UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN
Mostrando postagens com marcador 1953 - Os Brutos Também Amam (Shane). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1953 - Os Brutos Também Amam (Shane). Mostrar todas as postagens

10 de setembro de 2013

SHANE (OS BRUTOS TAMBÉM AMAM) – UM FAROESTE EM BUSCA DA PERFEIÇÃO


Lançado há exatos 60 anos, em 1953, “Os Brutos Também Amam” (Shane) foi imediatamente reverenciado como o melhor western de todos os tempos. A fama do filme de George Stevens precedeu sua exibição criando enorme expectativa em todos os lugares em que foi exibido. No Brasil não foi diferente e, seguindo as resenhas críticas norte-americanas, “Shane” agradou ao público e aos articulistas brasileiros. Antônio Moniz Vianna, o mais importante e influente crítico brasileiro na época, descreveu “Shane” como um filme perfeito, uma obra-prima irretocável do gênero, no que foi seguido pelos nossos demais críticos. E universalmente nenhuma discordância havia quanto aos méritos do filme, até que o francês André Bazin questionou o fenômeno chamado “Shane”.

Bazin e o ‘Super-Western’ - Ao publicar o famoso artigo “Evolution du Western” para a revista Cahiers du Cinéma, Bazin teorizou sobre o gênero que chamou de “o cinema norte-americano por excelência” e criou uma nova categoria de westerns, a do ‘Super-Western’. No entender de Bazin, os faroestes que abandonavam a simplicidade do gênero, enveredando pelo esteticismo, psicologismo, sociologismo, moral, política ou erotismo, seriam super-westerns. Segundo Bazin todos esses fatores eram extrínsecos ao western e tornavam o gênero impuro. Sob esse aspecto foram classificados como westerns impuros “Consciências Mortas”, “O Matador”, “Almas em Fúria” e “Matar ou Morrer”. Bazin exemplificou sua teoria justamente com “Shane”, comparando-o com o western de Budd Boetticher “Sete Homens Sem Destino” (1956) e demonstrando o quanto este último western era superior ao aclamado filme de George Stevens. A partir de então outros críticos e historiadores, inclusive norte-americanos (Andrew Sarris e William K. Everson), fizeram eco às teorias de André Bazin, cujo título mais adequado seria ‘A Involução do Western’. E “Shane” deixou de ser a unanimidade a que parecia destinado entre os grandes filmes de todos os tempos. No Brasil, mais de 30 anos depois do texto de André Bazin, o jornalista Eugênio Bucci publicou na Folha de S. Paulo a mais implacável e demolidora crítica sobre “Shane” que se tem notícia até hoje (ler o artigo “Shane execrado pelo crítico Eugênio Bucci” neste blog). Seria o filme de George Stevens merecedor de tamanha crueldade?


Presença de animais em "Shane": o cervo que
presente a chegada de Shane; um pato sobre o
telhado da casa; o cão no funeral; o cão farejando
o corpo de Torrey morto no cavalo; o cão de
Grafton que se afasta è chegada de Wilson.
A impura busca da perfeição - Virou moda de certa forma falar mal de “Shane” e muitas das críticas negativas falam geralmente do preciosismo estilístico de George Stevens, da intenção deliberada de criar um mito do faroeste e ainda da escolha errada do protagonista, Alan Ladd. De fato, Stevens exacerbou na preocupação com enquadramentos e detalhes na composição de cenários para criar aquilo que Bosley Crowther (‘New York Times’) chamou de estupendo álbum de pinturas da fronteira. Sabe-se que fotografar animais exige antes de tudo paciência e cães, cervos, potros, cavalos e mesmo pequenas aves complementam de modo aparentemente casual muitas sequências de “Shane”. Tão perfeitamente se comportam esses bichos que parecem mesmo atender ao perfeccionismo de Stevens. Se por um lado a sucessão desses detalhes fruto de calculada precisão compromete a espontaneidade, os mesmos aumentam num primeiro momento a riqueza cênica mostrada no filme. E essa era a intenção de Stevens, cuja meticulosidade coloca em cena sitiantes mostrados com realismo, como nunca o cinema havia feito. Mesmo em sequências não estáticas, Stevens buscou se aproximar ao máximo da realidade, como no duelo entre ‘Stonewall’ Torrey e o pistoleiro Jack Wilson, sequência que Sam Peckinpah revelou ter produzido grande impacto sobre ele, inspirando-o a reproduzir igual impacto em seus filmes. Ponderando sobre o que Bazin escreveu chega-se à conclusão que todos os demais westerns a partir de então seriam impuros por buscar diferentes linguagens cinematográficas. E o estilizadíssimo “Era Uma Vez no Oeste”, uma das mais perfeitas obras que o cinema conheceu, seria o mais impuro de todos os faroestes.

Alan Ladd
Clássico herói do faroeste - Com “Shane” George Stevens criou uma nova dimensão para o faroeste utilizando os tão criticados aspectos extrínsecos que engloba numa perfeita e rica narrativa. Despido desses aspectos o tido western ‘puro’ nada mais seria que um daqueles rotineiros pequenos faroestes destinados ao público inocente das antigas matinês ou séries de TV. A história original publicada por Jack Schaefer fala de um pistoleiro alto e misterioso que se veste de­­­­­­­ preto, pouco se diferenciando do pistoleiro de aluguel Wilson. Entre as diversas alterações que o roteirista A.B. Guthrie Jr. operou na história original está a mudança de Shane aproximando-o do idealizado herói do Velho Oeste. Shane é branco, jovem, bonito, valente, leal, generoso e de caráter forte. Seu traje ocre o diferencia de todos os demais personagens e suas nobres intenções fazem dele um homem instantaneamente confiável. Criado esse mito que luta pelo progresso social e moral, distancia-se ele do real homem do Velho Oeste, justamente como Stevens objetivou. Tanto que a primeira escolha do diretor para interpretar ‘Shane’ era Montgomery Clift, ator capaz de condensar todas as qualidades do herói sonhado e ainda uma certa fragilidade psicológica que atrai as mulheres. O que seria bom para Montgomery Clift ficou perfeito em Alan Ladd, mesmo sendo ele um ator limitado que ainda não havia sido dirigido por um diretor do calibre de George Stevens que conseguiu contornar até mesmo a pequena altura de Ladd. Estava criado o mais clássico herói do gênero.

Shane e Marian, amor evitado.
Tocante história de amor - Em 1862 Abraham Lincoln editou e o Congresso norte-americano aprovou o 'Homestead Act', lei que permitia que após cinco anos vivendo e trabalhando num pedaço de terra este se tornasse propriedade do agricultor. Isso contrariava os interesses dos grandes criadores de gado que precisavam desses espaços para alimentar seus rebanhos. Confrontos ocorreram em toda parte e no Wyoming não foi diferente, gerando em 1892 o conflito histórico conhecido como “The Johnson County War”, mostrado em “O Portal do Paraíso”, de Michael Cimino. A ação de “Shane” se passa em 1889 e a história quase corriqueira da luta desigual pela terra se presta para construir a figura mítica do herói misterioso que corrigirá as injustiças e depois se afastará. Imagina-se a dúvida que deve ter tomado conta de George Stevens-AB. Guthrie Jr. ao não aprofundar o triângulo amoroso que daria contornos mais interessantes ao filme. Não escapa aos Starretts (pai e filho) a atração entre Shane (Alan Ladd) e Marian (Jean Arthur), envolvimento que fica no platonismo possível pois Shane é a quase perfeição humana, homem que gosta igualmente de Joe Starrett (Van Heflin) e do pequeno Joey (Brandon De Wilde). Ainda assim o aperto de mão final e a troca de olhares entre Shane e Marian deixam entrever uma tocante e bela história de amor, ainda que frustrada. Esses momentos de intimidade tem grandiosidade idêntica às primorosas cenas de ação encenadas pelo diretor.

A luta no 'Grafton's'; a covardia de Wilson.
A coreografada violência - A melhor sequência de ação do western de Stevens é a luta entre Shane e Chris Calloway (Ben Johnson), confronto dividido em três tempos e que se inicia com os dois contendores. Em seguida os demais capangas dos Rykers se juntam para massacrar Shane. Finalmente Joe Starrett se une a Shane para tentar equilibrar a briga. Segundo depoimento de Ben Johnson, foram necessários sete dias de filmagem para, com câmaras postadas em ângulos diversos, satisfazer o diretor. Não mera pancadaria, mas uma luta com ações sincronizadas, que resultou numa sequência emocionante. Mais adiante há a luta entre Shane e Joe Starrett, luta assistida por Marian e por Joey, ela que torcia certamente para que os dois sucumbissem à vontade de se defrontar com os Rykers. Menos empolgante, até porque termina com um golpe sujo de Shane que se viu impotente para conter Starrett, outra vez o realismo buscado por Stevens se faz sentir quando os cavalos reagem assustados quase pisoteando os contendores. Igualmente marcantes são os dois duelos do filme. O primeiro desigual e covarde entre o gélido pistoleiro Jack Wilson (Jack Palance) e o bravateador Torrey (Elisha Cook Jr.). O duelo final se dá com Shane insultando Wilson e provando ser mais rápido que o pistoleiro que é morto; em seguida Shane alveja mortalmente Rufus Ryker (Emile Meyer) que saca sua arma contra Shane. Após colocar o revólver no coldre Shane é alertado pelo pequeno Joey que a tudo assistiu e, mesmo atingido por Morgan Ryker (John Dierkes), Shane o acerta mortalmente. O western ganhava um perfeito, bem editado e emocionante conjunto de sequências violentas em um mesmo filme.

A caminho de um outro mundo – No funeral de Torrey constata-se novamente a calculada precisão de George Stevens prolongando deliberadamente a sequência para emocionar o espectador. E lá está novamente o cão, como que lamentando a morte do dono, para enternecer e produzir maior melancolia. Em “Rastros de Ódio” há também uma cena de funeral mas ocorre o contraste quando um impaciente John Ford faz John Wayne vociferar “Put an amen on it, Reverend” (Coloque um amém logo nisso, Reverendo). Quando o filme se encaminha para o final Shane diz ao menino Joey Starrett antes de partir: “Eu tenho que ir. Um homem tem que ser o que ele é, Joey. Não se pode quebrar o molde. Eu tentei mas não deu certo”. Antes disso Shane havia chegado ao sítio dos Starretts e após travar contato com os lavradores decide mudar de vida. Seu passado obscuro permite antever que ele fora um pistoleiro e apenas isso. Shane inveja a felicidade daquela família e vê a possibilidade de convivência respeitosa com ela. Todos gostam de Shane e Joey se deixa fascinar pelo forasteiro e pelo mistério que o envolve. Decidido a se adaptar a esse mundo novo recém descoberto, Shane encosta sua arma, despe-se de seu traje peculiar e veste-se com as roupas simples iguais às dos sitiantes e por algum tempo consegue ser um deles. Mas um homem tem que ser o que ele é e Shane enfrenta a sanha dos Rykers e o pistoleiro de aluguel Wilson. Ferido, Shane toma consciência que sua permanência entre os Starretts é impossível e se embrenha pelas montanhas escuras, como se estivesse se encaminhando para outro mundo. Ecoam pelo vale os gritos inúteis do menino, repetidos silenciosamente por milhões de espectadores emocionados, pois Shane não voltará.

Chris Calloway provoca Shane;
abaixo o pistoleiro Jack Wilson.
A impávida canastrice de Jack Palance - Alan Ladd teve como Shane a melhor interpretação de sua carreira. E deve tudo a George Stevens que utilizou a técnica de, após terminadas as sequências, filmar isoladamente, em close, o rosto de Alan Ladd conseguindo expressões jamais demonstradas pelo ator em outros filmes. Stevens conseguiu também controlar Van Heflin que tem atuação discreta, segura e forte sem nenhum excesso. O menino Brandon De Wilde (nove anos) não tem culpa da superexposição a que foi submetido por Stevens que criou a ideia que o espectador participaria do filme no personagem do menino. Tantas foram, porém, as intromissões por vezes irritantes do personagem infantil que ele no mais das vezes se torna intrusivo. Jean Arthur tem boa atuação nesta sua derradeira participação em um filme. Destaque para Elisha Cook Jr. que após longa carreira como ser humano fraco, inseguro e covarde, interpreta um valente homem do Alabama apelidado ‘Stonewall’. Torrey dá a impressão que se  houvesse mais homens iguais a ele a história da Guerra Civil poderia ter sido outra. A melhor interpretação em “Shane” é a de Ben Johnson como o cowboy redimido. Em 1951 Johnson pensou em abandonar o cinema devido a seu desentendimento com John Ford e nesse mesmo ano tornou-se campeão nacional em uma categoria de rodeio. Sincero e humano Ben Johnson vive o homem mau e provocador que aos poucos vê em Shane o exemplo regenerador. Absurdamente indicado para o Oscar de Ator Coadjuvante, Jack Palance desfila sua impávida canastrice em meio a um grupo de excelentes atores coadjuvantes como Emile Meyer, John Dierkes, e Paul McVey, no recinto do bar de Sam Grafton. Complementam o elenco os ótimos Douglas Spencer, Ellen Corby e Edgar Buchanan em seguras participações menores.

Joey impressionado com a aula de tiro.
Entre os melhores de todos os tempos - “Shane” custou três milhões de dólares, o que parece pouco diante do que George Stevens gastou em filme virgem. Stevens filmou o suficiente para fazer quatro filmes com a mesma metragem final de “Shane”. Apenas para a sequência em que Shane ensina Joey a atirar Stevens fez 119 tomadas para a cena que na tela dura segundos. Atuando também como montador, Stevens passou 16 meses editando seu faroeste cujas imagens tiveram como modelo telas do pintor Charles Russell e fotos de Henry Jackson. E o esforço valeu à pena pois "Shane" é um dos mais belos faroestes do cinema, tendo rendido nove milhões de dólares nas bilheterias norte-americanas quando de seu lançamento e possivelmente outro tanto no resto do mundo. Isto sem contar as sucessivas e aguardadas reprises. “Shane” obteve seis indicações para o Oscar: Brandon De Wilde e Jack Palance para atores coadjuvantes; melhor direção; melhor filme e melhor roteiro, vencendo somente na categoria de Melhor Fotografia em Cores (Lloyal Griggs). “Shane” é o 45.º melhor filme norte-americano de todos os tempos segundo enquete promovida pelo American Film Institute em 2007, numa lista de cem melhores. Os outros cinco westerns que aparecem nessa lista são “Rastros de Ódio” (12.º); “Matar ou Morrer” (27.º); “Os Imperdoáveis” (68.º); “Butch Cassidy" (73.º); “Meu Ódio Será sua Herança” (79.º). Faroeste que influenciou enormemente o gênero, “Shane” teve em 1985 uma admirável refilmagem, mais apropriadamente uma homenagem, realizada por Clint Eastwood sob o título de “Cavaleiro Solitário” (Pale Rider). Seis décadas após seu lançamento “Shane” segue sendo o mais querido e o mais perfeito dos faroestes.

George Stevens na grua buscando o melhor ângulo de filmagem;
a expressão de Stevens na moviola de edição diz tudo.

Poses para publicidade.

Verdadeiras pinturas retratando o Velho Oeste.

Todas as sequências do namoro entre Chris (Ben Johnson) e Susan Lewis
(Janice Carroll) foram excluídas do filme. Abaixo Joey testemunhando
cada momento do filme, como se fosse espectador.

O desvelo de Marian com Shane; Marian aturdida.

Shane, a nobreza de um homem do Oeste.

A morte de 'Stonewall' Torrey.

Shane contra Jack Wilson e contra Rufus Ryker.


8 de setembro de 2013

WESTERNVIDEOMANIA - A MÚSICA DE VICTOR YOUNG PARA "SHANE"


Victor Young
Quando do lançamento de "Os Brutos Também Amam" (Shane) no Brasil, em 1954, não só o filme, mas também a canção-tema desse faroeste fez grande sucesso. A canção composta por Victor Young ganhou o título "The Call of the Far-Away Hills" (O chamado das colinas distantes) e foi gravada por Paul Weston e Orquestra, sendo que essa gravação igualmente vendeu bastante aqui no Brasil em disco de 78 rotações. Diversas orquestras e cantores gravaram a canção de Victor Young, entre estes o ator-cantor Ken Curtis, cantando a letra criada por Mack David para a canção. No Brasil quem se aproveitou e gravou uma versão de "The Call of the Far-Away Hills" foi o cantor Osny Silva. Victor Young utilizou algumas canções tradicionais na trilha sonora de "Shane" e todos lembram que 'Stonewall' Torrey era vítima do sitiante ianque Pete Potts, que o provocava a todo instante tocando o "Dixie" com sua harmônica. Durante o funeral de Torrey Potts toca de forma pungente homenageando o amigo. "Goodbye Old Paint", outra canção tradicional alegrou a festa da comemoração do Dia da Independência". Nos dois vídeos abaixo podem ser ouvidas "The Call of the Far-Away Hills", com a Orquestra de Victor Young, exatamente como executada na introdução do filme, e ainda "Goodbye Old Paint", também conhecida por "I Ride an Old Paint".




16 de setembro de 2011

GEORGE STEVENS FILMANDO “SHANE” – O MAIS METICULOSO DOS DIRETORES


Certa vez perguntaram a Frank Sinatra se ele aceitaria ser dirigido por George Stevens. Sinatra estava num dos melhores momentos de sua extraordinária carreira e como ator fazia o que queria, quando queria, como queria e com quem queria. A resposta do cantor foi uma cutucada na fama de Stevens: “Só se eu for pago por cena rodada e não por cena finalizada. Houve um momento na carreira de George Stevens em que nenhum ator famoso queria ser dirigido por ele simplesmente para não ser submetido às absurdas exigências do diretor, o mais perfeccionista de todos quantos já atuaram em Hollywood. Liz Taylor foi uma exceção, tendo atuado três vezes sob as ordens de George Stevens na sua chamada fase mais elaborada. Um bom exemplo da forma de Stevens dirigir e se dar por satisfeito com uma sequência foram as filmagens de “Os Brutos Também Amam” (Shane).

REPETINDO A MESMA CENA DEZENAS DE VEZES - Esse brilhante western tem 117 minutos de duração e há uma sequência que dura exatos 2 minutos e 40 segundos na tela, quando o pequeno Joey Starrett (Brandon De Wilde) pede a Shane (Alan Ladd) para que este lhe ensine a atirar. Essa cena que quando projetada parece ser bastante simples, levou dois dias para ser feita (dias 10 e 11 de agosto de 1951). No dia 10 Stevens exigiu que fossem feitas 72 tomadas com a câmara posicionada em 29 diferentes ângulos. Por vezes a diferença entre a posição da câmara era de centímetros mais para cima, para baixo, para trás ou para um dos lados. Para essas pequenas movimentações de câmara e de iluminação foram gastas 2h44. Já haviam sido gastas duas horas em ensaios com a presença de Ladd, Jean Arthur e Brandon De Wilde. As filmagens propriamente ditas levaram mais 2h45 e aí o dia acabou com todo mundo querendo falar algumas coisas para Stevens, mas quem é que tinha coragem para isso? E ele anunciou que a cena continuaria no dia seguinte quando foram feitas outras 47 tomadas de 16 posições diferentes, gastando mais 2h43 para a preparação do set de filmagem, 1h22 para os ensaios (já haviam ensaiado exaustivamente um dia antes) e as filmagens foram feitas em 1h44. O resultado de todo esse trabalho foram oito tomadas com Joey pedindo a Shane para que o ensinasse a atirar; 11 de Shane mostrando como sacar; 12 do pistoleiro disparando; 15 tomadas da pobre pedra levando bala; seis closes mostrando o rosto estupefato de Joey e outras cinco tomadas de Marian dizendo a Shane que já há pistolas demais no vale.

G. Stevens coçando a cabeça durante a
edição de "Os Brutos Também Amam"
DESPERDÍCIO DE FILME - Foram levados para o laboratório um total de 3h59 de negativos para serem revelados e, como foi dito, a cena dura apenas 2 minutos e 40 segundos. George Stevens passou seis meses na sala de edição da Paramount editando “Os Brutos Amam”, num trabalho quase solitário e que só incomodava Adolfo Zukor, o presidente do estúdio que não sabia o que fazer com o filme que estourara orçamento, planos de filmagem e muitas paciências. Como resultado foi cortada inteiramente a sequência do relacionamento de Chris (Ben Johnson) com Susan Lewis (Janice Carroll), bem como reduzidas ao mínimo as sequências que tomaram dias para serem feitas como o incêndio no rancho de Fred Lewis que na tela dura apenas 10 segundos. Por baixo, com o desperdício de material que ocorreu em “Os Brutos Também Amam” daria para rodar pelo menos uma dúzia de outros westerns.

FESTA QUANDO “SHANE” ACABOU - Jean Arthur, aos 51 anos abandonou a carreira após interpretar Marian Starrett. Ela que já havia trabalhado com Stevens em outros dois filmes nos anos 40 disse que ele havia mudado muito e que o diretor se tornara uma pessoa sisuda e sem alegria. Alan Ladd e Van Heflin ficaram amigos durante as filmagens e juntos bebiam quase tudo aquilo que havia nas adegas de Jackson Hole para esquecer um pouco do chefe Stevens. Conta-se que Alan Ladd, mesmo sendo uma pessoa discreta e quase tímida, promoveu (ele próprio e não a Paramount) uma festa quando as filmagens de “Shane” chegaram ao fim. Responsável por clássicos do cinema como “Gunga Din”, “Ritmo Louco”, “Um Lugar ao Sol” e “Assim Caminha a Humanidade”, George Stevens dirigiu 20 filmes nos seus primeiros 20 anos como diretor (descontados os curta-metragens). Nos últimos 20 anos de carreira, depois de “Os Brutos Também Amam”, Stevens dirigiu apenas quatro filmes (“Assim Caminha a Humanidade”, “O Diário de Anne Frank”, “A Maior História de Todos os Tempos” e “Jogo de Paixões”).

SUCESSO DE PÚBLICO E CRÍTICA - George Stevens dirigiu três dos cem melhores filmes norte-americanos de todos os tempos, segundo a listagem da American Film Institute (AFI), respectivamente “Os Brutos Também Amam” (69.º), “Assim Caminha a Humanidade” (82.º) e “Um Lugar ao Sol” (92.º), o que faz dele um dos mais importantes diretores de Hollywood, isto numa geração onde a concorrência tinha nomes como Wyler, Capra, Ford, Hanks, Welles, Wylder, Hitchcock e outros. E mesmo com sua forma vagarosa, dispendiosa e irritante de trabalhar, Stevens legou ao gênero western a obra-prima chamada “Shane” para alegria eterna dos fãs de faroestes. E Adolfo Zukor não teve do que se queixar pois “Os Brutos Também Amam” custou em valores corrigidos 26 milhões de dólares e rendeu170 milhões, sendo até hoje o terceiro western de maior bilheteria na história do cinema, atrás apenas de “Duelo ao Sol” e “Banzé no Oeste”.

N.R. – Os dados referentes às filmagens de “Os Brutos Também Amam” foram extraídos do livro ‘Shane’, de autoria de Paulo Perdigão.

23 de fevereiro de 2011

"SHANE" PODERIA SER ASSIM...

O roteiro de“Shane” para o cinema foi escrito baseando-se numa história de autoria de Jack Schaefer publicada em 1949 e também chamado “Shane”. Porém algumas substanciais alterações foram feitas pelos roteiristas A.B. Guthrie Jr. e Jack Sher e é interessante imaginar como seria esse western clássico se o roteiro fosse como Jack Schaefer imaginou a história: O pequeno Joey chama-se Robert, apelidado de “Bob”, e é quem narra o livro na primeira pessoa; Shane era um pistoleiro que se vestia de preto e não com o famoso buckskin do filme; Marian tem uma participação mínima no livro, dedicando-se apenas a cozinhar e no livro não há nenhuma sugestão de atração por Shane; o falastrão Torrey (‘Paredão’) não morre no livro e sim conta como um outro sitiante foi morto pelo pistoleiro Stark Wilson em frente ao Bar Grafton’s; como pouco se sabe de Shane, especula-se no livro que ele seria um pistoleiro e jogador vindo de Arkansas e seu nome seria Shannon. No livro de Schaefer não havia um romance entre Chris Calloway (Ben Johnson) e Susan Lewis (Janice Carroll), a filha de Fred Lewis (Edgard Buchanan). Esse romance foi desenvolvido durante a filmagem e explicaria a súbita mudança que leva Chris a abandonar os Ryker. Porém essa história de amor foi inteiramente cortada na sala de edição. Se as pretensões do diretor George Stevens dessem certo, o elenco teria Montgomery Clift como Shane, William Holden como Joe Starrett e Katharine Hepburn como Marian. Porem essa composição de elenco encareceria demais a produção e a Paramount optou pela “prata da casa” com Alan Ladd, Van Heflin e Jean Arthur, que o estúdio mantinha sob contrato. Pode-se afirmar que todas essas alterações processadas certamente contribuiram para que “Shane” fosse um estrondoso sucesso de bilheteria no mundo todo, independente do título recebido em cada país. “Os Brutos Também Amam”, no Brasil; “Il Cavaliere della Valle Solitaria” (O Cavaleiro do Vale Solitário), na Itália; “Raíces Profundas” (Raízes Profundas), na Espanha; “L’Homme des Vallées Perdues” (O Homem dos Vales Perdidos), na França; “Mein Grober Freund Shane” (Meu Alto Amigo Shane), na Alemanha, foram alguns dos títulos recebidos pelo sublime western de George Stevens, e que nenhum admirador admite que se mude um fotograma sequer.

6 de fevereiro de 2011

O ÔNIBUS DE "SHANE"

"Os Brutos Também Amam" (Shane) é provavelmente o western mais querido e admirado de todos os tempos, mas nem por isso está imune àqueles que procuram defeitos no filme que foi caprichosamente dirigido por George Stevens. É bastante famosa a falha que mostraria um ônibus Greyhound passando numa estrada de Wyoming com a imponente Teton Mountains ao fundo. Muita gente jura que já percebeu esse erro de filmagem que ocorreria logo no início do filme. Outros dizem que lembram de ter visto o ônibus quando o filme passou no cinema, cena que teria sido cortada quando da edição lançada em VHS. Alguns afirmam que o ônibus seria do tipo escolar, pintado de amarelo (o que estaria fazendo um yellow bus naquela estrada?) Há ainda quem diga que o famoso ônibus só é visto no trailer de "Shane" pois o trailer já estava editado antes do lançamento do filme. Assistam ao trailer e vejam se encontram o lendário ônibus. E por que não aproveitar para rever "Os Brutos Também Amam" na íntegra? Caso o ônibus não apareça, uma coisa é garantida: a emoção de rever Shane enfrentando o pistoleiro Jack Wilson e os irmãos Ryker sob o olhar arregalado e apaixonado de Joey Starrett.