Evaldo Braz tem entre suas leituras favoritas o estudo da história do Velho
Oeste, aprofundando-se nas biografias dos pistoleiros e dos homens da Lei. E
como não poderia deixar de ser o cinema complementa essas leituras, o que faz
com que Evaldo seja grande fã de faroestes. Nascido em Santa Maria, no Rio
Grande do Sul, Evaldo reside em Santa Catarina, mas como pesquisador de
florestas naturais viaja com frequência à Amazônia, onde desenvolve sua
atividade profissional. Evaldo atendeu gentilmente à solicitação de
WESTERNCINEMANIA, relacionando seu Top-Ten Westerns que são publicados a
seguir, cada um deles acompanhado de um breve comentário de autoria do próprio
Evaldo.
1.º) Rio
Vermelho (Red River), 1948 – Howard Hawks
Este é um western que por sua importância
e por ser muito conhecido dispensa maiores comentários.
2.º)
O Último Pistoleiro (The Shootist),
1976 – Don Siegel
O Ultimo Pistoleiro
é uma condensação maravilhosa do código
do Oeste, principalmente no duelo final, onde cada duelista espera sua vez
dentro do saloon. Note-se que não atacam
John Wayne juntos. Não querem apenas ganhar, mas lutar limpo.
Perfeito deste ponto de vista histórico com relação
a gunfighters.
3.º) Parceiros
da Morte (The Deadly Companions), 1961 – Sam
Peckinpah
Filme perfeito
sobre perdedores, mas maravilhoso e ambientado no Far West.
4.º) Pistoleiros do Entardecer (Ride the High Country), 1962 – Sam
Peckinpah
Outro filme perfeito que
condensa a homenagem ao Oeste do
passado que está desaparecendo e aos atores, já velhos e em um momento. O filme bem realista, sai um pouco do realismo para
homenagear os bang-bangs do tempo de Tom
Mix. É na cena final em que Randy desce a ravina a galope, de pé sobre os estribos e atirando de encontro à casa onde estão os bandidos. Mostra que Randy, em
sua ultima cavalgada cinematográfica era bonzão no cavalo.
5.º) Fibra de Heróis (Buchanan Rides Alone), 1958 – Budd Boetticher
Filme hipnótico,
delicioso. Tu nunca sabe o que vai acontecer.
Personagens diferentes.
6.º) Onde
Começa o Inferno (Rio Bravo), 1959 – Howard Hawks
Uma aula de cinema
e ambientação de Howard Hawks.
7.º) O
Último Tiro (Firecreek), 1968 – Vincent McEveety
Um farwest
perfeito. Imperdível a atuação conjunta dos veteranos Stewart e Fonda.
James
Stewart não quer mais ser de uma cidade de
"perdedores", de indecisos. O filme vale para os dias de hoje onde o
banditismo campeia e ninguém, autoridades ou população, fazem nada.
8.º)
O Homem que Luta Só (Ride Lonesome),
1959 – Budd Boetticher
Western maravilhoso.
Cinema puro. No final você fica com o
coração na mão, torcendo para que Scott fique de bem com Pernell Roberts que tem excelente atuação. Uma aula do
diretor Budd Boetticher.
9.º)
Galante e Sanguinário (3:10 to
Yuma), 1957 – Delmer Daves
Uma versão
insuperável. Um assaltante/pistoleiro, preso, passa aos poucos a admirar um
pequeno lavrador que é responsável por encaminhá-lo à prisão
em Yuma.
A admiração chega ao ponto do pistoleiro ajudar ao lavrador conseguir finalizar
seu trabalho (conduzi-lo à prisão). É um dos
melhores filmes já feitos. Tem uma direção de cena e câmera aprimoradíssima.
10.º)
Um Homem Difícil de Matar (Monte
Walsh), 1970 – William A. Fraker
Com Lee Marvin e Jack Palance, um filme que todo amante do Oeste deveria ver pois é perfeito.
O
Top-Ten de Evaldo Braz sofreu uma alteração de última hora quando ele
retirou da lista enviada “Sem Lei e Sem Alma” (Gunfight at the OK Corral),
faroeste de 1957 dirigido por John Sturges. Fica consignada então a alteração
para lembrar que esse é também um dos westerns favoritos de Evaldo.
Evaldo Braz não
inseriu nenhum western-spaghetti em sua lista, mas enviou a WESTERNCINEMANIA um
depoimento explanando o que pensa dos faroestes produzidos na Europa, reflexões relatadas abaixo.
DUELOS MÍTICOS NOS WESTERNS-SPAGHETTI
No passado, quase na época que fizeram os grandes
faroestes americanos, eu só concebia, só acreditava em faroeste americano. É o seguinte: erroneamente eu
pensava que somente a civilização que produzisse determinada cultura
poderia reproduzi-la. Então
alemães, franceses ou italianos, povos fascinados pelo farwest não teriam
capacidade de entender o Oeste do passado e ainda mais reproduzir arte com esta
matéria.
Quase vinte anos depois descobri, graças a meu filho mais velho, que na verdade os italianos, por exemplo, tinham entendido tanto o código do Oeste que podiam fazer até melhor que o americano (às vezes...). O americano, pós-decada de 40, claro, se preocupava muito com realismo, denúncia social, denúncia racial, etc e grandes interpretações e locações e perfeição na mecânica dos tiros e cavalhadas, mas reduzia a quase zero o Fator Mito, ou mítico da história (tirando “Shane”, claro). Na construção, raras vezes davam bola para a música, ou a utilizavam de maneira errada (tirando o final de “Rastros de Ódio”).
Quase vinte anos depois descobri, graças a meu filho mais velho, que na verdade os italianos, por exemplo, tinham entendido tanto o código do Oeste que podiam fazer até melhor que o americano (às vezes...). O americano, pós-decada de 40, claro, se preocupava muito com realismo, denúncia social, denúncia racial, etc e grandes interpretações e locações e perfeição na mecânica dos tiros e cavalhadas, mas reduzia a quase zero o Fator Mito, ou mítico da história (tirando “Shane”, claro). Na construção, raras vezes davam bola para a música, ou a utilizavam de maneira errada (tirando o final de “Rastros de Ódio”).
O Western-Spaghetti elevou o duelo à categoria de arte. Que homenagem, a mais bela, há no duelo em “Os Quatro da Ave Maria”. Os realizadores de Westerns-Spaghetti souberam fundamentalmente "estilizar" o Oeste! É isso!
Bem, quando vi a utilização de Ennio Morriconi e a elevação ao grau máximo dos míticos duelos, vi que os italianos principalmente tinham "devorado" a cultura americana e devolvido de maneira fantástica. Quando conheci com mais detalhe Sérgio Corbucci ou Sérgio Leone, entre outros, vi, senti, que eles, só eles, viam a cultura americana do farwest com os "nossos" olhos de guri, se me faço entender, viam com os olhos de fã, viam com os olhos que as populações rurais viram as primeiras histórias de heróis e o prazer de reproduzir e narrar. E que narrativa tinham estes filmes! Que deleite! Alguns exemplos mais? “Keoma”, com Franco Nero; “Quando Explode a Vinçança”, com James Coburn e Rod Steiger (é do ciclo ‘Revoluções’, mas considero western); “Companheiros” com Franco Nero (também do ciclo Western-Revolução) é uma dos mais belos filmes, digo sobre qualquer categoria de filme, já feitos!
“Meu Nome é Ninguém” é uma clara homenagem ao farwest americano, onde se misturam o humor de Trinity do Spaghetti-Western e a pesada seriedade do western americano. Fonda e Terence Hill estão perfeitos. Se observam, parecem que dirigidos por diretores diferentes e, no final, a fundição dos dois sistemas de cinema: Fonda faz uma ação contra os 40 bandidos à moda do farwest italiano. Aliás, o personagem feito pelo que se cognomina ‘Ninguém’ (Trinity para nós) conduz delicadamente Fonda a isto, como quem diz aos diretores americanos: "Viu, façam como a gente, ou era assim que queríamos os heróis, adoramos vocês, etc., etc...), e Fonda, ou o cinema americano, ou eu próprio, nos rendemos ao farwest italiano.




