Alguns westerns de Randolph Scott são
subestimados apenas porque não fazem parte do aclamado lote dirigido por Budd Boetticher. Os
sete faroestes da associação entre Scott-Boetticher são considerados, em bloco, como excelentes, o que não implica que outros westerns do veterano
mocinho deixem de merecer igual reputação, nada ficando a dever aos melhores títulos da cultuada
série. “O Laço do Carrasco” (Hangman’s Knot) é um significativo exemplo disso.

CONFRONTO EXTEMPORÂNEO - Roy Huggins
dirigiu apenas um filme em toda sua vida e foi justamente “O Laço do Carrasco”,
do qual foi ainda o autor da história. Depois Huggins passou a criar e produzir
séries para a TV, as principais delas “Maverick”, “O Fugitivo” e “Arquivo
Confidencial”. A história de “O Laço do Carrasco” foge do convencional e passa-se
em 1865 quando a Guerra Civil já havia acabado há um mês. Porém essa informação ainda não chegou a um grupo
de soldados liderados pelo Major Matt Stewart (Randolph Scott), incumbido de resgatar algumas barras de ouro em poder de um destacamento da União.
Após o sucesso da missão o grupo descobre que houve a rendição do Sul e passa a
discutir o que fazer com o ouro. São então atacados por bandidos chefiados por
Quincey (Ray Teal) que querem se apossar do ouro e encurralam o Major Stewart,
seus homens e outras quatro pessoas num posto de diligência situado em local isolado. Os ex-confederados resistem e conseguem liquidar o bando de Quincey. No
entanto os comandados pelo Major Stewart são também mortos. Stewart
e um jovem soldado, únicos sobreviventes, decidem por questão de honra não
ficar com o produto do roubo.
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| Randy Scott |
NORTE X SUL EM TEMPOS DE PAZ - Certamente
foi lenta a transição para os tempos de paz após a rendição ocorrida em 9 de
abril de 1865 em Appomatox. As notícias demoravam a chegar a pontos mais
remotos e muitos confrontos mortais ocorreram após aquela data. Finda a
guerra, era hora de contabilizar os prejuízos, monumentais para a quase arrasada
Confederação Sulista e, na medida do possível, contar com qualquer tipo de
indenização. “O Laço do Carrasco” apresenta essa situação-dilema que é o que fazer com
barras de ouro que poderiam garantir um recomeço para o pequeno grupo de
ex-soldados sulistas, possibilitando mais um inevitável estudo sobre a cobiça
dos homens. Se o Major Matt Stewart (Scott) é apresentado como bravo e digno,
seus comandados Cass Browne (Frank Faylen), Rolph Bainter (Lee Marvin) e Egan
Walsh (John Call) não pensam como ele. Apenas o jovem Jamie Groves (Claude Jarman
Jr.), ainda não corrompido pela ambição, tem dúvidas sobre qual procedimento
tomar. A sanha do bando de Quincey (Ray Teal), despida de escrúpulos e de
ideais é que acaba demonstrando que o ouro não deve ficar de posse dos
vencidos, de aventureiros como Lee Kemper (Richard Denning) e menos ainda em
mãos de bandidos.
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Acima o laço do carrasco no pescoço de Frank Faylen; abaixo Jeanette Nolan e Clem Bevans. |
PEQUENO MAS NUNCA VAZIO FAROESTE - O
enredo enxuto de Roy Huggins permite ainda reflexões sobre variadas questões
como as perdas morais e danos psicológicos da guerra, especialmente com a presença da viúva Margaret Harris (Jeanette Nolan).
Privada do marido e filhos que lutaram pelo Norte, Margaret é uma mulher
traumatizada e naturalmente revoltada contra a presença de sulistas em sua casa
(um posto de troca de cavalos). Molly Hull (Donna Reed), uma ex-enfermeira do
Exército da União é obrigada a permanecer dentro da casa sitiada do posto. Lá ela cuida de um soldado ferido que antes de ser sulista é um ser humano, exemplo fácil mas funcional de
altruísmo no enredo de Huggins. E a nova América surge ao final promissora na figura
do inocente soldado sulista Jamie (Claude Jarman Jr.) que ao lado de Margaret Harris e
do idoso agente (Clem Bevans) da estação de diligências se compromete a reconstruir o bem maior que é o país, agora sem irmãos inimigos. Um faroeste de Randolph
Scott com 81 minutos de duração não é o ideal para se aprofundar esses temas,
mas mesmo assim “O Laço do Carrasco” não faz feio e mais que isso, se integra
perfeitamente à ação quase que intensa no decorrer do filme.
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| A linda Donna Reed. |
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O bando chefiado por Ray Teal; Monte Blue atrás da moita. |
A COMPETÊNCIA DE YAKIMA CANUTT - O
western de Huggins se inicia, sem o clássico logotipo da Columbia e sem os créditos que só
aparecem no terceiro minuto de filme. Ao invés deles o filme se começa com uma cena de emboscada, seguindo-se perseguições, tiroteios, tentativa de enforcamento e uma
violenta briga entre Randolph Scott e Lee Marvin, ou seja, tudo que o fã de
faroestes quer. As excelentes sequências de ação sob responsabilidade de
Yakima Canutt são interrompidas por diálogos concisos, inteligentes e tensos. Tudo isso distribuído por um elenco dos melhores em que se sobressaem as
ótimas Donna Reed e Jeanette Nolan. Além delas há Richard Denning, Clem Bevans
e Frank Faylen, bastante bons, ficando Claude Jarman Jr. em plano inferior.
Guinn ‘Big Boy’ Williams, Frank Yaconelli e principalmente Monte Blue formam o
quase patético bando de celerados comandados pela expressiva atuação de Ray
Teal.
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| Lee Marvin assediando Donna Reed. |
LEE MARVIN GANHAN-DO RESPEITO - Há uma
tese segundo a qual os westerns de Randolph Scott são bons ou ruins dependendo dos vilões
escalados, que fazem crescer não só o filme mas também a atuação de Randy. Com sua imagem de integridade, fibra e lealdade, mesmo quando em papéis
ambíguos, Scott domina a tela com sua persona, menos quando entra em cena
Lee Marvin. Ainda em início de carreira, Lee já era reconhecido como ladrão de
cenas, mas em “O Laço do Carrasco” o famoso durão está bastante contido, o que
não o impede de criar alguns dos melhores momentos do filme. Seu personagem Rolph Bainter
é praticamente isento de complexidade psicológica, distante, por exemplo do
inesquecível Bill Masters de “Sete Homens Sem destino”, rodado quatro anos
depois. Cruel, sempre pronto a disparar sua arma com sádico prazer, Lee Marvin faz seu personagem
crescer e de sexto nome nos créditos deixa entrever facilmente o estupendo ator
que o cinema ganhava.
SUCESSO DE BILHETERIA - “O Laço do
Carrasco” foi o maior sucesso de bilheteria entre os filmes produzidos por
Randolph Scott em parceria com Harry Joe Brown, computados inclusive os
westerns dirigidos por Budd Boetticher. Esse sucesso é bastante merecido uma
vez que “O Laço do Carrasco” é um daqueles westerns B quase perfeitos e o quase
fica por conta de merecer ser um pouco mais longo e poder contar com uma produção mais
elaborada. Culpa exclusiva de Roy Huggins que realizou um pequeno e belo western com características de
Classe A.