Lançado há exatos 60 anos, em 1953, “Os
Brutos Também Amam” (Shane) foi imediatamente reverenciado como o melhor
western de todos os tempos. A fama do filme de George Stevens precedeu sua
exibição criando enorme expectativa em todos os lugares em que foi exibido. No
Brasil não foi diferente e, seguindo as resenhas críticas norte-americanas,
“Shane” agradou ao público e aos articulistas brasileiros. Antônio Moniz
Vianna, o mais importante e influente crítico brasileiro na época, descreveu “Shane”
como um filme perfeito, uma obra-prima irretocável do gênero, no que foi
seguido pelos nossos demais críticos. E universalmente nenhuma discordância havia
quanto aos méritos do filme, até que o francês André Bazin questionou o
fenômeno chamado “Shane”.
Bazin
e o ‘Super-Western’ - Ao publicar o famoso artigo
“Evolution du Western” para a revista Cahiers du Cinéma, Bazin teorizou sobre o
gênero que chamou de “o cinema norte-americano por excelência” e criou uma nova
categoria de westerns, a do ‘Super-Western’. No entender de Bazin, os faroestes
que abandonavam a simplicidade do gênero, enveredando pelo esteticismo, psicologismo,
sociologismo, moral, política ou erotismo, seriam super-westerns. Segundo Bazin
todos esses fatores eram extrínsecos ao western e tornavam o gênero impuro. Sob
esse aspecto foram classificados como westerns impuros “Consciências Mortas”,
“O Matador”, “Almas em Fúria” e “Matar ou Morrer”. Bazin exemplificou sua
teoria justamente com “Shane”, comparando-o com o western de Budd Boetticher
“Sete Homens Sem Destino” (1956) e demonstrando o quanto este último western era
superior ao aclamado filme de George Stevens. A partir de então outros críticos
e historiadores, inclusive norte-americanos (Andrew Sarris e William K.
Everson), fizeram eco às teorias de André Bazin, cujo título mais adequado
seria ‘A Involução do Western’. E “Shane” deixou de ser a unanimidade a que
parecia destinado entre os grandes filmes de todos os tempos. No Brasil, mais
de 30 anos depois do texto de André Bazin, o jornalista Eugênio Bucci publicou
na Folha de S. Paulo a mais implacável e demolidora crítica sobre “Shane” que
se tem notícia até hoje (ler o artigo “Shane execrado pelo crítico Eugênio
Bucci” neste blog). Seria o filme de George Stevens merecedor de tamanha
crueldade?
A
impura busca da perfeição - Virou moda de certa forma falar mal
de “Shane” e muitas das críticas negativas falam geralmente do preciosismo
estilístico de George Stevens, da intenção deliberada de criar um mito do faroeste
e ainda da escolha errada do protagonista, Alan Ladd. De fato, Stevens
exacerbou na preocupação com enquadramentos e detalhes na composição de
cenários para criar aquilo que Bosley Crowther (‘New York Times’) chamou de estupendo
álbum de pinturas da fronteira. Sabe-se que fotografar animais exige antes de
tudo paciência e cães, cervos, potros, cavalos e mesmo pequenas aves complementam
de modo aparentemente casual muitas sequências de “Shane”. Tão perfeitamente se
comportam esses bichos que parecem mesmo atender ao perfeccionismo de Stevens. Se
por um lado a sucessão desses detalhes fruto de calculada precisão compromete a
espontaneidade, os mesmos aumentam num primeiro momento a riqueza cênica
mostrada no filme. E essa era a intenção de Stevens, cuja meticulosidade coloca
em cena sitiantes mostrados com realismo, como nunca o cinema havia feito. Mesmo
em sequências não estáticas, Stevens buscou se aproximar ao máximo da realidade,
como no duelo entre ‘Stonewall’ Torrey e o pistoleiro Jack Wilson, sequência
que Sam Peckinpah revelou ter produzido grande impacto sobre ele, inspirando-o
a reproduzir igual impacto em seus filmes. Ponderando sobre o que Bazin
escreveu chega-se à conclusão que todos os demais westerns a partir de então
seriam impuros por buscar diferentes linguagens cinematográficas. E o
estilizadíssimo “Era Uma Vez no Oeste”, uma das mais perfeitas obras que o
cinema conheceu, seria o mais impuro de todos os faroestes.
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Alan Ladd |
Clássico
herói do faroeste - Com “Shane” George Stevens criou uma
nova dimensão para o faroeste utilizando os tão criticados aspectos extrínsecos
que engloba numa perfeita e rica narrativa. Despido desses aspectos o tido
western ‘puro’ nada mais seria que um daqueles rotineiros pequenos faroestes
destinados ao público inocente das antigas matinês ou séries de TV. A história original
publicada por Jack Schaefer fala de um pistoleiro alto e misterioso que se veste de
preto, pouco se diferenciando do pistoleiro de aluguel Wilson. Entre as
diversas alterações que o roteirista A.B. Guthrie Jr. operou na história
original está a mudança de Shane aproximando-o do idealizado herói do Velho
Oeste. Shane é branco, jovem, bonito, valente, leal, generoso e de caráter
forte. Seu traje ocre o diferencia de todos os demais personagens e suas nobres
intenções fazem dele um homem instantaneamente confiável. Criado esse mito que
luta pelo progresso social e moral, distancia-se ele do real homem do Velho
Oeste, justamente como Stevens objetivou. Tanto que a primeira escolha do
diretor para interpretar ‘Shane’ era Montgomery Clift, ator capaz de condensar
todas as qualidades do herói sonhado e ainda uma certa fragilidade psicológica
que atrai as mulheres. O que seria bom para Montgomery Clift ficou perfeito em
Alan Ladd, mesmo sendo ele um ator limitado que ainda não havia sido dirigido
por um diretor do calibre de George Stevens que conseguiu contornar até mesmo a pequena altura de Ladd. Estava criado o mais clássico
herói do gênero.
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Shane e Marian, amor evitado. |
Tocante
história de amor - Em 1862 Abraham Lincoln editou e o
Congresso norte-americano aprovou o 'Homestead Act', lei que permitia que após
cinco anos vivendo e trabalhando num pedaço de terra este se tornasse
propriedade do agricultor. Isso contrariava os interesses dos grandes criadores
de gado que precisavam desses espaços para alimentar seus rebanhos. Confrontos
ocorreram em toda parte e no Wyoming não foi diferente, gerando em 1892 o conflito
histórico conhecido como “The Johnson County War”, mostrado em “O Portal do Paraíso”, de
Michael Cimino. A ação de “Shane” se passa em 1889 e a história quase
corriqueira da luta desigual pela terra se presta para construir a figura
mítica do herói misterioso que corrigirá as injustiças e depois se afastará.
Imagina-se a dúvida que deve ter tomado conta de George Stevens-AB. Guthrie Jr.
ao não aprofundar o triângulo amoroso que daria contornos mais interessantes ao
filme. Não escapa aos Starretts (pai e filho) a atração entre Shane (Alan Ladd)
e Marian (Jean Arthur), envolvimento que fica no platonismo possível pois Shane
é a quase perfeição humana, homem que gosta igualmente de Joe Starrett (Van
Heflin) e do pequeno Joey (Brandon De Wilde). Ainda assim o aperto de mão final
e a troca de olhares entre Shane e Marian deixam entrever uma tocante e bela
história de amor, ainda que frustrada. Esses momentos de intimidade tem
grandiosidade idêntica às primorosas cenas de ação encenadas pelo diretor.
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A luta no 'Grafton's'; a covardia de Wilson. |
A coreografada violência - A melhor sequência de ação do
western de Stevens é a luta entre Shane e Chris Calloway (Ben Johnson), confronto dividido em três tempos e que se inicia com os dois contendores. Em seguida os
demais capangas dos Rykers se juntam para massacrar Shane. Finalmente Joe
Starrett se une a Shane para tentar equilibrar a briga. Segundo depoimento de
Ben Johnson, foram necessários sete dias de filmagem para, com câmaras postadas
em ângulos diversos, satisfazer o diretor. Não mera pancadaria, mas uma luta
com ações sincronizadas, que resultou numa sequência emocionante. Mais adiante há a
luta entre Shane e Joe Starrett, luta assistida por Marian e por Joey, ela que
torcia certamente para que os dois sucumbissem à vontade de se defrontar com
os Rykers. Menos empolgante, até porque termina com um golpe sujo de Shane que
se viu impotente para conter Starrett, outra vez o realismo buscado por Stevens
se faz sentir quando os cavalos reagem assustados quase pisoteando os
contendores. Igualmente marcantes são os dois duelos do filme. O primeiro
desigual e covarde entre o gélido pistoleiro Jack Wilson (Jack Palance) e o
bravateador Torrey (Elisha Cook Jr.). O duelo final se dá com Shane insultando
Wilson e provando ser mais rápido que o pistoleiro que é morto; em seguida
Shane alveja mortalmente Rufus Ryker (Emile Meyer) que saca sua arma contra
Shane. Após colocar o revólver no coldre Shane é alertado pelo pequeno Joey que
a tudo assistiu e, mesmo atingido por Morgan Ryker (John Dierkes), Shane o
acerta mortalmente. O western ganhava um perfeito, bem editado e emocionante
conjunto de sequências violentas em um mesmo filme.
A
caminho de um outro mundo – No funeral de Torrey constata-se
novamente a calculada precisão de George Stevens prolongando deliberadamente a
sequência para emocionar o espectador. E lá está novamente o cão, como que lamentando a morte do dono, para
enternecer e produzir maior melancolia. Em “Rastros de Ódio” há também uma cena de funeral mas ocorre o contraste
quando um impaciente John Ford faz John Wayne vociferar “Put an amen on it, Reverend” (Coloque um amém logo nisso, Reverendo). Quando o filme se encaminha para o final Shane diz ao menino Joey Starrett antes de partir: “Eu tenho que ir. Um homem tem que ser o que ele é, Joey. Não se pode
quebrar o molde. Eu tentei mas não deu certo”. Antes disso Shane havia chegado
ao sítio dos Starretts e após travar contato com os lavradores decide mudar de
vida. Seu passado obscuro permite antever que ele fora um pistoleiro e apenas
isso. Shane inveja a felicidade daquela família e vê a possibilidade de
convivência respeitosa com ela. Todos gostam de Shane e Joey se deixa fascinar
pelo forasteiro e pelo mistério que o envolve. Decidido a se adaptar a esse
mundo novo recém descoberto, Shane encosta sua arma, despe-se de seu traje
peculiar e veste-se com as roupas simples iguais às dos sitiantes e por algum
tempo consegue ser um deles. Mas um homem tem que ser o que ele é e Shane
enfrenta a sanha dos Rykers e o pistoleiro de aluguel Wilson. Ferido, Shane
toma consciência que sua permanência entre os Starretts é impossível e se embrenha
pelas montanhas escuras, como se estivesse se encaminhando para outro mundo.
Ecoam pelo vale os gritos inúteis do menino, repetidos silenciosamente por
milhões de espectadores emocionados, pois Shane não voltará.
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Chris Calloway provoca Shane; abaixo o pistoleiro Jack Wilson. |
A
impávida canastrice de Jack Palance - Alan Ladd teve como Shane a melhor
interpretação de sua carreira. E deve tudo a George Stevens que utilizou a
técnica de, após terminadas as sequências, filmar isoladamente, em close, o
rosto de Alan Ladd conseguindo expressões jamais demonstradas pelo
ator em outros filmes. Stevens conseguiu também controlar Van Heflin que tem atuação discreta,
segura e forte sem nenhum excesso. O menino Brandon De Wilde (nove anos) não
tem culpa da superexposição a que foi submetido por Stevens que criou a ideia que o espectador participaria do filme no personagem do menino. Tantas
foram, porém, as intromissões por vezes irritantes do personagem infantil que
ele no mais das vezes se torna intrusivo. Jean Arthur tem boa atuação nesta sua
derradeira participação em um filme. Destaque para Elisha Cook Jr. que após
longa carreira como ser humano fraco, inseguro e covarde, interpreta um valente
homem do Alabama apelidado ‘Stonewall’. Torrey dá a impressão que se houvesse mais homens iguais a ele a história
da Guerra Civil poderia ter sido outra. A melhor interpretação em “Shane” é a
de Ben Johnson como o cowboy redimido. Em 1951 Johnson pensou em abandonar o
cinema devido a seu desentendimento com John Ford e nesse mesmo ano tornou-se
campeão nacional em uma categoria de rodeio. Sincero e humano Ben Johnson vive
o homem mau e provocador que aos poucos vê em Shane o exemplo regenerador.
Absurdamente indicado para o Oscar de Ator Coadjuvante, Jack Palance desfila
sua impávida canastrice em meio a um grupo de excelentes atores coadjuvantes
como Emile Meyer, John Dierkes, e Paul McVey, no recinto do bar de Sam Grafton.
Complementam o elenco os ótimos Douglas Spencer, Ellen Corby e Edgar Buchanan
em seguras participações menores.
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Joey impressionado com a aula de tiro. |
Entre
os melhores de todos os tempos - “Shane” custou três milhões de
dólares, o que parece pouco diante do que George Stevens gastou em filme
virgem. Stevens filmou o suficiente para fazer quatro filmes com a mesma
metragem final de “Shane”. Apenas para a sequência em que Shane ensina Joey a
atirar Stevens fez 119 tomadas para a cena que na tela dura segundos.
Atuando também como montador, Stevens passou 16 meses editando seu faroeste
cujas imagens tiveram como modelo telas do pintor Charles Russell e fotos de Henry
Jackson. E o esforço valeu à pena pois "Shane" é um dos mais belos faroestes
do cinema, tendo rendido nove milhões de dólares nas bilheterias
norte-americanas quando de seu lançamento e possivelmente outro tanto no resto
do mundo. Isto sem contar as sucessivas e aguardadas reprises. “Shane” obteve seis
indicações para o Oscar: Brandon De Wilde e Jack Palance para atores
coadjuvantes; melhor direção; melhor filme e melhor roteiro, vencendo somente na
categoria de Melhor Fotografia em Cores (Lloyal Griggs). “Shane” é o 45.º
melhor filme norte-americano de todos os tempos segundo enquete promovida pelo American Film
Institute em 2007, numa lista de cem melhores. Os outros cinco westerns que
aparecem nessa lista são “Rastros de Ódio” (12.º); “Matar ou Morrer” (27.º);
“Os Imperdoáveis” (68.º); “Butch Cassidy" (73.º); “Meu Ódio Será sua Herança”
(79.º). Faroeste que influenciou enormemente o gênero, “Shane” teve em 1985 uma
admirável refilmagem, mais apropriadamente uma homenagem, realizada por Clint
Eastwood sob o título de “Cavaleiro Solitário” (Pale Rider). Seis décadas após
seu lançamento “Shane” segue sendo o mais querido e o mais perfeito dos
faroestes.
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George Stevens na grua buscando o melhor ângulo de filmagem; a expressão de Stevens na moviola de edição diz tudo. |
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Poses para publicidade. |
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Verdadeiras pinturas retratando o Velho Oeste. |
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Todas as sequências do namoro entre Chris (Ben Johnson) e Susan Lewis (Janice Carroll) foram excluídas do filme. Abaixo Joey testemunhando cada momento do filme, como se fosse espectador. |
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O desvelo de Marian com Shane; Marian aturdida. |
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Shane, a nobreza de um homem do Oeste. |
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A morte de 'Stonewall' Torrey. |
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Shane contra Jack Wilson e contra Rufus Ryker. |