UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN
1 de fevereiro de 2021
ENCENAÇÃO DO DUELO DO CURRAL OK (REENACTMENT OF THE GUNFIGHT AT THE OK CORRAL) - Parte 2
Participantes: Beto Nista, Lázaro Narciso Rodrigues, André Bova, André Colombo, Milton Martins, Renan hard e Darci Fonseca - Direção: Darci Fonseca.
ENCENAÇÃO DO FINAL DE "DUELO DE TITÃS" (LAST TRAIN FROM GUN HILL)
Participantes: Beto Nista, André Bova, Lázaro Narciso, Darci Fonseca, André Colombo - Direção: Darci Fonseca.
1 de janeiro de 2021
A VINGANÇA DO LÁTEGO (MAN WITH THE STEEL WHIP) – ÚLTIMO SERIADO WESTERN DA REPUBLIC PICTURES
Produção econômica e descuidada - A Republic Pictures, conhecida como ‘A Casa dos Seriados’ e onde foram produzidos alguns dos grandes clássicos desses filmes, usou até onde pode a figura de El Zorro, até que a Disney se apropriou do personagem criado por Johnston McCulley. Mas se havia algo que a Republic sabia fazer melhor que ninguém, além de bons seriados, era resolver as dificuldades a seu modo. Se não era mais possível usar o El Zorro, que se criasse outro mocinho com as mesmas características e foi assim que nasceu ‘El Látego’, que a criançada falava ‘El Latêgo’. Ronald Davidson elaborou o roteiro e Franklin Adreon produziu e dirigiu com a costumeira economia que o estúdio não abria mão de praticar. A começar pelo traje do herói, em tudo parecido com o que foi usado por Linda Stirling em “O Chicote do zorro” (Zorro’s Black Whip), de 1944. Sequências de arquivo foram utilizadas em profusão, como era prática comum nos seriados, mas neste há até uma sequência de flash-back ocupando boa parte de um episódio. Seriados westerns eram mais baratos porque as externas eram filmadas logo ali em Alabama Hills ou no Iverson Ranch, mas percebe-se neste “A Vingança do Látego” que a maior parte das externas, quando não de arquivo, foram feitas mesmo no terreno do estúdio, sem o menor cuidado com o cenário que se altera durante uma mesma sequência.
Nos mais de 40 anos em que Hollywood
produziu seriados o gênero western raramente deixou de ter pelo menos um
exemplar anual para alegria dos fãs de aventuras passadas no Velho Oeste. Buck
Jones foi, entre os mocinhos famosos, o que mais estrelou seriados westerns,
num total de seis e Johnny Mack Brown o seguiu de perto com quatro desses
filmes em capítulos. Este blog faz pela primeira vez uma resenha de um seriado
e o escolhido foi o último do gênero faroeste produzido pela Republic Pictures:
“A Vingança do Látego”, de 1954. Como se sabe os seriados da década de 50 são
considerados dos mais fracos, mas para mim este que é focalizado tem um
significado muito especial pois foi o último que assisti nas matinês dominicais
do Cine Marconi, situado à Rua Correa de Melo, no Bom Retiro, em São Paulo. O
ano muito distante era o de 1955. Foi o útimo porque a partir de então não mais
aquele pequeno cineminha com cadeiras de madeira exibiu outro seriado, para
tristeza da garotada que os adorava e não perdia um episódio desse tipo de
filme. O amigo Sebá Santos me providenciou uma cópia de “A Vingança do Látego”
e matei a saudade das aventuras daquele cavaleiro mascarado que parecia mas não
era o Zorro, imagens que nunca saíram da minha lembrança e que não poderiam
deixar de ser comentadas aqui no Westerncinemania.
Mocinho que monta bem e briga mehor - A economia se estendeu na escolha do elenco com os principais personagens sendo interpretados por nomes pouco conhecidos do público, à exceção de Roy Barcroft que tem pequena participação, desta vez como sheriff, aparecendo apenas no 8.º capítulo e depois no 10.º e 12.º. O herói mascarado foi vivido por Dick Simmons (foto ao lado), ator então com quase 20 anos de carreira e que só viria a se tornar mais conhecido ao interpretar o ‘Sargento Preston’, da série de TV “O Rei da Polícia Montada” (1955/1958), atuando como Richard Simmons. Dick montava bem, brigava melhor ainda, tinha ótima voz e isso bastava para compensar sua total falta de carisma. Barbara Bestar foi a mocinha, com pouco a fazer na aventura. O trio de vilões foi interpretado por Dale Van Sickel, Lane Bradford e Mauritz Hugo, sendo que nas sequências de ação em que Van Sickel e Bradford travavam luta corporal com Dick Simmons, eram eles próprios que lutavam, dispensando os dublês. Tom Steele, além de fazer figuração como membro da quadrilha, vestia a roupa do Látego e enfrentava os bandidos com sua excepcional forma atlética.
De olho nas terras dos índios - Produzido em 12 episódios, “A Vingança do Látego” narra o interesse de Barnett (Mauritz Hugo, na foto ao lado), dono do saloon, em se apropriar das terras da reserva onde vivem os índios. Para isso tenta instigar os habitantes da cidade contra os nativos. Barnett sabe que nessas terras há ouro e daí o seu interesse, contando com o trabalho de seu capanga Crane (Dale Van Sickel) e de Tosco (Lane Bradford), um índio renegado. Barnett não contava era com a interferência de Jerry Randall (Dick Simmons) que se posiciona a favor dos índios protegendo-os. Para ganhar a simpatia dos pele-vermelhas Randall faz reviver a figura lendária de 'El Latego' que no passado teria sido grande amigo dos índios. Crane e Tosco dão trabalho a Randall durante todos os doze capítulos. Randall conta com as informações de Nancy Cooper (Barbara Bestar) a professora da escola local, mas enfrenta os criminosos sozinho, ou melhor, armado com seu Colt e chicote. Ao final a quadrilha é desbaratada e a paz volta a reinar entre brancos e índios. (Nas fotos abaixo vemos Dale Van Sickel com Mauritz Hugo e Lane Bradford com Hugo)
Ricochete no feno - Uma curiosidade é o título deste seriado que diz que o chicote seria de aço quando de fato, e não poderia ser diferente, ele é feito de couro. E muito bem manuseado por Dick Simmons. “A Vingança do Látego” foi filmado em inacreditáveis 18 dias, entre 2 e 22 de março de 1954 (excluídos os domingos), ao custo exíguo de 175 mil dólares. Mesmo contando com técnicos de reconhecida qualidade como o cinegrafista Bud Thackery e os irmãos especialistas em efeitos especiais Howard e Theodore Lydecker, há uma sequência que provoca risos. É quando El Látego troca tiros com os bandidos dentro de um celeiro e um dos tiros acerta um monte de feno e ouve-se nitidamente o ricochetear da bala. Pela primeira vez no cinema um tiro ricocheteou no feno, ótima gag para uma comédia dos Três Patetas, mas não para um western sério, ainda que para um público menos exigente. (Nas fotos vemos Lane Bradford em luta contra El Látego; abaixo El Látego rendendo Lane Bradford e Dale Van Sickel; Van Sickel tentando matar El Látego com um enorme garfo de feno).
65 anos depois El Látego em ação - Embora a história resvale na violência contra os nativos, sempre motivada pela ganância dos brancos, não há crítica alguma direta à questão, mesmo o cinema já tendo apresentado westerns como “O Caminho do Diabo” (Devil’s Doorway) e “Flechas de Fogo” (Broken Arrow). Afinal seriados não se propunham a discutir temas como esse. Os seriados, quando assistidos em contexto diferente daqueles para o qual foram propostos, as matinês para crianças e jovens, sempre funcionam de modo diferente. E nem poderia ser de outra maneira. Mas a criatividade, excelentes sequências de ação e alta qualidade técnica continuam admiráveis mesmo aos olhos de adultos, inevitavelmente mais críticos. Porém este “A Vingança do Látego”, mesmo com a carga emotiva da nostalgia de quem o assistiu no cinema há 65 anos, não resiste e ao revê-lo torci para que chegasse logo ao fim. Até porque há tantos e melhores seriados westerns para serem assistidos, como por exemplo “A Tribo Misteriosa” (Daredevils of the West), também da Republic Pictures e estrelado pelo grande Allan ‘Rocky’ Lane. (Na foto Dick Simmons como El Látego).
Pat Hogan e Roy Barcroft
27 de julho de 2020
OS BANDEIRANTES (THE COVERED WAGON) – PRIMEIRO VERDADEIRO WESTERN-ÉPICO
Nos tempos atuais em que há centenas e
centenas de cinéfilos que jamais assistiram a um western é bom lembrar que este
gênero, nas primeiras décadas do cinema, era dominante na preferência dos
espectadores. Os estúdios tinham na produção de faroestes com duração ao
redor de 60 minutos uma das suas mais rendosas sustentações
e entre os astros mais bem pagos de Hollywood estavam cowboys como William S.
Hart, Tom Mix e Harry Carey. Mesmo considerando que William S. Hart estrelou e
dirigiu filmes acima da média como “As Portas do Inferno” (Hell’s Hinges), de
1916, os westerns ficavam distantes do conceito de cinema de qualidade,
categoria reservada para cineastas como David W. Griffith e seus épicos,
Charles Chaplin e mesmo europeus como os expressionistas F.W. Murnau ou Robert
Wiene. O gênero western, ainda que estimado pelo público espectador, era
considerado apenas cinema de entretenimento e não levado na devida conta pelos
críticos. Tudo mudou com a produção e lançamento, em 1923, de “Os Bandeirantes”
(The Covered Wagon), longa-metragem com duração de 98 minutos e que, de
imediato, se transformou em sucesso de crítica e de público, tornando-se a
maior bilheteria do ano nos Estados Unidos. E o mais importante: fez com que os
faroestes passassem a ser olhados de modo diferente, agora muito mais
respeitoso.
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| Acima Emerson Hough e Jack Cunningham; abaixo Jesse L. Lasky e James Cruze |
Inédita
superprodução - Baseado em livro de Emerson Hough, autor de histórias que
narravam aventuras passadas no Oeste e com adaptação do experiente roteirista
Jack Cunningham, a direção e “Os Bandeirantes” coube a James Cruze, que até
então nada havia dirigido que chamasse maior atenção ao seu nome. Quem quer
conhecer melhor a filmografia de Cruze descobre que a maioria dos seus filmes
foram dados como perdidos, o que dificulta ainda mais uma avaliação do seu
trabalho como diretor. Estranhamente, até por ser um faroeste, a Paramount
optou por produzir este western como uma superprodução que seria rodada em
locações e ao custo estimado de 700 mil dólares que ao final chegou aos 800
mil. A título de comparação, “O Garoto”, de Chaplin, foi produzido em 1921
custando ao final 250 mil dólares sendo que Chaplin era sinônimo de
investimento garantido. Jesse L. Lasky, o poderoso sócio fundador da Paramount fez
questão de assumir pessoalmente a produção executiva do filme e de cara se
defrontou com problemas na formação do elenco principal. Isto porque Mary Miles
Minter, pensada para interpretar a heroína, teve seu nome relacionado ao
assassinato de um conhecido diretor e foi descartada. Como havia ainda a disposição
da Paramount de não gastar com astros que cobravam muito, o papel acabou nas
mãos de Lois Wilsonl.
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| Acima Mary Miles Minter e Lois Wilson; abaixo Ernest Torrence e Karl Brown |
Formação
do elenco - J. Warren Kerrigan, ator que contracenara com Lois
Wilson em duas dezenas de filmes seria o principal nome masculino da jornada
épica descrita em “Os Bandeirantes” e, mais uma vez, iria namorar a atriz em um
filme. Como terceiro nome do elenco e completando o triângulo amoroso da
história, foi chamado Alan Hale, ator de 30 anos de idade e no cinema desde os
20 anos. Hale se destacara como ‘Little John’ nas aventuras de Robin Hood
filmada em 1922 e estrelada por Douglas Fairbanks e voltaria a interpretar esse
mesmo papel na famosa versão de 1938 com Errol Flynn como protagonista. O
clássico “David, o Caçula”, de Henry King alcançara enorme êxito em 1922 e o
escocês Ernest Torrence havia sido um dos destaques desse filme, sendo escalado
para “Os Bandeirantes”. Também como importante coadjuvante, interpretando o caçador
Jim Bridger, juntou-se a Torrence (um batedor da caravana) o já veterano Tully
Marshal, e a Charles Ogle que atuou como o chefe da expedição. A difícil missão
de comandar a equipe de cinegrafistas coube ao jovem Karl Brown, então com
apenas 26 anos mas acumulando bastante experiência tendo trabalhado como assistente
em “Intolerância”. No entanto o que levou a Paramount a confiar em Karl Brown
foram as técnicas cinematográficas que ele havia criado como a dupla impressão
de negativos e projeção com modelos miniaturizados, técnicas então
revolucionárias.
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| Delmer Daves |
Preocupação
com a autenticidade - O enorme grupo de técnicos e mais os
atores rumou para as locações que se desenvolveram em Utah, Arizona, Oregon, Deserto
de Sonora na Califórnia e Nevada, enquanto o produtor Jesse L. Lasky controlava
à distância as despesas com esse western, uma verdadeira superprodução se
considerado o conjunto que o envolveu. Os índios que são vistos em “Os
Bandeirantes” são todos eles indígenas de verdade demonstrando a preocupação da
produção com a autenticidade. Lasky acreditava em novos talentos e assim como o
jovem Karl Brown respondeu pela cinematografia, a outro técnico ainda mais
jovem chamado Delmer Daves, de apenas 18 anos de idade, foi atribuído chefiar o
departamento de acessórios e adereços também visando a maior genuinidade de
tudo que seria visto na tela. Não consta da biografia de Delmer Daves qualquer
outro trabalho anterior nessa área mas o certo é que praticamente nenhum
detalhe escapou ao jovem futuro diretor de tantos westerns clássicos.
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| Bizões duplicados pela técnica do cinegrafista Karl Brown |
Rebanhos
e manadas - Um grupo de conselheiros técnicos e historiadores foi
igualmente contratado. O número de pessoas envolvidas nas locações chegou a
três mil e em alguns locais onde durante o dia o calor passava de 40 graus,
baixando à noite para temperaturas negativas. A essas despesas se juntaram às
dos 500 carroções que descendentes dos pioneiros ainda mantinham como
recordação e que foram alugados para as filmagens. Enormes rebanhos de gado,
mil cavalos, 200 mulas igualmente foram transportados para os locais de
filmagens. E até mesmo búfalos que já não mais existiam em rebanhos tão grandes
quanto o necessário foram simulados por truques da ainda incipiente
cinematografia. Naquele tempo não vigiam as normas de proteção aos animais e
pelo menos dois cavalos morreram em sequências mais perigosas como a da
travessia de um rio. Nunca é demais lembrar que os épicos de D.W. Griffith
foram quase totalmente filmados em estúdio, enquanto a colossal produção de “Os
Bandeirantes” obrigou a um estúdio ambulante através de inóspitas regiões.
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| Centenas de cavalos na travessia de um rio |
Lançamento
e impacto - Findas as filmagens e após a fase de edição, o lançamento
de “The Covered Wagon” ocorreu nos Estados Unidos em março de 1923. O sucesso
foi estrondoso e para muitos foi considerado o mais importante de todas as
produções cinematográficas norte-americanas. Para exibição no Brasil o sugestivo
título original foi substituído por “Os Bandeirantes”, isto porque na primeira
metade do século passado os bandeirantes de nossa História eram mostrados como
heróis desbravadores, o que certamente atrairia mais público para ver o filme.
Em Portugal, onde poucos sabiam o que seria um ‘bandeirante’, o título
escolhido foi o muito mais apropriado: “A Caravana Gloriosa”.
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| Belos pôsteres anunciando o western épico |
Westward, Ho! - Uma caravana liderada por Jesse
Wingate (Charles Ogle) parte de Wesport, no Kansas, com destino ao Oregon, onde
os aventureiros se instalariam buscando vida melhor. A esse grupo de
desbravadores junta-se uma segunda caravana chefiada por Will Banion (J. Warren
Kerrigan) e que tem como batedor William Jackson (Ernest Torrance). Pelo
caminho, a imensa e agora duplicada caravana, se defronta com problemas de toda
ordem como as inevitáveis intempéries, as difíceis travessias de rios e
escaladas de morros e os ataque de índios. Os mais fracos da caravana são
vencidos pelas adversidades e algumas famílias optam por retornar ao Kansas e
em determinado momento surge a notícia da descoberta de ouro em abundância na
Califórnia, o que faz com que mais membros da caravana desistam de chegar ao
Oregon. Molly Wingate (Lois Wilson), a filha de Jesse Wingate está pronta para
se casar com Sam Woodhull (Alan Hale), mas ao conhecer Will Banion se interessa
por ele, fica indecisa e acaba desistindo do casamento. O inconformado Woodhull
usa de violência e de intrigas para manchar a reputação de Banion mas é este
quem termina por conquistar o amor de Molly após se descobrir que Banion é, de
fato, um homem íntegro. Banion é reintegrado ao seu posto no Exército, deixando
de pairar dúvidas sobre sua conduta como oficial. Afinal a caravana cumpre seu objetivo
e os pioneiros iniciam a tão sonhada nova vida no Oregon, quase dois mil
quilômetros distante do ponto de partida.
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| J. Warren Kerrigan e Lois Wilson |
Um
ator sem nenhum carisma - A saga dos pioneiros de “Os
Bandeirantes” foi filmada em forma de documentário ao qual foi inserida uma
subtrama amorosa com desfecho por demais previsível. Porém é preciso lembrar
que este é um filme de 1923 e como tantos outros o enredo foge de maior
complexidade. O grande pecado deste épico, porém, reside na escolha do ator
principal, J. Warren Kerrigan, incapaz de criar empatia com o espectador e que
cansa a cada vez que entra em cena com sua insipidez e excesso de maquiagem.
Quase o mesmo pode ser dito de Lois Wilson e ambos contribuem negativamente
para que qualquer tipo de emoção seja transmitida pelos personagens. Prevaleceu
a ideia de a epopeia ser mais importante que as clássicas tramas amorosas e
para isso as inexpressivas atuações de Kerrigan e Lois Wilson contribuíram
ainda que involuntariamente. Por sorte outros tipos do filme são mais vivos e
interessantes como o batedor Jackson, o caçador Bridger e a senhora Wingate
(Ethel Wales), mãe de Molly, todos eles dando mais sabor às histórias paralelas
à epopeia dos pioneiros. Sem dúvida um western, no entanto um filme menos
preocupado com as ações típicas do gênero e ressaltando como o arado, ao invés
de armas é que seriam responsáveis pelo
crescimento e grandeza do país.
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| Ernest Torrence, Tully Marshall e Alan Hale |
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| A divisão da grande caravana: parte dela preferiu a ilusão da riqueza fácil |
Cenário
magnífico - O momento crucial do triângulo amoroso se dá quando da
chega a Fort Bridger quando o diretor procurou criar um suspense com a noiva sendo
alvejada por uma flecha que anuncia o ataque dos índios. Faltou a James Cruze
maior habilidade para tirar proveito dessa situação dramática. Se a trama
amorosa não convence, por outro lado a longa jornada que é o assunto principal
do épico impressiona a cada etapa que é vencida pela gigantesca caravana magnificamente
fotografada na amplidão das terras e obstáculos a serem vencidos. A escolha do
local onde ocorre o ataque dos nativos à caravana foi de rara felicidade e é
geograficamente esplendoroso, propiciando imagens que dificilmente serão
esquecidas com o círculo de carroções se fechando entre altas formações
rochosas, cenário simplesmente espetacular.
Alguns
poucos risos - Num tempo em que a comicidade no cinema atingia seu auge
com Chaplin e Buster Keaton, James Cruze buscou atenuar o aspecto fortemente
documental de “Os Bandeirantes” com encenação de sequências pretensamente
engraçadas com as participações do batedor Jackson e do montanhês Bridger.
Embora careteiro, o que não era considerado excessivo à época, Torrance
(Jackson) é divertido, assim como Tully Marshal (Bridger) e só não provocam
mais risos devido à mão pesada de Cruze para a comédia, ele que, entre outros
cômicos, dirigiu algumas vezes Roscoe ‘Fatty’ Arbuckle, o ‘Chico Bóia’. O
momento mais engraçado se dá quando o sisudo Jesse Wingate diz (a fala aparece
num letreiro) que “se o líder Mórmon Brigham Young conseguiu chegar até aqui
com suas esposas, eu também posso com meus carroções”. E a frase soa mais jocosa
ainda quando se sabe que James Cruze era Mórmon...
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| A pilhéria com os Mórmons |
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| O verdadeiro Jim Bridger |
O
caso Jim Bridger - Entre os muitos montanheses que
ajudaram a desbravar as novas terras norte-americanas, um dos mais famosos foi
Jim Bridger. As referências a ele são sempre como tendo sido um homem
fortíssimo, alegre, contador de histórias e muito requisitado como batedor por
conhecer como poucos regiões selvagens nas quais somente os destemidos e
experientes sobreviviam. Jim Bridger tornou-se uma lenda e teve participação na
história escrita por Emerson Hough, mas apresentado de modo pouco condizente
com o que ele fora na realidade. O Jim Bridger vivido por Tully Marshall é
espirituoso e brincalhão, porém beberrão e irresponsável, como na sequência em
que faz desafio de pontaria com William Jackson. Bridger também é mostrado com
duas esposas índias, ele que foi casado com três índias mas em períodos
diferentes. Os descendentes de Jim Bridger não gostaram e processaram a
Paramount solicitando uma indenização de um milhão de dólares pelos danos à
imagem do célebre montanhês. Ao final do processo a Justiça deu ganho de causa
à família. Inúmeras localidades e escolas norte-americanas homenagearam o
caçador, explorador e guia com o nome ‘Jim Bridger’. Entre os muitos atores que
personificaram Bridger em filmes ou séries de TV estão Van Heflin, Raymond
Hatton, Harry Shannon, Dennis Morgan e Karl Swenson.
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| Tully Marshall. à direita Ernest Torrence, Guy Oliver e Tully Marshall |
Western
pioneiro - Além da referência a Brigham Young há uma outra menção feita a Abraham Lincoln também na
tentativa de dar maior credibilidade à história e sua localização no tempo.
Porém a acurácia falhou ao mostrar os carroções, mesmo após os desafios da
longa jornada, desfilarem com suas lonas impecáveis, sem rasgos ou as
inevitáveis sujeira e desgates. Impressionante ao tempo em que foi lançado
pelas imagens majestosas, “Os Bandeirantes” é um filme ao qual falta emoção.
Assiste-se admirado por sua feitura, mas nunca com impacto maior capaz de
enternecer ou fazer vibrar o espectador. Mesmo assim uma obra imprescindível
não só ao gênero mas também ao cinema. Filme sobre pioneiros que foi o pioneiro
ao mostrar de modo épico o desbravamento da América, abrindo caminho para “O
Cavalo de Ferro” (The Iron Horse) que John Ford filmaria no ano seguinte e para
os muitos westerns que abordariam o mesmo tema nas décadas seguintes.
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| Técnicos enfrentando as dificuldades das locações |
20 de junho de 2020
A DESFORRA DO ESTRANHO (JOE DAKOTA) – JOCK MAHONEY COMO PROTAGONISTA
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| William Talman; Spencer Tracy, Ernest Borgnine e Lee Marvin |
Nos Estados Unidos leva-se muito a
sério a questão do plágio e, por vezes, fortunas são pagas em direitos autorais
quando se descobre algo que não é original. Por essa razão não se brinca com
copiar alguma música ou história, o que não impede que, mesmo roteiros de
cinema que tenham sido ‘inspirados’ por textos escritos por outros autores, se ‘esqueçam’
de dar crédito ao pai da ideia. Isto foi o que aconteceu com “Joe Dakota”,
pequeno western produzido pela Universal em 1957 e estrelado por Jock Mahoney. Os
roteiristas William Talman e Norman Jolley escreveram uma história que em tudo
se parece com “Conspiração do Silêncio” (Bad Day at Black Rock), o clássico que
John Sturges realizou em 1955 e que muitos consideram um western moderno.
William Talman, um dos autores, não é um nome estranho para muitos cinéfilos
pois foi ator coadjuvante em diversos filmes e na TV cansou de, como advogado,
enfrentar e ser derrotado por Perry Mason (Raymond Burr) na famosa série de TV.
Talman faleceu aos 53 anos de idade e este seu trabalho como escritor não deve
tê-lo deixado orgulhoso por ser uma descarada imitação do filme de Sturges. No
entanto, mesmo sendo uma produção barata e sem nomes famosos no elenco (Lee Van
Cleef demoraria para virar astro), este western filmado para complementar
programas duplos tem suas virtudes e entretém os fãs de faroestes.
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| Jock Mahoney |
O
estranho hostilizado - Joe Dakota (Jock Mahoney) é um
estranho que chega à pequena Arborville e intriga os moradores do lugar porque
quer, de todas as maneiras, saber de um índio chamado ‘Joe Dakota’ (Francis
McDonald). Descobre então que o índio havia sido enforcado sob a acusação de
tentar estuprar a jovem Jody Weaver (Luana Patten). A propriedade do índio
passara então para as mãos de Cal Moore (Charles McGraw), homem desonesto e que
mais tarde descobriu petróleo no terreno do índio ‘Joe Dakota’. Este não tinha
esse nome, mas ao assinar um documento no registro de imóveis escreveu no papel
oficial as únicas palavras que aprendera a rascunhar e que formavam o nome de
seu amigo e protetor, o Capitão Joe Dakota do Exército Americano. O verdadeiro
Joe Dakota tem que enfrentar a hostilidade do povo de Arborville sob a
liderança de Carl Moore, até que desmascara o espertalhão. Joe Dakota traz à
tona a verdade sobre a tentativa de estupro cujo autor não foi seu amigo índio
que acabou pagando com a vida pela acusação e Moore perde a posse do terreno.
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| Claude Akins, Lee Van Cleef e Charles McGraw |
Habitantes
assustados - Quem não conhece ou não se recorda de “Conspiração do
Silêncio” vai se deixar envolver pela trama de “A Desforra do Estranho” e
consequente mistério que envolve a presença de Joe Dakota em Arborville. Por
outro lado, quem logo perceber a semelhança da história com o filme de John Sturges,
nem por isso perderá o interesse em ver como os fatos irão se encaixar para
determinar o final. Pesa ainda a favor deste “Joe Dakota” o fato de se estar
diante de um western de baixíssimo orçamento e ainda assim o diretor Joe
Bartlett realizar um filme conciso e com boa carga de emoção. Jock Mahoney
visivelmente manca quando caminha, levando a crer que pudesse ter alguma
dificuldade com uma das pernas, assim como Spencer Tracy havia perdido um braço
na guerra em “Conspiração do Silêncio”. Mas ao contrário do já envelhecido
Tracy, Jock Mahoney é o tipo de personagem imbatível, perfeito para intimidar o
assustado povo da pequena cidade, inclusive o vilão que tramara a morte do
velho índio.
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| Lee Van Cleef e Claude Akins |
Preconceito
forte - O forte preconceito do pós-guerra contra os japoneses é a
tônica de “Conspiração do Silêncio”, transformado, em “Joe Dakota”, na execução
sumária, través de enforcamento, do índio, figura igualmente perseguida pelo
preconceito pelos homens brancos do Velho Oeste. O Capitão, no entanto,
representando o Exército, é humilde e justo na amizade e respeito pelo índio. Essa
ilação, porém, não resiste à lembrança de como os túnicas azuis trataram os
nativos atendendo aos interesses de Washington e dos homens brancos. Porém
ainda não era, em 1957, tempo para se rever em maior profundidade essas
questões e menos ainda em um pequeno western.
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| Lee Van Cleef, Anthony Caruso e Claude Akins |
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| Jock Mahoney |
Um
ator com bela biografia - Jock Mahoney é dos menos conhecidos
atores que fizeram westerns B, ainda que sua carreira seja digna de uma bela
biografia sem o final feliz de ter ele se transformado em astro verdadeiro.
Desde os tempos de dublê de atores famosos (Gregory Peck, John Wayne, Errol
Flynn), até ser o Durango Kid das ações mais arriscadas em lugar de Charles Starrett,
Mahoney era conhecido apenas por aqueles cinéfilos que gostam de saber de tudo
sobre todos que atuam nos filmes. Certo que chegou até a entrar na lista dos
atores que personificaram ‘Tarzan, o Rei das Selvas’, mas Mahoney nunca atingiu
a categoria que fazia por merecer, especialmente nos faroestes. E como ‘Joe
Dakota’ Mahoney está ótimo e seu melhor momento de ação neste filme é quando
luta, numa divertida sequência, contra Claude Akins e Lee Van Cleef. Em outra
sequência Mahoney é jogado numa enorme poça de petróleo e só é reconhecido
porque ele jamais aceitaria ser ‘dublado’.
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| Luana Patten e Barbara Lawrence |
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| Jock Mahoney |
Pequeno
e simpático western - O eficiente Charles McGraw é o homem
mau da história enquanto Luana Patten, aos 19 anos, é um par amoroso jovem
demais para Jock Mahoney. Além de Lee Van Cleef e de Claude Akins, dois dos
mais consagrados vilões de Hollywood, o elenco traz ainda Anthony Caruso, desta
vez como um imigrante italiano de boa índole e o único na história com essa
característica, até por não ser norte-americano, a discordar da hostilidade a
Joe Dakota. Quando se está diante de um western de pequeno orçamento que
resulta em bom filme sempre se fica a imaginar como seria ainda melhor se
realizado com outro padrão. Mas aí a exigência do espectador seria maior e
roubaria o gosto que só simpáticos pequenos faroestes têm, como este “A Desforra
do Estranho”.
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| Charles McGraw; Jock Mahoney |
27 de maio de 2020
O IRRESISTÍVEL FORASTEIRO (THE SHEEPMAN) – CLÁSSICO DO WESTERN-COMÉDIA COM GLENN FORD
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| Acima George Marshall e Glenn Ford; abaixo William Bowers e James Edward Grant |
Estes foram os astros do cinema
campeões de bilheteria no ano de 1958: Elizabeth Taylor (2.ª), Jerry Lewis
(3.º), Marlon Brando (4.º), Rock Hudson (5.º), William Holden (6.º), Brigitte
Bardot (7.ª), Yul Brynner (8.º), James Stewart (9.º) e Frank Sinatra (10.º).
Quem foi o ator que mais público levou aos cinemas naquele ano? Não, não foi
John Wayne, por sinal a única vez ao longo de 26 anos que o Duke ficou fora da seleta
lista. Ah, quem então foi o ator que mais público levou aos cinemas em 1958?
Foi o canadense Glenn Ford que, pode ser dito, substituiu muito bem John Wayne
e que naquela década teve uma incrível sequência de ótimos filmes, em sua
maioria westerns consolidando seu nome como um dos cowboys preferidos do
gênero. Com o diretor Delmer Daves, Glenn Ford fez uma marcante parceria em
três faroestes, mas era com George Marshall que Ford se dava melhor do que com
qualquer outro diretor e por quem o ator foi dirigido nada menos que seis
vezes. “O Irresistível Forasteiro” é o melhor momento da parceria
Marshall-Ford, western-comédia que faz rir bastante e que se Billy Wilder
tivesse um dia dirigido um faroeste, teria sido este. Roteiro incrivelmente
inspirado com diálogos sarcásticos e um elenco capaz de provocar risos até no
mais rabugento dos espectadores. William Bowers e James Edward Grant foram os
autores do roteiro a partir de uma história do próprio Grant, narrando de modo
inusitado a disputa entre criadores.
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| Glenn Ford; Glenn e Leslie Nielsen |
Um
estranho mudando uma cidade - Jason Sweet (Glenn Ford), chega de
trem a Powder Valley, pequena cidade do Velho Oeste, com seu rebanho de ovelhas
e, mesmo mal recebido porque naquela região todos criam gado, o forasteiro impõe
respeito surrando logo que chega o valentão da cidade, Jumbo McCall (Mickey
Shaughnessy) capanga do Coronel Stephen Bedford (Leslie Nielsen), o mais
poderoso entre os criadores. Criar ovelhas era algo visto com preconceito e
estes criadores eram sempre ‘convidados’ a levar seus rebanhos para bem
distante de Powder Valley. Sweet e Bedford são velhos conhecidos, dos tempos em
que o Bedford ainda se chamava Johnny Bledsoe. O impostor mudara de nome, de
cidade, ganhara respeito e estava de casamento marcado com Dell Payton (Shirley
MacLaine), não contando porém com a chegada do teimoso ex-amigo que insiste em
dividir pastos e rios dos criadores de gado com seu rebanho de ovelhas. Bedford
contrata um trio de assassinos de aluguel para colocar um fim à valentia de
Sweet mas este não só vence em duelo Choctaw Neal (Pernell Roberts), um dos
bandidos, como também acerta as contas com o Coronel. Para completar Sweet
conquista Dell, e decide vender seus rebanho de ovelhas e passar a criar gado
como marido dela ali mesmo na cidade onde há pouco era um estranho.
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| Shirley MacLaine e Glenn Ford; Mickey Shaughnessy e Glenn Ford |
A
linguagem da ironia - Geralmente são feitas enquetes para
listar os melhores westerns de todos os tempos, mas caso o objetivo fosse
conhecer os faroestes mais faroestes este teria seu lugar garantido e entre os
primeiros da relação. “O Irresistível Forasteiro” é uma interminável sucessão
de diálogos irônicos mais parecendo terem sido elaborados para serem ditos por
Groucho Marx. No entanto, é o cowboy Jason Sweet quem tem quase sempre uma
resposta sarcástica, isto quando não é Milt Masters (Edgar Buchanan), o amigo
‘fiel’ que Jason consegue na cidade e quem o ajuda a rebater à altura ou
descompor os vilões da história. Milt Masters mostra a Sweet como alguém pode
ser fiel desde que lhe pague um dólar por informação e outro dólar extra por
uma informação mais valiosa. A mocinha Dell, prestes a se casar com o desonesto
Coronel Bedford, também não deixa por menos quando precisa ser zombeteira,
assim como o esbirro Jumbo ou o mexicano Ângelo (Pedro Gonzalez-Gonzalez). Mais
circunspecto, até por força da afetação que pretende demonstrar, o Coronel é
quem menos chance tem de ser mordaz, não deixando, claro, o cinismo de lado.
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| Edgar Buchanan e Glenn Ford; Shirley MacLaine e Glenn Ford; Mickey Shaughnessy |
Elenco
afinado e divertido - Um filme com um roteiro assim
inspirado não poderia ter elenco mais adequado. Glenn Ford não era um ator
cômico por natureza, mas sabia como divertir o público com personagens menos
sérios e prova disso é como superou, com vantagem, Marlon Brando em “Casa de
Chá do Luar de Agosto”. Nessa comédia militar passada no Japão e que fez enorme
sucesso no teatro (mais de mil apresentações), o personagem ‘Sakini’ de Brando
era o mais importante, perdendo, porém, no decorrer do filme para o ‘Capitão
Fisby’ interpretado por Glenn Ford. Edgar Buchanan, apropriadamente chamado
‘Masters’ neste western era sim um mestre da dissimulação e Ford tem que se
esforçar para que seu grande amigo pessoal Edgar Buchanan não lhe roube as
cenas nas quais participam juntos. Shirley MacLaine ainda não se firmara como
grande estrela mas seu talento cômico aparece em cada expressão facial que ela
faz. Mickey Shaughnessy é hilário como o fanfarrão Jumbo que vai a nocaute na
luta contra Sweet e espera ansioso pela vingança a todo momento. Curiosamente,
Leslie Nielsen é o menos engraçado do elenco principal, ele que mais maduro fez
sucesso quando passou a fazer comédias interpretando o desastrado ‘Tenente
Frank Drebin’. “O Irresistível Forasteiro” deixa de atingir a perfeição como
western-comédia pelo não aproveitamento da habilidade de Slim Pickens em ser
engraçado, ou melhor, engraçadíssimo. Pickens surge na tela por pouco mais de
um minuto como um xerife lambe-botas do Coronel Bedford e mesmo nessa rápida
sequência provoca risadas. Imagina-se o quanto esse personagem acrescentaria de
diversão se tivesse maior participação na trama, como teria no ano seguinte
como o assistente de Karl Malden que passa maus bocados com Marlon Brando em “A
Face Oculta”.
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| Duelo entre Leslie Nielsen e Glenn Ford |
Duelo
em dose dupla - Westerns em tom de comédia não são levados à sério pelos
críticos porque a ação geralmente é farsesca, o que também é o caso deste
faroeste. Jason Sweet enfrenta o fortão Jumbo McCall quase destruindo o
restaurante chinês. E vale lembrar que o mesmo Mickey Shaughnessy (Jumbo)
testemunharia dois anos depois uma das maiores brigas em saloons dos westerns,
aquela em que John Wayne e Stewart Granger provocam briga em “Fúria no Alasca”.
Shaughnessy estava lá, bêbado, é certo, mas estava. Não poderia faltar o duelo,
neste caso em dose dupla pois Jason Sweet primeiro enfrenta na rua o covarde
Chocktaw, um Pernell Roberts irreconhecível atrás da barba por fazer de homem
mau, ele que logo depois seria o galã ‘Adam Cartwright’, personagem preferido
do público feminino na série “Bonanza”. Por fim Sweet se defronta com o
astucioso Coronel Bedford que acredita poder enganá-lo com a pistola antiga que
enfeita sua mesa, arma que ele carregou com a pólvora mortal. E ainda há as
cavalgadas que o excelente cavaleiro Glenn Ford, cowboy autêntico e que como
poucos atores se sentia confortável como homem do Oeste. A produção, como de
hábito, nem precisava se preocupar com seu vestuário pois o seu surrado chapéu
e jaqueta eram os trajes que ele gostava de usar nos westerns. Só não vamos
falar do estranho penteado que Glenn passou a usar...
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| Duelo entre Pernell Roberts e Glenn Ford |
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| Glenn Ford e o truque da ficha sobre o copo |
Glenn
Ford, sempre um gatilho relâmpago - Este western que, como foi dito, tem
diálogos primorosos e é também engenhoso na construção da trama e introdução de
cada personagem. Jason Sweet tem uma razão a mais para acertar as contas com
Chocktaw Neal uma vez que este foi quem matou sua noiva anos atrás num assalto
a banco. E Dell Payton, cada vez atraída por Sweet, se alegra ao saber que ele não é casado,
embora tenha passado pelo momento triste da morte da noiva. Algumas sequências
são primorosas como quando Sweet vai comprar uma sela experimentando-a e mais
tarde quando impressiona o povo da cidade com sua habilidade no uso do Colt,
algo que Glenn Ford também fez no magnífico “Gatilho Relâmpago” (The Fastest
Gun Alive), dois anos antes. Para não perder a piada Jumbo tenta repetir a destreza de Sweet e o que consegue
é fazer a plateia rir. São muitos os momentos e frases marcantes deste western,
mas a primeira delas, quando Sweet faz uma aposta consigo mesmo sobre a figura
de folclórica de Milt Masters é definidora de tudo que se seguiria durante o
filme.
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| Os 'old timers' com Edgar Buchanan ao centro |
Álbum
de veteranos - O ótimo elenco tem ainda uma atração a mais que é ver
surgir na tela rostos e mais rostos conhecidos de tantos westerns B. Parece que
a MGM recrutou todos os veteranos disponíveis para fazer figuração ou ter
pequenas participações. Reconhece-se entre tantos Franklyn Farnum, o bandidão
Harry Wood, o engraçado Roscoe Ates, Lane Bradford, Tom London, Kermit Maynard
(inclusive sem chapéu e calvo), Richard Alexander, Norman Leavitt, Chet
Brandenburg e muitos outros. Uma festa para quem os viu bem mais jovens nos
inesquecíveis westerns B da Republic, PRC e Monogram.
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| Glenn Ford |
Um
ator injustiçado - Glenn Ford não era o tipo de ator
que procurava impressionar com truques interpertativos. A sobriedade era sua
marca, ainda que a ela pudesse ser somada a correção na composição dos
personagens. Glenn jamais foi indicado ao Oscar e entre os prêmios que recebeu
na carreira destaque-se o Golden Globe de ‘Melhor Ator de Comédia’ por sua
atuação em “Dama por um Dia”. Sequer aquele Oscar Honorário que tantos outros
artistas receberam Glenn foi contemplado, o que é uma das muitas injustiças da
Academia de Cinema Hollywood. Mas eis que o Bafta, o mais importante prêmio
cinematográfico inglês reconheceu seu belo trabalho em “O Irresistível Forasteiro”,
indicando-o como Melhor Ator Estrangeiro naquele ano de 1958. Nos States a
atuação de Glenn passou despercebida, assim como o próprio filme de George
Marshall nunca mereceu o devido reconhecimento.
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| Shirley MacLaine |
Atriz
a caminho do estrelato - Shirley MacLaine magrinha ainda já
permitia antever a excelente atriz de comédias que viria a ser, mas como
suspeitar que se tornaria também a grande atriz de dramas num futuro tão
próximo. Seu filme seguinte foi “Deus Sabe o Quanto Amei”, que lhe valeu a
primeira das sete indicações para o Oscar. Edgar Buchanan é um ator
incrivelmente perfeito para papeis de tipos bonachões, aqui acrescentando o
cinismo e um certo mau-caratismo necessários ao personagem. Leslie Nielsen
passou de galã canastrão a vilão mas viria a dar certo mesmo como cômico. Pedro
Gonzalez-Gonzalez está muito mais engraçado que em “Onde Começa o Inferno” (Rio
Bravo). E Slim Pickens aparecer tão pouco é de se lamentar, enquanto Pernell
Roberts, estava a um passo de se tornar famoso com a série “Bonanza”, tem
pequena mas boa participação.
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| Pernell Roberts e Leslie Nielsen |
Afirmação
de um diretor veterano - “O Irresistível Forasteiro” é
relativamente curto nos seus 85 minutos de duração, suficientes no entanto para
que seja comparado com “Atire a Primeira Pedra” (Destry Rides Again), clássica western-comédia
filmada em 1939 e dirigida pelo mesmo George Marshall (na foto à direita), não sem razão o diretor
preferido de Glenn Ford. Marshall mesmo com idade avançada trabalhava sem parar
e um de seus próximos trabalhos foi com o segmento ‘The Railroad’ do épico “A
Conquista do Oeste” (How the West Was Won), demonstrando sua versatilidade e
eficiência. “The Sheepman”, que teve também o título original “Stranger with a
Gun” é daqueles faroestes que lamentamos quando termina, mas ainda bem que o
DVD está à mão para que seja visto e revisto de tão bom que é.
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| O pôster com título diferente; Mickey Shaughnessy; o stuntman Robert 'Buzz' Henry, dublê de Glenn Ford |
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