UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

28 de maio de 2021

OS COWBOYS MAIS PROLÍFICOS DO CINEMA




 

Pesquisa do editor Darci Fonseca publicada originalmente na revista Pardner.

30 de abril de 2021

GRANDE ÁLBUM DO FAROESTE

 Em 2003, por ocasião da comemoração do centenário do primeiro verdadeiro filme, o western "O Grande Roubo do Trem" (The Great Train Robbery), Darci Fonseca, o editor deste blog, elaborou um álbum do faroeste. Esse álbum dividido em seis categorias apresenta um retrospecto fotográfico dos atores e atrizes que atuaram em westerns através da longa história do gênero. Faltarão muitos nomes importantes, é certo, mas, para compensar, muitos outros nomes que vimos na tela grande ou na TV foram lembrados. Essa matéria foi originalmente publicada na revista 'PARDNER', também editada por Darci Fonseca. Vamos a esses queridos cowboys e cowgirls:











1 de fevereiro de 2021

ENCENAÇÃO DO DUELO DO CURRAL OK (REENACTMENT OF THE GUNFIGHT AT THE OK CORRAL) - Parte 1


 

ENCENAÇÃO DO DUELO DO CURRAL OK (REENACTMENT OF THE GUNFIGHT AT THE OK CORRAL) - Parte 2


Participantes: Beto Nista, Lázaro Narciso Rodrigues, André Bova, André Colombo, Milton Martins, Renan hard e Darci Fonseca - Direção: Darci Fonseca.

ENCENAÇÃO DO FINAL DE "DUELO DE TITÃS" (LAST TRAIN FROM GUN HILL)


 Participantes: Beto Nista, André Bova, Lázaro Narciso, Darci Fonseca, André Colombo - Direção: Darci Fonseca.

1 de janeiro de 2021

A VINGANÇA DO LÁTEGO (MAN WITH THE STEEL WHIP) – ÚLTIMO SERIADO WESTERN DA REPUBLIC PICTURES




Produção econômica e descuidada
- A Republic Pictures, conhecida como ‘A Casa dos Seriados’ e onde foram produzidos alguns dos grandes clássicos desses filmes, usou até onde pode a figura de El Zorro, até que a Disney se apropriou do personagem criado por Johnston McCulley. Mas se havia algo que a Republic sabia fazer melhor que ninguém, além de bons seriados, era resolver as dificuldades a seu modo. Se não era mais possível usar o El Zorro, que se criasse outro mocinho com as mesmas características e foi assim que nasceu ‘El Látego’, que a criançada falava ‘El Latêgo’. Ronald Davidson elaborou o roteiro e Franklin Adreon produziu e dirigiu com a costumeira economia que o estúdio não abria mão de praticar. A começar pelo traje do herói, em tudo parecido com o que foi usado por Linda Stirling em “O Chicote do zorro” (Zorro’s Black Whip), de 1944. Sequências de arquivo foram utilizadas em profusão, como era prática comum nos seriados, mas neste há até uma sequência de flash-back ocupando boa parte de um episódio. Seriados westerns eram mais baratos porque as externas eram filmadas logo ali em Alabama Hills ou no Iverson Ranch, mas percebe-se neste “A Vingança do Látego” que a maior parte das externas, quando não de arquivo, foram feitas mesmo no terreno do estúdio, sem o menor cuidado com o cenário que se altera durante uma mesma sequência.
 

 


Nos mais de 40 anos em que Hollywood produziu seriados o gênero western raramente deixou de ter pelo menos um exemplar anual para alegria dos fãs de aventuras passadas no Velho Oeste. Buck Jones foi, entre os mocinhos famosos, o que mais estrelou seriados westerns, num total de seis e Johnny Mack Brown o seguiu de perto com quatro desses filmes em capítulos. Este blog faz pela primeira vez uma resenha de um seriado e o escolhido foi o último do gênero faroeste produzido pela Republic Pictures: “A Vingança do Látego”, de 1954. Como se sabe os seriados da década de 50 são considerados dos mais fracos, mas para mim este que é focalizado tem um significado muito especial pois foi o último que assisti nas matinês dominicais do Cine Marconi, situado à Rua Correa de Melo, no Bom Retiro, em São Paulo. O ano muito distante era o de 1955. Foi o útimo porque a partir de então não mais aquele pequeno cineminha com cadeiras de madeira exibiu outro seriado, para tristeza da garotada que os adorava e não perdia um episódio desse tipo de filme. O amigo Sebá Santos me providenciou uma cópia de “A Vingança do Látego” e matei a saudade das aventuras daquele cavaleiro mascarado que parecia mas não era o Zorro, imagens que nunca saíram da minha lembrança e que não poderiam deixar de ser comentadas aqui no Westerncinemania. 


Mocinho que monta bem e briga mehor
- A economia se estendeu na escolha do elenco com os principais personagens sendo interpretados por nomes pouco conhecidos do público, à exceção de Roy Barcroft que tem pequena participação, desta vez como sheriff, aparecendo apenas no 8.º capítulo e depois no 10.º e 12.º. O herói mascarado foi vivido por Dick Simmons (foto ao lado), ator então com quase 20 anos de carreira e que só viria a se tornar mais conhecido ao interpretar o ‘Sargento Preston’, da série de TV “O Rei da Polícia Montada” (1955/1958), atuando como Richard Simmons. Dick montava bem, brigava melhor ainda, tinha ótima voz e isso bastava para compensar sua total falta de carisma. Barbara Bestar foi a mocinha, com pouco a fazer na aventura. O trio de vilões foi interpretado por Dale Van Sickel, Lane Bradford e Mauritz Hugo, sendo que nas sequências de ação em que Van Sickel e Bradford travavam luta corporal com Dick Simmons, eram eles próprios que lutavam, dispensando os dublês. Tom Steele, além de fazer figuração como membro da quadrilha, vestia a roupa do Látego e enfrentava os bandidos com sua excepcional forma atlética. 



De olho nas terras dos índios
- Produzido em 12 episódios, “A Vingança do Látego” narra o interesse de Barnett (Mauritz Hugo, na foto ao lado), dono do saloon, em se apropriar das terras da reserva onde vivem os índios. Para isso tenta instigar os habitantes da cidade contra os nativos. Barnett sabe que nessas terras há ouro e daí o seu interesse, contando com o trabalho de seu capanga Crane (Dale Van Sickel) e de Tosco (Lane Bradford), um índio renegado. Barnett não contava era com a interferência de Jerry Randall (Dick Simmons) que se posiciona a favor dos índios protegendo-os. Para ganhar a simpatia dos pele-vermelhas Randall faz reviver a figura lendária de 'El Latego' que no passado teria sido grande amigo dos índios. Crane e Tosco dão trabalho a Randall durante todos os doze capítulos. Randall conta com as informações de Nancy Cooper (Barbara Bestar) a professora da escola local, mas enfrenta os criminosos sozinho, ou melhor, armado com seu Colt e chicote. Ao final a quadrilha é desbaratada e a paz volta a reinar entre brancos e índios. (Nas fotos abaixo vemos Dale Van Sickel com Mauritz Hugo e Lane Bradford com Hugo)



Ricochete no feno
- Uma curiosidade é o título deste seriado que diz que o chicote seria de aço quando de fato, e não poderia ser diferente, ele é feito de couro. E muito bem manuseado por Dick Simmons. “A Vingança do Látego” foi filmado em inacreditáveis 18 dias, entre 2 e 22 de março de 1954 (excluídos os domingos), ao custo exíguo de 175 mil dólares. Mesmo contando com técnicos de reconhecida qualidade como o cinegrafista Bud Thackery e os irmãos especialistas em efeitos especiais Howard e Theodore Lydecker, há uma sequência que provoca risos. É quando El Látego troca tiros com os bandidos dentro de um celeiro e um dos tiros acerta um monte de feno e ouve-se nitidamente o ricochetear da bala. Pela primeira vez no cinema um tiro ricocheteou no feno, ótima gag para uma comédia dos Três Patetas, mas não para um western sério, ainda que para um público menos exigente. (Nas fotos vemos Lane Bradford em luta contra El Látego; abaixo El Látego rendendo Lane Bradford e Dale Van Sickel; Van Sickel tentando matar El Látego com um enorme garfo de feno).



65 anos depois El Látego em ação
- Embora a história resvale na violência contra os nativos, sempre motivada pela ganância dos brancos, não há crítica alguma direta à questão, mesmo o cinema já tendo apresentado westerns como “O Caminho do Diabo” (Devil’s Doorway) e “Flechas de Fogo” (Broken Arrow). Afinal seriados não se propunham a discutir temas como esse. Os seriados, quando assistidos em contexto diferente daqueles para o qual foram propostos, as matinês para crianças e jovens, sempre funcionam de modo diferente. E nem poderia ser de outra maneira. Mas a criatividade, excelentes sequências de ação e alta qualidade técnica continuam admiráveis mesmo aos olhos de adultos, inevitavelmente mais críticos. Porém este “A Vingança do Látego”, mesmo com a carga emotiva da nostalgia de quem o assistiu no cinema há 65 anos, não resiste e ao revê-lo torci para que chegasse logo ao fim. Até porque há tantos e melhores seriados westerns para serem assistidos, como por exemplo “A Tribo Misteriosa” (Daredevils of the West), também da Republic Pictures e estrelado pelo grande Allan ‘Rocky’ Lane. (Na foto Dick Simmons como El Látego).


Pat Hogan e Roy Barcroft



27 de julho de 2020

OS BANDEIRANTES (THE COVERED WAGON) – PRIMEIRO VERDADEIRO WESTERN-ÉPICO



Nos tempos atuais em que há centenas e centenas de cinéfilos que jamais assistiram a um western é bom lembrar que este gênero, nas primeiras décadas do cinema, era dominante na preferência dos espectadores. Os estúdios tinham na produção de faroestes com duração ao redor de 60 minutos uma das suas mais rendosas sustentações e entre os astros mais bem pagos de Hollywood estavam cowboys como William S. Hart, Tom Mix e Harry Carey. Mesmo considerando que William S. Hart estrelou e dirigiu filmes acima da média como “As Portas do Inferno” (Hell’s Hinges), de 1916, os westerns ficavam distantes do conceito de cinema de qualidade, categoria reservada para cineastas como David W. Griffith e seus épicos, Charles Chaplin e mesmo europeus como os expressionistas F.W. Murnau ou Robert Wiene. O gênero western, ainda que estimado pelo público espectador, era considerado apenas cinema de entretenimento e não levado na devida conta pelos críticos. Tudo mudou com a produção e lançamento, em 1923, de “Os Bandeirantes” (The Covered Wagon), longa-metragem com duração de 98 minutos e que, de imediato, se transformou em sucesso de crítica e de público, tornando-se a maior bilheteria do ano nos Estados Unidos. E o mais importante: fez com que os faroestes passassem a ser olhados de modo diferente, agora muito mais respeitoso.


Acima Emerson Hough e Jack Cunningham;
abaixo Jesse L. Lasky e James Cruze
Inédita superprodução - Baseado em livro de Emerson Hough, autor de histórias que narravam aventuras passadas no Oeste e com adaptação do experiente roteirista Jack Cunningham, a direção e “Os Bandeirantes” coube a James Cruze, que até então nada havia dirigido que chamasse maior atenção ao seu nome. Quem quer conhecer melhor a filmografia de Cruze descobre que a maioria dos seus filmes foram dados como perdidos, o que dificulta ainda mais uma avaliação do seu trabalho como diretor. Estranhamente, até por ser um faroeste, a Paramount optou por produzir este western como uma superprodução que seria rodada em locações e ao custo estimado de 700 mil dólares que ao final chegou aos 800 mil. A título de comparação, “O Garoto”, de Chaplin, foi produzido em 1921 custando ao final 250 mil dólares sendo que Chaplin era sinônimo de investimento garantido. Jesse L. Lasky, o poderoso sócio fundador da Paramount fez questão de assumir pessoalmente a produção executiva do filme e de cara se defrontou com problemas na formação do elenco principal. Isto porque Mary Miles Minter, pensada para interpretar a heroína, teve seu nome relacionado ao assassinato de um conhecido diretor e foi descartada. Como havia ainda a disposição da Paramount de não gastar com astros que cobravam muito, o papel acabou nas mãos de Lois Wilsonl.

Acima Mary Miles Minter e Lois Wilson;
abaixo Ernest Torrence e Karl Brown
Formação do elenco - J. Warren Kerrigan, ator que contracenara com Lois Wilson em duas dezenas de filmes seria o principal nome masculino da jornada épica descrita em “Os Bandeirantes” e, mais uma vez, iria namorar a atriz em um filme. Como terceiro nome do elenco e completando o triângulo amoroso da história, foi chamado Alan Hale, ator de 30 anos de idade e no cinema desde os 20 anos. Hale se destacara como ‘Little John’ nas aventuras de Robin Hood filmada em 1922 e estrelada por Douglas Fairbanks e voltaria a interpretar esse mesmo papel na famosa versão de 1938 com Errol Flynn como protagonista. O clássico “David, o Caçula”, de Henry King alcançara enorme êxito em 1922 e o escocês Ernest Torrence havia sido um dos destaques desse filme, sendo escalado para “Os Bandeirantes”. Também como importante coadjuvante, interpretando o caçador Jim Bridger, juntou-se a Torrence (um batedor da caravana) o já veterano Tully Marshal, e a Charles Ogle que atuou como o chefe da expedição. A difícil missão de comandar a equipe de cinegrafistas coube ao jovem Karl Brown, então com apenas 26 anos mas acumulando bastante experiência tendo trabalhado como assistente em “Intolerância”. No entanto o que levou a Paramount a confiar em Karl Brown foram as técnicas cinematográficas que ele havia criado como a dupla impressão de negativos e projeção com modelos miniaturizados, técnicas então revolucionárias.

Delmer Daves
Preocupação com a autenticidade - O enorme grupo de técnicos e mais os atores rumou para as locações que se desenvolveram em Utah, Arizona, Oregon, Deserto de Sonora na Califórnia e Nevada, enquanto o produtor Jesse L. Lasky controlava à distância as despesas com esse western, uma verdadeira superprodução se considerado o conjunto que o envolveu. Os índios que são vistos em “Os Bandeirantes” são todos eles indígenas de verdade demonstrando a preocupação da produção com a autenticidade. Lasky acreditava em novos talentos e assim como o jovem Karl Brown respondeu pela cinematografia, a outro técnico ainda mais jovem chamado Delmer Daves, de apenas 18 anos de idade, foi atribuído chefiar o departamento de acessórios e adereços também visando a maior genuinidade de tudo que seria visto na tela. Não consta da biografia de Delmer Daves qualquer outro trabalho anterior nessa área mas o certo é que praticamente nenhum detalhe escapou ao jovem futuro diretor de tantos westerns clássicos.

Bizões duplicados pela técnica
do cinegrafista Karl Brown
Rebanhos e manadas - Um grupo de conselheiros técnicos e historiadores foi igualmente contratado. O número de pessoas envolvidas nas locações chegou a três mil e em alguns locais onde durante o dia o calor passava de 40 graus, baixando à noite para temperaturas negativas. A essas despesas se juntaram às dos 500 carroções que descendentes dos pioneiros ainda mantinham como recordação e que foram alugados para as filmagens. Enormes rebanhos de gado, mil cavalos, 200 mulas igualmente foram transportados para os locais de filmagens. E até mesmo búfalos que já não mais existiam em rebanhos tão grandes quanto o necessário foram simulados por truques da ainda incipiente cinematografia. Naquele tempo não vigiam as normas de proteção aos animais e pelo menos dois cavalos morreram em sequências mais perigosas como a da travessia de um rio. Nunca é demais lembrar que os épicos de D.W. Griffith foram quase totalmente filmados em estúdio, enquanto a colossal produção de “Os Bandeirantes” obrigou a um estúdio ambulante através de inóspitas regiões.

Centenas de cavalos na travessia de um rio

Lançamento e impacto - Findas as filmagens e após a fase de edição, o lançamento de “The Covered Wagon” ocorreu nos Estados Unidos em março de 1923. O sucesso foi estrondoso e para muitos foi considerado o mais importante de todas as produções cinematográficas norte-americanas. Para exibição no Brasil o sugestivo título original foi substituído por “Os Bandeirantes”, isto porque na primeira metade do século passado os bandeirantes de nossa História eram mostrados como heróis desbravadores, o que certamente atrairia mais público para ver o filme. Em Portugal, onde poucos sabiam o que seria um ‘bandeirante’, o título escolhido foi o muito mais apropriado: “A Caravana Gloriosa”.

Belos pôsteres anunciando o western épico

Westward, Ho! - Uma caravana liderada por Jesse Wingate (Charles Ogle) parte de Wesport, no Kansas, com destino ao Oregon, onde os aventureiros se instalariam buscando vida melhor. A esse grupo de desbravadores junta-se uma segunda caravana chefiada por Will Banion (J. Warren Kerrigan) e que tem como batedor William Jackson (Ernest Torrance). Pelo caminho, a imensa e agora duplicada caravana, se defronta com problemas de toda ordem como as inevitáveis intempéries, as difíceis travessias de rios e escaladas de morros e os ataque de índios. Os mais fracos da caravana são vencidos pelas adversidades e algumas famílias optam por retornar ao Kansas e em determinado momento surge a notícia da descoberta de ouro em abundância na Califórnia, o que faz com que mais membros da caravana desistam de chegar ao Oregon. Molly Wingate (Lois Wilson), a filha de Jesse Wingate está pronta para se casar com Sam Woodhull (Alan Hale), mas ao conhecer Will Banion se interessa por ele, fica indecisa e acaba desistindo do casamento. O inconformado Woodhull usa de violência e de intrigas para manchar a reputação de Banion mas é este quem termina por conquistar o amor de Molly após se descobrir que Banion é, de fato, um homem íntegro. Banion é reintegrado ao seu posto no Exército, deixando de pairar dúvidas sobre sua conduta como oficial. Afinal a caravana cumpre seu objetivo e os pioneiros iniciam a tão sonhada nova vida no Oregon, quase dois mil quilômetros distante do ponto de partida.

J. Warren Kerrigan e Lois Wilson
Um ator sem nenhum carisma - A saga dos pioneiros de “Os Bandeirantes” foi filmada em forma de documentário ao qual foi inserida uma subtrama amorosa com desfecho por demais previsível. Porém é preciso lembrar que este é um filme de 1923 e como tantos outros o enredo foge de maior complexidade. O grande pecado deste épico, porém, reside na escolha do ator principal, J. Warren Kerrigan, incapaz de criar empatia com o espectador e que cansa a cada vez que entra em cena com sua insipidez e excesso de maquiagem. Quase o mesmo pode ser dito de Lois Wilson e ambos contribuem negativamente para que qualquer tipo de emoção seja transmitida pelos personagens. Prevaleceu a ideia de a epopeia ser mais importante que as clássicas tramas amorosas e para isso as inexpressivas atuações de Kerrigan e Lois Wilson contribuíram ainda que involuntariamente. Por sorte outros tipos do filme são mais vivos e interessantes como o batedor Jackson, o caçador Bridger e a senhora Wingate (Ethel Wales), mãe de Molly, todos eles dando mais sabor às histórias paralelas à epopeia dos pioneiros. Sem dúvida um western, no entanto um filme menos preocupado com as ações típicas do gênero e ressaltando como o arado, ao invés de armas  é que seriam responsáveis pelo crescimento e grandeza do país.

Ernest Torrence, Tully Marshall e Alan Hale

A divisão da grande caravana: parte dela
preferiu a ilusão da riqueza fácil
Cenário magnífico - O momento crucial do triângulo amoroso se dá quando da chega a Fort Bridger quando o diretor procurou criar um suspense com a noiva sendo alvejada por uma flecha que anuncia o ataque dos índios. Faltou a James Cruze maior habilidade para tirar proveito dessa situação dramática. Se a trama amorosa não convence, por outro lado a longa jornada que é o assunto principal do épico impressiona a cada etapa que é vencida pela gigantesca caravana magnificamente fotografada na amplidão das terras e obstáculos a serem vencidos. A escolha do local onde ocorre o ataque dos nativos à caravana foi de rara felicidade e é geograficamente esplendoroso, propiciando imagens que dificilmente serão esquecidas com o círculo de carroções se fechando entre altas formações rochosas, cenário simplesmente espetacular.


Alguns poucos risos - Num tempo em que a comicidade no cinema atingia seu auge com Chaplin e Buster Keaton, James Cruze buscou atenuar o aspecto fortemente documental de “Os Bandeirantes” com encenação de sequências pretensamente engraçadas com as participações do batedor Jackson e do montanhês Bridger. Embora careteiro, o que não era considerado excessivo à época, Torrance (Jackson) é divertido, assim como Tully Marshal (Bridger) e só não provocam mais risos devido à mão pesada de Cruze para a comédia, ele que, entre outros cômicos, dirigiu algumas vezes Roscoe ‘Fatty’ Arbuckle, o ‘Chico Bóia’. O momento mais engraçado se dá quando o sisudo Jesse Wingate diz (a fala aparece num letreiro) que “se o líder Mórmon Brigham Young conseguiu chegar até aqui com suas esposas, eu também posso com meus carroções”. E a frase soa mais jocosa ainda quando se sabe que James Cruze era Mórmon...

A pilhéria com os Mórmons

O verdadeiro Jim Bridger
O caso Jim Bridger - Entre os muitos montanheses que ajudaram a desbravar as novas terras norte-americanas, um dos mais famosos foi Jim Bridger. As referências a ele são sempre como tendo sido um homem fortíssimo, alegre, contador de histórias e muito requisitado como batedor por conhecer como poucos regiões selvagens nas quais somente os destemidos e experientes sobreviviam. Jim Bridger tornou-se uma lenda e teve participação na história escrita por Emerson Hough, mas apresentado de modo pouco condizente com o que ele fora na realidade. O Jim Bridger vivido por Tully Marshall é espirituoso e brincalhão, porém beberrão e irresponsável, como na sequência em que faz desafio de pontaria com William Jackson. Bridger também é mostrado com duas esposas índias, ele que foi casado com três índias mas em períodos diferentes. Os descendentes de Jim Bridger não gostaram e processaram a Paramount solicitando uma indenização de um milhão de dólares pelos danos à imagem do célebre montanhês. Ao final do processo a Justiça deu ganho de causa à família. Inúmeras localidades e escolas norte-americanas homenagearam o caçador, explorador e guia com o nome ‘Jim Bridger’. Entre os muitos atores que personificaram Bridger em filmes ou séries de TV estão Van Heflin, Raymond Hatton, Harry Shannon, Dennis Morgan e Karl Swenson.

Tully Marshall. à direita Ernest Torrence, Guy Oliver e Tully Marshall

Western pioneiro - Além da referência a Brigham Young há uma outra  menção feita a Abraham Lincoln também na tentativa de dar maior credibilidade à história e sua localização no tempo. Porém a acurácia falhou ao mostrar os carroções, mesmo após os desafios da longa jornada, desfilarem com suas lonas impecáveis, sem rasgos ou as inevitáveis sujeira e desgates. Impressionante ao tempo em que foi lançado pelas imagens majestosas, “Os Bandeirantes” é um filme ao qual falta emoção. Assiste-se admirado por sua feitura, mas nunca com impacto maior capaz de enternecer ou fazer vibrar o espectador. Mesmo assim uma obra imprescindível não só ao gênero mas também ao cinema. Filme sobre pioneiros que foi o pioneiro ao mostrar de modo épico o desbravamento da América, abrindo caminho para “O Cavalo de Ferro” (The Iron Horse) que John Ford filmaria no ano seguinte e para os muitos westerns que abordariam o mesmo tema nas décadas seguintes.


Técnicos enfrentando as dificuldades das locações

20 de junho de 2020

A DESFORRA DO ESTRANHO (JOE DAKOTA) – JOCK MAHONEY COMO PROTAGONISTA


William Talman; Spencer
Tracy, Ernest Borgnine
e Lee Marvin

Nos Estados Unidos leva-se muito a sério a questão do plágio e, por vezes, fortunas são pagas em direitos autorais quando se descobre algo que não é original. Por essa razão não se brinca com copiar alguma música ou história, o que não impede que, mesmo roteiros de cinema que tenham sido ‘inspirados’ por textos escritos por outros autores, se ‘esqueçam’ de dar crédito ao pai da ideia. Isto foi o que aconteceu com “Joe Dakota”, pequeno western produzido pela Universal em 1957 e estrelado por Jock Mahoney. Os roteiristas William Talman e Norman Jolley escreveram uma história que em tudo se parece com “Conspiração do Silêncio” (Bad Day at Black Rock), o clássico que John Sturges realizou em 1955 e que muitos consideram um western moderno. William Talman, um dos autores, não é um nome estranho para muitos cinéfilos pois foi ator coadjuvante em diversos filmes e na TV cansou de, como advogado, enfrentar e ser derrotado por Perry Mason (Raymond Burr) na famosa série de TV. Talman faleceu aos 53 anos de idade e este seu trabalho como escritor não deve tê-lo deixado orgulhoso por ser uma descarada imitação do filme de Sturges. No entanto, mesmo sendo uma produção barata e sem nomes famosos no elenco (Lee Van Cleef demoraria para virar astro), este western filmado para complementar programas duplos tem suas virtudes e entretém os fãs de faroestes.


Jock Mahoney
O estranho hostilizado - Joe Dakota (Jock Mahoney) é um estranho que chega à pequena Arborville e intriga os moradores do lugar porque quer, de todas as maneiras, saber de um índio chamado ‘Joe Dakota’ (Francis McDonald). Descobre então que o índio havia sido enforcado sob a acusação de tentar estuprar a jovem Jody Weaver (Luana Patten). A propriedade do índio passara então para as mãos de Cal Moore (Charles McGraw), homem desonesto e que mais tarde descobriu petróleo no terreno do índio ‘Joe Dakota’. Este não tinha esse nome, mas ao assinar um documento no registro de imóveis escreveu no papel oficial as únicas palavras que aprendera a rascunhar e que formavam o nome de seu amigo e protetor, o Capitão Joe Dakota do Exército Americano. O verdadeiro Joe Dakota tem que enfrentar a hostilidade do povo de Arborville sob a liderança de Carl Moore, até que desmascara o espertalhão. Joe Dakota traz à tona a verdade sobre a tentativa de estupro cujo autor não foi seu amigo índio que acabou pagando com a vida pela acusação e Moore perde a posse do terreno.

Claude Akins, Lee Van Cleef e Charles McGraw
Habitantes assustados - Quem não conhece ou não se recorda de “Conspiração do Silêncio” vai se deixar envolver pela trama de “A Desforra do Estranho” e consequente mistério que envolve a presença de Joe Dakota em Arborville. Por outro lado, quem logo perceber a semelhança da história com o filme de John Sturges, nem por isso perderá o interesse em ver como os fatos irão se encaixar para determinar o final. Pesa ainda a favor deste “Joe Dakota” o fato de se estar diante de um western de baixíssimo orçamento e ainda assim o diretor Joe Bartlett realizar um filme conciso e com boa carga de emoção. Jock Mahoney visivelmente manca quando caminha, levando a crer que pudesse ter alguma dificuldade com uma das pernas, assim como Spencer Tracy havia perdido um braço na guerra em “Conspiração do Silêncio”. Mas ao contrário do já envelhecido Tracy, Jock Mahoney é o tipo de personagem imbatível, perfeito para intimidar o assustado povo da pequena cidade, inclusive o vilão que tramara a morte do velho índio.

Lee Van Cleef e Claude Akins
Preconceito forte - O forte preconceito do pós-guerra contra os japoneses é a tônica de “Conspiração do Silêncio”, transformado, em “Joe Dakota”, na execução sumária, través de enforcamento, do índio, figura igualmente perseguida pelo preconceito pelos homens brancos do Velho Oeste. O Capitão, no entanto, representando o Exército, é humilde e justo na amizade e respeito pelo índio. Essa ilação, porém, não resiste à lembrança de como os túnicas azuis trataram os nativos atendendo aos interesses de Washington e dos homens brancos. Porém ainda não era, em 1957, tempo para se rever em maior profundidade essas questões e menos ainda em um pequeno western.

Lee Van Cleef, Anthony Caruso e Claude Akins

Jock Mahoney
Um ator com bela biografia - Jock Mahoney é dos menos conhecidos atores que fizeram westerns B, ainda que sua carreira seja digna de uma bela biografia sem o final feliz de ter ele se transformado em astro verdadeiro. Desde os tempos de dublê de atores famosos (Gregory Peck, John Wayne, Errol Flynn), até ser o Durango Kid das ações mais arriscadas em lugar de Charles Starrett, Mahoney era conhecido apenas por aqueles cinéfilos que gostam de saber de tudo sobre todos que atuam nos filmes. Certo que chegou até a entrar na lista dos atores que personificaram ‘Tarzan, o Rei das Selvas’, mas Mahoney nunca atingiu a categoria que fazia por merecer, especialmente nos faroestes. E como ‘Joe Dakota’ Mahoney está ótimo e seu melhor momento de ação neste filme é quando luta, numa divertida sequência, contra Claude Akins e Lee Van Cleef. Em outra sequência Mahoney é jogado numa enorme poça de petróleo e só é reconhecido porque ele jamais aceitaria ser ‘dublado’.

Luana Patten e Barbara Lawrence

Jock Mahoney
Pequeno e simpático western - O eficiente Charles McGraw é o homem mau da história enquanto Luana Patten, aos 19 anos, é um par amoroso jovem demais para Jock Mahoney. Além de Lee Van Cleef e de Claude Akins, dois dos mais consagrados vilões de Hollywood, o elenco traz ainda Anthony Caruso, desta vez como um imigrante italiano de boa índole e o único na história com essa característica, até por não ser norte-americano, a discordar da hostilidade a Joe Dakota. Quando se está diante de um western de pequeno orçamento que resulta em bom filme sempre se fica a imaginar como seria ainda melhor se realizado com outro padrão. Mas aí a exigência do espectador seria maior e roubaria o gosto que só simpáticos pequenos faroestes têm, como este “A Desforra do Estranho”.

Charles McGraw; Jock Mahoney