é o proprietário da empresa Kansas Land and Development, que pretende se apropriar das terras dos Daltons. Acidentalmente Ben Dalton mata um funcionário da Kansas Land and Development e vai a julgamento, sendo condenado. Inconformados com a injustiça os demais irmãos, com a ajuda do amigo Ozark Jones (Andy Devine), livram Emmett da cadeia. A partir de então iniciam uma vida de crime, ainda que não sejam os responsáveis por todos os roubos a banco e assaltos a trem que lhes são imputados. Os Daltons cometem assaltos nos territórios do Kansas, Missouri, Oklahoma e Colorado e passam a ser procurados vivos ou mortos. Ocorre um confronto com um numeroso agrupamento de homens reunidos pelo xerife de Oklahoma (Edgar Dearing). Em seguida a quadrilha decide retornar a Cofeyville e assaltar o banco local, ocasião em que três Daltons e Ozark são mortos. Em meio ao intenso tiroteio Emmett é apenas ferido. Julie, que se envolvera com o advogado Tod Jackson (Randolph Scott), amigos dos Daltons, fica com este após a morte de Ben Dalton.

Os Daltons com 'Ma Dalton' posando
para uma foto; os Daltons levando
pânico ao Velho Oeste.
Ritmo de cliffhanger - O cinema norte-americano, mesmo desafiando a vigência do Código Hays (1930/1968), sempre gostou de mostrar bandidos de forma simpática, especialmente nos faroestes. Billy the Kid, John Wesley Hardin, Butch Cassidy, Sundance Kid, os irmãos James, os Youngers e os Daltons são alguns deles, sem esquecer aqueles com licença para matar como George Armstrong Custer. Sem nenhuma preocupação com a acurácia dos fatos narrados, alguns desses notórios assassinos foram transformados em heróis pelo cinema e ao contar suas histórias os filmes atribuíam o início de suas vidas criminosas a injustiças sociais. Foi assim com “Jesse James” (1939) e a fórmula se repetiu com “A Vingança dos Daltons”. Mas o que poderia parecer mera falta de imaginação do roteirista Harold Shumate se torna uma história divertida e filmada em ritmo dos seriados (cliffhangers). E com a mesma contagiante energia daquele formato de filmes em capítulos que o cinema norte-americano produzia às dúzias na década de 40 e que desapareceu nos anos 50. A diferença é que George Marshall contou com atores de melhor nível no elenco e com o trabalho de dublês extraordinários como Yakima Canutt e Cliff Lyons. O resultado é avassalador, especialmente na metade final de “A Vingança dos Daltons”.

O grducho galã Andy Devine com
Dorothy Granger nos braços.
Andy Devine galã rotundo - Essa similaridade com os seriados deve-se também à atmosfera de western-B que domina esta história dos Daltons. Filmado em preto e branco, George Marshall passa longe de qualquer aprofundamento psicológico dos personagens principais, tencionando apenas entreter o espectador. Para isso conta com a comicidade de Andy Devine como um conquistador muito acima do peso e a voz mais esganiçada da tela. Devine havia sido galã quando começou no cinema que era ainda silencioso e ele devia ter 50 quilos de peso a menos. Presente em muitas sequências, ainda que não seja um dos Daltons e sim um agregado da quadrilha, Andy Devine teve espaço até demais no filme com algumas gags inoportunas. Ele que fora o responsável pelos momentos cômicos de “No Tempo das Diligências” (Stagecoach) como condutor da diligência. Andy Devine funciona em “A Vingança dos Daltons” como se fosse o sidekick do quarteto formado pelos irmãos Dalton, ainda que nenhum deles seja exatamente o herói do filme. Com o nome de Randolph Scott encabeçando o elenco o natural seria esperar que coubesse a Scott a honra de ser o personagem mais valente e até ficar a heroína.

Broderick Crawford e Randolph Scott.
O janota Randolph Scott - Um dos maiores cowboys do cinema em todos os tempos, Randolph Scott já havia experimentado ficar em plano inferior em “Jesse James”, mas neste caso atrás de astros mais fulgurantes que ele: Tyrone Power e Henry Fonda. Em “A Vingança dos Daltons” Scott tem uma participação irrelevante, não disparando um único tiro e se seu personagem fosse excluído na edição do filme sua falta não seria sequer notada. Entende-se a presença de Randolph Scott apenas como chamariz para atrair o público, o mesmo valendo para Kay Francis cuja carreira entrava em franca decadência. A compensação para o insípido desempenho de Randolph Scott foi a presença de Broderick Crawford como Bob Dalton. Aos 30 anos de idade, quatro como ator de cinema, rosto limpo sem as marcas que rapidamente o vício do álcool lhe traria, Crawford está magnífico ao lado de Brian Donlevy, este sempre convincente na maldade expressada. Outro destaque é Mary Gordon como ‘Ma Dalton’, com sotaque fortíssimo de imigrante que sonhava com seus filhos sendo felizes na América. Desperdício é a pequena participação do admirável Edgar Buchanan como o falastrão que dá informações a Randolph Scott no início e no final do filme.

Edgar Buchanan, Kay francis e Randolph Scott;
Broderick Crawford e Mary Gordon.

Os Daltons roubando um trem
recheado por patrulheiros.
Sequência marcante - E George Marshall confirma que sabia como poucos dirigir sequências com muitos atores, como naquela em que a multidão enfurecida quer linchar Ben Dalton. Ótima também a sequência do assalto ao trem lotado de xerifes e seus delegados, incluindo ainda alguns cavalos. Sam Peckinpah deve ter lembrado desse trecho de “A Vingança dos Daltons” quando filmou a clássica sequência do assalto de seu 'The Wild Bunch' ao trem com armamentos e metralhadoras em “Meu Ódio Será Sua Herança”. Yakima Canutt tentou superar seu trabalho em “No Tempo das Diligências” com os saltos sobre os cavalos da diligência em disparada e sob os cascos dos cavalos e em meio às rodas do veículo. Saltos de todos os tipos, sobre trem em movimento e inclusive o clássico mergulho de cavalo e cavaleiro de altura proibitiva produzem emoção, mesmo sabendo-se que nada vai dar errado, a não ser com Andy Devine, claro.

O show particular de Yakima Canutt e uma cena clássica dos faroestes.

Pôster do filme de 1918 e a capa de um
dos livros de Emmett Dalton.
Western leve e inocente – Randolph Scott como xerife se reencontraria com os Daltons e outros foras-da-lei em “A Terra dos Homens Maus” (Badman’s Territory), western de 1946. Ao contrário de outros personagens importantes do Velho Oeste, os Daltons não tiveram até hoje um faroeste que abordasse mais acuradamente suas vidas. E mesmo os dois livros escritos por Emmett Dalton (“When the Daltons Rode” e “Beyond the Law”), sabe-se, distorceram os fatos históricos, ainda que neste caso a lenda não tivesse prevalecido sobre os fatos. Além de escrever, Emmett Dalton interpretou a si mesmo no filme de 1918 “Beyond the Law” que focalizou a vida dos irmãos Dalton. Porém “A Vingança dos Daltons” é filme que se assiste com imenso prazer a despeito da participação inexpressiva de Randolph Scott interpretando um personagem sem nenhuma importância na história. Muito melhor teria sido que Scott fosse um dos Daltons para dar ao filme muito mais sabor. Mesmo tendo ao final as mortes dos irmãos, esse faroeste mantém a leveza e a inocência que o cinema norte-americano abandonou. Merece, por isso mesmo, ser visto pois é um dos modelos mais perfeitos dos westerns antes que as discutidas incursões psicológicas mudassem a cara do gênero.


Randolph Scott e Kay Francis, sem graça até nas fotos para publicidade.

Randolph Scott armado posa para foto em "Terra dos Homens Maus"
(Badman's Territory), de 1946.

Os 'James' Tyrone Power e Henry Fonda acabam de assaltar um banco;
Os 'Daltons' Brian Donlevy e Broderick Crawford repetem a mesma cena.