A palavra ‘partner’, em Português,
significa par, parceiro ou sócio. No Velho Oeste
norte-americano essa palavra era pronunciada pardner, ganhando conotação mais
ampla pois passou a significar companheiro de jornadas, amigo de verdade. Na
pronúncia carregada dos cowboys virou pal, como é ouvida em muitos filmes. Pardner poderia ser também o cavalo dos mocinhos aquele que nos faroestes ‘B’ era
quase sempre mais importante para ele que a própria mocinha. O Pardner verdadeiro devota ao amigo, acima de tudo, Lealdade e o gênero western é
pródigo em mostrar essa qualidade cada vez mais rara entre os seres humanos.
 |
Pardners na tela: Paul Newman e Robert Redford Kevin Costner e Robert Duvall - Robert Duvall e Tommy Lee Jones Randolph Scott e Joel McCrea - Warren Oates e Peter Fonda Victor Mature e Henry Fonda - Kurt Russell e Val Kilmer Henry Fonda e Anthony Quinn - Viggo Mortensen e Ed Harris |
Amizades
inesquecíveis - A mais famosa amizade do Velho Oeste mostrada pelo cinema
foi a de Butch Cassidy com Sundance Kid (Paul Newman e Robert Redford), mas há
dezenas de leais amizades que merecem igualmente ser lembradas. Entre as amizades memoráveis
estão a de Peter Fonda com Warren Oates em “Pistoleiro Sem Destino”; a de
Randolph Scott e Joel McCrea em “Pistoleiros do Entardecer”; a de Robert Duvall
e Kevin Costner em “Pacto de Justiça”; a de Anthony Quinn e Henry Fonda em
“Minha Vontade é Lei”; mais recentemente a amizade de Ed Harris e Viggo Mortensen em
“Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei”. Clássica em muitos westerns foi a amizade
entre os personagens Wyatt Earp e Doc Holliday, com destaque para Henry Fonda-Victor
Mature e Kurt Russell-Val Kilmer, respectivamente em “Paixão dos Fortes” e
“Tombstone – A Justiça está Chegando”. Os exemplo são tantos mas é impossível
deixar de citar uma das mais poéticas amizades entre pardners nos
faroestes que foi aquela entre os personagens de Robert Duvall e Tommy Lee
Jones em “Pistoleiros do Oeste” (Lonesome Dove). “A Audácia é Minha Lei”
(Tennessee’s Partner), de Allan Dwan é mais um filme sobre o tema ‘Lealdade’,
ainda que fique longe das amizades aqui citadas.
 |
Acima Cowpoke e Tennessee; abaixo Cowpoke e Goldie. |
Os
amigos Tennessee e Cowpoke - Da série de westerns que Allan Dwan
dirigiu para o produtor Benedict Bogeaus, o melhor foi “Homens Indomáveis”
(Silver Lode), mas o mais caro e mais bem produzido foi “A Audácia é Minha
Lei”, de 1955. O roteiro de “Tennessee’s Partner” foi baseado em uma história
de Bret Harte que já havia sido filmada duas vezes no cinema mudo, em 1916 e em
1924, esta última com Harry Carey. Os dois principais personagens do filme são conhecidos simplesmente por Tennessee (John Payne) e Cowpoke (Ronald
Reagan). A ação se passa na cidade de Sandy Bar, na Califórnia, num tempo em
que todos queriam descobrir ouro. Todos menos Tennessee que vestido com
elegância, não se dispunha a sujar as mãos, extraindo seu ganha-pão nas mesas de
pôquer. Tennessee é salvo de ser morto em uma emboscada armada por um seu
desafeto no jogo. Quem o salva é o estranho chamado Cowpoke recém-chegado a Sandy
Bar. Tennessee e Cowpoke tornam-se amigos e o cowboy revela que está lá para se
casar com Goldie Slater (Coleen Gray), que como o próprio nome indica se interessa mesmo é pelo dinheiro de Cowpoke. Goldie é instalada num local
chamado ‘Marriage Market’, misto de bordel e casa de jogos, lugar dirigido por
Elizabeth ‘Duchess’ Farham (Rhonda Fleming). A amizade entre Tennessee e
Cowpoke é salientada quando o jogador prova que a noiva de Cowpoke é o que se
chamava na época de ‘gold-digger’ (cavadora de ouro), levando-a para São
Francisco às vésperas do casamento. Custa para Cowpoke entender que a atitude do amigo foi um ato de
dolorosa lealdade. Acostumado a limpar as carteiras dos demais jogadores nas mesas
de pôquer, Tennessee tem de enfrentar a ira de Turner (Anthony Caruso) que
tenta matá-lo. Cowpoke se interpõe entre os dois e é alvejado por Turner,
morrendo pelo amigo Tennessee. O jogador perde o amigo mas fica com a bela Duchess
como consolação, casando-se com ela.
 |
| As espetaculares brigas de "A Audácia é Minha Lei". |
Brigas
antológicas - “A Audácia é Minha Lei” é um faroeste com roteiro que tenta
alternar momentos cômicos com outros dramáticos. Ocorre que comicidade nunca
foi o forte de Allan Dwan e até mesmo o único personagem engraçado do filme que
é o do minerador Grubstake McNiven (Chubby Johnson) não faz rir. Culpa de quem
pediu para Chubby Johnson tirar a tradicional barba. E a trama principal, que é Cowpoke ser
enganado pela aventureira Goldie Slater, é inteiramente inconvincente. Cinco anos depois
Henry Hathaway faria muito melhor e com mais graça no clássico “Fúria no Alasca” com Capucine
querendo dar o golpe em qualquer um dos endinheirados aventureiros (John Wayne ou
Stewart Granger). Se há algo de fato cômico em “A Audácia é Minha Lei” é ver
o xerife (Leo Gordon) prendendo e soltando os pardners a todo momento, ele
Leo Gordon, eternamente atrás das grades em outros filmes. O que torna este faroeste
imperdível são as duas inacreditavelmente realistas brigas que acontecem, sem a
utilização de dublês (exceção de um impressionante vôo de três metros de
altura mostrado na foto acima). A primeira das lutas, não propriamente uma luta, mas uma surra que Cowpoke (Reagan)
aplica em Tennessee (Payne), sem que este reaja; a segunda, esta sim, uma luta
autêntica entre Tennessee e Turner (Tony Caruso), briga para matar de inveja as muitas
simulações com doublês vistas em filmes, por exemplo, de Randolph Scott. As
duas sequências valem o preço do DVD. Outra excepcional sequência criada por Allan
Dwan é o jogo de pôquer entre Tennessee e Reynolds (Myron Healey), tão
emocionante como um duelo no meio da rua principal. Mas há mais no filme para
deliciar o espectador.
 |
| Tennessee e Duchess. |
Luxo
para os padrões da RKO - Em 1955 Howard Hughes vendeu a RKO para
a gigante General Tire and Rubber Company, cuja orientação era fazer filmes
econômicos, no que Allan Dwan era mestre. Com orçamentos sempre inferiores a um
milhão de dólares e nunca ultrapassando três semanas de filmagens o veterano
diretor era um mestre em realizar filmes bons e baratos. Porém o espectador ao assistir “A Audácia é Minha Lei” fica com a impressão de ter visto uma
superprodução. A estonteante Rhonda Fleming muda de vestidos a cada sequência,
vestidos dignos dos ricos guarda-roupas da milionária MGM. E o bordel-saloon ‘Marriage Market’
é simplesmente o mais luxuosamente decorado de qualquer faroeste, obra do
diretor de arte Van Nest Polglase, responsável entre outros filmes pela direção
de arte igualmente barroca de “Cidadão Kane”. O multicolorido lupanar tem seus
cores e objetos exibidos com brilho invulgar pela iluminação e lente da câmara do húngaro John Alton, cinegrafista do
balé final de “Sinfonia em Paris”. Mas a estática câmara de John Alton filma a
maior parte dos diálogos de “A Audácia é Minha Lei” com os atores de perfil,
não buscando ângulos melhores e tornando as cenas até monótonas. A trilha sonora tem
a vibração comum aos faroestes da RKO e como bônus a animada canção “Heart of
Gold”, também cantada num entrecho do filme por Rhonda Fleming quando esta está se banhando.
 |
A placa na porta do 'Marriage Market' e o sheriff interpretado por Leo Gordon; as ladies do bordel. |
Faroeste
agradável - Muito justamente apelidada ‘The Queen of Technicolor’, Rhonda
Fleming desfila sua beleza (e vestidos) enquanto administra o ‘Marriage Market’.
Esse é o nome da casa onde lindas e sempre disponíveis moças (uma delas Angie
Dickinson) aguardam pretendentes a um possível casamento, como indica o nome do
lugar. E a placa à porta do ‘Marriage Market’ diz: ‘Mercado de Casamento –
Jovens senhoritas, todas capazes de cozinhar e todas desejosas de encontrar
maridos decentes – Gerente: Elizabeth Farham’. Divido em três setores, o salão
de estar, a sala de jogos e o andar superior com as alcovas, é lá que se ganha
e se perde, se ama e se é traído. Lá circula a figura exuberante e sensual de
Rhonda Fleming, com quase nada para fazer além disso, num papel irrelevante até
porque “A Audácia é Minha Lei” é um filme sobre a amizade masculina. John Payne
com bigode e cinismo na linha de Clark Gable se sai bem como Tennessee, assim
como Ronald Reagan faz o que melhor sabia fazer na vida que é interpretar ele mesmo, ou seja, um cowboy.
O excelente elenco de apoio é composto por Anthony Caruso em grande forma
física, Morris Ankrum, Chubby Johnson sem barba e sem graça, Myron Healey e Leo
Gordon como o autoritário xerife de Sandy Bar. “A Audácia é Minha Lei” é um western que vale à
pena ser visto, trazendo saudade dos tempos em que nossos cinemas apresentavam
rotineiramente faroestes agradáveis como esse.
RHONDA FLEMING: LUXO, BELEZA E SENSUALIDADE
 |
Nos quadros acima e abaixo os muitos modelos que vestiram a beleza de Rhonda Fleming em "A Audácia é Minha Lei". |