UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

10 de junho de 2019

OS CHACAIS DO OESTE (THE TRAIN ROBBERS) – JOHN WAYNE VENCIDO PELA ESPERTEZA FEMININA


Burt Kennedy e John Wayne

Muitos críticos entendem que na década de 70 os faroestes nos quais John Wayne atuou perderam qualidade, especialmente se comparados aos melhores de sua carreira. O ‘Duke’, porém, sempre se esforçou para manter o bom nível de seus filmes, mais ainda quando ele mesmo os produzia. Este foi o caso de “Os Chacais do Oeste”, produzido pela sua Batjac e escrito e dirigido por Burt Kennedy. Após a série de cinco westerns que roteirizou para a parceria Budd Boetticher-Randolph Scott, Burt Kennedy passou também a dirigir westerns, entre eles “Gigantes em Luta” (The War Wagon) e as elogiadas comédias “Uma Cidade Contra o Xerife” (Support Your Local Sheriff!) e “Latigo, o Pistoleiro” (Support Your Local Gunfighter). E John Wayne voltou a trabalhar sob as ordens de Kennedy em “Os Chacais do Oeste” também por ele escrito. Para este western a Batjac reuniu um elenco com astros que desfrutavam de sucesso naqueles anos, como Rod Taylor e Ann-Margret, além dos experientes Ricardo Montalban e Ben Johnson. Como já ocorrera em outros filmes estrelados por John Wayne, este contou com a presença de um jovem astro da música norte-americana, Bobby Vinton, que já atuara com Wayne em “Jack, o Grandão” (Big Jake).


Ann-Margret; John Wayne, Rod Taylor,
Ben Johnson, Bobby Vinton e
Christopher George
Uma viúva e muito dinheiro - Em Liberty, no Texas, o cowboy Lane (John Wayne) junta-se aos antigos amigos Grady (Rod Taylor) e Jesse (Ben Johnson) e mais três novos companheiros, reunidos com a missão de prestar ajuda a uma viúva, a senhora Lowe (Ann-Margret). Matt Lowe, seu finado marido assaltara um trem anos atrás e escondera o produto do roubo num local remoto que somente ela conhecia. São 500 mil dólares que, devolvidos à estrada de ferro, renderiam uma recompensa de 50 mil dólares. O grupo se divide entre os que pensam em ficar com os 500 mil dólares e os que se satisfazem com a recompensa. Porém a senhora Lowe pretende devolver o produto do roubo para assim limpar o nome do marido, ao mesmo tempo que precisa de dinheiro para educar o filho de seis anos, criança que não é vista com ela. Partem então para o deserto mexicano onde o dinheiro está escondido dentro de um cofre no forno de uma locomotiva abandonada. Durante a caminhada percebem que são seguidos à distância por outro grupo de 20 homens comandados por um misterioso e elegante líder também armado (Ricardo Montalban). Após encontrar o cofre e se apoderar do dinheiro, Lane e seus homens são atacados pelo pequeno exército, conseguindo reduzi-lo à metade na troca de tiros. Lane e seu grupo retornam então a Liberty onde voltam a ser atacados pelos sobreviventes do grupo que, afinal, são exterminados. De comum acordo Lane e seus companheiros decidem que a senhora Lowe fique com o dinheiro roubado para entregá-lo à ferrovia e assim receber a recompensa. Só então é revelado pelo misterioso atirador que a mulher era uma farsante e que eles foram por ela enganados.

Ann-Margret; John Wayne
A mulher mais esperta do Oeste - “Os Chacais do Oeste” se inicia com uma imagem evocativa de outros westerns famosos, com o cowboy Jesse aguardando pacientemente a chegada de um trem à estação da pequena Liberty, no Texas. Imediatamente o espectador se lembra de “Matar ou Morrer” (High Noon) e também de “Era Uma Vez no Oeste” (C’Era Uma Volta Il West), clássicos do gênero. Com o desenrolar da história percebe-se ressonâncias com outros roteiros de Burt Kennedy feitos para filmes de Boetticher nos quais há também a presença de uma única mulher (Maureen O’Sullivan, Karen Steele, Nancy Gates, Gail Russell) em meio a um grupo de brutos. Desta vez, porém, os homens demonstram altruísmo ao abrir mão dos 50 mil dólares de recompensa em favor da viúva e de seu filho, atitude inútil pois ocorre uma inesperada guinada na história. O grupo de homens ter sido enganado por uma farsante é o ponto insólito do roteiro que é previsível durante o transcorrer de todo o filme. Relativamente curto em seus 92 minutos de duração, Kennedy abriu mão de uma conclusão o que frustra o espectador uma vez que a falsa viúva não escaparia tão facilmente. Kennedy preferiu a blague final em tom de ironia num western que passa longe de ser exatamente uma comédia.

John Wayne; Ricardo Montalban
Tiroteio entre as dunas - Burt Kennedy conseguiu excelentes momentos de ação quando o incansável grupo de duas dezenas de perseguidores alcança os homens liderados por Lane. Inicialmente o ataque ocorre num deserto, no México, onde uma locomotiva enferruja em meio às dunas em impressionante e rara imagem com as duas dezenas de cavaleiros surgindo no horizonte numa espécie de Lawrence da Arábia em Durango. A sempre brilhante cinematografia de William H. Clothier ganha contornos dalinianos ao mostrar a semidestruída locomotiva e restos de vagão encobertos pelas dunas. E é nesse cenário que Lane comanda a defesa que rechaça o ataque impondo-lhe a considerável baixa. E é onde brilha o time de stuntmen dirigido por Cliff Lyons. John Wayne já esteve inúmeras vezes em desertos mas jamais como mostrado neste western. O segundo grande confronto ocorre à noite em Liberty com intenso tiroteio e explosões de dinamite que exterminam de vez com o misterioso contingente, o que poderia encerrar a aventura que no entanto reserva ainda a grande surpresa.

Ben Johnson, Christopher George e Rod Taylor;
John Wayne e Bobby Vinton
Heróis caridosos - Em meio à perseguição, a falsa Senhora Lowe tenta se insinuar junto a Lane, ocasião em que este diz à mulher “Moça, minha sela é mais velha que você...”, a melhor frase do filme e que expressa com felicidade que Lane/Wayne há tempos deixara de ser o galã das heroínas jovens de seus filmes. O que seus personagens nunca perderam por que o ator impunha essa condição era uma certa abnegação, generosidade e mesmo sacrifícios, como fez Ethan Edwards ao renunciar a entrar na casa dos Jorgensens ao final de “Rastros de Ódio” (The Searchers). Após Sam Peckinpah e Sergio Leone, principalmente, os homens do Oeste incorporaram o cinismo e a amoralidade às suas personalidades nos westerns, distanciando-se dos exemplos altruísticos dos personagens de John Ford e outros diretores. Eis que em “Os Chacais do Oeste”, enquanto Lane e os demais cowboys se mostram capazes de um gesto filantrópico, a sordidez está escondida na infeliz senhora Lowe. Como a mais perfeita atriz, ela, saída de um saloon, ludibria a todos mostrando que a patifarias não são exclusivas dos homens. Hilário é o quadro com os rostos dos cowboys ao serem avisados da farsa de que foram vítimas.

John Wayne, Rod Taylor e Ben Johnson; Ann-Margret

John Wayne
Faltou Jack Elam - John Wayne ainda estava relativamente bem aos 65 anos de idade e após a retirada de um pulmão e exibe razoável boa condição física neste western em que é o John Wayne de sempre, isto é, um ator que enche a tela com sua personalidade mostrando que ele é o filme. Ann-Margret por mais que se esforce não consegue se fazer passar por boa moça, o que ao final revela-se que não é, muito pelo contrário. Ainda assim tem bons momentos quando dialoga sob as estrelas com Ben Johnson e com Wayne. Johnson já havia provado que era um excelente ator que passara a maior parte da carreira mostrando sua habilidade como cavaleiro. Difícil saber em qual arte era melhor. Inicialmente Jack Elam interpretaria ‘Grant’, mas ocorreu o veto de John Wayne que sabia que Elam poderia roubar-lhe o filme. Rod Taylor ficou com o papel numa escolha equivocada que desperdiçou um bom personagem.

Burt Kennedy
Burt Kennedy, um resistente - Dominic Frontiere é o responsável pela ótima trilha sonora que cria a atmosfera perfeita para as sequências no deserto, casando-se com rara felicidade às imagens de Bill Clothier.  Frontiere era um acordeonista que tornou-se maestro-compositor. Entre os poucos westerns para os quais compôs trilha musical está “A Marca da Forca” (Hang ‘em High), que marcou o retorno de Clint Eastwood aos westerns hollywodianos. De conceituado roteirista de westerns, Burt Kennedy tornou-se um dos últimos diretores do gênero western que já se exaurira e nunca mais teria o apogeu das décadas anteriores. Este “Os Chacais do Oeste” é agradável de se assistir mas deixa a impressão que poderia ser bem melhor. John Wayne ainda faria mais três westerns antes de descer definitivamente da sela, quando já era uma lenda viva do cinema.

Rod Taylor, John Wayne, Ann-Margret e Ben Johnson; Ricardo Montalban

4 de junho de 2019

A PASSAGEM DA NOITE (NIGHT PASSAGE) – JAMES STEWART COMO IRMÃO DE AUDIE MURPHY


James Neilson;
Anthony Mann

Anthony Mann foi, reconhecidamente, o grande cineasta do gênero western nos anos 50, década em que realizou uma dezena de faroestes, muitos deles clássicos. A parceria de Mann com James Stewart é ainda uma das mais famosas do cinema entre ator-diretor, resultando em nada menos que oito filmes, cinco deles westerns. Em 1956, enquanto aguardava o início das filmagens de “Vertigo” (Um Corpo que Cai), Stewart aceitou participar de um novo faroeste roteirizado por Borden Chase, desde que o filme fosse dirigido por seu amigo Anthony Mann. Logo de início o diretor não gostou do projeto porque entendeu ser incoerente Stewart interpretar um irmão de Audie Murphy pois ambos são inteiramente diferentes. Mann também não gostou do excessivo número de sequências em que o personagem de James toca um acordeão. Em sua juventude Stewart aprendeu a tocar o instrumento e o que mais o atraiu nesse filme foi justamente a oportunidade de poder demonstrar sua habilidade musical. Para atrapalhar ainda mais as coisas Mann começou a filmar pelas sequências que mais exigiam fisicamente de Stewart, o que gerou discussões entre eles. Mais poderoso que o diretor, pois tinha interesse financeiro na produção, o ator exigiu do produtor Aaron Rosenberg que despedisse sumariamente Anthony Mann. Embora haja versões que relatem que Mann foi quem abandonou as filmagens, prevalece a contada por James Stewart. Esse incidente colocou fim a uma amizade que parecia duradoura e, enquanto Mann com satisfação foi filmar “O Homem dos Olhos Frios” (The Thin Man), James Neilson foi chamado para substituí-lo. Neilson nunca havia dirigido um longa-metragem e sua experiência era toda dos trabalhos em TV e ainda como cinegrafista que foi durante a II Guerra Mundial. “A Passagem da Noite” recebeu críticas pouco elogiosas e o público não se interessou muito por esse western, mesmo com elenco encabeçado pelos nomes e Stewart e Audie Murphy.


James Stewart e Audie Murphy
Irmão reencontra irmão - Grant McLaine (James Stewart) é uma ex-empregado de uma ferrovia, onde atuava como espécie de segurança dos valores transportados. Acusado de conivência em um assalto faciltando a fuga de um bandido, afasta-se da função por cinco anos após o que é recontratado porque o bandido Whitey Harbin (Dan Duryea) e seu bando têm praticado reiterados assaltos roubando o pagamento dos trabalhadores da ferrovia. Como primeiro trabalho na nova fase McLaine deve, fazendo-se passar por passageiro anônimo no trem, transportar dez mil dólares para efetuar o pagamento há meses devido aos trabalhadores. Faz parte do bando de Whitey um jovem bandido apelidado The Utica Kid (Audie Murphy), cujo nome verdadeiro é Lee McLaine e que é, de fato, irmão de Grant. Acompanhava o bando de Whitey o menino órfão Joey Adams (Brandon De Wilde), protegido de The Utica Kid. O novo assalto é praticado mas os dez mil dólares escondidos numa caixa de sapatos que está o tempo todo em poder do pequeno Joey não são descobertos. Trava-se uma luta desigual entre Grant e a quadrilha, com Grant levando a melhor com a ajuda de seu irmão Lee que decide mudar de lado. No entanto Lee é alvejado por Whitey e morre, enquanto o bandido é também morto por Grant que leva os dez mil dólares para o acampamento dos ferroviários.

James Stewart; Audie Murphy
Audie Murphy como vilão sarcástico - Entre as queixas de Anthony Mann em relação à história, estava também o personagem do garoto carregando o tempo todo uma caixa com dez mil dólares sem levantar suspeitas. Mas bem pior que isso são os diálogos travados entre os bandidos Whitey e The Utica Kid, diálogos que visam criar um clima de antagonismo divertido mas que apenas conseguem ser deslocados, para não dizer bizarros. Dan Duryea está seguramente entre os melhores vilões que Hollywood apresentou, com seu tão imitado riso cínico e fria crueldade homicida. Mas nada disso se vê no bandido Whitey porque parece que Dan Duryea a todo momento vai gargalhar vendo Audie Murphy interpretar um fora-da-lei pretensamente sarcástico. Mann sabia das limitações de Murphy como ator e pressentiu que aquele tipo de personagem não seria apropriado para o mais condecorado herói de guerra norte-americano transformado em astro de cinema. E James Stewart nos remete aos tempos dos pequenos faroestes da Republic, estrelados por Roy Rogers, Gene Autry e Rex Allen, nos quais pelo menos meia dúzia de vezes os mocinhos interrompiam suas cavalgadas, lutas e tiroteios para... cantar. Stewart toca seu acordeão a todo momento e sob qualquer pretexto para que ele demonstre seus dotes musicais. Anthony Mann sabia que “A Passagem da Noite” tinha tudo para não dar certo.

James Stewart e Audie Murphy

Audie Murphy com Elaine Stewart;
Dianne Foster
Personagens incoerentes - Sem ser complexo, este enredo de Borden Chase é tão confuso quanto inconsequente, colocando em cena as presenças de duas mulheres que no passado conheceram os irmãos McLaine. Uma delas, Verna Kimball (Elaine Stewart), é casada com o velho o dono da ferrovia (Jay C. Flippen) e a outra, Charlotte (Dianne Foster), é eterna apaixonada por The Utica Kid. Verna é daquelas mulheres insatisfeitas que se insinuam junto ao homem que estiver mais próximo a ela, frustrando-se inteiramente pois, mesmo prisioneira do grupo enorme de bandidos, nem Whitey e nem The Utica Kid se interessam em disputá-la. Isto após ser rejeitada também por Grant. Já a íntegra Charlotte, mal o corpo de seu amado Kid esfriou e ela termina o filme de mãos dadas com o irmão deste, partindo para uma vida comum com o quase futuro cunhado. Atenção, o autor do roteiro é Borden Chase, ele que demonstrou saber conceber tipos femininos mais interessantes, como a pouco escrupulosa criadora de gado de “Homem Sem Rumo” (Man Without a Star) interpretada por Jeanne Crain; ou as mulheres que assediam Gary Cooper e Burt Lancaster em “Vera Cruz” (Sarita Montiel e Denise Darcell). Tanto Verna Kimball como Charlotte Drew, a rigor, pouco acrescentam à história sendo apenas o contraponto feminino ao vastíssimo elenco masculino. Sem esquecer das presenças, estas sim, marcantes de Olive Carey e Ellen Corby que poderiam ser mais e melhor aproveitada.

James Stewart e Audie Murphy
Exterminando a grande quadrilha – Muito boa a sequência de assalto ao trem em movimento, mas o momento com mais ação de “A Passagem da Noite” é o enfrentamento do solitário herói Grant McLaine contra a numerosa quadrilha chefiada por Whitey. Destoando do inconvincente desenvol-vimento deste western, o tiroteio é bem encenado, valorizado pelas presenças de diversos stuntmen que atuam como membros do bando de Whitey. Entre eles Chuck Roberson, Boyd Stockman, Henry Wills e John Daheim, que morrem com ‘gusto’, o mesmo ocorrendo com Dan Duryea na sequência em que é abatido por Stewart. Do bando composto por dez malfeitores, um a um vão sendo postos fora de combate por Grant, assistido do alto de um morro por seu indeciso irmão. Até que finalmente participa da troca de tiros. Essa sequência compensa a frustração de ver tanta música e bandidos com tão pouca inteligência que jamais desconfiam da caixa de sapatos que o garoto Joey carrega para todo lado. O início da ‘conversão’ de The Utica Kid foi imaginada como uma sequência comovente quando através de uma canção tocada e cantada pela família Grant, o jovem bandido repensa sua vida. No entanto produz efeito contrário, resultando no momento mais piegas deste western.

Dan Duryea
Elenco sem maiores destaques - Os personagens criados por James Stewart em westerns de Anthony Mann são geralmente homens torturados psicologicamente pelo passado e fisicamente no presente, enfrentando quase sempre solitariamente os desafios. Grant McLaine, sem qualquer profundidade psicológica, é seguramente o mais vazio de todos os tipos vividos por Stewart na série de faroestes que ele filmou na década de 50. Do mesmo modo Dan Duryea deixa saudades do sádico vilão que comumente interpreta, como o ‘Fred McCarthy’ de “Homens Indomáveis” (Silver Lode). Audie Murphy inteiramente fora do tipo que pouco dele exigia para interpretar os westerns da Universal em que atuava. A reunião de vilões que compõem o bando de Whitey só permite maior destaque para Robert J. Wilke, desperdiçando Jack Elam. Brandon De Wilde depois de ter que gritar ‘Shaaaaaane’ interminavelmente em “Os Brutos Também Amam” teve que carregar uma caixa de sapatos o tempo todo em “A Passagem da Noite”, não tendo oportunidade para demonstrar o ótimo ator infanto-juvenil que era. O elenco de coadjuvantes traz ainda Paul Fix como marido da ciumenta Ellen Corby em sequências cômicas e Olive Carey com seu tipo único é sempre presença agradável na tela.

Sing, Stewart, Sing - Dimitri Tiomkin é o autor da trilha musical, com duas canções que são “Follow the River” e “You Can’t Get Far Without a Railroad”. A primeira demais pomposa e por isso mesmo pretensiosa; a segunda cantada por James Stewart com sua voz anasalada em arranjos mais lento e acelerado, com ele acompanhando-se ao acordeão. Nenhuma das canções tornou-se memorável. Salienta-se mais que tudo neste filme as belíssimas imagens de Williams H. Daniels no processo Technirama feitas nas locações no Colorado e na Inyo National Forest, na California, cenários tão apreciados por Anthony Mann. O diretor James Neilson não fez carreira no cinema e “A Passagem da Noite” deixa a impressão que poderia ser bem melhor pelas mãos do diretor dispensado pelo egocentrismo que dominou James Stewart (na foto à esquerda) neste western.

Brandon De Wilde e James Stewart; o acordeão sendo queimado.


22 de maio de 2019

CIDADE DO MAL (CITY OF BAD MEN) – BOXE EM MEIO A TIROS E ASSALTOS



Um dos mais importantes acontecimentos de 1897 foi a luta de boxe em disputa do título mundial dos pesos pesados entre Jim Corbett e Bob Fitzsimmons (vistos na foto à direita). A contenda teve lugar na cidade de Carson City, Nevada, atraindo centenas de espectadores que pagaram caro para assistir à luta que rendeu 22 mil dólares aos seus promotores. Os roteiristas George W. George e George G. Slavin escreveram uma história ficcional que tem por cenário a Carson City da época da lendária refrega contando ainda com a presença de bandos de foras-da-lei. Estes querem se apoderar da arrecadação do evento, criando uma disputa paralela. Essa luta teve, como fato real, uma curiosidade que foi a contratação de pistoleiros para proteger os lutadores e seus staffs, constando que até mesmo o célebre Wyatt Earp esteve em um dos corners durante o transcorrer da luta. Certamente isso motivou os autores a escrever uma versão do evento, adicionando personagens e fazendo com que o local onde o dinheiro das bilheterias foi reunido fosse assaltado, pouco se diferenciando de um roubo a banco. A produção da 20th Century-Fox foi bem cuidada na parte técnica deste western que, com metragem maior, roteiro menos confuso e atores de maior renome à época poderia ter sido produzido como faroeste classe A.


O assalto à luta do século - Brett Stanton (Dale Robertson) chefia um bando que vai a Carson City com o intuito de roubar a arrecadação da luta entre Bob Fitzsimmons e Jim Corbett. Outros bandidos fazem o mesmo, entre eles o conhecido John Ringo (Richard Boone). Os homens da lei da cidade percebem-se impotentes diante de tantos malfeitores que se misturam aos milhares de forasteiros que invadem Carson City para o evento e decidem aliciar Stanton para que este impeça qualquer ação dos bandidos. Brett Stanton deixou Carson City há seis anos, deixando ainda sua namorada Linda Culligan (Jeanne Crain) o esperando. Linda agora está noiva de Jim London (Whitfield Connor), um dos promotores da disputa pelo título. O bando de Stanton o pressiona para que pratique o roubo combinado, mas Stanton permanece ao lado da lei, mata John Ringo, ficando com Linda Culligan. Nas fotos ao lado Dale Robertson e Richard Boone; Gil Perkins e John Daheim como os boxeurs Fitzsimmons e Corbett.

Dale Robertson e Jeanne Crain
Um homem disputado - “Cidade do Mal” é excessivamente dialogado em sua primeira metade, mesmo não sendo um filme com profundidade psicológica. Com a aproximação do dia da luta pelo título mundial este western se torna mais movimentado e ganha maior interesse. Mais uma vez o romance inserido na história não é muito convincente e só piora quando surge Cynthia London (Carole Matthews) outra figura feminina que também quer o amor de Brett Stanton. Intencionalmente ou não, o roteiro de “Cidade do Mal” lembra bastante “Matar ou Morrer” (High Noon) quanto a essa subtrama amorosa. E não falta nem mesmo a presença de um conquistador violento interpretado por Lloyd Bridges que por sinal quase repete seu personagem do clássico de Fred Zinnemann. Perde-se também a história com a pouca clareza da posição ambígua de Brett Stanton, indeciso em qual lado ficar em meio a um sem número de bandidos e de um xerife aturdido com a desordem que toma conta de Carson City. Tudo isto num filme de meros 80 minutos.

Lloyd Bridges e Carole Matthews; Carole e Jeanne Crain

Tumulto durante a luta - Após a quase concretização do assalto, que resultou em diversas mortes e a devolução do dinheiro roubado, o xerife Bill Gifford de Carson City (Hugh Sanders) exclama que a cidade está tranquila e que nada demais aconteceu, omitindo o assalto frustrado. Crítica certeira em atitude claramente política querendo demonstrar que o xerife foi capaz de controlar a cidade em convulsão. Durante a contenda no ringue ocorrem disparos propositais, na plateia, disparos feitos por bandidos com o intuito de gerar tumulto e que levam à paralisação da luta durante algum tempo. O filme de Harmon Jones deixou de melhor explorar a luta de boxe em si, fato que seria bastante interessante a partir da perspectiva das mudanças nas regras que esse esporte sofreu através dos anos. Pouca ênfase é dada também ao desenrolar do combate, sem que seja, ainda, apresentado o desfecho do mesmo. Na foto à direita Richard Boone.

Dale Robertson
Diretor e mocinho dos ‘Bs’ - Um novo mocinho nos westerns ‘B’ - Dale Robertson era uma das apostas da Fox como jovem galã, mas acabou vingando mesmo como herói em faroestes e em filmes de aventuras. Este “Cidade do Mal” é um dos melhores westerns em que atuou, descontada sua pequena participação em “Entre Dois Juramentos” (Two Flags West). Reunido com Richard Boone que, igualmente iniciava sua carreira naqueles primeiros anos da década de 50, e ainda Jeanne Crain, Dale Robertson formou o trio principal deste western. Lloyd Bridges, que havia tido papel relevante em “Matar ou Morrer” (High Noon) interpreta um irmão de Brett Stanton. A bonita Jeanne Crain que na própria Fox havia tido ótimas oportunidades experimentava declínio em sua carreira e a soma de todos esses nomes não foi capaz de despertar a confiança do estúdio em escalar um diretor de melhor calibre para realizar um filme mais alto nível. Harmon Jones, ex-editor de filmes na Fox, foi promovido a diretor, respondendo por filmes da produção ‘B’ do estúdio. Entre os muitos coadjuvantes conhecidos estão o mexicano Rodolfo Acosta, a boa e bonita Carole Matthews, James Best, John Doucette e Leo Gordon em sua estreia no cinema. Todos eles formam um ingrediente interessante para os cinéfilos que gostam de conhecer além dos astros dos filmes.

Lloyd Bridges, John Doucette, Leo Gordon e Rodolfo Acosta


23 de abril de 2019

ENTRE DOIS JURAMENTOS (TWO FLAGS WEST) – CONFEDERADOS HONRANDO A FARDA AZUL


Frank S. Nugent
e Robert Wise

Frank S. Nugent faleceu aos 57 anos, reconhecido como um dos principais roteiristas de seu tempo. São de Nugent, em associação com John Ford, de quem se tornou roteirista preferido, os screenplays destes filmes:             “Sangue de Heróis” (Fort Apache), “O Céu Mandou Alguém” (3 Godfathers), “Legião Invencível” (She Wore a Yellow Ribbon), “Caravana de Bravos” (Wagon Master), “Rastros de Ódio” (The Searchers) e “Terra Bruta” (Two Rode Together), todos westerns. Além desses, Nugent escreveu para Ford também os roteiros de “Depois do Vendaval”, “Mr. Roberts”, “The Rising of the Moon”, “O Último Hurra” e “O Aventureiro do Pacífico”. Mesmo conhecedor profundo do faroeste, Frank S. Nugent escreveu somente uma história no gênero, intitulada “Two Flags West”, levada ao cinema por Robert Wise em 1950 e que no Brasil se chamou “Entre Dois Juramentos”. Nugent partiu de um fato real, o decreto assinado em 1864 por Abraham Lincoln, em plena Guerra Civil, que anistiava soldados confederados que jurassem lutar pela União, trocando de lado. Em 1965 Sam Peckinpah retornou ao tema com “Juramento de Vingança” (Major Dundee). Robert Wise já havia realizado o faroeste noir “Sangue na Lua” (Blood on the Moon) em 1948 e faria depois “Honra a um Homem Mau” (Tribute to a Bad Man) em 1957. Entre os dois Wise filmou “Entre Dois Juramentos”, sendo os três filmes as únicas experiências no gênero western dentro da bem sucedida carreira do grande diretor.


Confederados prisioneiros
transformados em soldados ianques
Jurando em falso - Casey Robinson roteirizou a história de Frank S. Nugent, que conta como um pelotão inteiro do Exército Confederado cai prisioneiro dos nortistas e é enviado ao Forte Thorn, comandado pelo Major Kenniston (Jeff Chandler). O Coronel Tucker (Joseph Cotten) liderava os soldados confederados e a ele é feita a proposta de trocar a farda sulista pela azul do Norte e passar a obedecer as ordens de Kenniston. Sem alternativa a não ser mofar na prisão, os sulistas aceitam fazer o juramento mas sem perder de vista a possibilidade de virem a escapar na primeira oportunidade que surgir. As forças do Norte estavam reduzidas uma vez que quase todo contingente de soldados estava nos campos de batalha. O pelotão sulista transformado em soldados da União recebe a missão de escoltar uma caravana e planeja uma fuga durante o trajeto. O plano é atrapalhado pelo destempero do Major Kenniston que mantinha prisioneiro o filho de um chefe índio e mata friamente o jovem índio, o que provoca um ataque feroz contra o Forte praticamente indefeso. Avisado do ataque o Coronel Tucker e seus homens retornam ao Forte Thorn em tempo de evitar a consumação do massacre total pelos índios. Estes tomam a decisão de cessar os ataques desde que o Major Kenniston se entregue, o que ocorre, sendo ele morto pelos índios que se afastam deixando os sobreviventes do Forte em paz.

Jeff Chandler
Oficial cruel e rancoroso - “Entre Dois Juramentos” rompe com os tradicionais embates entre Norte e Sul durante a Guerra Civil, sendo bastante simpático aos sulistas que demonstram hombridade ímpar na decisão de se sacrificar pelo ainda inimigo Norte. Este é representado pela figura cruel e psicótica do Major Kenniston, aleijado em batalha e que nutre igual ódio pelos sulistas e pelos índios. Seu comportamento odioso se explica não só pelo ferimento sofrido que o deixou manco mas também por ter perdido o irmão em batalha. E a personalidade ressentida de Kenniston é completada ainda por ser ele apaixonado por Elena Kenniston (Linda Darnell), sua cunhada viúva, que nutre por ele uma quase aversão. Poucas vezes se viu um tão repulsivo e amargo oficial como o personagem desse Major que tem como contraponto o Coronel Tucker, confederado nobre em casa uma de suas atitudes, mesmo em relação à linda Elena que por ele demonstra afeição.

Linda Darnell e Joseph Cotten
Amor pela cunhada viúva - Há ainda no Forte Thorn outro admirador da bela viúva mexicana, o Capitão Mark Bradford (Cornel Wilde), que também recebe atenção de Elena. Em westerns a personagem feminina é normalmente criada para possibilitar o romance tão ao gosto das plateias (especialmente a feminina) e também para que entre tantos rostos rudes, no caso os de sofridos de soldados, reluza a beleza de uma atriz. Inteligentemente a história de Frank S. Nugent coloca Elena entre os três homens, mas poderia ter explorado mais profundamente a relação entre ela e o atribulado Major Kenniston pois o filme é relativamente curto (92 minutos) para a complexidade da história. Talvez Wise não tenha feito isso porque nem Jeff Chandler nem Linda Darnell possuíam talentos suficientes para uma maior dimensão de uma subtrama como essa.

Joseph Cotten, Linda Darnell e Cornel Wilde

Cornel Wilde
Contendo índios revoltosos - O racismo do Major Kenniston é exacerbado e “Entre Dois Juramentos” se alinha entre a série de filmes daqueles anos a olhar os índios com simpatia e a justificar a ferocidade com que se vingavam das atrocidades que sofriam. Ordens de Washington são dadas para que os confederados transformados em ianques sejam utilizados na contenção da luta dos nativos pela recuperação de suas terras. Algo que soa degradante para os sulistas que, mesmo nos estertores da Guerra Civil, querem lutar ao lado de seus companheiros sob a liderança de Robert E. Lee. Morto o responsável pela carnificina quase completa que ocorreu no Forte Thorn, a paz volta a reinar e o filme termina com a luminosa visão de uma América na qual Norte e Sul se irmanem.


Joseph Cotten
Tempos de bons westerns - O clímax de “Entre Dois Juramentos” se dá com o cerco ao forte e o brilhante trabalho de Robert Wise com o auxílio do cinegrafista Leon Shamroy. A intensa movimentação é valorizada com a atuação dos stuntmen dando realismo à ação.  Filmado em preto e branco, este western fica no meio termo entre uma produção A e a imediatamente inferior da Fox ao utilizar atores como Joseph Cotten que nunca chegou a ser considerado astro de primeira grandeza apesar de ser um ator de raros predicados. Cornell Wilde e Linda Darnell experimentavam o início da decadência de suas carreiras e Jeff Chandler era uma aposta que Hollywood fazia com sua figura exótica de galã. Cotten domina o filme todo até porque nenhum dos demais atores principais lhe faz sombra com suas atuações que não entusiasmam. Chandler foi uma má escolha pois seu personagem é uma figura trágica e rancorosa à qual ele reduziu a um oficial inexpressivo. “Entre Dois Juramentos” foi realizado quase simultaneamente à famosa Trilogia da Cavalaria de John Ford. Tempos em que o cinema tinha no gênero western um dos seus pilares e o público se comprazia com tantos bons filmes como é o caso deste dirigido por Robert Wise.


24 de março de 2019

A HORA DA PISTOLA (HOUR OF THE GUN) – JOHN STURGES REVISITA O OK CORRAL


Stuart N. Lake e seu livro;
abaixo John Sturges e Edward Anhalt

Ao lado de Anthony Mann, John Sturges foi o mais importante diretor de westerns dos anos 50. Começou a década com o bom “A Fera do Forte Bravo” (Escape from Fort Bravo), seguido pelo igualmente bom “Punido pelo Próprio Sangue” (Backlash). A Paramount e Hal B. Wallis apostaram alto em “Sem Lei e Sem Alma” (Gunfight at the OK Corral), reunindo elenco estelar e bem cuidada produção que agradou em cheio aos fãs do gênero que lotaram os cinemas para vê-lo. Com “Duelo na Cidade Fantasma” (The Law and Jake Wade) Sturges manteve o padrão de qualidade de seus westerns. Veio então o clássico “Duelo de Titãs” (Last Train from Gun Hill), seguido por aquele que se tornaria um marco no gênero, “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven). Nos anos 60 John Sturges decepcionou público e crítica com “Os Três Sargentos” (Sergeant 3) e “Nas Trilhas das Aventuras” (The Hallelulah Trail), este último seu mais retumbante fracasso entre os faroestes que dirigiu. Foi então que o diretor, certamente motivado pela onda revisionista da nova década, decidiu se redimir da forma ficcional com que mostrou a figura de Wyatt Earp interpretada por Burt Lancaster. Sturges gostou da abordagem feita pelo escritor-roteirista Edward Anhalt na qual o mais lendário homem da lei do Velho Oeste é bastante diferente do personagem reinventado por Stuart N. Lake no livro “Frontier Marshal” e idealizado por John Ford ou mesmo do altruísta marshal de “Sem Lei e Sem Alma”. Outra diferença na história escrita por Anhalt é que ela se inicia após o duelo do Curral OK, o qual serve de ponto de partida para este western. O cenário da Tombstone de 1881 foi erigido em Torreón, no México, para onde Sturges levou a equipe, e liderando o elenco, três atores do porte de James Garner, Jason Robards e Robert Ryan.


James Garner
Sede de vingança - Nesta versão os irmãos Earp, com a ajuda do jogador Doc Holliday (Jason Robards), se defrontam com pistoleiros contratados pelo rancheiro Ike Clanton (Robert Ryan). No confronto ocorrido no ‘Curral OK’, três participantes, todos do lado de Clanton são mortos e, acusados de assassinato, Wyatt Earp (James Garner) e Doc Holliday são inocentados. Inconformado Clanton ordena atentados contra os Earps e Virgil e Morgan são baleados, sendo que este último acaba morto. Wyatt Earp, que é Delegado Federal (marshal), ao contrário do xerife de Tombstone e seus ajudantes, é insubornável, o que atrapalha os negócios escusos de Clanton. Após a morte de Morgan Earp, o determinado Wyatt busca a vingança, liquidando um a um os capangas do rancheiro corruptor. Clanton foge para o México e embora a jurisdição de Wyatt como Delegado Federal o impeça de agir fora de seu país, ele consuma sua vingança no país vizinho matando Ike Clanton.

O verdadeiro Wyatt Earp
Ainda preservando a lenda - Primeiro a literatura, por obra (culpa) exclusiva do escritor Stuart N. Lake, elevou Wyatt Earp à condição de lenda nacional, mitificando sua personalidade, para o que ele próprio colaborou com seus controversos depoimentos a esse autor. O cinema já existia e Wyatt, no final da vida, dava entrevistas narrando como abatia bandidos em seu tempo de homem da lei. O nome ‘Wyatt Earp’ significava lucro certo e Hollywood também deu sua enorme contribuição para que esse ‘homem da lei’ fosse mostrado como um nobre norte-americano que mais que nenhum outro ajudou a domar o Oeste Selvagem. Os movimentos sociais dos anos 60 e a contracultura levaram autores e mesmo o cinema à busca das verdades dos fatos. Contrariando a famosa frase de John Ford ‘Print the legend’, Custer, Jesse James, Wild Bill Hickok e outros personagens do Velho Oeste passaram da condição de heróis para a de homens comuns quando não de assassinos frios ou neuróticos. “A Hora da Pistola” não chega a deslustrar inteiramente a biografia de Wyatt Earp, mas o apresenta como um homem para quem a lei pouco importa diante de seu ímpeto pela vingança do irmão morto e do outro que ficara aleijado. Perseverante no seu intento, Wyatt não é contido pelo surpreendentemente sensato Doc Holliday, cujos conselhos Wyatt ignora na sua sede de retaliação.

James Garner
Enfoque mais real - No início de “A Hora da Pistola” uma legenda informa que o filme é baseado em fatos reais da forma como eles aconteceram. Tal aviso prepara o espectador para o choque de conhecer um Wyatt Earp diferente daqueles que o cinema e a TV até então haviam mostrado. Randolph Scott (“A Lei da Fronteira”/Frontier Marshal), Henry Fonda (“Paixão dos Fortes”/My Darling Clementine), Joel McCrea (“Choque de Ódios”/Wichita), Burt Lancaster (“Sem Lei e Sem Alma”/Gunfight at the OK Corral), no cinema e Hugh O’Brian (“Wyatt Earp”/The Life and Legend of Wyatt Earp) em uma série para a televisão, todos personificaram Wyatt Earp da maneira como Hollywood gostava de fazer, ou seja, heroicamente, sempre visando o potencial financeiro daquele personagem. Embora ninguém invista em produções cinematográficas apenas para revelar a verdade dos fatos, mas sim como forma de ganhar dinheiro, John Sturges (também produtor) e Edward Anhalt arriscaram-se na mudança de enfoque e o público não se interessou em ver James Garner como um homem disposto a tudo para consumar sua vingança. Mais ainda porque Garner foge do tipo bem humorado, irônico e justo que o consagrou no cinema e na TV.

James Garner e Jason Robards
Sadismo e angústia - À parte a questão biográfica, “A Hora da Pistola” não agrada inteiramente como western porque falta a ele a inspiração que Sturges esbanjou em trabalhos anteriores. Wyatt Earp e Doc Holliday mais humanos que destemidos resultou em seres menos expressivos e mais angustiados. Para um western com 100 minutos de duração e com intenção de ressaltar o aspecto psicológico dos personagens principais, até que há bastante ação. Pena que nenhuma delas chegue a emocionar visualmente. Na sequência mais bem desenvolvida, quando Wyatt mata Andy Warshaw (Steve Ihnat), Sturges salienta o sadismo do marshal que descarrega desnecessariamente seu revólver no oponente. Lucien Ballard foi o responsável pela cinematografia, ele que se revelou um mestre no uso da câmera lenta em “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch), recurso que o cinema já utilizava com sucesso, como em “Uma Rajada de Balas” (Bonnie & Clyde), de Arthur Penn e filmado também em 1967. Muito teria ganho este western de John Sturges com esse recurso que, acredito, não tenha sido utilizado porque poderia comprometer a intenção primeira do filme que era ser mais revelador que mero espetáculo visual.

James Garner
Wyatt Earp sem esposa ou amante - Nenhuma referência é feita em “A Hora da Pistola” às mulheres da vida de Wyatt Earp, assim como omite-se Katie ‘Big Nose’ Elder, que viveu com Doc Holliday. Por ocasião do evento do ‘Curral OK’, Wyatt estava casado e tinha como amante uma mulher que fora amante do xerife de Tombstone, John Behan, que neste filme tem o nome de Jimmy Bryan (Bill Fletcher). As únicas presenças femininas no filme são as curtíssimas sequências em que aparecem a esposa de Virgil Earp ao lado dele deixando Tombstone e a bela Charlene Holt que, à noite, acorda o marido para ver o que se passa na rua. Em uma única sequência Doc Holliday é acometido por um acesso de tosse indicativo da tuberculose que o mataria. E nenhuma menção é feita à sua formação como dentista, de onde se originou o apelido ‘Doc’. É de Doc a melhor frase do filme, quando ele diz ao enfermeiro que cuida dele e bebe tanto quanto ele: “Eu não beberia isso se eu fosse você”, num momento de puro sarcasmo.

Jason Robards
Jason Robards, o melhor do elenco - James Garner está bem como o pragmático Wyatt Earp, sobrepujado pela excelente interpretação de Jason Robards. É interessante o fato que o personagem tísico, beberrão, jogador incorrigível que foi Doc Holliday tenha sempre proporcionado ótimas interpretações como foram os casos de Victor Mature, Kirk Douglas, Val Kilmer e Stacy Keach respectivamente em “Paixão dos Fortes”, “Tombstone, a Justiça Está Chegando” e “O Massacre de Pistoleiros” (Doc). Robert Ryan aparece pouco e pouco se destaca, ele que como ninguém sabia interpretar homens maus. Entre os muitos atores do elenco aparece o jovem Jon Voight como ‘Curly Bill Brocius’ em sua estreia no cinema aos 29 anos de idade. John Williams compôs muito boa trilha sonora evidenciando uma diversidade de sons incidentais e renunciando ao uso insistente de um tema principal.

Jon Voight e Robert Ryan

Jason Robards e John Sturges
Um ‘Sturges’ menor - John Sturges voltaria aos faroestes com “Joe Kidd” em 1972, fechando sua filmografia western com “Valdez, o Mestiço” (Valdez il Mezzosangue), de 1973. Muitos críticos consideram “A Hora da Pistola” uma brilhante realização, certamente satisfeitos em não ver impressa a lenda que por décadas persistiu no cinem e sim trazer à tona, pelo menos parcialmente, os fatos senão verídicos, ao menos mais próximos da realidade. Cinematografi-camente, porém, o resultado fica distante de seus melhores filmes, mais precisamente de seus melhores westerns.