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22 de janeiro de 2014

O CAVALEIRO SOLITÁRIO (PALE RIDER) - NÃO RECONHECIDA OBRA-PRIMA DE CLINT EASTWOOD


Com a morte de John Wayne, Clint Eastwood passou a ser a única esperança dos fãs do western para que o gênero sobrevivesse, isto após a catástrofe financeira que foi “O Portal do Paraíso” (Heaven’s Gate), em 1980. Pouquíssimos westerns eram produzidos nos anos que se seguiram e mesmo Clint estava, em 1985, há nove anos sem atuar num faroeste desde que dirigira e protagonizara o excelente “Josey Wales o Fora-da-Lei”, em 1976. Eastwood era reconhecido a cada filme que dirigia, como um cineasta de talento e sua produtora Malpaso acumulava seguidos êxitos de bilheteria. Foi quando Clint recebeu um roteiro intitulado “The William Munny Killings” que o ator entendeu que era hora de retornar ao gênero que o consagrara. Mas Francis Ford Coppola tinha prioridade no script e Clint Eastwood jamais aceitaria ser dirigido por Coppola cuja concepção de produção de filme sempre foi totalmente diferente da rapidez e economia de Clint. Curiosamente Eastwood viria a dirigir esse mesmo roteiro anos depois, com o título “Unforgiven” (Os Imperdoáveis) após Coppola perder o direito à opção. Clint então decidiu produzir, dirigir e atuar em um western com roteiro da dupla Michael Butler-Dennis Shryack, intitulado “Pale Rider”. A escolha de Eastwood foi feita ao perceber que a história tinha alguns pontos em comum com “Os Brutos Também Amam” (Shane), clássico de George Stevens, filme pelo qual Clint manifestava admiração. Por sua sugestão o roteiro foi adaptado de tal forma que “Pale Rider” (que no Brasil se chamou “O Cavaleiro Solitário”) se transformou numa nova versão de “Shane”.


Clint Eastwood
O Pregador armado - Uma comunidade de mineradores da região de Carbon Valley se vê pressionada por Coy LaHood (Richard Dysart), minerador que usa técnicas modernas de extração agressivas à natureza com os propulsores hidráulicos cujos jatos destroem tudo que encontram pela frente na busca por minérios. LaHood almeja o monopólio total da exploração no desfiladeiro de Carbon e com a iminente determinação governamental de proibir aquele modelo de extração, o empresário quer se apropriar das áreas que por concessões legais pertencem aos pequenos bateadores. Estes são liderados por Hull Barret (Michael Moriarty) que sofrem um destruidor ataque por parte dos homens de LaHood. Atemorizados com a extrema violência e sem maiores recursos de defesa, os membros da comunidade estão prestes a abandonar suas áreas deixando-as para LaHood. Surge em Carbon Valley um estranho, dizendo-se Pregador (Clint Eastwood) que passa a ajudar Barret, unindo os mineradores e desafiando o poder e a força de LaHood. Este contrata os serviços do delegado Stockburn (John Russell) que chega à cidade acompanhado por seis bem armados assistentes. O Pregador, no entanto, liquida um a um os assistentes e por fim duela e mata Stockburn. Os dois homens já se conheciam de outro encontro em que Stockburn descarregara sua arma no Pregador. LaHood ainda tenta matar o Pregador atirando nele pelas costas mas é morto por Hull Barret. Colocando fim no domínio de LaHood, o Pregador parte solitariamente do mesmo modo como chegou. 

As costas do Pregador; a estupefação de LaHood
(Richard Dysart) e Stockburn (John Russell.
Misterioso ser sobrenatural - O tema central da história de “O Cavaleiro Solitário” nada tem de novo, pois histórias do bem contra o mal sempre foram o tema central dos faroestes. O que, no entanto, diferencia este western de Clint Eastwood dos demais é a caracterização do próprio herói, bem como a atmosfera que o diretor imprimiu ao filme através da soberba fotografia de Bruce Surtees. O misterioso personagem sem nome criado por Sergio Leone reaparece sob uma aura sobrenatural que já havia exibido em “O Estranho Sem Nome” (High Plains Drifter), surgindo onde necessário fosse, como um ente etéreo e inatingível. Na figura de um padre o estranho se reveste de maior ambiguidade podendo ele ser um fantasma ou um ser que sobreviveu após ser crivado de balas pelo Marshall Stockburn. E há ainda uma série de alegorias que esbarram fortemente na religiosidade como a dos ferimentos que o Padre traz no corpo, que lembram as chagas de Cristo. LaHood, Stockburn, homens e mulheres espreitam impressionados a caminhada do Padre como se estivessem diante de um ser ressuscitado. O personagem Spider Conway (Doug McGrath) exclama após ver em ação o pregador: “Preacher my ass”, que poderia ser melhor traduzida, ainda que eufemisticamente, por ‘Padre o cacete!’ E mais que proteger os bateadores o Padre objetiva a vingança que após consumada nada mais o prende a Carbon Valley, de onde parte, ecoando nas montanhas os  gritos da jovem Megan (Sidney Penny).

Doug McGrath (Spider) exclama "Padre uma ova!", ou quase isso...


Mãe e filha (Carrie Snodgress e Sidney
Penny) se ajeitando para impressionar o
Padre; Clint Eastwood e Michael

Moriarty tentando rachar uma rocha.
Correspondências com “Shane” - A crítica se dividiu diante de “O Cavaleiro Solitário” e nas resenhas negativas era comum a citação de “Shane”, havendo até mesmo quem falasse em debochada paródia. Declaradamente este western de Eastwood atualiza respeitosamente o clássico de George Stevens, mesmo porque entre um e outro houve o advento do Western Spaghetti do qual Eastwood foi um dos maiores beneficiários. Do filme de George Stevens estão em “O Cavaleiro Solitário” a reedição da retirada do tronco que muda para uma rocha que o roteiro inteligentemente faz se dividir pela força e fúria do fortíssimo Club (Richard Kiel); a ida de Spider Conway (Doug McCarthy) à cidade onde é covardemente assassinado não por um pistoleiro mas por cavaleiros que se assemelham aos do apocalípse; e ainda a amizade de Barret com o Padre. E mais que tudo a paixão que o estranho desperta em Sarah Wheller (Carrie Snodgress) e em sua filha Megan, aqui uma adolescente que em “Shane” é o pequeno Joey. E o envolvimento das duas mulheres com o Padre, mesmo previsível, ocorre com extrema delicadeza, mesmo que faça sofrer a jovem e satisfaça momentaneamente a mãe sedenta de amor. De poucas palavras, como de hábito são os personagens de Eastwood, o Padre transborda de indulgente ternura a sua ordem a Sarah: “Feche a porta!”, momento sublime deste western vigoroso. Impossível para o Shane/Alan Ladd dizer isso.

Carrie Snodgress e Michael Moriarty
(acima); Clint e Sidney Penny.
Ator principal em segundo plano - Clint Eastwood está presente em todo o filme, ainda que surja em cena em apenas metade das sequências, abrindo espaço para o drama da comunidade de bateadores, para a avidez de LaHood pai e filho e para a brutalidade dos dois grupos de vilões. Dos atores ‘secundários’ com intensa presença no filme destacam-se Michael Moriarty em ótima performance, seguido pela interpretação de Carrie Snodgress como a sofrida e desnorteada mulher abandonada pelo marido. John Russell, em seu penúltimo trabalho no cinema está esplêndido em sua circunspecção e sua morte, alvejado pelo Padre é nunca menos que antológica. Eastwood só não foi perfeito na direção de atores por permitir uma excessiva e aborrecida atuação de Doug McGrath que a todo custo tenta se mostrar superior à inesquecível criação de Elisha Cook Jr. como ‘Stonewall Torrey’ em “Shane”. Ótimo aproveitamento de Richard Kiel de quem Clint extraiu uma humanidade que não se suspeitava fosse ele fosse capaz de dar a seu personagem. E Clint Eastwood, o mestre do minimalismo, atinge um dos momentos maiores de sua carreira como ator, prenunciando a pungência e angústia com que interpretaria ‘William Munny’ em “Os Imperdoáveis”. Clint é desses raros atores que impõe sua persona aos tipos que interpreta aduzindo a eles forte expressividade, desta vez numa eminência fantasmagórica.

O Padre aplica uma surra de bastão nos
homens de LaHood.
Coesão e precisão narrativa - “O Cavaleiro Solitário” é um western extraordinário pela concisão de sua narrativa, resultado do domínio da linguagem cinematográfica por parte de Clint Eastwood. Assim como o próprio personagem-título, o filme é direto, com cortes secos porém precisos e sem excessos de movimentos desnecessários de câmara ou busca de ângulos que visem impressionar o espectador. O início atordoante mescla imagens do ataque dos homens de LaHood à comunidade com o terror estampado no rosto dos apavorados bateadores, completada pela alternância sonora num conjunto arrebatador. A sequência em que o Padre abate quatro capangas de LaHood com um cabo de enxada em frente ao armazém é admirável, ainda mais que o estranho faz uso da mesma arma que os homens utilizaram para surrar Barret. Inúmeros são os momentos de ação como o Padre enfrentando o gigantesco Club (cena idêntica à de "Butch Cassidy"), disparando contra Josh LaHood (Christopher Penn) e como se fosse uma aparição dizimando  o bando de LaHood. Eastwood reservou para o final um dos mais soberbos confrontos apresentados num western e longe do exibicionismo semiinfantil de “Silverado” (realizado no mesmo ano), Clint Eastwood rende homenagem a seu mestre Sergio Leone com uma composição meticulosa e de incrível beleza cênica, prescindindo da riqueza musical de Ennio Morricone. Eastwood impressiona ao mostrar o Padre provocando inquietação nos homens de Stockburn, desaparecendo em seguida e deixando no solo seu insólito chapéu que somente Clint poderia usar sem parecer caricato. As mortes desse confronto são rápidas e críveis, preparando para o momento supremo da execução de Stockburn que após ser trespassado por vários projéteis a queima-roupa, recebe o tiro de misericórdia na testa.

O tiro de misericórdia na testa
de Stockburn.
‘Um western decente’ - A música de “O Cavaleiro Solitário” foge de ser temática dos personagens, compondo-se de acordes sonoros que marcam fortemente cada cena, isto num tempo em que cada vez mais era valorizada a melosidade das trilhas sonoras. Rodado em 45 dias ao custo de quatro milhões de dólares, “O Cavaleiro Solitário” rendeu 60 milhões de dólares quando de seu lançamento nos Estados Unidos, desmentindo aqueles que diziam que faroestes não atraiam mais o público. Menosprezado ainda hoje por boa parte da crítica (Leonard Maltin atribui ao filme meras duas estrelas), “O Cavaleiro Solitário” recebeu de importantes críticos significativos elogios. Roger Ebert disse que o filme é “um western clássico no estilo e na emoção”; Vincent Canby (‘New York Times’) escreveu sobre “Pale Rider” dizendo que este “é o primeiro western decente em muitos e muitos anos”; Andrew Sarris afirmou em sua resenha sobre o filme "que os instintos de Clint Eastwood são inspiradores na intenção de manter o gênero vivo”; no Brasil Guido Bilharinho, autor do livro ‘O Filme de Faroeste’ deu a “O Cavaleiro Solitário” o subtítulo de “Obra de Arte”; A.C. Gomes de Mattos classificou este western de Eastwood como “um dos faroestes relevantes da década de 80”. “O Cavaleiro Solitário” é um western que raramente entra em alguma lista dos dez melhores, e uma exceção foi o caso de Aulo ‘Doc’ Barretti que o classificou em quarto lugar na sua relação de melhores faroestes. A culpa por esse menosprezo talvez recaía no fato de o outonal e premiado “Os Imperdoáveis” (Unforgiven) ser uma quase unanimidade não só na carreira de Clint como ator-diretor-produtor, mas também do próprio gênero. Isso não impede que “O Cavaleiro Solitário” seja um dos mais perfeitos faroestes do cinema norte-americano.


Um padre e sete 'homens da lei' com seus distintivos.