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6 de janeiro de 2013

O GRANDE SILÊNCIO (Il Grande Silenzio), A OBRA-PRIMA DE SERGIO CORBUCCI



Sergio Corbucci
“O Grande Silêncio” é a tradução literal do título original (Il Grande Silenzio), filme de Sergio Corbucci exibido no Brasil como “O Vingador Silencioso”. Esse grande silêncio do título pode se referir tanto ao silêncio das paisagens brancas da neve das locações, ou ao silêncio da morte, ou ainda ao pistoleiro mudo interpretado por Jean-Louis Trintignant. Mas o verdadeiro grande silêncio foi aquele que se abateu sobre esse filme tão magnífico que extrapola o próprio gênero. Ao contrário dos superestimados westerns de Sergio Leone e mesmo de outros faroestes do próprio Corbucci, “Il Grande Silenzio” foi completamente ignorado em obras como “The Western” (Phil Hardy), “The Encyclopedia of Westerns” (Herb Fagen) e “The British Film Institute Companion of the Western” (Edward Buscomb). Em 2010 os Institutos Italianos de Cultura do Rio de Janeiro e de São Paulo, em parceria como o Centro Cultural Banco do Brasil, realizaram uma mostra intitulada “Faroeste Spaghetti – O Bang-Bang à Italiana”, mostra exposta em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Constaram da programação 20 faroestes Made-in-Italy, mas não foi lembrado “O Vingador Silencioso”, acentuando ainda mais o grande silêncio que sempre se fez sobre esse filme. Porém o cinéfilo cearense Vinicius LeMarc lembrou em seu Top-Ten publicado aqui neste blog da importância do filme de Sergio Corbucci, o que tornou obrigatório assisti-lo e conhecer um grande filme não apenas do gênero western-spaghetti, ou mesmo do cinema italiano, mas sim do cinema mundial.


Franco Nero em "Django".
“Django” e outros westerns - Um tanto obscurecido pela fama do outro Sergio, o Leone, Sergio Corbucci era conhecido especialmente pelo sucesso de “Django”. Nascido em 1926, Corbucci dirigia filmes desde 1951 e fez desde comédias com Totó e Ciccio Ingrassia até épicos do gênero ‘sandália e espadas’. Seu primeiro western, em 1964, foi “Massacre no Grand Canyon” (com James Mitchum, filho de Bob Mitchum). Vieram em seguida “Minnesota Clay” (com Cameron Mitchell) e “Ringo e sua Pistola de Ouro” (com Mark Damon). O admirado “Joe, O Pistoleiro Implacável” (Navajo Joe), com Burt Reynolds é do mesmo ano de “Django”. Anterior a “O Grande Silêncio” é “Os Cruéis” (I Crudeli/The Hellbenders), com Joseph Cotten e a nossa Norma Bengell, outro filme que merece ser visto com atenção. Sergio Corbucci realizou ainda uma pretensa trilogia de westerns politizados composta por “Os Violentos Vão para o Inferno” (Il Mercenario), com Jack Palance e Franco Nero; “Vamos a Matar, Compañeros!” (Compañeros), também com Palance e Nero; e “Que Faço no Meio de uma Revolução?” (Che C’entriamo Noi com La Revoluzione?), com Vittorio Gassman, western-comédia. Sergio Corbucci fez ainda outros westerns como “O Último Samurai do Oeste”, com Giuliano Gemma e Eli Wallach, porém não mais reeditou o nível artístico de “O Grande Silêncio” (Il grande Silenzio), western de 1968.

Dublagem em cinco idiomas - Os produtores italianos reuniram para “O Grande Silêncio” dois atores consagrados em seus países de origem, Klaus Kinski e Jean-Louis Trintignant. O ator alemão depois de peregrinar pela Europa radicou-se em meados dos anos 60 na Itália, onde chegou a comprar um castelo na Via Appia, onde residia. Jean-Louis Trintignant disputava com Alain Delon e Jean-Paul Belmondo o posto de maior ídolo francês, isto depois do estrondoso sucesso obtido com “Um Homem e Uma Mulher”, em 1966. Os westerns-spaghetti eram filmados e dublados em Italiano, Espanhol, Francês, Alemão e Inglês. Nos países em que não se falava nenhum desses idiomas os filmes eram lançados com legendas. Nem todos os atores conseguiam dublar naqueles cinco idiomas, sendo necessário o uso de dubladores profissionais, o que no mais das vezes praticamente destruía o filme pois esses profissionais não se preocupavam com a entonação certa ou com a sincronia. O maior problema eram sempre os atores principais que, a exemplo de Clint Eastwood, não falavam Italiano. Daí que seus personagens, como o ‘Blondie’ tinham um mínimo de diálogo.

Herói mudo - O roteiro de “O Grande Silêncio” resolveu de modo inteligente pelo menos a questão do herói do filme pois o personagem de Trintignant (Silenzio), era simplesmente mudo e o ator francês não teve que se preocupar com a dublagem em qualquer dos idiomas. Na maioria dos países em que foi lançado, “O Grande Silêncio” manteve esse mesmo título e entre as exceções estão o Brasil, onde foi lançado como “O Vingador Silencioso” e a Alemanha onde recebeu o título “Leichen Pflastern Seinen Weg” (Corpos Pavimentam seu Caminho). Na Alemanha e na França “O Grande Silêncio” teve boas bilheterias, mas no resto do mundo, inclusive na Itália esse western foi mal recebido pelo público. Talvez por ser diferente de quase tudo que já havia sido visto no gênero.

O realismo forte de cenas de "O Grande Silêncio".
Inferno branco - Filmado em Cortina d’Ampezo, região situada no Norte da Itália, onde a neve é atração turística e há diversos resorts frequentados pelos ricos e famosos, “O Grande Silêncio” foi um dos muitos westerns que trocaram as pradarias, montanhas e o deserto pela neve. No entanto é inegável que há em “O Grande Silêncio” muito de “Quadrilha Maldita” (Day of the Outlaw), western de 1959 dirigido por André De Toth. Porém mais ainda que neste western norte-americano, Corbucci criou uma macabra atmosfera em que a brutalidade dos homens é ainda maior que o assustador cenário gelado e castigado intensamente pela neve. O quarteto de roteiristas Mario Amendola, Vittoriano Petrilli, Bruno Corbucci e o próprio Sergio Corbucci intencionalmente promoveram a maior revisão do formato dos westerns, indo mais longe do que Sam Peckinpah conseguiu com seus filmes do gênero.

Silenzio e Pauline (Trintignant e Vonetta McGee).
Western anticonvencional - Em “O Grande Silêncio”, mais que em qualquer outro de seus westerns, Corbucci contraria os códigos do gênero e do próprio western-spaghetti, estes pautados pelo humor negro por vezes excessivo. “O Grande Silêncio” é um filme triste, aterrador mesmo, no qual quem triunfa é o mal e não o bem. E surpreendentemente expõe na tela um romance interracial inteiramente diferente dos brancos que, quando muito, se apaixonavam por índias ou mexicanas e vice-versa nos faroestes norte-americanos. Era 1968, um ano de enorme ebulição político-social no mundo e vemos Silenzio  amar a negra Pauline. Sempre preocupado com a política, o personagem Pollicut, lídimo representante do capitalismo faz uso da lei vigente para aumentar seu poder. A lei de então permitia que caçadores de recompensa matassem os procurados pela Justiça, normalmente inimigos dos poderosos. Mas nenhum desses aspectos, por si só resultam num bom filme sem a maestria de um inspirado diretor.

Loco (Klaus Kinski).
“Onde a vida nada vale, a morte tem seu preço” - Na cidade de Snow Hill, em Utah, no outono de 1898, Loco (Klaus Kinski) comanda um grupo de caçadores de recompensa. Uma das vítima de Loco é um negro que ele assassina fria e covardemente diante da esposa Pauline (Vonetta McGee). A viúva procura Silenzio (Jean-Louis Trintignant) pois sabe que ele mata os caçadores de recompensa, cobrando mil dólares por cada morte executada. Silenzio mata legalmente pois sempre o faz em legítima defesa o que o impede de ser considerado um criminoso. Muitas vezes, ao invés de matar, Silenzio dispara contra as mãos do inimigo, aleijando-o. Pollicut (Luigi Pistilli) foi, no passado, uma das vítimas de Silenzio tendo a mão direita inutilizada. Pollicut que é um misto de Juiz de Paz, banqueiro e comerciante de Snow Hill, foi o responsável pela execução dos pais de Silenzio quando este ainda era criança, ocasião em que o menino teve a garganta cortada, o que o impediu para sempre de falar. Ao matar os caçadores de recompensas Silenzio atrapalha os negócios de Pollicut que pede a Loco que coloque o vingador silencioso no topo da sua lista, o primeiro a ser morto. Silenzio consegue matar Pollicut mas tem sua mão direita queimada por Martin (Mario Brega), ajudante de Pollicut. Mesmo ferido Silenzio enfrenta Loco, sendo alvejado na mão esquerda e ficando indefeso. Loco mata Silenzio com um tiro na testa e mata também a negra Pauline, partindo com seus homens de Snow Hill em busca de novas recompensas.

Silenzio com sua Mauser transformada em carabina; o grupo procurado pelos
caçadores de recompensa sobrevive comendo um cavalo.

Filme niilista - Distante do grotesco, do jocoso e do farsesco, “O Grande Silêncio” é uma história sobre a ganância, sobre a injustiça e no melhor estilo de Anthony Mann, sobre a vingança. Filmado quase que inteiramente em cenários naturais gelados, é um western sombrio, especialmente ao mostrar que um homem sozinho jamais pode derrotar um sistema. “O Grande Silêncio” é a própria negação do western norte-americano pré-Sam Peckinpah. O psicopata caçador de recompensas Loco parte vitorioso ao final, com seu bando, para destruir mais um pouco da integridade e honra dos cidadãos de bem, sejam eles brancos ou negros, taciturnos ou mudos. O mais niilista dos westerns, “O Grande Silêncio” não é espaço para personagens lendários e virtuosos como vinha se tornando no decorrer do filme o vingador silencioso. Em certo momento Pauline diz: “Eles o chamam de Silenzio porque onde quer que ele vá o silêncio da morte o persegue”. O maior dos silêncios se faz com a morte do vingador silencioso. Tão negativa e anárquica é a mensagem que fica deste western de Corbucci que foi filmado um final alternativo que, ainda bem, foi distribuído em alguns poucos países. Nesse final alternativo Silenzio e Pauline exterminam Loco e seus sequazes, o que muito agradaria as platéias norte-americanas que por sinal não puderam ver “O Grande Silêncio” que não chegou a ser lançado nos Estados Unidos. Décadas mais tarde, com o advento do DVD o filme de Corbucci tornou-se Cult na terra de John Wayne. Prevaleceu, no entanto o final original, apenas com o menos pessimista epílogo com a inútil explicação: “Os massacres trouxeram à tona a condenação pública dos caçadores de recompensa que, disfarçados por uma falsa legalidade fizeram do assassinato violento um lucrativo meio de vida”.

Snow Hill, cenário tétrico de "O Grande Silêncio".


Inspiradíssimo Morricone -  A música de Ennio Morricone para "O Grande Silêncio" já era conhecida dada a beleza de seu tema principal, um tanto diferente dos temas feitos para outros westerns. Em 1968 os Beatles ajudaram a divulgar a música indiana, fazendo de Ravi Shankar uma atração internacional que se exibiu até no Brasil. O atento Morricone faz neste escore musical uso intenso de cítaras e tablas, instrumentos musicais indianos, que completam não só o dantesco cenário de Snow Hill, expressando etereamente o silêncio da paisagem, como também o silêncio da própria morte. Notável também a música composta para a belíssima cena de amor entre Silenzio e Pauline. A trilha sonora de “O Grande Silêncio”, que conta com a presença do Coral Alessandroni Singers, é um dos melhores trabalhos do genial maestro-compositor italiano. A cinematografia a cargo de Silvano Ippoliti é também excepcional, especialmente por requerer uso de lentes próprias para melhor fotografar o cenário branco de Cortina d’Ampezzo. História, música e imagens perfeitas num filme cujos pecados são algumas interpretações e a fatal dublagem.

A Mauser C-96 e o aleijão por ela provocado.
O psicótico Loco - “O Grande Silêncio” fez de Klaus Kinski um ídolo maior. Até então Klinski era visto em pequenas participações em westerns-spaghetti e mesmo em superproduções como “Doutor Jivago”. Kinski adicionou à linhagem clássica de bandidos-cínicos e amorais como Lee Marvin e Dan Duryea sua natural expressão delirante e psicótica. Na França ‘Loco’ virou ‘Tigrero’ e em algumas versões ‘Tibério’. Jean-Louis Trintignant convence razoavelmente como o vingador silencioso que faz uso de uma Mauser Broomhandle C-96, criada em 1896. Frank Wolff como o xerife de Snow Hill se excede na caricatura, marca maior das interpretações nos westerns-spaghettis. Na mesma linha Mario Brega, Bruno Corazzari e os demais homens maus. No elenco ainda destaque para Spartaco Conversi como líder dos perseguidos (seriam mórmons?) e para Marisa Merlini, a adorável atriz de tantas comédias e a inesquecível Annarella de “Pão, Amor e Fantasia”, de Vittorio De Sica.  



Jean-Louis Trintignant, o vingador silencioso.
Faroeste sombrio e pouco comentado - Ao final Loco rouba a Mauser C-96 de Silenzio, mesma arma que Clint Eastwood usaria anos depois em “Joe Kidd”. E Clint ostentou uma cicatriz muito parecida com a de Silenzio, em “A Marca da Forca”, seu primeiro western norte-americano como ator principal. Se Clint assistiu ao filme de Corbucci é um mistério, mas certamente Quentin Tarantino assistiu. Enquanto se aguarda a aventura do agitado Tarantino recriando seu Django, obrigatório é assistir “O Grande Silêncio”. O faroeste de Sergio Corbucci é não apenas dos melhores filmes da vertente dos westerns produzidos na Europa, mas um filme para comprovar que Sergio Leone não dominou sozinho a cena dos faroestes europeus nos anos 60. E sob o efeito desse extraordinário, pouco comentado, sombrio, diferente e assustador faroeste, não há como não qualificá-lo como obra-prima.



Assista ao vídeo abaixo com imagens exclusivas de "O Grande Silêncio",
ao som do tema do filme, de autoria de Ennio Morricone.





Acima Marisa Merlini; abaixo Frank Wolff.


22 de setembro de 2012

ENNIO MORRICONE E O BELÍSSIMO TEMA DE "O VINGADOR SILENCIOSO"

Menos conhecida que as trilhas compostas para a Trilogia dos Dollars
e as demais trilhas para westerns de Sergio Leone, a música de
Ennio Morricone para "O Vingador Silencioso", de Sergio Corbucci,
se insere entre as mais belas trilhas sonoras do gênero.
Abaixo, vídeo com o tema principal de "O Vingador Silencioso".