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1 de fevereiro de 2013

POR UM PUNHADO DE DÓLARES (Per un Pugno di Dollari) – LEONE DESCOBRE CLINT EASTWOOD


A imagem do homem solitário vestido com um poncho e com um toco de cigarrrilha no canto da boca em “Por um Punhado de Dólares” (Per un Pugno di Dollari) criada por Clint Eastwood é tão importante para o cinema, especialmente para o faroeste, quanto a presença de John Wayne/Ringo Kid em “No Tempo das Diligências” (Stagecoach). Se em 1939 John Ford com seu filme deu ao gênero sutileza, lirismo e respeito antes jamais imaginados, Sergio Leone 35 anos depois mudou definitivamente a forma de se fazer westerns. O diretor italiano acrescentou ao faroeste, com “Por um Punhado de Dólares”, padrões tão chocantes no realismo sujo e na extremada violência que o gênero nunca mais voltaria a ser o mesmo. Longe de ser uma obra-prima como “No Tempo das Diligências”, o primeiro faroeste de Sergio Leone antecipou, no entanto, o perfeito domínio fílmico que o diretor alcançaria em seus trabalhos posteriores a partir da incrível, corajosa e humorada criatividade do diretor.


Akira Kurosawa filmando "Yojimbo".
O ‘Yojimbo’ de Sergio Leone - “Por um Punhado de Dólares” foi o mais importante western produzido na Europa nos anos 60, num tempo em que muitos outros já vinham sendo lá filmados com razoável aceitação. Contando com capital italiano (Jolly Film), alemão (Constantin Film) e espanhol (Ocean Film), Sergio Leone juntou os 200 mil dólares necessários para sua primeira aventura no gênero que ele mais admirava, o faroeste. A história seria baseada em “Yojimbo”, filme japonês de Akira Kurosawa rodado em 1961 que alcançou sucesso internacional. Na esteira do êxito de “The Magnificent Seven” (Sete Homens e um Destino), também baseado em filme de Kurosawa (“Os Sete Samurais”), o western de Leone deveria se chamar “O Magnífico Estranho”. Leone fugiu da obviedade e preferiu o título “Per un Pugno di Dollari”. O amalucado ronin criado por Toshiro Mifune mudaria para um homem minimalista nas palavras e gestos. Leone tinha em mente apenas um ator para seu ronin: Henry Fonda. Os padrões salariais dos grandes astros em 1963 andavam por volta de um milhão de dólares por filme (Elizabeth Taylor, John Wayne, William Holden, Paul Newman e outros) e Henry Fonda até que pediu barato ao solicitar 200 mil dólares para atuar no filme de Leone. Não houve sequer contraproposta, mas sim novos contatos de Leone com Charles Bronson e com James Coburn. Bronson não se interessou e Coburn pediu 50 mil dólares, um exagero não tão grande quanto a barriga de Sergio Leone, mas ainda assim muito acima do que os produtores poderiam pagar. O ‘magnífico estranho’ imaginado por Sergio Leone deveria ser uma mescla de Henry Fonda com James Coburn, ator que havia impressionado Leone por sua atuação em “Sete Homens e Um Destino”.

Clint Eastwood em "Rawhide".
Os trajes de ‘Rowdy Yates’ - Foi sugerido ao diretor italiano o nome de um ator igualmente alto e magro chamado Clint Eastwood, segundo nome no elenco de uma série de TV norte-americana intitulada “Rawhide”. Para 60 dias de filmagens foram oferecidos 15 mil dólares a Clint Eastwood que considerou boa a proposta. Além de ser um trabalho diferente da já desgastante série de TV na qual ele atuava há quatro anos, Clint iria conhecer a Europa de graça e viver uma nova experiência artística. Eastwood só não esperava encontrar tanto amadorismo nas locações do filme que se chamaria “Por um Punhado de Dólares”. Ainda bem que junto com Clint foi contratado seu amigo e dublê William Thompkins, única pessoa no set que também falava Inglês. Thompkins era norte-americano e foi contratado também para a função de consultor para as filmagens. Clint Eastwood quase fez as malas de volta quando no primeiro dia de filmagem viu que o regista Sergio Leone apareceu para dirigir vestido de mocinho, com chapéu, cinturão e revólver, envolvido até a alma naquilo que fazia. Da mala trazida por Clint de Hollywood saíram o chapéu, botas, esporas e peças de roupa usadas por ‘Rowdy Yates’, seu personagem em “Rawhide”. Isso foi a salvação pois Leone queria literalmente fantasiar o ator, a quem começou vestindo com um poncho. Marlon Brando havia usado um poncho em “A Face Oculta”, mas era uma peça mais discreta que a espalhafatosa manta escolhida por Leone. Clint ajudou não só a vestir seu personagem como também, depois de ler o roteiro, fez algumas sugestões de alteração dos diálogos do ‘estranho sem nome’ para torná-lo mais coeso e distante do delírio do diretor.

Poncho e cigarrilha - Sergio Leone não abria mão de dois detalhes para o ‘estranho sem nome’: o poncho e uma cigarrilha que nunca deveria sair de sua boca. O poncho o relutante Clint acabou usando apenas no início e fim do filme, já a cigarrilha permaneceu o tempo todo na boca do ator que sequer fumava, tornando-se sua marca registrada. Este último detalhe era resultado de remotas lembranças dos heróis dos policiais noir como Humphrey Bogart e mais ainda de Jean-Paul Belmondo de “Acossado”, que marcou toda uma geração. Assim deveria ser o ‘homem sem nome’. E como esses tipos imortalizados no cinema o personagem de Leone deveria ser também cínico, amoral e não confiar em ninguém. No cenário construído em Colmenar Viejo, lugarejo ao norte de Madrid onde grande parte do filme seria rodado, surgiu então a impressionante figura criada por Sergio Leone. Mas nem em sonhos poderia ele imaginar alguém com o carisma daquele desconhecido ator. Frio, impassível, gestos econômicos, elegante nos trajes empoeirados e além de tudo bonito, beleza ainda mais destacada perto dos demais atores do filme, muitos deles portando cicatrizes e outros defeitos possíveis. Clint Eastwood havia assistido “Yojimbo” e conhecia a história das duas facções que se digladiavam pelo poder na pequena cidade onde o ‘estranho sem nome’ chegaria para mudar a ordem das coisas. Sergio Leone e seu time de roteiristas (Duccio Tessari, Jaime Comas, Fernando Di Leo, Tonino Valerii e Victor A. Catena) mantiveram alguns personagens marcantes do filme de Kurosawa, como o louco que grita anunciando chegadas (o tocador de sino), o agente funerário feliz com a profusão de trabalho e o amedrontado dono da taverna. As duas gangues foram transformadas em contrabandistas de armas e de bebidas, os Baxters contra os Rojos. Entre elas o ‘estranho sem nome’ rápido, mortal e impiedoso.

Sergio Leone
Apelido sarcástico - Não houve maiores problemas para Clint Eastwood se relacionar com aquela Babel que eram as locações do filme, até porque ele só precisava dizer suas poucas falas. Como não entendia os demais atores, Clint esperava um tempo maior para ter certeza que era sua vez de falar nas cenas rodadas. A ação, esta sim, surpreendia Eastwood cada vez mais pois Leone não brincava em serviço, ou melhor, parecia estar verdadeiramente brincando de mocinho e bandido mas sem limites de imaginação. Terminadas as filmagens, Clint Eastwood retornou para os Estados Unidos e acreditou que nunca mais ouviria falar daquele filme. Mas não foi bem assim. “Por um Punhado de Dólares” não conseguiu ser exibido nos Estados Unidos nos anos seguintes, por impedimentos legais criados por Akira Kurosawa que exigia direitos pela história. Porém o sucesso na Itália e na Europa não passou despercebido por ninguém que acompanhasse cinema. Em 1964, quando de seu lançamento, o western de Leone superou as bilheterias das superproduções “My Fair Lady” e “Mary Poppins”. A atriz Sophia Loren queria saber quem era esse ‘Clint Eastwood’ que vendia mais ingressos na Itália que ela e Marcello Mastroianni somados. A popularidade de Eastwood e do filme de Sergio Leone chegaram, também aos Estados Unidos, assim como as informações que diziam que, enquanto na sacrossanta terra dos faroestes fazia-se cada vez menos filmes desse gênero, “Por um Punhado de Dólares” havia deflagrado uma avalanche de faroestes filmados na Europa. Filmes de discutível qualidade que faziam o público lotar os cinemas. Um verdadeiro fenômeno. Os sarcásticos norte-americanos passaram a chamar esses filmes pejorativamente de ‘spaghetti-western’. Como porém os italianos adoram massa, adotaram o bem-humorado mas preconceituoso apelido que iria se transformar na mais influente vertente do faroeste, mesmo na terra de John Ford e John Wayne.

Mario Brega - Joseph Egger
Exasperante frieza - Assistir a “Por um Punhado de Dólares” é sempre uma renovada e emocionante experiência na qual se constata o processo criativo de Sergio Leone, isto desde os letreiros iniciais que prenunciam o inusitado com sons de tiros ricocheteando intermitentemente. O ‘estranho sem nome’ atira em quatro oponentes vistos a partir dos olhos do atirador que sussurra para o coveiro: “Um caixão a mais, eram quatro bandidos e não três”, delineando a personalidade do ‘estranho’. O desenrolar da história é previsível pois aquele ‘estranho sem nome’ não irá se vender a nenhuma das duas odiosas facções. Essa previsibilidade, no entanto, é desmontada com a crescente violência das ações que culmina quando um dos grupos rivais liquida o outro incendiando o local onde estão seus membros e assassinando-os sem compaixão. O misterioso ‘estranho sem nome’ e sem passado, enfrenta a crueldade com igual crueldade e sua exasperante frieza e destreza fazem dele uma figura intimidadora e mítica. Os bandidos sabem disso e num momento em que ‘o estranho sem nome’ é capturado pelos homens de Rojo, todos do bando destilam seus ódios com gestos cada vez mais violentos. É quando Chico (Mario Brega) crava uma espora na mão do ensanguentado estranho. Milagrosamente este se levanta e consuma o extermínio do bando sobrevivente, matando primeiro o rotundo Chico numa cena de antológica violência. Sem sentimentalismos, com um simples ‘adiós’ ‘o estranho’ diz ao taberneiro Silvanito (José Calvo) que o ajudou que San Miguel está livre daquela escória humana.

Clint Eastwood e Marianne Koch
Descaso com roteiro e interpretações - “Por um Punhado de Dólares” está longe de ser um filme perfeito. Melhor esquecer o fator dublagem que por mais bizarra e bisonha que seja não consegue destruir as qualidades do filme. Muitas das imagens de Leone lutam contra incoerências do roteiro como a inexplicável resistência de Silvanito à tortura que lhe é imposta por Ramón Rojo (Gian Maria Volontè). A incapacidade, num filme tão violento, de Ramón subjugar sua desejada e desprotegida Marisol (Marianne Koch). O por que de Ramón atirar insistentemente contra o escudo do adversário e não contra sua cabeça ou pernas desprotegidas é também inaceitável. Permanece a impressão de um certo descaso com o roteiro (e para com o público) que poderia e merecia ser melhor elaborado sem tirar a ênfase da disputa entre os Rojos e os Baxters. E há as interpretações cuja tônica são os caricaturais olhares e esgares sentenciosos e ameaçadores, incrivelmente teatrais descambando para o cômico. Não na comicidade excelente do velho Piripero (Joseph Egger), ou no excessivo histrionismo de Mario Brega e Aldo Sambrell, mas na pretensa e empostada seriedade de quase todos os atores. E o simpático José Calvo (Silvanito) é supremo nesse quesito. Muitos dos atores de “Por um Punhado de Dólares” passariam a formar uma espécie de Leone’s Stock Company, à moda de John Ford. E somente quando conseguiu contar com atores de maior competência os filmes de Leone mudaram para melhor. Muito melhor.

Ninguém acreditava no grande sucesso que seria o primeiro western
de Leone, nem ele próprio. Tanto que os nomes do poster de lançamento
 tentam enganar o espectador indicando ser um filme norte-americano.
Notem que o diretor é 'Bob Robertson' (Sergio Leone). Gian Maria Volontè
virou 'Johnny Wells'. Até o nome da atriz alemã Marianne Koch está
grafado errado. 'Carol Brown' é Bruno Carotenuto (sobrinho de Memmo);
'Benny Reeves' não é outro senão Benito Stefanelli.
Quando do relançamento do filme um ano depois, Sergio Leone e
Gian Maria Volontè usavam seus próprios e então famosos nomes. 

Alessandro Alessandroni
O western ganha novos acordes sonoros - Cada sequência deste western de Sergio Leone ganha um brilho diferente com a música de Ennio Morricone, ressaltando minuciosamente os movimentos de personagens e ações. Partindo de um tema principal, Morricone transcreve a mesma melodia com diferentes instrumentos criando uma gama variada de efeitos que dão ao filme um ritmo insólito e agradável. O destaque é sem dúvida o solo de trompete executado por Michele Lacerenza que se tornaria clássico e por isso mesmo imitadíssimo. Leone vetou uma canção com letra para fugir do estilo criado para os westerns norte-americanos dos anos 50 quando Frankie Laine e outros narravam na introdução o desenrolar da história. E Ennio Morricone fez uso ainda do Coral Allessandroni Singers emoldurando com um tom algo solene algumas passagens do filme. Allesandro Alessandroni é ainda quem toca a marcante guitarra do tema principal. Assim como as inovações fílmicas, repletas de close-ups, igualmente a música de “Por um Punhado de Dólares” abriria novos horizontes para as trilhas de westerns a partir do gênio de Ennio Morricone.

Leone dirigindo Clint.
Panteão dos Mestres - “Por um Punhado de Dólares” foi a felicíssima reunião de Sergio Leone, Clint Eastwood e Ennio Morricone, resultando na criação de uma nova forma de se fazer faroestes. Sergio Leone se sobressaiu na volumosa produção européia que se seguiria conseguindo se aproximar da alma do western norte-americano com sotaque europeu. A produção de westerns naquele continente, em sua maior parte dirigidos por diretores italianos muito aprendeu com o mestre maior que foi Sergio Leone, ainda que nem sempre com resultados próximos. Leone, por sua vez, aperfeiçoou seu estilo inconfundível e entrou para o seleto panteão dos maiores diretores de faroestes, onde descansam John Ford, Anthony Mann, Delmer Daves, John Sturges, Henry Hathaway, Howard Hawks, Raoul Walsh, Budd Boetticher e outros nomes. Essa a importância maior de “Por um Punhado de Dólares”, onde tudo começou.