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17 de maio de 2014

JOSEY WALES, O FORA-DA-LEI – CLINT EASTWOOD ENTRE JOHN FORD E SERGIO LEONE


Asa Earl Carter, que assinava livros como
Forrest Carter.
Quando Clint Eastwood assumiu a direção de “Josey Wales, o Fora-da-Lei”, em 1975, a crítica cinematográfica já reconhecera seu talento também atrás das câmaras. Clint havia dirigido quatro outros filmes e dois destes - “Perversa Paixão” (Play Misty for Me), sua estreia como diretor, e “O Estranho Sem Nome” (High Plains Drifter) - foram filmes de inegável qualidade artística. A revista ‘Time’ relacionou “Josey Wales, o Fora-da-Lei” entre os dez melhores filmes norte-americanos lançados em 1976 e, para muitos críticos, este é o melhor faroeste dirigido por Eastwood, acima mesmo do premiado “Os Imperdoáveis” (Unforgiven). Em 1996 a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos selecionou “Josey Wales, o Fora-da-Lei” para que o filme fosse preservado, por aquele órgão, por sua importância cultural, histórica e estética, honraria reservada a poucos westerns. “Josey Wales, o Fora-da-Lei” interessou a Clint Eastwood assim que leu “The Rebel Outlaw: Josey Wales”, de autoria de Forrest Carter. Esse livro foi relançado posteriormente com o título “Gone to Texas” e pelo seu conteúdo ninguém poderia supor que tivesse sido escrito por alguém que pertencera à ‘Ku Klux Klan’. O verdadeiro nome de Forrest Carter era Asa Earl Carter, e foi descoberto ser ele um extremado racista nascido no Alabama e que, entre uma e outra ação segregacionista, escrevia os discursos do governador do Alabama George Wallace. Ficou famoso o slogan criado por Asa Earl Carter com o qual Wallace fechava seus discursos durante suas campanhas políticas nos anos 60: “Segregation today, segregation tomorrow, segregation forever!” Paradoxalmente, “Josey Wales, o Fora-da-Lei” pode ser visto como um filme com intenções pacifistas.


Bill McKinney e Clint Eastwood
O rebelde vingador - A história de Forrest/Asa Earl Carter foi adaptada para o cinema por Phil Kaufman e Sonia Chernus. Transformada em roteiro narra a jornada de Josey Wales (Clint Eastwood) que busca vingar a morte de sua esposa, filho e a destruição de sua pequena propriedade no Missouri. Vivia-se o final da Guerra Civil e um grupo de soldados da União apelidados de ‘Redlegs’ comandados pelo sanguinário Capitão Terrill (Bill McKinney) exterminava e destruía o que encontrava pelo caminho que percorria. Durante o ataque dos Redlegs ao rancho dos Wales, Terrill corta com sua espada o rosto de Josey que no entanto sobrevive. Recuperado Wales se junta ao grupo de sulistas liderado por Bloody Bill Anderson (John Russell). Esses homens praticam guerrilhas contra as forças da União e, com a morte de Anderson num desses embates, o Capitão Fletcher (John Vernon) assume o comando do grupo. Quando ocorre a rendição Fletcher faz com que seus comandados se entreguem mas estes são covarde e impiedosamente assassinados por ordem dos oficiais no Exército da União. Josey Wales consegue escapar milagrosamente, agora com duplo motivo para se vingar de Terrill (e também do ‘judas’ Fletcher) passando à condição de renegado. Atemorizado o Senador Lane (Frank Schofield), responsável pela contenção de ações violentas de sulistas inconformados com a derrota, incumbe o Capitão Terrill de perseguir e matar Josey Wales. Durante as andanças do rebelde Wales juntam-se a ele o velho índio cherokee Lone Waite (Chief Dan George), a índia navajo Little Moonlight (Geraldine Keams), uma velha senhora do Kansas de nome Sarah (Paula Trueman) e sua neta Laura Lee (Sondra Locke). Mais tarde os remanescentes da cidade-fantasma de Rio Santa se agregam a  Josey Wales que se vê às voltas com comancheiros, caçadores de recompensas e índios comanches. O grupo que o acompanha se instala em um rancho no Texas onde é atacado por Terrill e seus homens. No confronto Wales mata Terrill mas o já lendário rebelde do rosto marcado continua sendo procurado por Texas Rangers. E é o próprio Fletcher quem se redime da traição ao afirmar diante dos Texas Rangers que Josey Wales está morto, permitindo assim que ele possa iniciar nova vida.

Ainda como rancheiro no Missouri, Josey Wales ao lado do filho, interpretado
por Kyle Eastwood, filho verdadeiro de Clint.

Chief Dan George e Clint;
abaixo Paula Trueman, Sondra Locke e
Geraldine Keams.
Josey Wales e seu grupo desigual - Quando Josey Wales inicia sua odisseia de vingança vem a impressão de nova aventura do personagem do Estranho Sem Nome criado por Sergio Leone para Clint Eastwood. Mais ainda com a aparência mística de divindade adquirida com os cabelos mais longos, a economia de palavras e a mesma invulnerabilidade diante dos sempre mais numerosos oponentes. Na falta da cigarrilha Josey Wales masca tabaco e cospe em insetos, em homens mortos, no cão que o acompanha e no traje branco de um vigarista ambulante. Vem então à lembrança o jovem Henry Fonda que mascava e cuspia em westerns e a essa altura já se sabe que Wales terá sempre companhia, mesmo nos embates travados a bala. Primeiro o jovem soldado confederado Jamie (Sam Bottons) que mesmo ferido cavalga com Josey Wales e o ajuda no enfrentamento dos pretensos e miseráveis caçadores de recompensas. O índio Lone Waite é o companheiro de jornadas da língua afiada com frases irônicas e zombeteiras. Engraçado como um sidekick dos antigos faroestes B. A distância do personagem principal da Trilogia dos Dólares aumenta à medida que novos personagens entram na história e o seguem, uma referência ao heterogêneo grupo de “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo). São, no entanto, tipos fordianos como a irascível avó Sarah, crítica dos costumes do Oeste, especialmente de quem vem do Missouri; Ten Spot (Royal Damo), o jogador mentiroso; o barqueiro sarcástico (William O’Connell). Outra citação a um western clássico ocorre no final quando Wales passa por Wilson (referência ao Jack Wilson de “Shane”) e se afasta sangrando como o próprio Shane. Ao contrário do cavaleiro dos vales perdidos, Josey Wales parte rumo a uma nova vida pacífica junto à comunidade que começa a se formar. E lá está Laura Lee, nova companheira.

Clint e Chief; William O'Connell e Woodrow Parfey.

Acima Will Sampson; abaixo Sondra Locke
na sequência de estupro.
Morrendo com a maldita guerra - Josey Wales, o Fora-da-Lei” traz, além de Lone Waite e Little Moonlight, outro personagem nativo, o temido chefe comanche Ten Bears. Amigo de comancheiros e inimigo mortal dos ‘bluebelly’ (soldados da União), Ten Bears ouve e aceita o que Wales pensa dos homens brancos que levam a desgraça aos índios. Decididamente pró-índio, o filme de Eastwood os mostra conscientes diante dos belicosos túnicas azuis que os tornou ‘civilizados’ como irônica e tristemente se intitula Lone Waite. A índia Little Moonlight é vítima de tentativa de estupro por parte de homens brancos, o mesmo ocorrendo com a jovem Laura atacada por comancheiros mas que deve ser preservada para o chefe Ten Bears. E ao chegar a uma cidade é oferecido a Wales escalpos legítimos de índios massacrados por brancos. Wales passa de perseguidor a perseguido, continuando o mesmo homem que, sedento por vingança, diz que “... não há como esquecer”, expressando mais tarde que “todos morrem um pouco com a maldita guerra”. Wales, sabedor que ninguém escapa de ser vítima da bestialidade dos conflitos.

'Não há como esquecer' / 'Penso que todos morremos um pouco
nesta maldita guerra'.

Josey/Jesus - Com 135 minutos de duração, “Josey Wales, o Fora-da-Lei” jamais cansa e as sequências de ação surgem magnificamente encenadas com Clint Eastwood exibindo seu incrível carisma com os revolveres nas mãos. Certo que o número de adversários, invariavelmente maior, possa criar uma sensação pouco verossímil, mas a aura de Eastwood é suprema e seus Colts Navy não deixam margem a duvidar de sua frieza e pontaria certeira. Ao se defrontar com quatro soldados yankees Wales pergunta “Vocês vão sacar ou assobiar o Dixie?”, nuance dos westerns europeus, presente mais especialmente na sádica execução de Terrill que ouve o metálico e torturante ruído dos revólveres que não disparam pois os tambores foram esvaziados. E outras duas armas sacadas por Wales igualmente supliciam Terrill sem que o tiro de misericórdia seja disparado, até que sua própria espada penetre suas entranhas consumando a vingança. ‘Os que empunham a espada pela espada morrerão’ biblicamente insinua o gesto do rebelde com o corte no rosto com a figura ainda mais enlevada. Não por acaso de nome ‘Josey’, próximo a ‘Jesus’ e inusitado para um homem do Oeste.

Terrill e a morte pela própria espada.

Acima o vingador e seu sidekick;
abaixo John Vernon; com os corpos
enterrados John Verros e Sheb Wooley.
Chief Dan George, o sidekick cherokee - A vida em comunidade impõe a presença feminina e Clint Eastwood impôs a presença da atriz Sondra Locke que, ainda bem, participa apenas da parte final de “Josey Wales, o Fora-da-Lei”. Infeliz escolha do ator-diretor-produtor que nem sempre prima por um rosto de mulher bonito em seus filmes que já tiveram Frances Fischer, Jessica Walter, Verna Bloom e Carrie Snodgress entre outras mulheres que não podem ser chamadas de lindas. Sondra não é bonita para os padrões de Hollywood e atriz fraca para qualquer padrão interpretativo. E se Paula Trueman mostra-se excessiva como a faladora avó Sarah, o ótimo índio canadense Chief Dan George, que já havia se destacado em “O Pequeno Grande Homem” (Little Big Man), é um perfeito contraponto à sisudez de Eastwood. O também ator índio Will Sampson, com o rosto coberto pela pintura de guerra, nem de longe lembra o maravilhoso ator de “Um Estranho no Ninho”. Bill McKinney é o Capitão Terrill da barba ruiva que passa todo o filme todo com imutável e cansativa expressão de maldade. John Vernon é presença forte que merecia ser melhor desenvolvida pois trai e salva Josey Wales. E John Russell, outra figura marcante, é visto por poucos minutos na tela vivendo ‘Bloody’ Bill Anderson, personagem real da Guerra Civil. Sam Bottons não conseguiu dar maior relevância ao jovem companheiro confederado de Wales. Entre os muitos rostos impressivos de atores pouco conhecidos estão os de Richard Farnsworth, um dos comancheiros; Royal Dano, Sheb Wooley, Matt Clark são alguns dos poucos homens de Rio Santa; John Mitchum (irmão de Bob Mitchum), John Quade (da Clint Eastwood Stock Company) e John Davis Chandler que morrem pelas balas de Josey Wales.

Sondra Locke; cena de amor entre Sondra e Clint.

Personagem épico - Assim como só tardiamente John Wayne foi reconhecido como ótimo ator, o mesmo ocorreu com Clint Eastwood, ainda que Clint mostrasse em muitos filmes que era muito mais que apenas um ‘Estranho Sem Nome’ ou um ‘Dirty Harry’. Eastwood está perfeito como Josey Wales com seus gestos discretos e lentos e o olhar profundo e boca que dizem mais que as poucas palavras que seu personagem pronuncia. Clint deu a Josey Wales uma dimensão épica excepcionalmente aproveitada pela arte dos pôsteres do filme. A trilha sonora musical de Jerry Fielding é, bem ao estilo do compositor, menos musical e mais incidental lembrando mais do que devia o trabalho do autor para “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch). A cinematografia é de Bruce Surtees, parceiro de Eastwood incontáveis vezes. As paisagens de Utah, Arizona e Wyoming capturadas pelas câmaras de Surtees são belíssimas integrando personagens aos cenários. O trabalho de Surtees destaca-se ainda mais quando se sabe que Clint Eastwood, como diretor-produtor, não gosta de perder tempo com preciosismos desse tipo.

Entre Ford e Leone – Circula uma cópia de “Josey Wales, o Fora-da-Lei” com 105 minutos de duração e que deve ser evitada a todo custo não só por comprometer o entendimento do filme, mas também por alterar seu formato tirando muito da beleza do filme. “Josey Wales, o Fora-da-Lei”  foi um dos raros faroestes dos anos 70 que tiveram boa bilheteria, rendendo 14 milhões de dólares em seu primeiro ano de exibição nos Estados Unidos. Nada mal para um filme que custou apenas quatro milhões de dólares e foi rodado em oito semanas e meia. Mesmo assim Clint Eastwood somente voltaria ao gênero que o consagrou em 1985 com o excelente “O Cavaleiro Solitário”. Num tempo em que se produzia cada vez menos westerns, “Josey Wales, o Fora-da-Lei” forma com “O Último Pistoleiro” (The Shootist), os dois melhores faroestes dos anos 70, colocando lado a lado Clint Eastwood e John Wayne, justamente os dois grandes nomes do gênero. Sem atingir o status de obra-prima, “Josey Wales, o Fora-da-Lei” é um filme fascinante, violento como a época impunha, oscilando entre as influências estéticas de Sergio Leone e um surpreendente otimismo típico de John Ford.




12 de maio de 2014

A ‘EMENDA CLINT EASTWOD’ (THE CLINT EASTWOOD AMENDMENT)


John Ford
Há nos Estados Unidos uma série de organizações sindicais criadas com o intuito de proteger os profissionais ligados ao cinema de possíveis prejuízos que possam vir a sofrer em suas carreiras. A mais conhecida delas é o Screen Actors Guild (SAG), que associa os atores. Por sinal essa entidade fundada em 1933 passou a existir em 2012 com outro nome, a SAG-AFTRA, reunindo também atores de televisão e rádio. Também criada em 1933 foi a Screen Writers Guild que em 1954 dividiu-se em Writers Guild of America West e Writers Guild of America East, passando igualmente a concentrar escritores de cinema, televisão e rádio. Criada em 1936, a Screen Directors Guild, é uma entidade que associa diretores e que em 1960 teve o nome mudado para Directors Guild of America. A DGA conta com mais de 14 mil associados, todos diretores de cinema, rádio e televisão. Talvez a mais famosa reunião do Screen Directors Guild tenha sido aquela ocorrida em 1950 e na qual John Ford fez a célebre declaração iniciada com “My name is John Ford anda I make westerns...”, calando a boca de reacionários como Cecil B. DeMille que estava a serviço do macarthismo. Em 1985 a Directors Guild of America alterou seu estatuto, após reunião de seus associados, com uma emenda que ganhou o nome de “The Clint Eastwood Amendment”.

Philip Kaufman
Diretores conquistadores - Quando foi iniciada em 1975 a produção de “Josey Wales, o Fora-da-Lei” (Outlaw Josey Wales) a Warner Bros., associada à Malpaso (a produtora de Clint), indicou para dirigir esse western Philip Kaufman. O último filme de Kaufman, diretor então com 39 anos havia sido “Sem Lei e Sem Esperança” (The Great Northfield Minnesota Raid), abordagem sobre os últimos dias de Jesse James muito bem recebida pelos críticos. Para esse filme Kaufman havia também escrito o roteiro. E foi o mesmo Kaufman quem escreveu o roteiro de “Josey Wales, o Fora-da-Lei”. A escolha da atriz Sondra Locke, contratada para interpretar ‘Laura Lee’ foi feita por Clint Eastwood à revelia de Kaufman. Desde que Clint havia conhecido rapidamente Sondra naquele mesmo ano, não a esquecera e nasceu entre ambos um romance que o casal não teve preocupação de esconder, em que pese Clint estar casado desde 1953 com sua esposa Maggie Johnson. Acontece que Kaufman, que também era casado, se interessou igualmente por Sondra Locke. A jovem atriz de 31 anos deu um ‘chega pra lá’ em Kaufman mas o diretor insistiu no assédio à protegida de Clint que, finalmente, decidiu acertar as contas com Kaufman.

Robert Wise
Robert Wise intervém - O lema de Clint Eastwood como produtor (e diretor) sempre foi ‘under the budget and under the schedule’, ou seja, filmar em menos tempo do que o previsto e com economia. O estilo de Philip Kaufman era exatamente o oposto pois esse diretor filmava de modo meticuloso, sem pressa, prendendo-se a inúteis detalhes, inúteis na concepção artística de Clint. Numa certa sequência em que Kaufman tinha que aproveitar o pôr-do-sol, ele demorou tanto para filmar que o sol acabou se escondendo, levando ao desespero o produtor Eastwood. Foi a gota d’água e Clint demitiu Kaufman, assumindo ele próprio a direção do western. Toda Hollywood tomou conhecimento do fato e Kaufman foi se queixar ao Directors Guild of America, que era presidido por Robert Wise. O premiado diretor de “Amor Sublime Amor” e “A Noviça Rebelde” mandou um ofício para Clint Eastwood dizendo que ele não poderia substituir Kaufman pois além de dono do filme como produtor, ele era também o ator principal.

Marlon Brando
Famosos diretores dispen-sados - Muitos diretores foram dispensados por ‘ordem expressa’ de atores que se julgavam mais importantes que o próprio filme. Anthony Mann foi dispensado da direção de “A Passagem da Noite” (The Night Passage) por James Stewart, em 1957, com James Neilson assumindo a direção. Em 1960 o também produtor (Bryna Productions) Kirk Douglas dispensou o mesmo Anthony Mann da direção de “Spartacus” substituindo-o por Stanley Kubrick. Até aí nada demais, a não ser a prática do poder dos produtores falando mais alto, atitudes aceitas pelo sindicato dos diretores. Mas eis que em 1960 Stanley Kubrick foi dispensado da direção de “A Face Oculta” (One-Eyed Jacks) por Marlon Brando e o próprio Marlon, ator e produtor associado (Pennebaker Productions) desse western tomou a direção. A atitude de Brando deu o que falar mas não resultou em nada, uma vez que Brando agira como ‘produtor’, ainda que seu inflado ego o levasse a crer que dirigiria melhor que Kubrick. E não é que Brando fez um belíssimo western! Em 1975 os diretores já não eram mais contratados dos estúdios como em outras décadas e o Directors Guild of America estava muito mais forte e atuante.

Clint Eastwood
A Emenda Clint Eastwood – O ator-produtor-diretor resolveu a questão criada na produção de “Josey Wales, o Fora-da-Lei” à maneira do ‘estranho sem nome’ e com poucas palavras deu uma indenização a Philip Kaufman, que aceitou prontamente, até porque a situação entre ambos tornara-se insustentável. E Robert Wise aplicou uma multa de 50 mil dólares a Clint pela desobediência à recomendação do Director Guild of America. Wise reuniu o conselho do DGA e foi proposta e votada uma regra segundo a qual nenhum ator-produtor poderia dispensar um diretor depois de as filmagens iniciadas e tomar, esse ator-produtor, o lugar do diretor dispensado. Diretores somente poderiam ser substituídos por diretores. E no caso de Clint Eastwood, era ele também membro da DGA pois já havia dirigido cinco filmes, mais até que Kaufman que contava com quatro filmes dirigidos em sua filmografia como diretor. A regra criada pelo DGA ficou conhecida como ‘The Clint Eastwood Amendment’. Para evitar novos problemas com diretores, Clint passou a dirigir praticamente todos os filmes que produzia e atuava. Quando não dirigia Clint colocava homens de sua inteira confiança como James Fargo, Buddy Van Horn e mesmo Don Siegel. Clint se desentendeu com Siegel em “Alcatraz, Fuga Impossível”, com ambos não mais voltando a se falar, para desgosto de Don Siegel. Mas Clint não esqueceu o amigo pois dedicou “Os Imperdoáveis” (Unforgiven) a Sergio (Leone) e a Don (Siegel).

Sondra Locke
Clint e a Warner Bros. pagam indenizações - Com Sondra Locke o comportamento de Clint Eastwood foi ainda pior pois após viver com ela por oito anos e tê-la como atriz principal em cinco de seus filmes, Clint simplesmente decidiu apagá-la de sua vida, sem direito algum aos anos de vida em comum. Inconformada Sondra acionou Clint na Justiça de Los Angeles. Vingativo como seus personagens, Clint fez com que a Warner Bros., com quem Sondra assinara um acordo para dirigir três filmes, a impedisse de trabalhar atuando ou dirigindo filmes. Mais uma vez a pequenina Sondra, feito Davi, denunciou na Justiça de Los Angeles, por fraude e não cumprimento de contrato, o gigantesco Golias que era o estúdio e, foi reconhecido pela corte o seu prejuízo e nova indenização veio a se somar àquela paga a Sondra por Eastwood. O montante recebido pela atriz-diretora foi mantido em segredo conforme acordado entre as partes, mas especulou-se que a quantia ficou entre 15 e 30 milhões de dólares. Após o desfecho dos processos Sondra ainda ganhou mais um pouco de dinheiro com a publicação do livro de sua autoria intitulado “The Good, the Bad and the Very Ugly”, cujo título (e texto) deve ter provocado a ira de Clint Eastwood.

O último western de Clint Eastwood,
na foto ao lado de Morgan Freeman.
Clint filmando sem parar - A carreira de Sondra acabou, mas a de Clint prosseguiu. Clint teve filhos com quatro mulheres diferentes e casou-se em 1996 com Dina Eastwood, sua segunda esposa. Dina entrou há alguns meses com pedido de divórcio do ator de 83 anos. Como diretor Clint consolidou sua carreira como um dos mais prestigiados diretores de cinema de seu tempo e como produtor ganhou muito dinheiro com seus filmes rodados ‘under the budget and under the schedule’. Dois dos filmes de Clint Eastwood receberam prêmios Oscar de Melhor Filme do Ano, respectivamente “Os Imperdoáveis” (Unforgiven) e “Menina de Ouro” (Million Dollar Baby). Incansável, Clint Eastwood não tem planos de aposentadoria e concluiu recentemente “Jersey Boys”, biografia do grupo vocal ‘The Four Seasons’ e trabalha da pré-produção de “American Sniper”, com lançamento previsto para 2015. Pena que Eastwood não mais tenha retornado ao faroeste, ele que, como personagem do gênero western só fica atrás de John Wayne que é um autêntico ‘hors concours’ nessa categoria.


Sondra Locke e a capa de seu livro; à direita Sondra em "Bronco Billy".

Clint Eastwood com a primeira esposa Maggie Johnson;
abaixo Clint com Dina, sua segunda esposa.

10 de setembro de 2011

O CIÚME DE CLINT EASTWOOD EM “JOSEY WALES O FORA-DA-LEI”


Philip Kaufman havia escrito e dirigido em 1972 um western muito elogiado pela crítica que foi “Sem Lei e Sem esperança” (The Great Northfield Minnesotta Raid), filme que narrou a mais famosa aventura de Jesse James (Robert Duvall), ao lado de Cole Younger (Cliff Robertson). Quando a produtora Malpaso, de Clint Eastwood conseguiu aprovação da Warner Bros. para iniciar a pré-produção de “Josey Wales, o Fora-da-Lei” (Outlaw Josey Wales), em 1975, Philip Kaufman foi contratado para escrever o roteiro e dirigir esse novo western de Clint Eastwood, baseado no livro de Forrest Carter. Kaufman, que era um daqueles diretores puxados para a intelectualidade, foi também incumbido de verificar as diversas locações em que “Josey Wales” seria rodado. Finalmente as filmagens foram iniciadas em Lake Powell, no Arizona e no elenco estava uma pouco conhecida atriz chamada Sondra Locke. A contratação de Sondra desagradou Kaufman pois não fora ele quem a indicara e sim Clint Eastwood que tivera um rápido contato com a atriz dois anos antes, quando Sondra não foi aprovada para o elenco de “Interlúdio de Amor” (Breezy), dirigido por Clint Eastwood. No primeiro dia de filmagens de “Josey Wales”, quando Sondra e Clint se encontraram pela primeira vez, ambos se sentiram atraídos um pelo outro. Clint a convidou para jantarem juntos à noite, mas Sondra já havia combinado jantar com Philip Kaufman. O diretor usou o pretexto de conversarem para melhor desenvolver o personagem de Laura Lee, que seria interpretado por Sondra. A atriz falou para Clint participar também do jantar mas Clint não aceitou jantar a três.

A DISPUTA POR SONDRA LOCKE - À noite, durante o jantar, Sondra só pensava em Clint e nem prestava a atenção no que Kaufman dizia. Porém ela não esqueceu de ele ter dito que seu casamento com Rose Kaufman não ia muito bem e que Rose aceitava os relacionamentos que eventualmente podiam ocorrer durante uma filmagem, típica cantada de homem casado. A certa altura Philip Kaufman colocou sua mão sobre a de Sondra e apertando-a. Sondra imediatamente pediu licença e foi para seu quarto no hotel onde a equipe estava hospedada. Lá chegando Sondra encontrou um recado de Clint perguntando: “Podemos jantar amanhã?” Sondra e Clint nem esperaram para conversar à noite pois passaram o dia juntos. Onde Clint estivesse Sondra estava junto a ele, recebendo de Clint todas as atenções. Trocando em miúdos, o namoro havia começado. Sondra era casada com um artista homossexual e Clint era casado há mais de 20 anos com Maggie Johnson mas viviam separados e toda Hollywood sabia que Clint era não só o Number One das bilheterias mas também o primeiro entre os garanhões da terra do cinema, apreciando especialmente as louras como Sondra Locke.

CLINT DEMITE O DIRETOR - Philip Kaufman tinha um estilo de trabalhar diferente do de Clint Eastwood. Muitas vezes Clint filmava o próprio ensaio e gritava “print”, ou seja, podiam revelar os negativos, meio assim como fazia John Ford. O lema de Clint Eastwood como produtor-diretor sempre foi “Abaixo do Cronograma e Abaixo do Orçamento”. Ao perceber que Philip iria fazer um filme assim naquela linha ‘contemplativa’, começou a irritação de Clint. Kaufman se apegava a pequenos detalhes e para Clint o diretor dar muita atenção a detalhes é sinônimo de prejuízo certo. A primeira semana foi de mal a pior no aspecto das filmagens, mas Clint e Sondra estavam no paraíso no campo sentimental. No primeiro dia da segunda semana de filmagem havia uma cena em que os bandidos chefiados por John Quade atacam o local onde se encontra a família de Laura Lee (Sondra) e tentam estuprá-la. Philip Kaufman mostrou como a cena deveria ser feita segurando por trás Sondra Locke, que teve o vestido e ficando praticamente nua. Terminado o ensaio da sequência, Clint Eastwood informou que as filmagens estavam suspensas, para espanto de todos, principalmente de Kaufman. Clint pediu a Robert Daley, seu braço direito na Malpaso, que informasse a Philip Kaufman que ele estava despedido das filmagens. Foi dado um informe geral que Clint passaria a dirigir “Josey Wales, o Fora-da-Lei”.

REGRA CLINT EASTWOOD - Kaufman tomou o primeiro avião para Los Angeles e no dia seguinte estava no escritório da DGA (Directors Guild of America) prestando queixa contra Clint. A base da reclamação é que todos os contratos assinados por diretores contêm uma cláusula segundo a qual, feita a pré-produção e iniciadas as filmagens, nenhum ator poderia demitir um diretor. Porém neste caso Kaufman estava sendo demitido não pelo ator Clint Eastwood, mas sim pelo produtor que não era outro senão o próprio Clint. O caso foi parar na mesa de Robert Wise, então presidente do DGA que imediatamente determinou que as filmagens fossem suspensas. Pelos estatutos dessa espécie de sindicato dos diretores, um diretor dispensado só poderia ser substituído por outro diretor. Acontece que Clint já havia dirigido cinco outros filmes e aparentemente estava dentro das normas do Directors Guild ao assumir a direção de “Josey Wales, o Fora-da-Lei”. A Warner Bros. decidiu intervir com sua força de maior estúdio norte-americano e acabou conseguindo um acordo com Kaufman que nunca revelou quanto recebeu mas que transpirou que foi 500 mil dólares (hoje mais de dois milhões de dólares). Foi aplicada uma multa de 50 mil dólares a Clint Eastwood, multa que certamente foi paga pela Warner Bros. O Conselho Deliberativo do Directors Guild criou então uma regra que passou a ser chamada de “Eastwood Rule” (Regulamento Eastwood), segundo a qual nenhum diretor demitido depois de iniciado um filme poderá ser substituído por alguém do elenco ou da equipe técnica envolvida nesse filme.

Phil Kaufman (à direita) com o cinegrafista Sven Nykvist

O BOM, O MAU E O MUITO FEIO - “Josey Wales, o Fora-da-Lei” foi um dos maiores sucessos de bilheteria de 1976 e para muitos é o melhor western de Clint Eastwood, melhor até que o premiado “Os Imperdoáveis” (Unforgiven). Depois de "Josey Wales" Philip Kaufman passou três anos sem dirigir, fazendo-o no remake de “Invasores de Corpos” que originalmente fora dirigido por Don Siegel, grande amigo de Clint. Kaufman conquistou a crítica em 1983 com “Os Eleitos - Onde o Futuro Começa”, dirigindo depois “A Insustentável Leveza do Ser”, “Henry e June – Delírios Eróticos” e “Sol Nascente”, este com Sean Connery. Já o romance de Sondra Locke com Clint Eastwood resultou numa das mais tempestuosas relações da história de Hollywood com a corajosa atriz processando (e vencendo!) Clint Eastwood e e a Warner Bros. nos tribunais. E ela ainda ganharia dinheiro escrevendo um livro chamado “The Good, the Bad and the Very Ugly”, mostrando um Clint Eastwood pouco conhecido dos fãs de cinema.