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28 de julho de 2021

NO RASTRO DA VIOLÊNCIA (THE QUICK AND THE DEAD) – SAM ELLIOTT COMO ESTRANHO MISTERIOSO E GALANTEADOR

 

          Westerns feitos para a TV geralmente são logo esquecidos, como é o caso de “No Rastro da Violência”, produzido pela HBO em 1987. Baseado em “The Quick and the Dead”, uma das muitas entre a centena de obras escritas por Louis L’Amour, o livro foi lançado em 1982 e curiosamente em 1985, com o mesmo título, foi filmado o faroeste de Sam Raimi que entre nós foi chamado de “Rápida e Mortal”, com elenco estelar encabeçado por Sharon Stone, Gene Hackman, Leonardo Di Caprio e que teve até a participação de Woody Strode. Louis L’Amour, um dos mais prolíficos autores do gênero western teve muitas de suas histórias filmadas para o cinema, entre elas “Caminhos Ásperos”, “Gigantes em Luta”. A TV também usou histórias de L’Amour, como em “O Aventureiro do Oeste” (Conagher) e “Os Cavaleiros da Sombra” (The Shadow Riders), “Rastros de Vingança” (Crossfire Trail) e a mini-série “The Sackets”. Em todos esses, exceto “Rastros de Vingança” esteve presente Sam Elliott, um ator que, se nascido algumas décadas antes, seria um dos grandes astros dos tempos áureos do faroeste, no calibre de um Randolph Scott ou Joel McCrea, por exemplo.

À esquerda o escritor Louis L'Amour


     O admirado “Shane” (Os Brutos Também Amam) teve praticamente uma refilmagem com o magnífico “O Cavaleiro Solitário” (Pale Rider), um dos grandes faroestes de Clint Eastwood. E o tema foi revisitado por Louis L’Amour neste “No Rastro da Violência” que conta como uma família - casal e um filho - se muda do Leste para iniciar uma nova vida no Oeste deparando-se, quando chegam a um lugarejo denominado Bender Flats, com um bando de foras-da-lei sequiosos por se apropriar dos pertences dos peregrinos. Os viajantes são Duncan McKaskel (Tom Conti), a esposa Susanna (Kate Capshaw) e o menino Tom (Kenny Morrison). O líder dos bandidos é Doc Shabitt (Matt Clark) que na primeira tentativa de intimidação dos McKaskels, descobre que um homem misterioso está protegendo os peregrinos. Shabitt não desiste de seu intento e com seus homens segue o carroção da família e pouco a pouco vê seu bando composto por mais sete capangas se reduzir porque Con Vallian (Sam Elliott), o cavaleiro misterioso os abate em cada confronto. A aniquilação do bando se dá quando McKaskel se junta a Vallian para enfrentar os três últimos bandidos, após o que Con Vallian parte desaparecendo pela pradaria.

Tom Conti, Kenny Morrison e Kate Capshaw
          Além do bando de Doc Shabitt, McKaskel tem que enfrentar o insistente assédio que Vallian faz sem nenhuma cerimônia a sua esposa. E Susanna, de certa forma, corresponde porque se sente atraída por Vallian, embora ame seu marido. E assim como em “Shane” (e em “Hondo), o garoto Tom nutre admiração pelo estranho vendo nele qualidades que gostaria que seu pai tivesse. Mais interessante até do que a própria história que vai se tornando previsível a cada sequência é o triângulo que se forma e que um filme feito para a TV respeita os limites morais. Muito apropriado seria a leitura do livro de L’Amour para descobrirmos se Con Vallian estaria mais próximo do respeitoso ‘Shane’ ou do atrevido ‘pastor’ de “Pale Rider”. Em “No Rastro da Violência” o herói solitário é uma mescla desses dois personagens e sabiamente o roteiro de James L. Barrett deixa a critério do espectador decidir se a senhora McKaskel e Vallian foram além dos beijos e dos momentos de ternura trocados.

Sam Elliott e Kate Capshaw
          Kate Capshaw (na vida real esposa de Steven Spielberg) está deslumbrante e por isso mesmo irresistível, tanto que Red (Jerry Potter), um dos bandidos fica obcecado por ela assim que a vê. O mesmo pode-se dizer de Con Vallian que não perde uma única oportunidade para ressaltar as qualidades de Susanna, dizendo-o tanto para ela como para o marido. Essa situação chega a ser engraçada porque ainda que Sam Elliott esteja longe de ser um comediante, sua expressão é hilária quando exacerba seu cinismo galanteador, a ponto de ser repreendido até pelo pequeno Tom. Louis L’Amour demonstra em diversas falas de Con Vallian, o quanto é conhecedor das coisas do Velho Oeste, como quando faz com que Duncan McKaskel se passe por idiota para que um grupo de índios famintos não os mate. E Sam Elliott com seu buckskin, faca com enorme cabo à cintura e jeito de quem nasceu sobre um cavalo é o mais convincente dos personagens principais, enquanto Tom Conti foi uma péssima escolha e Kate Capshaw é bonita demais para se meter numa aventura como essa rumo àquele perigoso mundo sem lei. Matt Clark moldou seu personagem nos vilões inesquecíveis de John McIntire, mas fica distante do velho John.

Kate Capshaw, Sam Elliott (acima); Tom Conti e Matt Clark
          O título original de “No Rastro da Violência” é enganoso porque sugere haver ao menos um duelo típico dos faroestes, mas isso não acontece. Certo que Con Vallian demonstra sua habilidade ao enfrentar um bandido e mais tarde o índio que o alveja, matando a ambos. Porém os momentos decisivos de frieza no gatilho são executados pelo casal McKaskel e não exatamente em duelos. A mais violenta das sequências ocorre quando Susanna se defende do ataque de Red atingindo-o com pauladas na cabeça deixando seu rosto irreconhecível. Realizado em um tempo em que os cenários e figurinos do Velho Oeste mudaram bastante, este western dirigido por Robert Day foi bem cuidado, acima da média de muitos westerns dos anos 50 e 60. A sucessão de clichês (não faltou sequer a esposa se banhando e sendo observada pelo sorrateiro Vallian), no entanto, comprometem bastante esta boa diversão para os fãs do gênero e certamente não era a intenção da HBO realizar um clássico como “Shane” ou western intrigante como “Pale Rider”.

 

Sam Elliott, Kate Capshaw e Tom Conti; no destaque Jerry Potter


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