UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

22 de maio de 2019

CIDADE DO MAL (CITY OF BAD MEN) – BOXE EM MEIO A TIROS E ASSALTOS



Um dos mais importantes acontecimentos de 1897 foi a luta de boxe em disputa do título mundial dos pesos pesados entre Jim Corbett e Bob Fitzsimmons (vistos na foto à direita). A contenda teve lugar na cidade de Carson City, Nevada, atraindo centenas de espectadores que pagaram caro para assistir à luta que rendeu 22 mil dólares aos seus promotores. Os roteiristas George W. George e George G. Slavin escreveram uma história ficcional que tem por cenário a Carson City da época da lendária refrega contando ainda com a presença de bandos de foras-da-lei. Estes querem se apoderar da arrecadação do evento, criando uma disputa paralela. Essa luta teve, como fato real, uma curiosidade que foi a contratação de pistoleiros para proteger os lutadores e seus staffs, constando que até mesmo o célebre Wyatt Earp esteve em um dos corners durante o transcorrer da luta. Certamente isso motivou os autores a escrever uma versão do evento, adicionando personagens e fazendo com que o local onde o dinheiro das bilheterias foi reunido fosse assaltado, pouco se diferenciando de um roubo a banco. A produção da 20th Century-Fox foi bem cuidada na parte técnica deste western que, com metragem maior, roteiro menos confuso e atores de maior renome à época poderia ter sido produzido como faroeste classe A.


O assalto à luta do século - Brett Stanton (Dale Robertson) chefia um bando que vai a Carson City com o intuito de roubar a arrecadação da luta entre Bob Fitzsimmons e Jim Corbett. Outros bandidos fazem o mesmo, entre eles o conhecido John Ringo (Richard Boone). Os homens da lei da cidade percebem-se impotentes diante de tantos malfeitores que se misturam aos milhares de forasteiros que invadem Carson City para o evento e decidem aliciar Stanton para que este impeça qualquer ação dos bandidos. Brett Stanton deixou Carson City há seis anos, deixando ainda sua namorada Linda Culligan (Jeanne Crain) o esperando. Linda agora está noiva de Jim London (Whitfield Connor), um dos promotores da disputa pelo título. O bando de Stanton o pressiona para que pratique o roubo combinado, mas Stanton permanece ao lado da lei, mata John Ringo, ficando com Linda Culligan. Nas fotos ao lado Dale Robertson e Richard Boone; Gil Perkins e John Daheim como os boxeurs Fitzsimmons e Corbett.

Dale Robertson e Jeanne Crain
Um homem disputado - “Cidade do Mal” é excessivamente dialogado em sua primeira metade, mesmo não sendo um filme com profundidade psicológica. Com a aproximação do dia da luta pelo título mundial este western se torna mais movimentado e ganha maior interesse. Mais uma vez o romance inserido na história não é muito convincente e só piora quando surge Cynthia London (Carole Matthews) outra figura feminina que também quer o amor de Brett Stanton. Intencionalmente ou não, o roteiro de “Cidade do Mal” lembra bastante “Matar ou Morrer” (High Noon) quanto a essa subtrama amorosa. E não falta nem mesmo a presença de um conquistador violento interpretado por Lloyd Bridges que por sinal quase repete seu personagem do clássico de Fred Zinnemann. Perde-se também a história com a pouca clareza da posição ambígua de Brett Stanton, indeciso em qual lado ficar em meio a um sem número de bandidos e de um xerife aturdido com a desordem que toma conta de Carson City. Tudo isto num filme de meros 80 minutos.

Lloyd Bridges e Carole Matthews; Carole e Jeanne Crain

Tumulto durante a luta - Após a quase concretização do assalto, que resultou em diversas mortes e a devolução do dinheiro roubado, o xerife Bill Gifford de Carson City (Hugh Sanders) exclama que a cidade está tranquila e que nada demais aconteceu, omitindo o assalto frustrado. Crítica certeira em atitude claramente política querendo demonstrar que o xerife foi capaz de controlar a cidade em convulsão. Durante a contenda no ringue ocorrem disparos propositais, na plateia, disparos feitos por bandidos com o intuito de gerar tumulto e que levam à paralisação da luta durante algum tempo. O filme de Harmon Jones deixou de melhor explorar a luta de boxe em si, fato que seria bastante interessante a partir da perspectiva das mudanças nas regras que esse esporte sofreu através dos anos. Pouca ênfase é dada também ao desenrolar do combate, sem que seja, ainda, apresentado o desfecho do mesmo. Na foto à direita Richard Boone.

Dale Robertson
Diretor e mocinho dos ‘Bs’ - Um novo mocinho nos westerns ‘B’ - Dale Robertson era uma das apostas da Fox como jovem galã, mas acabou vingando mesmo como herói em faroestes e em filmes de aventuras. Este “Cidade do Mal” é um dos melhores westerns em que atuou, descontada sua pequena participação em “Entre Dois Juramentos” (Two Flags West). Reunido com Richard Boone que, igualmente iniciava sua carreira naqueles primeiros anos da década de 50, e ainda Jeanne Crain, Dale Robertson formou o trio principal deste western. Lloyd Bridges, que havia tido papel relevante em “Matar ou Morrer” (High Noon) interpreta um irmão de Brett Stanton. A bonita Jeanne Crain que na própria Fox havia tido ótimas oportunidades experimentava declínio em sua carreira e a soma de todos esses nomes não foi capaz de despertar a confiança do estúdio em escalar um diretor de melhor calibre para realizar um filme mais alto nível. Harmon Jones, ex-editor de filmes na Fox, foi promovido a diretor, respondendo por filmes da produção ‘B’ do estúdio. Entre os muitos coadjuvantes conhecidos estão o mexicano Rodolfo Acosta, a boa e bonita Carole Matthews, James Best, John Doucette e Leo Gordon em sua estreia no cinema. Todos eles formam um ingrediente interessante para os cinéfilos que gostam de conhecer além dos astros dos filmes.

Lloyd Bridges, John Doucette, Leo Gordon e Rodolfo Acosta


23 de abril de 2019

ENTRE DOIS JURAMENTOS (TWO FLAGS WEST) – CONFEDERADOS HONRANDO A FARDA AZUL


Frank S. Nugent
e Robert Wise

Frank S. Nugent faleceu aos 57 anos, reconhecido como um dos principais roteiristas de seu tempo. São de Nugent, em associação com John Ford, de quem se tornou roteirista preferido, os screenplays destes filmes:             “Sangue de Heróis” (Fort Apache), “O Céu Mandou Alguém” (3 Godfathers), “Legião Invencível” (She Wore a Yellow Ribbon), “Caravana de Bravos” (Wagon Master), “Rastros de Ódio” (The Searchers) e “Terra Bruta” (Two Rode Together), todos westerns. Além desses, Nugent escreveu para Ford também os roteiros de “Depois do Vendaval”, “Mr. Roberts”, “The Rising of the Moon”, “O Último Hurra” e “O Aventureiro do Pacífico”. Mesmo conhecedor profundo do faroeste, Frank S. Nugent escreveu somente uma história no gênero, intitulada “Two Flags West”, levada ao cinema por Robert Wise em 1950 e que no Brasil se chamou “Entre Dois Juramentos”. Nugent partiu de um fato real, o decreto assinado em 1864 por Abraham Lincoln, em plena Guerra Civil, que anistiava soldados confederados que jurassem lutar pela União, trocando de lado. Em 1965 Sam Peckinpah retornou ao tema com “Juramento de Vingança” (Major Dundee). Robert Wise já havia realizado o faroeste noir “Sangue na Lua” (Blood on the Moon) em 1948 e faria depois “Honra a um Homem Mau” (Tribute to a Bad Man) em 1957. Entre os dois Wise filmou “Entre Dois Juramentos”, sendo os três filmes as únicas experiências no gênero western dentro da bem sucedida carreira do grande diretor.


Confederados prisioneiros
transformados em soldados ianques
Jurando em falso - Casey Robinson roteirizou a história de Frank S. Nugent, que conta como um pelotão inteiro do Exército Confederado cai prisioneiro dos nortistas e é enviado ao Forte Thorn, comandado pelo Major Kenniston (Jeff Chandler). O Coronel Tucker (Joseph Cotten) liderava os soldados confederados e a ele é feita a proposta de trocar a farda sulista pela azul do Norte e passar a obedecer as ordens de Kenniston. Sem alternativa a não ser mofar na prisão, os sulistas aceitam fazer o juramento mas sem perder de vista a possibilidade de virem a escapar na primeira oportunidade que surgir. As forças do Norte estavam reduzidas uma vez que quase todo contingente de soldados estava nos campos de batalha. O pelotão sulista transformado em soldados da União recebe a missão de escoltar uma caravana e planeja uma fuga durante o trajeto. O plano é atrapalhado pelo destempero do Major Kenniston que mantinha prisioneiro o filho de um chefe índio e mata friamente o jovem índio, o que provoca um ataque feroz contra o Forte praticamente indefeso. Avisado do ataque o Coronel Tucker e seus homens retornam ao Forte Thorn em tempo de evitar a consumação do massacre total pelos índios. Estes tomam a decisão de cessar os ataques desde que o Major Kenniston se entregue, o que ocorre, sendo ele morto pelos índios que se afastam deixando os sobreviventes do Forte em paz.

Jeff Chandler
Oficial cruel e rancoroso - “Entre Dois Juramentos” rompe com os tradicionais embates entre Norte e Sul durante a Guerra Civil, sendo bastante simpático aos sulistas que demonstram hombridade ímpar na decisão de se sacrificar pelo ainda inimigo Norte. Este é representado pela figura cruel e psicótica do Major Kenniston, aleijado em batalha e que nutre igual ódio pelos sulistas e pelos índios. Seu comportamento odioso se explica não só pelo ferimento sofrido que o deixou manco mas também por ter perdido o irmão em batalha. E a personalidade ressentida de Kenniston é completada ainda por ser ele apaixonado por Elena Kenniston (Linda Darnell), sua cunhada viúva, que nutre por ele uma quase aversão. Poucas vezes se viu um tão repulsivo e amargo oficial como o personagem desse Major que tem como contraponto o Coronel Tucker, confederado nobre em casa uma de suas atitudes, mesmo em relação à linda Elena que por ele demonstra afeição.

Linda Darnell e Joseph Cotten
Amor pela cunhada viúva - Há ainda no Forte Thorn outro admirador da bela viúva mexicana, o Capitão Mark Bradford (Cornel Wilde), que também recebe atenção de Elena. Em westerns a personagem feminina é normalmente criada para possibilitar o romance tão ao gosto das plateias (especialmente a feminina) e também para que entre tantos rostos rudes, no caso os de sofridos de soldados, reluza a beleza de uma atriz. Inteligentemente a história de Frank S. Nugent coloca Elena entre os três homens, mas poderia ter explorado mais profundamente a relação entre ela e o atribulado Major Kenniston pois o filme é relativamente curto (92 minutos) para a complexidade da história. Talvez Wise não tenha feito isso porque nem Jeff Chandler nem Linda Darnell possuíam talentos suficientes para uma maior dimensão de uma subtrama como essa.

Joseph Cotten, Linda Darnell e Cornel Wilde

Cornel Wilde
Contendo índios revoltosos - O racismo do Major Kenniston é exacerbado e “Entre Dois Juramentos” se alinha entre a série de filmes daqueles anos a olhar os índios com simpatia e a justificar a ferocidade com que se vingavam das atrocidades que sofriam. Ordens de Washington são dadas para que os confederados transformados em ianques sejam utilizados na contenção da luta dos nativos pela recuperação de suas terras. Algo que soa degradante para os sulistas que, mesmo nos estertores da Guerra Civil, querem lutar ao lado de seus companheiros sob a liderança de Robert E. Lee. Morto o responsável pela carnificina quase completa que ocorreu no Forte Thorn, a paz volta a reinar e o filme termina com a luminosa visão de uma América na qual Norte e Sul se irmanem.


Joseph Cotten
Tempos de bons westerns - O clímax de “Entre Dois Juramentos” se dá com o cerco ao forte e o brilhante trabalho de Robert Wise com o auxílio do cinegrafista Leon Shamroy. A intensa movimentação é valorizada com a atuação dos stuntmen dando realismo à ação.  Filmado em preto e branco, este western fica no meio termo entre uma produção A e a imediatamente inferior da Fox ao utilizar atores como Joseph Cotten que nunca chegou a ser considerado astro de primeira grandeza apesar de ser um ator de raros predicados. Cornell Wilde e Linda Darnell experimentavam o início da decadência de suas carreiras e Jeff Chandler era uma aposta que Hollywood fazia com sua figura exótica de galã. Cotten domina o filme todo até porque nenhum dos demais atores principais lhe faz sombra com suas atuações que não entusiasmam. Chandler foi uma má escolha pois seu personagem é uma figura trágica e rancorosa à qual ele reduziu a um oficial inexpressivo. “Entre Dois Juramentos” foi realizado quase simultaneamente à famosa Trilogia da Cavalaria de John Ford. Tempos em que o cinema tinha no gênero western um dos seus pilares e o público se comprazia com tantos bons filmes como é o caso deste dirigido por Robert Wise.


24 de março de 2019

A HORA DA PISTOLA (HOUR OF THE GUN) – JOHN STURGES REVISITA O OK CORRAL


Stuart N. Lake e seu livro;
abaixo John Sturges e Edward Anhalt

Ao lado de Anthony Mann, John Sturges foi o mais importante diretor de westerns dos anos 50. Começou a década com o bom “A Fera do Forte Bravo” (Escape from Fort Bravo), seguido pelo igualmente bom “Punido pelo Próprio Sangue” (Backlash). A Paramount e Hal B. Wallis apostaram alto em “Sem Lei e Sem Alma” (Gunfight at the OK Corral), reunindo elenco estelar e bem cuidada produção que agradou em cheio aos fãs do gênero que lotaram os cinemas para vê-lo. Com “Duelo na Cidade Fantasma” (The Law and Jake Wade) Sturges manteve o padrão de qualidade de seus westerns. Veio então o clássico “Duelo de Titãs” (Last Train from Gun Hill), seguido por aquele que se tornaria um marco no gênero, “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven). Nos anos 60 John Sturges decepcionou público e crítica com “Os Três Sargentos” (Sergeant 3) e “Nas Trilhas das Aventuras” (The Hallelulah Trail), este último seu mais retumbante fracasso entre os faroestes que dirigiu. Foi então que o diretor, certamente motivado pela onda revisionista da nova década, decidiu se redimir da forma ficcional com que mostrou a figura de Wyatt Earp interpretada por Burt Lancaster. Sturges gostou da abordagem feita pelo escritor-roteirista Edward Anhalt na qual o mais lendário homem da lei do Velho Oeste é bastante diferente do personagem reinventado por Stuart N. Lake no livro “Frontier Marshal” e idealizado por John Ford ou mesmo do altruísta marshal de “Sem Lei e Sem Alma”. Outra diferença na história escrita por Anhalt é que ela se inicia após o duelo do Curral OK, o qual serve de ponto de partida para este western. O cenário da Tombstone de 1881 foi erigido em Torreón, no México, para onde Sturges levou a equipe, e liderando o elenco, três atores do porte de James Garner, Jason Robards e Robert Ryan.


James Garner
Sede de vingança - Nesta versão os irmãos Earp, com a ajuda do jogador Doc Holliday (Jason Robards), se defrontam com pistoleiros contratados pelo rancheiro Ike Clanton (Robert Ryan). No confronto ocorrido no ‘Curral OK’, três participantes, todos do lado de Clanton são mortos e, acusados de assassinato, Wyatt Earp (James Garner) e Doc Holliday são inocentados. Inconformado Clanton ordena atentados contra os Earps e Virgil e Morgan são baleados, sendo que este último acaba morto. Wyatt Earp, que é Delegado Federal (marshal), ao contrário do xerife de Tombstone e seus ajudantes, é insubornável, o que atrapalha os negócios escusos de Clanton. Após a morte de Morgan Earp, o determinado Wyatt busca a vingança, liquidando um a um os capangas do rancheiro corruptor. Clanton foge para o México e embora a jurisdição de Wyatt como Delegado Federal o impeça de agir fora de seu país, ele consuma sua vingança no país vizinho matando Ike Clanton.

O verdadeiro Wyatt Earp
Ainda preservando a lenda - Primeiro a literatura, por obra (culpa) exclusiva do escritor Stuart N. Lake, elevou Wyatt Earp à condição de lenda nacional, mitificando sua personalidade, para o que ele próprio colaborou com seus controversos depoimentos a esse autor. O cinema já existia e Wyatt, no final da vida, dava entrevistas narrando como abatia bandidos em seu tempo de homem da lei. O nome ‘Wyatt Earp’ significava lucro certo e Hollywood também deu sua enorme contribuição para que esse ‘homem da lei’ fosse mostrado como um nobre norte-americano que mais que nenhum outro ajudou a domar o Oeste Selvagem. Os movimentos sociais dos anos 60 e a contracultura levaram autores e mesmo o cinema à busca das verdades dos fatos. Contrariando a famosa frase de John Ford ‘Print the legend’, Custer, Jesse James, Wild Bill Hickok e outros personagens do Velho Oeste passaram da condição de heróis para a de homens comuns quando não de assassinos frios ou neuróticos. “A Hora da Pistola” não chega a deslustrar inteiramente a biografia de Wyatt Earp, mas o apresenta como um homem para quem a lei pouco importa diante de seu ímpeto pela vingança do irmão morto e do outro que ficara aleijado. Perseverante no seu intento, Wyatt não é contido pelo surpreendentemente sensato Doc Holliday, cujos conselhos Wyatt ignora na sua sede de retaliação.

James Garner
Enfoque mais real - No início de “A Hora da Pistola” uma legenda informa que o filme é baseado em fatos reais da forma como eles aconteceram. Tal aviso prepara o espectador para o choque de conhecer um Wyatt Earp diferente daqueles que o cinema e a TV até então haviam mostrado. Randolph Scott (“A Lei da Fronteira”/Frontier Marshal), Henry Fonda (“Paixão dos Fortes”/My Darling Clementine), Joel McCrea (“Choque de Ódios”/Wichita), Burt Lancaster (“Sem Lei e Sem Alma”/Gunfight at the OK Corral), no cinema e Hugh O’Brian (“Wyatt Earp”/The Life and Legend of Wyatt Earp) em uma série para a televisão, todos personificaram Wyatt Earp da maneira como Hollywood gostava de fazer, ou seja, heroicamente, sempre visando o potencial financeiro daquele personagem. Embora ninguém invista em produções cinematográficas apenas para revelar a verdade dos fatos, mas sim como forma de ganhar dinheiro, John Sturges (também produtor) e Edward Anhalt arriscaram-se na mudança de enfoque e o público não se interessou em ver James Garner como um homem disposto a tudo para consumar sua vingança. Mais ainda porque Garner foge do tipo bem humorado, irônico e justo que o consagrou no cinema e na TV.

James Garner e Jason Robards
Sadismo e angústia - À parte a questão biográfica, “A Hora da Pistola” não agrada inteiramente como western porque falta a ele a inspiração que Sturges esbanjou em trabalhos anteriores. Wyatt Earp e Doc Holliday mais humanos que destemidos resultou em seres menos expressivos e mais angustiados. Para um western com 100 minutos de duração e com intenção de ressaltar o aspecto psicológico dos personagens principais, até que há bastante ação. Pena que nenhuma delas chegue a emocionar visualmente. Na sequência mais bem desenvolvida, quando Wyatt mata Andy Warshaw (Steve Ihnat), Sturges salienta o sadismo do marshal que descarrega desnecessariamente seu revólver no oponente. Lucien Ballard foi o responsável pela cinematografia, ele que se revelou um mestre no uso da câmera lenta em “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch), recurso que o cinema já utilizava com sucesso, como em “Uma Rajada de Balas” (Bonnie & Clyde), de Arthur Penn e filmado também em 1967. Muito teria ganho este western de John Sturges com esse recurso que, acredito, não tenha sido utilizado porque poderia comprometer a intenção primeira do filme que era ser mais revelador que mero espetáculo visual.

James Garner
Wyatt Earp sem esposa ou amante - Nenhuma referência é feita em “A Hora da Pistola” às mulheres da vida de Wyatt Earp, assim como omite-se Katie ‘Big Nose’ Elder, que viveu com Doc Holliday. Por ocasião do evento do ‘Curral OK’, Wyatt estava casado e tinha como amante uma mulher que fora amante do xerife de Tombstone, John Behan, que neste filme tem o nome de Jimmy Bryan (Bill Fletcher). As únicas presenças femininas no filme são as curtíssimas sequências em que aparecem a esposa de Virgil Earp ao lado dele deixando Tombstone e a bela Charlene Holt que, à noite, acorda o marido para ver o que se passa na rua. Em uma única sequência Doc Holliday é acometido por um acesso de tosse indicativo da tuberculose que o mataria. E nenhuma menção é feita à sua formação como dentista, de onde se originou o apelido ‘Doc’. É de Doc a melhor frase do filme, quando ele diz ao enfermeiro que cuida dele e bebe tanto quanto ele: “Eu não beberia isso se eu fosse você”, num momento de puro sarcasmo.

Jason Robards
Jason Robards, o melhor do elenco - James Garner está bem como o pragmático Wyatt Earp, sobrepujado pela excelente interpretação de Jason Robards. É interessante o fato que o personagem tísico, beberrão, jogador incorrigível que foi Doc Holliday tenha sempre proporcionado ótimas interpretações como foram os casos de Victor Mature, Kirk Douglas, Val Kilmer e Stacy Keach respectivamente em “Paixão dos Fortes”, “Tombstone, a Justiça Está Chegando” e “O Massacre de Pistoleiros” (Doc). Robert Ryan aparece pouco e pouco se destaca, ele que como ninguém sabia interpretar homens maus. Entre os muitos atores do elenco aparece o jovem Jon Voight como ‘Curly Bill Brocius’ em sua estreia no cinema aos 29 anos de idade. John Williams compôs muito boa trilha sonora evidenciando uma diversidade de sons incidentais e renunciando ao uso insistente de um tema principal.

Jon Voight e Robert Ryan

Jason Robards e John Sturges
Um ‘Sturges’ menor - John Sturges voltaria aos faroestes com “Joe Kidd” em 1972, fechando sua filmografia western com “Valdez, o Mestiço” (Valdez il Mezzosangue), de 1973. Muitos críticos consideram “A Hora da Pistola” uma brilhante realização, certamente satisfeitos em não ver impressa a lenda que por décadas persistiu no cinem e sim trazer à tona, pelo menos parcialmente, os fatos senão verídicos, ao menos mais próximos da realidade. Cinematografi-camente, porém, o resultado fica distante de seus melhores filmes, mais precisamente de seus melhores westerns.



22 de fevereiro de 2019

CIMARRON (CIMARRON) – O FRACASSADO ÚLTIMO WESTERN DE ANTHONY MANN



Edna Ferber e
Anthony Mann
A Metro-Goldwyn-Mayer acreditou que poderia reeditar o colossal sucesso de “Ben-Hur” com outra superprodução, desta vez refilmando o livro de Edna Ferber que conta a saga dos pioneiros fundadores do Território (depois Estado) de Oklahoma. Mais ainda porque a primeira versão para o cinema, produzida em 1931 foi sucesso de crítica e público, recebendo até o Oscar de Melhor Filme, o que, no gênero western, só se repetiria quase 60 anos depois com “Dança com Lobos” (Dances with the Wolves). Anthony Mann era então o mais aclamado diretor de faroestes da década passada, mais até que John Ford. E foi Mann o nome escolhido pela MGM para dirigir o épico orçado em cinco milhões de dólares que, à frente de um grande elenco, teria os nomes de Glenn Ford e Maria Schell. Ford, depois de muitos anos preso à Columbia, assinara um vantajoso contrato com a Metro onde era o principal astro. A vienense Maria Schell vinha de receber um Oscar de Melhor Atriz por sua interpretação como ‘Grushenka’, em “Os Irmãos Karamazov”. A receita para o sucesso parecia infalível mas o resultado foi muito diferente do que se esperava pois “Cimarron” recebeu críticas pouco  elogiosas, o público não se interessou em vê-lo e o filme deu um enorme prejuízo. Instado a falar sobre “Cimarron”, Anthony Mann disse: “Aquilo não é um filme. É uma tragédia”.


Glenn Ford e Maria Schell
Um homem inquieto - Assim como fez com o Texas em “Giant” (Assim Caminha a Humanidade), Edna Ferber escreveu um volumoso livro narrando a ocupação do Território de Oklahoma iniciada em 1889 e seu desenvolvimento, chegando até os anos 30. Os personagens centrais do livro são o ex-cowboy Yancey Cravat e sua esposa Sabra, vividos no filme por Glenn Ford e Maria Schell. Recém-casados ele decide participar da ‘Oklahoma Land Rush’, a corrida por terras disponibilizadas pelo governo para ocupação da enorme área em território próximo às terras de índios Cherokee. Ao invés de se estabelecer como fazendeiro como os demais participantes da corrida, Yancey prefere criar um jornal levando vida modesta enquanto amigos seus se tornam ricos com a descoberta de petróleo em suas terras. Yancey dá provas de grande coragem e destreza enfrentando bandidos, o que lhe granjeia fama a ponto de ser indicado para o cargo de Governador de Oklahoma. Ele que antes passara longos anos vagando pelas terras do Norte, chegando ao Alaska e depois a Cuba, deixando a esposa e filho em Oklahoma. Ela é quem faz do pequeno jornal uma influente publicação, tornando-se mulher poderosa enquanto Yancey, mais uma vez decide sair pelo mundo. Com a eclosão da 1.ª Guerra Mundial se engaja e falece em batalha. Ainda assim Yancey Cravat recebe uma homenagem póstuma em forma de estátua por ter sido um valente e pioneiro desbravador.

Glenn Ford  e Russ Tamblyn
História desencontrada - Os 247 minutos de duração de “Cimarron” não foram suficientes para que a saga fosse bem desenvolvida e um dos problemas maiores deste western é a desconexão entre os diversos episódios apresentados. Personagens que deveriam ter maior importância na história têm suas participações reduzidas, como é o caso de ‘Dixie’ (Anne Baxter), a prostituta que se torna dona de um bordel na cidade de Osage, onde se desenrola a maior parte da história. Isto quando não desaparecem simplesmente sem deixar vestígios. Sequências mal explicadas como a que a mesma ‘Dixie’ ludibria Yancey durante a corrida pelas terras, fincando sua estaca no local por ele escolhido, repetem-se durante todo o filme. Estávamos em 1960 quando das filmagens, momento em que os Direitos Humanos ganharam espaço na política norte-americana com os Kennedy, Martin Luther King e outros. O roteiro então coloca um casal de índios como vítima do preconceito de homens brancos, não faltando o linchamento de um nativo. Essa situação valeu ao menos para uma boa sequência de ação com Yancey reagindo em legítima defesa ao enforcador (Charles McGraw), matando-o. Outra excelente sequência é quando os bandidos ‘Cherokee Kid’ (Russ Tamblyn) e Wes (Vic Morrow) invadem uma escola ao fugir após assaltar o banco e Yancey acaba matando Wes após este atirar no parceiro malfeitor.

A corrida pelas terras
A espetacular corrida por terras - A maior parte do orçamento de “Cimarron” foi gasta com centenas de extras, cavalos e carroções, além de veículos de outros tipos que participaram da monumental ‘Land Rush’. Filmado em Cinemascope, o western tem como ponto alto a corrida dirigida por Mann e que resultou empolgante, ainda que poderia conter uma riqueza maior de detalhes e ser um pouco mais longa. Oras, se há boas sequências, porque “Cimarron” fracassou? As incertezas de Yancey Cravat mudando de projetos de vida e afastando-se por dois longos períodos, dando ao pioneiro a característica de aventureiro inquieto, o torna um alguém não idealista mas sim desajustado, mesmo com mulher, filho e um jornal para tocar. E o jornal que deveria ser a razão de sua vida é deixado para trás pois as aventuras que o esperam (e que o filme nunca específica) são mais importantes. O comportamento errôneo de Yancey afinal dá margem à submissa e lacrimosa esposa Sabra revelar-se emérita jornalista, empreendedora arrojada e vitoriosa, enquanto Yancey simplesmente desaparece mal justificando a razão da fama e homenagens póstumas recebidas.

The Land Rush: a largada e a corrida

Anne Baxter e Maria Schell
Diálogos risíveis - Anthony Mann cunhou seus westerns com realismo e carga psicológica raros ao gênero, características que nem de longe são vistas em “Cimarron”. O único e melhor momento deste melodramático faroeste se dá quando Sabra e ‘Dixie’ discutem com a cafetina dizendo “não sou a prostituta de coração de ouro que se vê em livros; caso o tivesse (coração de ouro) o venderia pelo dobro do preço que vale”. E o pobre espectador nunca descobre o que houve de fato entre ‘Dixie’ e Yancey apesar da insinuação de terem sido mais que amigos. Num filme em que a quase totalidade dos diálogos é opaca rescendendo aos clichês, essa frase é uma feliz exceção. A certa altura Yancey toma seu filho de três anos no colo e diz a ele: “Não esqueça de dizer aos seus netos que você viu o dia em que esta cidade se tornou civilizada”. Um constrangido Glenn Ford teve que pronunciar a insossa frase sabe-se lá se atribuída ao roteirista Arnold Schulman.

A estátua de Yancey Cravat
Adaptação falha - Anthony Mann se desentendeu com o produtor Edmund Grainger porque queria o máximo de sequências filmadas em locações. Por sua vez o produtor impôs que todas as sequências que pudessem ser rodadas em estúdio seriam filmadas ‘indoor’ em Hollywood e não no Arizona. A maior parte de “Cimarron” já estava pronta quando Mann foi afastado da direção sendo substituído por Charles Walters. Portanto a maior parcela de responsabilidade sobre o filme é de Anthony Mann, ele que já havia sido afastado da direção de “A Passagem da Noite” (The Night Passage), western de 1957. E não se pode dizer que o problema residiria no fato de Mann ser bom em filmes menos pretensiosos pois a seguir dirigiu “El Cid”, elogiada superprodução. O que mais contribuiu para que “Cimarron” resultasse na ‘tragédia’ que foi, como disse Anthony Mann foi o roteiro que adaptou o livro de Edna Ferber com alterações que devem ter desgostado a escritora. No livro, por exemplo, Yancey morre ao defender trabalhadores nos campos de petróleo e não em uma batalha na 1.ª Grande Guerra, o que seria de menos diante do escopo principal da obra da senhora Ferber. As figuras femininas sempre tiveram destaque em seus livro e a forma como o roteiro tratou e reduziu Sabra Cravat foi determinante para que a história perdesse muito de sua força sem que conseguisse dar a Yancey Cravat a importância e grandeza necessárias.

Glenn Ford  e Arthur O'Connell
Personagens eternamente jovens - “Cimarron” concorreu aos prêmios Oscar de Direção de Arte e Som, perdendo em ambas categorias. O expressivo elenco sofre com a pouca participação e coerência de seus personagens, além de o departamento de make-up esquecer de envelhecer convenientemente Aline MacMahon e Arthur O’Connell que permanecem praticamente iguais sem que as quatro décadas passem para eles. Assim como inconvincente é o envelhecimento de Glenn Ford e Maria Schell que igualmente parecem terem descoberto o elixir da juventude. Ford e Maria viveram, na vida real, um intenso romance durante as filmagens (segundo relato de Peter Ford, filho de Glenn), o que aparentemente pouco ajudou nas sequências amorosas entre ambos. O destaque do elenco ficou para Anne Baxter como ‘Dixie’, por quem Yancey sente forte atração mas estoicamente  jamais sucumbe à sedução. Mercedes McCambridge passa quase incógnita no filme deixando que os referidos Aline MacMahon e Arthur O’Connell superatuarem. Russ Tamblyn, Vic Morrow e Charles McGraw são os homens maus, com o jovem Russ com outra boa atuação.

Western final de Anthony Mann - “Cimarron” foi o primeiro grande fracasso de Glenn Ford na Metro, o qual seria seguido do insucesso de “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, do mesmo estúdio, enquanto Maria Schell, por sua vez retornaria à Europa. Último western da filmografia de Anthony Mann e fecho nada brilhante para a série de grandes farostes que realizou na década. Houve uma série produzida para a televisão intitulada “Cimarron” (Cimarron Strip), estrelada por Stuart Whitman e que ficou apenas uma temporada no ar, série nenhuma ligação tem com o livro ou personagens de Edna Ferber.

Fragmento do pôster italiano de "Cimarron".


2 de fevereiro de 2019

ARMAS PARA UM COVARDE (GUN FOR A COWARD) – NEM TODO COWBOY É UM BRAVO



Abner Biberman; abaixo
R. Wright Campbell
A Universal foi, entre os grandes estúdios de Hollywood, aquele que nos anos 50 mais produziu westerns B, aquela segunda linha destinada a exibição nos cinemas que mantinham programas duplos. Audie Murphy era o astro preferido desse segmento na Universal chegando a fazer em diversos anos três westerns anualmente. Joel McCrea, Rory Calhoun, Jeff Chandler e Rock Hudson (antes de ascender ao verdadeiro estrelato) foram alguns dos atores dividiram com Murphy o trabalho de levar às telas aventuras passadas no Velho Oeste. Assim como Joel McCrea, Fred MacMurray foi outro ex-galã que ao amadurecer se afastou dos ambientes urbanos para cavalgar e lutar contra bandidos e índios. MacMurray fez nada menos que nove westerns durante a década de 50, um deles, em 1957, intitulado “Armas para um Covarde” (Gun for a Coward) sob a direção de Abner Biberman. Ex-ator oriundo dos palcos da Broadway, Biberman invariavelmente interpretava tipos étnicos nos filmes, isto devido aos olhos repuxados, embora fosse norte-americano nascido em Milwaukee, Wisconsin. A própria Universal foi quem deu a Biberman a oportunidade de passar para trás das câmaras dirigindo pequenas produções e atores de menor expressão, passando posteriormente para a televisão dirigindo episódios de inúmeras séries. Só da série “O Homem de Virgínia” Biberman dirigiu 25 episódios. O filme mais notável de Biberman foi justamente “Armas para um Covarde”, estrelado por Fred MacMurray e que resultou acima da média para um faroeste ‘double feature’.


Josephine Hutchinson com Jeffrey Hunter e
com Fred MacMurray (abaixo)
História de três irmãos - O roteiro de “Armas para um Covarde” é de autoria de R. Wright Campbell, também ex-ator e irmão de William Campbell (“Homem Sem Rumo”). A viúva Keough (Josephine Hutchinson) tem três filhos: o mais velho Will (Fred MacMurray), Bless (Jeffrey Hunter) e o caçula Hade (Dean Stockwell). A família cria gado mas a senhora Keough pretende ir para St. Louis, no Missouri, juntamente com Bless, o filho com o qual se preocupa. Bless é tido pelos irmãos e mesmo pelos cowboys do rancho como pessoa covarde e que evita se defrontar com qualquer tipo de perigo. Will namora Aud Niven (Janice Rule), filha de um rancheiro vizinho e pensa em se casar com ela sem desconfiar que a moça gosta mesmo é de seu irmão Bless, paixão correspondida para azar de Will. Hade, o mais jovem e esquentado, não perde oportunidade de lembrar ao irmão que ele é um covarde. Com a morte da mãe Bless cria coragem e conta a Will que ama Aud. Os irmãos travam uma briga que é interrompida com o aviso que ladrões roubaram parte do gado dos Keouch e é Bless quem, a pedido de Will, lidera o grupo que vai ao encalço dos bandidos. Will anuncia para Aud que parte para outra cidade para que ela e Bless possam viver em paz.

Fred MacMurray
Ator maduro demais - Fred MacMurray confessou em entrevista que não se sentiu confortável durante as filmagens de “Armas para um Covarde” por uma única razão: aos 49 anos parecia maduro demais para interpretar um filho de Josephine Hutchinson, atriz apenas cinco anos mais velha que ele. E MacMurray tinha mesmo razão, ainda mais que no filme disputa o amor de Janice Rule com um jovial Jeffrey Hunter enquanto Fred mais parece o pai da moça. Diferenças gritantes de idade por vezes comprometem um filme, problema só superado quando a história é boa e bem desenvolvida. É o que acontece neste western, menos preocupado com muitas sequências de ação e sim enfatizando os aspectos psicológicos das relações filiais e fraternas agravadas com o triângulo amoroso. E interessante lembrar que esses aspectos são um subtexto ao eixo principal do roteiro que é a covardia, tema que o gênero western abordou muitas vezes.

Janice Rule com Jeffrey Hunter e com Fred MacMurray 

Josephine Hutchinson e
Jeffrey Hunter 
Complexo de Jocasta - Will, Bless e Hade são inteiramente diferentes entre si e a lacuna maior de “Armas para um Covarde” é não aprofundar o que teria feito Bless ser como é. A senhora Keouch pouco se interessa pelos demais irmãos, preocupando-se unicamente com Bless, a quem inclusive pretende fazer deixar a vida dura dos cowboys. Quer ela que o filho estude, seja médico ou advogado e estranhamente nada faz pelo inquieto Hade, justamente seu caçula. Viúva há seis anos o lógico seria ela buscar no filho mais velho a substituição do chefe de família, até porque Will se mostra um homem ponderado, de boa índole e preocupado com os irmãos mais novos. E com a morte da senhora Keouch perde-se um ingrediente altamente dramático que seria sua reação diante do amor que irrompe entre Aud e Bless. Nenhuma outra circunstância evidenciaria melhor a superação da suposta covardia de Bless que ele enfrentar a reação da mãe. “Armas para um Covarde” tem final aparentemente feliz, como as plateias preferiam e produtores obrigavam, mas epílogo melancólico se atentarmos como ocorre a separação entre os irmãos. Hade morre acusando Bless de mais uma covardia, enquanto um resignado Will parte para o desconhecido.

Fred MacMurray socando Jeffrey Hunter
Briga entre irmãos - Para um faroeste na linha dos ‘psicológicos’ (rótulo controverso), o filme de Abner Biberman tem bons momentos de ação e uma boa briga entre Will e Bless. Essa briga tem início num saloon e continua na rua onde providencialmente chega ferido o cowboy Durkee, vivido por Bob Steele, cuja informação coloca fim à violenta luta com troca de socos. E melhor ainda que as brigas e tiroteios são as reações perfeitas do jovem Hade desafiando um grupo de bandidos numa cantina em Arroyo Seco e ainda o velho cowboy Loving (Chill Wills) traduzindo com sua experiência o que os índios liderados por Iron Eyes Cody pretendiam. E esse é o momento divertido num filme onde predominam as situações dramáticas.

Dean Stockwell e Chill Wills
Dean Stockwell, o melhor do elenco - No bom elenco o destaque maior é para Dean Stockwell, ex-ator infantil que após seis anos voltou ao cinema e cuja carreira se prolongou por mais quase 60 anos e na qual nunca faltaram grandes filmes. Estourado e sempre disposto a uma boa briga, Dean faz seu personagem passar longe de um tipo psicótico como os tantos jovens ‘hot-head’ interpretados por Richard Jaeckel, por exemplo, ainda que não engraçado como o inesquecível pardner de Kirk Douglas em “Homem Sem Rumo” (A Man Without a Star), o já citado William Campbell. Chill Wills normalmente superinterpreta tentando roubar cenas, mas ele está perfeito como o veterano e fiel cowboy sempre com uma história ilustrada por alguma ‘filosofice’ para contar. Jeffrey Hunter é o protagonista, o covarde do título, num descanso entre as três vezes que filmou sob as ordens de John Ford. Se Hunter não entusiasma, também não desaponta e vê-lo em cena provoca a vontade de revê-lo como ‘Martin Pawley’, personagem tão importante em sua carreira quanto o Jesus cristo que ele interpretou em “O Rei dos Reis”. Fred MacMurray, assim como Hunter, faz apenas o suficiente com a sobriedade costumeira. Fraca Janice Rule, sempre com a expressão insatisfeita, ela que não possui maior atrativo como atriz. Josephine Hutchinson é a mãe possessiva tentando criar jocastianamente seu filho preferido e torna seu personagem antipático.

Cowboys covardes existiam sim - “Armas para um Covarde” merece ser assistido especialmente por fugir da rotineira situação de tantos e tantos westerns que apenas mitificam o homem do Oeste como ser valente e onde não há lugar para a covardia. Afinal são eles homens como outros quaisquer, o que os westerns passariam a demonstrar a partir do revisionismo que o gênero viria a sofrer nas décadas seguintes. Só não é melhor por ser um projeto com as limitações que os ‘Bs’ impõe, seja de metragem, atores, roteiro e, naturalmente, de um grande diretor.
Na foto à direita Jeffrey Hunter.

A cópia deste filme foi gentilmente cedida pelo colecionador Beto Nista.