UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

29 de outubro de 2019

QUANDO UM HOMEM É UM HOMEM (McLINTOCK!), ÓTIMO WESTERN-COMÉDIA DO DUKE


Acima James Edward
Grant; Duke e Andrew
V. McLaglen durante
as filmagens de
"Depois do Vendaval"

John Wayne vinha de dois trabalhos sob a direção de John Ford: interpretando o General Sherman em “A Conquista do Oeste” (How the West Was Won) e em “O Aventureiro do Pacífico”. No primeiro, o segmento com Ford-Wayne foi o menor e o menos relevante da superprodução em Cinerama que se tornou imenso sucesso de bilheteria; enquanto o segundo foi um rotundo fracasso de público e crítica. Nesse tempo a Batjac, produtora de Wayne, ainda se recuperava do prejuízo com o épico “O Álamo” (The Alamo) quando o Duke decidiu investir quatro milhões de dólares em um western cômico com tema baseado em “A Megera Domada” de William Shakespeare. A história original e o roteiro foram escritos por James Edward Grant, roteirista preferido de Wayne desde “Iwo-Jima, o Portal da Glória” e “Caminhos Ásperos” (Hondo). O título escolhido foi “McLintock!”, que no Brasil se chamou “Quando um Homem é Homem”. A produção executiva ficou a cargo de Michael Wayne, filho do Duke e o elenco teve ainda Patrick Wayne, também filho de John. Boa parte do grande elenco de apoio reunido foi composto por atores que mantinham amizade de longa data com Wayne e que ele ‘convocava’ como espécie de gratidão. Esse lado humano de John Wayne ficou ainda mais patente quando chamou Yvonne De Carlo para um papel importante, ela cujo marido, o stuntman Robert Morgan, perdera uma perna durante as filmagens de “A Conquista do Oeste”, o que trouxe dificuldades financeiras para o casal. Aissa Wayne, filha caçula de Wayne teve também pequena participação nesta que foi uma produção que pode ser chamada de ‘familiar’. Para dirigi-la, outro amigo de Wayne, Andrew V. McLaglen, que vinha trabalhando em séries para a TV e que pela primeira vez dirigiria uma produção de vulto.


Acima Maureen O'Hara e John Wayne;
abaixo Yvonne De Carlo e Wayne
Homem forte e esposa também forte - A história de J.E. Grant é centrada em George Washington McLintock (John Wayne), um barão de gado proprietário de muitas terras e respeitado por todos não apenas por suas posses, mas também por sua coragem, retidão e lealdade. Chamado de ‘G.W.’ pelos amigos e empregados, McLintock vive separado da esposa Katherine Gilhooley McLintock (Maureen O’Hara) com quem sempre viveu às turras. De surpresa Katherine (Kate) reaparece no Rancho McLintock para tratar do divórcio e para requerer a guarda da filha Rebecca (Stefanie Powers), de 17 anos que concluíra estudos no Leste e também retornara para a fazenda do pai. McLintock acabara de empregar a viúva Louise Warren (Yvonne De Carlo) como cozinheira e seu filho Devlin (Patrick Wayne) como ajudante geral. Ao ver a bela Louise na casa, Kate acredita que seu marido tenha interesse nela, o que não é verdade. Por outro lado, Rebecca (Becky) e Devlin se sentem atraídos mutuamente. O ciúme de Kate e suas atitudes intempestivas, somados aos conselhos do comerciante Birnbaum (Jack Kruschen) amigo de G.W., fazem com que ele termine por domar sua esposa com quem retoma o casamento.

John Wayne
Roteiro sob medida para o Duke - James Edward Grant escreveu esta história sob medida para John Wayne e Maureen O’Hara com personagens que em muito lembram aqueles que criaram inesquecivelmente em “Depois do Vendaval”. Grant adicionou ainda uma segunda trama amorosa para que Patrick Wayne pudesse ter uma presença expressiva nesta comédia, isto claramente a pedido de Wayne que tentava impulsionar a carreira de ator do filho Pat. Grant se esmerou para agradar Wayne e o que não falta no roteiro são discursos de G.W. McLintock enaltecendo seu país, falando do capitalismo, das relações patrão-empregados, condenando políticos e estudantes universitários e até se aceitando como ‘reacionário’. Os índios (Comanches) são mostrados como vítimas da política do governo que desrespeita seus direitos e têm assim justificado até mesmo um ataque armado contra o poder instituído e defendido pela Cavalaria. Em nenhum outro western John Wayne pode externar sua filosofia de vida e mesmo sendo um tanto quanto longo e excessivamente discursivo, “Quando um Homem é Homem” é agradável de se assistir porque mescla momentos engraçados com algumas brigas muito boas, e o espectador nunca é tomado pelo tédio durante os 127 minutos deste faroeste.

John Wayne na lama
Enlameados até os ossos - Aproximando-se dos clássicos do pastelão em uma de suas mais elaboradas sequências cômicas, a da luta na lama, quando quase todo o elenco rola uma ribanceira caindo num depósito de lama resultante da extração de minério. Esse episódio se torna ainda mais engraçado quando se sabe o que passou durante as filmagens: os stuntmen queriam ganhar por queda na lama, como se isso fosse altamente arriscado, algo parecido com as perigosas quedas de cavalos que são pagas a cada queda. Irritado com o ‘profissionalismo’ dos dublês, Wayne decidiu ele próprio derrapar pelos seis metros de lama que levavam ao fundo do ‘lago lamacento’ e convenceu Maureen O’Hara a fazê-lo também. Depois deles Strother Martin, Jack Kruschen, Leo Gordon, Gordon Douglas e outros atores chafurdaram na lama resultando num momento impagável do filme. No entanto esse não foi o clímax da aventura, que teve lugar durante a comemoração do ‘4th July’, abrindo espaço para corridas, rodeios e outras provas, mas nada que se compare a sequência final com McLintock perseguindo Kate para mostrar a ela que quando ‘levantar a voz não resolve, a solução é levantar (e descer) o braço’ na recalcitrante e irascível esposa.

A queda de Maureen O'Hara; John Wayne e Maureen O'Hara

Maureen O'Hara;
Yvonne De Carlo e Chuck Roberson
A ciumenta Kate - Se essas sequências resultaram ótimas, menos engraçada é o momento em que os embriagados G.W. e a senhora Warren (Yvonne De Carlo) rolam várias vezes uma escada abaixo sob os olhares de Kate. J.E. Grant não se fez de rogado e perpetrou na história diversas alusões a outros filmes de Wayne, como quando Jerry Van Dyke interpreta um janota que lembra Ken Curtis de “Rastros de Ódio” (The Searchers), cantando e dançando. O janota de Van Dyke não luta contra Patrick Wayne, deixando essa tarefa para Edward Faulkner que leva uma surra de Pat. Um achado do roteiro de Grant foi fazer com que a viúva Warren fique noiva do xerife Lord (Chuck Roberson), arrefecendo assim o ciúme de Kate. Uma pena porque quanto mais ciumenta, mais Maureen torna sua Kate divertida. Muitos são os personagens e cada um deles têm oportunidade de se mostrar engraçado, uns mais, outros menos. Hank Worden, Edgar Buchanan, Chill Wills, Jack Kruschen, Strother Martin, Jerry Van Dyke e até Mari Blanchard e o chinês H.W. Gim fazem graça. Rosto conhecido de muitos westerns de John Ford, o nativo John Stanley consegue falar mais que em todos os muitos filmes dos quais participou, ainda que repetindo sempre duas frases: “Grande festa, McLintock!” e “Onde está o uísque?”

Jerry Van Dyke e Stefanie Powers; Stefanie e Pat Wayne

Maureen O'Hara
Western sem foras-da-lei - Um filme com John Wayne em estado de graça e ainda em boa forma (antes da cirurgia para retirada de um pulmão), com mulheres bonitas como Maureen, Yvonne, Stefanie e Mari Blanchard, atores coadjuvantes transbordando simpatia e situações engraçadas, além de muita troca de sopapos só pode resultar interessante. Curiosamente não há bandidos neste faroeste, isto se considerarmos que os vilões (políticos) não carregam armas, usando a caneta para perpetrar suas vilezas. E “Quando um Homem é Homem” vale mesmo pela reunião de Maureen com o Duke, ela engraçadíssima e bem à vontade como mulher forte que afinal sucumbe a um homem de temperamento ainda mais forte que ela.

Maureen O'Hara

Maureen O'Hara, Andrew V. McLaglen
e John Wayne
A boa fase de McLaglen - Filmado em diversas locações no Arizona, a bonita fotografia é de William B. Clothier, constante na filmografia de Wayne e a música de De Vol não é das mais inspiradas. Quatro canções fazem parte da trilha, todas de autoria de Bill Dunham, nenhuma delas memorável. Wayne chamava o diretor pelo estranho apelido de ‘Andy McSandy’ e quando McLaglen adoeceu por uns dias John Ford apareceu nas locações e dirigiu algumas sequências. O crédito, no entanto, de “Quando um Homem é Homem” ter sido um dos filmes mais queridos de John Wayne é todo de Andrew McLaglen que em seguida dirigiria “Shenandoah”. Quando alguém dizia que “Shenandoah” parecia ser um filme de John Ford, McLaglen exultava de alegria em seus 2,01m de altura, o que fazia o Duke erguer os olhos para falar com ele.

Andrew V. McLaglen e John Wayne

Último filme de Mari Blanchard - John Wayne é sempre John Wayne, mas ao lado de Maureen O’Hara (e dos filhos) o Duke fica ainda melhor. Maureen está hilariante enquanto Yvonne De Carlo não é páreo para a irlandesa. Yvonne se revelaria boa comediante três anos mais tarde na série clássica “Os Monstros” como ‘Lily Munster’. Aos 21 anos de idade Stefanie Powers está à vontade em meio a tantos veteranos, entre eles Strother Martin, Chill Wills, Hank Worden, Jack Kruschen, Edgar Buchanan, Leo Gordon, Michael Pate, Bob Steele, Gordon Jones, Robert Lowery e outros. Uma pena que não foi expandida a parte de Mari Blanchard (na foto ao lado), lindíssima aos 40 anos de idade, e em seu último filme, ela que viria a falecer de câncer aos 47 anos.

Yvonne De Carlo; Mari Blanchard

John Wayne
Western longo mas com muitas risadas - Este filme chegou a ser exibido na TV com 90 minutos, inteiramente mutilado, coisas que aconteciam para fazer os faroestes ‘caber’ nas sessões verpertinas. Assim como “Fúria no Alasca” (North to Alaska) que tem 122 minutos, a metragem de “Quando um Homem é Homem” pode parecer um tanto longa demais, mas a exemplo do western de Henry Hathaway, as gargalhadas são tantas que nem se percebe isso. O site IMDb informa que o orçamento de “Quando um Homem é Homem” foi de dois milhões de dólares, mas biografias de John Wayne (mais críveis) falam em quatro milhões de dólares saídos do bolso do Duke. As bilheterias faturaram dez milhões de dólares o que fez deste faroeste um dos mais rentáveis entre os produzidos pela Batjac.

Maureen O'Hara, John Wayne e Yvonne De Carlo

2 de outubro de 2019

HERANÇA SAGRADA (TAZA, SON OF COCHISE) – WESTERN DE DOUGLAS SIRK


Douglas Sirk;
o autêntico Taza

Seguindo a invectiva proferida pelo General Philip Sheridan que dizia que ‘o único índio bom é um índio morto’, Hollywood em raras ocasiões tratou o índio com dignidade. Pior ainda se eles fossem Apaches. E justamente o chefe Apache Cochise é quem foi mostrado em muitos filmes como índio bom (e ainda vivo) aceitando os termos impostos pelos homens brancos. Quando se fala em Cochise vem logo à mente a figura épica de Jeff Chandler que o havia interpretado em “Flechas de Fogo” (Broken Arrow), de 1950 e em “O Levante dos Apaches/A Revolta dos Apaches” (The Battle at Apache Pass), de 1952. Chandler encarnaria Cochise ainda mais uma vez, embora em uma quase ponta, no western “Herança Sagrada” dirigido por Douglas Sirk. Reverenciado como um dos grandes diretores de melodrama do cinema norte-americano dos anos 50, o alemão Douglas Sirk dirigiu um único faroeste que foi justamente “Herança Sagrada” que ele próprio considerava seu melhor filme. A Universal Pictures tinha sob contrato o jovem Rock Hudson e vinha apostando todas suas fichas para transformá-lo em astro escalando-o em westerns, comédias e capa-e-espadas. Mas foi pelas mãos de Douglas Sirk, que dirigiu Rock Hudson em nada menos que em oito filmes em cinco anos, que o ator atingiu a condição de astro, sendo inclusive requisitado por George Stevens para compor par romântico com Elizabeth Taylor na superprodução “Assim Caminha a Humanidade”. Hudson avisou o estúdio que esta seria a última vez que interpretaria um nativo, o que já havia feito em “Winchester 73” e que não condizia com o status que começava a adquirir em sua carreira.



Rock Hudson, Rex Reason e
Jeff Chandler; 
Rock Hudson
Apache pacifista - Cochise (Jeff Chandler) antes de falecer passa a condição de chefe a seu filho Taza e o incumbe de prosseguir nas tratativas de paz feitas com Washington através do General Crook (Robert Burton). Quem não aceita a escolha de Cochise é Naiche (Rex Reason), também seu filho, que entende que os Apaches devem seguir as ordens de Gerônimo (Ian MacDonald) outro chefe Apache descontente com a vida na Reserva de San Carlos. Privados das terras de seus ancestrais ao aceitar o tratado imposto pelos políticos de Washington que os confina em local árido, os Apaches liderados por Gerônimo promovem ataques aos homens brancos e à Cavalaria. Taza não transige em obedecer à promessa feita a seu pai pois confia nos ‘túnicas azuis’, especialmente no Capitão Burnett (Gregg Palmer), comandante da Reserva de San Carlos. Burnett faz de Taza o líder de uma milícia armada formada por Apaches e incumbida de manter a ordem na Reserva. Naiche une-se a Gerônimo e atacam uma unidade da Cavalaria emboscando o Capitão Burnett e o General Crook. Quando estes pareciam prestes a ser exterminados, Taza e seus liderados defendem as tropas e dominam os Apaches comandados por Gerônimo e Naiche. Este morre em combate, Taza restabelece a aliança ameaçada mas decide abdicar do posto que lhe foi conferido, despindo a farda que vinha usando e preferindo voltar a ser somente um Apache.

Gregg Palmer, Robert Burton e
Rock Hudson, este também abaixo
Discurso conformista - A Universal cortou sequências filmadas de “Herança Sagrada” que mostravam Taza já casado com Oona (Barbara Rush) e sendo pai de uma criança, o que certamente possibilitaria uma continuação da história em outro filme, e, segundo o ideário vigente em Hollywood, com Taza recomendando a seu filho a que fosse, como ele, um defensor da paz com os homens brancos. Sem essas sequências este faroeste de Douglas Sirk ficou com a duração de apenas 79 minutos, quase a metragem de um western B. Mas mesmo tão curto, o diretor alemão realizou um belo filme, independentemente da intenção de ser historicamente evasivo na questão do quanto os Apaches perderam com o Tratado de Paz assinado pelo guerreiro Cochise. E ainda refazendo a História como quando Taza tenta convencer a um guerreiro e pergunta a ele: “Você não cansou de lutar e fugir dos soldados, de roubar e matar, de sentir fome e frio?” E Taza conclui dizendo: “Na Reserva você terá cobertores quentes e alimentos”. Esse discurso conformista e distante da realidade reflete o posicionamento do filho de Cochise neste roteiro que isenta de qualquer responsabilidade a política do homem branco com sua mão armada, a Cavalaria. Tal fato, por si só poderia comprometer o western o que não acontece porque quando um filme é bom ele supera até mesmo inconsistências desse tipo. E assim como John Ford já havia feito em “Sangue de Heróis” (Fort Apache), o índio é mostrado de forma simpática, tanto que Taza luta contra seus irmãos de sangue para honrar o tratado que significaria o início do maior genocídio que a Humanidade conheceu. Ou seja, Taza subverte a frase de Sheridan e passa a ser índio bom (e vivo) porque endossa as ações do homem branco.

Rock Hudson

Rex Reason
Lanças e flechas atirados no público - Rodado em 1953 para ser lançado no processo 3.ª Dimensão, “Herança Sagrada” só chegou aos cinemas em 1954 quando a 3D já estava ultrapassada, dando lugar a outro processo, o Cinemascope, que visava defender o cinema do inimigo chamado Televisão. E o que não falta neste western são lanças, flechas e pedras sendo lançados em direção à câmera para assustar o espectador, efeitos típicos do 3D. Porém, se algo tivesse que assustar o público seria a violência de algumas sequências, violência inusitada naqueles tempos. Uma mulher branca sendo alvejada em pleno peito por uma flecha Apache é cena de raro e chocante realismo. Há ainda o assassinato frio e traiçoeiro dos traficantes de armas, igualmente brutal. As sequências de combate são excelentes, valorizadas pelo trabalho dos dublês e este faroeste é muito bonito porque praticamente todo rodado em locações em diversas regiões de Utah. A batalha final foi filmada no Jardim do Diabo, no Parque Nacional de Arches, em Utah e o cinegrafista Russell Metty foi o responsável pelas belas tomadas de “Herança Sagrada”.

Barbara Rush e Morris Ankrum
Costume Apache - Quase uma imposição hollywoodiana em westerns, temos também a presença de uma linda mulher para gerar romance na história. Ela é Barbara Rush interpretando Oona, filha de Grey Eagle (Morris Ankrum), um inimigo de Taza. Grey Eagle quer que sua filha se case com Naiche que, assim como ele, não aceita a paz oferecida por Washington e menos ainda viver na reserva. Ao lado de Gerônimo são eles os vilões de “Herança Sagrada” e é Naiche quem disputa Oona com o irmão. A subtrama amorosa um tanto frágil não rouba o interesse da história bem conduzida por Douglas Sirk e aproveita para mostrar um costume Apache que é o  de ter o pai da jovem pretendida a prerrogativa de ceder sua mão a quem lhe der os melhores presentes, ignorando a vontade da filha.

Barbara Rush e Rock Hudson; Barbara Rush

Rock Hudson
Índios brancos - Em alguns momentos são mostrados na tela índios de verdade e o contraste com os atores principais é visível. Mais que isso, quase cômico. Passam razoavelmente por índios apenas Morris Ankrum e Eugene Iglesias, este portorriquenho de nascimento. E claro, Jeff Chandler, novaiorquino filho de judeus com um tipo físico invulgar e fisionomia que lhe permitia interpretar variados tipos étnicos, entre eles índios. Mas o cinema norte-americano não tinha esses pudores e o público aceitava bem ver Rock Hudson e Barbara Rush (e uma legião de outros atores e atrizes) com a pele escurecida por cremes. Afora ser um ‘índio forçado’, Rock Hudson tem bom desempenho, mesmo deixando perceber um certo incômodo por mais uma vez passar por nativo. Não demoraria muito para Hudson comprovar que era bom ator saindo-se bem em dramas e em comédias.

O Pôster indicando 3.ª Dimensão
Único western de Douglas Sirk - Uma pena que Douglas Sirk não tenha realizado mais westerns porque certamente o gênero é quem ganharia, a exemplo de Delbert Mann, outro cineasta que incursionou pelo melodrama mas sem o êxito do alemão. A Universal, estúdio no qual Sirk trabalhou bastante, foi um dos que mais faroestes médios produziu com Audie Murphy como seu principal astro no gênero. Douglas Sirk certamente teria feito westerns próximos aos de Budd Boetticher quanto à densidade psicológica e à ação de boa qualidade como a demonstrada em “Herança Sagrada”. Acontece que Randolph Scott andava bastante ocupado...


Jeff Chandler e Rock Hudson; Barbara Burck;
Barbara Rush e Rock Hudson ladeando o cinegrafista Russell Metty

17 de setembro de 2019

ROMÂNTICO DEFENSOR (ALBUQUERQUE) – RANDOLPH SCOTT BOM DE BRIGA E DE BEIJOS


Randolph Scott fazendo o que mais
gostava de fazer: jogar golfe

Depois que passou a atuar exclusivamente em westerns Randolph Scott, que já estava com 50 anos em 1948, gostava de ter sempre diretores que não exigissem muito dele, ainda que não fosse exatamente um veterano. Scott não queria se machucar durante as filmagens para estar inteiro nas partidas de golfe que disputava, esporte que levava tão ou mais a sério que os filmes que fazia. E o astro apelidado de ‘Cara de Pedra’ se deu bem com André De Toth, com Edwin L. Marin e mais tarde com Budd Boetticher com quem fez sua mais famosa parceria. Porém antes desses diretores houve Ray Enright que dirigiu Scott nada menos que oito vezes. Neste “Romântico Defensor” há pelo menos uma sequência em que Randy é bastante exigido, quando se defronta em uma violenta luta corporal com o fortíssimo Lon Chaney Jr. E é este, apesar de já estar bastante acima do peso, quem demonstra grande agilidade e coragem.  A história de autoria de Luke Short teve o título original “Albuquerque”, que é a mais populosa cidade do Novo México, sendo este western chamado no Brasil de “Romântico Defensor”. Mesmo que Randolph Scott não interprete um cowboy apaixonado e sonhador ele, sempre econômico tanto nos confrontos corpo a corpo quanto nos beijos, premia a mocinha Catherine Craig com um rápido ósculo.


George Cleveland; Randolph Scott
Disputa em família - O texano Cole Armin (Randolph Scott) chega a Albuquerque onde se associa ao seu velho tio John Armin (George Cleveland), homem autoritário que domina tiranicamente a extração de minério da região. Cole deveria ser o sucessor do tio nos negócios mas discordando do seu modo violento e criminoso de agir decide participar de uma nova sociedade com os irmãos Ted Wallace (Russell Hayden) e Celia Wallace (Catherine Craig). John Armon lança mão de todos os expedientes sórdidos para destruir a pequena empresa concorrente e, quando seu brutal capanga Steve Murkill (Lon Chaney Jr.) e o xerife local a quem tem a soldo, falham, faz uso de uma estratégia aparentemente infalível. O velho Armon contrata a bela Letty Tyler (Barbara Britton) para servir de espiã trabalhando para a empresa do sobrinho. Quando nem esse plano dá certo, Armon recruta um pequeno exército para liquidar Cole e seu fiel empregado Juke (George ‘Gabby’ Hayes). A população de Albuquerque, cansada de viver sob a tirania de John Armon, reage e se une a Cole que conta ainda com a ajuda providencial de Letty Tyler que se bandeou para o lado do bem. Assim foi decretado o fim do implacável e injusto John Armon.

Barbara Britton e Catherine Craig
Trama amorosa - Com 90 minutos de duração “Romântico Defensor” mescla razoavelmente momentos de ação com aqueles em que a trama é desenvolvida com diálogos. E há espaço ainda para intriga amorosa pois tudo leva a crer que Cole Tyler venha a preterir a namorada Celia Wallace pela bela forasteira Letty Tyler. Envolvido numa denúncia falsa que demonstrava que Cole e Letty poderiam ter um caso, a questão vai parar nas barras de um tribunal e o desmoralizado Cole parece que irá terminar a história sem uma namorada. Embora não muito engenhoso o roteiro faz com que tudo termine em paz (e amor) e Letty fique com Ted Wallace. O ‘The End’ vem com o desajeitado Juke se rendendo à sua rotunda e querida Pearl (Judy Gilbert) que afinal lhe corta a barba. Essas subtramas se encaixam nas sequências em que Randolph Scott tem que demonstrar porque se tornou um aclamado westerner do cinema.

Catherine Craig e Randolph Scott; Judy Gilbert e George 'Gabby' Hayes

Lon Chaney Jr. e George Cleveland
Bandidão em cadeira de rodas - “Romântico Defensor” significou o retorno e a despedida de Randolph Scott à Paramount, berço de sua carreira. Filmado no processo ‘Cinecolor’, espécie de primo-pobre do Technicolor, é um faroeste bonito com locações no Iverson Ranch (Califórnia) e em Sedona (Arizona). Uma pena que em diversas sequências tenham sido usados, sem disfarçar, painéis de fundo imitando cenários. E a história de Luke Short procura fugir do convencional em que um vilão poderoso tenta se apoderar de terras para expandir suas possessões ou porque as terras serão valorizadas com a chegada da estrada de ferro. Desta vez o principal homem mau (George Cleveland) dirige seu império de uma cadeira de rodas e o que pretende é o monopólio do transporte da extração de minérios. De resto não há novidades, a não ser que o mocinho é ajudado por um boboca (sidekick) como eram chamados os companheiros engraçados dos mocinhos dos western B.

Randy em boa forma - Randolph Scott monta, briga, dispara, se mostra romântico e sua interpretação é boa como sempre porque o roteiro dá margem a tudo isso. Além da sequência de sua briga com Lon Chaney Jr. há um eletrizante momento típico de seriados quando carroções puxados por cinco ou seis parelhas parece que se chocarão inevitavelmente. Antes já havia ele parado uma diligência disparada sem condutor como uma menina dentro. Randolph Scott não é espetaculoso e nem precisa ser assim. Sua figura íntegra e corajosa é altamente convincente. Mais ainda quando se expõe fisicamente como na sequência citada de luta corporal.

Luta entre Randolph Scott e Lon Chaney Jr.

Randolph Scott e George 'Gabby' Hayes
Gabby Hayes menos engraçado - Randolph Scott conta com a ajuda de George ‘Gabby’ Hayes, sidekick famoso mas que não chega a ser tão engraçado, isto pela falta de naturalidade, aquela naturalidade que sobra em Walter Brennan, por exemplo. Ah, mas Brennan é um ator de excepcional qualidade... OK, então vamos lembrar de Slim Pickens, outro sidekick que brilhou intensamente nos westerns. Quase tudo em Gabby Hayes é um tanto forçado, até mesmo seu jeito de andar e são cansativas as frases proverbiais que repete a todo momento. “Romântico Defensor” traz ainda uma atriz infantil (Karolyn Grimes), bem no estilho ‘pirralho chato’ que deixa o espectador feliz quando sai de cena. Ray Enright poderia dirigir melhor tanto Gabby Hayes quanto a pequena atriz. Para compensar os senões há Scott parecendo mais jovem do que os 50 anos que tinha e a beleza de Barbara Britton.

George 'Gabby' Hayes

Randolph Scott e Barbara Britton
em foto promocional
A linda Barbara Britton - O bom elenco de “Romântico Defensor” conta com Lon Chaney Jr. excelente como capanga mais bruto do também ótimo vilão George Cleveland. Uma pena a carreira de Lon Chaney Jr. ter tomado o rumo que tomou em razão de seu alcoolismo. George ‘Gabby’ Hayes que foi sidekick de Hopalong Cassidy se reencontra com Russell Hayden, ator que também fazia companhia às aventuras de Hoppy. Barbara Britton e Catherine Craig bem poderia ter invertido os papeis ainda que Barbara convença como mulher má redimida ao final. Lindíssima atriz, atuou por três vezes ao lado de Randolph Scott. Catherine Craig, cuja carreira como atriz foi pouco expressiva, foi esposa de Robert Preston por quase 50 anos, até a morte do ator em 1987. Mesmo que jamais venha a ser listado entre os melhores westerns de Randolph Scott, “Romântico Defensor” é agradável de ser visto.

Barbara Britton

Randolph Scott


20 de agosto de 2019

ROY BEAN, O HOMEM DA LEI (THE LIFE AND TIMES OF JUDGE ROY BEAN) – WESTERN DE JOHN HUSTON



Nos anos 70 deixou de valer a célebre máxima usada por John Ford que dizia “quando a lenda for mais importante que o fato, imprima-se a lenda”. Nenhum personagem mítico do Velho Oeste escapou da desmistificação que acompanhou o agonizar do gênero. O Juiz Roy Bean já havia sido focalizado pelo cinema algumas vezes, uma delas interpretado por Walter Brennan em “O Galante Aventureiro” (The Westerner), de 1940, que rendeu a Brennan um de seus três prêmios Oscar como ator coadjuvante. E o excêntrico Juiz foi ainda figura central de série de TV “Judge Roy Bean” que teve 39 episódios exibidos na temporada 1955/56, série protagonizada por Edgar Buchanan. Em nenhuma das vezes mostrou-se Roy Bean como ele era, de fato e quando John Milius começou a trabalhar num projeto escrito especialmente para o cinema sobre esse personagem, a expectativa era que, afinal, veríamos na tela uma história mais próxima do verdadeiro Judge Roy Bean. Milius fez exatamente o contrário e, ao modo daquilo que o cinema fazia décadas atrás, ‘imprimiu a lenda’ com seu screenplay que ele próprio desejava dirigir mas o projeto terminou nas mãos de John Huston. Milius conta que escreveu sobre Roy Bean pensando em Lee Marvin como protagonista e que, quando Lee recusou a proposta, o segundo nome passou a ser o de Warren Oates. Paul Newman se interessou pelo filme e entrou como coprodutor e, claro, ator principal, para contrariedade de John Milius que imaginava um Roy Bean rude e nada bonito, enquanto todo mundo sabia que beleza masculina sobrava em Newman. Milius acompanhou de perto as filmagens e, segundo contou mais tarde, viu sequência a sequência, sua história ser desvirtuada por Huston. Porém o diretor não reescreveu a historia, apenas a filmou a seu modo. Seja lá como for, o resultado ficou bem abaixo do esperado, mais ainda porque a produção foi caprichadíssima. Nas fotos à direita o verdadeiro Roy Bean, John Milius e John Huston.


Paul Newman, Victoria Principal
O temido juiz dos enforcamentos - Roy Bean (Paul Newman) é um assaltante de bancos que, para fugir da Justiça, chega a uma localidade chamada Vinegaroon, no Oeste do Texas, entre os rios Grande e Pecos. Mal recebido num saloon que mais parece uma pocilga, Bean liquida os bandidos e prostitutas que lá vegetam e se outorga a função de Juiz. Embora tendo o Código Penal sobre sua mesa Roy Bean cria seus próprios códigos de conduta e aqueles a quem julga terminam sempre balançando no patíbulo à frente de seu saloon-tribunal. Bean nomeia alguns ex-pistoleiros como delegados, Vinegarron cresce e o Juiz torna-se respeitado. Bean nutre inexplicável paixão por Lily Langtry (Ava Gardner), atriz novaiorquina que se exibe por todo o país. Roy Bean tem uma filha com Maria Helena (Victoria Principal) sua amante mexicana que falece após o parto por negligência de um médico. Desesperado Roy Bean abandona Vinegarron deixando a cidade nas mãos do prefeito Frank Gass (Roddy McDowell). Gass é um homem ganancioso e que enriquece com a descoberta de poços de petróleo, usurpando tudo que antes pertencia ao Juiz Bean. Vinte anos mais tarde Roy Bean retorna a Vinegaroon e encontra sua filha Rose (Jacqueline Bisset), a única pessoa que se opõe ao domínio de Frank Gass. Roy Bean reúne seus antigos e decadentes ex-delegados e também com a ajuda de Rose aniquila o poderio de Gass. Tempos depois Lily Langtry visita a cidade de onde partiram as dezenas de cartas escritas por seu admirador, já falecido sem ter conhecido seu grande amor.

Paul Newman
Inverdade histórica - No início de “Roy Bean – O Homem da Lei”, há um aviso dizendo que a história do filme ‘pode não ser do jeito que ocorreu mas... é como deveria ter sido’. Quando um filme é bom, perdoa-se as liberdades que desrespeitam a história. Caso não seja bom o primeiro aspecto a ser criticado é justamente a falta de acuracidade. No caso da vida de Roy Bean esse fato até se torna menos importante uma vez que o Juiz não foi um personagem do Velho Oeste do calibre de Jesse James, Billy the Kid, Wyatt Earp, Buffalo Bill, George Armstrong Custer e outros. Então o filme já sai em vantagem, mais ainda se o diretor for o célebre John Huston, realizador de várias obras-primas do cinema mas que não era o que se pode chamar de um diretor de westerns. Isto considerando-se que “O Tesouro de Sierra Madre” (The Treasure of Sierra Madre) não seja um faroeste autêntico e sem desprezar o excelente “O Passado Não Perdoa” (The Unforgiven). Além de Huston na direção, “Roy Bean – O Homem da Lei” reuniu um respeitável elenco encabeçado por Paul Newman, mas nada disso foi suficiente para assegurar o sucesso de um filme mal recebido por público e crítica.

Paul Newman
Personagens perturbados - Assim como Marlon Brando, desde o início de sua carreira Paul Newman demonstrou gostar de interpretar heróis perturbados, personagens problemáticos com tendência antissocial (“O Indomado”, “O Mercador de Almas”, “Desafio à Corrupção”, “Marcado pela Sarjeta”, “Rebeldia Indomável”, “Golpe de Mestre”) isto quando não vivia na tela foras-da-lei como Butch Cassidy, Juan Carrasco (“As quatro Confissões”) e Billy the Kid (“Um de Nós Morrerá”). Essa propensão talvez fosse para compensar o fato de ser um dos homens mais bonitos de Hollywood e, sem dúvida, porque quase todos eram todos bons papéis. Para interpretar Roy Bean a primeira coisa que Newman fez foi deixar crescer barba e bigode e na sequência inicial do filme, ao ver um desenho seu num cartaz de procurado, ele faz um bigode no desenho, indicação de como iria aparecer durante o filme. Apenas em uma sequência, quando viaja para tentar assistir a uma apresentação de Lily Langtry, é que Newman surge bem vestido. Seu ‘Roy Bean’ é bastante convincente, ainda que Lee Marvin ou Warren Oates fossem mais talhados para esse desempenho.

Stacy Keach
Um western indeciso - “Roy Bean – O Homem da Lei” começa de forma brilhante com o fugitivo da Justiça sendo subjugado pelo repugnantes tipos do saloon onde fez parada. Arrastado por um cavalo com uma corda no pescoço, Bean sobrevive graças à providencial ajuda de Maria Helena e, ao melhor estilo dos mocinhos invencíveis, extermina por volta de dez repelentes bandidos e outras tantas prostitutas. Episódico, o western de Huston narra pequenos incidentes, cada um deles com um ator bastante conhecido. Alguns desses eventos são mais longos, como aquele em que Anthony Perkins interpreta um pregador, outros não duram mais que dois minutos, como o do psicótico pistoleiro albino vestido de negro (Stacy Keach), disposto a matar Roy Bean. Se o momento em que Perkins está em cena é sério e reverente, a sequência com Keach é picaresca e por isso mesmo hilária. Aí reside o problema maior de “Roy Bean – O Homem da Lei”: não se decidir entre a gravidade e o jocoso. O tom de comédia nem sempre ajuda num faroeste e o melhor exemplo são as tentativas de humor de John Ford, raramente resultando satisfatórias como em “Rastros de Ódio” (The Searchers).

Paul Newman, Victoria Principal e o urso
Copiando “Butch Cassidy” - Além do excêntrico pistoleiro albino que provoca mais risadas que medo, “Roy Bean – O Homem da Lei” tem outro momento que se pretende cômico: é aquele com a presença de John Huston como um velho caçador de peles que deixa um urso ‘de presente’ para Roy Bean, que adota ‘Bruno’. O Juiz para castigar Frank Gass o coloca na jaula de ‘Bruno’ e a sequência resulta sem a mínima graça, mas não pior que o interlúdio romântico entre Bean, Maria Helena e... ‘Bruno’. Claramente inspirado por “Butch Cassidy”, John Milius jamais poderia imaginar que a sequência que escreveu pudesse ser filmada de forma tão insossa e monótona. Mais ainda ao som da insípida canção ‘Marmalade, Molasses and Honey’ cantada por Andy Williams e inacreditavelmente indicada ao Oscar de Melhor Canção. Se ‘Raindrops Keep Fallin’ on my Head’ foi um achado que em muito ajudou o sucesso de “Butch Cassidy”, certamente espectadores se levantaram e foram embora do cinema nessa sequência que é uma das mais aborrecidas de toda a filmografia de John Huston.

Ava Gardner; Bill McKinney e Steve Kanaly
Final poético mas nem tanto - O confronto desigual entre Roy Bean, Rose e os cinco envelhecidos delegados contra as forças mais bem armadas de Frank Gass deveria ser o clímax de “Roy Bean – O Homem da Lei”. Mais heroico que nunca Roy Bean (a cavalo) e seus companheiros destroem torres de petróleo e incendeiam Vinegaroon pondo fim ao império de Frank Gass. Sequência que, sem dúvida, sofreu influência do desfecho monumental de “Meu Ódio Será sua Herança” (The Wild Bunch), de Sam Peckinpah. Porém o western de John Huston reserva um final que buscou ser mais poético com Lily Langtry chegando a Vinegaroon para conhecer o Museu de Roy Bean. No entanto nem a presença de Ava Gardner chega a provocar a emoção esperada. O diretor de “Uma Aventura na África” não estava em momento de maior inspiração.

Paul Newman, Anthony Perkins;
Jacqueline Bisset
Juiz sem escrúpulos - Frustra um pouco o espectador ter que esperar até o final de “Roy Bean – O Homem da Lei” para ter na tela as presenças de Jacqueline Bisset e de Ava Gardner, especialmente esta aos 49 anos e conservando a beleza que a fez famosa. Para compensar a também bonita Victoria Principal tem participação em mais da metade do filme. Paul Newman, que John Milius não queria como protagonista é o Juiz autoritário, por vezes arrogante, mas que pauta sua conduta obedecendo aos ditames da lei. Sem o escrúpulo, entretanto, de interpretar a lei segundo seu interesse pessoal quando preciso, subvertendo a máxima que a Lei está a serviço da Justiça, fazendo a Justiça, que é ele próprio, servir a Lei que ele comanda através dos seus delegados. Estes, ao serem contratados, confessam ser homens ‘levados a viver fora da lei pelas circunstâncias’. A lei, a Oeste de Pecos era o próprio Roy Bean.

Jim Burk, Roddy McDowell;
Steve Kanaly, Matt Clark, Tab Hunter
Elenco numeroso - Newman está excelente como o homem da lei obcecado pela mulher que só conhece pelos cartazes que coleciona. Ava Gardner ilumina a tela, independentemente de os poucos momentos em que aparece não estarem à altura de seu nome. Victoria Principal em sua estreia no cinema, aos 22 anos, não desaponta, ela que viria a fazer carreira na TV. Jacqueline Bisset era já uma atriz famosa e assim como Ava Gardner pouco aparece. O grupo de delegados é um dos pontos altos deste western, com destaque para Ned Beatty, mas muito bons também Matt Clark e Bill McKinney. Anthony Perkins surpreendente como o pregador itinerante e Tab Hunter mal tem tempo de dizer duas ou três frases e é logo enforcado. Roddy McDowell é um estranho no western com o tipo antipático que comumente faz. Impossível não rir com Stacy Keach, espalhafatoso com cabeleira longa e branca. John Huston parece não querer mostrar o rosto já envelhecido e David Sharpe, fantástico stuntman dos tempos da Republic Pictures, merecia ser melhor filmado. Roy Jenson é um bandido mexicano no início do filme, Neil Summers com sua cara de rato é varado por muitas balas por atirar no pôster de Lily Langtry. Michael Sarrazin só é visto em uma foto abraçado a Jacqueline Bisset.

Jim Burk - Ned Beatty - Matt Clark - Bill McKinney - Steve Kanaly

Impressão de frustração - O tom de cor escolhido é o mesmo dos westerns de Sam Peckinpah, com cinematografia de Richard Moore; a música de Maurice Jarre nem de longe tem a força das trilhas que lhe valeram três Oscars, um deles do inesquecível “Lawrence da Arábia”. Este western irregular de John Huston merece ser visto pelas boas sequências que contém, pelo interesse que desperta o biografado e pelos nomes talentosos envolvidos. Ao final é inevitável a sensação de frustração de que não se chegou ao resultado esperado.