UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

22 de novembro de 2012

DENVER PYLE, DE BANDIDÃO DOS FAROESTES ‘B’ AO MAIS QUERIDO ‘TIO’ DA TELEVISÃO



Acima Denver com Faye Dunnaway.
Um dos mais importante filmes dos anos 60 foi “Uma Rajada de Balas” (Bonnie and Clyde), lançado em 1967. Entre as tantas sequências com balas cuspidas por revólveres e metralhadoras, houve uma cena com violência psicológica e que se tornou uma das mais importantes desse filme de Arthur Penn. É quando o casal de ladrão de bancos faz zombarias com um xerife por eles algemado. Poucos cinéfilos sabiam quem era aquele ator que teve um memorável desempenho sendo, naquela cena, beijado por Bonnie Parker e depois cuspindo na assaltante. O ator era Denver Pyle e fãs de westerns que assistiram “Bonnie and Clyde” certamente reconheceram o ator que desde o final dos anos 40 atuava em muitos faroestes ‘B’, chegando posteriormente a ser um ator característico dos mais requisitados pelo cinema e pela TV. Nos anos 70, graças à televisão, não havia um único norte-americano que não soubesse quem era Denver Pyle, mais conhecido como o querido ‘Uncle Jesse’ da série “The Dukes of Hazzard”. Relembrar a carreira de Denver Pyle é falar de um grande ator, da linhagem direta de Charles Buchanan e outros de igual quilate.

Acima Willis Pyle, irmão mais velho
e renomado desenhista da equipe de
Walt Disney; ao lado o jovem no centro Maria
Ouspenskaya e Michael Checkov;
o jovem Denver Pyle.
Cursos com mestres do teatro - No dia 11 de maio de 1920, na pequena cidade de Bethune, no Colorado, nasceu Denver Dell Pyle, filho de um casal que vivia na zona rural. O nome Denver foi dado em homenagem à capital do Colorado e Dell também homenageava uma pequena cidade do mesmo Estado. O jovem Denver chegou à Universidade do Colorado, a qual abandonou após cursar dois anos deixando os estudos para ser baterista de uma orquestra. Não tendo sorte como músico, Denver trabalhou depois em campos de petróleo e numa companhia especializada em pesca de camarões. Denver tinha um irmão mais velho chamado Willis Pyle que, tendo ido para Los Angeles, estava se dando melhor pois era ilustrador da Walt Disney Productions. Willis Pyle levou a irmã para trabalhar numa empresa de publicidade ligada ao cinema e só faltava o irmão Denver ali na Califórnia. Quando os Estados Unidos entraram na II Guerra Mundial Denver Pyle se alistou na Marinha e foi mandado para a Base de Guadalcanal. Lá Denver sofreu um ferimento grave que provocou sua baixa. Denver chegou finalmente à Califórnia, mas para trabalhar na Lockheed, na construção de aviões militares, em Los Angeles. Na terra do cinema Denver foi atraído pelo mundo artístico e passou a trabalhar para a companhia da russa Maria Ouspenskaya que além de professora de Arte Dramática era também atriz. Como faz-tudo da companhia, Denver ganhou um curso com Maria Ouspenskaya, sendo posteriormente apresentado a Michael Checkov, irmão do escritor Anton Checkov. Michael Checkov era também professor de teatro e da turma de Denver Pyle faziam parte, entre outros, John Dehner, Marc Lawrence e Akim Tamiroff, com quem Denver atuou em algumas montagens.

Denver Pyle em luta com Wayne Morris (acima);
abaixo à esquerda com Dick Reeves e Phyllis Coates;
na outra foto com Clayton Moore, Pat Butram
e Gene Autry.
Denver Pyle, sempre nos faroestes - Tanta teoria não ajudou imediatamente aquele ator com nome de cidade pois as primeiras oportunidades de Denver no cinema foram em papéis pequenos, a maioria faroestes. Nesses filmes Denver invariavelmente interpretava bandidos e, claro, sendo preso ou mesmo morrendo através dos certeiros tiros de Bill Elliott, Rocky Lane, Tim Holt, Gene Autry, Johnny Mack Brown e até mesmo de Wayne Morris. Vivia-se, no final dos anos 40 e início dos anos 50, os derradeiros momentos dos faroestes feitos em série e os atores citados acima foram os que apagaram as luzes dos westerns de pequeno orçamento. Denver Pyle era alto (1,85m) e seu cabelo começava a ficar grisalho aos 30 anos de idade, o que era comum em sua família. Sua estampa foi definida quando Denver deixou crescer o bigode e duas portas se abriram para o ator. A posta da iniciante TV e a porta do no cinema, com os westerns estrelados pelos mocinhos que supriram a ausência dos cowboys dos queridos ‘bezinhos’. Entre esses mocinhos estavam Audie Murphy, Rory Calhoun, George Montgomery e o mais importante deles, Randolph Scott. Denver Pyle atuou em praticamente todas as primeiras séries westerns de TV, entre elas as de Hopalong Cassidy, Gene Autry, Roy Rogers, Cisco Kid (Duncan Renaldo), The Lone Ranger (Clayton Moore) e Jock Mahoney, tornando Denver Pyle um rosto bastante familiar para os fãs de faroestes.

Denver Pyle com Joel McCrea; numa cena de "No Velho
Colorado"; com Audie Murphy em "A Morte tem seu
Preço"; Edgar Buchanan, o modelo de Denver Pyle.
A influência de Edgar Buchanan - Em 1948, Denver Pyle teve pequena participação em “No Velho Colorado” (The Man from Colorado), estrelado por Glenn Ford e William Holden. Foi nesse western que Denver atuou pela primeira vez com Edgar Buchanan, ator a quem passou a admirar, de quem ficou amigo e de quem passou a imitar o estilo. Numa entrevista, nos anos 70, Denver Pyle declarou que quem o influenciou verdadeiramente no estilo de atuar foi Edgar Buchanan. Na grande maioria dos filmes que fez nos anos 50, Denver Pyle atuava recebendo salário pela chamada ‘escala’ determinada pelo Actors Screen Guild, o sindicato da categoria. Nunca faltou trabalho a Denver Pyle que, só em 1954, participou de seis longa-metragens e 19 séries de TV. Muitos dos filmes dos anos 50 que contaram com a presença de Denver Pyle foram inexpressivos, mas outros são sempre lembrados, como os estrelados por Audie Murphy: “A Morte tem seu Preço” (Gunsmoke), “Jornada Sangrenta” (Column South), “Traição Cruel” (Ride Clear of Diablo) e “Um Homem Contra o Destino” (Cast a Long Shadow); ou aqueles com Randolph Scott: “Arizona Violento” (Ten Wanted Men), “Fúria ao Entardecer” (Rage at Dwan) e “O Fantasma do General Custer” (7th Cavalry); ou ainda com Joel McCrea: “O Forte do Massacre” (Fort Massacre) e “Na Sombra do Disfarce” (The Lone Hand).

Denver Pyle engraçadíssimo com
John Wayne em "Marcha de Heróis";
abaixo com o Duke em "O Álamo".
Amigo de John Wayne - Entre os westerns de maior orçamento Denver Pyle demonstrou seu talento em “Johnny Guitar”, com Sterling Hayden; “Rajadas de Ódio” (Drum Beat), com Alan ladd; “Fora das Grades” (Run for Cover), com James Cagney; “Um de Nós Morrerá” (The Left-Handed Gun), com Paul Newman; “O Bandoleiro Solitário” (The Lone Man), com Jack Palance. Denver Pyle atuou em não-faroestes como  “Terrível como o Inferno” (To Hell and Back), biografia filmada de Audie Murphy e estrelada por ele mesmo e “Estradas do Inferno” (Sky Pilot), primeiro trabalho de Pyle com John Wayne. Paralelamente a esses trabalhos no cinema, Denver Pyle atuou em praticamente todas as melhores séries westerns da TV. Quando a década de 50 estava se fechando, Denver Pyle participou de “Marcha de Heróis” (The Horse Soldiers), de John Ford, com William Holden e John Wayne. Foi nesse filme que Denver e Duke ficaram amigos e John Wayne convidou Denver Pyle para participar de “O Álamo”. Nessa superprodução o Duke percebeu que Denver Pyle se destacava dos demais atores auxiliando-o como se fosse um verdadeiro assistente de direção, o que Denver acabou mesmo sendo. Veio em seguida “O Homem que Matou o Facínora” (The Man Who Shot Liberty Valance” que reuniu John Wayne, John Ford e mais uma vez Denver Pyle. No último western de John Ford que foi “Crepúsculo de uma Raça” (Cheyenne Autumn) Pyle interpretou um Senador da República.

Denver Pyle com Gene Hackman em
"Uma Rajada de Balas"; abaixo com
James Stewart em "Shenandoah".
Roubando a cena dos ladrões Bonnie e Clyde - Nos anos 60 Denver Pyle havia passado à condição de ator característico e poucos eram melhor que ele para interpretar personagens que expressavam autoridade e integridade apenas com o olhar. Desse período são o drama “Herança da Carne”, com Robert Mitchum e a comédia “A Corrida do Século” (The Great Race), com Tony Curtis, Jack Lemmon e Natalie Wood. Mas o faroeste era mesmo o gênero em que Denver Pyle era mais solicitado, tendo participado, entre os mais importantes de “Gerônimo”, com Chuck Connors; “Ginetes Intrépidos” (The Rounders), com Glenn Ford e Henry Fonda; “Shenandoah”, com James Stewart; “Matar ou Cair”, com Audie Murphy; “O Homem com a Morte nos Olhos” (Welcome to Hard Times), com Henry Fonda; “O Preço de um Covarde” (Bandolero!), com James Stewart e Dean Martin; “Pôquer de Sangue” (Five Card Stud), com Dean Martin e Robert Mitchum. Quando participou destes três últimos filmes, Denver Pyle já havia atuado em “Uma Rajada de Balas” (Bonnie and Clyde), um dos maiores sucessos de bilheteria de 1967. O personagem de Denver Pyle é o de Frank Hamer, o sheriff dos Texas Rangers que não descansa enquanto liquida Bonnie Parker-Clyde Barrow e seu bando. Dali em diante nunca mais Denver Pyle trabalharia ‘pela escala’ pois demostrou como era talentoso em papéis dramáticos.

Sequência do bullying sofrido pelo sheriff  Frank Hamer (Denver Pyle),
nas mãos de Bonnie (Faye Dunnaway), Clyde (Warren Beatty),
Buck Barrow (Gene Hackman) e C.W. Moss (Michael J. Pollard).

Denver Pyle na TV, com Doris Day (acima)
e com a divertida turma de "The Dukes of Hazzard".
‘Uncle Jesse Duke’, o tio mais querido da América - Em 1968, quando Doris Day foi obrigada a trabalhar na TV para pagar a astronômica dívida que o falecido marido lhe deixara, Denver Pyle foi escolhido para interpretar o simpático fazendeiro Buck Webb. Por três temporadas, as melhores da série “The Doris Day Show”, Denver Pyle esteve ao lado da incomparável atriz-cantora, fazendo com que o programa tivesse bons índices de audiência. Em 1971 Denver atuou em “Os Renegados” (Something Big), com Dean Martin; em 1973 Denver reencontrou-se com John Wayne em “Cahill – O Xerife do Oeste” (Cahill – U.S. Marshal). O Duke era J.D. Cahill e Denver era ‘Denver’ mesmo. Em 1976 Denver Pyle voltou a atuar com Paul Newman em “O Oeste Selvagem” (Buffalo Bill and the Indians). No final da década de 70 Denver Pyle, com quase 60 anos, havia engordado bastante e deixado crescer uma vasta barba grisalha. Ninguém mais perfeito para interpretar ‘Uncle Jesse Duke’ na série de TV “The Dukes of Hazzard”, que no Brasil foi exibida como “Os Gatões”. Espetacular sucesso de audiência, essa série transformou Denver Pyle em ídolo nacional na América. O sucesso da série perdurou por seis temporadas e até hoje é cultuada por seus fãs que se reúnem em cidades norte-americanas a bordo de seus Dodge Chargers 1969 pintados como o ‘General Lee’ (um automóvel customizado) da série.

Denver com a segunda esposa; abaixo em
uma cena de "Maverick".
Vida pessoal - Denver Pyle se casou pela primeira vez em 1955, com Marilee Carpenter, com quem teve dois filhos. Marilee trabalhava como assistente de produção na 20th Century-Fox, passando depois a ser uma espécie de agente do marido. Denver e Marilee se divorciaram em 1966, mas ela continuou a trabalhar para ele. Em 1983, aos 63 anos de idade, Denver Pyle se casou com Tippie Johnson, com quem viveu até o falecimento do ator. Denver morreu de câncer no pulmão no dia de Natal de 1997, em Burbank, Califórnia, no rancho de sua propriedade. Quando Denver se casou com Tippie ele vivia o auge do fenomenal sucesso da série “The Dukes of Hazzard”. Após o fim da série, em 1985, Denver Pyle passou a atuar cada vez menos no cinema e na TV, sendo “Maverick”, em 1994, seu último filme. Em “Maverick” Denver Pyle tem uma pequena mas marcante participação como um jogador de pôquer. Foi o último dos 114 filmes em que Denver Pyle atuou, além dos 140 programas de televisão, numa brilhante e prolífica carreira. Denver Pyle dirigiu diversos episódios das séries “The Dukes of Hazzard”, “The Doris Day Show” e “The Death Valley Days”. Em 1974 Denver Pyle ajudou a criar a série “Dirty Sally”, escrevendo e dirigindo alguns dos episódios. O personagem ‘Dirty Sally’ era intepretado por Jeanette Nolan, a magnífica atriz e esposa do igualmente magnífico John McIntire. São atores como Jeanette Nolan, John McIntire e Denver Pyle que ajudaram a fazer a grandeza do cinema e das séries de TV.

Diversos momentos da carreira de Denver Pyle, com destaque para os
personagens 'Briscoe Darling' (com Hugh Griffith) da série "The Andy Griffith
Show"; Buck Webb' (com Doris Day), da série "The Doris Day Show"
 e 'Mad Jack' (com Dan Haggerty), da série "O Homem da Montanha".
Cenas de "Marcha de Heróis", com Denver Pyle acima com Russell Simpson
e abaixo com Strother Martin.


20 de novembro de 2012

A LEI DO BRAVO (White Feather) – BELO E IGNORADO WESTERN PRÓ-ÍNDIOS


Comumente é atribuído a “Flechas de Fogo” (Broken Arrow), de Delbert Mann, ter sido o western pioneiro no tratamento simpático aos índios norte-americanos no cinema. Este blog já publicou uma postagem esclarecendo que antes de “Flechas de Fogo” foi produzido o faroeste dirigido por Anthony Mann intitulado “A Passagem do Diabo” (Devil’s Doorway), este sim, o primeiro filme a tratar dignamente os índios estadunideneses. Injustiça parecida ocorre com o western “A Lei do Bravo” (White Feather), dirigido por Robert D. Webb. Praticamente ignorado pelos autores de livros sobre faroestes, “A Lei do Bravo” só é citado como verbete pelas enciclopédias do gênero. Mesmo William K. Everson em seu primoroso estudo “The Hollywood Westerns” cita “A Lei do Bravo” em duas linhas, lembrando esse filme apenas pelo bom aproveitamento do então novo processo Cinemascope. Tão injustiçado quanto “A Passagem do Diabo” é “A Lei do Bravo”, filme rodado em 1954 em Durango, no México, lançado em 1955 e melhor ainda que os filme de Anthony Mann.


Jeffrey Hunter e Hugh O'Brian.
Dois bravos contra a Cavalaria - Delmer Daves que havia dirigido “Flechas de Fogo” foi o autor, em parceria com Leo Townsend, do roteiro de “A Lei do Bravo”, roteiro baseado em história de John Prebble. “A Lei do Bravo” se inicia informando que a história a ser contada se baseia em fatos reais, referindo-se evidentemente à retirada de centenas de milhares de índios das terras onde viviam há séculos, transferidos que foram para terras mais ao Sul de Dakota. É sempre válido lembrar que o que levou a esse processo de remoção das tribos foram os anúncios que haveria muito ouro nos territórios ocupados pelas nações indígenas. Foi inserida nos ‘fatos reais’ a fictícia presença do agrônomo Josh Tanner (Robert Wagner) enviado ao Forte Laramie para iniciar o trabalho de delimitação das terras a serem confiscadas aos índios. Antes de Josh Tanner se apresentar ao Coronel Lindsay (John Lund) ele trava contato e torna-se amigo dos provocadores cheyennes Little Dog (Jeffrey Hunter) e de American Horse (Hugh O’Brian). Little Dog é filho do chefe cheyenne Broken Hand (Eduard Franz) e irmão de Appearing Day (Debra Paget). O chefe Broken Hand decide assinar o tratado que implica na transferência dos cheyennes para as reservas, com o que não concordam Little Dog e American Horse. Os dois índios sozinhos enfrentam quixotescamente as tropas comandadas pelo aturdido Coronel Lindsay. Ao final Josh Tanner casa-se com Appearing Day.

Debra Paget
Produção Classe A sem um grande astro - “A Lei do Bravo” foi uma produção da Panoramic Productions, associada à 20th Century-Fox. Embora com o custo relativamente pequeno de um milhão e trezentos mil dólares, “A Lei do Bravo” foi rodado em Technicolor, Cinemascope e com mais de mil figurantes recrutados no México. Esse foi o primeiro western a ser rodado em Durango e em algumas sequências observa-se a presença de mais de uma centena de cavalos, muitos deles montados sem sela por dublês interpretando índios. Era costume dos grandes estúdios que aplicavam o ‘star-system’ incluir jovens e promissores atores em pequenos papéis nos filmes para impulsionar suas carreiras. No caso de “A Lei do Bravo” os principais papéis foram entregues a Robert Wagner, Jeffrey Hunter e Debra Paget, todos jovens contratados da 20th Century-Fox, economizando assim os salários de astros do porte de um James Stewart, por exemplo. Ainda assim, com atores em início de carreira, “A Lei do Bravo” é uma produção classe A que contou com a cinematografia do já respeitado Lucien Ballard e com trilha sonora composta por Hugo Friedhofer. Na década de 60 Lucien Ballard seria o responsável pela cinematografia de filmes como “Bravura Indômita” e “Meu Ódio Será Sua Herança”, para citar apenas dois de seus grandes trabalhos. Um filme com essa produção enganosamente de médio orçamento foi dirigida por Robert D. Webb em seu quinto filme como diretor e que até então nada havia feito de mais expressivo.

A longa caminhada das tribos ao deixar as terras de seus ancestrais;
os dois bravos desafiando a cavalaria norte-americana.

Eduard Franz, o chefe cheyenne; abaixo
Franz com Iron Eyes Cody.
A cruel e verdadeira história - “A Lei do Bravo” resultou em um excelente western que atinge plenamente o objetivo de conscientizar o espectador sobre os fatos que levaram ao grande genocídio dos nativos norte-americanos. Em nenhum momento do filme é atenuada a denúncia da política criminosa praticada contra os índios e executada pelas tropas do Exército, cumpridoras de ordens vindas de Washington. ‘América para os Americanos’, entre os quais não se incluem os nativos da terra porque eram índios. Num crucial diálogo de “A Lei do Bravo” a índia Appearing Day inocentemente indaga por que razão os índios não podem viver nas terras onde vivem os invasores de seus territórios. Se os brancos deixam suas terras para viverem nas terras dos índios, por que Sioux, Arapahoes, Crow, Blackfeet e eles Cheyennes devem ir para terras desconhecidas? Mostra “A Lei do Bravo” que alguns poucos índios, no caso American Horse e Little Dog preferem morrer lutando por seus direitos que sobreviver envergonhado como o chefe Broken Hand. O chefe cheyenne justifica que desapareceram os búfalos de suas terras e que a falta de caça orientou sua decisão de assinar um tratado. Seu gesto covarde possibilitou a ele sobreviver por muitos anos mais, até mesmo, como informa o narrador do filme, ver seu neto mestiço se formar em West Point. Mais do que uma concessão ou uma aposta na miscigenação das raças, o casamento de exceção entre Josh Tanner e Appearing Day soa como uma amarga crítica ao futuro dos índios.

Broken Hand aceitando as condições do tratado
imposto pelos brancos.
O conformismo de uma nação – Certamente John Ford assinaria sem hesitar a belíssima sequência do êxodo das tribos em direção às terras desconhecidas. Talvez John Ford quisesse mesmo expressar com sua méa culpa que foi “Crepúsculo de uma Raça” (Cheyenne Autumn) um filme tão bonito e tocante como “A Lei do Bravo”. Se este western de Robert D. Webb não chega a ser perfeito é justamente por faltar aquele toque poético que Ford dava a seus filmes e personagens. Quando da morte de Little Dog com Josh Banner ao lado do amigo índio morto, cena que dura três longos minutos, ao invés de enternecer o que Webb consegue é cansar sem nada transmitir. Mas os magníficos achados de “A Lei do Bravo” são muitos, entre eles o treinamento dos cheyennes; o preconceito dos cheyennes que se julgam superiores aos crows; Little Dog e American Horse fustigando atrevidamente com seus cavalos um linha de soldados. Acima de qualquer outra situação é perfeita a triste visão do conformismo de uma nação índia derrotada e subjugada pela força superior de seus oponentes. A lamentar que uma subtrama importante tenha sido reduzida, no caso a presença de Ann Magruder (Virginia Leith), filha do comerciante racista Magruder (Emile Meyer), estuprada aos 13 anos. Ann se interessa por Josh Tanner que por sua vez se apaixona pela índia Appearing Day.

Jeffrey Hunter (acima); Noah Beery Jr.
e Virginia Leith (abaixo).
Cinematografia e trilha sonora impecáveis - A deslumbrante cinematografia de Lucien Ballard torna-se ainda mais bonita com a impressiva trilha música de Hugo Friedhofer, das melhores certamente entre os faroestes dos anos 50. O uso constante da percussão pela orquestra evidência os momentos de grande tensão. Esse conjunto torna “A Lei do Bravo” imperdível, mas há ainda a brilhante atuação de Eduard Franz como o chefe Broken Hand, dando a seu personagem, como poucas vezes se viu em um ator branco interpretando um nativo, a amargura de ser responsável pela dilaceração de seu povo. Jeffrey Hunter chega a ser caricato em alguns momentos com trajes índios mais parecidos com fantasias de carnaval. Comprova, porém, que é um bom ator, neste filme em que usa lentes de contato para escurecer os olhos azuis que anos depois fariam dele o mais bonito Jesus Cristo já visto no cinema. Debra Paget praticamente repete seu personagem de “Flechas de Fogo”, inclusive com o mesmo figurino. Robert Wagner é muito jovem e não convence como o corajoso agrimensor, dada a importância de seu personagem. Virginia Leith chama a atenção por sua semelhança, inclusive na fragilidade, com Gail Russell. O bom elenco de apoio é completado por Hugh O’Brian, o ótimo Emile Meyer, John Lund praticamente sem ser exigido e o querido Milburn Stone (o Doc de “Gunsmoke”, também num papel sem maiores chances de demonstrar seu real talento. “A Lei do Bravo” é um daqueles ótimos e subestimados faroestes ao qual faltou um nome de maior peso na direção e no elenco para despertar a atenção da crítica que praticamente o ignorou através dos anos, como foi escrito acima.

O índio Little Dog (Jeffrey Hunter).


17 de novembro de 2012

A FACETA RANCOROSA DE JOHN WAYNE


Quando se fala de John Wayne é comum usar adjetivos como leal, franco, generoso, modesto e outros mais que engrandecem qualquer pessoa. Mas como qualquer ser humano John Wayne não era perfeito e uma passagem ocorrida em 1971 mostra um pouco conhecido aspecto da personalidade de John Wayne, sua faceta rancorosa.

Os políticos Barack Obama
e Christopher Mitchum.
Quase um Mitchum X Barack Obama - O democrata Barack Obama enfrentou e venceu o republicano Mitt Romney nas últimas eleições presidenciais. Mas o adversário de Obama poderia ter sido alguém com um rosto com traços bastante conhecidos dos cinéfilos mais antigos. Obama poderia ter enfrentado Christopher Mitchum, o filho de Robert Mitchum bem parecido com ele e com o mesmo ar sonolento. Mesmo atuando no cinema, aos quase 70 anos (Chris nasceu em 1943), Christopher Mitchum está sempre envolvido com a política e por pouco não venceu as primárias na Califórnia, o que poderia levá-lo a ser indicado como o candidato republicano nas eleições presidenciais de 2012. Essa não foi a única derrota política do filho de Robert Mitchum pois em 1971 Christopher conseguiu involuntariamente se transformar em adversário político de John Wayne. O leitor sabe que o Duke era um dos mais conservadores homens de direita dos Estados Unidos e republicano extremado, fato que naturalmente faria com que tivesse mais simpatia pelo também republicano Christopher Mitchum, mas não foi o que aconteceu.

Chris Mitchum em "Rio Lobo" (acima) e em
"Jake, o Grandão" (abaixo).
A Batjac contrata o filho de Bob Mitchum - Christopher Mitchum graduou-se em Literatura Inglesa e não pretendia ser ator. Porém, já casado, tendo que sobreviver e carregando o sobrenome famoso, não tardou a começar a atuar, fazendo pontas em “O Pistoleiro Marcado” (Young Billy Young) e “Basta, Eu Sou a Lei” (The Good Guys and the Bad Guys), faroestes estrelados por Robert Mitchum e dirigidos por Burt Kennedy. Muito provavelmente John Wayne levou em consideração a amizade que tinha com Robert Mitchum e sua produtora Batjac contratou Christopher Mitchum. O primeiro filme de Chris para a Batjac foi “Chisum, Uma Lenda Americana” (Chisum), em 1970, num papel bastante pequeno. O próximo trabalho de Christopher Mitchum para a Batjac foi no faroeste “Rio Lobo”, dirigido por Howard Hawks e estrelado por John Wayne. Christopher Mitchum já era um nome conhecido e em 1971 interpretou um dos filhos de John Wayne em “Jake, o Grandão” (Big Jake). A amizade entre Duke e Chris Mitchum parecia se fortalecer a cada filme e isso era certeza de participação em novos filmes da Batjac. “Jake, o Grandão” párecia ser mais um sucesso garantido de John Wayne, mas já ocorria a prática de promover o filme com os atores visitando os programas de entrevistas e o mais famoso daquele tempo era o “The Tonight Show”, apresentado por Johnny Carson.

O apresentador Johnny Carson (acima);
Duke e Chris em "Jake, o Grandão".
Comunista disfarçado - A noite em que Duke iria aparecer no talk-show de Johnny Carson era elevaria, sem dúvida, ainda mais a grande audiência daquele programa transmitido de costa a costa nos Estados Unidos. Johnny Carson conversou longamente com John Wayne e depois passou a entrevistar Christopher Mitchum com John Wayne atento sentado ao lado. Chris havia acabado de ser laureado pela revista ‘Photoplay’ como o jovem ator mais promissor de 1971 entre os novos atores de Hollywood. Johnny Carson perguntou a Chris o que ele andava fazendo e o ator contou que estava participando da organização do primeiro trabalho de conscientização da população sobre o tão necessário respeito ao meio-ambiente. Embora politicamente simpático ao partido republicano, Christopher Mitchum sabia que era obrigação de todo cidadão cuidar melhor do ar e da água. Para John Wayne, quem tinha adotava posições como essas, era contrário ao interesse industrial da nação. O Duke interrompeu a fala de Chris e lhe disse: “Se eu soubesse que você era um desses ‘pinko commies’ (comunistas disfarçados)...” Chris retrucou dizendo: “Duke, não se pode ensinar novos truques a um cão velho”. Perdendo de vez a paciência depois de vestir a carapuça de 'cão velho', John Wayne explodiu: “Olha, filho, não pode ensinar nada para certas bonecas”. Atônito Johnny Carson assistiu a esse inacreditável diálogo, assim como o país inteiro.

Grande sucesso na Europa, com Chris Mitchum novamente
atirando com rifle com mira telescópica e pilotando uma
moto (Yamaha Enduro), como fizera em "Jake, o Grandão".
Nem direita, nem esquerda - Nos dias seguintes Chris-topher recebeu centenas de cartas em seu apoio, todas as cartas com cópias de cartas enviadas a John Wayne condenando-o por sua falta de sensibilidade como ser humano e falta de respeito para com o filho de Bob Mitchum. Mesmo tendo contrato de cinco anos com a Batjac, ninguém da produtora de John Wayne procurou novamente por Christopher Mitchum. Pouco depois John Wayne foi operado e Chris enviou diversas cartas ao Duke que, sabia-se, respondia pessoalmente a todas cartas. Todas menos as de Christopher Mitchum. Pior que isso foi quando Chris tentou fazer parte do elenco de “Steel Yard Blues” e foi informado que jamais ele poderia trabalhar naquele filme. Chris quis saber por que e lhe disseram que os astros eram Jane Fonda e Donald Sutherland e que ele nunca trabalharia com Jane Fonda. “Por quê?” perguntou Chris. “Porque você costuma trabalhar com John Wayne”, foi a resposta. No início dos anos 70 a esquerda dominava Hollywood, com Jane Fonda e outros liberais à frente, enquanto o republicano Christopher Mitchum era dos poucos atores que tinham coragem de defender a presença norte-americana no Vietnã. Chris não conseguia mais trabalho pois estava sendo perseguido pela esquerda e pela direita também, que não havia digerido a discussão coast-to-coast com John Wayne. O filho de Bob Mitchum só conseguiu convite para trabalhar na Espanha, país que vivia um bom momento cinematográfico. Na Espanha foi produzido “Um Verano para Matar” (The Summertime Killer), com Karl Malden, Olivia Hussey, Raf Vallone e Christopher Mitchum, filme que fez muito sucesso na Europa e na Ásia. Interpretando o matador do filme, o jovem Mitchum tornou-se um astro e viu abrir-se um novo mercado de trabalho.

O famoso disco de John Wayne, com poemas de James
Mitchum, o irmão de Robert Mitchum, na foto com
Clint Eastwood em "Meu Nome é Coogan".
‘America, Why I Love Her' - Depois de oito filmes no exterior Chris Mitchum ensaiou um retorno aos Estados Unidos, atuando em “Os Últimos Machões” (The Last Hard Men), com Charlton Heston e James Coburn filme dirigido por Andrew McLaglen, amigo de John Wayne. Sem outras oportunidades em seu país, Chris Mitchum foi atraído pelas propostas que vinham de fora e seus filmes na Europa e Ásia fizeram dele um astro do porte de Alain Delon, Charles Bronson e Clint Eastwood. Robert Mitchum gostava de contar que quando foi ao Japão filmar “Operação Yakuza”, era reconhecido como ‘o pai de Christopher Mitchum’, numa inversão total da fama que Bob conhecia há décadas. Curiosamente, no início dos anos 70 John Wayne decidiu gravar um álbum intitulado “America, Why I Love Her” com poemas exaltando sua amada pátria, disco que naturalmente vendeu centenas de milhares de cópias. E quem era o autor dos poemas declamados por John Wayne? James Mitchum, o irmão mais velho de Robert Mitchum e tio de Christopher. Claro que os liberais não compraram o álbum e mais que nunca associaram o nome 'Mitchum' à direita norte-americana.

Christopher Mitchum e Ronald Reagan.
Seguindo os passos de Reagan - Ídolo incontestável fora de seu país, Christopher Mitchum voltou aos Estados Unidos decidido a seguir os passos de Ronald Reagan. O ator de “Em Cada Coração um Pecado” e de “A Audácia é Minha Lei” aprendeu a fazer política como presidente do poderoso sindicato Screen Actor Guild. De lá passou a Governador da Califórnia e a Presidente de seu país. Chris Mitchum foi eleito Primeiro Vice-Presidente do Screen Actors Guild mas não repetiu a trajetória de Reagan, tendo que voltar a filmar, quase sempre no exterior. No total Chris filmou em 14 países diferentes, feito que talvez nem o globe-trotter Anthony Quinn tenha conseguido. Nos anos 90, aproximando-se dos 50 anos, Christopher Mitchum se fixou nos Estados Unidos, mesclando seu trabalho como ator com a política. Em 1993 Chris fez parte do elenco de “Tombstone – A Justiça Está Chegando”, um dos grandes westerns do fim do século passado. Seu pai Bob Mitchum foi o narrador desse filme que teve ainda a presença dos veteranos Charlton Heston, Harry Carey Jr. e Buck Taylor.


Christopher Mitchum
Lista negra de John Wayne - Em 2012, atuando menos e participando mais da política, Christopher Mitchum foi indicado pelo Partido Republicano local a participar das eleições primárias do para a presidência de república, na Califórnia, substituindo o Governador Jerry Brown que desistiu de concorrer. Christopher acabou derrotado por Abel Maldonado que afinal também foi derrotado na fase final da indicação do candidato do partido. Certamente essa derrota não deve ter doído tanto em Chris quanto ter sido vítima do rancor de John Wayne que jamais o perdoou por ter idéias ‘avançadas’ para o pensamento conservador dos republicanos da época. Não tivesse entrado para a lista negra de John Wayne talvez a carreira de Chris Mitchum fosse melhor sucedida em seu próprio país, aproximando-se da espetacular carreira de seu pai, Bob Mitchum, este sim, um dos mais extraordinários atores norte-americanos de qualquer tempo. E não é que Robert Mitchum e John Wayne eram amigos... Também se não fossem Bob sacudiria os ombros, daria uma profunda tragada e diria: “Baby, I don’t care” (Cara, não estou nem aí), sua frase preferida e verdadeira filosofia de vida.


Acima Bob Mitchum com os filhos James e Chris; abaixo à direita três gerações
Mitchum: Bob, Chris e seu filho Bentley, também ator; no centro acima Petrine

Mitchum, filha de Bob Mitchum; abaixo Carrie Mitchum, filha de Chris Mitchum;
à esquerda Julie Mitchum, irmã de Robert Mitchum. Todos atuaram no cinema.


Alguns dos filmes em que Chris Mitchum atuou para prosseguir a promissora
carreira que John Wayne de certa maneira prejudicou.





16 de novembro de 2012

RONALD REAGAN, COWBOY BOM DE BRIGA


Ronald Reagan sempre foi acusado de ser canastrão como ator, ainda que tenha
mostrado ser capaz de boas atuações. Mas para brigar nos filmes Ronald era dos
melhores. Comprove essa verdade assistindo ao vídeo abaixo em que o futuro
presidente norte-americano mostra que era mesmo bom de briga.



14 de novembro de 2012

A AUDÁCIA É MINHA LEI (Tennessee’s Partner) – A LEALDADE NO VELHO OESTE


A palavra ‘partner’, em Português, significa par, parceiro ou sócio. No Velho Oeste norte-americano essa palavra era pronunciada pardner, ganhando conotação mais ampla pois passou a significar companheiro de jornadas, amigo de verdade. Na pronúncia carregada dos cowboys virou pal, como é ouvida em muitos filmes. Pardner poderia ser também o cavalo dos mocinhos aquele que nos faroestes ‘B’ era quase sempre mais importante para ele que a própria mocinha. O Pardner verdadeiro devota ao amigo, acima de tudo, Lealdade e o gênero western é pródigo em mostrar essa qualidade cada vez mais rara entre os seres humanos.

Pardners na tela: Paul Newman e Robert Redford
Kevin Costner e Robert Duvall - Robert Duvall e Tommy Lee Jones
Randolph Scott e Joel McCrea - Warren Oates e Peter Fonda
Victor Mature e Henry Fonda - Kurt Russell e Val Kilmer
Henry Fonda e Anthony Quinn - Viggo Mortensen e Ed Harris

Amizades inesquecíveis - A mais famosa amizade do Velho Oeste mostrada pelo cinema foi a de Butch Cassidy com Sundance Kid (Paul Newman e Robert Redford), mas há dezenas de leais amizades que merecem igualmente ser lembradas. Entre as amizades memoráveis estão a de Peter Fonda com Warren Oates em “Pistoleiro Sem Destino”; a de Randolph Scott e Joel McCrea em “Pistoleiros do Entardecer”; a de Robert Duvall e Kevin Costner em “Pacto de Justiça”; a de Anthony Quinn e Henry Fonda em “Minha Vontade é Lei”; mais recentemente a amizade de Ed Harris e Viggo Mortensen em “Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei”. Clássica em muitos westerns foi a amizade entre os personagens Wyatt Earp e Doc Holliday, com destaque para Henry Fonda-Victor Mature e Kurt Russell-Val Kilmer, respectivamente em “Paixão dos Fortes” e “Tombstone – A Justiça está Chegando”. Os exemplo são tantos mas é impossível deixar de citar uma das mais poéticas amizades entre pardners nos faroestes que foi aquela entre os personagens de Robert Duvall e Tommy Lee Jones em “Pistoleiros do Oeste” (Lonesome Dove). “A Audácia é Minha Lei” (Tennessee’s Partner), de Allan Dwan é mais um filme sobre o tema ‘Lealdade’, ainda que fique longe das amizades aqui citadas.


Acima Cowpoke e Tennessee;
abaixo Cowpoke e Goldie.
Os amigos Tennessee e Cowpoke - Da série de westerns que Allan Dwan dirigiu para o produtor Benedict Bogeaus, o melhor foi “Homens Indomáveis” (Silver Lode), mas o mais caro e mais bem produzido foi “A Audácia é Minha Lei”, de 1955. O roteiro de “Tennessee’s Partner” foi baseado em uma história de Bret Harte que já havia sido filmada duas vezes no cinema mudo, em 1916 e em 1924, esta última com Harry Carey. Os dois principais personagens do filme são conhecidos simplesmente por Tennessee (John Payne) e Cowpoke (Ronald Reagan). A ação se passa na cidade de Sandy Bar, na Califórnia, num tempo em que todos queriam descobrir ouro. Todos menos Tennessee que vestido com elegância, não se dispunha a sujar as mãos, extraindo seu ganha-pão nas mesas de pôquer. Tennessee é salvo de ser morto em uma emboscada armada por um seu desafeto no jogo. Quem o salva é o estranho chamado Cowpoke recém-chegado a Sandy Bar. Tennessee e Cowpoke tornam-se amigos e o cowboy revela que está lá para se casar com Goldie Slater (Coleen Gray), que como o próprio nome indica se interessa mesmo é pelo dinheiro de Cowpoke. Goldie é instalada num local chamado ‘Marriage Market’, misto de bordel e casa de jogos, lugar dirigido por Elizabeth ‘Duchess’ Farham (Rhonda Fleming). A amizade entre Tennessee e Cowpoke é salientada quando o jogador prova que a noiva de Cowpoke é o que se chamava na época de ‘gold-digger’ (cavadora de ouro), levando-a para São Francisco às vésperas do casamento. Custa para Cowpoke entender que a atitude do amigo foi um ato de dolorosa lealdade. Acostumado a limpar as carteiras dos demais jogadores nas mesas de pôquer, Tennessee tem de enfrentar a ira de Turner (Anthony Caruso) que tenta matá-lo. Cowpoke se interpõe entre os dois e é alvejado por Turner, morrendo pelo amigo Tennessee. O jogador perde o amigo mas fica com a bela Duchess como consolação, casando-se com ela.

As espetaculares brigas de "A Audácia é Minha Lei".
Brigas antológicas - “A Audácia é Minha Lei” é um faroeste com roteiro que tenta alternar momentos cômicos com outros dramáticos. Ocorre que comicidade nunca foi o forte de Allan Dwan e até mesmo o único personagem engraçado do filme que é o do minerador Grubstake McNiven (Chubby Johnson) não faz rir. Culpa de quem pediu para Chubby Johnson tirar a tradicional barba. E a trama principal, que é Cowpoke ser enganado pela aventureira Goldie Slater, é inteiramente inconvincente. Cinco anos depois Henry Hathaway faria muito melhor e com mais graça no clássico “Fúria no Alasca” com Capucine querendo dar o golpe em qualquer um dos endinheirados aventureiros (John Wayne ou Stewart Granger). Se há algo de fato cômico em “A Audácia é Minha Lei” é ver o xerife (Leo Gordon) prendendo e soltando os pardners a todo momento, ele Leo Gordon, eternamente atrás das grades em outros filmes. O que torna este faroeste imperdível são as duas inacreditavelmente realistas brigas que acontecem, sem a utilização de dublês (exceção de um impressionante vôo de três metros de altura mostrado na foto acima). A primeira das lutas, não propriamente uma luta, mas uma surra que Cowpoke (Reagan) aplica em Tennessee (Payne), sem que este reaja; a segunda, esta sim, uma luta autêntica entre Tennessee e Turner (Tony Caruso), briga para matar de inveja as muitas simulações com doublês vistas em filmes, por exemplo, de Randolph Scott. As duas sequências valem o preço do DVD. Outra excepcional sequência criada por Allan Dwan é o jogo de pôquer entre Tennessee e Reynolds (Myron Healey), tão emocionante como um duelo no meio da rua principal. Mas há mais no filme para deliciar o espectador.

Tennessee e Duchess.
Luxo para os padrões da RKO - Em 1955 Howard Hughes vendeu a RKO para a gigante General Tire and Rubber Company, cuja orientação era fazer filmes econômicos, no que Allan Dwan era mestre. Com orçamentos sempre inferiores a um milhão de dólares e nunca ultrapassando três semanas de filmagens o veterano diretor era um mestre em realizar filmes bons e baratos. Porém o espectador ao assistir “A Audácia é Minha Lei” fica com a impressão de ter visto uma superprodução. A estonteante Rhonda Fleming muda de vestidos a cada sequência, vestidos dignos dos ricos guarda-roupas da milionária MGM. E o bordel-saloon ‘Marriage Market’ é simplesmente o mais luxuosamente decorado de qualquer faroeste, obra do diretor de arte Van Nest Polglase, responsável entre outros filmes pela direção de arte igualmente barroca de “Cidadão Kane”. O multicolorido lupanar tem seus cores e objetos exibidos com brilho invulgar pela iluminação e lente da câmara do húngaro John Alton, cinegrafista do balé final de “Sinfonia em Paris”. Mas a estática câmara de John Alton filma a maior parte dos diálogos de “A Audácia é Minha Lei” com os atores de perfil, não buscando ângulos melhores e tornando as cenas até monótonas. A trilha sonora tem a vibração comum aos faroestes da RKO e como bônus a animada canção “Heart of Gold”, também cantada num entrecho do filme por Rhonda Fleming quando esta está se banhando.

A placa na porta do 'Marriage Market'
e o sheriff interpretado por Leo Gordon;
as ladies do bordel.
Faroeste agradável - Muito justamente apelidada ‘The Queen of Technicolor’, Rhonda Fleming desfila sua beleza (e vestidos) enquanto administra o ‘Marriage Market’. Esse é o nome da casa onde lindas e sempre disponíveis moças (uma delas Angie Dickinson) aguardam pretendentes a um possível casamento, como indica o nome do lugar. E a placa à porta do ‘Marriage Market’ diz: ‘Mercado de Casamento – Jovens senhoritas, todas capazes de cozinhar e todas desejosas de encontrar maridos decentes – Gerente: Elizabeth Farham’. Divido em três setores, o salão de estar, a sala de jogos e o andar superior com as alcovas, é lá que se ganha e se perde, se ama e se é traído. Lá circula a figura exuberante e sensual de Rhonda Fleming, com quase nada para fazer além disso, num papel irrelevante até porque “A Audácia é Minha Lei” é um filme sobre a amizade masculina. John Payne com bigode e cinismo na linha de Clark Gable se sai bem como Tennessee, assim como Ronald Reagan faz o que melhor sabia fazer na vida que é interpretar ele mesmo, ou seja, um cowboy. O excelente elenco de apoio é composto por Anthony Caruso em grande forma física, Morris Ankrum, Chubby Johnson sem barba e sem graça, Myron Healey e Leo Gordon como o autoritário xerife de Sandy Bar. “A Audácia é Minha Lei” é um western que vale à pena ser visto, trazendo saudade dos tempos em que nossos cinemas apresentavam rotineiramente faroestes agradáveis como esse.


RHONDA FLEMING: LUXO, BELEZA E SENSUALIDADE


Nos quadros acima e abaixo os muitos modelos que vestiram a beleza
de Rhonda Fleming em "A Audácia é Minha Lei".



12 de novembro de 2012

DJANGO DE TARANTINO ESTÁ CHEGANDO - CONTAGEM REGRESSIVA


Está anunciado para o dia 18 de janeiro de 2013 a estréia no
Brasil de "Django Livre" (Django Unchained), western dirigido
por Quentin Tarantino. Com a escassez de faroestes no cinema
atual este é muito aguardado, não só pelo diretor, mas também
pelo grande elenco. Enquanto não chega esse raro western,
vamos assistir ao trailler:



10 de novembro de 2012

ENFORCAMENTOS AOS SOM DE "TOM DOOLEY", COM NEIL YOUNG & CRAZY HORSE


Neil Young completa 67 anos no dia 12/11/2012 e WESTERNCINEMANIA
lembra a efeméride com uma postagem com esse extraordinário artista
cantando e tocando, acompanhado pelo Crazy Horse, a clássica canção
"Tom Dooley". Essa música narra a execução de um condenado à forca
acusado de assassinar a noiva e emoldura esta postagem que traz cenas
de enforcamentos de grandes faroestes. Neil Young foi o responsável pela incrível
trilha sonora do western "Dead Man", de Jim Jarmusch com Johnny Depp.




A canção "Tom Dooley" teve dezenas de gravações, sendo a do Kingston Trio,
gravada em 1958, a mais conhecida tendo cehgado ao primeiro lugar do
hit parade nos Estados Unidos, na Inglaterra e em outros países.
Abaixo, a letra de "Tom Dooley", conforme gravada pelo Kingston Trio.

There've been many songs written about the eternal triangle
This next one tells the story of a Mr Grayson, a beautiful woman
And a condemned man named Tom Dooley...
When the sun rises tomorrow, Tom Dooley... must hang...

Hang down your head, Tom Dooley
Hang down your head and cry
Hang down your head, Tom Dooley
Poor boy, you're bound to die
I met her on the mountain
There I took her life
Met her on the mountain
Stabbed her with my knife

Hang down your head, Tom Dooley
Hang down your head and cry
Hang down your head, Tom Dooley
Poor boy, you're bound to die

This time tomorrow
Reckon where I'll be
Hadn't a-been for Grayson
I'd a-been in Tennessee

Hang down your head, Tom Dooley
Hang down your head and cry
Hang down your head, Tom Dooley
Poor boy, you're bound to die

Hang down your head, Tom Dooley
Hang down your head and cry
Hang down your head, Tom Dooley
Poor boy, you're bound to die

This time tomorrow
Reckon where I'll be
Down in some lonesome valley
Hangin' from a white oak tree

Hang down your head, Tom Dooley
Hang down your head and cry
Hang down your head, Tom Dooley
Poor boy, you're bound to die

Hang down your head, Tom Dooley
Hang down your head and cry
Hang down your head, Tom Dooley
Poor boy, you're bound to die

Poor boy, you're bound to die
Poor boy you're bound to die
Poor boy, you're bound to die...