UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

20 de julho de 2019

TROPEL DOS VINGADORES (THE OUTCAST) – WILLIAM WITNEY, COMO NOS TEMPOS DOS SERIADOS


William Witney
A Republic Pictures, o mais famoso dos estúdios situados na Poverty Row (Rua da Pobreza) de Hollywood, era pejorativamente chamado de ‘Repulsive Pictures’. Outros chamavam o estúdio de propriedade de Herbert J. Yates de ‘Rapid Pictures’ devido ao ritmo frenético de produção que lá imperava com filmes B sendo produzidos em cinco dias (geralmente faroestes) e seriados com 15 episódios sendo realizados em dois meses. Nada repulsivos e sim adorados pela faixa de público mais jovem, alguns desses seriados se tornaram clássicos com suas sequências de ação inspirando cineastas renomados. William Witney e John English eram diretores parceiros em alguns dos melhores seriados da Republic Pictures e dividiam o trabalho de direção da seguinte forma: enquanto English dava andamento à trama, Witney era o responsável pelos eletrizantes momentos que faziam a alegria dos espectadores. Quando a Republic Pictures deixou de produzir seriados dedicando-se apenas à produção de filmes ‘A’ (“Depois do Vendaval” e “Johnny Guitar” foram produzido pela Republic Pictures) e faroestes ‘B’. Witney que era contratado do estúdio e que havia dirigido westerns estrelados por Roy Rogers, dirigiu alguns dos melhores exemplares dessa série de filmes, aquela protagonizada por Rex Allen. Antes de passar para a televisão Witney dirigiu para a Republic mais diversos faroestes ‘B’ sendo que um deles, “Tropel de Vingadores” (The Outcast), é uma autêntica aula de como, com pouco dinheiro, se pode realizar um western de excelente nível.


John Derek; Ben Cooper e Harry Carey Jr.
Testamento forjado -  A história, de autoria de Todhunter Ballard foi roteirizada por John K. Butler e Richard Wormser, contando a história de Jet Cosgrave (John Derek) um jovem que retorna a Colton, no Colorado, para tentar reaver sua parte numa fazenda. Um testamento fraudulento o alijou da herança que ficou toda para seu tio, o Major Linton Cosgrave (Jim Davis). Sabedor que o Major usa da força de seus capangas para expandir seu pequeno império pecuário, Jet arregimenta um grupo para enfrentar o Major. Este está de casamento marcado com Alice Austin (Catherine McLeod) uma bela mulher do Leste, por quem Jet passa a se interessar como forma de provocar o Major. Jet não contava que Linton Cosgrave aliciasse seus homens o que faz com que Jet se alie ao pequeno fazendeiro Chad Polsen (Frank Ferguson) e a seus filhos, inclusive a jovem Judy Polsen (Joan Evans) que se enamora de Jet. Ataques de parte a parte terminam com o enfrentamento num duelo dos primos Jet e Linton Cosgrave, porém este acaba sendo morto por seu advogado escroque (Taylor Holmes). Ao final Alice, que havia desistido de se casar com o Major, retorna para o Leste e Jet fica com Judy.

James Millican; Taylor Homes e Jim Davis
Western frenético - O ritmo imposto por William Witney a “Tropel dos Vingadores” é tão frenético que dá a impressão que se está assistindo a um dos antigos seriados da Republic. Do início ao fim o que não falta é ação e da melhor qualidade pois Witney era um mestre nisso e neste western contou com a presença de John Derek em esplendorosa forma física cavalgando como, ou quase, Slim Pickens. A cada oportunidade que a história oferece Witney permite a Slim mostrar sua extraordinária habilidade como cowboy campeão de rodeios que havia sido e o ex-sidekick de Rex Allen dá seus shows particulares. Em uma sequência que merece replay Slim está sobre seu cavalo carregando ainda uma pesada sela toda ornamentada com prata. Slim segura a sela com uma das mãos, as rédeas com a outra mão  e salta do cavalo segurando a sela com uma mão apenas, algo inimaginável para quem não seja cowboy de verdade como ele. Ver John Derek cavalgando em perseguição a Bob Steele é um dos muitos momentos emocionantes, ainda que nesta sequência ‘Battling Bob’ caia do cavalo e quebre o pescoço, morrendo. Mas antes Steele teve uma das melhores oportunidades em faroestes, interpretando um homicida psicótico, mercenário e sem escrúpulos que muda de lado, passando a trabalhar para o Major Cosgrave. No entanto “Tropel dos Vingadores” não é composto só de boas lutas, tiroteios e cavalgadas. Tem também uma muito boa história.

Slim Pickens; Slim cavalgando

John Derek com Catherine McLeod;
John Derek com Joan Evans
Duas mulheres e um atrevido cowboy - Barões de gado que usam da força para ampliar seus domínios, subjugando ou exterminando antagonistas foi eixo de centenas de roteiros de faroestes. Este tem como diferença um testamento forjado por um advogado embusteiro em conluio com o vilão trapaceiro. E o ‘desgarrado’ do título original (“The Outcast”) retorna para reclamar o que é seu de direito. Volta com um respeitável grupo de pistoleiros ainda que menor que o numeroso bando armado a serviço do desonesto Major Cosgrave. E a imagem inicial deste western é não só promissora como inusitada, com o personagem de Slim Pickens cuspindo na estátua do falecido Coronel Cosgrave, aquele que usurpou as terras de seu pai. E há ainda uma interessante subtrama que é o triângulo amoroso que se ocorre entre Jet, Judy e Alice. Witney desenvolve a trama deixando a dúvida de qual será a escolha do herói Jet Cosgrave, até porque Alice é mais bonita, refinada e sedutora, além de correta em suas atitudes. E Alice demonstra não resistir à atração que o atrevido Jet exerce sobre ela. Num final um tanto forçado Jet e July ficam juntos mesmo que o cowboy não demonstre tanta satisfação.

Nacho Galindo e John Derek; Hank Worden
Mexicano digno - Um elenco que tenha Slim Pickens e Bob Steele como coadjuvantes já é atração suficiente, mas “Tropel dos Vingadores” conta ainda em seu cast com Harry Carey Jr., James Millican, Nacho Galindo e uma pequena participação de Hank Worden. Ben Cooper interpreta um jovem irritadiço (especialidade de Richard Jaeckel). Tão criticado o cinema norte-americano pela maneira depreciativa com que sempre via os mexicanos, neste western o mexicano Curly, interpretado por Nacho Galindo é o único que se mantém fiel ao seu patrão Jet e que ainda critica Dude Rankin (Bob Steele) pela frieza e covardia de um assassinato de uma vítima indefesa, também mexicana. James Millican, o correto ator dono de uma das mais belas vozes do cinema viria a falecer no ano seguinte, em 1955. Jim Davis não demonstra a maldade necessária que John Dehner, por exemplo, daria ao personagem. John Derek faz pose o tempo todo com sua inegável bela estampa, mostrando que tinha tudo para ser o maior astro dos faroestes ‘B’ nos anos 50, posto que acabou dividido entre o inexpressivo Audie Murphy e o já cansado Randolph Scott. Das duas atrizes principais Catherine McLeod se destaca até porque a Joan Evans falta graça.

Jim Davis e John Derek

Primoroso pequeno western – Exibido também com o título inglês “ The Fortune Hunter”, “The Outcast” tem boa fotografia (no processo Trucolor, infinitamente mais barato que o Technicolor), música eficiente, direção que é uma brilhante lição de como realizar um excelente faroeste com emoção o tempo todo e ainda boas atuações. Ou seja, tudo que um western precisa se encontra em “Tropel dos Vingadores”, um pequeno clássico desse gênero de filme B. E produzido pela ‘Repulsive Pictures’, como chamavam o estúdio mais amado pelos meninos e jovens que frequentava as matinês dos anos 30, 40 e 50, a querida Republic Pictures.

John Derek; Bob Steele


11 de julho de 2019