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30 de maio de 2015

TRÊS HOMENS EM CONFLITO (IL BUONO, IL BRUTTO, IL CATTIVO), LEONE REDEFINE O GÊNERO WESTERN


Leone acima com Clint Eastwood e
Romano Puppo; abaixo entre Clint,
Eli Wallach e uma script-girl.
O prestígio de Sergio Leone cresceu proporcionalmente ao sucesso de seus dois primeiros faroestes e era inevitável que ele iniciasse seu terceiro projeto, justamente o filme que fecharia a serie que passou a ser conhecida como ‘Trilogia dos Dólares’. O produtor Alberto Grimaldi colocou mais dinheiro à disposição de Leone, desta vez um milhão e duzentos mil dólares, dos quais 250 mil foram para convencer Clint Eastwood a repetir o personagem que lhe deu fama mundial. Sergio Leone e Luciano Vincenzoni escreveram uma história à qual intitularam “Dois Magníficos Trapaceiros”. Leone queria imprimir ao seu novo filme um tom mais cômico em relação aos dois anteriores estrelados por Clint Eastwood. Para isso entregou o roteiro à dupla Agenore Incrocci e Furio Scarpelli (Age-Scarpelli), exímios piadistas e especialistas em textos engraçados. Sergio Leone jamais havia se esquecido da interpretação de Eli Wallach como o bandido ‘Calvera’ em “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven) e a partir dele criou o segundo personagem da nova história – ‘Tuco’. Havia ainda um terceiro e menos importante personagem chamado ‘Sentenza’ que foi oferecido a Charles Bronson. Este, mais uma vez recusou o convite do diretor italiano, desta vez devido a compromisso assumido com a produção de “Os Doze Condenados”. Foi então requisitado Lee Van Cleef que conquistara o público europeu com sua criação como ‘Coronel Douglas Mortimer’ em “Por uns Dólares a Mais” (Per Qualche Dollaro in Più”. A contratação de Van Cleef implicou em algumas alterações no roteiro e no título que passou a ser “Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo”. Sabia-se que ideias extravagantes, delirantes mesmo, brotavam a cada momento da cabeça de Leone, mas esse título esdrúxulo, que sequer lembrava a palavra dólares, indicava que seu novo filme  (“Três Homens em Conflito” no Brasil) seria um western incomum.



The Good, The Ugly, The Bad, conforme
o título norte-americano.
Três homens e um tesouro - Com o país em plena Guerra Civil, um misterioso caçador de recompensas conhecido por Blondie (Clint Eastwood) une-se a Tuco (Eli Wallach), um incorrigível patife mexicano procurado por todo Sul do país. A tática da dupla para burlar a lei e receber recompensas consiste em Blondie capturar Tuco, entregá-lo à Justiça e livrar o bandido da forca no último instante, com um tiro certeiro na corda à qual está pendurado. Blondie é ‘O Bom’ e Tuco é ‘O Feio’. Acreditando que a parceria esteja rendendo pouco (dois a três mil dólares), Blondie trai Tuco afastando-se dele. Após alguns conturbados encontros a dupla se depara, em pleno deserto, com uma diligência em disparada. O veículo carrega os corpos inertes de três oficiais de uma Companhia do Exército Confederado, enquanto um quarto oficial chamado Bill Carson sussurra, antes de falecer, algumas palavras sobre uma fortuna enterrada em uma cova de um cemitério. A Tuco o moribundo diz que Sad Hill é o nome do cemitério; a Blondie o agonizante informa o nome inscrito na lápide da cova. De posse dessas meias informações, Tuco e Blondie rumam para Sad Hill porém desconhecem que há uma terceira pessoa de posse da informação sobre o tesouro. Ele é o pistoleiro de aluguel Sentenza (Lee Van Cleef), apelidado na história como ‘O Mau’. Sentenza vem, paralelamente, acompanhando as ações da dupla Tuco-Blondie. Dificuldades de toda ordem se sucedem até chegarem os três a Sad Hill onde travam uma estranha disputa da qual apenas um deverá sair vencedor. Seria o Bom, o Mau ou o Feio?

Sentenza como sargento de um campo de
prisioneiros; abaixo o capitão (Aldo Giuffrè)
 que creditava as vitórias militares à garrafa.
Pequenos e grandes crimes - A história simples de “Três Homens em Conflito” foi imaginada para possibilitar, de forma episódica, dramática e bem humorada, um virtuoso exercício cinematográfico de Sergio Leone. Sobressaem os protagonistas através do uso insistente dos close-ups em contraponto às belíssimas panorâmicas expondo um trio de homens que mal merecem ser assim chamados tal a vileza de seus atos. São eles desprovidos de caráter, capazes de trair, roubar e matar com a mesma frieza com que acendem um toco de charuto ou um cachimbo. Tuco, esmurra seu irmão, um monge que salva vidas alheias na missão onde vive; Sentenza extermina pai e filho diante de uma desesperada mãe; Blondie vive de ludibriar a justiça, matando quando necessário. Leone criou esses três tipos abjetos para demonstrar que seus crimes são quase que insignificantes diante do pano de fundo de “Três Homens em Conflito”: o horror da guerra. No caso a fratricida Guerra Civil norte-americana que banhou de sangue o país, mas o campo de concentração onde ocorrem espancamentos ao som de melancólica música tocada por prisioneiros remete a outras guerras. O ébrio Capitão do Exército da União diz que vencerá a guerra o lado cujo general estiver mais embriagado pois a bebida estimula o heroísmo.  O General Ulysses S. Grant levou o Norte à vitória jamais abandonando a garrafa que lhe dava a necessária coragem para vencer.

Lee Van Cleef
Código de homens impiedosos - O que guia os três personagens centrais é a cobiça, tendo ambos, em maior ou menor proporção a brutalidade, a traição e a dissimulação. Tuco é o personagem central do filme. Seu anedótico nome completo é Tuco Benedicto Pacífico Juan Maria Rodriguez. A ironia de Leone se manifesta desde logo com o ‘Pacífico’ impróprio para o bandido que tem uma invulgar folha corrida de crimes, ainda que nunca deixe de ser sorridente ou de invocar a Deus a cada morte que assiste ou executa. Um vilão como esse parece simpático pois há um lapso de humanidade na sua perversidade. Apesar de ser quem é, Tuco é apenas o ‘Feio’ da história na interminável luta do gato contra o rato que trava com o ‘Bom’ Blondie. Representativo da maldade maior é ‘Sentenza’, chamado na versão em Inglês de ‘Angel Eyes’, pistoleiro de aluguel que orienta espancamentos mortais e surra mulheres quando preciso. A presença do personagem Tuco atenua a ininterrupta série de mortes (ele mesmo autor de algumas delas) que ocorrem no filme até que este ganhe um aspecto épico com o episódio da batalha pela Ponte de Branston. E é justamente quando Tuco se torna menos engraçado, quando numa única batalha a morte, em grande escala, é permitida. Concluído o episódio resta desvendar o mistério da cova com o tesouro.

O pragmático Tuco.
A inspiração de Leone - Sergio Leone frisou à exaustão sua admiração pelo western norte-americano, citando sempre os cineastas que mais estimava, entre eles Budd Boetticher, John Sturges e John Ford. Por mais que estes respeitados diretores tenham influenciado Leone, não foi neles que o regista romano se inspirou para chegar a um filme como “Três Homens em Conflito”. Quem mais próximo chegou de algo tão picaresco como “Três Homens em Conflito” foi Robert Aldrich com “Vera Cruz”, filme em que se faz presente o aventureirismo burlesco em meio a uma revolução. Leone comprova que não há limites para sua criatividade pois é capaz de conceber uma forma renovada e vigorosa de um gênero cujos mestres aparentemente já haviam dito tudo e de maneira muitas vezes irretocável. O entusiasmo do cineasta italiano teve origem em sua paixão pelo faroeste, mas a inspiração, esta nasceu de sua ilimitada capacidade de fecundar ideias brilhantes e o destemor em concebê-las cinematicamente. A antológica sequência do confronto a três num cenário repleto de incontáveis sepulturas, arena própria do sublime desvario de Leone é exemplar em sua criatividade.

Uma das fantásticas tomadas do deserto com o
corpo de Blondie em primeiro plano; note-se
abaixo, no canto, uma das muitas moscas.
Poções mágicas de um bruxo romano - “Três Homens em Conflito” é um filme admirável quanto à direção de arte de Carlo Simi com a macabra atmosfera das cidades destruídas ou o tosco forte destituído de qualquer fantasioso acabamento. Soma-se a isso o singular trabalho de maquiagem, ainda que facilitado pelo calor e mormaço típicos de Almería. E quanto obedientes são as moscas presentes durante as filmagens de Leone! Estão em toda parte, até mesmo no rosto dos atores que sequer as percebem! Mas é a alucinada criatividade de Sergio Leone que faz de cada sequência uma experiência nova para o espectador, isto num gênero tão antigo quanto o próprio cinema e no qual parece não haver lugar para nada novo. E se o diretor surpreende com encenações inusitadas de confrontos, enforcamentos ou espancamentos, suas tomadas de ângulos de câmara preenchendo a tela larga são ao mesmo tempo ousadas, harmoniosas em composição perfeita. Tendo custado quase a metade do que foi gasto para se filmar “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven), produzido ao custo de dois milhões e duzentos mil dólares, pode se considerado até modesto o orçamento de  “Três Homens em Conflito” que contém cenas de batalha envolvendo 1.500 figurantes. Ainda que o custo de produção na Espanha fosse infinitamente menor, as impressionantes sequências filmadas por Leone em “Três Homens em Conflito” fazem do diretor um verdadeiro bruxo cujas poções produziriam outros efeitos nos filmes seguintes.


Eastwood lembrando Peter O'Toole.
Wallach, feio, mau e ótimo - Há em “Três Homens em Conflito” sequências de maior delicadeza, emolduradas pela música de Ennio Morricone, uma delas verdadeiramente tocante com a expressão do soldado que pesaroso para de tocar seu violino enquanto Tuco sofre nas mãos do Cabo Wallace (Mario Brega). Tuco procura com os dedos na boca ensanguentada perceber quantos dentes perdera e com isso Leone rouba um pouco da singeleza desse momento brilhante de seu filme. E o mesmo Tuco, e sempre ele, será o responsável pelos pontos altos do filme assim como pelos poucos excessos, entre eles a caricata sombrinha que usa para cavalgar ao sol enquanto Blondie desfalece sob a canícula. Mas é de Eli Wallach a grande interpretação do western de Leone, mesmo porque Eastwood e Van Cleef interpretam personagens introspectivos e gélidos em seus raciocínios e atos. Se as sequências da caminhada de Tuco e Blondie pelo deserto fazem lembrar o épico de David Lean, Clint Eastwood está bastante parecido com o imortal Lawrence of Araby, de Peter O’Toole. Os muitos coadjuvantes aparecem em sequências episódicas, destacando-se o sempre excelente Luigi Pistilli e Aldo Giuffré como o enlouquecido capitão da União. Atenção para a presença da cubana Chelo Alonso como a mulher que vê o marido ser assassinado por Sentenza.

Antonio Molino Rojo, Aldo Giuffrè, Chelo Alonso e Luigi Pistilli.

O langor da triste história - Muito se disse a respeito da importância da música de Ennio Morricone nos filmes de Sergio Leone, que deveria dividir a grandiosidade das imagens com o compositor. Morricone compôs para muitos outros diretores mas parece que reservava o melhor de sua criatividade quando compunha para Leone e se isso acontecia era porque os filmes do regista romano eram especiais. Para “Três Homens em Conflito” o maestro-compositor criou temas para cada um dos três personagens principais, mas foi aquele feito para ‘Il Buono’ que se tornou o mais representativo, icônico como se costuma dizer. O tema principal incrivelmente forte marcado pesada e tensamente é um dos mais perfeitos de toda obra do compositor. A suíte composta para “Três Homens em Conflito” é memorável merecendo ser ouvida independentemente do filme, com atenção especial para o tema “A Soldier Story”. Essa langorosa canção poderia ter dado a tônica ao filme, expressando a desesperança própria de um épico que tem a guerra como cenário. “The Ectasy of Gold” é outro grande momento musical com destaque para a maravilhosa voz de Edda Dell’Orso.

A tocante sequência da música encobrindo a violência.
Criatividade inesgotável - Lançado em 1966 com três horas de duração na Itália, “Três Homens em Conflito” sofreu uma série de cortes quando lançado no mercado internacional, tendo sua metragem reduzida para 162 minutos. Há edições lançadas em DVD com duração de meros 148 minutos, o que exige atenção do espectador. Os DVDs remasterizados e em Blu-Ray contém ou a versão integral ou as cenas excluídas como bônus. Àqueles que colocavam em dúvida a qualidade do trabalho de Sergio Leone começaram a se render pouco a pouco e a última parte da ‘Trilogia dos Dólares’ em curto espaço de tempo foi saudada como um dos grandes westerns do cinema. Filme importantíssimo no contexto histórico do gênero, “Três Homens em Conflito” surpreende, entusiasma e causa admiração, mas não chega a emocionar, justamente por predominar o aspecto cômico sobre o trágico. A lição foi aprendida por Leone e em seu western seguinte, assim como nos anteriores, restringiu os momentos de comicidade aos atores de participação sem maior importância. “Três Homens em Conflito” é uma bem-humorada explosão da inesgotável criatividade de Sergio Leone.




25 de março de 2012

A BABEL DIRIGIDA POR SERGIO LEONE EM "TRÊS HOMENS EM CONFLITO"


Aos 18 anos de idade, em 1948, Sergio Leone foi assistente de direção de Vittorio De Sica em “Ladrões de Bicicleta”. Após esse início Leone passou os próximos anos nessa função, auxiliando diretores menos famosos como Alessandro Blasetti, Mario Bonnard, Mario Camerini, Luigi Comencini e Mario Soldati. Foram mais de 30 os trabalhos de Leone como assistente de diretor, alguns desses trabalhos aprendendo o metier com gente do primeiro time entre os diretores norte-americanos como Mervyn LeRoy em “Quo Vadis”, Robert Wise em “Helena de Tróia” e Fred Zinnemann em “Uma Cruz à Beira do Abismo”. Sergio Leone era especialista como diretor de segunda unidade, aquele que geralmente é o responsável pelas desgastantes sequências que envolviam multidões como em “Os Últimos Dias de Pompéia”, de Mario Bonnard, “Ben-Hur”, de William Wyler e “Sodoma e Gomorra”, de Robert Aldrich. A primeira oportunidade de Leone como diretor só viria a acontecer em 1961 no épico “O Colosso de Rodes”, interpretado pelo ex-astro da série de TV “O Texano” Rory Calhoun.

Sequências das corridas em "Ben-Hur",
que Leone afirmava ter dirigido.
LEONE, O FANFARRÃO - Com 1,70 de altura e mais de 100 quilos de peso, Sergio Leone era um autêntico falastrão e costumava contar que fora o verdadeiro responsável pela corrida de quadrigas em “Ben-Hur”, mesmo sabendo-se que quem comandou aquelas inesquecíveis sequências foi Andrew Marton, diretor de segunda unidade, com a colaboração de Yakima Canutt. Mas ninguém pode negar a Leone a sua incrível criatividade, inventando formas dirigir que mais parecia coisa de um verdadeiro pazzo (louco) e um dos exemplos disso eram os diálogos em seus westerns-spaghettis. Eram produções pan-européias com dinheiro vindo de muitos países, assim como os atores que podiam ser italianos, espanhóis, alemães, franceses, gregos, turcos e até um ou outro norte-americano. E as filmagens, como se sabe, eram feitas em regiões da Espanha, especialmente no deserto de Almería, sob a direção de Leone que nada falava de Inglês e nem dos demais idiomas. Mesmo assim a comunicação e os diálogos dos filmes não eram problemas para Leone que como bom italiano se expressava bastante bem com as mãos e inventava métodos nada comuns.

Manetas de "Três Homens em Conflito"
em cenas com Eli Wallach. O da foto abaixo
é o norte-americano Al Mulock.
CONTANDO ATÉ DEZ - Sergio Leone pedia para os atores dizerem suas falas em seus próprios idiomas, o que muitas vezes levava a uma espera maior do que o necessário até que o próximo a falar percebesse que o outro já havia terminado seu texto. Eli Wallach nunca se esqueceu do que se passou em “Três Homens em Conflito” numa cena com um não-ator italiano, contratado por Leone porque não possuía um braço. O homem foi vestido com peças de farda de confederado e deveria discutir com Tuco, o personagem de Eli Wallach. Quando o maneta descobriu que Eli era norte-americano ficou nervoso xingando o ator e dizendo que o Exército dos EUA, durante a campanha na Itália na II Guerra Mundial, havia decepado seu braço. Eli ainda tentou retrucar dizendo “Non ho fatto” (não fui eu que fiz), mas o homem não se acalmava. Leone gritou com ele e pediu para que ele dissesse o pequeno texto, descobrindo que o homem não sabia ler. Então Leone pediu ao homem que contasse pausadamente até dez, em Italiano, acentuando com voz mais forte e mais alta a sucessão de números. E o pobre homem começou: “Uno, due, tre..." até chegar nervosamente ao dieci. Leone depois dublaria essa e todas as demais falas.

Leone conversando com as mãos com Clint
Eastwood e falando em Italiano com Morricone.
TEMPO PERDIDO NO ACTOR’S STUDIO - Na Itália praticamente todos os filmes passam dublados em Italiano e as produções italianas são dubladas em Espanhol, Francês e Inglês para distribuição naqueles mercados. Quando Eli Wallach teve a oportunidade de assistir a “Três Homens em Conflito”, dublado em Inglês, prestou atenção no diálogo com o soldado confederado maneta e para sua surpresa a dublagem ficara perfeita acompanhando os lábios do homem que contara até dez em italiano. Eli pensou consigo mesmo como havia sido inútil todos os anos de estudo no Actor’s Studio e de representações na Broadway, sempre tentando se aperfeiçoar para ver aquele homem contar até dez... E na primeira coletiva que Eli Wallach deu à imprensa italiana, quando abriu a boca para responder à pergunta inicial, todos desataram a rir sem parar. Foi necessário Leone explicar a ele que o dublador de ‘Tuco’ tinha uma bonita e profunda voz de barítono, enquanto a voz de Eli mais lembrava grunhidos estranhos. Só um homem com o talento de Sergio Leone seria capaz de fazer filmes que se tornariam clássicos, mesmo rodados naquela babel que eram os sets de produção na Espanha. Sem esquecer que esses filmes eram enriquecidos com a banda sonora acrescida ainda de excelente sonoplastia e as soberbas trilhas musicais de Ennio Morricone.

29 de novembro de 2011

'TUCO' NA CORDA – SERGIO LEONE MATANDO ELI WALLACH DE SUSTO


Eli Wallach desembarcou em Roma contratado que foi por Sergio Leone para interpretar o bandido ‘Tuco’ em “Três Homens em Conflito” (I Buono, Il Brutto, Il Cattivo), novo faroeste do rotundo diretor italiano. De Roma Eli Wallach foi junto com Clint Eastwood para Madrid e de lá novo vôo para uma localidade ao Sul do Mediterrâneo chamada Almería. Com poucas acomodações em Almería, Eli e Clint tiveram que dormir juntos numa cama de casal. Clint perguntou qual lado Eli preferia e o ator novaiorquino escolheu o lado esquerdo da cama, enquanto Clint ficou do lado direito. Coincidentemente essas eram as posições políticas de ambos. Na manhã seguinte os dois atores norte-americanos seguiram de carro para o local das filmagens. Clint conhecia bem os métodos de Sergio Leone pois esse era o terceiro filme que fazia com ele. Lee Van Cleef, o outro personagem-título também conhecia o estilo criativo de Leone.

ENFORCAMENTO DE TUCO - O trabalho de Eli com Leone começaria logo com a cena do enforcamento de ‘Tuco’. Eli que montava razoavelmente bem tinha que ficar em cima de um cavalo, com as mãos amarradas para trás e uma grossa corda no pescoço e a outra ponta amarrada numa árvore. ‘Tuco’ seria enforcado e Leone pediu para o ator John Bartha, que interpretava o xerife, ler a sentença de morte: “De acordo com o poder que estou investido, sentencio o acusado Tuco Benedicto Pacífico Juan Maria Ramirez a ser enforcado pelo pescoço até a morte.” Leone então explicou que no momento de ser enforcado ‘Blondie’ que estava numa esquina ali próximo dispararia um tiro de carabina acertando a corda que explodiria. Houve uma pausa para descanso e Eli Wallach pediu para Leone providenciar algodão para encher os ouvidos do cavalo que assim não se assustaria. Leone respondeu: “Bene, Eli. Non è pericoloso!”. Depois do café Eli retornou e montou no cavalo, mãos amarradas atrás e corda no pescoço à espera da ação. Clint dispara o rifle e o estampido faz o cavalo disparar enquanto o explosivo cortou a corda. Eli desesperado começou a gritar e apertava a barriga do cavalo com as pernas tentando fazê-lo parar, o que só aconteceu quase 100 metros adiante.



NON È PERICOLOSO! - Eli foi socorrido, desceu do cavalo, teve as mãos desamarradas e espumando de raiva perguntou para Leone se ele havia colocado algodão nos ouvidos do cavalo. A resposta seca foi: “Non, non è pericoloso.” E avisou que refariam a cena agora com o cavalo disparando assustado ao primeiro tiro de ‘Blondie’ mas com Eli preso com uma corda amarrada às suas costas. Após o tiro ele ficaria pendurado balançando. ‘Blondie’ então dispararia mais dois tiros e a corda se romperia com os explosivos quando ‘Tuco’ já estivesse próximo ao chão. Eli caiu de uma altura de 1,20m e olhou direto para Leone que exultante gritou: “Magnífico!” Eli Wallach já estava batizado para o resto de “Três Homens em Conflito” e certamente deve ter sentido saudade dos tempos em que a grande dificuldade era resistir aos encantos de Carroll Baker e seu baby-doll em “Boneca de Carne” de Elia Kazan... Eli Wallach, o inesquecível ‘Calvera’ de “Sete Homens e Um destino” (The Magnificent Seven) continua filmando aos quase 96 anos de idade que completará no próximo dia 7 de dezembro.