UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

23 de janeiro de 2019

LONESOME DOVE (OS PISTOLEIROS DO OESTE) – UMA OBRA-PRIMA DE SUBLIMES SEIS HORAS DE DURAÇÃO


Larry McMurtry
Peter Bogdanovich,
Berry Gordy Jr.,
William D. Wittliff,
Simon Wincer

O normal em Hollywood é produtores adquirirem direitos de obras literárias de sucesso, depois roteirizar e filmar esses livros. Com “Lonesome Dove” ocorreu o inverso. Em 1971 Peter Bogdanovich e o texano Larry McMurtry escreveram um roteiro para um western intitulado “Streets of Laredo”, tendo em mente John Wayne, James Stewart e Henry Fonda nos papeis principais. John Wayne mostrou a sinopse a John Ford que lhe disse: “Pule fora disso”. Mesmo Bogdanovich sendo uma das raras pessoas com quem Ford conversava e dava entrevistas, tendo até aceitado fazer sob as ordens de Peter o documentário “Directed by John Ford”, nesse mesmo ano de 1971. Duke pulou fora de fato e desestimulados os autores de “Streets of Laredo” abandonaram o projeto. McMurtry era um escritor já bastante conhecido que teve filmadas adaptações de livros seus como “O Indomado” (Hud) e “A Última Sessão de Cinema” (The Last Picture Show), este dirigido por Peter Bogdanovich. McMurtry continuou escrevendo que era o que gostava de fazer e certo dia viu passar um ônibus que na lateral tinha a inscrição ‘Lonesome Dove Baptist Church’. Aquele nome o inspirou, ele foi para casa e teve a ideia de reescrever “Streets of Laredo”, acrescentando prólogo e epílogo à história que ganhou o novo nome de “Lonesome Dove”. Lançado o livro, em 1986, transformou-se em imediato êxito de vendas e ganhou o mais importante prêmio literário norte-americano, o Pulitzer de ficção. Esperava-se que os estúdios disputassem os direitos cinematográficos da obra mas estranhamente foi a Motown Records que adquiriu os direitos. A Motown, gravadora famosa por ter em seu cast grandes artistas negros como Diana Ross, Jackson Five, Marvin Gaye, Stevie Wonder e muitos outros, já havia produzido alguns filmes que nem crítica e nem público haviam gostado. E western não era bem o território do conglomerado artístico de Berry Gordy Jr., dono da Motown. Mesmo assim decidiu investir nessa minissérie contratando Robert Duvall, James Garner e Charles Bronson para compor o trio de atores principais. Garner recusou o trabalho assim como Jon Voigt contatado para substituir Garner. Duvall e Bronson aceitaram, mas o astro de “Desejo de Matar” não pode participar porque as filmagens coincidiam com a produção de “O Mensageiro da Morte” que Bronson estrelou, ele que tinha contrato com a Cannon Productions. Bronson foi substituído pelo pouco conhecido Robert Urich enquanto para o lugar de James Garner foi chamado Tommy Lee Jones. A decisão de escolher o australiano Simon Wincer para dirigir foi muito discutida pois seus trabalhos anteriores na Austrália e nos Estados Unidos, embora bons, não eram suficientes para um projeto como aquele, inclusive com filmagens em tantas locações diferentes. Aprovado com restrições o nome de Wincer, o roteiro de “Lonesome Dove foi finalizado pelo próprio McMurtry em parceria com o também texano William D. Wittliff, autor da história de “Barbarosa”, western estrelado por Willie Nelson. A rede CBS exibiria a minissérie, o que ocorreu nos dias 5, 6, 7 e 8 de fevereiro de 1989, com extraordinário sucesso.

A longa jornada - Os quatro episódios de “Lonesome Dove”  tiveram os títulos “A Partida” (Leaving), “Na Trilha” (On the Trail), “As Planícies” (The Plains) e “O Retorno” (Return). Inicia-se apresentando Augustus ‘Gus’ McCrae (Robert Duvall) e Woodrow F. Call, dois ex-Texas Rangers lendários pela bravura e por terem, nos seus dias de Rangers, liquidado muitos bandidos. Tornam-se rancheiros criadores de gado no Texas, próximo da pequena Lonesome Dove e cansados da monotonia da vida que levavam decidem atravessar o país e se fixar em Montana, a 3.500 kms de distância. Os cowboys que empregam aceitam participar da longa jornada e a eles se junta Jack Spoon (Robert Urich), também ex-Texas Ranger e há dez anos vivendo como nômade jogador. Lorena (Diane Lane) é a prostituta de Lonesome Dove e por ela McCrae nutre amizade e carinho, ainda que nunca tenha esquecido Clara Allen (Anjelica Huston) que agora vive em Ogallala, no Nebraska. A extenuante marcha segue atravessando Arkansas, Oklahoma, Kansas, Colorado, Nebraska, Wyoming até atingir Montana. Antes disso Gus reencontra Clara, ainda casada e cujo esposo está em estado terminal. Pelo caminho os cowboys se defrontam com bandidos, caçadores de pele, renegados, homens sem escrúpulos mesmo pertencendo ao Exército e, como não poderia deixar de ser, índios. Numa incursão por território indígena Gus e o vaqueiro Pea Eye (Timothy Scott) são atacados por índios e Gus é ferido gravemente não conseguindo se recuperar da infecção. Em seu último contato com Call, Gus pede a ele que prometa enterrá-lo num local onde manteve um idílico encontro com Clara no Texas. Para isso Call faz sozinho a viagem de retorno levando o caixão com o amigo morto dentro e finalmente o enterrando. Os vaqueiros empregados de Call-Gus se instalam em Montana, onde constroem um rancho iniciando vida nova naquele local.



Robert Duvall com Diane Lane
e com Anjelica Huston
Força e visão épicas - Enquanto filmava interpretando Gus McCrae, Robert Duvall disse a amigos: “Estamos trabalhando em um clássico, creio que será o ‘The Godfather’ dos faroestes”. O consagrado ator, então com 57 anos, sabia o que dizia pois as sequências de “Lonesme Dove” continham visão e força épicas incomuns da vida dos cowboys. Mesmo no primeiro episódio, onde ocorre a apresentação dos personagens, as imagens admiráveis como se fossem telas de Frederick Remington emolduradas pela música de Basil Poledouris formam uma sucessão quase ininterrupta de momentos inesquecíveis. Cada nova presença na tela, especialmente as de Danny Glover e Anjelica Huston são tocantes e mais que todos brilha Robert Duvall. Ele é o cowboy mulherengo, irreverente, de língua afiada, que cavalga com notável equilíbrio (Duvall dispensou dublê, assim como Tommy Lee Jones) e de cuja pontaria certeira os bandidos não escapam. Faz valer sua experiência como Texas Ranger lembrado por seu destemor, sempre em parceria com o igualmente temerário Woodrow F. Call. Se as imagens mais grandiosas são as da condução do gado sofrendo com as intempéries e os perigos naturais, não menos estupendas são as sequências de ação dirigidas com talento por Simon Wincer.


Tommy Lee e Duvall; a morte de
Danny Glover; Gavan O'Herlihy
Sequências brutais - “Lonesome Dove” é uma marcha heroica, porém quando a epopeia se detém para os protagonistas mostrarem bravura e destreza, o filme ganha em emoção. Entre os confrontos mais memoráveis está aquele em que Gus McCrae sozinho liquida todo o grupo de renegados de Blue Duck (Frederic Forrest). Primeiro com seu rifle numa planície e posteriormente no ataque ao acampamento dos bandidos que haviam sequestrado Lorena. Não ocorre o embate entre Gus e Blue Duck mas o fim deste atirando-se para a morte pela janela de um prédio é espetacular. A perseguição dos índios a Gus e a Pea Eye seguida do encurralamento dos dois lembra bastante a sequência parecida de “Rastros de Ódio” (The Searchers), apenas que excepcionalmente mais realista. Realismo Simon Wincer usou à exaustão, por vezes de modo chocante como a execução e enforcamento de dois fazendeiros cujos corpos pendurados são queimados. Ou o enforcamento dos quatro ladrões de gado. O mesmo vale para a morte do negro Joshua Deets (Danny Glover), trespassado por uma lança ao ter nos braços uma criança nativa cega, num momento triste de um western por vezes doloroso em seu esforço para parecer real. Nenhuma sequência porém é mais vibrante que aquela quando o adolescente Newt Dobbs (Ricky Schroder) é agredido por um violento batedor do Exército. Isso provoca a ira de Woodrow que a galope parte para cima do covarde batedor, derruba-o do cavalo, surra-o impiedosamente e se prepara para arrancar-lhe uma das orelhas quando é laçado por Gus que impede nova crueldade. Tommy Lee Jones, que se mantém nos dois primeiros episódios à sombra de Duvall, a partir dessa sequência se agiganta e sua interpretação se iguala à de Duvall. Recordando que John Wayne e James Stewart foram os primeiros nomes pensados para esses personagens percebe-se que jamais, até pelo peso dos anos, fariam o que Duvall e Tommy Lee fizeram.

Robert Duvall  e Timothy Scott; Duvall e Ron Weyand

Robert Duvall e Tommy Lee Jones
O velho cowboy apaixonado - Alguns outros personagens ganham importância durante a trajetória e dramas se sucedem sempre com a morte agindo impiedosamente, seja pelas mãos de homens maus, a maioria, seja acidentalmente e por doenças. Uma das subtramas é o tratamento que Woodrow F. Call dispensa ao órfão Newt, que tudo indica ser seu filho ainda que relute em reconhecer a paternidade. Mas a preocupação e a proteção de Call indicam o amor que ele tem pelo jovem que ele sabe ser seu filho. O triângulo formado por Gus-Lorena-Clara produzem sequências líricas com o velho homem do Oeste oscilando entre as duas mulheres e afinal escrevendo no leito de morte para ambas. A sequência da morte de Gus é esplêndida com ele e Call, até o último momento sendo irônicos e ao mesmo tempo demonstrando a força da amizade que os une.

Robert Duvall e Anjelica Huston; Duvall e Diane Lane

Tommy Lee Jones; Danny Glover
Soberbas interpretações - “Lonesome Dove” recebeu muitos prêmios, o principal deles o ‘Television Critics Association Awards’, como o melhor programa de televisão do ano. Curiosamente, Duvall, Tommy Lee, Anjelica Huston, Danny Glover e Diane Lane concorreram todos a Emmys de interpretação mas nenhum deles foi contemplado. Duvall como ‘Gus’ McCrae teve um dos grandes momentos de sua carreira que são inúmeros. Tommy Lee Jones como o Capitão Call comprovou ser um excelente ator, muito melhor do que se imaginava. Anjelica Huston, Danny Glover, Timothy Scott têm momentos de pura emoção. Do elenco principal Diane Lane fica um pouco abaixo dos citados. Frederic Forrest faz o que pode para lembrar que o papel seria de Charles Bronson mas por vezes transforma o mestiço em uma caricatura. Simon Wincer saiu-se admiravelmente não apenas nas sequências de ação mas também nas dramáticas dirigindo o numeroso elenco.

A mais ‘cult’ das minisséries - As mais de seis horas de duração da minissérie foram filmadas em três meses e meio, com início dos trabalhos em 21 de março de 1988. A audiência nos quatro dias de exibição atingiu índices recordes, o que foi surpreendente por ser um faroeste, gênero que de há muito perdera público. Diante do sucesso de audiência e crítica, os produtores decidiram reduzir a metragem da minissérie transformando-a em filme de longa-metragem com 190 minutos de duração para lançamento nos cinemas. Embora muito do original tenha-se perdido e as referências a episódios excluídos confundam um pouco o espectador, a grandeza de “Lonesome Dove” foi mantida. Estranhamente, porém, a carreira nos cinemas do filme de Simon Wincer não foi o que se esperava, ficando longe do êxito alcançado na televisão. Quando concorreu ao Prêmio Emmy (o Oscar da televisão), para o qual teve 19 indicações, obteve apenas prêmios técnicos, exceto por Simon Wincer que abiscoitou o de Melhor Diretor de Minissérie. O prêmio principal de Melhor Minissérie foi dado a “War and Remembrance”, estrelada por Robert Mitchum série da qual ninguém mais se recorda. Por outro lado “Lonesome Dove” transformou-se em ‘cult’, sendo até hoje o DVD-western mais vendido nos Estados Unidos. No Brasil, infelizmente, foi lançado apenas o DVD reduzido de 190 minutos com o título “Os Pistoleiros do Oeste”, inadequado para uma história que versa sobre cowboys que eventualmente enfrentam bandidos e não pistoleiros que, por sinal, não foram nem nos tempos de Texas Rangers.

Locação em Brackettville
Locações percorridas pela grande equipe - “Lonesome Dove” afigurou-se como uma produção de vulto não só pelo elenco principal e pelo alto investimento feito pela Motown Records na aquisição dos direitos do livro de Larry McMurtry que cobrou de 500 mil dólares. As muitas locações para dar autenticidade à produção também implicaram em muitos gastos para transporte da enorme equipe composta por nada menos que 30 cowboys de verdade e mais os muitos stuntmen e as centenas de cavalos e cabeças de gado. No Novo México a equipe filmou em oito locais diferentes, alguns bastante distantes dos outros. No Texas a equipe percorreu Austin, Bastrop, Del Rio e Brackettville, utilizando inclusive o cenário da fortificação construída para “O Álamo” (The Alamo), o épico de John Wayne rodado em 1960.

Acima Sam Shepard, James Garner
e Sissi Spacek;
abaixo Ricky Schroder e John Voight
Prólogo e sequências - Minisséries não costumam ter continuações, mas isso ocorreu com “Lonesome Dove”. Como Larry McMurtry escreveu outros livros como prólogo e desfecho de “Lonesome Dove”, estes foram utilizados em outras minisséries. Em 1993 foi produzida, em quatro capítulos, “Return to Lonesome Dove”, com Jon Voight (Woodrow F. Call), Barbara Hershey (Clara Allen) e Ricky Schroder (Newt Dobbs). Em 1995 foi a vez de James Garner interpretar W.F. Call em “Laredo, o Último Desafio” (Streets of Laredo), com Sissy Spacek (Lorena), Sam Shepard (Pea Eye) e Wes Studi, minissérie em 5 episódios. Em 2008 foi produzido o prólogo em forma de minissérie com o título “Comanche Moon”, em três episódios de duas horas cada um, com Steve Zahn (Gus), Val Kilmer e Karl Urban (W.F. Call).  Artisticamente a diferença entre estas minisséries e “Lonesome Dove” ficou tão distante quanto o Texas e Montana. Uma curiosidade foi a série “Lonesome Dove: The Outlaw Years” produzida no Canadá e estrelada por Scott Bairstow como Newt Call, o personagem vivido por Ricky Schroder, agora adulto e usando o sobrenome do pai. A série durou apenas uma temporada (1995/96), com um total de 21 episódios de 50 minutos de duração aproximadamente.

O álbum de "Lonesome Dove"
Western influente - Após o sucesso de “Lonesome Dove”, o western experimentou um quase renascimento encorajando Kevin Costner a produzir, dirigir e estrelar “Dança com Lobos” (Dances with Wolves) e Clint Eastwood a retornar ao western com “Os Imperdoáveis” (Unforgiven), ambos faroestes ganhadores de Oscar de Melhor Filme. A influência de “Lonesome Dove” em ambas as obras é notória, ainda que as histórias sejam diferentes. O aspecto épico de “Dança com Lobos” e a crueza de “Os Imperdoáveis” demonstram isso. E a música de Basil Paledouris que fez escola no gênero western, a partir de então. Augustus McCrae (Robert Duvall) e o Capitão Woodrow F. Call (Tommy Lee Jones) foram alvos de inúmeras pinturas e esculturas que hoje ornamentam muitas casas onde a minissérie nunca deixou de ser reverenciada. O produtor e roteirista Bill Wittliff organizou uma exposição gratuita em 2018 onde o público pode ver os trajes utilizados em “Lonesome Dove”, bem como muitas das armas vistas no filme. Elas são tantas que colecionadores ou apaixonados por armas assistiram muitas vezes à minissérie para relacionar quais eram elas. As muitas armas utilizadas nesta produção serão objeto de uma próxima postagem neste blog.

Filosofia de cowboy - “Lonesome Dove” encerra uma filosofia na frase ‘Uva Uvam Vivendo varia Fit’ gravada numa placa do rancho ‘Hat Creek’ de Gus McCrae e W.F. Call. A frase original correta em Latim é ‘Uva Uvam Videndo Varia Fit’ e certamente a incorreção foi proposital para demonstrar que o autor da inscrição, provavelmente Gus, não dominava tão perfeitamente o Latim. Uma tradução aproximada da frase seria: uma uva muda de cor ao ver outra; uma uva provoca o amadurecimento de outra uva, o que claramente pode ser aplicados aos seres humanos, especialmente aos cowboys menos experientes em contato com outros veteranos como o próprio Gus. Ou de modo mais geral, o comportamento de uma pessoa influencia o de outra. Filosofia e filosofices a parte, “Lonesome Dove” ou “Os Pistoleiros do Oeste” é um filme magistral produzido em forma de minissérie e que perde um pouco de sua grandeza quando assistido na versão mais curta. Impossível comparar mesmo os grandes filmes que tratam de cowboys e gado, mesmo os melhores como “Rio Vermelho” (Red River), com “Lonesome Dove”, uma obra-prima, um marco cinematográfico produzido em forma de minissérie, um dos melhores filmes de todos os tempos do gênero western.

Muitos quadros retratando "Lonesome Dove" ornamentam paredes nos
Estados Unidos, assim como esculturas do Capitão F.W. Call e de 'Gus' McCrae

Roupas com motivos de "Lonesome Dove" são muito vendidas até hoje

29 de dezembro de 2018

OURO É O QUE VALE (WATERHOLE # 3) – JAMES COBURN TENTANDO SER ENGRAÇADO



Blake Edwards
Realizar um western-comédia sem descambar para a paródia sempre foi difícil e a maior parte das tentativas resultou em fracasso artístico. “Dívida de Sangue” (Cat Ballou) é um dos raros exemplos em que propostas como essas deram bom resultado, agradando inclusive ao público. Blake Edwards era nos anos 60 um dos expoentes das comédias produzidas em Hollywood e emprestou seu nome a uma produção que tencionava fazer o público rir. A escolha de James Coburn como ator central já indicava, no entanto, que o projeto poderia dar errado. Coburn era excelente ator e criou um tipo marcante que após se destacar em inúmeros filmes como coadjuvante passou à condição de astro principal, insuperável em seu estilo ‘cool’. Mas Coburn não era engraçado e isso fica mais que evidente em “Ouro é o que Vale” (Waterhole # 3), western-comédia de 1967 que foi dirigido por William A. Graham, que passou quase toda longa carreira dirigindo séries e filmes para a televisão. Blake Edwards participou como roteirista e ator dos westerns “Expiação” (Panhandle) e “Debandada” (Stampede), respectivamente de 1948 e 1949, antes de passar a escrever, produzir e dirigir as comédias que o tornaram famoso. Somente em 1971 Edwards dirigiria seu primeiro faroeste que foi “Os Dois Indomáveis” (The Wild Rovers). Caso tivesse assumido a direção de “Ouro é o que Vale”, que não foi escrito por ele, talvez resultasse em um western-comédia com alguma graça, o que acabou não acontecendo.


James Coburn e Carroll O'Connor
A disputa pelo ouro roubado - Lewton Cole (James Coburn) é um jogador à espera de uma oportunidade melhor para ganhar dinheiro. Quando surge essa possibilidade Cole não hesita em matar um oponente para descobrir onde estão escondidos 45 quilos de ouro em barras roubados do Exército. Um pequeno mapa indica o local e para chegar lá Cole precisa de um bom cavalo e o melhor que existe na cidade de Integrity pertence ao xerife John Copperud (Carroll O’Connor). Já procurado pela justiça pelo crime praticado, Cole rouba o cavalo do xerife, deixa-o nu dentro da cela da delegacia e ainda estupra Billee (Margaret Blye) a bela filha do xerife. Copperud precisa prender Cole para refazer sua imagem e para se reeleger xerife de Integrity, saindo na captura do desafeto. Encontra Cole mas acaba seduzido pela possibilidade de dividir o tesouro encontrado pelo assassino, escondido num poço d’água natural, o ‘waterhole’ do título original. Outros bandidos disputam o ouro e o Exército também se empenha em recuperá-lo, mas ao final Cole fica com o ouro e vai desfrutar da boa vida no México após ultrapassar a fronteira.

Margaret Blye e Carroll O'Connor.
Carroll O'Connor e Bruce Dern
Código particular - Chamar Lewton Cole de amoral seria eufemismo. Entre suas atitudes infames ele concorda em duelar com o líder da quadrilha que roubou o ouro (Roy Jenson), desrespeitando porém as clássicas leis de um duelo, ocasião em que assassina covardemente o adversário. Para ficar com o cavalo do xerife Copperud, não se satisfaz em prendê-lo em sua própria cela mas o humilha deixando-o totalmente despido juntamente com o apalermado auxiliar (Bruce Dern). Encontrando a apetitosa Billee não hesita em possuí-la, ainda que a resistência oferecida pela moça tenha sido relativamente pequena. Cole corrompe o corruptível xerife porque naquele momento esta é sua melhor opção. Outro bandido (Timothy Carey) sucumbe à sua fria covardia e quantas mentiras forem necessário, quantas vezes Cole mentirá. A pobre Billee que por ele se apaixonou e a quem volta a se entregar na esperança de ficar com seu violador é desprezada. Mal imagina a moça que para ele ‘ouro é o que vale’ e só pelo ouro se interessa para valer. Tudo o mais Cole usa como usa um cavalo. Esse é o código todo particular das leis do Oeste para Lewton Cole.

Margaret Blye
A irrelevância da mulher - Um enredo que poderia ser interessante se desenvolvido dramaticamente é comprometido pela opção pelo western-comédia, ainda que em “Ouro é o que Vale” todos se esforcem para parecerem engraçados. Apenas Carroll O’Connor chegue perto disso.  A balada-tema “Code of the West” cantada por Roger Miller indica a subversão dos códigos tradicionais inclusive os de honra, mas com a intenção de fazer graça o filme é excessivamente agressivo ao mostrar o desprezo pela mulher. O pai da moça estuprada nem se importa com o fato, encarado como natural já que mulheres, segundo ele, servem para atender aos instintos masculinos. Repulsivo é o mínimo que se pode dizer desse desnecessário e deslocado, mesmo em 1967, enfoque. James Coburn e Carroll O’Connor deveriam formar uma dupla tão desajustada quanto desonesta, porém a parceria não funciona. Não por culpa de O’Connor, mas porque o cinismo, a frieza e o despudor de Coburn operam em sentido contrário.

James Coburn e Carroll O'Connor
O persistente baladeiro - À parte a absoluta falta de graça, a narrativa não prende a atenção embora trate da clássica disputa por ouro. E a surpresa da mensagem final demonstra que o crime pode sim compensar e, aí sim, ninguém melhor que James Coburn para sarcasticamente expressar a impudência. Procurando copiar o que deu certo em “Cat Ballou”, um baladeiro, cansativamente, se torna narrador não escondendo que isso foi necessário para que o faroeste não perdesse o rumo. O cantor Roger Miller não aparece no filme, ao contrário de Nat ‘King’ Cole e Stubby Kaye, cujas presenças alegram ainda mais o western-comédia estrelado por Lee Marvin. O excelente elenco de apoio de “Ouro é o que Vale” contou com James Whitmore, Claude Akins, Bruce Dern, Roy Jenson e Timothy Carey não tem oportunidade de brilhar. A veterana Joan Blondell é a cortesão de Integrity e o destaque do cast fica para Margaret Blye.

James Whitmore, Timothy Carey e Claude Akins

Imagens é o que vale... - Uma curiosidade é Robert Burks ter sido o Diretor de Fotografia, ele que era o cinegrafista preferido de Alfred Hitchcock. Este não foi o primeiro western de Burks pois é dele a ótima fotografia (3D) de “Caminhos Ásperos” (Hondo), de 1953, mas após tantos filmes trabalhando com Hitch é inesperado o retorno ao Velho Oeste. E a cinematografia acaba sendo o ponto alto de “Ouro é o que Vale”. O fracasso deste faroeste em nada abalou a carreira de James Coburn que entre outros grandes filmes interpretaria o melhor Pat Garrett que o cinema já viu. Pelas mãos de Sam Peckinpah, o que é outra conversa...
À direita James Coburn.

16 de dezembro de 2018

AS QUATRO CONFISSÕES (THE OUTRAGE) – UM WESTERN PARA PAUL NEWMAN ESQUECER


Acima Akira Kurosawa e Martin Ritt;
no centro Toshiro Mifune e Paul Newman;
abaixo Claire Bloom e Rod Steiger

Paul Newman passou a década de 50 tentando se livrar da imagem de imitador de Marlon Brando, ambos oriundos do Actors Studio, de Nova York, escola formadora de uma geração de excepcionais atores. Nos anos 60 Brando amargou uma queda de qualidade em seus filmes enquanto Newman acertava em quase todos seus personagens, ultrapassando Brando em número de fãs e salário. É conhecida a associação de Paul Newman com o diretor Martin Ritt, que o havia dirigido em “O Mercador de Almas”, “Paris Vive à Noite” e “O Indomado”, todos rendendo elogios às atuações de Newman que foi indicado ao Oscar de Melhor Ator por “O Indomado”, este de 1963. Quando Ritt se propôs a realizar uma versão-western de “Rashomon”, o filme que tornou Akira Kurosawa conhecido no Ocidente, o diretor pensou em Marlon Brando para interpretar o personagem central. Nesta versão um bandido mexicano chamado ‘Juan Carrasco’. Brando que já havia interpretado um mexicano em “Viva Zapata!” declinou da oferta e Ritt ofereceu o papel a Paul Newman que vinha mesmo procurando diversificar os personagens que interpretava. ‘Juan carrasco’ viria a calhar e Newman poderia mostrar ser capaz de fazer um mexicano melhor do que Brando faria. Essa versão, com roteiro de Michael Kanin, diferia bastante daquela que Kanin escrevera para a encenação de “Rashomon” na Broadway, em 1959, interpretada por Rod Steiger como o bandido e Claire Bloom como a esposa estuprada, ela que era casada com Steiger na vida real. A nova versão de Michael Kanin dirigida por Martin Ritt foi ambientada no deserto do Arizona, transformando-se em um faroeste, o segundo que Hollywood baseava em filmes de Akira Kurosawa. Antes houvera “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven), em 1960, e simultaneamente ao western de Ritt, o italiano Sergio Leone filmava em Almería (Espanha) sua versão de “Yojimbo” com o título de “Per un Pugno di Dollari”, o bem sucedido “Por um Punhado de Dólares”.


Acima William Shatner, Howard Da Silva e
Edward G. Robinson; abaixo Laurence Harvey
Quatro versões para uma morte - Um padre (William Shatner), um garimpeiro (Howard Da Silva) e um velho escroque (Edward G. Robinson) se encontram numa estação em Silver Gulch à espera de um trem e comentam o recente enforcamento de Juan Carrasco (Paul Newman). Carrasco é um conhecido bandido mexicano acusado de haver matado o ex-Coronel Confederado Wakefield (Laurence Harvey) e estuprado sua esposa Nina (Claire Bloom). Durante a conversa são narrados os relatos dos crimes, relatos feitos pelo próprio Juan Carrasco e recontado pelo padre; por Nina; pelo Coronel morto através de depoimento de um velho índio que encontrara o sulista ainda com vida; e finalmente pelo garimpeiro que chegara ao local do crime e encontrara Wakefield morto. Uma narrativa difere em vários aspectos da outra e o único fato concreto é que Carrasco foi sentenciado pela morte do Coronel. Justa ou injustamente é a dúvida que o filme levanta.

Acima Paul Newman; Newman e Harvey
Narrativa nebulosa - A verdade é algo subjetivo que depende do ponto de vista de quem a expressa, gerando inevitavelmente contradições quando há divergências de opiniões sobre ela. É isso que Ryünosuke Akutagawa propôs em suas duas histórias reunidas no roteiro original de “Rashomon” de Akira Kurosawa. Refilmado com o título “The Outrage” (As Quatro Confissões) manteve-se a nada convencional narrativa em flashbacks do filme de Kurosawa. O faroeste de Ritt mantém certo interesse quando do relato feito por Carrasco, o qual parece bastante verossímil. A mudança brusca se dá quando Nina relata sua versão dos acontecimentos, mais nebulosa e dramática pois expressa o difícil relacionamento da mulher com seu marido. A história contada pelo velho índio faz com que a atenção do espectador seja reduzida e afinal o depoimento do garimpeiro pouco acrescenta ao interesse pela ‘verdade’. Nessa parte final o roteiro deixa de ter o brilho dos diálogos iniciais e a direção de Martin Ritt se perde totalmente com a tragédia convertendo-se numa comédia e mais ainda, com um sentimentalismo inadequado.

Paul Newman e Claire Bloom; Claire Bloom.
Erotismo dramático - Um filme que inicialmente se propõe a discutir seriamente a ‘verdade’ termina de forma melancólica mal servindo, que seja, para uma provocativa brincadeira com o espectador. Claire Bloom e Laurence Harvey estão bastante expressivos em seus personagens, ele que como poucos é capaz de criar um tipo arrogante, no caso aqui o aristocrático ex-Coronel. As nuances de Claire são perfeitas, especialmente quando sob seu ponto de vista o esnobe Coronel Wakefield não é mais que um covarde que passava mal antes de partir para as batalhas da Guerra Civil. E ele também a desnuda revelando ser ela uma mulher oportunista e fútil. Os melhores momentos do filme são quando Nina se mostra satisfeita por ter sido possuída por Carrasco e mais ainda porque diante do marido a quem despreza e que está amarrado e amordaçado mas com os olhos bem abertos testemunhando a cena erótica. Sequência e diálogos fortes e raros no genero. Porém o grande equívoco deste filme foi justamente aquilo que parecia ser o maior trunfo para atrair o público: seu astro principal Paul Newman.

Laurence Harvey; Claire Bloom e Paul Newman

Paul Newman
Paul Newman grotesco - Mal recebido pela crítica quando de seu lançamento, “As Quatro Confissões” é um daqueles filmes, como o caso de “O Cálice Sagrado”, que Paul Newman certamente gostaria de omitir de sua filmografia, o mesmo valendo para Ritt. Newman conta que passou duas semanas no México para adquirir a maneira de falar dos mexicanos. Nem precisava ter perdido esse tempo pois melhor seria assistir a alguns filmes de Anthony Quinn, de cuja voz e rudeza naturais Newman muito se aproximou na composição de seu exagerado Carrasco. Ter sido realizado em preto e branco foi uma sorte para Newman que não precisou usar lentes para tornar seus olhos castanhos, embora tenha tentado esconder com lentes os olhos azuis masculinos mais famosos do cinema. Newman não se adaptou mas o preto e branco amenizou o problema. Mas havia ainda o bigode, o cavanhaque e a franja escura complementados com um grotesco aumento do nariz do ator para formar a mais bizarra imagem que Newman levou à tela em sua carreira. Somado a isso a mal concebida mudança de comportamento de seu personagem ao longo do filme.

Acima Howard Da Silva e Edward G.
Robinson; abaixo William Shatner e
Edward G. Robinson
Comparação impossível - James Wong Howe foi o responsável pela fotografia, como sempre excelente do notável cinegrafista. Sem preciosismo de angulações e travellings desnecessários Howe é preciso ao filmar as expressões e enquadrar o triângulo mantido mesmo com o personagem de Harvey à distância amarrado a uma árvore. Boas as sequências de luta, ainda que a última delas descambe para a galhofa. O reduzido elenco traz ainda William Shatner antes da fama como o ‘Capitão Kirk’ de “Jornada nas Estrelas” e os veteranos Edward G. Robinson e Howard Da Silva. Robinson num personagem filosofal e antipático que se torna por vezes irritante; e é sempre bom rever o ótimo Da Silva de tantos e excelentes filmes até sumir das telas por mais de uma década após ter sido ‘blacklistado’ pelas bruxas de Hollywood. Dois anos após “As Quatro Confissões”, Martin Ritt e Paul Newman se reencontrariam no admirável western “Hombre”, um dos grandes filmes de Ritt e das melhores interpretações de Newman como o mestiço taciturno. É recomendável que se assista primeiro a “As Quatro Confissões” e depois “Rashomon” de Kurosawa para que o filme de Ritt não pareça ainda mais fraco do que é.

Claire Bloom; Paul Newman

26 de novembro de 2018

JORNADAS HEROICAS (THE PLAINSMAN) – GARY COOPER É O HEROICO ‘WILD BILL’ HICKOK



Cecil B. DeMille;
Hickok; Calamity Jane
e Buffalo Bill
Cecil B. DeMille era já um diretor famoso que fazia filmes desde 1914 e reconhecido como ótimo contador de histórias, mais ainda se estas tivessem origem em textos bíblicos. Tendo feito diversos westerns no cinema mudo, DeMille ainda não havia incursionado pelo gênero western depois que o cinema passou a falar, mesmo tendo percebido que não faltavam ótimas oportunidades para filmes com seu característico estilo grandiloquente. Ainda no cinema silencioso foram filmadas superproduções como “Os Bandeirantes” (The Covered Wagon), de James Cruze, 1923 e “O Cavalo de Ferro” (The Iron Horse), de John Ford, 1925; o premiado “Cimarron”, de Wesley Ruggles, chegaria em 1931 e certamente fez com que DeMille reavaliasse a ideia de enveredar pelo Velho Oeste, o que ocorreria em 1936 com “The Plainsman”. Esse não foi o primeiro título pensado para essa produção que chegou a se chamar “The Breed of Men”, isto na fase de elaboração do roteiro no qual trabalharam Waldemar Young, Harold Lamb e Lyan Riggs. O personagem principal da história de “The Plainsman” é James Butler Hickok, mais conhecido como ‘Wild Bill’ Hickok, cujos 39 anos de vida foram repletos de aventuras. O lendário Hickok foi, entre outras coisas, homem da lei, soldado na Guerra Civil e jogador de pôquer e o roteiro se baseou principalmente no livro “Wild Bill Hickok: The Prince of Pistoleers”, de Frank J. Wilstach, além de uma compilação de textos feita por Jeannie MacPherson. DeMille não perderia a oportunidade de visitar o Oeste Selvagem deixando de lado alguns de seus principais personagens e sem nenhum constrangimento ‘encomendou’ a presença de George Armstrong Custer, de Buffalo Bill e de Calamity Jane para participarem da história. Hickok, realmente, conheceu William Cody (Buffalo Bill) e mais ainda Calamity Jane. Esta, por sinal, em sua autobiografia relatou que chegou a se casar com Hickok. Mas a intenção de DeMille não era se ater unicamente aos fatos históricos e sim tornar seu filme mais interessante e emocionante. Para isso, até mesmo Abraham Lincoln tem uma ‘pequena participação’ na parte inicial. Esqueceu-se, no entanto, o produtor-diretor da figura também lendária de John Wesley Hardin, outro que chegou a conhecer Hickok. E nem pensar em citar que ‘Wild Bill’ teve uma doença comum naqueles tempos (gonorreia), uma vez que isso em nada enalteceria sua imagem heroica vivida por ninguém menos que Gary Cooper. Mas DeMille simplesmente seguia, com a falta de rigor histórico, o modelo daqueles tempos ainda distantes da precisão revisionista que ocorreria em Hollywood décadas mais tarde. Custer, Billy the Kid, Jesse James, entre outros eram reverenciados nos filmes norte-americanos e o mesmo fez DeMille com Hickok, Buffalo Bill e Calamity Jane em seu “The Plainsman” que no Brasil recebeu o título “Jornadas Heroicas”.


Jean Arthur e Gary Cooper;
Gary Cooper e Charles Bickford
Hickok desarmando os índios - Coincidiu com o fim da Guerra Civil a invenção do rifle de repetição e a indústria bélica do Norte se viu em dificuldade para desovar a nova produção. Como os índios ainda resistiam à política de Washington de deixar suas terras para que os brancos as explorassem, os nativos passaram a ser vistos pelos fabricantes como um potencial mercado consumidor dessas novas armas. Mas havia o Exército para impedir esse arriscado comércio e a solução era contratar contrabandistas de armas, alguém como John Lattimer (Charles Bickford) que conseguia ter como sequazes até mesmo soldados da União. Lattimer passou a armar os índios porém teve a má sorte de ‘Wild Bill’ Hickok (Gary Cooper) atravessar seu caminho. E isto justamente quando Hickok havia reencontrado seu amigo Buffalo Bill (James Ellison), ambos sempre dispostos à ajuda mútua. Buffalo Bill acabara de se casar com Louisa Cody (Helen Burgess), enquanto Hickok não se decidia a transformar sua eterna namorada Calamity Jane (Jean Arthur) em sua esposa, por mais que ela se esforçasse para isso. Tentando desbaratar o contrabando de armas Hickok acaba, juntamente com Jane, prisioneiro dos Cheyennes. Libertado, ajuda uma patrulha do Exército que sofre uma emboscada e mais tarde encontra um índio Cheyenne (Anthony Quinn), que relata o massacre Sioux ao regimento comandado pelo General Custer (John Miljan). Após a aniquilação do 7.º Regimento de Cavalaria, Hickok segue para Deadwood onde se defronta com Lattimer e o mata em legítima defesa. Descuida-se porém em um jogo de cartas e é alvejado pelas costas por Jack McCall (Porter Hall), comparsa de Lattimer. Calamity Jane fica sem seu grande amor e o tráfico de armas para os índios cessa graças à ação de ‘Wild Bill’ Hickok.

Gary Cooper e Jean Arthur
Western sem ‘happy end’ - Um dos maiores sucessos do ano de 1936, “Jornadas Heroicas” não tinha outro objetivo senão o de agradar ao público, com seu diretor-produtor sabendo sobejamente como fazer isto. E DeMille não teve pudores em mostrar ‘Wild Bill’ Hickok como um homem digno e corajoso cujo defeito único talvez fosse não resistir a um jogo de pôquer. Valente frente aos malfeitores, era durão também no seu namoro com Calamity Jane, a quem desdenhava mas sabia que a amava. E o destemido Hickok enfrenta sucessivos desafios vencendo-os a quase todos e a exceção fica por conta da impossibilidade de evitar o extermínio do regimento do General Custer.  Se o roteiro não deu maior importância aos fatos históricos ele é bastante coerente na narrativa ficcional e por isso mesmo chega a chocar a coragem de dar a este western um final nada feliz, frustrando o espectador com a morte do herói. Final paradoxalmente muito próximo de como o evento ocorreu, ou seja, com Hickok baleado pelas costas enquanto estava numa mesa de pôquer.

Gary Cooper
Sarcasmo e patriotismo - Embora por vezes o ritmo de “Jornadas Heroicas” decaia bruscamente, este é um western repleto de ação e o ponto alto é quando Hickok busca promover uma conferência de paz com o Chefe Yellow Hand (Paul Harvey). Wild Bill é feito prisioneiro juntamente com Calamity Jane e submetido a uma tortura sendo exposto a uma fogueira para que diga onde estão as balas para municiar os rifles que os índios trocaram por peles. Bravamente Hickok resiste mas Calamity ao vê-lo sofrer conta o que sabe ao chefe Cheyenne. São então libertados e isso é o suficiente para Hickok hostilizar mais a garota, o que faz sarcasticamente o tempo todo, momentos em que DeMille exercita sua comicidade nem sempre engraçada. A resistência de Hickok expressa seu sentimento patriótico, o que permeia todo o filme e que numa história de pura ficção com personagens idealizados é uma das formas de agradar o público. E Gary Cooper se identificou como poucos outros atores ao americano digno, patriota e intrépido.

Jean Arthur
Calamity Jane, quase perfeita dama - Muito se comentou que o diretor-produtor cedeu de sua coleção particular 64 armas da época da Guerra Civil para tornar mais realistas as sequências de batalha. E nelas utilizou, pelo que diziam os ‘releases’, dois mil extras. Mesmo filmadas em locações numa Reserva Indígena em Montana, essas sequências não chegam a impressionar ao modo de John Ford ou Raoul Walsh. Porém a recriação de Deadwood City e antes o cenário de Leavenworth, construídos nos estúdios da Paramount, criam a impressão de se voltar àquelas cidades em meados do século XIX. A riqueza de detalhes também chama a atenção e compensa o fato de DeMille ter utilizado atores brancos como índios, exceto o nativo Chief Thundercloud que sequer tem falas na película. O mexicano Anthony Quinn que se destacaria em sua carreira pelos personagens multirraciais é quem mais se assemelha a um Cheyenne de verdade. As muitas liberdades que DeMille tomou em relação à História, como foi citado acima, objetivavam agradar ao público, mas a Calamity Jane de Jean Arthur se distancia exageradamente da mulher nada feminina que ela sabidamente foi. E Calamity é neste western uma figura sem a vivacidade, insolência e rudeza que caracterizaram a lendária Calamity. Não fosse assim a personagem não poderia ser interpretada pela delicada Jean Arthur.

James Ellison
Buffalo Bill sem carisma - Errol Flynn não era ainda o grande modelo de herói que viria a se tornar no decorrer da década de 30, mas James Ellison mais parece um carbono do grande astro de “Capitão Blood”, claro que sem o carisma de Flynn. A escolha de Ellison para interpretar Buffalo Bill foi um erro tão gritante quanto Jean Arthur ser escalada como Calamity Jane. Ellison era um alto e simpático mas obscuro ator de westerns-B, pardner de Hopalong Cassidy e não consegue fazer o público acreditar ter sido ele autor das proezas atribuídas a William ‘Buffalo Bill’ Cody. Tanto que sua carreira, apesar desta excepcional oportunidade jamais fez dele um astro de primeira grandeza. A esposa de Buffalo Bill neste filme foi interpretada com suavidade por Helen Burgess, jovem atriz descoberta por DeMille e que teve sua carreira truncada aos 20 anos de idade quando faleceu vítima de uma pneumonia.


Excepcional elenco de apoio - O excelente Charles Bickford é o vilão principal e mereceria ter maior relevância no filme. Conta-se que a Paramount não aceitou que ‘Wild Bil’l Hickok fosse morto por alguém de tão pouca importância como o Jack McCall interpretado pelo eterno coadjuvante Porter Hall. Mas DeMille bateu o pé e ao menos nesse evento foi fiel aos fatos históricos, mantendo McCall como o covarde assassino de Hickok. O vastíssimo elenco é um prazer extra para aqueles que reconhecem os atores coadjuvantes e podem ser vistos, entre outros, George ‘Gabby’ Hayes, Hank Bell, Francis Ford, Charles Stevens, Fuzzy Knight, Francis McDonald, Bud Osborne, Richard Alexander, Ted Oliver e os eternos bandidões Harry Woods e Fred Kholer. O Imponente John Miljean é George Armstrong Custer e Anthony Quinn numa breve aparição dá início a uma das mais extraordinárias vidas artísticas que um ator poderia ter. Segundo ele mesmo gostava de contar, seu papel era ainda menor, mas ele chamou a atenção de DeMille quanto ao modo que um Cheyenne se aproximaria dos brancos. O diretor inconformado com atrevimento do jovem desconhecido de 21 anos o dispensou sumariamente, mas Katherine, a filha de DeMille, presente ao set a tudo observou e disse ao pai que havia coerência dna observação de Quinn. Este não só continuou no filme como se casou com Katherine e se tornou um protegido do diretor.
À direita Gary Cooper com Fred Kholer, Harry Woods e George 'Gabby' Hayes


Gary Cooper
Gary Cooper mais ele próprio que Hickok - “Jornadas heroicas” gira praticamente inteiro em torno da presença de Gary Cooper que com seu modo habitual de interpretar, aparentemente sem fazer maior esforço, convence e conquista o espectador. Cooper parece um tanto lento por vezes mas isso era parte do seu charme. Cabelos, bigode e cavanhaque longos eram uma característica de Wild Bill Hickok, mas DeMille sabia que Cooper não ficaria bem com esse perfil e o que temos é um Hickok com o jeito de Gary Cooper e não o contrário. Este foi mais um êxito na carreira do ator que conseguiu a proeza de enfileirar uma longa sequência de sucessos, coisa que raros atores conseguiram fazer em tantas décadas de cinema norte-americano. Cecil B. DeMille que se iniciou como diretor em 1914 com o western “Amor de Índio”, posteriormente a “Jornadas Heroicas” ainda dirigiria “Aliança de aço” (Union Pacific), “Legião de Heróis” (North West Mounted Police) e “Os Inconquistáveis” (Unconquered), estes dois últimos estrelado por Gary Cooper e não westerns legítimos. Nenhum deles, no entanto se aproximou tanto de ser um clássico como “Jornadas Heroicas” que é um western que nenhum fã do gênero pode deixar de ver pois é garantia de boa diversão.