UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

7 de julho de 2016

DJANGO, DE SERGIO CORBUCCI, O MAIS INFLUENTE WESTERN SPAGHETTI


Django Reinhardt e Sergio Corbucci
Em 1965 Sergio Corbucci era apenas mais um dos tantos cineastas italianos que passaram a explorar o filão do faroeste na Itália, à sombra do outro Sergio, o Leone, este prontamente reconhecido como renovador do gênero western. Para seu terceiro faroeste, rodado entre novembro de 1965 e janeiro de 1966, Corbucci criou um personagem que nem o mais otimista dos cineastas poderia imaginar que se tornaria a mais emblemática representação daqueles filmes que logo viriam a ser chamados de western spaghetti. A escolha do nome desse personagem foi um desses momentos de rara felicidade, com Corbucci tendo a ideia de chamá-lo de ‘Django’, inspirado por Django Reinhardt, célebre guitarrista cigano. Esse músico escapou com vida de um incêndio, aos 18 anos de idade, tendo parte do lado esquerdo do corpo queimado e tendo perdido o movimento de alguns dedos de uma mão, o que não o impediu de continuar tocando e se tornar um virtuoso instrumentista e jazzista famoso. O western de Sergio Corbucci teve o título de “Django”, baseado em história escrita por ele em parceria com seu irmão Bruno Corbucci. Outro afortunado acerto foi a escolha do ator que personificaria Django. Inicialmente pensou-se em Mark Damon como protagonista, mas esse ator norte-americano havia assumido outro compromisso e Franco Nero foi então chamado. É inimaginável se pensar em outro Django que não Nero e a prova disso é o inacreditável número de filmes que tentaram se aproveitar do sucesso do personagem criado por Corbucci, sem que a figura de Django se dissociasse de Franco Nero.


Acima José Bodalo; abaixo Eduardo Fajardo
Renegados contra fanáticos - Um homem solitário, arrastando um caixão de defunto, se dirige a uma pequena cidade próxima à fronteira com o México e salva uma prostituta de nome Maria (Loredana Nusciak) das mãos de um grupo de sulistas. Esse homem é Django (Franco Nero), que levando Maria chega a uma cidade aparentemente abandonada onde somente o bordel dirigido por Nathaniel (Ángel Álvarez) funciona. Dois diferentes grupos costumam visitar a cidade, a quadrilha dos sulistas, liderada pelo Major Jackson (Eduardo Fajardo) e o bando dos renegados mexicanos comandado pelo General Hugo Rodriguez (José Bodalo). Major Jackson é um racista sádico e extremado que vende proteção aos colonos pobres e a Nathaniel e às prostitutas, enquanto o General Rodriguez tem como objetivo conseguir armas para se engajar em uma revolução que ocorre no México. Django é um ex-soldado ianque que retornou àquele lugar para vingar sua esposa morta por Jackson. Dentro do caixão que Django arrasta por onde anda há uma metralhadora e com ela o andarilho liquida quase toda a meia centena de homens de Jackson. Embora amigo do General, Django entra em conflito com ele e tem as mãos quebradas por um dos renegados por ordem do General, enquanto Maria é gravemente ferida por uma bala. O grupo comandado por Hugo é dizimado numa emboscada por um batalhão do exército mexicano. Mesmo com as mãos esmagadas Django retorna à cidade carregando Maria e avisa ao Major Jackson que o espera para um confronto final no Cemitério Tombstone. Django consegue abater o Major e os últimos capangas que o acompanham.

Franco Nero; abaixo Flora Carosello no saloon.
Um homem atormentado - Inovativo em diversos aspectos, “Django” tem o eixo da história pouco original pois o personagem central em meio a dois grupos que se defrontam é o mesmo de “Por um Punhado de Dólares” (Per un Pugno di Dollari), que por sua vez copiou “Yojimbo”, de Akira Kurosawa. Porém o andarilho solitário Django difere em muito do ‘estranho sem nome’ (Joe) do filme de Leone. Django lutou pelo Norte durante a Guerra Civil, não economiza nas palavras como o introspectivo o homem do poncho e da cigarrilha e não cavalga em nenhum momento (e nem poderia fazê-lo pois o caixão que arrasta parece um complemento de seu corpo). Perguntado sobre para quem é aquele caixão, ele responde ser para ele próprio, homem atormentado por seu próprio passado. Entre os dois grupos contendores, Django tem simpatia pelos renegados mexicanos, acreditando no idealismo destes. Assemelham-se, no entanto, os dois personagens na inverossímil indestrutibilidade, na frieza com que enfrentam inimigos mais poderosos e em maior número. Django tem uma vingança como escopo e não é misógino pois ao final declara a vontade de recomeçar a vida ao lado de Maria. O respeito da crítica por Corbucci tem início com “Django” porque neste filme o diretor demonstra ter estilo próprio, contando para isso com a singular colaboração de Carlo Simi na direção de arte e criação dos cenários. A lamacenta rua principal do lugarejo semideserto com casario cinzento é perturbadora, assim como a decoração opressiva do saloon onde transcorre boa parte do filme. É nessa ambientação que rebenta uma sucessão de violência que faz de “Django” um western-grand guignol, ou seja, palco de incontido sadismo.

Gino Pernice forçado a comer a própria orelha.
Horror e sadismo - O ritmo de “Django” é vigoroso, intenso e assustador, partindo de uma mulher sendo chicoteada e chegando ao final com a vingança feita pelo resoluto andarilho ainda que com todos os dedos quebrados e a mão esmagada. Corbucci se esmerou no sadismo nas sequências em que o Major Jackson atira em mexicanos por diversão; ao quebrar por completo as mãos de Django, primeiro com a coronha do rifle de Miguel (Simón Arriaga) e em seguida com os cascos dos cavalos pisoteando o desgraçado personagem; e o horror completo é atingido quando o General Rodriguez decepa a orelha do Irmão Jonathan (Gino Pernice), fazendo o mutilado comê-la. A criatividade de Corbucci esbarra em lugares comuns como o poço de areia movediça tragando um mexicano e uma bizarra luta entre prostitutas, aqui enlameadas até a alma. “Django” foi o primeiro faroeste a ser censurado para menores de 18 anos na Itália. Pior sorte tiveram os ingleses que sequer puderam assistir ao filme, proibido que foi de ser exibido na Inglaterra devido à excessiva violência. Visto 50 anos depois e mesmo diante do rumo que o cinema tomou, “Django” ainda choca na mesma medida que envolve o espectador.

As mãos esmagadas de Django.

José Terrón, o 'Ringo' de Sergio Corbucci.
Luta antológica – À parte as sequências que beiram o horror, Corbucci se mostra estupendo na condução das cenas de ação, com a inquieta câmara de Enzo Barboni buscando ângulos improváveis e um trabalho admirável de Remo De Angelis (o mexicano Ricardo no filme), na coordenação de tomadas perigosas. A luta entre Django e Ricardo no saloon é antológica, não só pelo fato de Franco Nero dela ter participado em sua íntegra sem dublê, mas e principalmente pelo resultado espetacularmente convincente. Não há momentos de humor neste filme trágico, porém o caricato pistoleiro chamado Ringo (José Terrón) ser horrível e ter o rosto marcado por enorme cicatriz não deixa de ser uma sarcástica pilhéria com a beleza apolínea do Ringo criado por Giuliano Gemma. Django é nortista e a crueldade do Major Jackson com seu clã de homens encapuzados com panos vermelhos externam pouca simpatia do diretor pela causa sulista, mesmo que o bando seja composto por fanáticos que não aceitaram a derrota na Guerra Civil. Jackson afirma “Minha guerra nunca termina”, expressando o sentimento de quem nunca absorveu a derrota. A hipócrita religiosidade do Irmão Jonathan em nada deve ter agradado a igreja pois o pregador com a Bíblia na mão é um lacaio a serviço do tirano Major que explora os oprimidos vendendo-lhes proteção.

A luta entre Franco Nero e Remo De Angelis.

Loredana Nusciak e Franco Nero
Senões da produção - Realizado com pequeno orçamento, Corbucci, Barboni e Simi conseguiram uma façanha com a atmosfera opressiva criada para “Django”. Deixaram, no entanto escapar alguns pormenores que não chegam a comprometer o filme mas chamam a atenção. A cidade é barrenta sem que haja chuva em nenhum momento e lembra-se de produções mais ricas como “Pacto de Justiça” (Open Range), de Kevin Costner e “Os Imperdoáveis” (Unforgiven) de Clint Eastwood, aquele com correnteza pelas ruas da cidade e este com chuva constante de molhar as entranhas. E no entorno da cidade semifantasma de “Django” não há sinal de que tenha havido mau tempo já que, desde o Cemitério Tombstone até o forte próximo onde estão as tropas mexicanas tudo é poeira. Apenas em uma sequência a metralhadora de Django é montada sobre um tripé, sendo que nas demais sequências ela é segura pelas mãos de Django, disparando intermináveis rajadas de balas sem aparentemente aquecer. O roteiro de “Django” poderia ser alterado para que a ruiva Maria, com sua pele alva, tivesse outra origem que não a de mestiça, descendendo de mexicanos e peruanos. No final da sequência impactante da orelha decepada, o ator Gino Pernice aparece visivelmente com a orelha no lugar, mesmo depois de ter sido obrigado a comê-la.

Eduardo Fajardo
Eduardo Fajardo, o vilão - Franco Nero é perfeito como o misterioso e torturado vingador, enquanto Loredana Nusciak, uma das mais belas atrizes que participaram de westerns spaghetti, não brilha e nem desaponta como Maria. O grande destaque no elenco fica para Eduardo Fajardo, excelente como o autoritário e repulsivo Major Jackson. Por outro lado o argentino José Bodalo faz de tudo para imitar Fernando Sancho mas só o que consegue é ser histriônico. Outro argentino, Luís Enriquez Bacalov compôs a ótima trilha sonora com nuances apropriadas a cada sequência, excessiva apenas no tema de abertura martelando ‘Django, Django, Django’. Na maior parte das versões lançadas no Brasil, o tema “Django” é cantado por Rocky Roberts, norte-americano radicado na Itália, assim como nessas versões, lamentavelmente, não há o áudio em italiano e sim em Inglês (ou, pior ainda, em Português).

Franco Nero com Loredana Nusciak e com José Bodalo

Franco Nero
Importante e influente - “Django” atingiu proporções inimagináveis não apenas em termos de sucesso junto ao público, mas também pela influência que gerou. Pelo menos 50 filmes se apropriaram do título ‘Django’ criado por Sergio Corbucci, quase todos com personagens centrais que pouco lembravam a imagem notável concebida por Franco Nero. Em países como França e Alemanha, era comum títulos ganharem o nome ‘Django’ mesmo que nos filmes originais não houvesse esse personagem. Franco Nero demorou 21 anos para retomar o estóico herói do caixão e da metralhadora, só o fazendo em 1987 em “Django – A Volta do Vingador” (Django 2 – Il Grande Retorno). Sergio Corbucci prosseguiu fazendo westerns spaghetti, entre eles a obra-prima “O Vingador Silencioso” (Il Grande Silenzio), muito superior a “Django” mas sem alcançar a mesma relevância deste. Nenhum outro western spaghetti, à exceção da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone, se equipara a “Django” (de Corbucci), na empatia com o público e na importância no relativamente curto percurso em que o gênero dominou as telas do mundo. Merecidamente.


Franco Nero




2 de julho de 2016

E O SANGUE SEMEOU A TERRA (BEND OF THE RIVER) – A FUGA DO PRÓPRIO PASSADO


James Stewart e Anthony Mann
James Stewart fez o maior negócio de sua vida ao assinar um contrato com a Universal para atuar em “Winchester 73”, em 1950. O ator receberia um salário menor que o normal, mas teria direito a uma porcentagem nos lucros brutos do filme. “Winchester 73” fez enorme sucesso e Stewart ganhou muito dinheiro, querendo repetir o mesmo esquema em outro western da mesma Universal, dirigido pelo mesmo Anthony Mann, com a diferença que desta vez James Stewart receberia 50% mas do lucro líquido. O novo western era “Bend of the River” (“E o Sangue Semeou a Terra”, no Brasil), com roteiro escrito por Borden Chase, autor, entre outros, dos roteiros de “Rio Vermelho” (Red River) e “Winchester 73”. Para o segundo papel em importância foi contratado Arthur Kennedy, ator que vinha de duas indicações para o Oscar, além de receber um prêmio Tony por sua participação no extraordinário sucesso, na Broadway, com a peça “Morte de um Caixeiro Viajante”, com direção de Elia Kazan. Avizinhava-se um grande duelo de interpretações em “E o Sangue Semeou a Terra”.


Acima Jay C. Flippen, Howard Petrie e
James Stewart; no centro Rock Hudson,
Arthur Kennedy e Stewart; abaixo Kennedy.
Suprimentos da discórdia - Glyn McLyntock (James Stewart) é o guia de uma caravana liderada por Jeremy Bale (Jay C. Flippen), que objetiva se estabelecer no Oregon. No caminho McLyntock salva Emerson Cole (Arthur Kennedy) de ser enforcado, acusado de roubar um cavalo. Cole se junta à caravana que chega a Portland, onde Bale encomenda com o comerciante Tom Hendricks (Howard Petrie) mantimentos para passar o inverno. McLyntock e Cole confidenciam sobre seus passados como foras-da-lei, fato que é descoberto por Bale que tem duas filhas, Laura (Julie Adams) e Marjie (Lori Nelson). Cole e Laura se enamoram e durante um ataque de índios ela é ferida por uma flecha, o que a impossibilita de seguir com a caravana. Laura e Cole permanecem em Portland. Como os suprimentos demoram a chegar, McLyntock vai a Portland e encontra uma cidade enlouquecida pela febre de ouro após a descoberta de alguns veios. O desonesto Hendricks decide não entregar os suprimentos aos colonos porque prefere vender as mercadorias por dez vezes mais aos garimpeiros. Com a ajuda de Cole e do jovem jogador Trey Wilson (Rock Hudson), McLyntock consegue se apossar do suprimento que é embarcado para a região onde Bale e os demais colonos se estabeleceram. Hendricks persegue McLyntock e seus companheiros mas acaba morto. Emissários dos garimpeiros oferecem quantia irrecusável pelos mantimentos mas McLyntock não aceita a oferta, o que contrária Cole. Este fere Trey Wilson e surra McLyntock que é deixado sem comida e sem cavalo, entregue à própria sorte para morrer. McLyntock se recupera, consegue alcançar Cole com quem trava luta de morte na qual Cole morre. McLyntock leva então os suprimentos necessários à sobrevivência dos sitiantes.

Arthur Kennedy e James Stewart
Homens diferentes - Mais uma vez pelas mãos de Anthony Mann, James Stewart interpreta um homem em luta com seu passado buscando a redenção de sua consciência. Glyn McLyntock havia sido um malfeitor no Kansas e chegara a ter o pescoço numa corda, marcas que procura esconder da mesma forma como foge à procura de outro tipo de vida. Por azar encontra Emerson Cole, que como ele cometeu crimes sem que isso o abale. Cole é sorridente, simpático, misterioso e até fascina Laura, sem dar chance a McLyntock de flertar com a bonita moça, quem sabe futura companheira nessa nova fase. Da mesma forma que McLyntock acredita poder se regenerar, ele crê que Cole pense da mesma maneira, mas cedo descobre que este é incorrigível, não se importando em roubar um simples cavalo ou deixar famílias inteiras privadas de alimentos durante o inverno. A tese de Mann é que há diferentes tipos de homens e que a reabilitação pode ser difícil mas não impossível. Isso dá margem ao diretor exercitar o tema que lhe é caro e onde ele brilha como poucos, o do conflito psicológico. Anthony Mann já havia feito o mesmo em todos seus westerns anteriores: o referido “Winchester 73”, “Almas em Fúria” (The Furies) e “O Caminho do Diabo” (Devil’s Doorway), os três, por incrível que pareça, produzidos no mesmo ano de 1950.

Julie Adams
Caráter e consciência - “E o Sangue Semeou a Terra” é o mais fordiano dos westerns de Anthony Mann ao retratar a dureza da conquista da terra onde famílias se assentarão. Os carroções atravessando caminhos íngremes, as mulheres que ficam com os trabalhos domésticos, como cozinhar, lavar e costurar, a necessidade de se abastecer contra os rigores do tempo, são elementos pouco comuns nos exasperados filmes de Mann, bem como o comportamento juvenil da filha mais nova de Bale tentando interessar o atraente Trey Wilson. O diretor, no entanto, não enfatiza devidamente esses aspectos, centrando-se mais nas questões de caráter e consciência dos personagens principais (McLyntock e Cole). Além destes há ainda o insensível e embusteiro comerciante Hendricks e também o grupo de homens maus capazes de fazer um carroção desabar sobre o corpo de um homem sitiante. Tão ou mais perigosos que os percalços da longa caminhada que a caravana faz até o sonhado paraíso que edificarão com seu trabalho são os homens como Cole que não hesitam em destruir anseios dignos como os dos simplórios sitiantes.

Julie Adams;
Jay C. Flippen e James Stewart
Economia excessiva - O roteiro de Borden Chase se aproxima em diversos pontos, com este “E o Sangue Semeou a Terra”, do épico “Rio Vermelho”. No filme de Howard Hawks a condução de um gigantesco rebanho atravessando boa parte do país é o fio condutor da história, neste de Anthony Mann são os seres humanos a se confrontar com transtornos de todo tipo, mesmo um ataque índio. Assim como Joanne Dru em “Rio Vermelho”, desta vez é Julie Adams que é atingida no ombro por uma flecha. Em ambas as histórias os fatos vão se sucedendo tornando os roteiros mais complexos, mas, ao contrário do western de Hawks, “E o Sangue Semeou a Terra” é um filme enxuto, econômico até demais mesmo. A ponto de o personagem Trey Wilson (Rock Hudson) parecer estranho à história e sua simpatia pela causa dos sitiantes não ter razão de ser. Trey é um jogador profissional e Portland se transforma num local propício para ele ganhar dinheiro, mas o rapaz abandona tudo para seguir (e defender) a caravana de idealistas aventureiros. Mesmo Cole convencer o grupo de homens do porto de Portland a seguir suas ordens transcorre de forma mal explicada e rápida demais. Por outro lado Jeremy Bale, o líder da caravana, está sempre pronto a comparar homens com maçãs, tentando com isso o roteiro mostrar a importância da filosofia popular. Anthony Mann trabalha melhor com a aspereza que com frases de pretensa profundidade.

Rock Hudson salvando James Stewart;
James Stewart
O rio como metáfora - Anthony Mann com a preciosa ajuda do cinegrafista Irving Glassberg explora magnificamente os belíssimos cenários aos pés do Monte Hood, no Oregon e isso torna o filme deslumbrante. E Mann, que é mestre em contrastar a grandiosidade de paisagens com o lado sombrio dos personagens, produz o clímax do confronto entre McLyntock e Cole muito rapidamente. Mann, que excepcionalmente integra esse tipo de sequência tensa com os cenários, como o fez prodigiosamente em “O Preço de um Homem” (Naked Spurs), simplifica ao extremo o desfecho entre os dois homens. Em ambos os filmes é a água do rio que metaforicamente purga o passado do homem em busca de sua absolvição psicológica. O mesmo diretor que vinha de dignificar a presença do índio na História norte-americana com “O Caminho do Diabo”, desta vez mostra um grupo inábil de cinco nativos sendo abatido com facilidade por McLyntock e Cole. Como em tantos e tantos outros westerns os índios esquecem repentinamente todo o conhecimento que os levou a sobreviver por séculos em meio aos perigos e são abatidos sem muito esforço pelos brancos.

James Stewart e Arthur Kennedy
Disputa de talentos - No duelo de interpretações entre James Stewart e Arthur Kennedy a vantagem fica com o segundo, como normalmente acontece uma vez que bandidos são, quase sempre, personagens mais ricos dramaticamente que os heróis. Stewart não atinge a tensão emocional dos outros trabalhos sob a direção de Anthony Mann, enquanto Kennedy é perfeito como o tipo cínico, ambicioso e desprovido da mínima honradez. Mesmo quando Cole salva a vida de McLyntock, o faz por mero interesse em disputar a carga de suprimentos. Rock Hudson ainda na fase de ser projetado em pequenos papéis pela Universal é bastante prejudicado pela inconsistência de seu personagem. E Hudson é vítima de falas nada abonadoras para um iniciante ator de quem ainda o grande público não se suspeitava ser gay, o que para um ator nos anos 50 poderia significar fim de carreira. Jay C. Flippen vive uma sequência premonitória ao se acidentar e ter a perna quase esmagada, ele que pouco tempo depois teria amputada uma de suas pernas e assim mesmo participado de inúmeros outros filmes. Julie Adams, atriz de menores recursos dramáticos, é igualmente desperdiçada num papel insosso e apenas menos ruim que o de sua irmã no filme Lori Nelson. Ótima participação de Howard Petrie como o comerciante velhaco e, entre o grupo de homens maus que habitam o porto, destaque como não poderia deixar de ser para Jack Lambert de quem a direção poderia extrair ainda muito mais maldades. Atenção para as presenças de Cliff Lyons e Chuck Hayward entre os bandidos. Porque tantos capitães de navio (no caso uma barcaça) em filmes norte-americanos são portugueses é um mistério e desta vez é Chubby Johnson quem atende por ‘Melo’. E o que faz Stepin Fetchit, mais estereotipado que nunca como negro idiotizado, inteiramente perdido neste western?

Chubby Johnson, Howard Petrie, Julie Adams, Lori Nelson, Rock Hudson, Jay C. Flippen

Arthur Kennedy e James Stewart
A quina de ouro de Mann-Stewart - Da portentosa quina de westerns resultante da parceria entre Mann-Stewart “E o Sangue Semeou a Terra” é o mais fraco, o que em absoluto significa ser este um filme sem qualidades. O fato é que Mann realizou pelo menos duas obras-primas do gênero e não se faz filmes como “O Preço de um Homem” e “Um Certo Capitão Lockhart” (The Man from Laramie) todos os dias. Não fosse um movimentado e bonito western,o filme valeria pela formidável interpretação de Arthur Kennedy, um ponto acima do igualmente ótimo James Stewart.



Arthur Kennedy e Rock Hudson; Frank Ferguson baleado por Rock Hudson




29 de junho de 2016

QUADRILHAS DOS FAROESTES – ARTHUR KENNEDY E BANDIDOS CONTRA OS SITIANTES


No western de Anthony Mann “E o Sangue Semeou a Terra” (Bend of the River), o vilão é Arthur Kennedy que, momentaneamente, une-se a um grupo de homens dispostos a qualquer tipo de trabalho, mesmo que seja roubar e matar. Kennedy é quem comanda o grupo que quer ver James Stewart longe deles, malta formada por Harry Morgan, Royal Dano, Jack Lambert, Cliff Lyons e Chuck Hayward. Os três primeiros são mais conhecidos, enquanto Lyons e Hayward eram stuntmen de profissão, atuando como atores esporadicamente. Arthur Kennedy, magnífico intérprete já foi biografado pelo WESTERCINEMANIA, postagem que mostra a brilhante carreira desse ator.

Arthur Kennedy é Emerson Cole, conhecido fora-da-lei que atuava no Kansas e procura mudar de ares mas nunca deixando de lado sua índole de homem mau - Ao interpretar o cínico e traiçoeiro escroque Ned Sharp em “O Intrépido General Custer”, em 1941, parecia que Arthur Kennedy estava definindo sua carreira de ator. Kennedy atuou novamente com James Stewart em “Um Certo Capitão Lockhart” The Man from Laramie), faroeste clássico também de Anthony Mann. Kennedy teve bela carreira em Hollywood, onde três dos pontos mais altos foram sua participação em “Lawrence da Arábia”, em “O campeão” e em “Paixão de Bravo”. Arthur Kennedy teve, paralelamente ao cinema, reconhecida carreira como ator de teatro, dividindo o palco na temporada novaiorquina da peça “Becket” com Laurence Olivier, de quem recebeu muitos elogios. Kennedy nasceu em 1914 e faleceu aos 75 anos de idade em 1990.

Jack Lambert como ‘Red’ lidera o grupo de homens que perambula pelo porto de Portland - Feio, olhos esticados como se fosse mestiço oriental, queixo quadrado, esse conjunto formava a imagem de um perfeito facínora e era a imagem de Jack Lambert, descendente de escoceses e nascido em Nova York em 1920. Lambert estudou para ser Professor de Língua Inglesa, mas alunos e amigos lhe disseram que com aquele ar assustador de homem mau, ele deveria tentar a sorte no cinema. Foi o que Lambert fez e após algumas pontas foi notado como um dos bandidos de “Rua dos Conflitos” (Abilene Town), de 1946. A partir daí, por dezenas de vezes, Jack Lambert interpretou invariavelmente homens maus em filmes policiais e em inúmeros westerns. “Os Quatro Heróis do Texas” (Dean Martin), em 1963 foi o último filme de Jack Lambert que continuou atuando por algum tempo na televisão.  Lambert faleceu em 18 de fevereiro de 2000.

Harry Morgan é ‘Shorty’, o mais baixo do grupo de bandidos – Recém chegado da Broadway, Harry, em seu segundo ano em Hollywood, atuou no clássico “Consciências Mortas” (The Ox-Bow Incident). Belo início de uma longa carreira que durou 57 anos com participações em filmes de todos os gêneros. Na televisão Harry, que chegou a usar o nome ‘Henry Morgan’, brilhou até mais que no cinema pois foi com a série “Dragnet” que ele se tornou ainda mais conhecido. Essa série policial fez enorme sucesso nos anos 50, estrelada por Jack Webb. Em 1967 Webb decidiu relançar “Dragnet” e convidou Harry Morgan para ser o oficial ‘Bill Gannon’. A série ficou no ar por mais quatro anos, algo nunca visto antes na TV, mídia que tritura talentos como nenhuma outra. Outro sucesso de Morgan na TV foi como o Coronel Sherman T. Potter na série “Mash”, trabalho que lhe valeu um prêmio “Emmy’. Morgan faleceu aos 96 anos de idade, em 2011.

Royal Dano é ‘Long Tom’, o mais alto dos desocupados que se tornam assaltantes – Quando, nas décadas de 50 a 80, algum escritor ou roteirista colocava na história um bandido estranho, nervoso, sempre prestes a disparar sua arma ou com um toque de neurose, pensava invariavelmente em Royal Dano. Um de seus primeiros filmes foi “A Glória de um Covarde” (The Red Badge of Courage) e Dano voltou a impressionar bem como um atormentado bandido em “Johnny Guitar”. Dirigido por Anthony Mann, Royal Dano esteve em “Região do Ódio” (The Far Country” e em “O Homem do Oeste” (Man of the West), neste como o bandido mudo. Em “A Quadrilha Maldita” (Day of the Outlaw), outro clássico do faroeste, Dano interpretou o idiotizado ‘Uncle Billy’. Esse novaiorquino nascido em 1922, já em final de carreira, é o professor que morre em sala de aula e os alunos não percebem, no filme “Escola da Desordem”. Royal Dano faleceu, de verdade, em 1994.

Cliff Lyons é ‘Willie’, que se afasta do grupo de desocupados antes que se inicie o confronto final – Quando o assunto é stuntman, logo vem à lembrança o nome de Yakima Canutt, porém há um dublê contemporâneo do grande Yakima que também fez história. Ele é Cliff Lyons, nascido em 1901 e que aos 24 anos, ainda no cinema mudo, se iniciou na dura vida de dublar os atores famosos em cenas de perigo. Lyons substituiu, entre outros, William Boyd, Ken Maynard e Bill Elliott. Em “Jesse James” Lyons dublou não só Tyrone Power como também Henry Fonda. Nos anos 50, tamanha era a competência de Cliff Lyons, que ele passou não só a coordenar os trabalhos dos stuntmen, como a dirigir a 2.ª unidade responsável pelas cenas de ação. Foi o que aconteceu em “O Álamo”, épico em que John Wayne deveria ter dividido o crédito de direção com Cliff Lyons, que faleceu em 1974, aos 72 anos. Um dos últimos trabalhos de Lyons foi no violento “Jake, o Grandão” (Big Jake).

Chuck Hayward é um dos homens liderados por Jack Lambert  - Dois stuntmen que atuavam juntos em muitos faroestes chamavam-se ‘Chuck’ e eram Chuck Roberson e Chuck Hayward. Para diferenciá-los, John Wayne os apelidou de ‘Bad Chuck’ (Roberson) e ‘Good Chuck’ (Hayward), isto só porque Chuck Roberson acompanhava o Duke nas bebedeiras e Hayward preferia manter-se sóbrio. Ambos atuaram como dublês e simultaneamente como atores em muitos filmes, como em “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country), em que os dois aparecem bastante e fazem belo trabalho como stuntmen. O mesmo ocorreu em “Rastros de Ódio” (The Searchers) em que os Chucks aparecem como ‘best men’ (padrinhos) no casamento que acaba não se realizando entre Ken Curtis e Vera Miles. Os pai de Chuck Hayward possuíam um rancho no Nebraska, o que explica sua habilidade como cavaleiro. Hayward faleceu em 1998, aos 78 anos de idade.


James stewart (de costas) enfrenta Jack Lambert, Royal Dano,
Harry Morgan e Chuck Hayward.

Cliff Lyons segura James Stewart, que foi surrado,
sob os olhares de Harry Morgan e Royal Dano.

24 de junho de 2016

À SOMBRA DE UM REVÓLVER (ALL’OMBRA DI UNA COLT) – ‘UMA BALA ENTRE OS OLHOS’


Stephen Forsyth e o pôster
de "O Alerta Vermelho da
Loucura", de Mario Bava.
Stephen Forsyth, o ator principal de “À Sombra de um Revólver” (All’Ombra di una Colt) é um canadense que teve passagem rápida como ator na Europa. Forsyth, que atuou em dez filmes na Espanha e na Itália, três deles westerns, possuía múltiplos talentos, como poeta, fotógrafo, músico, dançarino, coreógrafo, compositor e produtor musical, sendo que logo descobriu que fazer filmes de qualidade duvidosa não o agradava. Cedo ele deu adeus a Cinecittà e a lugares inóspitos como Colmenar Viejo, onde foi rodada a maior parte de “À Sombra de um Revólver” (1965) e Almería. Este western foi filmado com pequeno orçamento e a produção que procurava alguém parecido com Clint Eastwood contratou o quase inexperiente Stephen Forsyth que lembra mais Gabriele Tinti. Giovanni (Gianni) Grimaldi, o diretor de “À Sombra de um Revólver” havia escrito mais de 40 roteiros para filmes, muitos deles comédias de Totó e mais tarde épicos da fase ‘sandália e espada’. Entre os roteiros de Grimaldi o mais apelativo certamente é “Totó Contra Maciste”, cujo título fala por si só. Em meados da década de 60, como fazia a quase totalidade do pessoal ligado ao cinema, Grimaldi convergiu para o gênero western, decidindo que chegara a hora de experimentar a direção. Ele próprio escreveu o roteiro deste pouco citado faroeste que não chegou a fazer sombra aos extraordinários sucessos que os dois filmes iniciais da ‘Trilogia dos Dólares’ de Sergio Leone ou "O Dólar Furado" (Un Dollaro Bucato), com Giuliano Gemma, faziam.


Stephen Forsyth com Ana Maria Polani e abaixo
Conrado San Martín e Stephen Forsyth.
A regra de um pistoleiro - Duke (Conrado San Martín) e Steve Blane (Stephen Forsyth) são dois pistoleiros que se apossam de seis mil dólares que o bando de Ramirez (Aldo Sambrell) extorquiria de um povoado mexicano a título de proteção. Durante o confronto a dupla liquida com os bandidos mas Duke é ferido e concorda que Steve fique com o dinheiro, com a condição que entregue metade para sua filha Susan (Anna Maria Polani). Duke sabe que Steve e Susan se gostam e impõe também a condição de o amigo não se casar com sua filha, ameaçando matá-lo se este descumprir essa ordem. Mas Steve quer abandonar a vida de pistoleiro, casar-se com Susan, constituir família e viver tranquilo numa fazenda. Após encontrar com a moça Steve ruma para uma cidade dominada pelos inescrupulosos empresários Jackson (Franco Ressel) e Burn (Franco Lantieri). A única propriedade que ainda não pertence à sociedade Jackson & Burns é uma fazenda que interessa a Steve, o que provoca um inevitável confronto com os bandidos travestidos de homens de negócios e seus capangas. Quando o embate está para acontecer o recuperado Duke reaparece e se junta a Steve no enfrentamento aparentemente desigual. Duke e Steve são exímios atiradores e dizimam Jackson e Burns e o bando destes. Duke, no entanto, não perdoou Steve por este ter se casado com sua filha, aplicando violenta surra no ex-companheiro que não reage. Duke parte deixando o casal seguir sua vida.

Acima Conrado San Martín;
abaixo Stephen Forsyth.
Uma bala entre os olhos - O eterno tema da vingança se faz presente em “À Sombra de um Revólver”, ainda que motivado por razão singular. Um pistoleiro experiente sabe que o futuro nessa profissão nunca é promissor. Duke não quer que sua filha se una ao amigo para que esta não venha a sofrer e se torne viúva precocemente. Sabedor que o companheiro Steve ama sua filha, avisa-o que lhe meterá “uma bala entre os olhos” se ele insistir em ficar com ela. Steve e Susan projetam uma vida juntos, o que origina a inaudita vingança e praticamente toda a ação do filme gira em torno da determinação de Steve em encontrar o lugar para viver e ser feliz com Susan e concretizar seu sonho de criar família. Steve chega mesmo a enterrar seu coldre e Colt, determinado a abandonar assim a violência, mesmo sabendo que a violência não o abandonará tão cedo. E é justamente a sanha dos poderosos que fará com que ele adie seu projeto de vida, curiosamente realizado com a ajuda daquele que prometeu colocar uma bala entre seus olhos.

Forsyth assoviando para o cavalo.
Um invencível herói - A originalidade do roteiro de Giovanni Grimaldi se esgota com a diferença entre os dois companheiros pois o filme já se inicia com um episódio inspirado no bando de Calvero em “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven). A sequência de placas no comércio local indicando Jackson & Burns serem os donos da cidade é outra demonstração que situações comuns a tantos e tantos westerns virão a seguir.  O desejo de mudar de vida foi um argumento usado á exaustão em westerns norte-americanos. Há ainda o indestrutível herói Steve Blane sobrevivendo a atentados e surras diversos e quando necessário mostrando uma perícia rara, disparando seu Colt tanto para a frente quanto matando adversários que estão às suas costas. E até seu cavalo, relembrando as montarias dos mocinhos dos antigos westerns ‘B’ sabe se fingir de morto e atende ao assovio do dono. Vale lembrar que ‘Steve’ era o recorrente nome do personagem da série ‘Durango Kid’. O espectador adquire a certeza que o destemido Steve a todos vencerá e eis que o final reserva uma surpresa: a surra que seu sogro lhe aplica, à qual ele não reage por julgar-se merecedor da punição e porque o prêmio representado por Susan vale à pena. E são justamente os lugares comuns que tornam este western leve e agradável. E isso é resultado da opção de Grimaldi por se afastar do estilo que já em 1965 dominava o subgênero que viria a ser cunhado de ‘spaghetti’ e ter uma proximidade maior com o western de Hollywood.

Stephen Forsyth como se fosse um mocinho dos westerns 'B' de Hollywood.

Conrado San Martín e Stephen Forsyth (acima).
Frases patéticas - “À Sombra de um Revólver” tem dois momentos brilhantes: a sequência em que Duke e Steve enfrentam Ramirez e seu bando e o tiroteio na rua principal da cidade dominada por Jackson & Burns. Para um diretor estreante em westerns, até que Giovanni Grimaldi se sai bastante bem nessas sequências de ação, ele que curiosamente só voltaria ao gênero em tom de comédia com a dupla Franco Franchi-Ciccio Ingrassia. Otimamente coreografado, o referido showdown peca apenas pelo excesso de homens caindo dos telhados. “À Sombra de um Revólver” é prejudicado pela mão do próprio Grimaldi em cujo roteiro ‘reluzem’ frases como esta: “Darei a ele um belo funeral, digno das primeiras e últimas lágrimas da minha filha”, frase dita por Duke falando de Steve. Fica a dúvida se este não é um daqueles dramas filmados por Emílio Fernandez em Churubusco... Ou ainda quando o mesmo Duke filosofa: “Um pistoleiro já é um velho aos 20 anos; já pode ser colocado numa cova de cemitério”. Ao ver Steve atirar certeiramente sem olhar para trás, um trio de mexicanos exclama pateticamente: “Aquele gringo atira bem...”. Como diretor de atores Grimaldi também deixa a desejar pois poucos no elenco escapam de interpretações estereotipadas quando não risíveis de tão amadoras.

Franco Lantieri e Franco Ressel;
a mão de madeira do vilão;
Franco Ressel e a cena de sua morte;
Elenco regular - Stephen Forsyth enveredou equivocadamente pela profissão de ator, ainda que esteja no mesmo nível de tantos outros anti-heróis dos westerns spaghetti. Artista multimídia, Forsyth desenvolveu brilhante carreira e certamente gostaria que seu passado como ator fosse esquecido. O canadense chegou a atuar sob a direção de Valério Zurlini em “Sentado à Sua Direita”, contracenou com Norma Bengell em “O Homem de Toledo” e estrelou o terror-cult “O Alerta Vermelho da Loucura”, de Mario Bava, após o que abandonou a carreira de ator em 1970. Os espanhóis Conrado San Martín e José ‘Pepe’ Calvo são os destaques do elenco, Conrado por sua forte expressividade dramática, e Calvo excelente como o xerife que se vê privado de sua autoridade como homem da lei. Uma pena que a participação de Aldo Sambrell, se resuma a poucos minutos na tela, ele que representaria maior ameaça junto ao grupo de bandidos escalados. Franco Ressel e Franco Lantieri deram o perfeito padrão de canastrice à dupla de bandidos que interpretaram. Interessante o bandido com mão de madeira como um Dr. Strangelove do Velho Oeste que numa gag própria de comédias debochadas termina levando um tiro na mão boa. Melhor que eles é Andrea Scotti como o guarda-costas da dupla de bandidos. A bela alemã Helga Liné é a oportunista Fabienne, enquanto Anna Maria Polani é fraquíssima como Susan. Eugenio Galadini é o pouco engraçado ‘old-timer’ Buck, personagem que nunca falta nos westerns spaghetti.

José 'Pepe' Calvo - Aldo Sambrell - Helga Liné - Stephen Forsyth

A melancólica trilha musical - Nico Fidenco, cantor que fez enorme sucesso no início dos anos 60, passou a ser um dos mais requisitados compositores de trilhas musicais para filmes, muitos deles westerns spaghetti. O tema principal que Fidenco compôs para “À Sombra de um Revólver” e que ilustra praticamente todo o filme é belíssimo, triste e pungente, remetendo mesmo aos primeiros acordes de um de seus maiores sucessos como cantor que foi “A Casa d’Irene”. Tem-se a impressão, a todo momento, que Fidenco vai cantar os conhecidos versos “...Giorni senza domani e el desiderio di te...”. O tema de abertura não foge da influência de Ennio Morricone, com direito ao clássico assovio e podem ser ouvidos os versos na voz de Nico Fidenco neste endereço  https://www.youtube.com/watch?v=CEUIVIikzW. Na versão que circula no Brasil dublada em Inglês a voz não é de Fidenco. “À Sombra de um Revólver” certamente não agradará aos fãs do estilo atrevido, impetuoso e muitas vezes tosco dos westerns spaghetti, uma vez que este filme de Giovanni Grimaldi tem mais influência de Budd Boetticher que do então já muito influente Sergio Leone. É um faroeste menor se comparado aos grandes filmes de Leone e Corbucci, mas um bom western que merece ser assistido.


A cópia de “À Sombra de um Revólver” foi gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador Thomaz Antônio de Freitas Dantas

Anúncio em jornal de São Paulo por ocasião do lançamento do western de
Giovanni Grimaldi, na semana do Natal de 1966, sucedendo a "O Dólar Furado"
que permaneceu por 25 semanas em cartaz naquela sala paulistana.