UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

18 de junho de 2012

AARON SPELLING – DE HORRÍVEL IMITADOR DE JACK ELAM A ‘REI DA TV’


O que há de mais interessante no faroeste “Roleta Fatal” (Three Young Texans) é a presença de um ator magro, feio e péssimo imitador de Jack Elam. O ator do olhar torto Jack Elam era, já no início da década de 50, um tipo marcante. O nome desse imitador era Aaron Spelling que, ainda bem, trocou a carreira de ator pela de produtor, tornando-se o mais prolífico, o mais famoso e o mais rico produtor da TV norte-americana.

Aaron e Carolyn Jones, marido e mulher em 1953.
RACISMO INFANTIL EM DALLAS - Aaron Spelling nasceu em Dallas (Texas) em 22 de abril de 1923, filho de imigrantes judeus vindos da Rússia e da Polônia. Quando criança o pequeno e magro Aaron apanhava todos os dias de seus colegas nas idas e vindas à escola só porque seus pais falavam aquele estranho idioma, o idishe. Psicosomaticamente Aaron, aos oito anos de idade, não conseguia se levantar da cama para ir à escola, passando um ano adoentado, até que se recuperou e enfrentou o bullying dos meninos texanos. Em 1942 Aaron se alistou nas Forças Armadas norte-americanas e quando voltou para casa ao fim da II Guerra Mundial trazia as medalhas Estrela de Bronze e a cobiçada medalha dos grandes heróis, a Purple Heart. Certamente os meninos que espancavam o judeuzinho Aaron não mostraram a mesma bravura. Aaron cursou então a Universidade Metodista do Sul, em Dallas, onde estudou Arte Dramática e criação de peças teatrais. Aos 20 anos Aaron se casou com uma jovem e promissora atriz chamada Carolyn Jones que já atuara em dois filmes de prestígio: “O Museu de Cera”, com Vincent Price (primeiro filme no processo chamado Terceira Dimensão) e em “Os Corruptos”, de Fritz Lang, com Glenn Ford e Lee Marvin. Enquanto Carolyn fazia bons filmes seu marido Aaron imitava pessimamente Jack Elam em “Roleta Fatal”, faroeste muito pobre produzido por um certo Leonard Goldberg.

O jovem produtor Aaron Spelling e
Don Durant, que interpretou Johnny Ringo.
JOHNNY RINGO, A PRIMEIRA SÉRIE - A carreira de Carolyn Jones não parava de melhorar e ela contracenava nos filmes com astros como Frank Sinatra, Elvis Presley, Kirk Douglas e Alan Ladd. Enquanto isso o marido Aaron era relegado a humilhantes pontas sem direito sequer a ver seu nome nos créditos iniciais. Foi aí que despertou em Aaron aquele faro próprio muito dos judeus para ganhar dinheiro. Aaron percebeu que os atores bem sucedidos ganhavam bem, mas os produtores ganhavam muito mais. Aaron abandonou a fracassada carreira de ator e passou a escrever roteiros para a televisão para a produtora Four Star em séries como “Zane Grey” e “Caravana”. Não demorou nada e Aaron já havia se tornado produtor de alguns episódios dessas séries. Mais um pouco e Aaron Spelling criou uma série própria chamada “Johnny Ringo”, também para a Four Star. Em 1959 a concorrência com outras séries westerns na TV era acirrada e essa primeira tentativa de Spelling resultou em apenas uma temporada com 38 episódios de meia hora em preto e branco. ‘Johnny Ringo’ era interpretado pelo ator Don Durant.

Alan Ladd com o rosto bastante inchado com
Jeanne Crain e em luta com Gilbert Roland em
"Gigantes en Luta".
PARCERIA COM ALAN LADD - Paralelamente a esse trabalho Aaron Spelling decidiu produzir para o cinema, associando-se a Alan Ladd, com quem produziu o western “Gigantes em Luta” (Guns of the Timberland), estrelado por Ladd. A carreira de Alan Ladd já estava em decadência e “Gigantes em Luta” não obteve o sucesso esperado, o que fez com que Aaron Spelling se voltasse decididamente para a televisão. Carolyn Jones e Aaron Spelling se separaram em 1963, exatamente o ano em que a estrela de Spelling começou a brilhar com a série policial “A Lei de Burke”, estrelada por Gene Barry, que vinha do sucesso que havia sido “Bat Masterson”. O novo casamento de Spelling (com Candy Spelling) ocorreu em 1968, ano em que ele formou uma produtora com o ator-produtor Danny Thomas. A Spelling-Thomas produziu a série “Mod Squad”, com sucesso ainda maior que “A Lei de Burke”. Em 1972 Spelling desfez a sociedade com Danny Thomas e se associou ao antigo amigo Leonard Goldberg que era o chefe de produção da ABC. Dessa parceria nasceram séries de enorme êxito como “Swat” e “Starsky e Hutch”. Aaron Spelling percebeu que não precisava de ninguém junto a ele para dividir os altos lucros conseguidos com as séries que criava e a partir de 1976 fundou a Aaron Spelling Productions Inc., que chegou a ser responsável por um terço das séries produzidas pela TV norte-americana, séries sempre distribuídas pela ABC. A rede ABC (American Broadcasting Corporation), que há anos assistia do seu eterno 3.º lugar a briga pela audiência da CBS e com a NBC, passou para o 1.º lugar e todo mundo chamava a ABC de Aaron’s Broadcastig Corporation.

Walter Brennan e Fred Astaire, dois dos patrulheiros
aposentados e Clint Walker. Produções de Spelling.
SUCESSOS SEM FIM - Spelling produziu 140 filmes para a TV, entre eles os westerns “Os Pistoleiros Aposentados” (The Over-the-Hill Gang) e “Os Patrulheiros Aposentados Atacam Outra Vez”, ambos com Walter Brennan e um elenco de veteranos; “Yuma” e “The Bounty Man”, estrelados por Clint Walker; “As Filhas de Joshua Cabe”, com Buddy Ebsen; “The Trackers”, com Ernest Borgnine; “As Novas Filhas de Joshua Cabe”, com Jack Elam. Mas o que transformou Aaron Spelling numa espécie de Rei da Televisão não foram seus TV-movies e sim a mais de uma centena de séries e mini-séries que seu gênio criativo não parava de inventar. Entre essas produções merecem ser lembradas “A Ilha da Fantasia”, “Dinastia”, “Hotel”, “Casal 20”, “As Panteras”, “Melrose Park” e “Barrados no Baile”. 

Dois aspectos da fabulosa mansão construída
por Aaron Spelling e Holmby Hills, Los Angeles.
“OLHE PARA MIM, SOU RICO!” - Cada sucesso representava mais e mais dinheiro na conta de Aaron Spelling que chegara em Hollywood cheio de sonhos mas sem dinheiro nos bolsos. Spelling era visto como uma soma de Louis B. Mayer, Jack Warner, Darryl Zanuck e Harry Cohn, os chefões dos grandes estúdios da época de ouro do cinema. Poderoso igual a eles e mais rico que todos eles. Quando Spelling decidiu mostrar que era milionário comprou por dez milhões de dólares, nos anos 70, a mansão que pertencera a Bing Crosby, demolindo-a. No lugar Spelling fez uma elevação para construir uma mansão em estilo castelo francês, que lhe custou mais doze milhões de dólares. Considerada a maior residência dos Estados Unidos, a mansão possuía 123 quartos todos luxuosamente decorados A enorme área de 26 mil metros quadrados e fica em Holmby Hills no mais luxuoso bairro de Los Angeles. Essa mansão com 20 metros de altura pode ser enxergada de qualquer parte da cidade, sendo chamada pelos vizinhos de “Olhe para mim, eu sou rico!” A revista Forbes estimou a fortuna de Spelling, em 1980, em 300 milhões de dólares, hoje algo próximo de um bilhão de dólares, o que fazia de Spelling um bilionário do ramo de entretenimento. Quando Spelling faleceu, em 2006, Candy, sua viúva vendeu a mansão para Bernie Ecclestone, o dono da Fórmula Um, por 150 milhões de dólares.

O POBRE IMITADOR DE JACK ELAM - Aaron Spelling faleceu aos 83 anos de idade, em 23 de junho de 2006, vítima de complicações cardíacas. No fim de sua vida Aaron teve câncer na boca em razão do antigo hábito de fumar cachimbo. À parte a ostentação de sua fortuna, Aaron Spelling era um homem generoso e suas atividades humanitárias lhe renderam incontáveis homenagens. E olhado por qualquer ângulo a televisão lhe deve muito pelos milhares de empregos que propiciou a técnicos, escritores e atores ao longo dos quase 50 anos de sua extraordinária vida de produtor. Pensando bem, nada mal para aquele péssimo imitador de Jack Elam que com alguma boa vontade pode ser visto em “Roleta Fatal”.

Spelling pobre em "Roleta Fatal" e milionário produtor de TV.

15 de junho de 2012

CINCO REVÓLVERES MERCENÁRIOS (FIVE GUNS WEST) – DOROTHY MALONE BRILHA EM WESTERN DE ROGER CORMAN


A impressão que se tem de Roger Corman é do diretor que adorava fazer filmes baratos para assustar o público dos drive-ins norte-americanos. Corman criava sem nenhum pudor mulheres-vespas, ataques de caranguejos gigantes, plantas carnívoras, guerras de satélites, castelos com poços, pêndulos e tumbas e ainda achava tempo para dar as primeiras oportunidades no cinema a atores como Jack Nicholson e Robert De Niro e a diretores como Coppola e Scorsese. Mas antes de tudo isso Roger Corman fez westerns. Ou melhor, Corman praticamente iniciou sua carreira como diretor com os westerns “Cinco Revólveres Mercenários” (Five Guns West), “Pistoleiro Solitário” (Apache Woman), “A Lei dos Brutos” (The Gunslinger) e “A Onça de Oklahoma” (The Oklahoma Woman). Todos esses faroestes foram produzidos e dirigidos por Roger Corman entre os anos de 1955 e 1956. Corman se tornou famoso como o diretor que fazia filmes com orçamento reduzido num mínimo de tempo, como por exemplo “A Loja dos Horrores”, 1960, filmada em dois dias com orçamento de 27 mil dólares.

John Lund, Mike Connors, Paul Birch e Jack
Ingram, trabalhando barato para Corman.
DINHEIRO CURTO - O primeiro filme dirigido por Roger Corman foi “Cinco Revólveres Mercenários”, de 1955, que custou a pequena fortuna de 60 mil dólares, isto num tempo em que astros como John Wayne, Burt Lancaster, Liz Taylor, Marlon Brando e outros não saíam de casa para filmar por menos de 500 mil dólares. E esse western foi feito em nove dias, sendo que no primeiro desses nove dias choveu sem parar, uma desgraça para um filme que praticamente só tem cenas externas. Os dois atores principais são John Lund e Dorothy Malone e imagina-se que devam ter recebido menos de cinco mil dólares cada um. Já o desconhecido Touch Connors, terceiro nome do elenco, recebeu 400 dólares por sua participação. Touch Connors mudaria depois seu nome artístico para Michael Connors e posteriormente para Mike Connors. Com esse último nome Connors interpretaria o detetive ‘Joe Mannix’ por oito temporadas na série de TV “Mannix”. “Cinco Revólveres Mercenários” foi filmado em parte no Iverson Ranch e parte no Jack Ingram Ranch, onde havia uma pequena cidade cenográfica aproveitada no filme. E Roger Corman deve ter colocado no pacote pago a Jack Ingram a presença como ator do veterano badman de faroestes B. Com toda essa falta de recursos e considerando-se que era sua estréia como diretor, Roger Corman fez um western muito bom, acima da média dos muitos pequenos faroestes filmados naqueles anos.

Connors, Lund e Birch com Larry Thor (acima);
Jonathan Haze e Bob (R. Wright) Campbell;
Paul Birch, Mike Connors e John Lund a cavalo.
OS CINCO CONDENADOS - A história de “Cinco Revólveres Mercenários” é de autoria de R. Wright Campbell e é semelhante à do western “Resistência Heróica” (Only the Valiant), de 1951, com Gregory Peck. E é impossível não associar a história do western de Roger Corman com o megasucesso de Robert Aldrich “Os Doze Condenados”, estrelado por Lee Marvin. “Cinco Revólveres Mercenários” passa-se nos últimos dias da Guerra Civil e os Confederados com suas forças muito reduzidas apelam para quaisquer tipos de homens para evitar a derrota final. Stephan Jethro (Jack Ingram) é um membro da inteligência sulista que se torna traidor e foge numa diligência para o Kansas, território que está infestado por tropas yankees e também por índios hostis. O comando sulista decide perdoar cinco condenados à morte recrutando-os para a missão de capturar Jethro e recuperar 30 mil dólares em ouro que estão em poder do espião. O quinteto que deve cumprir a difícil missão é composto pelo assaltante de diligências Govern Sturges (John Lund), pelo jogador Hale Clinton (Mike Connors), pelo velho cowboy J.C. Haggard (Paul Birch) e pelos violentos irmãos John Candy (Bob Campbell) e Billy Candy (Jonathan Haze), todos os cinco com assassinatos nos seus currículos. O grupo de cinco homens decide emboscar a diligência numa parada em Dawn Springs, local onde vivem a bela Shalee (Dorothy Malone) e seu tio alcoólatra, o velho Mike. O grupo passa uma noite no posto de parada e, enquanto aguardam o momento decisivo, alguns deles assediam Shalee sexualmente e discutem formas de traições mútuas para ficar com o pequeno tesouro. Com a chegada da diligência Jethro é capturado e Sturges que na realidade é um oficial sulista mata os demais membros do grupo.

CINCO PISTOLAS E DOROTHY MALONE - A história é bastante bem arquitetada pois não há ouro algum com o traidor sulista, mas essa idéia é um pretexto suficiente para motivar o grupo de ex-condenados a cumprir a missão. Claro que todos eles querem se apossar do ouro e, se necessário, também matar Jethro. Além dessa trama há ainda o componente muito especial na figura feminina de Shalee, mulher sozinha num lugar solitário e com pensamentos povoados pela presença de um homem qualquer para aplacar sua sede de sexo. E chegam cinco de uma só vez, quatro deles disputando o amor da ardente Shalee. A sedutora mulher percebe que, assim como ela há muito não desfruta da companhia de um homem de verdade, eles também há tempos não sabem o que é uma mulher. E Shalee acaba por escolher aquele que é o mais promissor justamente por nada dever à Lei, ao contrário dos demais recém-saídos da prisão. Esse western de Corman foi exibido no Brasil com dois títulos, “Cinco Revólveres Mercenários” e o muito mais apropriado “Cinco Pistolas do Oeste”. Quando o personagem de Dorothy Malone aparece na tela já se passaram meia hora do início do filme e a partir daí é que começa a subtrama maliciosa com os homens tentando envolver Shalee. Essa situação culmina numa cena noturna, de dança próxima de uma fogueira, em que ela testa os homens que a assediam. É Roger Corman mostrando sua inventividade e Dorothy Malone provocando a libido dos homens (e dos espectadores também).
As muitas faces, todas lindas, da sedutora Dorothy Malone.

'Beijo por beijo', 'Bala por bala', diz
o pôster anunciando um western
em Widescreen Color.
ONDE ESTÃO OS 500 ÍNDIOS? - Uma sequência apenas seria suficiente para demonstrar como Corman trabalhava, aquela em que o quinteto avista os índios e tomam a providencial decisão de rumar para o lado contrário daquele para onde 500 índios se dirigem. O detalhe é que o esperto Corman usou uma sequência de arquivo para mostrar os 500 índios que se afastam deles e engana o público com a presença de apenas um índio de verdade desgarrado dos demais e que é abatido em outra cena. Com apenas 74 minutos de duração, “Cinco Revólveres Mercenários” é dirigido com mão segura, ainda que econômica, por Roger Corman. Boas sequências de lutas e o confronto final convincente, mesmo que a morte do mais rebelde e nervoso dos irmãos Candy seja forçada. Corman afirmou que muito o ajudou nesse filme a cinematografia de Floyd Crosby. Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Fotografia em Preto e Branco por “Matar ou Morrer”, Crosby filmou no processo Pathecolor, conseguindo excelentes imagens, ainda mais considerado o tão pouco tempo para medir luz, posicionar a câmara e outros detalhes técnicos. Floyd Crosby é o pai de David Crosby, famoso cantor e compositor, componente do grupo Crosby, Still, Nash and Young.

Roger Corman
O INCANSÁVEL ROGER CORMAN - John Lund é um ator discreto e correto que jamais força a imagem de herói que ele sabia que não possuir. Mike Connors em início de carreira já fazia o tipo cínico que o marcaria no cinema e na TV. Paul Birch se esforça para parecer menos ridículo escondido atrás de uma barba postiça comprovando que a produção de Corman é tão pobre que até o nome do ator Jonathan Haze saiu errado nos créditos iniciais (Jonathon). Esse ator atuou outras vezes com Corman, uma delas como o jovem do clássico “A Loja dos Horrores”. Bob Campbell é o próprio autor da história de “Cinco Revólveres Mercenários” R. Wright Campbell. Cercada por todos esses atores, a única presença feminina é de Dorothy Malone, mas que presença! Impossível tirar os olhos da fascinante e sensual Dorothy que consumaria seu irresistível poder de atração em “O Último Pôr-do-Sol” (The Last Sunset). E além de maravilhosa mulher Dorothy é também boa atriz, o que demonstra neste faroeste de Corman. Dorothy Malone por si só já vale assistir “Cinco Revólveres Mercenários”, pequena lição de como fazer um bom filme com tão pouco dinheiro. Ajustada a inflação “Cinco Revólveres Mercenários” custaria hoje 500 mil dólares. Em seguida, no mesmo ano de 1955, Roger Corman filmaria “Pistoleiro Solitário”, agora com um orçamento muito maior, quer dizer, um pouco maior, já que custou a ‘fortuna’ de 80 mil dólares mil dólares. E nos próximos 15 anos Roger Corman dirigiria outros 50 filmes, o que não é quase nada perto dos 400 filmes que produziu, até agora, em 57 anos de carreira.

Dorothy Malone atirando, montando sem sela e distribuindo sua
sensualidade em "Cinco Revólveres Mercenrários".

13 de junho de 2012

TOP-TEN WESTERNS DE JOSÉ CARLOS ELORZA, CATEDRÁTICO ECLÉTICO


Conheci José Carlos Elorza em 1991 na confraria dos amigos do western, o CAW, quando a confraria ainda se reunia nas dependências do Foto Cine Clube Bandeirante, então situado à Rua José Getúlio, no bairro da Aclimação, em São Paulo. O CAW congregava um grupo de aproximadamente 50 fãs de faroestes que se reuniam aos sábados para assistir faroestes projetados em 16 mm. Em meio a tantos westernmaníacos, destacava-se José Carlos Elorza. E destacava-se pela educação, fidalguia, conhecimento de cinema e, acima de tudo, pela privilegiada memória. Se o assunto era boxe o Elorza ilustrava a conversa com os nomes dos pugilistas, data e local da luta em questão, o round do nocaute e ainda o tipo de golpe que havia provocado o knock-out. Elorza parecia saber as escalações de todos os esquadrões de futebol dos anos 40 e 50, inclusive das seleções estrangeiras. Certo dia falávamos de Caryl Chessman e Elorza citou a data e a hora da execução do ‘Bandido da Luz Vermelha’ original. Curiosamente, sempre que comentava algum assunto, no sábado seguinte Elorza trazia a ‘prova’, em forma de jornal da época para que não pairassem dúvidas sobre suas afirmações. E nem era necessária essa ‘prova’ pois Elorza era (e ainda é) um eclético catedrático e daqueles que parecem possuir coleções completas de jornais e revistas antigos.

Mario Lanza
O GLOBE-TROTTER - Outras grandes qualidades de José Carlos Elorza são sua generosidade e humildade, jamais fazendo alarde de seus conhecimentos e sempre brindando os amigos com cópias de jornais, revistas, filmes e CDs de música. Na minha discoteca há raros LPs de oito polegadas (aqueles menores) de Doris Day e Orlando Silva, presentes do amigo Elorza. Nascido na pequena Pirajuí, interior de São Paulo, José Carlos Elorza formou-se advogado exercendo a profissão há quase 50 anos. Seus hobbies são, cinema, música e viajar. Tendo vivido o final da época de ouro do cinema, Elorza teve a possibilidade de assistir a praticamente todos os grandes filmes dos anos 50 e 60. Antes, quando garoto, assistiu a dezenas de seriados no cinema e incontáveis faroestes B de seu herói favorito, o mascarado Durango Kid. Elorza se orgulha de possuir todos os filmes de Mario Lanza e muitos dos discos desse tenor, o que indica ser ele um apaixonado por ópera, tendo inclusive estudado canto para aperfeiçoar sua belíssima voz de tenor. Mas que ninguém pense que Elorza é um daqueles pedantes fãs de música lírica pois ele conhece e canta, de memória, todo o repertório de Francisco Alves, Orlando Silva, Nelson Gonçalves e outros grandes cantores brasileiros. O terceiro hobby de Elorza é rodar o mundo, podendo ser considerado um verdadeiro globetrotter já que conhece quase todos os países da Europa, inclusive os escandinavos e até mesmo a Praça de São Petersburgo, em Moscou. Conhece também países da América do Sul mas gosta mesmo de percorrer a Calle Florida em Buenos Aires. Elorza não passa ano sem ir a Nova York para se abastecer das raridades musicais e cinematográficas que não são encontradas por aqui.

TOP-TEN - O grande amigo José Carlos Elorza atendeu ao pedido de WESTERNCINEMANIA e relacionou sua lista de dez melhores westerns. Adjetiva a todos como ‘extraordinários’, acreditando que seria injusto colocar qualquer um deles em ordem de superioridade. Porém, caro leitor, após incontáveis horas de conversa (e aprendizado) com Elorza, posso afirmar sem medo de errar que seu faroeste preferido é “Os Brutos Também Amam”, seguido por “Minha Vontade é Lei” e por “O Anjo e o Bandido”. Este último deve-se certamente ao carinho que Elorza dedica à memória de Gail Russell, sua atriz favorita. Segue então o Top-Ten de José Carlos Elorza por ordem de ano de lançamento, valendo lembrar que o moço de Pirajuí admira fortemente “Duelo ao Sol” (Duel in the Sun), de 1946, que acabou ficando fora desta lista.

1945 – “Cidade Sem Lei” (San Antonio) – David Butler (Raoul Walsh)

1947 – “O Anjo e o Bandido” (The Angel and the Badman) – James Edward Grant

1950 – “Calibre 45” (Colt 45) – Edwin L. Marin

1950 – “Duelo Sangrento” (The Kid from Texas) – Kurt Neumann

1953 – “Os Brutos Também Amam” (Shane) – George Stevens

1954 – “Johnny Guitar” – Nicholas Ray

1956 – “Rastros de Ódio” (The Searchers) – John Ford

1958 – “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country) – William Wyler

1959 – “Minha Vontade é Lei” (Warlock) – Edward Dmytryk

1961 – “O Último Pôr-do-Sol” (The Last Sunset) – Robert Aldrich



Para conhecer melhor o cinéfilo José Carlos Elorza, WESTERNCINEMANIA publica uma pequena crônica que ele escreveu há algum tempo, lembrando dos primeiros filmes que assistiu.



Foi a partir da segunda metade dos anos 40 que o cinema passou a fazer parte integrante da minha vida. Residia, então, em Cafelândia, na Média Noroeste, cidade pequenina para os conceitos de hoje, mas acolhedora e gostosa, à época, de ser habitada. O Cine São José tinha sessões somente às quartas-feiras, sábados e domingos e, nestes, também no matinê. Comecei a frequentá-lo por volta de 1946, e o primeiro filme que assisti foi "Branca de Neve e os Sete Anões". Na ocasião também foi exibido um episódio de "O Último dos Moicanos", do qual não tenho nenhuma lembrança, a não ser do título. Lembrança, sim, eu tenho de outras ocasiões, quando mais familiarizado com o que já cognominavam de Sétima Arte, assisti a outros filmes como "O Rei das Jaulas", "Nostalgia", "Transgressores da Lei", "Choque", entre muitos.

O primeiro seriado de que tenho perfeita recordação foi "O Porto Fantasma", seguido de outro gigante chamado "O Maravilhoso Mascarado", que me deixou fascinado e, daí em diante, os seriados penetraram em minha vida que eu aguardava, com ansiedade, pelo próximo a ser exibido, não importando seu gênero. Já no ano de 1948, todos os domingos a minha ida ao matinê era sagrada, com seriado ou não. Na verdade, este não era passado com frequência, havendo intervalo de meses até que outro aparecesse. Para compensar sua ausência, às vezes o Cine São José reprisava capítulos alternados, o que, de alguma forma, satisfazia à garotada, ávida por rever o seu mocinho e a sua mocinha em situações ainda na memória. Aquele, porém, que mais me ficou na lembrança foi "Os Tambores de Fu Manchu'. Impossível esquecê-lo.

Depois de um tempo enorme sem seriado efetivo, ele chegou e nos emocionou. Fu Manchu, Allan Parker, Cetro Sagrado, quanta emoção! Já pelo meio do ano, ainda em 1948, tive a tristeza de vê-lo findar-se. Seu último episódio tornou o domingo melancólico e, como Fu Manchu não morreu, achávamos nós, os garotos, que 'A Volta de Fu Manchu" aconteceria, o que nunca ocorreu. Para piorar ainda mais as coisas, ao sair do matinê, fui à sorveteria ao lado do cinema e, enquanto deglutia meu “gelato”, ouvia, através o relato de Aurélio Campos, pela Rádio Difusora de São Paulo, o Torino massacrar a Portuguesa de Desportos por 4x1, embora o time luso fosse considerado capaz de bater o esquadrão italiano. Pouco depois, mudei-me com a família para Pirajuí, cidade vizinha a Cafelândia, também, à época, pequena mas igualmente gostosa e movimentada, onde mais me aprofundei em questões de cinema.

"Transgressores da Lei"
Lá, o Cine Salvador, ao contrário, funcionava diaria-mente, com matinê dominical. Foi onde tomei contato com Roy Rogers, Bill Elliott, Johnny Mack Brown, Rocky Lane, Hopalong Cassidy, Durango Kid, principalmente, quando voltei a assistir "Transgressores da Lei" e onde vi "Forasteiro Intrépido", "Aconteceu no Sertão", "A Barca do Jogo", "O Lutador", "O Anjo e o Malvado", "Mosqueteiros do Mal", "O Filho de Tarzan", "O Tapete Mágico", "Tentação de Zanzibar", "Estrada 301", entre muitos outros inumeráveis. Lá, também, os seriados já eram mais constantes, às terças-feiras e no matinê, além do sábado à noite. Quando cheguei exibiam "A Volta do Aranha Negra", aos domingos à tarde e "Os Perigos de Nyoka", na terça-feira. Depois vieram "A Sombra do Terror", "O Vigilante", os dois "Super-Homem", "Capitão América", "O Misterioso Dr. Satan", "Lutas sem Tréguas", "Brick Bradford", "O Falcão do Deserto", "A Garra de Ferro", entre muitos outros. Nunca imaginei que um dia, graças ao milagre do vídeo-cassete e agora do DVD, a quase todos eu iria rever, muitas décadas depois.

Cine São Salvador, em Pirajuí, um dos cinemas
frequentados pelo menino José Carlos.
Os edifícios do Cine São José e do Cine São Salvador ainda perduram. O primeiro intato, com seu nome gravado na fachada do prédio. Após a desativação do Cine São José, o edifício permaneceu fechado até ser adquirido pela Prefeitura local que o transformou num Centro Cultural onde são promovidos eventos artísticos, inclusive com projeção de filmes. A fachada do prédio mantém até hoje a identificação gravada, como no passado. O Cine São Salvador, por sua vez, após ser fechado foi ocupado pela Casa da Lavoura de Pirajuí. Posteriormente transformou-se em Templo Evangélico e depois outra vez voltou a ser Casa da Lavoura de Pirajuí. Hoje funciona novamente como cinema, com o mesmo nome de Cine São Salvador. Detalhe interessante é que as poltronas de madeira são as mesmas ainda dos tempos em que eu o frequentava na década de 40. Hoje, uma grande porção do que vi nas telas, na infância, faz parte da minha videoteca, não muito farta, porém, que me proporciona as mais doces recordações de um passado inesquecível. O contato com o Durango Kid, o Roy Rogers, com Fu-Manchu. Com o Gordo e o Magro, com o Tarzan, leva-me a sentir-me novamente um menino, embalado por um louco desejo de voltar àquela época dourada, consciente de que o tempo não trará mais.
                                                                                                                  José Carlos Elorza

10 de junho de 2012

HENRY BRANDON, SINISTRAMENTE DE ‘FU-MANCHU’ A ‘CICATRIZ’


Quem diria que o amedrontador Chefe Cicatriz de “Rastros de Ódio” começou no cinema numa comédia do Gordo e o Magro... Isso ocorreu, em 1934 e Henry Brandon já como bandidão, ameaçava Ollie e Stan em “Era uma vez Dois Valentes” (Babies in Toyland). E também poucos poderiam supor que aquele jovem ator de 22 anos, alemão de nascimento, se tornaria um dos grandes vilões da tela. Para isso acontecer o ator teve que mudar seu nome verdadeiro que era Heinrich von Kleinbach adotando o nome artístico de Henry Brandon, muito mais fácil de ser gravado pelos fãs. O ‘Brandon’ derivou do sobrenome de sua mãe que se chamava Hildegard Brandenburg, esposa de Richard Kleinbach, pai de Heinrich.

Brandon como Silas Barnaby
 com Laurel e Hardy e abaixo
como desertor em "Beau Geste".
DISPUTA COM GALÃS - Nascido em Berlim, no dia 8 de junho de 1912, os pais de Heinrich imigraram para os Estados Unidos antes mesmo que ele começasse a andar. Bem cedo Brandon se decidiu pela carreira de ator e aos 17 anos se matriculou no Pasadena Playhouse participando de inúmeras peças de teatro. Sua primeira oportunidade no cinema foi uma pontinha em “O Sinal da Cruz”, de Cecil B. DeMille em 1932. Em seguida interpretou o maldoso Silas Barnaby no referido “Era uma vez Dois Valentes”. Com 1,95m de altura e porte aristocrático, a pretensão de Brandon era ser galã, mas como teria que competir com os jovens e bonitões Gary Cooper, Randolph Scott, Henry Fonda e Fred MacMurray, Brandon acabou desistindo e se conformando em fazer papéis de vilão como em “Amor e Ódio na Floresta”, de 1936, estrelado justamente por Fonda e MacMurray. Nessa sua primeira década de carreira Henry Brandon participou de outros filmes importantes, entre eles “O Jardim de Alá”, com Marlene Dietrich; “Uma Nação em Marcha” (Wells Fargo), com Joel McCrea; “Beau Geste”, com Gary Cooper; “Legião Negra”, com Humphrey Bogart e “Three Comrades”, com Robert Taylor. Mas onde Henry Brandon com sua expressão malévola faria maior sucesso seria nos tão queridos seriados.

O SINISTRO DR. FU-MANCHU - Em 1937 Henry Brandon interpretou o vilão Cobra no seriado “Jim das Selvas”, protagonizado por Grant Withers, abrindo as portas para uma série de outros inesquecíveis vilões de seriados. O bandido seguinte interpretado por Brandon foi Blackstone em “Agente Secreto X-9”. Como a moda eram os seriados de ficção-científica, em 1939 foi a vez de Buck Rogers, rival de Flash Gordon nos gibis, ser levado às telas dos cinemas. E curiosamente o herói era interpretado pelo mesmo ‘Rei dos Seriados’ Buster Crabbe que ao invés de enfrentar o terrível Ming tinha como inimigo principal Killer Kane (Anthony Warde) cujo braço direito não era outro senão o traiçoeiro Capitão Lasca, interpretado por Henry Brandon. Todos esses seriados foram produzidos pela Universal Pictures mas os fãs sabiam que os seriados da Republic Pictures eram os melhores e que mais agradavam a garotada. Em 1940 a Republic iria produzir um de seus mais prestigiosos filmes em capítulos que foi “Os Tambores de Fu-Manchu” e para interpretar o sinistro oriental o estúdio contratou Henry Brandon. Com a cabeça raspada, sobrancelhas e bigode que lhe davam uma aparência assustadora, Brandon aterrorizou as platéias infantis e até o público mais adulto com esse seriado clássico.

Seriados de Henry Brandon: como Fu-Manchu; como o Capitão Lasca
em "Buck Rogers", ao lado de Wheeler Oakman, Red Howes e Carleton
Young (da frase 'Print the Legend'); abaixo com Scott Kolk em
"Agente Secreto X-9"; como o diabólico Cobra em "Jim das Selvas",
com Evelyn Brent, Raymond Hatton e Grant Withers.
O maior momento no teatro de Henry
Brandon foi ao lado de Judith Anderson.
INTERPRETANDO SHAKESPEARE - Henry Brandon atuou em muitos filmes B, policiais e faroestes principalmente, invariavelmente interpretando homens maus, filmes em que enfrentou Roy Rogers, George O’Brien, Bob Steele, Robert Livingston e até mesmo Boris Karloff quando este protagonizou o detetive da série Mister Wong. Brandon foi visto ainda nos capa-e-espadas “O Filho de Monte Cristo”, com Louis Hayward e em “Os Irmãos Corsos”, com Douglas Fairbanks Jr. De 1942 a 1946 Henry Brandon participou da 2.ª Guerra Mundial servindo no exército norte-americano. Deve ter sido engraçado ele ter apresentado seus documentos com o nome Heinrich von Kleibach e com aquela cara de espião nazista que ele possuía... Henry Brandon tinha formação teatral e atuou em diversas peças na Broadway e nos teatros da Califórnia. Entre essas peças merecem destaque “Medéia”, de William Shakespeare, em que Brandon interpretou Jason, o chefe dos argonautas ao lado da protagonista Judith Anderson, uma das divas do teatro norte-americano. “Medéia” foi encenada com Judith Anderson e Henry Brandon tanto na Broadway como em Los Angeles. Outras peças em que Brandon interpretou Shakespeare foram “MacBeth” e “Twelfth Night”, sendo que nesta última Brandon foi o primeiro nome do elenco, no papel de Orsini, o Duque de Ilíria. A peça “Ramona”, ficou dois anos em cartaz nos palcos da Califórnia, sempre com Henry Brandon interpretando o jovem nativo Alessandro. Outra peça de muito sucesso que contou com a participação de Henry Brandon foi “Jane Eyre”, na qual ele interpretou Rochester que na versão cinematográfica fora vivido por Orson Welles. Henry Brandon amava o teatro, mas como ganhava-se mais no cinema ele passou a fazer mais e mais filmes. Um dos menos conhecidos trabalhos de Henry Brandon foi ter servido de modelo animado para os desenhistas de Walt Disney. Brandon foi o modelo para O Capitão Gancho em “Peter Pan”, em 1953.

Um dos encontros de Brandon com John
Wayne foi em "O Rastro do Bruxa
Vermelha" (acima); cena de "Os Dez
Mandamentos" (centro); abaixo Brandon
em "Lady Godiva" e Capitão Gancho.
FACE PARA QUALQUER ETNIA - Alto como era Henry Brandon incomodava os galãs menores, o que dificultou sua presença em muitos filmes. Por outro lado a sua forte feição germânica com tez morena permitiu que Brandon interpretasse não só alemães, mas também orientais, asiáticos, europeus em geral, nativos africanos e norte-americanos. O grande problema dessa versatilidade é que Henry ficou estigmatizado como ator multi-racial e somente no palco é que conseguia demonstrar melhor o excelente intérprete que era. Com igual facilidade Brandon interpretou um capitão francês em “Joanna D’Arc” estrelado por Ingrid Bergman, o índio Wapato em “O Valente Treme-Treme”, com Bob Hope, o nativo Kurinua em “No Rastro do Bruxa Vermelha”, com John Wayne e o africano Siko em “Tarzan e a Fonte Mágica”, com Lex Barker, filmes com que fechou a década de 40. A versatilidade de Henry Brandon continuou a ser exibida em filmes como “A Princesa e os Bárbaros”, com Ann Blyth; “Flame of Araby”, com Jeff Chandler; “Anjo Escarlate”, com Rock Hudson; “Rebelião dos Piratas”, com John Ireland; “Morrendo de Medo” e “Sofrendo da Bola”, com Dean Martin-Jerry Lewis; “Corsário dos Sete Mares”, com John Payne; “Tarzan e a Mulher Diabo”, outra vez com Lex Barker; “A Guerra dos Mundos”, com Gene Barry; “O Cara de Pau”, com Danny Kaye; “A Grande Noite de Casanova”, com Bob Hope; “O Suplício de Lady Godiva”, com Maureen O’Hara; “Os Dez Mandamentos”, com Charlton Heston; “As Aventuras de Omar Khayyam”, com Cornel Wilde; “Terra Desconhecida”, com Jock Mahoney; “Lafite, o Corsário”, com Yul brynner; “A Mulher do Século”, com Rosalind Russell; “O Pescador da Galiléia” (Frank Borzage), com Howard Keel; “As Aventuras do Capitão Simbad”, com Guy Williams. Nesses filmes Henry Brandon interpretou quase todos os tipos raciais, menos germânicos e foi um norte-americano em “Silent Fear”, drama filmado no México.

Brandon brilhando em dois grandes westerns como Capitão Danette e Cicatriz.


CAPITÃO DANETTE E CHEFE CICATRIZ - Como nativo norte-americano Brandon faria muitos faroestes, alguns de rotina, outros muito bons e uma certa obra-prima do gênero. Fazem parte dessa lista “O Estouro da Manada” (Cattle Drive), com Joel McCrea; “Tráfico de Bárbaros” (Wagons West), com Rod Cameron; “As Aventuras de Buffalo Bill” (Pony Express), com Charlton Heston; “A Grande Audácia” (War Arrow), com Jeff Chandler; “Comanche”, com Dana Andrews; “Bandido”, com Robert Mitchum; “Hell’s Crossroads”, com Stephen McNally. No espetacular faroeste “Vera Cruz”, de 1954, Henry Brandon interpretou o refinado e irritadiço Capitão Danette, em memorável cena com Burt Lancaster, na recepção no palácio do Imperador Maximiliano. Em sua longa carreira Henry Brandon interpretou por 26 vezes índios de quase todas as tribos indígenas norte-americanas, mas foi como o chefe comanche Cicatriz (Scar) que Brandon se imortalizaria, sendo para sempre lembrado como o mais assustador de todos os índios dos faroestes, em “Rastros de Ódio”. A sombra de Cicatriz projetada sobre a lápide onde estava escondida a pequena Debbie é imagem indelével e aterrorizante criada por John Ford. E a cada aparição de Cicatriz na tela aumentava a tensão desse grande western.
Nas fotos à direita Henry Brandon contracena com Charlton Heston (acima); com Joel McCrea (centro); abaixo um dos muitos índios interpretados por Henry Brandon.

Henry Brandon como 'Quanah Parker'
(acima); em "Assalto ao 13.º DP"
na foto maior como agente da Gestapo
em "Sou ou não Sou", de Mel Brooks.
NA MEMÓRIA DOS CINÉFILOS - A partir de “Rastros de Ódio” Henry Brandon atuaria exaustivamente, nunca lhe faltando trabalho, seja no cinema ou na TV. Repetiria um papel de chefe índio (Quanah Parker), sob a direção de John Ford em “Terra Bruta”, em 1961. Em 1974 Brandon foi o ator principal no praticamente desconhecido drama “When the North Wind Blows”, filmado no Canadá e que ele declarou ser seu filme preferido. Em 1975 Henry Brandon teve um pequeno papel em “Assalto à 13.ª DP”, adaptação de “Rio Bravo” dirigida por John Carpenter. Próximo do final de sua carreira Brandon seria visto como agente da Gestapo em “Sou ou não Sou”, de Mel Brooks, em 1983. Seu derradeiro filme, em 1989, foi “Os Magos do Reino Perdido II”, com David Carradine. Embora seja desconhecido qualquer relacionamento do solteirão convicto Henry Brandon com alguma mulher, o atestado de óbito do ator indica ser ele divorciado. Henry Brandon manteve duradoura amizade com Mark Herron, ator que chegou a ser casado com Judy Garland. Henry faleceu em 1990, aos 77 anos, no Cedars Sinai Medical Center, em Los Angeles, de doença cardíaca. O diretor William Witney afirmou certa vez que Henry Brandon era um dos mais perfeitos atores, ainda que não devidamente reconhecido por seu talento em Hollywood. Na memória dos cinéfilos Henry Brandon permanecerá para sempre como um daqueles vilões que se adorava odiar.


7 de junho de 2012

“VERA CRUZ”, “RIO BRAVO” E “RASTROS DE ÓDIO” - WESTERNS QUE DESAGRADAM CRÍTICOS


“Vera Cruz, “Onde Começa o Inferno” e “Rastros de Ódio”
estão em muitas das listas do melhores faroestes de
todos os tempos e são admirados por quase todos os fãs
do gênero. Mas, por incrível que possa parecer há quem
 não goste desses filmes e os critique impiedosamente.

Cooper e Lancaster sem nenhuma etiqueta...
“VERA CRUZ”, UM SHOW DE SADISMO - Bosley Crowther foi durante 27 anos o principal crítico de cinema do mais poderoso jornal norte-americano, o “The New York Times”. Suas resenhas podiam levar um filme ao sucesso ou ao fracasso. Em 27 de dezembro de 1954 Crowther analisou “Vera Cruz” e massacrou o western de Robert Aldrich, dizendo, entre outras coisas que o filme era um melodrama barulhento, mal fotografado e que desperdiçou talentos potenciais. Disse ainda que “Vera Cruz” era uma atrocidade com desnecessária violência e que não havia muitas outras formas tão eficientes de torturar o público como esse show de sadismo repleto de clichês. Segundo Crowther, “Vera Cruz” era uma mera exibição de como os homens podem ser perversos, traiçoeiros e depravados. Sobre os atores principais o crítico disse que nem Gary Cooper e nem Burt Lancaster impressionam bem no filme e que Lancaster é um vilão imundo que faz acompanhar cada uma de suas mesquinharias com uma diabólica gargalhada. Finaliza dizendo que nada pode redimir “Vera Cruz”.

“RIO BRAVO”, O MAIS SUPERESTIMADO DOS FAROESTES – Paul Simpson é um autor de livros sobre cinema e escreveu “The Rough Guide to Westerns”. De forma abrangente e sucinta Simpson percorre toda a história do faroeste e seu alvo não é atingir os estudiosos do gênero e sim os que querem se iniciar no universo do Western. De modo geral Paul Simpson fala respeitosamente dos mais cultuados faroestes, mas ao chegar em “Onde Começa o Inferno” o autor desanca por inteiro o filme de Howard Hawks. Simpson lembra que “Onde Começa o Inferno” tem muitos admiradores mas que há uma minoria que o considera um faroeste superestimado que possui mais defeitos que qualidades. Diz que nem os cenários ou as excessivas sequências claustrofóbicas do filme se equiparam à grandeza de “Rio Vermelho”, do mesmo Hawks. Simpson adjetiva o filme como muito monótono, muito relaxado e muito vulgar. Diz que uma história tão pobre como aquela não poderia jamais render um filme de 141 minutos. O autor finaliza seu texto sobre “Onde Começa o Inferno” lembrando que muitos críticos escreveram persuasivos argumentos sobre as sutilezas do filme, mas que, segundo ele Simpson, deve-se apreciar um western sem necessidade de profundas elocubrações..

Lindsay Anderson e o ator
Malcolm McDowell em "If...".
INGLÊS ‘MUY AMIGO’ DE JOHN FORD - John Ford era o cineasta preferido de muitos cineastas, entre eles Orson Welles, Akira e Kurosawa e Lindsay Anderson. Para quem não se lembra de Lindsay Anderson, ele foi um diretor inglês que concorreu quatro vezes à Palma de Ouro, em Cannes, saindo-se vencedor em 1968 com o filme “Se...” (If...), estrelado por Malcolm McDowell. Anderson dirigiu 34 filmes entre 1948 a 1995, e “O Pranto de um Ídolo” (This Sporting Life), estrelado por Richard Harris, é um dos mais conhecidos. Lindsay Anderson acumulava a função de diretor de cinema com a de crítico cinematográfico e nunca escondeu a profunda admiração que tinha por John Ford. Anderson tornou-se amigo de Ford analisou toda a filmografia do mestre no livro “About John Ford”, um clássico absoluto da crítica cinematográfica. Apesar da grande amizade entre os dois diretores, a amizade era temporariamente abalada quando Lindsay Anderson não falava bem dos filmes de Ford. Se o irascível diretor norte-americano tivesse chegado a ler esse livro lançado em 1981 certamente nunca mais iria querer ouvir falar de Lindsay Anderson depois do que ele escreveu justamente sobre um dos mais admirados filmes de Ford, “Rastros de Ódio”.

“RASTROS DE ÓDIO”, UM FILME MENOR - Lindsay Anderson começa falando da trajetória de “Rastros de Ódio”, dizendo que de um filme praticamente ignorado pela crítica quando de seu lançamento chegou a atingir o status de obra-prima por parte de críticos, diretores e semiologistas. Em poucas linhas de um único parágrafo Anderson reconhece algumas qualidades em “Rastros de Ódio”, concluindo que o filme é um imponente trabalho de um grande diretor, mas nunca uma obra-prima. Em seguida, o escritor utiliza seis páginas escritas em tipo pequeno para desfilar argumentos excepcionalmente bem fundamentados com os quais mostra ao leitor que “Rastros de Ódio” é um filme menor na obra de John Ford. Anderson questiona o roteiro dizendo que não há nenhuma razão lógica para Martin Pawley acompanhar o tio Ethan Edwards em uma jornada de cinco anos na busca pela sobrinha, mesmo porque apenas gradualmente Martin percebe a secreta determinação de Ethan matar Debbie. E o filme falha, segundo Anderson, em não aprofundar psicologicamente o personagem de Martin Pawley, em não igualá-lo a Ethan Edwards na ênfase dramática do personagem. Crítica ainda o famoso gesto feito por John Wayne antes que a porta se feche ao final do filme, dizendo que o gesto fala mais de John Wayne e de Ford e de Harry Carey do que de Ethan Edwards.

JOHN WAYNE: EFEITO ESPASMÓDICO - E Lindsay Anderson segue desqualificando “Rastros de Ódio” lembrando que Ford afirmou a Peter Bogdanovich que Ethan Edwards era um solitário, quando a razão do seu profundo senso de exclusão é a clara indicação do amor entre ele e a cunhada. O problema é que ninguém menciona ou dá importância a esse fato (Anderson se esqueceu do olhar de reprovação do Reverendo-Capitão Samuel Johnston Clayton, foto ao lado). Falando de Ethan Edwards, Anderson taxa esse personagem de desigual e concebido desorganizadamente. E cita diversos exemplos, entre eles, a bipolaridade de comportamento quando Ethan e Clayton estão atirando nos índios na margem do rio. Num momento ele brinca com Clayton ao lhe passar um revólver (foto ao lado) dizendo que a arma está carregada; em seguida esbraveja com o reverendo quando este tenta impedi-lo de disparar contra os índios que bateram em retirada e estão distantes. Anderson chama de espasmódicos os efeitos dos close-ups dados em Ethan Edwards, especialmente aquele feito quando Ethan sai do posto militar onde foi procurar pelas meninas raptadas.

ATORES MAL DIRIGIDOS - Para Lindsay Anderson o nível de interpretações em “Rastros de Ódio” é desigual, ficando as boas interpretações com Ward Bond, Olive Carey e John Qualen. John Wayne e Jeffrey Hunter sofrem da mesma superficialidade. Vera Miles tem apenas agressividade, faltando-lhe o componente mais sentimental. Ken Curtis parece uma paródia com o sotaque texano e Harry Carey Jr. parece repetir as falas que lhe são sopradas fora da câmara. Anderson diz que Hank Worden interpreta o tolo-sabido Moss Harper de forma amadorística. No parágrafo seguinte Anderson diz que as interpretações ruins são resultado da direção de Ford, na qual faltou firmeza e consistência. Quanto ao estilo, “Rastros de Ódio” varia continuamente indo do poético ao farsesco, do sublime ao mundano e do convincente ao rotineiro. E nem pensar no tragicômico, estilo em que Ford era magnífico pois a justaposição de cenas dramáticas com outras pretensamente engraçadas se faz abruptamente e quase sempre entre Ethan Edwards e os demais personagens.
Nas fotos à direita: Ward Bond, Olive Carey e John Qualen.

FALTARAM A GRAÇA E A POESIA DE JOHN FORD - O arsenal de Lindsay Anderson parece interminável e o crítico comenta que as tão festejadas imagens de “Rastros de Ódio” funcionam mais pictórica que poeticamente. Critica também que a longa busca por diferentes regiões, no filme parecem não ter consumido mais que algumas poucas semanas e pateticamente ninguém envelhece durante esses anos, só Debbie. Lindsay Anderson cita a cruel função desempenhada pela Cavalaria no filme no ataque ao acampamento dos índios. As limitações de “Rastros de Ódio”, segundo Anderson, podem ser sintetizadas na coincidência ocorrida no casamento de Laurie em que Moss diz onde está o chefe Scar. Anderson finaliza o longo capítulo dedicado a “Rastros de Ódio” escrevendo que há muito de Ford nesse faroeste, muito de seu talento, da ambiguidade que magicamente coloca em seus filmes. Mas em meio a tudo isso não se acha o senso de harmonia, de firmeza e fé e mais que tudo, não se acha a graça e a poesia dos melhores trabalhos de John Ford. Apesar das críticas contidas em “About John Ford”, o conceito de “Rastros de Ódio” nunca parou de aumentar, sendo considerado em quase todas as enquetes o melhor western de todos os tempos.

John Wayne: efeito espasmódico, segundo Lindsay Anderson.