Conta-se que Samuel Fuller realizou "O Barão Aventureiro" (The Baron of Arizona), em 1950, em apenas 15 dias e com pequeno orçamento. Se essas informações são corretas, Fuller deve mesmo ser elevado à categoria de gênio do cinema como sempre afirmou o francês Jean-Luc Godard. "O Barão
Aventureiro" é uma excepcionalmente bem cuidada produção, com numeroso irrepreensível elenco, contando uma improvável história policial ocorrida no Velho Oeste. Mesmo com pouca ação essa história prende o espectador através de diálogos admiráveis e imagens que exploram o tétrico através do claro-escuro, fruto da cinematografia do renomado James Wong Howe.
O AVENTUREIRO J.A. REAVIS - O personagem-título deste filme de Samuel Fuller existiu e se chamava igualmente John Addison Reavis. Esse homem tentou aplicar um golpe se apropriando de uma vasta porção de terras situadas no Arizona e no Novo México, forjando documentos para isso, mas no entanto acabou preso e cumprindo dois anos de prisão. A vida de Reavis virou um livro escrito por Homer Croy, livro esse adaptado livremente para o cinema pelo próprio Samuel Fuller. Em "O Barão
Aventureiro" John Addison Reavis (Vincent Price) interpreta um oficial de cartório que se especializa em falsificações e fraudes criando um plano mirabolante para ser o dono do território do Arizona que ainda não havia se tornado Estado da União. Reavis forja todo tipo de documento certificando que uma menina bastante pobre chamada Sofia, filha do humilde Pepito Peralta (Vladimir Sokoloff), se torne a herdeira única de um certo Miguel Peralta, espanhol que mais de um século antes havia recebido a concessão da sesmaria que viria a ser chamada de Território do Arizona. O autor da concessão teria sido o Rei Ferdinando VI, da Espanha, que em 1748 fez com que Miguel Peralta passasse a ser o Barão do Arizona. Para executar seu mirabolante projeto fraudulento, John Addison Reavis viaja para a Europa e passa três anos, como monge, num monastério espanhol onde os padres são incumbidos de redigir os livros que registram as concessões reais dos territórios espanhóis mundo afora. Conquistando a confiança no monastério Reavis consegue falsificar uma centenária escrituração de posse de terras nos Estados Unidos. Em seguida Reavis passa a viver junto a ciganos e consegue se aproximar da nobreza espanhola, mais especialmente do Marquês (e da Marquesa) de Santella, em cujo palácio se encontra uma segunda cópia do livro de escriturações reais. O diabólico Reavis pensou em tudo, inclusive na educação da pequena Sofia (Karen Kester) a quem prepara para transformar em Sofia Peralta (Ellen Drew) e com quem se casará quando adulta. Concebida a sucessão de fraudes, John Addison Reavis reivindica junto aos órgãos governamentais seus direitos sobre todo o Território do Arizona, minas, rios e tudo que se encontra na região que será sua por direito. Atendido, Reavis torna-se o Barão do Arizona provocando a revolta da população e passa a ser alvo de investigação do agente governamental John Griff (Reed Hadley). Este descobre a fraude e Reavis é julgado e condenado.
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| Price no mosteiro como monge com Gene Roth e abaixo como cigano |
A REDENÇÃO DE UM PODEROSO - É típica nos faroestes a figura do ganancioso proprietário de terras, de gado ou de tudo que há nas cidades. Não raro esses poderosos senhores mandam e desmandam tendo a seu lado acovardados homens tidos como a serviço da Lei e da Justiça. Em alguns desses inescrupulosos senhores a sede de poder faz deles verdadeiros megalomaníacos que em seus delírios sonham expandir cada vez mais seus domínios e posses. John Addison Reavis não difere muito dos barões de gado ou donos de cidades e o gigantesco mapa do Arizona que decora seu rico escritório demonstra isso. Porém ao contrário daqueles poderosos do Velho Oeste, J.A. Reavis sofre um inesperado processo de redenção em sua megalomania, inicialmente ao não aceitar irrecusáveis 25 milhões de dólares que o Governo dos Estados Unidos lhe oferece para abrir mão de sua reivindicação. Posteriormente Reavis confessa sua culpa torturado pelo remorso que toma conta de sua consciência ao ver o amor que a esposa Sofia Peralta-Reavis lhe dedica. A redenção do criminoso se consuma ao sair da prisão e reintegrar-se à família e à sociedade despojando-se de sentimentos de ambição, poder e glória que um dia efemeramente chegou a ter como Barão do Arizona.
EXEMPLAR WESTERN NOIR - "O Barão
Aventureiro" é um western não convencional, fugindo do esquema tradicional do gênero, fruto da imaginação de Samuel Fuller. O diretor foge dos padrões dos faroestes e ao invés de cavalgadas, lutas e duelos, envolve o espectador com situações típicas de filmes policiais e ainda um prolongado julgamento do fraudador Reavis. Os personagens em boa parte do filme são monges, ciganos e a nobreza espanhola e o mais próximo que "O Barão
Aventureiro" chega de um faroeste é quando Reavis está prestes a ser linchado pelos revoltados moradores de Tucson. Some-se a esses personagens e cenários, o tom de filme noir criado por Fuller e James Wong Howe, isto no final de uma década onde esse estilo de filme imperou. E o próprio gênero western havia adotado a estética do filme noir com "Sua Única Saída" (Pursued), de 1947 e "Golpe de Misericórdia" (Colorado Territory) de 1949, ambos dirigidos por Raoul Walsh; "Sangue na Lua" (Blood on the Moon), de Robert Wise, de 1948; "Almas em Fúria" (The Furies), de Anthony Mann. A esses westerns soturnos faz companhia "O Barão
Aventureiro" de Samuel Fuller, lançado em março de 1950.
A GRANDE CRIAÇÃO DE VINCENT PRICE - Havia um projeto, em 1940, para ser filmada a história de John Addison Reavis e Edward G. Robinson interpretaria o lendário forjador. A comparação entre Robinson e Vincent Price, que afinal foi quem viveu Reavis na tela, é inevitável e por melhor ator que Robinson pudesse ser, Price proporcionou uma brilhante e inusitada criação do vigarista Reavis com sua dominante performance. Vincent Price se iniciou no cinema aos 27 anos, em 1938 e desde o início de sua carreira com seu porte físico e impressionante expressão facial interpretou figuras importantes em dramas históricos como Sir Walter Raleigh em "Meu Reino por um Amor", Rei Charles II em "O Renegado". o promotor Vital Dutour em "A Canção de Bernadette" e o Cardeal Richelieu em "Os Três Mosqueteiros". Outras interpretações marcantes de Price, em melodramas, foram como Russell Quinton, o noivo de Gene Tierney em "Amar Foi Minha Ruína" e como o playboy Shelby Carpenter, outra vez namorado de Gene Tierney em "Laura". No entanto, Vincent Price sempre afirmou que o papel de sua vida foi o de John Addison Reavis no pequeno grande filme de Samuel Fuller. E de fato, alguns anos depois da criação desse personagem, Price aperfeiçoaria esse tipo de persona que carregaria por toda carreira, especialmente na sua esplendorosa fase do terror com Roger Corman focalizando a obra de Edgar Alan Poe.
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| Reed Hadley em dois tempos como Griff |
O TALENTO DE FULLER - "O Barão
Aventureiro" foi o segundo filme de Samuel Fuller, realizado após "Eu Matei Jesse James" (I Shot Jesse James), faroeste por ele dirigido um ano antes. Fica evidente o domínio de Fuller no set de filmagem pois com um elenco bastante grande e em poucos dias de produção, ele extrai dos atores formidáveis desempenhos. Exemplo disso é a excelente interpretação de Reed Hadley (nas fotos à esquerda em dois momentos do filme), Hadley que fora mocinho de faroestes e também Don Diego de La Vega no seriado "A Legião do Zorro" (Zorro's Fighting Legion). O russo Vladimir Sokoloff de "Por Quem os Sinos Dobram" e "Sete Homens e um Destino" (The Magnificent Seven), convincentemente como sempre interpreta Pepito Peralta. A bonita Ellen Drew personifica Sofia Peralta adulta e faz até esquecer que a 'baronesa' era ainda bastante jovem e Ellen estava já com 35 anos. Robin Short é outro destaque do brilhante elenco de "O Barão do Arizona", bem como os demais atores característicos, o que só faz comprovar o talento de Fuller. Pensando bem, o eterno exagerado Godard tem razão em considerar Fuller um grande autor cinematográfico. "O Barão
Aventureiro" prova isso.
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| O Barão do Arizona Vincent Price com Reed Hadley (acima) e com Vladimir Sokoloff, o Pepito Peralta |







