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11 de dezembro de 2012

O PORTAL DO PARAÍSO (Heaven’s Gate) – OBRA-PRIMA OU DESASTRE CINEMATOGRÁFICO?


Falando de “Os Brutos Também Amam”, a crítica Pauline Kael afirmou que “os westerns são melhores quando não têm tanta pretensão de importância”. Pode-se deduzir da frase de Kael que quanto mais rebuscado for um faroeste mais ele se distanciará da realidade do Velho Oeste, ainda que fortunas sejam gastas para recriar um pseudo-realismo que acaba soando empostado. Esse parece ser o mal maior de “O Portal do Paraíso” (Heaven’s Gate), filme de 1980 dirigido por Michael Cimino, concebido por seu autor para ser um portentoso faroeste, o melhor de todos mesmo.


Acima o crítico Vincent Canby;
abaixo Michael Cimino.
O fracassado lançamento - Fontes divergentes indicam que "O Portal do Paraíso" custou ao redor de 40 milhões de dólares para um orçamento inicial de sete e meio milhões de dólares. A um custo diário superior a 100 mil dólares, o filme levou dez meses em produção em locações no Glassier National Park, em Montana e um período adicional para filmagem do prólogo, em Oxford na Inglaterra, que consumiu mais três milhões e meio de dólares. A título de comparação, “Cavaleiro Solitário” (Pale Rider), de Clint Eastwood, produzido cinco anos depois, custou sete milhões de dólares e rendeu 42 milhões de dólares, sendo rodado em 30 dias. Os problemas de “O Portal do Paraíso” continuaram com seu apressado lançamento em novembro de 1980, a tempo de concorrer ao Oscar daquele ano. Lançado inicialmente com metragem de 219 minutos, o filme mal alcançou um milhão e trezentos mil dólares na primeira semana de exibição, o que muito se deve às resenhas negativas dos críticos. Liderados por Vincent Canby, do jornal ‘The New York Times”, a crítica quase unanimemente destruiu a reputação do filme, afugentando o público. Canby encerra sua resenha datada de 19 de novembro afirmando que “O Portal do Paraíso é algo bastante raro em filmes hoje em dia, pois é um desastre absoluto”. O diretor Michael Cimino pediu então à United Artists que retirasse “O Portal do Paraíso” de exibição para que sob sua supervisão o filme fosse reeditado. A nova versão foi encurtada em inacreditáveis 70 minutos e reapresentada meses depois, sendo exibida com a duração de 149 minutos. Essa versão reduzida tornou o filme incompreensível e novas e massacrantes críticas contribuíram para o fracasso total de “O Portal do Paraíso”. O então encurtado faroeste de Michael Cimino teve uma receita de mais dois milhões de dólares, totalizando três milhões e trezentos mil dólares e um monumental prejuízo de quase 40 milhões de dólares à United Artists.

Acima Willem Dafoe;
abaixo Kris Kristofferson.
Faroeste apocalíptico - Apó o sucesso obtido com “O Franco Atirador”, Michael Cimino era visto como a nova sensação de Hollywood e a United Artists lhe deu completa liberdade artística para filmar o roteiro de sua autoria intitulado “Heaven’s Gate”. O perfeccionismo do diretor durante as filmagens implicava em novos gastos e parecia não ter limites, como numa cena filmada com Kris Kristofferson acordando de um porre. O ator teve que repetir 52 vezes a tomada que na tela dura quatro ou cinco segundos. Diariamente Cimino, vociferando insultos demitia algum técnico e mesmo atores. Willem Dafoe foi um deles, podendo ser visto apenas na versão de 219 minutos e mesmo assim sempre em segundo plano, resultado de não aceitar o despotismo de Michael Cimino. Más línguas comentam que dos 40 milhões de dólares gastos na produção, metade foram gastos em cocaína consumida aberta e exageradamente durante as filmagens. O mesmo se falou de “Apocalypse Now”, acidentado e dispendioso filme de Francis Ford Coppola, que, diferentemente do faroeste de Michael Cimino, foi imediatamente saudado como obra-prima, status que mantém 32 anos depois de filmado. O faroeste era um gênero em baixa desde o início dos anos 60 e acreditou-se que o fracasso de “O Portal do Paraíso” decretou a morte do faroeste no cinema. De fato, os fãs de westerns tiveram que esperar até 1985 para matar a saudade de um bom faroeste. Nesse ano foram produzidos “Cavaleiro Solitário”, de Clint Eastwood e “Silverado”, de Lawrence Kasdan.

Kris Kristofferson e John Hurt interpretando
jovens de 21 anos; John Wayne e James Stewart
também interpretando jovens personagens.
A estrela era Cimino - Um filme tão caro como “O Portal do Paraíso” teve um elenco composto por artistas do segundo escalão, mesmo um deles alcançando o estrelato mais tarde, no caso de Jeff Bridges. Jane Fonda, que era a grande estrela de Hollywood, foi cogitada pela United Artists para o principal papel feminino, recusando-o porém. Michael Cimino nunca se preocupou com a falta de um ou dois nomes fortes no elenco de seu filme pois a estrela maior deveria ser, sem qualquer concorrência, seu delirante diretor. Kris Kristofferson, Christopher Walken, Sam Waterston, Brad Dourif, John Hurt e outros nunca chegaram a ser astros de primeira grandeza. Quanto à atriz francesa Isabelle Huppert, esta foi a mais infeliz e equivocada das escolhas de Cimino. Kris Kristofferson (aos 44 anos) e John Hurt (aos 40 anos) aparecem interpretando os rapazes recém-formados em Harvard no prólogo do filme. Certo que James Stewart e John Wayne, respectivamente aos 52 e 53 anos interpretaram jovens de menos de 30 anos em “O Homem que Matou o Facínora”. Mas Stewart e Wayne eram nomes capazes de levar público ao cinema, tanto que o western de John Ford, mesmo sem ser um campeão de bilheterias, deu lucro a seus produtores.

O famoso prêmio Framboesa de Ouro;
abaixo Michael Cimino.
Cannes e a Framboesa de Ouro - Enquanto nos Estados Unidos “O Portal do Paraíso” sofreu forte campanha negativa da imprensa, na França ocorria o inverso. Os críticos franceses saudaram o western de Cimino como um dos grandes filmes do ano, cotadíssimo para receber a Palma de Ouro no Festival de Cannes. O júri preferiu dar o prêmio ao hoje esquecido “Homem de Ferro”, do polonês Andrzej Wajda. Eram os tempos de Lech Walesa e o filme de Wadja era de cunho notoriamente político, enquanto “O Portal do Paraíso” fazia sim referências políticas, mas a um episódio ocorrido 90 anos antes no Wyoming, a chamada “Johnson County War”. Há quem veja referência subliminar ao massacre de My Lai ocorrido em 1968 no Vietnã. Em 1981 aconteceu a segunda edição do hoje conceituado e até bastante disputado primo inverso do Oscar, o ‘Golden Raspberry Award’ (Framboesa de Ouro), criado para premiar os piores filmes do ano nos Estados Unidos. “O Portal do Paraíso” concorreu nas categorias de pior filme, pior diretor, pior roteiro, pior score musical e pior ator (Kris Kristofferson). Acabou ficando com o 'Golden Raspeberry de Pior Diretor' para Michael Cimino. Na premiação do Oscar, “O Portal do Paraíso” concorreu apenas a Melhor Direção de Arte (cenários), que perdeu para “Os Caçadores da Arca Perdida”. Mesmo sendo um filme fracassado, “O Portal do Paraíso” jamais foi esquecido, talvez mesmo por uma questão de peso na consciência de tantos quantos sabiam que havia algo de injusto para com o épico de Cimino. A redenção estava a caminho.

Cimino, aos 73 anos, sendo aclamado no
Festival de Veneza de 2012.
‘Obra-prima absoluta’ - Pelo menos um crítico importante, Robin Wood, destoou da maioria, em 1981, dizendo que o filme de Cimino em sua versão de 219 minutos era “um dos mais autenticamente inovativos filmes norte-americanos”. O também muito respeitado Philip French, nos anos 90, surpreendia colocando “O Portal do Paraíso” entre seus Top-Ten Westerns, assim como havia feito Robin Wood. Outro conceituado crítico, David Thomson, e o cineasta Martin Scorsese eram outros que sempre lembraram das qualidades ignoradas de “O Portal do Paraíso”. A campanha desenvolvida por esses críticos fez com que o filme de Michael Cimino passasse pelos modernos processos de remasterização e fosse lançado em Blu-Ray. Mesmo diante dos argumentos de seus defensores, “O Portal do Paraíso” ainda encontra detratores como o crítico do ‘The Guardian’, que afirma ser “Heaven’s Gate” o pior filme da história do cinema. Projetado (em tela grande, claro), no Festival de Veneza de 2012 e no New York Festival Film, também deste ano, “O Portal do Paraíso” foi adjetivado desde ‘obra-prima absoluta’ até ‘uma das grandes injustiças da história do cinema’.

Christopher Walken executando um
rancheiro imigrante.
Luta de classes - A história escrita por Michael Cimino refere-se ao incidente ocorrido no Wyoming em abril de 1892 e que ficou conhecido como “The Johnson County War”. No filme a ação se passa durante três dias de 1890 com a chegada do delegado federal James Averill (Kris Kristofferson) ao condado de Johnson. Lá a associação dos pecuaristas planeja, com a autorização do governo federal, se defender contra imigrantes que estariam roubando cabeças de gado de seus rebanhos. Averill se posiciona contra a associação dos criadores que então contrata 50 mercenários para assassinar 125 imigrantes cujos nomes fazem parte de uma lista que chega às mãos de Averill. O líder dos grandes proprietários de terra é Frank Canton (Sam Waterston) e seu principal regulador (contratado para matar) é Nathan D. Champion (Christopher Walken). Averill e Champion gostam da mesma mulher, Ella (Isabelle Huppert) a dona do prostíbulo local. Ella aceita dinheiro ou gado roubado como forma de pagamento e por isso é incluída na lista entre os 125 nomes marcados para morrer. Os imigrantes se unem e se armam e para enfrentar os homens de Canton numa batalha violenta da qual Averill também participa ao lado dos perseguidos imigrantes.

O 'Heaven's Gate', onde os imigrantes
encontravam diversão.
Senhores da terra, senhores da lei - O que muito prejudica “O Portal do Paraíso” é seu roteiro confuso repleto de incoerências. Nunca é explicado o que leva um ex-aluno de Harvard, com brilhante futuro, a se embrenhar pelo Wyoming para defender imigrantes do Leste Europeu que mal falam Inglês. Menos clara ainda é a ambígua relação de amizade entre Champion e Averill, que se conhecem há mais tempo mas não se sabe exatamente de onde. Nunca é esclarecido o que faz também Billy Irvine (John Hurt), outro formando de Harvard, no Wyoming , uma vez que se sabe que Irvine conheceu Paris a ponto de amar a Cidade-Luz. O western de Cimino toca num fato incomum aos faroestes que é mostrar a etnia pouco conhecida de gente que imigrou para o Oeste norte-americano, entre eles russos, ucranianos e búlgaros. E o consequente conflito gerado por aqueles que se julgam senhores absolutos das terras e das próprias leis. Frequentadores de um local de diversão chamado ‘Heaven’s Gate’, que avisa que ali passarão ‘A Moral and Exhilarating Experience’ (uma emocionante experiência moral) os imigrantes se divertem rodopiando sobre patins ao som de canções da mais pura música country e não de mazurcas, como se poderia imaginar. Apostam também em rinhas de galo e curiosamente nunca se debruçam no enorme balcão do bar para beber, o que seria natural. Os imigrantes gostam de sexo com as prostitutas do bordel da região e para isso usam como moeda até mesmo gado que lhes poderia saciar a fome.

Brad Douriff e Isabelle Huppert.
“I love Paris” - Cimino criou desnecessariamente um triângulo amoroso envolvendo personagens centrais da trama, ou seja, o delegado Averill, a cafetina Ella e o mercenário Champion. Mas a intenção do roteiro nunca funciona a contento e não integra os personagens na história. A diferença de classe entre Averill e Champion, aquele rico, este a soldo dos poderosos, parece provocar uma admiração recíproca demonstrada quando Champion coloca o chapéu do rival e exclama “Averill tem muita classe”. E Ella, que fica nua em muitos momentos do filme, não demonstra possuir personalidade suficiente para administrar um bordel e menos ainda para controlar dois homens embrutecidos como os dois que a disputam. Com o visível propósito de ser um filme de arte, nada melhor que colocar na tela as sofridas expressões dos tantos russos em close-up, como se fossem heróis revolucionários. Essas imagens, porém, se perdem no desenvolvimento inconsequente das manifestações daqueles homens. Reunidos no ‘Heaven’s Gate’, fica-se a esperar pelo grande momento do imigrante vivido por Brad Dourif (Eggleston), o que não acontece. O ilógico discurso de formatura do personagem de John Hurt em Harvard tem mais sentido que as frases por ele ditas durante o filme, entre elas “Filho-da-puta sempre foi a expressão favorita neste país”, ou pior ainda, em meio a centenas de tiros disparados de todos os lados durante a batalha de Johnson County, Hurt diz surrealisticamente “No ano passado, nesta época, eu estava em Paris. Eu amo Paris”.

O músico David Mansfield,
responsável pelo escore musical.
David Mansfield e Vilmos Szigmond - E “O Portal do Paraíso” é absurdamente longo com seu desnecessário prólogo e valsa nos jardins de Harvard (Oxford). Mais apropriada e lírica mesmo é a cena de patinação no ‘Heaven’s Gate’ ao som do violino e da banda country do chaplinesco David Mansfield que alegra os imigrantes do Leste Europeu. Esse fordiano momento é belíssimo e tocante, prejudicado porém com a sequência com o salão estranhamente esvaziado para que o casal Averill e Ella dancem romanticamente. A música de David Mansfield foi um achado para o filme tornando-o singelo e poético em muitas sequências magistralmente fotografadas por Vilmos Szigmond. A atmosfera exigida para o filme muitas vezes prejudica a ação, com os excessivamente nevoentos exteriores ou enfumaçados interiores e a luz sempre difusa no tom sépia que foi moda naquele período do cinema norte-americano. Foi assim em “Esta Terra é Minha”, de Hal Ashby e em “Honkytonk Man”, de Clint Eastwood, filmes também passados em poeirentas cidades do interior sem, no entanto, prejudicar o reconhecimento dos personagens como em “O Portal do Paraíso”.

Christopher Walken antes de ser morto e o bilhete
com assinatura completa.
Adeus em meio às chamas - A sequência da batalha é o ponto alto do filme. Sabe-se que para filmá-la o mais realisticamente possível, diversos cavalos foram atingidos por explosivos, muitos vindo a morrer. A partir das denúncias do sofrimento e sacrifício dos animais a legislação específica passou a exigir que em todos os filmes que envolvessem animais expostos a perigo houvesse a presença da fiscalização por parte daquele órgão. Uma sequência importante para o filme, como a morte de Nat D. Champion, chega a provocar risos. Nela o personagem de Christopher Walken inalando fumaça dentro de um casebre em chamas se mantém calmo o suficiente para escrever um bilhete completo. Tão completo que é assinado com o nome inteiro não faltando nem mesmo o ‘D.’ enquanto as chamas devoram o local em que Champion está. E a sequência final do tiroteio entre Averill, Bridges (Jeff Bridges) e Ella contra os homens de Canton é fraca, beirando a pieguice quando Averill ergue lentamente Ella nos braços. A moça veste um apropriado vestido branco para melhor destacar as manchas de sangue.

Jeff Bridges
Talento sem inspiração – Em 1979 Jeff Bridges já havia demonstrado em inúmeros filmes seu talento como ator, no entanto após ser dirigido três vezes por Sam Peckinpah, Kris Kristofferson parecia ter mais prestígio que Bridges naquele momento. A escolha de Kristofferson foi um erro pois, embora ele tenha tido atuação razoável em “O Portal do Paraíso”, Jeff Bridges teria dado uma dimensão infinitamente maior ao personagem ‘James Averill’. A descontinuidade das sequências e a pobreza de muitos diálogos impediram que bons atores como Brad Dourif e Christopher Walken tivessem melhor presença. John Hurt, Sam Waterston, Geoffrey Lewis e Mickey Rourke estão positivamente caricatos. Estréia no cinema de Ronnie ‘The Hawk’ Hawkins que também não disse a que veio num filme em que a inconvincente Isabelle Huppert foi o maior dos equívocos do elenco formado por Cimino. Decididamente, rotular “O Portal do Paraíso” como obra-prima é um exagero, assim como exagero é taxá-lo de filme ruim. O western de Cimino é uma lição de cinema, lição que ensina que a busca da arte é um caminho difícil quando não são combinados talento e inspiração, mesmo adicionando-se muito dinheiro. 

9 de dezembro de 2012

DOIS VÍDEOS DE UM WESTERN MASSACRADO


O faroeste "Portal do Paraíso" (Heaven's Gate), de 1980, foi muito mais falado
e criticado do que assistido. No vídeo abaixo WESTERNCINEMANIA apresenta
uma sequência de fotos desse western dirigido por Michael Cimino.
A bela canção-tema é de autoria de David Mansfield.


Quem assistiu a "Portal do Paraíso" jamais se esquecerá da bela sequência
no rinque de patinação chamado 'Heaven's Gate', ao som de
"Mamou Two Steps", clássico do genial violinista Doug Kershaw.