UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN
Mostrando postagens com marcador 1956 - O Justiceiro Mascarado (The Lone Ranger). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1956 - O Justiceiro Mascarado (The Lone Ranger). Mostrar todas as postagens

24 de maio de 2012

O JUSTICEIRO MASCARADO (The Lone Ranger) – MELHOR AINDA QUE NA TV


Criado como programa de rádio, onde obteve enorme sucesso, “The Lone Ranger” foi levado para o cinema em 1938 em formato de seriado. Produzido pela Republic Pictures, os atores Lane Chandler, Hal Taliaferro, Lee Powell, Herman Brix e George Letz (Montgomery) vestiram-se como o justiceiro mascarado para mais emocionar os pequenos fãs. No decorrer dos capítulos os heróis mascarados iam morrendo uma a um, até restar um único “O Guarda Vingador”, que era o título nacional do seriado chamado “The Lone Ranger” no original. Toda criançada correu para assistir a esse seriado e no seguinte a Republic repetiu a dose com “A Volta do Cavaleiro Mascarado” (The Lone Ranger Rides Again), desta vez comRobert Livingston como o mocinho da máscara negra. Nos dois seriados o índio Tonto foi interpretado por Chief Thundercloud. O cinema se esqueceu do personagem The Lone Ranger mas a televisão, que então engatinhava, redescobriu o justiceiro mascarado em 1949 com a série “The Lone Ranger”, estrelada por Clayton Moore. O espetacular sucesso alcançado por essa série na TV praticamente obrigou que o herói, no Brasil era chamado equivocadamente de Zorro, retornasse ao cinema.


Lyle Bettger e Bob Wilke
HOMEM BRANCO SEM ESCRÚPULOS - Em 1956 o produtor Jack Wrather encomendou a Herb Meadow um roteiro para ser dirigido por Stuart Heisler com uma aventura do Cavaleiro Solitário e seu companheiro Tonto. Era de se esperar uma história simples, mesmo porque o faroeste seria dirigido àqueles que somente viam o herói numa telinha pequena e em preto e branco, em sua maioria um público infantil. Mas “O Justiceiro Mascarado” foi além disso e de maneira até didática o filme fala da origem do mocinho mascarado Kemo Sahbe, do início de sua amizade com Tonto e o encontro com o magnífico corcel Silver. O western de Heisler toca ainda fortemente no tema do preconceito contra os índios e num aspecto psicológico insólito que é a criação de uma filha em meio ao ambiente dominado pelos homens. Em um território não identificado no filme o Cavaleiro Solitário (Clayton Moore) e Tonto (Jay Silverheels) se defrontam com Reece Kilgore (Lyle Bettger), um fazendeiro inescrupuloso que tenciona se apoderar de terras pertencentes aos índios para poder explorar o ouro que lá existe. Kilgore com seu capanga Cassidy (Robert Wilke) intimidam não só o xerife Sam Kimberley (John Pickard) mas também o agente enviado de Washington e tentam interromper a paz reinante, o que resultaria numa guerra e na consequente expulsão dos índios do território. Graças à ação do Cavaleiro Solitário, Kilgore é desmascarado e brancos e índios voltam a viver em paz.

EDUCAÇÃO PECULIAR - Kilgore é exemplar na sua maldade não só contra os índios ou contra fazendeiros vizinhos, mas também com sua própria família. Machista ao extremo subjuga sua delicada esposa Welcome Kilgore (Bonita Granville) oriunda do Leste e educa sua pequena filha como se ela fosse um menino. E culpa a mãe por ter lhe dado uma filha e não um filho. A sanha e sede de riqueza de Kilgore desconhecem limites, esbarrando apenas na desobediência de seu violento capataz Cassidy. Os agentes governamentais enviados ao Velho Oeste para cuidar dos assuntos relativos aos índios aparecem nos faroestes como personagens notoriamente corruptos e são responsáveis pelas maiores dificuldades nas relações com os índios, a quem prejudicam criando toda sorte de dificuldades. Isso porém não acontece em “O Justiceiro Mascarado” uma vez que tanto o Agente do Departamento de Assuntos Indígenas destacado para ajudar os índios quanto o governador e mesmo o xerife Kimberley são pessoas íntegras e preocupadas com o bem-estar dos índios e sua pacífica convivência com os brancos. Se dependesse de homens assim os nativos norte-americanos não teriam sofrido os horrores que sofreram ao longo da história que, em 1956, já era contada no cinema de forma menos mentirosa.

Lone Ranger disfarçado;
Tonto e Michael Ansara.
QUEM É O VELHO BARBUDO E MANCO? - Sempre que um herói tem sua identidade verdadeira desconhecida, cria-se um para o mocinho uma segunda personalidade muitas vezes tímida ou medrosa, inteiramente diferente do mocinho. E um grande achado de “O Justiceiro Mascarado” foi fugir desse estereótipo e disfarçar o elegante Lone Ranger como um velho garimpeiro manco e com uma barba postiça que lhe cobre quase o rosto todo. Pois é fazendo-se passar por esse ‘Old Timer’ que o Cavaleiro Solitário descobre a ação nefasta de Reece Kilgore (Lyle Bettger). E se há problemas entre os brancos, há entre os oprimidos índios uma trama na tribo em que o velho chefe Red Hawk (Frank DeKova) se vê ameaçado pelo belicoso Angry Horse (Michael Ansara). “O Justiceiro Mascarado” mostra que também do lado dos índios há os bons e os maus, ainda que no caso dos nativos apenas a figura do politicamente ambicioso Angry Horse. Para sorte dos brancos bons e dos índios bons, o Cavaleiro Solitário Kemo Sahbe (apesar de mascarado) e Tonto agem com destemor e justiça, tônicas da série da TV não esquecidas no longa-metragem. E há lugar ainda até para um simpático personagem latino, Pete Ramirez, interpretado por Perry Lopez.

AÇÃO DE PRIMEIRA - Se “O Justiceiro Mascarado” é um filme com um roteiro que pode ser chamado de complexo, com conteúdo social, político e mesmo psicológico, por outro lado é um filme de ação, ou melhor, de muita ação e sempre ação de primeira qualidade. Não faltam belíssimas cavalgadas dos dois mocinhos com seus cavalos Silver e Scout, lutas espetaculares e o enfrentamento final contra os bandidos. Numericamente desigual o confronto é resolvido a dinamite, antecipando o que seria visto três anos depois em “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo). Os stuntmen Bob Morgan e Al Wyatt Sr. promovem um verdadeiro show de acrobáticas quedas nas cenas perigosas, uma delas rolando uma ribanceira de mais de dez metros, na luta entre Lone Ranger e Cavalo Bravo (Michael Ansara). A lamentar apenas que o dublê de Clayton Moore seja visivelmente mais magro que o ator. Filmado em WarnerColor e Cinemascope, "Q Justiceiro Mascarado" tem belíssimas tomadas de cena de Edwin B. DuPar que chegam a lembrar a cinematografia de James Wong Howe. Ocorre por vezes o uso de cenas de arquivo, forma econômica de levar mais emoção ao espectador. O público adulto que gosta de voltar a ser criança fica admirado com os trajes e cinturão do Cavaleiro Solitário e estupefato com o mocinho empinando o maravilhoso Silver como nunca antes o cinema havia mostrado.

Lane Chandler, lembrança do
Cavaleiro Mascarado de 1938.
LONE RANGER LONGE DA MOCINHA - Lyle Bettger é o grande nome do elenco como o odioso vilão principal, ainda que Bob Wilke o ameace com sua conhecida e perversa maldade. Outros bandidos da quadrilha são Mickey Simpson e Zon Murray. Michael Ansara e Frank DeKova em papéis comuns para eles, ou seja, de índios. Bonita Granville, atriz de bela carreira nas décadas de 30 e 40, esposa do produtor Jack Wrather, tem o principal papel feminino, distante, evidentemente, de qualquer intimidade com o sério Lone Ranger. Quem interpreta a filha de Lyle Bettger é Beverly Washburn, atriz infantil de “Meu Melhor Companheiro”. Outros nomes conhecidos do elenco são John Pickard e Charles Meredith, valendo ressaltar a presença de Lane Chandler, um dos cinco Lone Rangers do seriado "O Guarda Vingador" de 1938. Clayton Moore se sai razoavelmente bem disfarçado de velho garimpeiro e Jay Silverheels é o Tonto mais simpático de todos os tempos.

Frank DeKova e o curandeiro da tribo. Teria sido essa a inspiração
para Johnny Depp, o Tonto do novo "The Lone Ranger"?