UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

13 de junho de 2013

O ÁLAMO (THE ALAMO), O ÉPICO CLÁSSICO DE JOHN WAYNE


Após a estréia de “O Álamo” (The Alamo), em San Antone, no Texas, parte da crítica arrasou o épico dirigido por John Wayne com frases como: “O mais dispendioso filme B já feito; B de banal” (Newsweek); “John Wayne quis fazer o maior dos westerns mas o que conseguiu fazer o pior de todos os westerns” (Time); “Nada é sério e nada funciona nesse filme que é um modelo de distorção histórica e vulgarização” (The New Yorker). Contrariando a maioria dos críticos, John Ford que nunca foi de falar de filmes alheios disparou: “Para mim ‘O Álamo’ é o mais importante filme que já foi feito; este é o maior filme que eu já assisti; ele vai permanecer para sempre, para todas as pessoas, todas as famílias”. Tanto os críticos se excederam na contundência quanto John Ford se deixou levar pela emoção de ver seu amigo e pupilo dirigir um grande western.



O Generalíssimo Antonio Lopez de Santa Anna
(interpretado por Rubens Padilla).
Pouca atenção aos fatos históricos - Muitas das críticas sofridas por “O Álamo” foram em razão da inexatidão de fatos históricos mostrados no filme que jamais pretendeu ser uma aula de História. Wayne queria, isto sim, realizar um filme que servisse de exemplo de bravura e amor à pátria a cada norte-americano, num tempo de guerra fria e às vésperas da eleição presidencial de 1960. Além de contar a seu modo, e este era seu principal objetivo, esse importante episódio da história norte-americana ocorrido em 1836. Repleto de liberdades que irritaram os historiadores, o roteiro de James Edward Grant reúne no Álamo Davy Crockett (John Wayne) e 27 tennessinianos, Jim Bowie (Richard Widmark) e 23 voluntários que o obedecem e mais os homens do Coronel William Barrett Travis (Laurence Harvey), totalizando 185 homens. Comandados por Travis têm eles a missão de retardar ao máximo possível o avanço das tropas do Generalíssimo Santa Anna (Rubem Padilla) cujo número era de mais de cinco mil soldados com artilharia pesada. Os reforços esperados pelos defensores do Álamo não chegam e ao fim de 13 dias as tropas mexicanas aniquilam o precário ‘regimento conjunto’ de Travis, Crockett e Bowie. O acontecimento resultou num filme que foi lançado com duração de 192 minutos e que, ainda no primeiro ano de exibição, foi reduzido para 161 minutos.

Acima Ken Curtis, Joan O'Brien e Laurence Harvey;
abaixo John Wayne como Davy Crockett.
Roteiro embaraçoso - Nenhum outro ator havia antes passado a diretor com um projeto tão ambicioso como “O Álamo” e pode-se dizer que John Wayne saiu-se bem realizando um filme que é assistido com prazer e mesmo com emoção, isto apesar de o desfecho da história ser conhecido. A primeira metade de “O Álamo” procura mostrar as personalidades dos três líderes e as razões que os levaram à missão suicida de defender a adaptada fortificação. Se a parte inicial não chega a empolgar, na segunda metade são mostrados os preparativos para o enfrentamento com excelentes sequências de ação que culminam com a espetacular batalha final. Os pecados de “O Álamo” devem ser atribuídos especialmente ao roteiro de James Edward Grant com inúmeras falas sem criatividade e outras excessivamente discursivas beirando o mais exacerbado e piegas patriotismo. Davy Crockett diz a Travis que gosta do som da palavra República porque ela é igual a “quando um homem vê os primeiros passos de um bebê”. Mais tarde Crockett tencionando elevar o moral de seus comandados exclama em novo discurso que “o preço da liberdade nunca é barato”. A certa altura o Capitão Dickinson (Ken Curtis) visivelmente embaraçado comenta que “infeliz é o homem que não tem uma mulher obediente”. Em meio a um idílio à beira de um riacho cercado por árvores frondosas, Crockett interrompe uma fala apaixonada para a namorada Flaca (Linda Crystal), decepcionando a moça ao se empolgar com novo, extenso e politizado discurso. Mesmo com a enfadonha discurseira o roteiro de Grant e a direção de Wayne delineiam bem os personagens principais, especialmente o Coronel Travis (Laurence Harvey), mas o mesmo não acontece com os personagens Flaca e Smitty (Frankie Avalon). Criada para possibilitar um par romântico para Crockett (John Wayne), a presença de Flaca não funciona bem, até porque ela aparenta ser mais indicada para namorar o Capitão Bonham (Patrick Wayne). Fica a impressão que o John Wayne, então com 52 anos, queria demonstrar a viabilidade de seu próprio casamento com a peruana Pilar Wayne, 29 anos mais nova que ele. Frankie Avalon interpreta um personagem que de fato existiu na história do Álamo, mas o jovem cantor não consegue em momento algum convencer como alguém capaz de atos de heroísmo. Apesar desses pontos fracos, “O Álamo” é repleto de momentos de grande cinema.

Guinn 'Big Boy' Williams e Chill Wills (acima);
abaixo a emocionante  sequência da decisão

de permanecer no sitiado Álamo.
O ‘método’ John Wayne de dirigir - No documentário de 40 minutos que acompanha o DVD “O Álamo”, Ken Curtis afirma que John Wayne não sabia dirigir atores, pedindo a eles que repetissem os conhecidos maneirismos que Wayne usava à exaustão como ator. Com outras palavras Richard Widmark disse praticamente o mesmo da técnica de John Wayne para estimular uma interpretação. O que ambos afirmaram pode ser confirmado com a queixa que Richard Boone fez a John Wayne durante a primeira cena que rodou sob a direção do Duke, falando do ‘método’ do diretor. Boone disse: “Você quer que eu faça a cena exatamente como você faria. Duke, deixe-me fazê-la a meu modo, pois não sou John Wayne”. Porém o mesmo John Wayne, com a notória dificuldade que tinha para ser diretor de atores, criou sequências magníficas. Entre as muitas cenas que merecem ser destacadas estão a partida de mulheres e crianças antes da batalha final; Jim Bowie recebendo a notícia da morte da esposa e tendo sua dor desrespeitada por Travis que ignorava o fato; ou ainda a sequência nada dramática em que o Tenente Finn (Guinn ‘Big Boy’ Williams) tenta explicar o tamanho do gigantesco canhão recebido pelos mexicanos. A performance de Guinn é valorizada pela formidável expressão de Laurence Harvey. Nenhuma sequência porém supera em qualidade o momento em que, mesmo sabendo que nenhuma chance haveria de sobrevivência, os homens de Crockett e de Jim Bowie se posicionam ao lado do pesaroso Coronel Travis. Fica-se a imaginar do que John Wayne seria capaz se fosse melhor diretor.

Duas das mais espetaculares mortes: Ken Curtis
preso à paliçada e Guinn 'Big Boy' Williams
trespassado por uma espada mexicana.
Portentoso trabalho de Cliff Lyons - John Wayne teve a seu lado, como assistentes de direção Robert Relya e Robert Saunders, mas Wayne deveria mesmo agradecer e muito a Cliff Lyons, diretor de segunda unidade e responsável direto pelas memoráveis sequências de batalha e trabalho dos stunmen. Há cenas em que sete ou oito cavaleiros são derrubados de seus cavalos simultaneamente numa perigosa e perfeita movimentação. Uma das quedas de cavalo, quando Travis dispara contra um ousado mexicano que vem num furioso galope em sua direção é antológica. O cavaleiro é Chuck Hayward (o ‘Good Chuck’) que é derrubado do cavalo em velocidade num salto verdadeiramente mortal girando no ar 180 graus antes de cair de costas no solo enquanto sua arma voa alguns metros adiante. E o show não fica apenas por conta dos dublês pois Cliff Lyons encenou diferentes mortes para cada um dos atores principais, mortes tão violentas quanto artísticas. A mais bem encenada dessas mortes é a de Ken Curtis, feita sem dublê, com o ator ficando pendurado pelas pernas, de cabeça para baixo, na paliçada do forte. Impressionante também a cena de morte de Guinn ‘Big Boy’ Williams fazendo uso de sua força física. A movimentação das muitas fileiras do exército mexicano, por vezes formada por dois mil extras em exata sintonia numa coreografia de admirável visual, deve-se segundo diversas testemunhas a John Ford. E parecem mesmo essas sequências ter a marca do ‘Pappy’. Além da beleza plástica desses momentos, importa lembrar que “O Álamo” é dos poucos westerns em que nenhum animal ou dublê se machucou.

Antológica queda de cavalo executada por Chuck Hayward.

Davy Crockett derrubando um mexicano;
abaixo Crockett e Emil Sand (Wesley Lau).
Davy Crockett, um adorador de estrelas - Assim como fazia seu Mestre maior (John Ford), Wayne criou muitos momentos de humor em “O Álamo”, forma de atenuar a dramática aproximação da sombra da morte que por treze dias cobria a fortificação. Quando Jim Bowie recebe a trágica informação da morte da esposa, a mensagem chega presa a um ‘sombrero voador’, o que já torna a cena engraçada. E Crockett ironiza comentando que “a mensagem deve ser rendição do general Santa Anna”. Antes, em San Antone, Crockett que havia cumprido dois mandatos como Senador da República, diz a Travis que “um homem tem que fazer muitas coisas para ser eleito para o Congresso e eu tive que beijar muitas crianças”. Essa mescla de drama e comédia é constante e mesmo sem ser engraçado, ninguém consegue conter o riso quando Crockett comenta a um crápula que o ameaça que ele está ali apenas porque “é de uma linhagem de adoradores de estrelas”. O humor em “O Álamo” oscila entre o sutil e o grosseiro, isto quando entra em cena Chill Wills como o tennessiniano Beekeeper. Excessivo e sem graça, Wills dá saudade de Arthur Hunnicutt, o Davy Crockett de “A Última Barricada”. Desperdiçado num papel burocrático (Capitão Dickinson), Ken Curtis poderia fazer rir com a facilidade com que criou personagens como ‘Festus’ de Gunsmoke. E estranhamente John Wayne não aproveitou melhor o característico tipo aparvalhado de Hank Worden (Parson).

Coronel William Barrett Travis (Laurence
Harvey) defendendo o Álamo. 
Soberbo Travis, soberbo Laurence Harvey - John Wayne acumulando as funções de diretor e produtor mostrou-se generoso com os demais atores principais, especialmente Laurence Harvey. Arrogante, antipático e até desumano, o Travis de Laurence Harvey é o grande personagem de “O Álamo”, brilhantemente interpretado pelo ator lituano. Richard Widmark tem seu desempenho limitado pelo roteiro que não privilegiou o personagem Jim Bowie, ainda que este passe o filme em constante atrito com Travis. Se Travis é pura jactância e soberba, o Bowie de Widmark poderia ser mais heróico, especialidade do ator. John Wayne com o gorro de Davy Crockett na cabeça é quase uma figura cômica, diferente do John Wayne que acostumamos a ver em tantos westerns. Richard Boone interpreta Sam Houston aparecendo poucos minutos na tela e tendo ainda que ver arruinado seu mais importante momento com o péssimo discurso de Sam Houston em que pronuncia “Remember the Álamo!”. Joan O’Brien é uma mulher linda e bem tratada demais para as condições de vida daqueles treze dias de sofrimento e angústia. Linda Crystal é linda e apenas isso, tornando-se outro mero enfeite no filme. O ponto alto do elenco é formado pelo segundo time de coadjuvantes, encabeçado por Denver Pyle, Guinn ‘Big Boy’ Williams e a incrível em sua autenticidade figura de John Dierkes. Além deles há Jester Hairston como o negro Jethro que ganha a liberdade e permanece no Álamo. E como agrada ver John Wayne dar espaço, inclusive com falas, para stuntmen como os dois Chucks (Roberson e Hayward) e tantos outros dublês. Quem tem a honra de matar John Wayne trespassando-o com uma lança é Bob Morgan, então marido de Yvonne De Carlo e que perderia uma perna em “A Conquista do Oeste”.

John Wayne
O gigante John Wayne - Através dos anos “O Álamo” de John Wayne ganhou merecidamente o status de clássico. Esqueceu-se que “O Álamo” pretendia ser uma metáfora da América (ameaçada na visão política de John Wayne) e isso fez bem ao filme. Plasticamente irrepreensível, cada fotograma de “O Álamo” mais parece uma tela de rara beleza, um trabalho inesquecível de William H. Clothier em conjunto com o diretor Wayne. Emoldurando as imagens está o inspiradíssimo e tocante escore musical de Dimitri Tiomkin, uma das melhores trilhas musicais do gênero western. Muitos que viram “O Álamo” com sua duração original de 192 minutos afirmam que o filme melhora ainda mais com as tantas cenas e sequências inteiras excluídas. Este é um espetáculo que se vê e revê com satisfação não só pelas muitas histórias de bastidores que o envolvem, mas e principalmente por suas qualidades muito mais preponderantes que seus defeitos.  E o responsável principal pelo filme é John Wayne que se agigantou no conceito de seus fãs por ter realizado este clássico épico.



As mortes de Davy Crockett, William B. Travis e Jim Bowie.

Cada fotograma é uma magnífica pintura digna de um museu.

Cenas da espetacular batalha final de "O Álamo".

11 de junho de 2013

HISTÓRIAS DO ÁLAMO - O HOMEM QUE VENDEU SUA ALMA


Em 1958 John Wayne se considerava (e era considerado) um homem rico e tinha muitas razões para isso. A partir de 1949 o Duke esteve sempre na lista dos dez atores cujos filmes mais arrecadavam nas bilheterias, tendo encabeçado essa lista nos anos de 1950, 1951 e 1954, sendo o segundo em 1956 e 1957 e terceiro em 1952, 1953 e 1955. Wayne cobrava 500 mil dólares por filme e ainda recebia porcentagem pelo lucro dos mesmos, isto além de produzir muitos filmes com a sua produtora independente, a Batjac. Depois de terminar “Onde Começa o Inferno” e “Marcha de Heróis”, John Wayne iria começar a filmar “O Álamo”, grande sonho de sua vida. Antes foi com a esposa Pilar para Nova York para fazer compras. Wayne gastou 3.200 dólares na Saks, famosa loja da Quinta Avenida, pagando essa despesa com um cheque. Semanas depois a loja ligou para John Wayne informando que não estava conseguindo descontar o cheque por falta de fundos. “Impossível!”, exclamou John Wayne que em seguida ligou para Bo Ross, o homem que cuidava de seu dinheiro, investindo-o das mais variadas formas. Ross foi evasivo nas explicações e John Wayne partiu furioso para o escritório de Ross exigindo explicações. Sem saída e ameaçado por Wayne, Bo Ross confessou dizendo que John Wayne não tinha mais nada pois todos os investimentos foram perdidos. Wayne tinha agora apenas a casa em que morava, os veículos e a Batjac. O mais rentável ator norte-americano fora levado à falência por Bo Ross, o mesmo homem que também desaparecera com a fortuna de Red Skelton.

O roteirista James Edward Grant e John Wayne.
Duke com o chapéu na mão atrás de dinheiro - John Wayne demitiu Bo Ross e mesmo em sérias dificuldades financeiras não podia adiar a produção de “O Álamo” pois já havia muita gente contratada pela Batjac trabalhando na pré-produção. “O Álamo”, mais que um sonho, era uma obsessão para John Wayne, obsessão que havia tido início há mais de dez anos quando em 1948 o ator-produtor e James Edward Grant visitaram San Antone, no Texas, para iniciar suas pesquisas. John Wayne queria fazer um grande filme e para isso não confiava em ninguém para dirigi-lo, a não ser ele próprio, abrindo mão até mesmo de estrelar o filme, já que seria o produtor e o diretor. Wayne cogitou filmar “O Álamo” inicialmente no Panamá e posteriormente optou pelo México para baratear a produção. As coisas começaram a piorar para John Wayne quando descobriu que nenhum estúdio queria se associar à Batjac, pois nenhum chefe de estúdio se aventuraria em colocar dinheiro num filme que teria John Wayne como... diretor, especialmente num projeto tão caro. A Warner Bros. chegou a propor ao Duke um acordo desde que John Ford ou Howard Hawks dirigisse o filme, mas Wayne não aceitou. Finalmente a United Artists topou colocar 2,5 milhões de dólares na produção de “O Álamo”. Mas impôs a condição de John Wayne interpretar Davy Crockett, coisa que o Duke não pretendia fazer. Wayne queria ter apenas uma pequena participação como o General Sam Houston. John Wayne acabou aceitando estrelar o filme que iria também dirigir e produzir.

James T. 'Happy' Shahan
E o céu mandou ‘Happy’ Shahan - John Wayne sabia que “O Álamo” custaria pelo menos 7,5 milhões de dólares e por isso teria que recorrer a investidores o que significaria participação nos lucros do filme. Toda Hollywood acompanhava o drama de John Wayne e a notícia chegou ao Texas, onde vivia James T. ‘Happy’ Shahan, um milionário que possuía 22 mil acres de terras. Shahan propôs ajuda a Wayne intermediando contatos com ricos texanos desde que Wayne fizesse o filme no Texas, mais precisamente em Brackettville, onde ficavam parte das terras de ‘Happy’ Shahan. Após conhecer o local, não muito distante de onde ficava a verdadeira missão espanhola em ruínas que virou uma fortificação chamada Álamo, John Wayne não teve dúvidas. Faria “O Álamo” ali em Brackettville. Wayne gostou do local e mais ainda dos três milhões de dólares dos irmãos McCullough e outros 2,5 milhões de Clint Murchinson, milionários exploradores de petróleo, que ajudariam a financiar o filme. Tudo por obra de 'Happy' Shahan que persuadiu os milionários.

John Wayne, o prefeito do Álamo.
Uma cidade chamada Álamo - Com oito milhões de dólares já era possível começar “O Álamo”. E o início do projeto se deu com a construção em Brackettville de uma réplica perfeita do Álamo original, sob o comando do mexicano ‘Chato’ Gonzalez e ao custo de 1,5 milhão de dólares. O Álamo e mais uma recriação da cidade de San Antone foram construídos numa área de 60 mil metros quadrados, empregando centenas de mexicanos que produziam os tijolos necessários. Muitos texanos foram também contratados para as obras dirigidas por ‘Chato’ Gonzalez. Próximo do local situa-se o desativado Forte Clark que foi transformado em alojamento dos atores, equipe técnica e figurantes permanentes, totalizando 342 pessoas. Haveria necessidade de 190 mil refeições durante os 81 dias programados para as filmagens, logo chegando a Brackettville 44 mil quilos de alimentos, 500 mil ovos e 400 mil litros de leite. Além disso, ingredientes para 1,5 milhão de pãezinhos. Cada dia de produção iria custar 80 mil dólares, num total de 6,5 milhões de dólares. Haveria ainda os inevitáveis gastos com publicidade, negativos e tudo que cerca a produção e lançamento de um filme, o que impedia de fechar a conta de “O Álamo” que teve inicio assim mesmo.

Momento de descontração entre Harvey,
'Happy' Shahan, Widmark e o Duke.
Reduzindo despesas com Widmark e Harvey – Além das centenas de pessoas envolvidas na produção de “O Alamo”, havia ainda 160 cavalos que foram alugados. Por sorte ‘Happy’ Shahan conseguiu que um amigo fazendeiro texano ‘emprestasse’ 200 cabeças de gado ‘Longhorn’ necessárias para sequências do filme. As despesas pareciam não acabar nunca e, caso Burt Lancaster (Bowie), Charlton Heston (Travis) ou Clark Gable (Crockett), primeiros atores cogitados para os três papéis principais tivessem sido contratados o dinheiro conseguido não bastaria. Lancaster estava comprometido com “Entre Deus e o Pecado”, Gable com “Os Desajustados” e Heston se recusou a ser dirigido por John Wayne. Marlon Brando foi sondado para fazer uma ponta como o Generalíssimo Santa Anna, mas assim como Charlton Heston, Brando também não aceitou trabalhar com John Wayne por razões obviamente políticas. Wayne pensou então em William Holden como Jim Bowie e Rock Hudson como Travis, mas recuou diante da pedida dos dois atores cujos prestígios estavam no limite máximo e seus salários beiravam o milhão de dólares. Bastante mais em conta foram os salários de Richard Widmark e de Laurence Harvey. Richard Boone, como se sabe, abriu mão do salário de 100 mil dólares pois sabia das dificuldades financeiras de John Wayne. Boone disse a Wayne que se sentia recompensado se ganhasse o casaco de couro que usara em “O Álamo”.

O eternamente carrancudo John Ford se
intrometendo no filme do amigo John Wayne.
A constrangedora presença de John Ford - John Wayne estava entre amigos na produção de “O Álamo”, gente como William H. Clothier (diretor de fotografia), Alfredo Ybarra (desenhista de produção e criador dos sets) e Cliff Lyons (diretor de segunda unidade). E ainda praticamente todo o elenco de coadjuvantes tinha relações de amizade com o Duke. Para o filme foram recrutados 28 dublês, entre os melhores de Hollywood, e todos eles recebiam um salário extra atuando também como atores. A presença de Frankie Avalon no filme se explica como forma de atrair os espectadores teenagers. Além de estar entre amigos, Wayne estava com a família por perto pois seu filho Michael Wayne era o produtor-executivo e Pat Wayne estava no elenco, assim como a filha Aissa. A esposa Pilar e a filha Toni também estavam alojadas em Forte Clark, acompanhando as filmagens. Só quem não podia ser chamado de amigo de John Wayne era Richard Widmark, que decididamente não nutria a menor simpatia pelo Duke. Mas pior que todos os problemas financeiros ou mesmo a hostilidade de Widmark, foi a inesperada chegada de John Ford a Brackettville. Ford importunou Wayne por 20 dias, até que se retirou das filmagens após constranger terrivelmente Duke. Ford chegou a filmar algumas cenas usadas no filme, ainda que John Wayne negasse esse fato.

John Wayne com 15 quilos a menos e
incontáveis preocupações a mais.
O desespero toma conta de John Wayne - O western mais caro do cinema havia sido “Duelo ao Sol”, que custara oito milhões de dólares em 1946. As colunas especializadas anunciavam que “O Álamo” superaria “Duelo ao Sol” pois seu custo já havia atingido os dez milhões de dólares. Os detratores de Wayne diziam que aqueles números não eram verdadeiros e que o filme havia consumido apenas 5,5 milhões de dólares. Mas o fato é que os oito milhões iniciais (da United Artists e dos investidores texanos) se mostraram insuficientes e a produção chegou a ser ameaçada de ser interrompida. Isso não aconteceu porque a Yale Foundation investiu mais 1,5 milhão de dólares na produção de “O Álamo”, atingindo até então 9,5 milhões de dólares. John Wayne trabalhou demais em “O Alamo” e dormia apenas quatro horas por dia, sendo o último a se deitar e o primeiro a se levantar nas acomodações de Forte Clark. Lembra-se muito que John Wayne perdeu 15 quilos durante as filmagens de “O Álamo”. Cita-se também que passou de três para seis maços de cigarros por dia. Mas isso certamente não aconteceu apenas pela desumana sobrecarga de trabalho (“O Álamo” foi filmado em apenas 81 dias) e sim pela possibilidade de ver seu sonho arruinado por falta de dinheiro para concluí-lo.

William H. Clothier e John Wayne.
John Wane hipoteca sua própria casa - Foi então que Wayne assinou novo contrato para estrelar três filmes para a 20th Century-Fox, recebendo um adiantamento por esses trabalhos. A esse montante Wayne juntou a hipoteca de sua casa em Encino, na Califórnia. Mesmo assim não chegou aos doze milhões de dólares que era a projeção final para “O Álamo”, incluídos já os gastos com publicidade para a campanha do Oscar. A solução foi vender partes do possível lucro do filme a investidores, deixando ele próprio de receber qualquer dividendo pelo filme. O custo de “O Álamo” foi sensivelmente elevado pelo processo em que foi filmado, o Todd-AO, em 70 mm, que supervalorizava as espetaculares imagens capturadas pelas câmaras de William H. Clothier. Esse processo permitia também que se fizesse cópias em 35 mm para os cinemas não aparelhados para exibir o Todd-AO. Depois de meses sendo editado, musicado e recebendo a estupenda trilha sonora com som que lhe valeu o único Oscar, “O Álamo” foi lançado numa première em San Antone, no Texas, em 24 de outubro de 1960. Dois dias depois o filme foi exibido em um único cinema de cada uma das maiores capitais, tendo recebido críticas que só não destruiram o filme de John Wayne porque ele tinha muitas qualidades e, inegavelmente, alguns defeitos também.

John Wayne inspecionando cada detalhe;
atrás dele Joseph Calleia.
Todos ganharam, menos John Wayne - Após o período de lançamento, a parte da imprensa que não gostava de John Wayne se deliciou divulgando que o filme fracassara nas bilheterias, não se pagando e que não se pagaria jamais. “Ben-Hur” custara 16 milhões de dólares em 1959; “Os Dez Mandamentos” custara 13 milhões de dólares em 1955 e “Spartacus” custou os mesmos 12 milhões de dólares que “O Álamo”. Porém esses épicos arrecadaram respectivamente 70 milhões, 80 milhões e 60 milhões de dólares em seus primeiros anos de exibição nos Estados Unidos. “O Álamo” arrecadou somente oito milhões de dólares e apenas conseguiu se pagar com as excepcionais bilheterias vindas do Exterior. Com os relançamentos em 1963, 1967 e 1970, a United Artists e demais investidores passaram a receber lucros que recebem até hoje. “O Álamo” foi dos raros westerns a merecer lançamento em disc-laser e sempre vendeu muito em VHS e agora em DVD. Após a aventura vivida em Brackettville, no Texas, John Wayne retomou sua carreira como ator e produtor e, muito mais cuidadoso com seus ganhos milionários, nunca mais teve problemas financeiros. Porém com “O Álamo” John Wayne não ganhou um único centavo, mas nunca reclamou desse fato. Para fazer esse filme o Duke entregou entusiástica e estoicamente não só tudo que tinha na vida mas também sua alma.



8 de junho de 2013

TRILHA MUSICAL DE "O ÁLAMO", O ÁPICE DA GLORIOSA CARREIRA DE DIMITRI TIOMKIN





Entre os muitos aspectos positivos do western “O Álamo”, dirigido por John Wayne, destaca-se a trilha sonora musical de Dimitri Tiomkin. Veterano e premiado compositor de trilhas para o cinema, Tiomkin foi um prodígio na Rússia, onde nasceu em 1894, executando peças clássicas aos sete anos de idade. Fugindo com a família para a Europa após a Revolução Russa, Dimitri Tiomkin chegou aos Estados Unidos, exibindo-se em Nova York, onde foi descoberto pelo produtor Irving Talberg que o levou para Hollywood. O primeiro trabalho de Tiomkin para o cinema foi em 1929 e em 1940 Tiomkin recebeu a primeira das 21 indicações que teria para o prêmio Oscar de Melhor Compositor/Trilha Sonora Musical, ao longo de sua carreira. Tiomkin recebeu quatro estatuetas, três delas pelo escore musical dos filmes “Matar ou Morrer” (1952), “Um Fio de Esperança” (1954), “O Velho e o Mar” (1959). O outro Oscar foi pela Melhor Canção, do filme “Matar ou Morrer”, em parceria com o letrista Ned Washington.

Tiomkin e Webster.
A escolha de John Wayne - Dimitri Tiomkin havia musicado “Rio Vermelho” e seu trabalho nesse filme impressionara John Wayne que, bem antes de iniciar a produção de “O Álamo”, contratara Tiomkin para compor a trilha musical de seu filme. Quando Tiomkin fazia a música para “Onde Começa o Inferno”, já estava com um roteiro de “O Álamo” em mãos. O compositor russo começou a criar canções para o épico sobre a defesa do Álamo e até usou uma delas chamada “El Deguello” na extraordinária cena inicial de “Onde Começa o Inferno”. “El Deguello” é uma música que cria a atmosfera da ansiedade daqueles que esperam a morte. Além dessa canção, Tiomkin compôs ainda “Ballad of the Alamo”, “The Green Leaves of Summer”, “Here to the Ladies” e “Tennessee Babe”, contando em todas elas com a parceria de Paul Francis Webster, autor das letras. Dimitri Tiomkin nunca escondeu seu entusiasmo com a trilha que compôs para “O Álamo”, afirmando que esse filme lhe possibilitou expandir seus horizontes musicais como autor de trilhas para filmes. Apesar de extraordinária, a trilha musical de “o Álamo” perdeu o Oscar em 1961 para a trilha de Ernest Gold composta para “Êxodus” e há duas explicações para isso: Tiomkin havia ganho um Oscar apenas dois anos antes com “O Velho e o Mar” e a Academia tinha que dar um Oscar para o filme sobre a fundação do Estado de Israel, com roteiro de Dalton Trumbo. Afinal a colônia judaica era muito forte em Hollywood e havia mesmo financiado Leon Uris para que este escrevesse o livro “Êxodus”. Azar de Dimitri Tiomkin.

“As Folhas Verdes do Verão” - Mesmo a bela canção “The Green Leaves of Summer” não caiu no agrado dos membros da Academia que preferiu premiar a música-tema de “Nunca aos Domingos”, canção um pouco melhor que as fracas demais canções concorrentes. A canção “The Green Leaves of Summer” tornou-se grande sucesso sendo gravada por muitos cantores e orquestras. Essa pungente canção foi logo extraída da trilha de “O Álamo” e gravada inicialmente por Frankie Avalon, Bud and Travis, The Brothers Four, Orquestra de Hugo Montenegro, Orquestra Clebanoff, Nick Perito, The Easy Riders, Medallion Strings, Orquestra de Mantovani e pela Orquestra de Nelson Riddle. No Brasil a gravação do conjunto The Brothers Four foi a que mais tocou nas rádios, no entanto a canção atingiu o topo das paradas de sucesso numa versão de Paulo Rogério intitulada “As Folhas Verdes do Verão”, interpretada pela cantora Wilma Bentivegna. Carlos Gonzaga e Elza Laranjeira também gravaram essa versão e anos depois foi a vez de Altemar Dutra gravá-la. E até mesmo Gilberto Gil, apreciador da natureza, gravou a versão com a mesma letra.

Uma balada para “O Álamo” - O épico de John Wayne merecia ter concorrido também com a canção “Ballad of the Alamo”, excepcional composição de Tiomkin e que, assim como “The Green Leaves of Summer”, possibilitou uma rica variação musical em diferentes momentos de “O Álamo”. Frankie Avalon foi dos primeiros a gravar “Ballad of the Alamo”, canção nada apropriada para sua pequena voz. Porém quem imortalizou essa canção foi Marty Robbins que deu à música a necessária vibração e sentimento que os versos de Paul Francis Webster expressam. Webster foi vencedor de três prêmios Oscar como compositor das canções "Secret Love" (1953), "Love is a Many Splendored Thing" (1955) e "Adeus às Ilusões" (1966), tendo suas composições em parceria concorrido 16 vezes a esse prêmio. [Abaixo está a letra de “Ballad of the Alamo”, bem como a canção na voz de Marty Robbins.]

Ennio Morricone
Influenciando Ennio Morricone - O western norte-americano serviu de ponto de partida para todos os diretores, no mundo inteiro, que se propuseram a fazer faroestes. E com a música não foi diferente. O mais inovador compositor de trilhas para filmes foi, sem dúvida, Ennio Morricone e certamente sua música para faroestes sofreu influência dos compositores Elmer Bernstein (“Sete Homens e Um Destino”) e Dimitri Tiomkin, este especialmente a partir da trilha composta para “O Álamo”. Uso do trumpete, cordas, coral, percussão, tropel de cavalos e outros ruídos foram utilizados por Tiomkin em “O Álamo”, complementando uma das mais perfeitas trilhas sonoras de um western. John Wayne acertou em cheio quando escolheu Dimitri Tiomkin para musicar “O Álamo”, mas talvez não contasse com um trabalho tão espetacular e que muito ajudou a tornar seu filme um clássico.




BALLAD OF THE ALAMO

Música de Dimitri Tiomkin / Letra de Paul Francis Webster

In the southern part of Texas, in the town of  San Antone
There's a fortress all in ruin that the weeds have overgrown.
You may look in vain for crosses and you'll never see a one
But sometime between the setting and the rising of the sun
You can hear a ghostly bugle as the men go marching by
You can hear them as they answer to that roll call in the sky.
Colonel Travis, Davy Crockett and a hundred eighty more
Captain Dickenson, Jim Bowie, present and accounted for.

Back in 1836, Houston said to Travis:
"Get some volunteers and go fortify the Alamo."
Well, the men came from Texas and from Old Tennessee
And they joined up with Travis just to fight for the right to be free.

Indian scouts with squirrel guns, men with muzzle loaders
Stood together heel and toe to defend the Alamo.
"You may never see your loved ones", Travis told them that day.
"Those that want can leave now, those who'll fight to death, let 'em stay."

In the sand he drew a line with his army sabre.
Out of a hundred eighty-five, not a soldier crossed the line.
With his banners a-dancin' in the dawn's golden light
Santa Anna came prancin' on a horse that was black as the night.

He sent an officer to tell Travis to surrender
Travis answered with a shell and a rousin' rebel yell.
Santa Anna turned scarlet: "Play Deguello", he roared.
"I will show them no quarter, everyone will be put to the sword."

One hundred and eighty five holdin' five thousand.
Five day, six days, ten; Travis held and held again.
Then he sent for replacements for his wounded and lame
But the troops that were comin' never came. never came, never came.

Twice he charged, then blew recall. On the fatal third time
Santa Anna breached the wall and he killed them one and all.
Now the bugles are silent and there's rust on each sword
And the small band of soldiers lie asleep in the arms of the Lord.

In the Southern part of Texas, near the town of San Antone

Like a statue on his Pinto rides a cowboy all alone.
And he sees the cattle grazin' where a century before
Santa Anna's guns were blazin' and the cannons used to roar
And his eyes turn sort os misty, and his heart begins to glow
And he takes his hat off slowly... to the men of Alamo.
To the thirteen days of glory... at the siege of Alamo.




7 de junho de 2013

SAM PECKINPAH NA 'BIBLIOTECA MUNICIPAL ROBERTO SANTOS', EM SÃO PAULO



Os frequentadores da Biblioteca Municipal 'Roberto Santos' assistirão no dia de hoje (8/6/2013) ao western de Sam Peckinpah "A Morte Não Manda Recado" (The Ballad of Cable Hogue). Archimedes Lombardi já havia programado no último sábado outro belo western que foi "O Último Pistoleiro", por sinal o derradeiro filme de John Wayne. Mantendo a qualidade das sessões e prestigiando o gênero faroeste, Archimedes repete a dose com esse filme estrelado por Jason Robards e com um elenco repleto de grandes atores secundários como Slim Pickens, Strother Martin, L.Q. Jones, R.G. Armstrong, Gene Evans e Pete Whitney. O inglês David Warner tem papel destacado neste poético western de Peckinpah. Mas os olhos dos espectadores dificilmente deixaram de se fixar na belíssima Stella Stevens, mais sensual que nunca e em uma das melhores interpretações de sua carreira. Programão!
Para os demais sábados do mês de junho Archimedes programou os seguintes filmes:
Dia 15 - "Anibal, o Conquistador" (Annibale), de 1959, com Victor Mature e Mario Girotti (Terence Hill) - Direção de Carlos Ludovico Bragaglia e Edgar J. Ulmer.
Dia 22 - "E Deus Criou a Mulher" (Et Dieu... Créa la Femme), de 1956, com Brigitte Bardot e Jean-Louis Trintignant - Direção de Roger Vadim.
Dia 29 - "Amarga Esperança" (They Live by Night), de 1948, com Farley Granger e Cathy O'Donnel - Direção de Nicholas Ray.
A Biblioteca Municipal 'Roberto Santos' fica na Rua Cisplatina, 505, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. As sessões têm início sempre às 19 horas.


6 de junho de 2013

HISTÓRIAS DO ÁLAMO – A ACADEMIA VINGA-SE DE JOHN WAYNE


O mais cobiçado prêmio do cinema norte-americano é o Oscar, distribuído pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, com sede em Beverly Hills, Califórnia. Os membros da Academia são os responsáveis pela escolha dos premiados e nunca foram lá muito simpáticos com o gênero Western. Prova disso é que, ao longo dos 85 anos em que esse prêmio é distribuído (desde 1929), somente três faroestes foram premiados como Melhores Filmes do Ano. Foram eles: “Cimarron” (1930), “Dança com Lobos” (1990) e “Os Imperdoáveis” (1992). Na solenidade de entrega de 1961, referente aos filmes exibidos em 1960, um western obteve sete indicações, entre elas a de Melhor Filme. Esse western era “O Álamo”, dirigido e estrelado por John Wayne.

John F. Kennedy e Richard Nixon.
O grande reacionário - Se os membros da academia gostavam pouco de faroestes, em 1961 eles tiveram razões maiores para não premiar “O Álamo”. O contexto político da época mostrava o Partido Democrático no poder com a eleição de John F. Kennedy, em novembro de 1960. Kennedy venceu Richard Nixon num pleito acirradíssimo com porcentagens de votos de 49,7% para Kennedy e 49,6% para Nixon. Com Kennedy na Presidência os liberais, de modo geral, mostravam-se cada vez mais fortes, reivindicando e conquistando progressivamente direitos historicamente sonegados às diversas minorias. Enquanto Marlon Brando, Paul Newman, Burt Lancaster e até mesmo Charlton Heston lideravam passeatas por direitos humanos, John Wayne era visto, por suas posições políticas, como o grande reacionário do cinema. E a Academia tinha entre seus membros a chamada intelectualidade de Hollywood, a ‘esquerda’ política que representava um adversário para as intenções de John Wayne de ganhar prêmios com seu “O Álamo”.

Bette Davis, uma das candidatas a
Scarlett O'Hara.
O publicitário de “E o Vento Levou” - Há tempos havia-se concluído que o Oscar alavancava as bilheterias dos filmes e isso fazia com que as campanhas para tornar filmes e artistas vitoriosos na corrida por esse prêmio se tornassem rotina. “Ben-Hur” havia gasto uma fortuna em publicidade e arrematou nada menos que onze dos principais prêmios em 1960. John Wayne havia gasto todo dinheiro que tinha com “O Álamo”, sendo que seu filme, quando lançado em outubro de 1960, dividira as críticas. Apesar de ir bem nas bilheterias “O Álamo” estava longe de cobrir os 12 milhões de dólares gastos na produção. Wayne sentiu que era necessário fazer uma campanha para que seu filme tivesse o maior número de indicações possível para “O Álamo” arrecadar mais dentro e fora dos Estados Unidos. Para essa campanha Wayne contratou o publicitário Russell Birdwell, que já havia sido o responsável pela publicidade ‘normal’ do filme. A publicidade de “O Álamo” foi a maior até então feita para uma película. Russell Birdwell tornou-se uma lenda em Hollywood depois que inventou a famosa Escolha de Scarlett O’Hara, para “O Vento Levou”, criando uma expectativa inusitada na América para o filme de David O. Selznick. Birdwell foi também o responsável pela publicidade do filme "O Proscrito" com as famosas fotos de Jane Russell num celeiro, fotos que levaram muita gente a ver aquele western. Inteiramente descapitalizado, tendo de hipotecar a própria casa, John Wayne via no trabalho de Russell Birdwell a salvação financeira, já que não tinha mais onde pedir ajuda financeira e a própria United Artists se recusava a fazer novos gastos com “O Álamo”. Para ter algum dinheiro em sua conta bancária John Wayne foi para Tanzânia, na África, filmar “Hatari”, deixando sob a responsabilidade de Birdwell a criação da campanha de “O Álamo” visando a premiação da Academia na noite de 17 abril de 1961.

Russell Birdwell, o gênio do marketing cinematográfico que jogou
a Academia contra "O Álamo".

Duke, Dick e Laurence Harvey.
Primeira decepção de John Wayne - De início tudo parecia correr bem e os anúncios criados por Russell Birdwell sugeriam que “O Álamo” merecia concorrer às indicações nas seguintes categorias: Melhor Filme – Melhor Diretor – Melhor Ator (John Wayne, Richard Widmark e Laurence Harvey) – Melhor Ator Coadjuvante (Chill Wills) – Melhor Atriz Coadjuvante (Joan O’Brien) – Melhor Canção (“The Green Leaves of Summer”) – Melhor Trilha Sonora – Melhor Cinematografia em Cores – Melhor Edição – Melhor Direção de Arte em Cores – Melhor Vestuário (Costumes) em Cores – Melhores Efeitos Especiais – Melhor Som – Melhor Decoração de Set em Cores. Entre os contatos de Birdwell estavam as influentes colunistas Louella Parsons e Hedda Hopper e também William Randolph Hearst com sua cadeia de jornais espalhada por todo país. A campanha de Birdwell continuou com notas sobre o filme plantadas diariamente na grande imprensa e com anúncios de página inteira nos órgãos especializados como “The Hollywood Reporter” e “Variety”. Em 27 de fevereiro foi publicada a lista das indicações, decepcionando John Wayne, que ainda estava na África. “O Álamo” recebeu apenas sete indicações: Melhor Filme – Melhor Ator Coadjuvante (Chill Wills) – Melhor Cinematografia em Cores – Melhor Edição – Melhor Canção – Melhor Trilha Sonora – Melhor Som. John Wayne comentou que não entendia como seu filme não obtivera indicações para Melhor Roteiro, Melhor Ator e Melhor Diretor, prêmios mais cobiçados depois de Melhor Filme. O cenário do Oscar tornava-se tão sombrio para “O Álamo” quanto o próprio cerco da missão espanhola em ruínas.

Kirk Douglas, Jean Simmons, Tony Curtis e John
Ireland, parte do grande elenco de "Spartacus".
“O Álamo” vs. “Spartacus” - Todos acreditavam que a disputa pelos prêmios mais importantes ficasse entre “O Álamo” e “Spartacus”, ambas superproduções com tendências políticas. Kirk Douglas trouxera de volta a Hollywood para escrever o roteiro de "Spartacus" o escritor e roteirista Dalton Trumbo, um dos ‘Hollywood Ten’ que foram parar na cadeia por obra do odioso macarthismo, movimento por sinal defendido por John Wayne. “Spartacus” teve somente seis indicações e a grande surpresa foi “Se Meu Apartamento Falasse”, comédia dramática de Billy Wilder, com dez indicações. Russell Birdwell decidiu então partir para uma campanha mais agressiva visando influenciar os membros da Academia. Os textos dos próximos anúncios veiculados lembravam que “O Álamo” representava, como nenhum outro filme, o espírito patriótico dos norte-americanos. Birdwell chegou a publicar que “Quem não votasse no filme de John Wayne era anti-americano”. John Wayne, que havia retornado da Tanzânia, pressentiu que a campanha de Birdwell representava um tiro de canhão no próprio pé e despediu sumariamente o publicitário. A Batjac, produtora de John Wayne divulgou alguns anúncios quase em forma de desculpas, respeitando a liberdade de escolha dos votantes e contrariando assim o tom autoritário e pretensamente patriótico da campanha de Birdwell. A intenção de Wayne era reconquistar votos perdidos e conquistar outros ainda indecisos. O Duke não contava com o desastre que seu amigo Chill Wills estava armando.

Chill Wills, que sepultou de vez as suas chances
e as chances de "O Álamo".
“Primo Chill, vou votar em Sal Mineo” - Nos últimos dias que precederam o final da votação, Chill Wills publicou anúncios como representante dos “Texas Cousins” (Primos Texanos). Esse grupo conclamava os membros da Academia a votar em Wills para Melhor Ator Coadjuvante. Apelando para o sentimentalismo mais barato, um dos anúncios dizia: “Nós, da produção do filme ‘O Álamo’ estamos rezando mais pela premiação do nosso primo Chill Wills do que os texanos rezaram antes de morrer defendendo O Álamo. A atuação do primo Chill foi estupenda. – Ass.: Seus Primos do Álamo”. Quem coordenava essa campanha particular era um texano de nome W.S. Wojciechowicz, apelidado de ‘Bow Wow’. Assim como os outros dois mil membros da Academia, Hedda Hopper recebeu uma carta que dizia que ela votaria em Chill Wills. No dia seguinte Hedda Hopper anunciou em sua coluna que jamais votaria em Wills. Mais sarcástico que nunca, Groucho Marx, que também recebera uma carta, publicou um anúncio na “Variety” com estas palavras: “Caro Chill, fiquei contente de saber que sou seu primo, mas vou votar em Sal Mineo”. John Wayne desesperado postou outro anúncio informando que desconhecia o texto que conclamava a Academia a votar em Chill Wills, não concordava com o mesmo e jamais autorizaria a sua publicação, ainda mais ilustrada com a foto de todo o elenco diante da fachada d’O Álamo.

A foto que Chill Wills publicou em seu anúncio, na tentativa de ganhar um Oscar.

And the winner is... not The Alamo – John Wayne sabia que tudo estava perdido para seu filme, mesmo assim compareceu à noite de premiação. O Álamo resistiu treze dias, enquanto “O Álamo” de John Wayne foi derrotado fragorosamente nas poucas horas da cerimônia de entrega dos prêmios. Como consolação “O Álamo” recebeu um acachapante único Oscar de Melhor Som. O maior vencedor da noite foi “Se Meu Apartamento Falasse” que ficou com cinco prêmios Oscar, seguido de “Spartacus”, que ficou com quatro estatuetas. A Academia, numa votação claramente em represália à campanha de Birdwell e inegavelmente política, foi injusta com “O Álamo” e uma análise comparativa demonstra essa injustiça.
Melhor Filme – Nessa categoria “O Álamo” teria chances diante de “Entre Deus e o Pecado”, uma vez que “Spartacus” sequer foi indicado para Melhor Filme. Mas quem levou o prêmio foi “Se Meu Apartamento Falasse”. 
Melhor Diretor – Coerentemente a Academia premiou Billy Wilder, o diretor do filme vencedor, deixando de premiar Alfred Hitchcock por “Psicose”, um dos melhores filmes do Mestre do Suspense. Mas é discutível que o trabalho de John Wayne como diretor tenha sido inferior aos trabalhos de Jack Cardiff (“Filhos e Amantes”), Jules Dassin (“Nunca aos Domingos”) ou Fred Zinnemann (“Peregrinos da Esperança”). Essa clara ‘vingança’ da Academia deve ter doído muito no Duke.
Melhor Ator – Ainda que os três atores principais de “O Álamo” tivessem sido indicados, seria impossível Wayne, Widmark ou Harvey tirar o Oscar de Burt Lancaster (“Entre Deus e o Pecado”), ou mesmo de Spencer Tracy (“O Vento Será Sua Herança”).
Melhor Ator Coadjuvante – Em tempo algum Chill Wills poderia concorrer com o vencedor desta categoria que foi Peter Ustinov (“Spartacus”). E Chill Wills perderia fácil também para Charles Laughton (“Spartacus”) que nem indicado foi.
Melhor História ou Roteiro Original – O roteiro de James Edward Grant para “O Álamo” não foi indicado. Se fosse teria que enfrentar os roteiros de “Se Meu Apartamento Falasse” (vencedor), “Nunca aos Domingos”, “Hiroshima Meu Amor” (e pasmem!) os de “Momentos de Angústia” e de “O Jogo Proibido do Amor”. Teria a Academia desconsiderado o roteiro de Grant por entendê-lo não original por ser baseado num fato histórico?
Melhor Cinematografia em Cores – O prêmio ficou com “Spartacus”, num belíssimo trabalho de Russell Metty, mas ficaria melhor ainda se fosse entregue a William H. Clothier, por sua portentosa cinematografia em “O Álamo”. Aqui pode-se afirmar que a Academia reafirmou sua fama de injusta.
Melhor Direção de Arte – Outra vez “Spartacus” ganhou, mas sem ter a concorrência de “O Álamo”, que não foi sequer indicado. A Academia ignorou o maravilhosamente perfeito trabalho de Alfred Ybarra. “O Álamo” merece ser assistido várias vezes para que sua direção de arte e decoração de cenários sejam melhor admirados. Outra injustiça da injusta Academia.
Melhor Vestuário (Costumes) – Mais um prêmio para “Spartacus”, categoria na qual “O Álamo”, estranhamente, não foi lembrado. A Academia preferiu o bonito “Can-Can”, as roupas luxuosas de Doris Day em “A Teia de Renda Negra”, a deselegância de Cantinflas em “Pepe” e os tempos de Roosevelt na Casa Branca em “Dez Passos Imortais”.
Melhor Edição – Venceu “Se Meu Apartamento Falasse”, filme cujo roteiro intensamente dialogado determina a própria edição. Um filme em que o forte é o texto e que comparado aos perdedores “Spartacus” e “O Álamo” significa uma injustiça em dose dupla.

Categorias em que o "O Álamo"
concorreu.
As maiores injustiças – “O Álamo” recebeu um Oscar de Melhor Som e foi vitorioso numa categoria na qual o único concorrente possível seria o fraco “Cimarron”. Difícil entender por que razão não zeraram os prêmios do filme de John Wayne, o que atestaria a aversão da Academia a John Wayne. Não receber nenhum prêmio seria uma humilhação menor que atribuir a “O Álamo” este Oscar puramente de consolação. As maiores injustiças daquela noite foram sem dúvida os prêmios de Melhor Trilha Musical Dramática e de Melhor Canção, vencidos respectivamente por “Êxodus” (Ernest Gold) e “Nunca aos Domingos” (Manos Hadjidakis). A trilha musical composta por Dimitri Tiomkin para “O Álamo” é uma das melhores já feitas até hoje para o cinema e mais rica, inspirada e variada que a de Ernest Gold. Se pelo menos Tiomkin tivesse perdido para Elmer Bernstein, que compôs a excelente e inovadora trilha para “Sete Homens e Um Destino” seria aceitável a derrota, ainda que também injusta. E não é necessário ser músico para perceber que a canção “The Green Leaves of Summer” é melodicamente superior à deliciosa mas quadradinha canção grega. Na premiação do Oscar de 1961 John Wayne pagou, com “O Álamo”, o preço de defender vigorosamente uma visão política obtusa e radical. A isso foram somados os estragos feitos pela campanha desastrosa do ‘marqueteiro’ Russell Birdwell e pelos desatinos do desmiolado Chill Wills.