UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

28 de julho de 2021

NO RASTRO DA VIOLÊNCIA (THE QUICK AND THE DEAD) – SAM ELLIOTT COMO ESTRANHO MISTERIOSO E GALANTEADOR

 

          Westerns feitos para a TV geralmente são logo esquecidos, como é o caso de “No Rastro da Violência”, produzido pela HBO em 1987. Baseado em “The Quick and the Dead”, uma das muitas entre a centena de obras escritas por Louis L’Amour, o livro foi lançado em 1982 e curiosamente em 1985, com o mesmo título, foi filmado o faroeste de Sam Raimi que entre nós foi chamado de “Rápida e Mortal”, com elenco estelar encabeçado por Sharon Stone, Gene Hackman, Leonardo Di Caprio e que teve até a participação de Woody Strode. Louis L’Amour, um dos mais prolíficos autores do gênero western teve muitas de suas histórias filmadas para o cinema, entre elas “Caminhos Ásperos”, “Gigantes em Luta”. A TV também usou histórias de L’Amour, como em “O Aventureiro do Oeste” (Conagher) e “Os Cavaleiros da Sombra” (The Shadow Riders), “Rastros de Vingança” (Crossfire Trail) e a mini-série “The Sackets”. Em todos esses, exceto “Rastros de Vingança” esteve presente Sam Elliott, um ator que, se nascido algumas décadas antes, seria um dos grandes astros dos tempos áureos do faroeste, no calibre de um Randolph Scott ou Joel McCrea, por exemplo.

À esquerda o escritor Louis L'Amour


     O admirado “Shane” (Os Brutos Também Amam) teve praticamente uma refilmagem com o magnífico “O Cavaleiro Solitário” (Pale Rider), um dos grandes faroestes de Clint Eastwood. E o tema foi revisitado por Louis L’Amour neste “No Rastro da Violência” que conta como uma família - casal e um filho - se muda do Leste para iniciar uma nova vida no Oeste deparando-se, quando chegam a um lugarejo denominado Bender Flats, com um bando de foras-da-lei sequiosos por se apropriar dos pertences dos peregrinos. Os viajantes são Duncan McKaskel (Tom Conti), a esposa Susanna (Kate Capshaw) e o menino Tom (Kenny Morrison). O líder dos bandidos é Doc Shabitt (Matt Clark) que na primeira tentativa de intimidação dos McKaskels, descobre que um homem misterioso está protegendo os peregrinos. Shabitt não desiste de seu intento e com seus homens segue o carroção da família e pouco a pouco vê seu bando composto por mais sete capangas se reduzir porque Con Vallian (Sam Elliott), o cavaleiro misterioso os abate em cada confronto. A aniquilação do bando se dá quando McKaskel se junta a Vallian para enfrentar os três últimos bandidos, após o que Con Vallian parte desaparecendo pela pradaria.

Tom Conti, Kenny Morrison e Kate Capshaw
          Além do bando de Doc Shabitt, McKaskel tem que enfrentar o insistente assédio que Vallian faz sem nenhuma cerimônia a sua esposa. E Susanna, de certa forma, corresponde porque se sente atraída por Vallian, embora ame seu marido. E assim como em “Shane” (e em “Hondo), o garoto Tom nutre admiração pelo estranho vendo nele qualidades que gostaria que seu pai tivesse. Mais interessante até do que a própria história que vai se tornando previsível a cada sequência é o triângulo que se forma e que um filme feito para a TV respeita os limites morais. Muito apropriado seria a leitura do livro de L’Amour para descobrirmos se Con Vallian estaria mais próximo do respeitoso ‘Shane’ ou do atrevido ‘pastor’ de “Pale Rider”. Em “No Rastro da Violência” o herói solitário é uma mescla desses dois personagens e sabiamente o roteiro de James L. Barrett deixa a critério do espectador decidir se a senhora McKaskel e Vallian foram além dos beijos e dos momentos de ternura trocados.

Sam Elliott e Kate Capshaw
          Kate Capshaw (na vida real esposa de Steven Spielberg) está deslumbrante e por isso mesmo irresistível, tanto que Red (Jerry Potter), um dos bandidos fica obcecado por ela assim que a vê. O mesmo pode-se dizer de Con Vallian que não perde uma única oportunidade para ressaltar as qualidades de Susanna, dizendo-o tanto para ela como para o marido. Essa situação chega a ser engraçada porque ainda que Sam Elliott esteja longe de ser um comediante, sua expressão é hilária quando exacerba seu cinismo galanteador, a ponto de ser repreendido até pelo pequeno Tom. Louis L’Amour demonstra em diversas falas de Con Vallian, o quanto é conhecedor das coisas do Velho Oeste, como quando faz com que Duncan McKaskel se passe por idiota para que um grupo de índios famintos não os mate. E Sam Elliott com seu buckskin, faca com enorme cabo à cintura e jeito de quem nasceu sobre um cavalo é o mais convincente dos personagens principais, enquanto Tom Conti foi uma péssima escolha e Kate Capshaw é bonita demais para se meter numa aventura como essa rumo àquele perigoso mundo sem lei. Matt Clark moldou seu personagem nos vilões inesquecíveis de John McIntire, mas fica distante do velho John.

Kate Capshaw, Sam Elliott (acima); Tom Conti e Matt Clark
          O título original de “No Rastro da Violência” é enganoso porque sugere haver ao menos um duelo típico dos faroestes, mas isso não acontece. Certo que Con Vallian demonstra sua habilidade ao enfrentar um bandido e mais tarde o índio que o alveja, matando a ambos. Porém os momentos decisivos de frieza no gatilho são executados pelo casal McKaskel e não exatamente em duelos. A mais violenta das sequências ocorre quando Susanna se defende do ataque de Red atingindo-o com pauladas na cabeça deixando seu rosto irreconhecível. Realizado em um tempo em que os cenários e figurinos do Velho Oeste mudaram bastante, este western dirigido por Robert Day foi bem cuidado, acima da média de muitos westerns dos anos 50 e 60. A sucessão de clichês (não faltou sequer a esposa se banhando e sendo observada pelo sorrateiro Vallian), no entanto, comprometem bastante esta boa diversão para os fãs do gênero e certamente não era a intenção da HBO realizar um clássico como “Shane” ou western intrigante como “Pale Rider”.

 

Sam Elliott, Kate Capshaw e Tom Conti; no destaque Jerry Potter


26 de junho de 2021

FRED GRAHAM, UM 'BRIGÃO' NOS FAROESTES E SERIADOS

 

          Pode-se afirmar que há três tipo de cinéfilos. O mais comum é aquele cinéfilo que reconhece os principais astros e estrelas de um filme. Tomando por exemplo o clássico western “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo), esse fã saberia dizer que John Wayne divide o elenco principal com Dean Martin, Angie Dickinson, Ricky Nelson e Walter Brennan. Já o segundo tipo de cinéfilo, mais atento aos chamados e tão importantes coadjuvantes, completaria dizendo que Ward Bond também atua nesse faroeste e que o chefão da quadrilha é John Russell, tendo o irmão (no filme) Claude Akins que passa muito tempo dentro da cela provocando Walter Brennan. E esse fã ainda diria que o casal de mexicanos é interpretado por Pedro Gonzalez-Gonzalez e Estelita Rodrigues. O terceiro tipo de cinéfilo é aquele capaz de reconhecer, além dos citados, muitos dos chamados figurantes que surgem na tela como Bob Steele e Bing Russell. Há uma sequência magnífica de tiroteio em “Rio Bravo”, na qual Duke e Nelson enfrentam e três bandidos na porta do Hotel Álamo. Quem são esses três vilões? Aquele cinéfilo que não deixa escapar nada do filme é capaz de reconhecê-los. Um deles é o pouco conhecido George Mitchell; outro é Eugene Iglesias, portorriquenho que atuou com destaques em inúmeros westerns, entre eles “Onde Impera a Traição” (Duel at Silver Creek). O terceiro bandido, o mais corpulento, foi definido por William Witney como o melhor de todos os stuntmen com quem o famoso diretor trabalhou, isto quando se tratava de uma boa luta a socos, daquelas que não podia de jeito nenhum faltar num bom faroeste. O nome dele é Fred Graham. 

O trio que tenciona surpreender John Wayne em "Rio Bravo":
Eugene Iglesias, George Mitchell e Fred Graham

          Nascido em 1908 como Charles Frederick Graham, o jovem Fred tinha 1,88m de altura aos 20 anos, quando se dividia entre o trabalho como ajudante na MGM e atleta amador de baseball. Em 1934 estava sendo rodado “A Mão Invisível” (Dead on the Diamond), filme sobre baseball estrelado por Robert Young e no estúdio sabiam que Fred Graham praticava esse esporte e por essa razão ele foi chamado para assessorar Young para que este parecesse um jogador de verdade. Graham fez mais que isso e participou como figurante jogador do time do Saint Louis Cardinals. Ward Bond, Walter Brennan e Bruce Bennett também aparecem nesse filme. Daí em diante nunca mais Fred Graham carregou cenários ou empurrou carrinhos na MGM, passando a fazer pequenas figurações e substituindo atores em sequências mais perigosas. Em “O Grande Motim” (Mutiny on Bounty) Graham fez isso pela primeira vez substituindo nada menos que Clark Gable. Mais tarde Robert Taylor e Nelson Eddy foram outros que, apesar das diferenças físicas, foram dublados por Fred Graham que vestia roupas iguais às dos astros. O curioso é que Nelson Eddy só filmava operetas enquanto namorava Jeanette MacDonald... Nesse tempo ninguém chamava Fred Graham pelo nome, mas sim pelo apelido ‘Slugger’ (arremessador de baseball), apelido que ele carregou pelo resto da vida. 

        Da MGM Fred Graham se mudou para a Warner Bros., onde seu primeiro trabalho foi como stunt double de Basil Rathbone em “As Aventuras de Robin Hood”. Rathbone era um verdadeiro ás no manejo da espada, mas necessitava ser substituído nas muitas quedas que o personagem sofria durante os confrontos com Errol Flynn. Tal era o realismo com que Fred se dedicava ao trabalho que em um desses embates fraturou o tornozelo em uma queda. Da Warner Bros. Fred Graham passou por outros estúdios porque aos se tornar bastante conhecido na categoria de stuntman era requisitado para substituir atores mais conhecidos como Cornel Wilde, John Wayne, Gregory Peck, John Payne e até Bob Hope ou mesmo coadjuvantes grandalhões como Harry Woods e Mike Mazurki. E veio o auge da Republic Pictures, a casa dos Western-B e dos seriados, gêneros que, mais que quaisquer outros, continham sequências de ação e para isso Fred Graham era nome certo ali na Powert Row. 

Dick Purcell (Capitão América) esmurra Fred Graham no seriado de 1945

          No estúdio de Herbert J. Yates, Graham foi dublê até do admirado Roy Barcroft, vilão que apanhou praticamente de todos os mocinhos dos B-Westerns mas que quando desempenhava papel importante nos seriados não podia se arriscar e então era Fred Graham quem era surrado em seu lugar como em “Marte Invade a Terra” (The Purple Monster Strikes). Os dublês, salvo exceções como David Sharpe e Tom Steele, não eram contratados pelos estúdios e ganhavam por participação em sequências perigosas. Para melhorar o salário e por estarem presentes nos sets de filmagens acabavam participando de outras sequências ‘mais calmas’. Isso explica como foi possível em seus trabalhos no cinema, que duraram 39 anos, que Graham tenha atuado em 277 filmes e tendo também 230 participações registradas como dublê. Dos seriados dessa época de ouro Graham atuou em nada menos que 20 deles, 17 na Republic Pictures. Quantos aos Westerns-B, são incontáveis e Monte Hale, Rocky Lane, Roy Rogers, Rex Allen, Bill Elliott e Bob Steele tiveram a árdua missão de travar lutas contra o bandidão Fred Graham. 

Cena de "Acusação Injusta" (Heart of the Rockies), de 1951, com Fred Graham
sendo rendido por Roy Rogers enquanto Penny Edwards observa

Fred Graham sente a força do punho de Allan Lane em
"À Procura do assassino" (Silver City Kid), de 1944

          Nos filmes de melhor orçamento dos quais participou como substituto, em algumas edições menos rigorosas, é possível perceber que é Fred Graham e não o ator principal quem distribui e recebe socos. Dublando John Wayne em “Adorável Inimiga” (Tall in the Saddle), “A Pecadora” e em “Ódio e Paixão” (Pittsburgh), pode-se ver que John Wayne está um pouco mais baixo e mais gordo. É em “Ódio e Paixão”que ocorre a memorável briga entre John Wayne e Randolph Scott, uma das mais famosas do cinema e que Fred Graham ajudou a valorizar. 

Cliff Lyons segura John Wayne e Mike Mazurki apenas olha enquanto
Fred Graham prepara um soco de esquerda para atingir o Duke, em "Dakota", de 1945

          Nem sempre havia a preocupação de se encontrar um dublê ‘sósia’ do ator principal, como era o caso de Gary Cooper e seu constante stunt-in Slim Talbot. Importava mais, isto sim, a qualidade do trabalho do stuntman e nisso Fred Graham era imbatível, como bem disse William Witney. Graham desferia socos com precisão e quando era atingido parecia mesmo que o fora de verdade. Esse fato fez com que despertasse a admiração de John wayne por Fred, de quem ficou amigo. Quando Duke se tornou um dos homens mais poderosos de Hollywood, como ator e produtor, Graham sempre era lembrado para participar de seus filmes. Isso aconteceu inúmeras vezes como em “Horizonte de Glórias”, “Iwo-Jima - O Portal da Glória”, “O Rasto da Bruxa Vermelha”, “Sangue de Bárbaros” e claro, nos westerns. Graham pode ser visto em “Sangue de Heróis”, “Legião Invencível” e já maduro em “Marcha de Heróis”, “O Álamo” e “Fúria no Alasca”. Mesmo quando Wayne não atuava, mas era o produtor, como em “Sete Homens sem Destino”, Fred Graham era chamado para participar. 

Como homem da lei em "O Monstro Gigante de Gila", Fred Graham
conversa com Don Sullivan e Shug Fisher entre os dois

          E Fred Graham somente não esteve mais vezes ao lado de John Wayne (e de John Ford) porque se mantinha constantemente ocupado na Republic Pictures e mais tarde em trabalhos nas muitas séries westerns de TV. Nestas Graham até recebia crédito, ao contrário dos filmes que somente nomeavam os astros e principais coadjuvantes. Em “O Monstro Gigante de Gila”, um dos muitos sci-fi-horror dos anos 50, Fred Graham tem o segundo papel em importância no elenco, como o sheriff da localidade que é apavorada pelo lagarto gigante. Além dos muitos westerns clássicos em que atuou, Fred Graham foi visto em filmes importantes como “Sansão e Dalila”, “A Guerra dos Mundos”, “Demétrio e os Gladiadores” e “20 Mil Léguas Submarinas”, entre outros. Nas obras-primas “Janela Indiscreta” e “O Segredo das Joias” Fred Graham esteve presente como ator e pode-se afirmar que todo fã de cinema lembra da figura do policial que persegue James Stewart nos telhados de San Francisco no início de “Um Corpo que Cai”. É Fred Graham quem perde o equilíbrio e se estatela no chão sob o olhar desesperado de Stewart. 

Uma das mais famosas sequências do cinema, no início de "Um Corpo que Cai"
(Vertigo) e quem acaba caindo do telhado é Fred Graham

          Na década de 60 Fred Graham diminuiu consideravelmente seu ritmo de trabalho, até porque o peso dos anos lhe roubaram a forma magnífica que sempre apresentou como um autêntico ‘brawler’ (brigão) das telas. Na vida real, no entanto, Graham era uma pessoa muito gentil e que fazia amigos com facilidade. Em Scottsdale (Arizona), cidade onde resolveu morar, Graham era figura das mais populares e se empenhou na criação do ‘Carefree Southwest Studios’, também conhecido como ‘The Graham Studio’, destinado a atividades cinematográficas. Em 1965 William Witney chamou Graham para interpretar Quantrell em “Bandoleiros do Arizona” (Arizona Raiders), estrelado por Audie Murphy. Em 1972 Fred teve participação em “Meu Nome é Jim Kane”, um western moderno com Lee Marvin e Paul Newman. O último filme de Fred Graham foi “Guns of a Stranger”, faroeste que teve o cantor Marty Robbins no papel principal como um sheriff, assim como Graham, também sheriff. 

  Fred Graham veio a falecer em Scottsdale, em 10 de outubro de 1979, quatro meses após o falecimento de John Wayne. O cinema perdia o seu maior cowboy e também um dos grandes dublês da tela, pouco lembrado mas certamente reconhecido pelos cinéfilos mais atentos e que diziam: “Olha o Fred Graham aí...”

 

Cena de "Pioneiros do Colorado" (Colorado Pioneers), de 1945: Fred Graham prestes

a quebrar a cadeira na cabeça de Bill Elliott que é seguro por Roy Barcroft

28 de maio de 2021

OS COWBOYS MAIS PROLÍFICOS DO CINEMA




 

Pesquisa do editor Darci Fonseca publicada originalmente na revista Pardner.

30 de abril de 2021

GRANDE ÁLBUM DO FAROESTE

 Em 2003, por ocasião da comemoração do centenário do primeiro verdadeiro filme, o western "O Grande Roubo do Trem" (The Great Train Robbery), Darci Fonseca, o editor deste blog, elaborou um álbum do faroeste. Esse álbum dividido em seis categorias apresenta um retrospecto fotográfico dos atores e atrizes que atuaram em westerns através da longa história do gênero. Faltarão muitos nomes importantes, é certo, mas, para compensar, muitos outros nomes que vimos na tela grande ou na TV foram lembrados. Essa matéria foi originalmente publicada na revista 'PARDNER', também editada por Darci Fonseca. Vamos a esses queridos cowboys e cowgirls:











1 de fevereiro de 2021

ENCENAÇÃO DO DUELO DO CURRAL OK (REENACTMENT OF THE GUNFIGHT AT THE OK CORRAL) - Parte 1


 

ENCENAÇÃO DO DUELO DO CURRAL OK (REENACTMENT OF THE GUNFIGHT AT THE OK CORRAL) - Parte 2


Participantes: Beto Nista, Lázaro Narciso Rodrigues, André Bova, André Colombo, Milton Martins, Renan hard e Darci Fonseca - Direção: Darci Fonseca.

ENCENAÇÃO DO FINAL DE "DUELO DE TITÃS" (LAST TRAIN FROM GUN HILL)


 Participantes: Beto Nista, André Bova, Lázaro Narciso, Darci Fonseca, André Colombo - Direção: Darci Fonseca.

1 de janeiro de 2021

A VINGANÇA DO LÁTEGO (MAN WITH THE STEEL WHIP) – ÚLTIMO SERIADO WESTERN DA REPUBLIC PICTURES




Produção econômica e descuidada
- A Republic Pictures, conhecida como ‘A Casa dos Seriados’ e onde foram produzidos alguns dos grandes clássicos desses filmes, usou até onde pode a figura de El Zorro, até que a Disney se apropriou do personagem criado por Johnston McCulley. Mas se havia algo que a Republic sabia fazer melhor que ninguém, além de bons seriados, era resolver as dificuldades a seu modo. Se não era mais possível usar o El Zorro, que se criasse outro mocinho com as mesmas características e foi assim que nasceu ‘El Látego’, que a criançada falava ‘El Latêgo’. Ronald Davidson elaborou o roteiro e Franklin Adreon produziu e dirigiu com a costumeira economia que o estúdio não abria mão de praticar. A começar pelo traje do herói, em tudo parecido com o que foi usado por Linda Stirling em “O Chicote do zorro” (Zorro’s Black Whip), de 1944. Sequências de arquivo foram utilizadas em profusão, como era prática comum nos seriados, mas neste há até uma sequência de flash-back ocupando boa parte de um episódio. Seriados westerns eram mais baratos porque as externas eram filmadas logo ali em Alabama Hills ou no Iverson Ranch, mas percebe-se neste “A Vingança do Látego” que a maior parte das externas, quando não de arquivo, foram feitas mesmo no terreno do estúdio, sem o menor cuidado com o cenário que se altera durante uma mesma sequência.
 

 


Nos mais de 40 anos em que Hollywood produziu seriados o gênero western raramente deixou de ter pelo menos um exemplar anual para alegria dos fãs de aventuras passadas no Velho Oeste. Buck Jones foi, entre os mocinhos famosos, o que mais estrelou seriados westerns, num total de seis e Johnny Mack Brown o seguiu de perto com quatro desses filmes em capítulos. Este blog faz pela primeira vez uma resenha de um seriado e o escolhido foi o último do gênero faroeste produzido pela Republic Pictures: “A Vingança do Látego”, de 1954. Como se sabe os seriados da década de 50 são considerados dos mais fracos, mas para mim este que é focalizado tem um significado muito especial pois foi o último que assisti nas matinês dominicais do Cine Marconi, situado à Rua Correa de Melo, no Bom Retiro, em São Paulo. O ano muito distante era o de 1955. Foi o útimo porque a partir de então não mais aquele pequeno cineminha com cadeiras de madeira exibiu outro seriado, para tristeza da garotada que os adorava e não perdia um episódio desse tipo de filme. O amigo Sebá Santos me providenciou uma cópia de “A Vingança do Látego” e matei a saudade das aventuras daquele cavaleiro mascarado que parecia mas não era o Zorro, imagens que nunca saíram da minha lembrança e que não poderiam deixar de ser comentadas aqui no Westerncinemania. 


Mocinho que monta bem e briga mehor
- A economia se estendeu na escolha do elenco com os principais personagens sendo interpretados por nomes pouco conhecidos do público, à exceção de Roy Barcroft que tem pequena participação, desta vez como sheriff, aparecendo apenas no 8.º capítulo e depois no 10.º e 12.º. O herói mascarado foi vivido por Dick Simmons (foto ao lado), ator então com quase 20 anos de carreira e que só viria a se tornar mais conhecido ao interpretar o ‘Sargento Preston’, da série de TV “O Rei da Polícia Montada” (1955/1958), atuando como Richard Simmons. Dick montava bem, brigava melhor ainda, tinha ótima voz e isso bastava para compensar sua total falta de carisma. Barbara Bestar foi a mocinha, com pouco a fazer na aventura. O trio de vilões foi interpretado por Dale Van Sickel, Lane Bradford e Mauritz Hugo, sendo que nas sequências de ação em que Van Sickel e Bradford travavam luta corporal com Dick Simmons, eram eles próprios que lutavam, dispensando os dublês. Tom Steele, além de fazer figuração como membro da quadrilha, vestia a roupa do Látego e enfrentava os bandidos com sua excepcional forma atlética. 



De olho nas terras dos índios
- Produzido em 12 episódios, “A Vingança do Látego” narra o interesse de Barnett (Mauritz Hugo, na foto ao lado), dono do saloon, em se apropriar das terras da reserva onde vivem os índios. Para isso tenta instigar os habitantes da cidade contra os nativos. Barnett sabe que nessas terras há ouro e daí o seu interesse, contando com o trabalho de seu capanga Crane (Dale Van Sickel) e de Tosco (Lane Bradford), um índio renegado. Barnett não contava era com a interferência de Jerry Randall (Dick Simmons) que se posiciona a favor dos índios protegendo-os. Para ganhar a simpatia dos pele-vermelhas Randall faz reviver a figura lendária de 'El Latego' que no passado teria sido grande amigo dos índios. Crane e Tosco dão trabalho a Randall durante todos os doze capítulos. Randall conta com as informações de Nancy Cooper (Barbara Bestar) a professora da escola local, mas enfrenta os criminosos sozinho, ou melhor, armado com seu Colt e chicote. Ao final a quadrilha é desbaratada e a paz volta a reinar entre brancos e índios. (Nas fotos abaixo vemos Dale Van Sickel com Mauritz Hugo e Lane Bradford com Hugo)



Ricochete no feno
- Uma curiosidade é o título deste seriado que diz que o chicote seria de aço quando de fato, e não poderia ser diferente, ele é feito de couro. E muito bem manuseado por Dick Simmons. “A Vingança do Látego” foi filmado em inacreditáveis 18 dias, entre 2 e 22 de março de 1954 (excluídos os domingos), ao custo exíguo de 175 mil dólares. Mesmo contando com técnicos de reconhecida qualidade como o cinegrafista Bud Thackery e os irmãos especialistas em efeitos especiais Howard e Theodore Lydecker, há uma sequência que provoca risos. É quando El Látego troca tiros com os bandidos dentro de um celeiro e um dos tiros acerta um monte de feno e ouve-se nitidamente o ricochetear da bala. Pela primeira vez no cinema um tiro ricocheteou no feno, ótima gag para uma comédia dos Três Patetas, mas não para um western sério, ainda que para um público menos exigente. (Nas fotos vemos Lane Bradford em luta contra El Látego; abaixo El Látego rendendo Lane Bradford e Dale Van Sickel; Van Sickel tentando matar El Látego com um enorme garfo de feno).



65 anos depois El Látego em ação
- Embora a história resvale na violência contra os nativos, sempre motivada pela ganância dos brancos, não há crítica alguma direta à questão, mesmo o cinema já tendo apresentado westerns como “O Caminho do Diabo” (Devil’s Doorway) e “Flechas de Fogo” (Broken Arrow). Afinal seriados não se propunham a discutir temas como esse. Os seriados, quando assistidos em contexto diferente daqueles para o qual foram propostos, as matinês para crianças e jovens, sempre funcionam de modo diferente. E nem poderia ser de outra maneira. Mas a criatividade, excelentes sequências de ação e alta qualidade técnica continuam admiráveis mesmo aos olhos de adultos, inevitavelmente mais críticos. Porém este “A Vingança do Látego”, mesmo com a carga emotiva da nostalgia de quem o assistiu no cinema há 65 anos, não resiste e ao revê-lo torci para que chegasse logo ao fim. Até porque há tantos e melhores seriados westerns para serem assistidos, como por exemplo “A Tribo Misteriosa” (Daredevils of the West), também da Republic Pictures e estrelado pelo grande Allan ‘Rocky’ Lane. (Na foto Dick Simmons como El Látego).


Pat Hogan e Roy Barcroft



27 de julho de 2020

OS BANDEIRANTES (THE COVERED WAGON) – PRIMEIRO VERDADEIRO WESTERN-ÉPICO



Nos tempos atuais em que há centenas e centenas de cinéfilos que jamais assistiram a um western é bom lembrar que este gênero, nas primeiras décadas do cinema, era dominante na preferência dos espectadores. Os estúdios tinham na produção de faroestes com duração ao redor de 60 minutos uma das suas mais rendosas sustentações e entre os astros mais bem pagos de Hollywood estavam cowboys como William S. Hart, Tom Mix e Harry Carey. Mesmo considerando que William S. Hart estrelou e dirigiu filmes acima da média como “As Portas do Inferno” (Hell’s Hinges), de 1916, os westerns ficavam distantes do conceito de cinema de qualidade, categoria reservada para cineastas como David W. Griffith e seus épicos, Charles Chaplin e mesmo europeus como os expressionistas F.W. Murnau ou Robert Wiene. O gênero western, ainda que estimado pelo público espectador, era considerado apenas cinema de entretenimento e não levado na devida conta pelos críticos. Tudo mudou com a produção e lançamento, em 1923, de “Os Bandeirantes” (The Covered Wagon), longa-metragem com duração de 98 minutos e que, de imediato, se transformou em sucesso de crítica e de público, tornando-se a maior bilheteria do ano nos Estados Unidos. E o mais importante: fez com que os faroestes passassem a ser olhados de modo diferente, agora muito mais respeitoso.


Acima Emerson Hough e Jack Cunningham;
abaixo Jesse L. Lasky e James Cruze
Inédita superprodução - Baseado em livro de Emerson Hough, autor de histórias que narravam aventuras passadas no Oeste e com adaptação do experiente roteirista Jack Cunningham, a direção e “Os Bandeirantes” coube a James Cruze, que até então nada havia dirigido que chamasse maior atenção ao seu nome. Quem quer conhecer melhor a filmografia de Cruze descobre que a maioria dos seus filmes foram dados como perdidos, o que dificulta ainda mais uma avaliação do seu trabalho como diretor. Estranhamente, até por ser um faroeste, a Paramount optou por produzir este western como uma superprodução que seria rodada em locações e ao custo estimado de 700 mil dólares que ao final chegou aos 800 mil. A título de comparação, “O Garoto”, de Chaplin, foi produzido em 1921 custando ao final 250 mil dólares sendo que Chaplin era sinônimo de investimento garantido. Jesse L. Lasky, o poderoso sócio fundador da Paramount fez questão de assumir pessoalmente a produção executiva do filme e de cara se defrontou com problemas na formação do elenco principal. Isto porque Mary Miles Minter, pensada para interpretar a heroína, teve seu nome relacionado ao assassinato de um conhecido diretor e foi descartada. Como havia ainda a disposição da Paramount de não gastar com astros que cobravam muito, o papel acabou nas mãos de Lois Wilsonl.

Acima Mary Miles Minter e Lois Wilson;
abaixo Ernest Torrence e Karl Brown
Formação do elenco - J. Warren Kerrigan, ator que contracenara com Lois Wilson em duas dezenas de filmes seria o principal nome masculino da jornada épica descrita em “Os Bandeirantes” e, mais uma vez, iria namorar a atriz em um filme. Como terceiro nome do elenco e completando o triângulo amoroso da história, foi chamado Alan Hale, ator de 30 anos de idade e no cinema desde os 20 anos. Hale se destacara como ‘Little John’ nas aventuras de Robin Hood filmada em 1922 e estrelada por Douglas Fairbanks e voltaria a interpretar esse mesmo papel na famosa versão de 1938 com Errol Flynn como protagonista. O clássico “David, o Caçula”, de Henry King alcançara enorme êxito em 1922 e o escocês Ernest Torrence havia sido um dos destaques desse filme, sendo escalado para “Os Bandeirantes”. Também como importante coadjuvante, interpretando o caçador Jim Bridger, juntou-se a Torrence (um batedor da caravana) o já veterano Tully Marshal, e a Charles Ogle que atuou como o chefe da expedição. A difícil missão de comandar a equipe de cinegrafistas coube ao jovem Karl Brown, então com apenas 26 anos mas acumulando bastante experiência tendo trabalhado como assistente em “Intolerância”. No entanto o que levou a Paramount a confiar em Karl Brown foram as técnicas cinematográficas que ele havia criado como a dupla impressão de negativos e projeção com modelos miniaturizados, técnicas então revolucionárias.

Delmer Daves
Preocupação com a autenticidade - O enorme grupo de técnicos e mais os atores rumou para as locações que se desenvolveram em Utah, Arizona, Oregon, Deserto de Sonora na Califórnia e Nevada, enquanto o produtor Jesse L. Lasky controlava à distância as despesas com esse western, uma verdadeira superprodução se considerado o conjunto que o envolveu. Os índios que são vistos em “Os Bandeirantes” são todos eles indígenas de verdade demonstrando a preocupação da produção com a autenticidade. Lasky acreditava em novos talentos e assim como o jovem Karl Brown respondeu pela cinematografia, a outro técnico ainda mais jovem chamado Delmer Daves, de apenas 18 anos de idade, foi atribuído chefiar o departamento de acessórios e adereços também visando a maior genuinidade de tudo que seria visto na tela. Não consta da biografia de Delmer Daves qualquer outro trabalho anterior nessa área mas o certo é que praticamente nenhum detalhe escapou ao jovem futuro diretor de tantos westerns clássicos.

Bizões duplicados pela técnica
do cinegrafista Karl Brown
Rebanhos e manadas - Um grupo de conselheiros técnicos e historiadores foi igualmente contratado. O número de pessoas envolvidas nas locações chegou a três mil e em alguns locais onde durante o dia o calor passava de 40 graus, baixando à noite para temperaturas negativas. A essas despesas se juntaram às dos 500 carroções que descendentes dos pioneiros ainda mantinham como recordação e que foram alugados para as filmagens. Enormes rebanhos de gado, mil cavalos, 200 mulas igualmente foram transportados para os locais de filmagens. E até mesmo búfalos que já não mais existiam em rebanhos tão grandes quanto o necessário foram simulados por truques da ainda incipiente cinematografia. Naquele tempo não vigiam as normas de proteção aos animais e pelo menos dois cavalos morreram em sequências mais perigosas como a da travessia de um rio. Nunca é demais lembrar que os épicos de D.W. Griffith foram quase totalmente filmados em estúdio, enquanto a colossal produção de “Os Bandeirantes” obrigou a um estúdio ambulante através de inóspitas regiões.

Centenas de cavalos na travessia de um rio

Lançamento e impacto - Findas as filmagens e após a fase de edição, o lançamento de “The Covered Wagon” ocorreu nos Estados Unidos em março de 1923. O sucesso foi estrondoso e para muitos foi considerado o mais importante de todas as produções cinematográficas norte-americanas. Para exibição no Brasil o sugestivo título original foi substituído por “Os Bandeirantes”, isto porque na primeira metade do século passado os bandeirantes de nossa História eram mostrados como heróis desbravadores, o que certamente atrairia mais público para ver o filme. Em Portugal, onde poucos sabiam o que seria um ‘bandeirante’, o título escolhido foi o muito mais apropriado: “A Caravana Gloriosa”.

Belos pôsteres anunciando o western épico

Westward, Ho! - Uma caravana liderada por Jesse Wingate (Charles Ogle) parte de Wesport, no Kansas, com destino ao Oregon, onde os aventureiros se instalariam buscando vida melhor. A esse grupo de desbravadores junta-se uma segunda caravana chefiada por Will Banion (J. Warren Kerrigan) e que tem como batedor William Jackson (Ernest Torrance). Pelo caminho, a imensa e agora duplicada caravana, se defronta com problemas de toda ordem como as inevitáveis intempéries, as difíceis travessias de rios e escaladas de morros e os ataque de índios. Os mais fracos da caravana são vencidos pelas adversidades e algumas famílias optam por retornar ao Kansas e em determinado momento surge a notícia da descoberta de ouro em abundância na Califórnia, o que faz com que mais membros da caravana desistam de chegar ao Oregon. Molly Wingate (Lois Wilson), a filha de Jesse Wingate está pronta para se casar com Sam Woodhull (Alan Hale), mas ao conhecer Will Banion se interessa por ele, fica indecisa e acaba desistindo do casamento. O inconformado Woodhull usa de violência e de intrigas para manchar a reputação de Banion mas é este quem termina por conquistar o amor de Molly após se descobrir que Banion é, de fato, um homem íntegro. Banion é reintegrado ao seu posto no Exército, deixando de pairar dúvidas sobre sua conduta como oficial. Afinal a caravana cumpre seu objetivo e os pioneiros iniciam a tão sonhada nova vida no Oregon, quase dois mil quilômetros distante do ponto de partida.

J. Warren Kerrigan e Lois Wilson
Um ator sem nenhum carisma - A saga dos pioneiros de “Os Bandeirantes” foi filmada em forma de documentário ao qual foi inserida uma subtrama amorosa com desfecho por demais previsível. Porém é preciso lembrar que este é um filme de 1923 e como tantos outros o enredo foge de maior complexidade. O grande pecado deste épico, porém, reside na escolha do ator principal, J. Warren Kerrigan, incapaz de criar empatia com o espectador e que cansa a cada vez que entra em cena com sua insipidez e excesso de maquiagem. Quase o mesmo pode ser dito de Lois Wilson e ambos contribuem negativamente para que qualquer tipo de emoção seja transmitida pelos personagens. Prevaleceu a ideia de a epopeia ser mais importante que as clássicas tramas amorosas e para isso as inexpressivas atuações de Kerrigan e Lois Wilson contribuíram ainda que involuntariamente. Por sorte outros tipos do filme são mais vivos e interessantes como o batedor Jackson, o caçador Bridger e a senhora Wingate (Ethel Wales), mãe de Molly, todos eles dando mais sabor às histórias paralelas à epopeia dos pioneiros. Sem dúvida um western, no entanto um filme menos preocupado com as ações típicas do gênero e ressaltando como o arado, ao invés de armas  é que seriam responsáveis pelo crescimento e grandeza do país.

Ernest Torrence, Tully Marshall e Alan Hale

A divisão da grande caravana: parte dela
preferiu a ilusão da riqueza fácil
Cenário magnífico - O momento crucial do triângulo amoroso se dá quando da chega a Fort Bridger quando o diretor procurou criar um suspense com a noiva sendo alvejada por uma flecha que anuncia o ataque dos índios. Faltou a James Cruze maior habilidade para tirar proveito dessa situação dramática. Se a trama amorosa não convence, por outro lado a longa jornada que é o assunto principal do épico impressiona a cada etapa que é vencida pela gigantesca caravana magnificamente fotografada na amplidão das terras e obstáculos a serem vencidos. A escolha do local onde ocorre o ataque dos nativos à caravana foi de rara felicidade e é geograficamente esplendoroso, propiciando imagens que dificilmente serão esquecidas com o círculo de carroções se fechando entre altas formações rochosas, cenário simplesmente espetacular.


Alguns poucos risos - Num tempo em que a comicidade no cinema atingia seu auge com Chaplin e Buster Keaton, James Cruze buscou atenuar o aspecto fortemente documental de “Os Bandeirantes” com encenação de sequências pretensamente engraçadas com as participações do batedor Jackson e do montanhês Bridger. Embora careteiro, o que não era considerado excessivo à época, Torrance (Jackson) é divertido, assim como Tully Marshal (Bridger) e só não provocam mais risos devido à mão pesada de Cruze para a comédia, ele que, entre outros cômicos, dirigiu algumas vezes Roscoe ‘Fatty’ Arbuckle, o ‘Chico Bóia’. O momento mais engraçado se dá quando o sisudo Jesse Wingate diz (a fala aparece num letreiro) que “se o líder Mórmon Brigham Young conseguiu chegar até aqui com suas esposas, eu também posso com meus carroções”. E a frase soa mais jocosa ainda quando se sabe que James Cruze era Mórmon...

A pilhéria com os Mórmons

O verdadeiro Jim Bridger
O caso Jim Bridger - Entre os muitos montanheses que ajudaram a desbravar as novas terras norte-americanas, um dos mais famosos foi Jim Bridger. As referências a ele são sempre como tendo sido um homem fortíssimo, alegre, contador de histórias e muito requisitado como batedor por conhecer como poucos regiões selvagens nas quais somente os destemidos e experientes sobreviviam. Jim Bridger tornou-se uma lenda e teve participação na história escrita por Emerson Hough, mas apresentado de modo pouco condizente com o que ele fora na realidade. O Jim Bridger vivido por Tully Marshall é espirituoso e brincalhão, porém beberrão e irresponsável, como na sequência em que faz desafio de pontaria com William Jackson. Bridger também é mostrado com duas esposas índias, ele que foi casado com três índias mas em períodos diferentes. Os descendentes de Jim Bridger não gostaram e processaram a Paramount solicitando uma indenização de um milhão de dólares pelos danos à imagem do célebre montanhês. Ao final do processo a Justiça deu ganho de causa à família. Inúmeras localidades e escolas norte-americanas homenagearam o caçador, explorador e guia com o nome ‘Jim Bridger’. Entre os muitos atores que personificaram Bridger em filmes ou séries de TV estão Van Heflin, Raymond Hatton, Harry Shannon, Dennis Morgan e Karl Swenson.

Tully Marshall. à direita Ernest Torrence, Guy Oliver e Tully Marshall

Western pioneiro - Além da referência a Brigham Young há uma outra  menção feita a Abraham Lincoln também na tentativa de dar maior credibilidade à história e sua localização no tempo. Porém a acurácia falhou ao mostrar os carroções, mesmo após os desafios da longa jornada, desfilarem com suas lonas impecáveis, sem rasgos ou as inevitáveis sujeira e desgates. Impressionante ao tempo em que foi lançado pelas imagens majestosas, “Os Bandeirantes” é um filme ao qual falta emoção. Assiste-se admirado por sua feitura, mas nunca com impacto maior capaz de enternecer ou fazer vibrar o espectador. Mesmo assim uma obra imprescindível não só ao gênero mas também ao cinema. Filme sobre pioneiros que foi o pioneiro ao mostrar de modo épico o desbravamento da América, abrindo caminho para “O Cavalo de Ferro” (The Iron Horse) que John Ford filmaria no ano seguinte e para os muitos westerns que abordariam o mesmo tema nas décadas seguintes.


Técnicos enfrentando as dificuldades das locações