UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

16 de outubro de 2015

"I LEFT MY LOVE", DE STAN JONES, BELÍSSIMO TEMA PARA A U.S. CAVALRY


Stan Jones foi um extraordinário compositor de canções feita para o universo dos cowboys.
Autor da conhecidíssima "(Ghosts) Riders in the Sky", gravada por centenas de artistas no
mundo inteiro, Stan Jones era o compositor preferido de John Ford, que o chamou para
criar o tema de "Marcha de Heróis" (The Horse Soldier), western em que o grande
destaque é a própria Cavalaria e seus bravos soldados. Stan foi bastante feliz e fez uma
música que, tivesse sido composta 100 anos antes, teria sido sem dúvida um verdadeiro
hino da U.S. Cavalry. No vídeo abaixo a canção de Stan Jones acompanha imagens desse
filme de John Ford. Leia a biografia do compositor acessando este link:

http://westerncinemania.blogspot.com.br/2011/12/stan-jones-o-charles-russell-das.html


13 de outubro de 2015

OS CAVALEIROS DA SOMBRA (THE SHADOW RIDERS) – DIVERTIDO E AGITADO TV-MOVIE


Louis L’Amour (pseudônimo de Louis Dearborn LaMoore), foi um dos mais conhecidos e prolíficos autores de histórias de faroestes, apelidado de ‘America’s Favorite Storyteller’ (o contador de histórias favorito da América). É dele, entre as dezenas de histórias que escreveu e que foram levadas ao cinema e à TV, “Hondo” (Caminhos Ásperos), um dos melhores westerns de John Wayne. Em 1979, foi produzido para a televisão “The Sacketts” (Em Nome da Lei), filme de 240 minutos de duração, exibido em duas partes pela rede NBC. “The Sacketts” alcançou enorme sucesso e tinha no elenco Tom Selleck, Sam Elliott, Jeff Osterhage e Ben Johnson, narrando uma aventura dos três irmãos Sacketts. Louis L’Amour havia escrito nada menos que 17 livros contando histórias sobre os irmãos, juntos ou individualmente. Em 1982 Tom Selleck era já um fenômeno de audiência na pele do detetive ‘Magnum’ que caçava bandidos a bordo de sua Ferrari 308 GTS. Foi então que a CBS decidiu reunir o mesmo elenco principal de “The Sacketts” – Selleck, Elliott, Osterhage e Johnson – em “The Shadow Riders”, outra aventura familiar (agora com os ‘Traven’) escrita por L’amour. Dirigido pelo veterano Andrew V. McLaglen, esse TV-movie alcançou grande audiência quando de sua apresentação na televisão e rendeu muito mais dinheiro aos produtores depois de lançado em VHS/DVD. No Brasil esse filme se chamou “Os Cavaleiros da Sombra”.


Tom Selleck e Sam Elliott
Os incansáveis irmãos Traven - Ao final da Guerra Civil a família Traven estava separada com os irmãos Dal (Sam Elliott) e Mac (Tom Selleck) lutando cada um por um lado no conflito fratricida. O velho casal Traven (Harry Carey Jr. e Jane Greer) não conseguiu impedir que um bando de renegados sulistas comandados pelo Major Cooper Ashbury (Geoffrey Lewis) sequestrassem Jesse (Jeff Osterhage) o filho mais jovem e as irmãs menores Sissy (Domnique Dunne) e Heather (Natalie May). O Major Ashbury saqueia propriedades, apossando-se de cereais que são contrabandeados para o México que se vê às voltas com tentativas de derrubar o Imperador Maximiliano. Junto com produtos roubados são levados também jovens homens e mulheres que serão vendidos como escravos para comancheiros que os levam também para o México. Os homens trabalharão nas minas e as mulheres irão para os bordéis. Dal Traven que era dado como morto na Guerra Civil encontra-se com o então Capitão ianque Mac Traven, seu irmão, retornando ambos para casa em Big Springs. Partem então em busca dos irmãos e também de Kate Connery (Katharine Ross), namorada de Dal e que foi igualmente levada pelo Major Ashbury. Jeff consegue escapar do cativeiro, enquanto Kate, Sissy e Heather são levadas de navio de Baffin Bay, no Texas, para Laguna Madre, no México, onde são negociadas com o comancheiro Holiday Hammond (Gene Evans). Jeff é encontrado por Mac e Dal e o trio junta-se ao tio (Black)Jack Traven, a quem resgatam de uma penitenciária onde cumpre pena. Jack conhece bastante bem o México e o quarteto chega a tempo de libertar as três mulheres, prendendo Holiday Hammond. Chega então ao México o xerife Miles Gillette (R.G. Armstrong) que liderava um grupo em implacável caçada a ‘Blackjack’ Traven, a quem acaba prendendo. O Major Ashbury, que havia sido traído por Hammond, é também libertado. O xerife Gillette aceita libertar Traven em troca de Hammond e os cinco irmãos Traven e mais Kate Connery retornam para o lar em Big Springs.

Sam Elliott com Jane Greer. Harry Carey Jr. com Tom Selleck;
Jane Greer com Tom Selleck.

Sam Elliott escapando da morte
por duas vezes.
Ritmo de seriado - A história de Louis L’Amour é um primor de imaginação, partindo da desintegração familiar em razão da Guerra Civil, passando por renegados confederados que agem no pós-guerra não aceitando a rendição, chegando até o tráfico de homens e mulheres que serão escravizados. L’Amour reúne todos os elementos possíveis de serem inseridos na rocambolesca aventura dos irmãos Traven. E Andrew V. McLaglen não se constrange de mostrar logo nos primeiros dez minutos do filme o Capitão sulista Dal Traven ser salvo da morte iminente em dois momentos: primeiro quando está em vias de ser fuzilado por um pelotão ianque; em seguida quando seu próprio irmão Mac, Capitão da União, impede que Dal seja enforcado. E na sequência de “Os Cavaleiros das Sombras”, no melhor estilo dos antigos seriados, são salvos em cima da hora o outro irmão Jeff, bem como as duas irmãs e ainda Kate. Tio Jack Traven por sua vez enfrenta problemas com a Justiça, sendo atrevidamente libertado pelos sobrinhos e, ao final, preso novamente, numa passagem inesperada por seu conteúdo pitoresco.

Katharine Ross duas vezes;
acima disfarçada de freira. 
Kate, vítima de permanente assédio - Se os irmãos Traven não têm descanso, menos ainda tranquila é a vida de Kate, a namorada de Dal que, acreditando-o morto na guerra, está prestes a contrair um casamento de conveniência, do qual é 'salva' por ter sido sequestrada pelos renegados. Kate passa todo o filme fugindo do assédio dos homens que a conhecem e que sucumbem a seu encanto, o que acontece com o nefasto Major Ashbury e com o perverso traficante e contrabandista Holiday Hamond. Como se não bastasse, Kate ainda se depara com crises de  ciúmes de Dal que, ainda bem, não percebe que mesmo seu irmão Mac reconhece a mulher admirável que Kate é. Essa personagem, o mais bem desenvolvido da história, é uma mescla de mulheres fortes e determinadas como tantas vezes interpretaram Susan Hayward, Barbara Stanwyck e Katharine Hepburn, com quem Katharine Ross mais guarda semelhança. Após um início fulminante no cinema, participando de filmes importantes em um par de anos, Katharine Ross acabou não se transformando na grande estrela que parecia destinada a ser. “Cavaleiros das Sombras” mostra que Hollywood foi injusta com Kate Ross, linda mulher e ótima atriz.

Geoffrey Lewis e Gene Evans

Sam Elliott e Ben Johnson
Tom pilhérico - Feito para ser exibido na televisão e não nos cinemas, isto quando ainda não havia o fenômeno do VHS, “Os Cavaleiros das Sombras” cumpre seu objetivo maior que é divertir. Que não se leve a sério as tantas situações inverossímeis da agitada aventura vivida pelos Traven, para este western funcionar como puro escapismo. Sabe-se que Tom Selleck era a primeira opção de Steven Spielberg para ser o arqueólogo ‘Indiana Jones’, na espetacular aventura “Os Caçadores da Arca Perdida”. E Selleck junta seu cinismo e simpatia à rabugice de Sam Elliott que nunca havia sorrido tanto nos filmes que fez como acontece em “Os Cavaleiros das Sombras”. Este filme de Andrew McLaglen não trai o espectador pois desde o início, como foi dito, tem seu ritmo determinado pelo tom pilhérico. Certo que o desfile de excelentes atores veteranos – Ben Johnson, Harry Carey Jr., Jane Greer, R.G. Armstrong e Gene Evans – até pode fazer crer que fosse um desperdício de talentos envolvê-los em um filme pouco dramático. Porém é justamente as presenças deles que torna o filme ainda mais saboroso no qual não falta nem mesmo a clássica sequência de resgatar as prisioneiras de um trem em movimento.

Tom Selleck
Uma fraqueza hereditária - Aos 64 anos de idade, Ben Johnson se mostra em boa forma, cavalgando como nos tempos em que galopava sinuosamente pelo Monument Valley, livrando-se das flechas dos índios, sob as ordens de John Ford. E num filme semicômico, é de Ben Johnson o momento mais engraçado, quando um encolerizado xerife Gillette (imaginem se não é R.G. Armstrong) tem revelado o segredo que sua esposa andava atrás do mulherengo (BlackJack Traven (Ben Johnson). E o também ‘womanizer’ Mac Traven (Selleck) herdou do tio a necessidade de desfrutar dos mais variados braços femininos que encontram pelos caminhos do Texas e arredores. Outro grande prazer de “Os Cavaleiros das Sombras” é ver Gene Evans em papel mais relevante como o repulsivo Coronel Holiday Hammond, o inescrupuloso ‘gunrunner’ que trafica não só armas mas também seres humanos. Um ‘comanchero’ como poucas vezes se viu nas telas, além de tudo ainda engraçado. Não à toa Gene Evans era o ator preferido de Samuel Fuller. Contrasta com o irrepreensível elenco o inexpressivo Jeff Osterhage que elegeu Terence Hill como modelo para seu personagem.

Tom Selleck e Katharine Ross.

O casal Kate e Sam - Ressalte-se a presença do casal Sam Elliott-Katharine Ross, em perfeita cumplicidade como se fossem Kate Hepburn e Spencer Tracy. Sam e Katharine atuaram em “Butch Cassidy” (1969), sem, no entanto, contracenarem. Se conheceram de verdade quando das filmagens de “Convite à Morte”, em 1978, tendo ela se divorciado de seu quarto marido passando a viver com Elliott. Um dos casais mais felizes do cinema, Kate e Sam estão juntos há mais de 35 anos. Na ausência de bons westerns produzidos para o cinema nos anos 80, o público fã do gênero se comprazia com filmes como este de McLaglen, que deve muito à história de Louis L’Amour e aos atores. Mas sem dúvida foi o irregular diretor, filho do grande Victor McLaglen, o principal responsável pelo resultado positivo de “Os Cavaleiros das Sombras”. Ainda demoraria sete anos para que, em 1989, surgisse a obra-prima das mini-séries westerns que foi “Os Pistoleiros do Oeste” (Lonesome Dove), de Simon Wincer, com Robert Duvall e Tommy Lee Jones.

O casal Sam Elliott e Katharine Ross em cena.

Gene Evans, R.G. Armstrong e Jeff Osterhage

Perigosa cavalgada de Ben Johnson em acidentado caminho meio a pedras.

Sam Elliott e Tom Selleck

A cópia de "Os Cavaleiros da Sombra" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo Marcelo Cardoso.

9 de outubro de 2015

WESTERNTESTEMANIA N.º 37 - BEN JOHNSON, GRANDE COWBOY, MAGNÍFICO ATOR


Ben Johnson foi campeão de modalidades de rodeio e no cinema cavalgou
com brilho invulgar, conquistando prêmios e muitos admiradores.
Ben Johnson atuou em dezenas de westerns, alguns deles verdadeiramente
clássicos, outros obras-primas cinematográficas e este WESTERNTESTEMANIA
faz dez perguntas sobre faroestes que contaram com a presença
sempre marcante do cowboy de Oklahoma. 

 Postagem dedicada a Timothy and Terrance Hawkins,
amigos deste blog que vivem em Oklahoma.















  1 – b – O Trem da Morte (Breakheart Pass)
  2 – d – Encontra Clint Eastwood pendurado numa árvore e o salva
  3 – d – Marlon Brando
  4 – a – Lex Barker
  5 – a – Legião Invencível (She Wore a Yellow Ribbon)
  6 – c – Ben Johnson provoca Alan Ladd e luta com ele; mais tarde Ben o ajuda
  7 – b – Crepúsculo de uma Raça (Cheyenne Autumn)
  8 – a – E o Bravo Ficou Só (Will Penny)
  9 – b – Kid Blue não Nasceu para a Forca (Kid Blue)
10 – d – L.Q. Jones

5 de outubro de 2015

PEDRO CANHOTO, O VINGADOR ERÓTICO – A INFLUÊNCIA DO SPAGHETTI NO WESTERN CABOCLO


Toni Cardi
Fazer filmes no Brasil é, invariavelmente, um ato de heroísmo e tenacidade. Certo que sempre houve os bafejados pela sorte que contaram com apoio dos poderes públicos, c0mo acontecia nos anos 70 em que o INC financiava projetos dos pretensos godards e bergmans brasileiros. Esse era um tempo em que, paralelamente, o órfão Cinema da Boca se desenvolvia em São Paulo e que cada filme tinha uma história repleta de dificuldades, nenhuma delas maior que a falta de dinheiro. Um bom exemplo da aventura que era aqueles cineastas que se encontravam no Bar Soberano (na Rua do Triumpho) para fazer um filme é “Pedro Canhoto, o Vingador Erótico”, dirigido pelo italiano radicado no Brasil, Raffaele Rossi. Iniciado em 1971, a ideia do também roteirista Rossi era realizar um western nos moldes dos chamados ‘spaghetti’ que alcançavam grande sucesso por aqui. Para protagonista Raffaele Rossi chamou o piracicabano Toni Cardi com quem Rossi filmara “O Homem Lobo” em 1971. Iniciadas as filmagens em Dourados, na Região da Alta Mogiana, os trabalhos foram interrompidos por falta de dinheiro com o abandono do produtor inicial. As filmagens só foram retomadas mais de um ano depois quando Cassiano Esteves, da Marte Filmes, conseguiu o dinheiro necessário para concluir esse western caboclo. Muitos faroestes foram produzidos no Brasil nos anos 70, sendo apelidados de ‘Western Feijoada’, mas, apesar da forte influência dos westerns spaghetti, o melhor rótulo seria mesmo ‘Western Caboclo’ sequência do Ciclo Campineiro iniciado por Antoninho Hossri nos anos 50.


Kazuaque Hemmi e Dirce Semenzato;
abaixo o rancho incendiado pelos bandidos.
Defendendo um pedaço de terra - Um bandido chamado ‘General’ (José Velloni), a soldo do Coronel Martinez (Cavagnolle Neto), impõe o terror entre os sitiantes de Santa Clara de La Sierra. Soledad (Cleuza Bagnara), filha do Coronel, condena a atitude de seu pai. Entre os perseguidos pelo bando liderado pelo ‘General’ está a família de Pedro (Toni Cardi), que tem seu pai e irmã (Laércio Pessa e Dirce Semenzato) assassinados pelos bandidos, ela estuprada antes de morrer. O irmão menor de Pedro, o menino Pablo (Nelson A. Braga), consegue escapar e faz amizade com um estranho, o mendigo bêbado Toledo (Nivaldo Lima), sendo levado por Pedro para a casa de um ancião (Armando Paschoalim). Mariana (Adélia Coelho) é uma cigana, amante do ‘General’ que após traí-lo e ser por ele espancada passa a ser protegida por Pedro. O Coronel Martinez exige de seu filho Rodrigo (Moacir Maurício) que Pedro seja morto e, num confronto com os homens do ‘General’, Pedro tem sua mão direita quebrada para que não possa mais atirar, sendo deixado para ser devorado pelos abutres. Um mexicano errante (Nestor Lima) salva Pedro da morte enquanto o mendigo Toledo se recupera do vício e retoma sua identidade de pistoleiro, unindo-se a Pedro. Os dois amigos enfrentam então o ‘General’ e seu bando, exterminando-os, assim como liquidando o Coronel Martinez e seu filho Rodrigo. Toledo, o pistoleiro é morto no confronto, enquanto Soledad, que se enamorara de Pedro, fica ao lado dele no final.

O enforcamento do 'Velho';
abaixo Toni Cardi com Nivaldo Lima.
Copiando o modismo – Estraçalhado pela crítica quando de seu lançamento, o maior defeito de “Pedro Canhoto, o Vingador Erótico” é seu diretor ter feito do filme um autêntico álbum de clichês dos westerns spaghetti, destituindo-o de personalidade própria. Raffaele Rossi preferiu esse caminho, muito provavelmente, movido pela certeza da aceitação do público por um western com os ingredientes que tanto encantavam os aficionados da contrafação europeia. Quatro anos antes, em 1969, Ozualdo Candeias havia demonstrado com seu excelente “Meu Nome é Tonho” ser possível criar, com características particulares e bem brasileiras, um faroeste exemplar. Mas se falta personalidade a “Pedro Canhoto, o Vingador Erótico”, sobra talento ao diretor na costura do roteiro e ainda ótimo conhecimento de movimentação da câmara que, somados à direção dos atores principais, torna o filme mais que aceitável. Há que se lembrar que o gritante amadorismo de parte do elenco poderia comprometer o conjunto, tornando-o caricato, especialmente no excesso de risadas que é marca de todos os bandidos neste filme, vício amplamente disseminado pelos westerns spaghetti. Raffaele consegue superar esse obstinado cacoete justamente com o domínio do bom andamento de “Pedro Canhoto, o Vingador Erótico”.

Toni Cardi ao lado de Adélia Coelho.
Resistência heroica - A história comum a tantos westerns (de qualquer procedência) tem um componente inusitado com a figura do pistoleiro decaído (Toledo) que após recuperado une-se ao perseguido Pedro. Porém a transformação de Toledo se dá de modo pouco convincente, assim como não funciona a troca de medalhas entre ele e o menino Pablo. As medalhas certamente teriam a função de futuro reconhecimento entre Pablo e Toledo depois do afastamento de ambos e da recuperação do agora impecavelmente elegante pistoleiro. O recomposto Toledo vestindo-se demoradamente com seus trajes guardados num saco de viagem remete ao ritual de Lee Marvin em “Dívida de Sangue” (Cat Ballou), em que o grande ator norte-americano também interpreta um pistoleiro beberrão. E Raffaele Rossi cria uma inesperada mudança de rumo com a cigana Mariana inconsolável junto ao corpo do ‘General’, enquanto a suave Soledad é quem termina ao lado do vingador que de libertino não tem nada. Pelo contrário, Pedro é forte o bastante para resistir aos encantos da voluptuosa cigana, mesmo ambos tendo oportunidade de dar alguma lascividade às sequências. Filmado sob a rígida censura da ditadura militar, o filme de Rossi até que foi longe demais ao exibir seios e pelos pubianos de Adélia Coelho, a bela cigana, numa cena de banho num riacho. “Laranja Mecânica”, de 1971, somente obteve certificado de censura para exibição no Brasil em 1978 e quem viu o filme de Stanley Kubrick no lançamento em nosso país não esqueceu das ridículas bolotas pretas saltando na tela para encobrir seios e sexo de mulheres nuas.

As pernas de Adélia Coelho encostadas ao revólver de um bandido;
Adélia na bucólica sequência do banho no riacho.

Toni Cardi acima e abaixo o menino
Nelson Braga e a troca de medalhas
O louríssimo herói - Além de seus atributos físicos, a atriz Adélia Coelho exibe invulgar coragem ao montar em pelo um cavalo, saltando dele espetacularmente sem ajuda de dublê. E bandidos baleados caindo de balcões são sequências igualmente bem feitas, acima da média para nosso cinema ainda incipiente nesse tipo de truques. Alguns personagens que interpretam membros do bando do ‘General’ eram praticantes de artes marciais na mesma academia (Avenida São João, em São Paulo) em que treinava Toni Cardi. Com cabeleira oxigenada lembrando Teddy Boy Marino, o ídolo da luta livre e da primeira formação dos Trapalhões, Toni Cardi é menos eficiente na coreografia das sequências de luta que os coadjuvantes. E num filme com o mínimo de diálogos possível, o personagem Toledo tem despertada sua nada original ‘filosofice’ quando diz ao menino Pablo: “Você é uma boa criança. Se todos fossem como as crianças o mundo seria melhor”. E quando o garoto lhe pergunta por que ele bebe tanto, tem como resposta outra pérola: “Quando você for homem e compreender melhor a vida não vai fazer esse tipo de pergunta”.

Nivaldo Lima, um George Hilton
brasileiro e sério.
Destaque para Nivaldo Lima - Alguns dos intérpretes de “Pedro Canhoto, o Vingador Erótico” ganharam experiência em filmes da PAM de Amacio Mazzaropi, como é o caso de José Velloni e o próprio Toni Cardi; já Nivaldo Lima começou sua carreira de ator em emio a cobras e aranhas sob as ordens de José Mojica Marins. Nivaldo Lima que lembra um pouco o uruguaio George Hilton é bom ator, como comprovou em “Meu Nome é Tonho”. Cavagnolle Neto, o mais experiente do elenco, com carreira iniciada em 1953 na Vera Cruz, está muito bem como o ambicioso Coronel Jimenez. José Velloni, com uma dezena de aparições em filmes da PAM tenta ser convincente como um bandido cruel, algo próximo do General Mapache criado pelo magnífico Emílio Fernandez em “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch). A sensual Adélia Coelho faria apenas mais dois filmes (pornochanchadas), abandonando uma carreira promissora no Cinema da Boca. Toni Cardi passa o filme fazendo expressões de sofrimento quando nenhum sofrimento pode ter sido mais atroz que interpretar um ‘vingador erótico’ que não desfruta dos prazeres que é amar a tentadora cigana Mariana. Este filme de Raffaele Rossi conta com participação especial de Heitor Gaiotti, conhecido como o Lee Van Cleef da Rua do Triumpho. A participação se dá num flashback em preto e branco em que Gaiotti duela com Nivaldo Lima num cemitério, citação clara a Sergio Leone.

Nivaldo Lima e Heitor Gaiotti.
Morricone e Ferrio na trilha sonora musical - Segundo conta o ator Toni Cardi, Raffaele Rossi envolveu-se em inúmeras confusões em seu trabalho como cineasta. O próprio Toni Cardi ajudou a livrar Rossi de alguns embaraços com a polícia inclusive, devido a denúncias feitas pelos credores do diretor italiano. Uma bela confusão Rossi poderia ter arrumado caso fosse acionado pelos detentores dos direitos autorais de canções utilizadas na trilha sonora musical de “Pedro Canhoto, o Vingador Erótico”. De Ennio Morricone a Gianni Ferrio, passando por Al Caiola, impudentemente Raffaele Rossi ‘compilou’ uma trilha sonora de alta qualidade para seu western. Atribuída nos créditos a Salatiel Coelho a trilha sonora pouco tem de original. O cinegrafista Pio Zamuner, conhecido por sua longa colaboração com Mazzaropi respondeu pela bonita fotografia deste western caboclo. Menos cuidados são os pobres cenários de fachada da cidade mexicana com portas e janelas sempre fechadas. “Pedro Canhoto, o Vingador Erótico” pode provocar alguns risos debochados, o que não é incomum em faroestes nacionais, porém o filme de Raffaele Rossi atinge seu objetivo que é divertir um público menos exigente, além de ser admirado por suas qualidades que superam os evidentes defeitos.

A espetacular sequência com Adélia Coelho caindo do cavalo em disparada. 

“A Herança da Alta Mogiana” - Oportuno lembrar que o cineasta Milton Martins está finalizando um documentário sobre os faroestes realizados na região onde foi rodado “Pedro Canhoto, o Vingador Erótico”, trabalho intitulado “A Herança da Alta Mogiana”. Nesse documentário são focalizados os curtas “Duelo de Amor”, “Conflito em San Diego”, “Voltei do Inferno”, “A Morte Vai para o Inferno”, “O Maldito Ouro Azul” e o longa “Pedro Canhoto, o Vingador Erótico”. É importante conhecer essa empreitada de Milton Martins e descobrir como o faroeste foi tantas vezes motivo de expressão artística na região da Alta Mogiana, que tem como capital regional Ribeirão Preto. Maiores informações sobre a realização do documentário podem ser encontradas na página do Facebook ‘A Herança da Alta Mogiana’, bem como no vídeo que tem o endereço abaixo.

https://www.youtube.com/watch?v=pPdK-IJkadQ


Quedas é o que não falta no western de Raffaele Rossi.


Bandidos rindo o tempo todo, até encontrar Pedro Canhoto.

28 de setembro de 2015

PISTOLEIRO POR EQUÍVOCO (TWO GUNS AND A BADGE) – O FIM DE UM CICLO DO CINEMA


Hoje cada vez mais raros nas telas, os westerns tiveram seus anos de glória no cinema falado nas décadas de 30 a 50. Em 1950 foram produzidos em Hollywood nada menos que 130 faroestes, 61 pelas produtoras chamadas de ‘Majors’ e 69 pelas denominadas ‘Independents’. ‘Majors’ eram os estúdios maiores: Warner, Fox, Metro, Columbia, Paramount, RKO, Universal e United Artists. Formavam o grupo dos Independentes os estúdios e produtoras menores, liderados pela Republic Pictures, que produziam westerns de pequeno orçamento. Enquanto um filme rotulado como ‘A’ custava em média 800 mil dólares em 1950, um filme ‘B’ não ultrapassava os 100 mil dólares. Já os westerns ‘B’ produzidos pelas companhias independentes tinham um custo ainda menor, alguns eram feitos por 50 mil dólares. Essa mágica tinha uma explicação pois esses westerns ‘B’ eram produzidos em série, com o mesmo ator, o ‘mocinho’, elencos de apoio que variavam pouco, mesmos diretores e nunca ultrapassavam cinco ou seis dias de filmagem cada um, tudo em nome da economia. Cenas de arquivo eram utilizadas sem nenhum constrangimento e o espectador tinha a impressão de já ter visto aquele tiroteio, aquela troca de socos ou aquele ‘stampede’. Quando a Republic Pictures decidiu encerrar a produção de westerns ‘B’, em 1953, a Allied Artists prosseguiu por mais alguns meses produzindo faroestes com Bill Elliott e Wayne Morris. No dia 12 de setembro de 1954 foi lançado nos cinemas o derradeiro western produzido nesses moldes, “Two Guns and a Badge”, que no Brasil se chamou “Pistoleiro por Equívoco”.


Wayne Morris e Morris Ankrum;
abaixo um dos dois coldres do
pistoleiro Hank Bartlett.
Equívoco proposital - A pequena cidade de Outpost tem Jackson (Morris Ankrum) como xerife. Jackson é um homem cansado que se confessa impotente para expulsar da cidade um bando de ladrões de gado que roubam reses dos pequenos criadores. O xerife Jackson propõe aos criadores a contratação de Hank Bartlett, um pistoleiro que ele conheceu tempos atrás. Enquanto se discute a contratação do pistoleiro, Jim Blake (Wayne Morris) vaga pelas redondezas de Outpost, deparando-se com o corpo de um homem morto e esse homem é justamente Hank Bartlett. Jim Blake enterra Bartlett mas fica com o cinturão de dois coldres e revólveres com as iniciais H.B. do pistoleiro morto. Chegando a Outpost, Jim Blake é confundido com Hank Bartlett e resolve não desfazer a confusão. Porém o xerife Jackson sabe que Jim Blake não é Hank Bartlett, mas estimula o equívoco para amedrontar os ladrões de gado, contratando o falso Bartlett como seu assistente. Bill Sterling (Roy Barcroft) é o mais bem sucedido dos criadores e sua filha Gail (Beverly Garland) é noiva do jovem criador Dick Grant (William Phipps). Grant é quem está por trás dos roubos, organizando a quadrilha de ladrões de gado e tenciona matar o assistente de xerife. Descoberto pelo ilegítimo homem da lei, Grant acaba morto e Jim Blake, assumindo sua verdadeira identidade, é nomeado xerife e fica com Gail Sterling.

Beverly Garland com Wiliam Phipps;
abaixo Beverly com Wayne Morris.
Falsidade ideológica - Um dos mais desgastados clichês dos westerns B produzidos em série era quando o personagem principal se fazia passar por outra pessoa. Criava-se, com isso, a incerteza necessária à trama, ainda que o espectador, quase sempre, soubesse da verdadeira identidade do personagem. Em “Pistoleiro por Equívoco”, pela enésima vez o truque é utilizado e o herói adultera sua identidade e o faz porque isso facilitará seu recomeço de vida. Jim Blake passou três anos numa penitenciária cumprindo pena por uma tentativa de assalto a diligência. Recomeça, então, cometendo novo crime, o de falsidade ideológica, crime compensado pelo status adquirido de homem da lei e, de quebra, por atrair a simpatia da jovem bonita filha do mais poderoso criador da região. Gail, a moça, não se apega aos princípios de fidelidade pois mesmo noiva sucumbe ao charme do fictício pistoleiro. Partindo de um clichê, “Pistoleiro por Equívoco” desenvolve uma trama bastante bem engendrada, pouco comum a esse tipo de filme destinado a um público que prefere ação a longos diálogos esclarecedores de situações pouco claras.

Wayne Morris
Herói lento e pesado - Se a trama de “Pistoleiro por Equívoco” é interessante, os diálogos cáusticos e incisivos, algo também inusitado nesse tipo de western, dão a ele um sabor ainda mais especial. Por previsível que este último filme do veterano diretor Lewis D. Collins possa ser, é muito superior à média das produções do ciclo que ele encerrou, como se convencionou afirmar. Isso mesmo o filme tendo que enfrentar o problema maior que é a falta de carisma de Wayne Morris, ator que não se ajusta à figura de homem do Oeste, além de lento e pesado com uma protuberante cintura, maior mesmo que a de Roy Barcroft. Uma única vez o personagem de Morris arrisca um rápido corpo a corpo com um bandido que tem quase a metade do seu tamanho. Inconvincente com as armas nas mãos, Morris é um equivocado pistoleiro e o que sustenta o filme é a direção segura de Collins e o bem engendrado roteiro. Normalmente as personagens femininas tem menor importância nos westerns B, mas não é o que acontece com a mocinha vivida por Beverly Garland, insinuante e decidida mulher com ótima participação na história.

Wayne Morris com Beverly Garland e Lyle Talbot; à direita Wayne e Beverly.

Roy Barcroft (acima)
 e I. Stanford Jolley
Homens maus do lado do bem - Eterno bandido, Roy Barcroft desta vez interpreta simpaticamente um homem honesto e frustra o espectador que até o final aguarda por vê-lo como o clássico homem mau de sempre, o ‘Rei dos Vilões da Republic Pictures’. Morris Ankrum é o melhor dos atores num elenco que conta ainda com Robert J. Wilke num papel com poucas oportunidades de personificar um rude facínora como ele sabia fazer muito bem. Com 67 minutos de duração, este western traz ainda as presenças de William Fawcett como dono do saloon e de Lyle Talbot como um médico, ambos também pouco aproveitados. Talbot era o ator favorito do lendário Ed Wood Jr., diretor dos cults piores filmes de todos os tempos. Lyle Talbot é lembrado ainda por ter sido o primeiro ‘Comissário Gordon’ e o primeiro ‘Lex Luthor’ do cinema, respectivamente nos seriados “A Volta do Homem Morcego” (1949) e “O Homem Atômico Contra o Super-Homem” (1950). O nada confiável I Stanford Jolley era presença constante nos westerns do diretor Collins estrelados por Bill Elliott e Wayne Morris, para a Allied Artists. Desta vez Jolley, assim como Roy Barcroft está do lado do bem.

Robert J. Wilke à esquerda e à direita com Roy Barcroft.

Saudosas matinês dominicais - Encerrar um ciclo tão longo e produtivo de filmes é uma inusitada honraria, ainda mais quando nesse ciclo desfilaram Buck Jones, Tom Mix, Hopalong Cassidy, Ken Maynard, Bill Elliott, Charles Starrett, Tim Holt, Rocky Lane, Roy Rogers, Gene Autry, Rex Allen e outros. Qualquer um deles representaria melhor que Wayne Morris o western ‘B’ feito em série pelos pequenos estúdios. Porém se Morris foi um esquecível cowboy do cinema, “Pistoleiro por Equívoco” acabou sendo uma bela despedida daqueles filmes que reinaram soberanos nas saudosas ‘Saturday Afternoons’, aqui no Brasil as matinês de domingo. Para os mais novos que talvez desconheçam o que eram as matinês dos cinemas de bairro das grandes cidades e do interior, a programação normal dos cinemas aos domingos dava lugar a uma programação especial. Essa programação constava sempre de um faroeste e um filme de ação (capa e espada, aventuras). Muitas vezes eram exibidos, para alegria da garotada, dois faroestes. Era apresentado ainda o capítulo semanal de um emocionante seriado, para muitos a atração principal, e ainda curtas de cômicos famosos ou desenhos, além do obrigatório cinejornal. As sessões se iniciavam às 14 horas e terminavam por volta de 17:30, com direito a trocas de gibis e figurinhas. Tudo isso fazia do domingo o dia mais esperado da semana para crianças de todo o Brasil. Bons e inesquecíveis tempos!!!

Logotipos de pequenas produtoras norte-americanas, responsáveis pela maior
parte dos filmes B.

A cópia de "Pistoleiro por Equívoco" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo Marcelo Cardoso.