Felizes as
crianças que cresceram numa cidade grande chamada São Paulo, até o fim dos anos
50. Nesse tempo a população ainda não chegara aos três milhões de habitantes e na maior parte dos bairros da periferia as ruas eram de terra. Meninos e meninas
brincavam nas ruas sem que isso trouxesse preocupação para os pais, e com a
menina Janete não foi diferente. Janete Felix Palma nasceu numa casa num daqueles
bairros cantados por Adoniran Barbosa, a Vila Esperança. Ali morou apenas
quatro meses pois seu pai comprou uma casa em Cangaíba, bairro vizinho à Penha,
também na Zona Leste da cidade. A família era composta por seu Palma, a esposa,
o bebê Janete e duas filhas mais velhas que Janete que era temporã. Com a caçula o
casal Palma fechou a conta, feliz com as três meninas.
O
CINE-PROJETOR BARLAM - Como todas as outras crianças, Janete brincava, nas
ruas, de barra-manteiga (na fuça da nega), esconde-esconde, cabra-cega,
pega-pega, passa-anel, lenço-atrás, amarelinha, queimada, duro ou mole, pula-carniça
e outros. Mas Janete também jogava bolinha de gude, jogo de botão e bafo,
modalidades em que os meninos eram craques. Seu Palma era marceneiro e construiu
um enorme caminhão de brinquedo no qual cabia uma criança. As irmãs se
revezavam dentro do cock-pit, enquanto as outras duas puxavam e empurravam numa
‘vula’ de dar frio na barriga. As meninas ouviam falar em cinema mas nem
imaginavam o que fosse isso, até que um dia seu Palma trouxe para casa um
brinquedo novo. Era um tipo de projetor com uma lâmpada daquelas comuns dentro
e com uma manivela que movimentava pequenas bobinas projetando... filmes. A
marca da pequena engenhoca era “Cine-Projetor Infantil Barlam” e os filmes eram
desenhos em papel manteiga que projetados pela luz e rodados pela manivela
criavam a impressão de movimento. Cinema puro. Mas havia um problema: como
esquentava aquele projetor... Tanto que após um filme ele devia ser desligado
até a lâmpada resfriar. As crianças da vizinhança juntavam-se na casa de Janete
para assistir filmes, comer pipocas e tomar guaraná. Era uma verdadeira festa.
Mas o que era mesmo o tal de cinema, de que tanto as meninas ouviam falar?
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| Cineminha em casa só para quem possuía um Cine-Projetor Barlam; abaixo a filmoteca composta de desenhos impressos em papel manteiga enrolados em pequenas bobinas. Era um show com muita alegria. |
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| Após seis semanas num cinema do centro "Marcelino" chegou ao bairro onde Janete morava. |
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| "Marcelino, Pão e Vinho" em primeiro lugar na Bolsa de Cinema da Folha da Manhã e 15 semanas em cartaz. |
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| Gibi 'Zorro' de agosto de 1957. |
NA VASTIDÃO DA IMAGINAÇÃO - Janete
cresceu, foi para o Ginásio Estadual Padre Manoel da Nóbrega que ficava na Vila
Maria Zélia e não deixou de assistir faroestes com seu Palma na televisão.
Testemunhou, ainda adolescente segurando vela no cinema para a irmã, a invasão
de Ringos, Djangos e Trinitys com dólares de todos os tipos. Viu também com
tristeza adulta desaparecerem John Wayne, Randolph Scott e Audie Murphy.
Animou-se um pouco com Kevin Costner, Kurt Russell e um envelhecido Clint
Eastwood que atuaram em westerns no final do século. Mas o que dói mesmo na
alma de Janete é não mais poder brincar de mocinho e bandido na vastidão
daquela pequena vila de sua infância.






