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10 de março de 2017

RASTROS DE ÓDIO (THE SEARCHERS) – JOHN FORD E JOHN WAYNE NO MELHOR DE TODOS OS WESTERNS


John Wayne e Natalie Wood
Quando Ethan Edwards elevou a frágil e assustada sobrinha acima de sua cabeça e abraçando-a lhe disse “Let’s go home, Debbie”, estava o cinema sendo elevado a um momento maior de grandeza e poesia. Porém, ao longo das duas horas deste faroeste, o autor da frase e do delicado gesto foi mostrado como o mais sombrio e amedrontador personagem principal que um western jamais exibira ou exibiria. De forma devastadora John Ford rompeu com os arquétipos de heróis que o gênero criara e apresentou um homem não só rude e corajoso, mas e principalmente neurótico, preconceituoso e por fim paradoxal no seu comportamento. Na década de 50 acenderam-se nos Estados Unidos os questionamentos sobre as injustiças sociais e, justamente em meio aos ainda tímidos movimentos, John Ford realizou um western que mostrou cruamente a realidade do pensamento dos norte-americanos. Tachado por muitos analistas como um filme racista, em “Rastros de Ódio” o personagem principal (Ethan Edwards), odeia os índios, para ele seres desumanos e sanguinários. Aos poucos, no entanto, Ford mostra que Ethan pouco difere de Cicatriz, o feroz chefe Comanche que destruiu a propriedade de seu irmão dizimando a família toda, ou quase toda.


Henry Brandon e Lana Lisa Wood
A longa busca - Três anos após o fim da Guerra Civil, Ethan Edwards (John Wayne) que lutara pelo Exército Confederado, retorna ao rancho do irmão Aaron (Walter Coy) que o acolhe friamente, ao contrário da cunhada Martha (Dorothy Jordan) e dos sobrinhos. Convocados por Samuel Johnston Clayton, misto de capitão dos Texas Rangers e reverendo, Ethan e seu sobrinho Martin Pawley (Jeffrey Hunter) deixam a propriedade em perseguição a Comanches hostis. Percebendo terem sido enganados pelos índios, Ethan e Martin retornam ao rancho que foi devastado pelos índios liderados por Cicatriz (Henry Brandon), restando apenas os corpos carbonizados. O chefe Comanche poupou e levou consigo, as irmãs Lucy (Pippa Scott) e Debbie (Lana Lisa Wood), provocando em Ethan Edwards a decisão de encontrá-las onde quer que estivessem. Ethan e Martin encetam uma busca que dura cinco anos, durante a qual descobrem que Lucy foi morta e Debbie (Natalie Wood) foi feita uma das mulheres de Cicatriz. Disposto a matar a sobrinha, finalmente Ethan a encontra, deixando de lado sua obcecada determinação e levando Debbie de volta para junto de uma família branca.

Vera Miles; John Wayne, Beulah Archuletta
e Jeffrey Hunter
Tomada de consciência - “Rastros de Ódio” toca profundamente no tema do racismo isto num tempo (década de 50) em que os índios haviam sido praticamente dizimados pelos brancos, especialmente pelos soldados da cavalaria com seus garbosos uniformes azuis. Conhecendo-se o pensamento liberal de John Ford, é perfeitamente possível interpretar este filme como um libelo diante das flagrantes injustiças sociais, passadas e contemporâneas, da América do Norte. Ethan Edwards exala preconceito por todos os poros, não perdoando sequer seu sobrinho por este ter sangue índio (1/6 Cherokee). Mas o próprio Martin Pawley, com sangue predominantemente inglês como ele mesmo lembra, tem oportunidade de demonstrar o desprezo pela infeliz índia Look (Beulah Archuletta), que inadvertidamente se torna sua esposa segundo o costume dos índios. A doce Laurie Jorgensen (Vera Milles) descendente de nórdicos e seu alegre pretendente Charlie McCorry (Ken Curtis) não deixam por menos e igualmente expressam seus preconceitos durante a leitura de uma carta enviada por Martin. A sequência crucial deste western ocorre com Ethan Edwards abraçando a desonrada e maculada (segundo seu código particular) Debbie e levando-a para um novo lar. Como faz usualmente, John Ford deixa para o espectador decidir se o resoluto Ethan mudou devido à lembrança de Martha transferida para Debbie em seus braços ou por uma tomada de consciência que mesmo homens irracionais como Ethan podem vir a ter.

Walter Coy, John Wayne e Dorothy Jordan;
Dorothy Jordan (abaixo)
Triângulo familiar - Obra de gênio realizada sem maiores pretensões, “Rastros de Ódio” além de seu inequívoco aspecto social é um western deslumbrante em sua beleza plástica. Cada fotograma, especialmente aqueles capturados no Monument Valley, mais parecem pinturas extraordinárias com personagens do Velho Oeste em movimento. Fosse apenas isso e este filme seria, como tantos, mero álbum de magníficos cenários. Há, porém, nos gestos e frases de cada personagem a sutileza que somente um diretor como Ford é capaz de incutir. Mesmo sem diálogos, como na admirável sequência em que Martha acariciando o sobretudo de Ethan demonstra o amor que sente pelo cunhado. Tão magnífico momento não poderia ser melhor completado que com o olhar de desaprovação do Capitão-Reverendo. Recorde-se que o incomum triângulo familiar não consta do livro “The Searchers” de Alan LeMay, tendo sido criado por Ford e o roteirista Frank S. Nugent com o objetivo de mais acentuadamente justificar a obstinada busca de Ethan Edwards pela sobrinha. E Ford sabiamente ambíguo lança a dúvida se Debbie seria apenas sobrinha ou filha mesmo de Ethan, reforçando essa questão com seu afastamento por tanto tempo após finda a guerra. A hostilidade do execrável e cobiçoso irmão Aaron perguntando a Ethan por que ele voltou se desmancha diante das moedas que lhe traz Ethan, o que mais os contrapõem aos olhos de Martha. Fica evidente que parte da reação de Aaron tem fundamento num passado que somente ele, Martha e Ethan conhecem.

Dorothy Jordan e John Wayne; Ward Bond, John Wayne e Dorothy Jordan

Western racista? - A selvageria de Ethan e de Cicatriz são atenuadas pelas imagens de esplendorosa beleza e Ford praticamente nada de violência coloca na tela, apenas seus efeitos devastadores. O Mestre arrebata visualmente sem se esquecer daquilo que precisa ser dito, como quando Martin Pawley ao se deparar com o massacre de Washita River pergunta por que os soldados tiveram que matar ‘Look’ (Beulah Archuletta), concluindo: “Ela nunca fez mal a ninguém”, frase que dever ser estendida a toda raça vermelha exterminada pelos brancos, não só seus bravos guerreiros mas também mulheres crianças e velhos. Cicatriz ao exibir os escalpos lembra que os brancos mataram seus dois filhos e para cada filho que perdeu retira muitos escalpos. A sede por sangue é justificada tanto pelos aniquilados nativos quanto pelos brancos que querem expandir sua civilização. “Rastros de Ódio” não é um filme racista, mas sim denuncia essa odiosa forma de pensamento.

John Wayne Jeffrey Hunter; Natalie Wood

Na foto abaixo John Wayne
‘Descuídos’ de John Ford - Com tamanha carga psicológica e social, “Rastros de Ódio” é um fascinante western que contém belos momentos de ação, ainda que muitos reparos a eles possam ser feitos pelos ‘descuidos’ característicos de Ford durante as filmagens. Comumente filmando em ‘one-take’, o diretor entendia que o público não iria se preocupar com pequenos detalhes, para ele irrelevantes, mas que uma obra desta dimensão bem mereceria ter evitado. Entre erros grosseiros de continuidade o mais gritante é a perseguição dos índios aos Rangers e colonos, com os perseguidores num momento próximos poucos metros e em seguida se distanciando inexplicavelmente. Ou ainda quando da carga da cavalaria contra a tribo estranhamente desguarnecida sob inaceitável mudanças de luminosidade com o uso de lentes? Uma sequência fácil de ser refilmada como a do índio morto que, antes de ter os olhos alvejados por Ethan Edwards, respira saudavelmente comprovam negligência que deve ser atribuída ao diretor. Mesmo diante da imponência deste grande western é difícil fechar os olhos, como imaginava Ford, a estes pormenores que, arrasariam qualquer outro filme mas não destroem “Rastros de Ódio”. Perguntado pelo escritor Joseph McBride sobre este western, Ford respondeu laconicamente: “É um bom filme que rendeu um bom dinheiro e esse era o objetivo”. Seria até possível imaginar que este seria um faroeste comum, ainda que dirigido por John Ford e estrelado por John Wayne, o que por sis ó o diferencia enormemente. Ainda assim, mesmo na versões recentes remasterizadas, lá está um inoportuno veículo transitando com faróis acesos numa estrada à direita na sequência em que a Cavalaria segue sobre a neve.

Em primeiro plano Ward Bond (acima)
e Olive Carey (abaixo)
Comicidade duvidosa - Ford encontra espaço como não poderia deixar de ser para mostrar a idealizada comunidade que gostava de focalizar em seus filmes. A sequência de baile abrilhantada musicalmente pelo grupo vocal-instrumental Sons of Pioneers é abruptamente interrompida pela chegada de Ethan e Martin, dando lugar a um dos momentos de comédia, desta vez em forma de jocosamente respeitosa luta. Mas é durante o casamento que é dita a irresistível frase “Foi uma boa festa de casamento, considerando-se que não houve casamento...” (Ward Bond). Ou ainda quando Ken Curtis pede a Jeffrey Hunter abraçado a Vera Miles: “Eu agradeceria se você soltasse a minha noiva”. Esses achados do roteiro de Frank S. Nugent convivem com os momentos pretensamente divertidos, alguns excessivos mesmo como a sequência da ‘cirurgia’ no traseiro do Reverendo-Capitão ou a desprezível e nada engraçada atitude de Martin e Ethan com a índia Look. Por outro lado, quem mais senão Ford poderia imortalizar Mose Harper (Hank Worden) um dos mais marcantes e engraçados personagens secundários de um western clássico?

O pós-casamento do matrimônio que não aconteceu

John Wayne e Jeffrey Hunter
Suprema interpretação - Tantas e tantas vezes John Wayne mostrou ser bom ator derrubando os argumentos que era sempre o mesmo nos filmes independentemente do personagem que interpretava. Como Ethan Edwards o Duke tem o supremo desempenho de sua carreira, emocionando como o vingativo, preconceituoso rude e irritadiço ex-confederado que sensibiliza o espectador, não raro até às lágrimas, quando a porta se fecha ao final excluindo-o da civilização que se forma, ele que é o mais desajustado personagem dos westerns de John Ford. Wayne é tão majestoso e poderoso quanto o próprio Monument Valley. Jeffrey Hunter tem igualmente o melhor desempenho de sua carreira, mesmo sofrendo a inevitável intimidação de Wayne. Glenn Frankell, autor do livro “The Searchers” sobre as origens do filme diz com propriedade que a relação Ethan-Martin é uma reprodução de como era a relação entre Ford-Wayne. Lembre-se ainda que no livro de Alan LeMay é Martin Pawley e não Ethan Edwards o principal personagem. Henry Brandon mereceria muito mais tempo no filme com sua impressionante personificação como o sinistro Cicatriz ele que quando entra em cena traz consigo a ameaça e o medo. Ford não era o que se costuma chamar de ‘diretor de atores’, pouco se atendo a minúcias interpretativas, ainda assim extraía excelentes performances de seus atores que magicamente e sem muitos ensaios entendiam o que o Mestre queria. Vera Miles como Laurie Jorgensen é um exemplo disso. Estupendo ator característico, Ward Bond é o responsável por um momento de pura arte interpretativa silenciosa na sequência do enlevo de Martha antes da partida de Ethan. Natalie Wood está encantadora como índia num pequeno papel aos 16 anos de idade. E com que satisfação se assiste a um elenco perfeito com a veterana Olive Carey e Dorothy Jordan, esta esposa do produtor Merian C. Cooper e ainda Harry Carey Jr., Walter Coy, Hank Worden, Antonio Moreno e John Qualen.

A maravilhosa cinematografia de Winton C. Hoch
Beleza insuperável de imagens – Não inteiramente satisfeito com a trilha composta por Max Steiner, John Ford recrutou o grupo Sons of Pioneers que contribuiu bastante para a magnífica música de “Rastros de Ódio”. Curiosamente, o premiado Steiner realizou um trabalho verdadeiramente memorável mesclando instrumentos de percussão com os de sopro que tanto admira e criando a adequada atmosfera sonora especialmente para sequências passadas no Monument Valley. Adaptou ainda o maestro-compositor austro-húngaro diversas canções tradicionais, destacando “Lorena” para o lírico encontro de Ethan com Martha e a família. No início e final ouve-se “The Searchers”, composta especialmente por Stan Jones para o filme de Ford. Destaque ainda maior na parte técnica fica para a exuberante fotografia de Winton C. Hoch que faz de “Rastros de Ódio” um espetáculo difícil de ser esquecido pela beleza de suas imagens, superando o igualmente maravilhoso “Legião Invencível”, que teve também a cinematografia de Winton C. Hoch. Após três prêmios Oscar da Academia de Hollywood por “Joana d’Arc” (1948), “Legião Invencível” e “Depois do Vendaval”, Winton C. Hoch sequer foi lembrado por este seu trabalho.

Texas Rangers no Monument Valley; o retorno à fazenda dos Jorgensen

John Wayne e John Ford
Obra de arte cinematográfica - A cada revisão “Rastros de Ódio” parece melhor, maior e mais importante. Não por outra razão é um dos filmes mais estudados da história do cinema pela excepcional geração de cineastas formada nos anos 70 e 80, diretores a quem muito se deve também ao status adquirido por este filme de John Ford através dos anos. Senão o melhor filme já feito, um dos melhores, conforme atestam tantas enquetes, entre elas as decenais da revista inglesa “Sight & Sound”. A parceria Ford-Wayne que resultou em tantos brilhantes filmes atingiu com “Rastros de Ódio” seu ponto mais alto, inquestionável verdadeira obra de arte cinematográfica. Esta resenha crítica foi feita para comemorar o 60.º aniversário do lançamento de “Rastros de Ódio” no Brasil, fato que ocorreu em março de 1957. Outras postagens abordando diferentes aspectos desta obra-prima de John Ford podem ser lidos neste blog nos seguintes links:


http://westerncinemania.blogspot.com.br/2015/02/westerntestemania-n-33-rastros-de-odio.html

Hank Worden, John Qualen e Olive Carey; John Wayne


27 de novembro de 2011

A ‘GESTAÇÃO’ DE “RASTROS DE ÓDIO” (The Searchers)


Muitas pessoas gostam de um filme e o assistem cinco ou dez vezes, até perder a conta de quantas ocasiões se emocionou com um filme preferido. E há aqueles que não satisfeitos em conhecer inteiramente uma obra cinematográfica ainda querem saber o que se passou na preparação ou nos bastidores desse filme. “Rastros de Ódio” (The Searchers) é um desses casos apaixonantes e isso tanto é verdade que são muitos os autores que através de ensaios ou livros sobre faroeste procuram dissecar a obra máxima de John Ford. CINEWESTERNMANIA traz algumas informações a mais entre tantas conhecidas sobre “Rastros de Ódio”.

John Ford
ROTEIRIZANDO EM ALTO-MAR - A história “The Avening Texans”, de autoria de Alan LeMay, foi publicada no jornal Saturday Evening Post em 1954. Merian C. Cooper, sócio de John Ford na Argosy Productions leu a história de LeMay, se interessou e comprou os direitos da mesma para o cinema. Cooper mostrou a história para John Ford depois que já havia conseguido produtor para o western, o ricaço Cornelius Vanderbilt Whitney. John Ford gostou da história e com a produção pré-encaminhada, fez aquilo que sempre fazia antes de rodar um filme: reuniu sua turma no seu iate ‘Araner’ para deixar o texto mais cinematográfico. Em janeiro de 1955 embarcaram no ‘Araner’ o roteirista Frank S. Nugent (genro de Ford), Wingate Smith (cunhado de Ford) e os atores John Wayne e Ward Bond, amigos pessoais do diretor. Enquanto o grupo lia o texto original de Alan LeMay as idéias iam surgindo e sendo anotadas para o roteiro final de Nugent. E as modificações foram tantas que ao final havia praticamente uma outra história, ou senão vejamos.

OS TEXANOS VINGADORES - Para começar o título original (The Avening Texans) foi mudado para ‘The Searchers”. Na história de Alan LeMay, Ethan Edwards (John Wayne) chama-se Amos; Martin Pawley (Jeffrey Hunter) é 100% branco e não 1/8 Cherokee como aparece no filme; Debbie (Natalie Wood) não se casa com Scar; Debbie, que era ‘Dry Grass Hair’ (Cabelo de Grama Seca) para os Comanches depois de escapar dos índios, passa alguns dias perdida no deserto até ser encontrada por Martin Pawley, com quem passa a namorar; a personagem Laurie Jorgensen (Vera Miles) é namorada de Charles McCorry (Ken Curtis). Na história original não havia os personagens do Reverendo-Capitão Samuel Johnston Clayton (Ward Bond) e nem o de Mose Harper (Hank Worden). Da cabeça de Ford saiu também um personagem de nome Emílio Gabriel Fernández y Figueroa, numa clara homenagem a seus amigos mexicanos, o ator-diretor Emílio Fernández e o célebre cinegrafista Gabriel Figueroa. A mais crucial das diferenças: Ethan Edwards morre ao final. As alterações, como foi dito, tornaram a história mais cinematográfica. Excepcionalmente mais cinematográfica.

A GRANDE FAMÍLIA FORD - As filmagens começaram em setembro de 1955 e duraram 50 dias de grande sofrimento para toda a equipe que teve que se deslocar ao Monument Valley onde foi rodada a maior parte do filme. O elenco foi se delineando à medida que a história tomava forma em pleno alto mar ao balanço do ‘Araner’ e grande parte daqueles que iriam atuar no filme eram de alguma forma ligados a John Ford. Muitos pertenciam à Ford Stock Company, grupo que Ford utilizava com freqüência, como Wayne, Bond, John Qualen, Hank Worden, Jack Pennick e Cliff Lyons. Outros eram quase parentes de John Ford, como Olive Carey (comadre), Harry Carey Jr. (afilhado), Ken Curtis (genro) e Patrick Wayne (filho de John Wayne). Dorothy Jordan, que interpreta Martha Edwards era esposa do produtor Merian C. Cooper. Os demais atores foram indicados pela própria Warnes Bros.
Nas fotos à direita, do alto para baixo:
Olive Carey/Harry Carey Jr.;
John Qualen/Dorothy Jordan;
Ken Curtis/ Hank Worden;
Patrick Wayne/Ward Bond.

O DIA EM QUE NATALIE WOOD SE SUBMETEU AO TESTE DO... PESO - O caso mais interessante do elenco foi o de Natalie Wood, a quem John Ford não conhecia. Encaminhada ao escritório de John Ford, o Pappy conversava com John Wayne quando a franzina jovem de 17 anos entrou. Ford mediu Natalie de alto a baixo e a adolescente atriz tremeu de medo. Ford então pediu a John Wayne que a erguesse com as duas mãos, o que o gigantesco Duke fez com extrema facilidade. Quando Duke a colocou no chão novamente, Ford sentenciou: “Você será Debbie! Agora só falta uma menina de uns sete anos parecida com você para interpretar a Debbie jovenzinha Você conhece alguma?” Natalie respondeu a Ford que tinha uma irmã de nove anos, chamada Svetlana, mais ou menos parecida com ela. Ford ainda perguntou se aquele não era um nome russo e Natalie confirmou dizendo que seu verdadeiro nome também era russo: Natasha. As irmãs Lana e Natalie foram contratadas. “Rastros de Ódio” estreou no dia 13 de março nos Estados Unidos (7 de maio em São Paulo), fazendo relativo sucesso de público mas sem se tornar um campeão de bilheteria. Pouquíssimos críticos perceberam quando de seu lançamento a magnitude desse western de John Ford e foi preciso um certo crítico francês chamado Andrè Bazin abrir os olhos do mundo para a importância de “Rastros de Ódio”.

24 de outubro de 2011

QUEM FOI O HOMEM QUE PRODUZIU “RASTROS DE ÓDIO”?


Muitas pessoas já perderam a conta de quantas vezes assistiram “Rastros de Ódio”. E a cada revisão é sempre aquela mesma intensa emoção sentida aos primeiros acordes que antecedem as vozes do conjunto “The Sons of Pioneers” interpretando a canção “The Searchers” (What makes a man to wander / What makes a man to roam...) até a abertura da porta que descortina o Monument Valley e a chegada de Ethan Edwards. O primeiro nome dos créditos – C.V. WHITNEY – chama a atenção pois era um nome estranho jamais visto em outro filme. Quem seria afinal C.V. Whitney?


Cornelius Vanderbilt
Whitney ("Sonny")
HERDEIRO DE FORTUNAS - Duas das mais ricas famílias dos Estados Unidos se uniram através do maatrimônio de Harry Payne Whitney e Gertrude Vanderbilt. Dessa união nasceu Cornelius Vanderbilt Whitney, cujo apelido era “Sonny” que se tornou único herdeiro de um império chamado Minnesota Mining and Manufacturing, conglomerado multinacional de empresas mais conhecido por “3M”. Aos 55 anos cansado de ver sua fortuna crescer, seus cavalos vencerem os mais variados derbys e passando da idade de jogar pólo, seu esporte preferido, “Sonny” decidiu que deveria diversificar ainda mais seus investimentos e ganhar dinheiro também na indústria cinematográfica. Para isso conversou sobre o assunto com Merian C. Cooper, produtor de “King Kong” e mais tarde sócio de John Ford na produtora Argosy que produziu entre outros filmes a Trilogia de Cavalaria de John Ford e “Depois do Vendaval”. “Sonny” disse a Merian C. Cooper que somente colocaria dinheiro num projeto que desse lucro e se possível desse também bom resultado artístico. Cooper que havia adquirido, em 1954, os direitos de uma novela escrita por Alan LeMay intitulada “The Searchers”, disse ao milionário C.V. Whitney que poderia oferecer o projeto a John Ford e a John Wayne, o que seria meio caminho andado para um ótimo e lucrativo filme. C.V. Whitney era um admirador confesso dos westerns de John Ford, especialmente de “Sangue de Heróis”, “Legião Invencível” e “Rio Grande” justamente os três westerns que compuseram a Trilogia de Cavalaria.

TRATATIVAS COMERCIAIS - As tratativas foram iniciadas e foi acertado que John Ford receberia 125 mil dólares e mais 10% dos lucros do filme para dirigi-lo, o que hoje representaria pouco mais de um milhão de dólares e mais os 10% dos lucros do filme. John Wayne, por sua vez, receberia 500 mil dólares (valor hoje correspondente a 4,2 milhões de dólares) porém sem participação nos lucros. O passo seguinte seria escolher um estúdio para fazer uma parceria para a distribuição do filme. A Metro-Goldwyn-Mayer aceitou participar mas na base de 50% e 50%, o que não foi aceito. A Columbia fez uma proposta mais vantajosa na base de 35% para o estúdio e 65% para o produtor que é quem entraria com o dinheiro. A Warner Bros. fez proposta igual de 35% e 65%, mas com algumas vantagens na questão dos impostos para “Sonny” Whitney que só discutia negócios cercado por seu time de economistas. Jack Warner ganhou a parada e como “Sonny” nada entendia de cinema, Merian C. Cooper e Patrick Ford, o filho de John Ford seriam os produtores executivos, aqueles que cuidam de todos os detalhes de filmagem, começando pela contratação de técnicos e atores.
À esquerda Merian C. Cooper quando das filmagens de "King Kong"; abaixo John Wayne e John Ford descansam sob o sol inclemente de Monument Valley, cenário de "Rastros de Ódio".

A dura vida de bilionário: Whitney e uma
de suas quatro esposas
O LUCRO DE “SONNY” – C.V. Whitney quase abandonou o projeto quando soube que o custo final da produção apresentado seria de 3,5 milhões de dólares, o mesmo acontecendo com Jack Warner quando descobriu que haveria locações em Monument Valley para onde deveriam ser transportados todos os equipamentos técnicos pertencentes ao estúdio. Com muita conversa Merian C. Cooper superou as dificuldades com Cornelius V. Whitney, enquanto foi necessário o próprio John Wayne ter um diálogo olho no olho com Jack Warner, ocasião em que o ator ameaçou nunca mais fazer um filme para aquele estúdio. O custo final de “Rastros de Ódio” foi de 3.750.000 dólares e quem complementou o orçamento foi mesmo Whitney. Corrigido pela inflação o custo do filme hoje teria sido de 38 milhões de dólares. Lançado nos Estados Unidos em março de 1956, “Rastros de Ódio” rendeu em seu primeiro ano de exibição aproximadamente cinco milhões de dólares. Considerando-se que “Rastros de Ódio” tenha rendido no resto do mundo outros cinco milhões de dólares, C.V. Whitney teve um lucro de pelo menos 2,75 milhões de dólares, enquanto John Ford embolsou posteriormente 275 mil dólares.

LEGADO À ARTE - Aconselhado por seus assessores financeiros, “Sonny” Whitney voltou suas atenções para a televisão, comprando logo meia dúzia de estações naquele novo e próspero meio de comunicação e entretenimento. Os números indicavam que cada ano menos espectadores iam ao cinema enquanto crescia de forma incontida o número de televisores nos lares norte-americanos. Mesmo assim a C.V. Whitney Productions produziria dois filmes de orçamentos bastante modestos que foram “The Missouri Traveller”, com Brandon De Wilde e Lee Marvin, em 1958 e “Ódio Destruidor”, com Patrick Wayne e Dennis Hopper, em 1959. C.V. Whitney faleceu em 1992, aos 93 anos de idade e é para os fãs de faroestes um nome importante pois a ele se deve a realização da obra máxima de John Ford, da melhor atuação de John Wayne no cinema e, sem nenhuma dúvida, de um dos melhores filmes de todos os tempos independentemente de gênero. Uma verdadeira obra de arte que é “Rastros de Ódio”.
Ethan Edwards retornando para uma casa que nunca será sua

13 de abril de 2011

PAREM COM ESSA MAZURKA!!! GRITOU JOHN FORD


Para fazer um grande filme é necessário o trabalho conjunto de muitos talentos: roteiristas, diretores, cinegrafistas, atores e atrizes, montadores e, claro, a música que fica por conta dos maestros. Quem banca tudo é o produtor que às vezes quer mandar mais que todos durante a produção. As centenas de grandes filmes que assistimos não deixam dúvidas quem são os maiores nomes da história do cinema. Na música serão sempre lembrados o vienense Max Steiner e o russo de origem ucraniana Dimitri Tiomkin. Ambos compuseram uma interminável e irretocável lista de trilhas sonoras para filmes que muitas vezes se tornaram inesquecíveis por causa da própria música. Mas até esses dois excepcionais talentos se depararam às vezes com as implicâncias de quem nem formação musical possuia.

O Galante Aventureiro” (The Westerner) é um belíssimo western com Gary Cooper e Walter Brennan, dirigido por William Wyler e produzido por aquele que foi, provavelmente, o maior de todos os produtores independentes de Hollywood: Samuel Goldwyn. Aí é que começaram os problemas de Dimitri Tiomkin, responsável por musicar esse western. Simplesmente Goldwyn não gostou da trilha sonora criada por Tiomkin e chamou Alfred Newman, a quem encarregou de criar uma trilha inteiramente nova para o filme, para grande desgosto de Dimitri.

Rastros de Ódio” (The Searchers) é um dos melhores filmes dirigidos por John Ford, diretor que não tem meias palavras, ainda que elas possam soar como muito francas ou mesmo mal-educadas. Ford nem tinha o hábito de ver seus filmes depois de prontos, mas decidiu ver como havia ficado esse western com John Wayne. Mal a porta se abriu no início do filme e Ford saltou da cadeira exasperado gritando: “Parem, parem com isso!!! O que é isso? Uma mazurka no meu filme?” De fato, a retumbante introdução composta por Max Steiner, era seguida por uma música que mais parece uma espécie de mazurka que música de western. Ela foi substituída pela singela canção “The Searchers”, de autoria de Stan Jones e maravilhosamente interpretada pelo conjunto Sons of the Pioneers, resultando num dos mais perfeitos prólogos que um western já teve. Por sinal a segunda parte da canção encerra o filme quando a porta se fecha, ao final. E a mazurka de Max Steiner, acabou em outra parte de “Rastros de Ódio” e pode ser ouvida na sequência em que a índia Wild Goose Flying in the Sky/Look (Beulah Archuletta), acompanha Ethan Edwards (Wayne) e Martin Pawley (Jeffrey Hunter) na busca incessante pela pequena Debbie.

Nenhum desses dois incidentes impediu que os maestros continuassem a perpetrar suas obras-primas e enriquecer os filmes nos quais trabalharam na parte musical. Afinal eram gênios da música para filmes, quer Ford e Goldwyn queiram ou não.

Nota do Editor: "Mazurka" é um tipo de dança típica polonesa com música característica.