UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN
Mostrando postagens com marcador 1953 - Cidade do Mal (City of Bad Men). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1953 - Cidade do Mal (City of Bad Men). Mostrar todas as postagens

22 de maio de 2019

CIDADE DO MAL (CITY OF BAD MEN) – BOXE EM MEIO A TIROS E ASSALTOS



Um dos mais importantes acontecimentos de 1897 foi a luta de boxe em disputa do título mundial dos pesos pesados entre Jim Corbett e Bob Fitzsimmons (vistos na foto à direita). A contenda teve lugar na cidade de Carson City, Nevada, atraindo centenas de espectadores que pagaram caro para assistir à luta que rendeu 22 mil dólares aos seus promotores. Os roteiristas George W. George e George G. Slavin escreveram uma história ficcional que tem por cenário a Carson City da época da lendária refrega contando ainda com a presença de bandos de foras-da-lei. Estes querem se apoderar da arrecadação do evento, criando uma disputa paralela. Essa luta teve, como fato real, uma curiosidade que foi a contratação de pistoleiros para proteger os lutadores e seus staffs, constando que até mesmo o célebre Wyatt Earp esteve em um dos corners durante o transcorrer da luta. Certamente isso motivou os autores a escrever uma versão do evento, adicionando personagens e fazendo com que o local onde o dinheiro das bilheterias foi reunido fosse assaltado, pouco se diferenciando de um roubo a banco. A produção da 20th Century-Fox foi bem cuidada na parte técnica deste western que, com metragem maior, roteiro menos confuso e atores de maior renome à época poderia ter sido produzido como faroeste classe A.


O assalto à luta do século - Brett Stanton (Dale Robertson) chefia um bando que vai a Carson City com o intuito de roubar a arrecadação da luta entre Bob Fitzsimmons e Jim Corbett. Outros bandidos fazem o mesmo, entre eles o conhecido John Ringo (Richard Boone). Os homens da lei da cidade percebem-se impotentes diante de tantos malfeitores que se misturam aos milhares de forasteiros que invadem Carson City para o evento e decidem aliciar Stanton para que este impeça qualquer ação dos bandidos. Brett Stanton deixou Carson City há seis anos, deixando ainda sua namorada Linda Culligan (Jeanne Crain) o esperando. Linda agora está noiva de Jim London (Whitfield Connor), um dos promotores da disputa pelo título. O bando de Stanton o pressiona para que pratique o roubo combinado, mas Stanton permanece ao lado da lei, mata John Ringo, ficando com Linda Culligan. Nas fotos ao lado Dale Robertson e Richard Boone; Gil Perkins e John Daheim como os boxeurs Fitzsimmons e Corbett.

Dale Robertson e Jeanne Crain
Um homem disputado - “Cidade do Mal” é excessivamente dialogado em sua primeira metade, mesmo não sendo um filme com profundidade psicológica. Com a aproximação do dia da luta pelo título mundial este western se torna mais movimentado e ganha maior interesse. Mais uma vez o romance inserido na história não é muito convincente e só piora quando surge Cynthia London (Carole Matthews) outra figura feminina que também quer o amor de Brett Stanton. Intencionalmente ou não, o roteiro de “Cidade do Mal” lembra bastante “Matar ou Morrer” (High Noon) quanto a essa subtrama amorosa. E não falta nem mesmo a presença de um conquistador violento interpretado por Lloyd Bridges que por sinal quase repete seu personagem do clássico de Fred Zinnemann. Perde-se também a história com a pouca clareza da posição ambígua de Brett Stanton, indeciso em qual lado ficar em meio a um sem número de bandidos e de um xerife aturdido com a desordem que toma conta de Carson City. Tudo isto num filme de meros 80 minutos.

Lloyd Bridges e Carole Matthews; Carole e Jeanne Crain

Tumulto durante a luta - Após a quase concretização do assalto, que resultou em diversas mortes e a devolução do dinheiro roubado, o xerife Bill Gifford de Carson City (Hugh Sanders) exclama que a cidade está tranquila e que nada demais aconteceu, omitindo o assalto frustrado. Crítica certeira em atitude claramente política querendo demonstrar que o xerife foi capaz de controlar a cidade em convulsão. Durante a contenda no ringue ocorrem disparos propositais, na plateia, disparos feitos por bandidos com o intuito de gerar tumulto e que levam à paralisação da luta durante algum tempo. O filme de Harmon Jones deixou de melhor explorar a luta de boxe em si, fato que seria bastante interessante a partir da perspectiva das mudanças nas regras que esse esporte sofreu através dos anos. Pouca ênfase é dada também ao desenrolar do combate, sem que seja, ainda, apresentado o desfecho do mesmo. Na foto à direita Richard Boone.

Dale Robertson
Diretor e mocinho dos ‘Bs’ - Um novo mocinho nos westerns ‘B’ - Dale Robertson era uma das apostas da Fox como jovem galã, mas acabou vingando mesmo como herói em faroestes e em filmes de aventuras. Este “Cidade do Mal” é um dos melhores westerns em que atuou, descontada sua pequena participação em “Entre Dois Juramentos” (Two Flags West). Reunido com Richard Boone que, igualmente iniciava sua carreira naqueles primeiros anos da década de 50, e ainda Jeanne Crain, Dale Robertson formou o trio principal deste western. Lloyd Bridges, que havia tido papel relevante em “Matar ou Morrer” (High Noon) interpreta um irmão de Brett Stanton. A bonita Jeanne Crain que na própria Fox havia tido ótimas oportunidades experimentava declínio em sua carreira e a soma de todos esses nomes não foi capaz de despertar a confiança do estúdio em escalar um diretor de melhor calibre para realizar um filme mais alto nível. Harmon Jones, ex-editor de filmes na Fox, foi promovido a diretor, respondendo por filmes da produção ‘B’ do estúdio. Entre os muitos coadjuvantes conhecidos estão o mexicano Rodolfo Acosta, a boa e bonita Carole Matthews, James Best, John Doucette e Leo Gordon em sua estreia no cinema. Todos eles formam um ingrediente interessante para os cinéfilos que gostam de conhecer além dos astros dos filmes.

Lloyd Bridges, John Doucette, Leo Gordon e Rodolfo Acosta


17 de março de 2016

CIDADE DO MAL (CITY OF BAD MEN) – REUNIÃO DE FORAS-DA-LEI EM CARSON CITY


“Cidade do Mal” (City of Bad Men) é um western e não um filme sobre boxe. No entanto a célebre luta ocorrida em 1897 em Carson City, Nevada, é o pano de fundo deste faroeste. A histórica contenda envolveu o então campeão mundial dos pesos pesados James John Corbett e o desafiante inglês Bob Fitzsimmons. Corbett foi considerado o pugilista inovador da técnica de boxear com um estilo que se diferia da então normal ‘briga de rua’ que ocorria nos ringues. A vida de James J. Corbett foi levada ao cinema no filme “O Ídolo Público” (Gentleman Jim), com Errol Flynn interpretando o boxeador. Flynn lutara boxe antes de ser ator, enquanto Corbett se tornou ator após abandonar o ringue. Confrontos entre grandes lutadores sempre atraíram multidões aos locais escolhidos para os embates e os promotores dessas lutas criaram através dos tempos a expectativa necessária para reunir grandes plateias. A partir dos tempos de Cassius Clay, George Foreman, Mike Tyson e outros pugilistas, a transmissão pela televisão é que possibilitou pagar somas milionárias aos contendores. Em “Cidade do Mal” cem mil dólares é o prêmio para o vencedor, quantia capaz de atrair até quem não é amante da chamada ‘Nobre Arte’. Daí George W. George e George F. Slavin, autores da história original, criaram o interessante roteiro deste western dirigido por Harmon Jones.


Acima Dale Robertson;
abaixo Hugh Sanders e James Best.
A disputada arrecadação - As quadrilhas lideradas por Brett Stanton (Dale Robertson), John Ringo (Richard Boone) e Bob Thrailkill (Don Haggerty) se dirigem a Carson City, no Estado de Nevada, onde ocorrerá a aguardada luta entre o campeão James J. Corbett (John Daheim) e Bob Fitzsimmons (Gil Perkins). A luta pouco interessa aos bandidos, cujo objetivo é assaltar a bilheteria e roubar a arrecadação. Linda Culligan (Jeanne Crain) e Cynthia London (Carole Mathews) são duas mulheres que vivem em Carson City, sendo que Linda manteve, seis anos atrás, um romance com Brett Stanton, antes que este enveredasse pela vida do crime. Para evitar a iminente perturbação da ordem na cidade o xerife Bill Gifford (Hugh Sanders) tem a esdrúxula ideia de nomear Stanton, Ringo e Trailkill, os três chefes dos bandos, como seus assistentes. Mesmo portando estrelas de homens da lei, o trio espera apenas pela noite da grande luta para concretizar o plano de se apoderar do dinheiro. Pressionado pelo amor que ainda sente por Linda, Stanton muda de ideia contrariando seu bando e continua ao lado da lei, impedindo ao final que John Ringo fuja com a arrecadação. O encontro dos dois ocorre num estábulo, com Stanton matando o bandido no confronto entre os dois e ficando com Linda que aceita o regenerado ex-homem mau.

Acima Dale Robertson e Jeanne Crain;
abaixo dale com Carole Mathews.
Um homem entre duas mulheres - Esta criativa e incomum história foi concebida como um pequeno western para ser exibido em programas duplos, isto apesar da bem cuidada produção da 20th Century-Fox. Com 82 minutos de duração e tendo o elenco encabeçado por Jeanne Crain (primeiro nome nos créditos) e Dale Robertson, “Cidade do Mal” poderia resultar num western classe A caso o estúdio escalasse Gregory Peck ou Tyrone Power, então os maiores astros do estúdio, ou mesmo Richard Widmark para interpretar Brett Stanton. Mesmo assim o resultado final é excelente e muito se deve ao roteiro que, embora previsível, mantém o interesse do espectador, mais ainda para aqueles que desconhecem o resultado do embate pugilístico. Se falta um pouco mais de ação em “Cidade do Mal” apesar do respeitável número de malfeitores que se reúnem em Carson City, este western é compensado por outra disputa, paralela ao confronto de boxe. Linda e Cynthia desejam o mesmo homem (Brett Stanton), ainda que Linda seja noiva do irmão da atraente viúva Cynthia. Esta faz uso de recursos pouco louváveis para satisfazer seu intento de conquistar Stanton. Num filme de metragem tão curta não houve tempo para melhor desenvolver o triângulo e a personalidade de Cynthia London, mulher muito mais interessante que a sensaborona Linda.

Carole Mathews e Jeanne Crain

Carson City em 1897.
Roubo facilitado - Às vésperas do novo século que chegava com profundas transformações nas cidades do Velho Oeste, Carson City já possui até um veículo movido sem tração animal. Duelos nas ruas já não acontecem com frequência pois estas são tomadas por diversões de todo tipo e jogos a céu aberto. Até o ‘chuck-a-luck’, que foi o nome escolhido para o rancho de Marlene Dietrich em “O Diabo Feito Mulher” (Rancho Notorius), se faz presente. A pujança da cidade faz com que Carson City seja a escolhida para aquele evento esportivo de enorme magnitude. Muito dinheiro e as cobiçosas quadrilhas sabem que os tempos são outros, mas a prática de assaltos a mão armada ainda funcionam, especialmente quando a organização de espetáculos tão grandiosos ignoram a necessidade de um aparato peculiar. John Ringo só não consegue fugir com o dinheiro roubado porque é impedido pelo regenerado Brett Stanton, solução fácil para um filme com poucas pretensões e que deve respeitar a máxima hollywoodiana de então que “o crime não compensa”. Uma pena também que a luta entre Corbett e Fitzsimmons tenha se resumido a algumas troca de socos e não explorado os aspectos técnicos da contenda.

A cidade repleta e a chegada da quadrilha de Brett Stanton (Dale Robertson).

Richard Boone
Numeroso elenco com rostos conhecidos - Destaque-se a apurada direção de arte e de vestuário com a elegância de homens e mulheres exibindo-se nas ruas e na casa de espetáculos de Carson City. Esta cidade, capital do Estado de Nevada, assistiria a formação de Las Vegas, maior centro de entretenimento e jogos dos Estados Unidos. Em 1953 a Fox já havia desistido de fazer de Dale Robertson um grande astro e pelos próximos anos ele passou a fazer uma série de westerns. Richard Boone, ainda se afirmando como um dos melhores durões do cinema tem presença marcante, assim como Carole Mathews, bela atriz que interpreta uma mulher fútil. Jeanne Crain neste filme é apenas um rosto excepcionalmente bonito e, deixando de lado a suavidade e delicadeza, esteve muito melhor em “Homem Sem Rumo” (Man Without a Star), seu próximo western. O numeroso elenco traz as presenças de James Best, Rodolfo Acosta, Leo Gordon e John Doucette, entre outros. O ex-editor da Fox, o canadense Harmon Jones, dirigiu outros westerns com Dale Robertson, Rory Calhoun e Guy Madison, antes de se bandear para a televisão. Este “Cidade do Mal”, por sua história interessante e insólita certamente vai agradar aos fãs de faroestes.

Aspectos da luta entre James J. Corbett e Bob Fitzsimmons, vencida por este último.



Esta cópia de “Cidade do Mal” foi gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador Marcelo Cardoso.