UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

21 de junho de 2016

TOP-TEN WESTERNS DA CINÉFILA ELAINE CHRISTINE FONSECA

No álbum acima vemos Natalie Wood, Grace Kelly, Chelo Alonso, Claire Trevor, Vera Miles,
Angie Dickinson, Sonia Amelio, Shelley Winters, Joanne Dru e Jean Arthur.

Gary Cooper e James Stewart;
Humphrey Bogart e Spencer Tracy;
Cary Grant e Rex Harrison
Acredita-se que mulheres não apreciem faroestes, o que até pode ser verdade. Porém cinéfilas autênticas jamais deixam de reconhecer as qualidades de um filme, seja ele de qual gênero for. Elaine Christine Fonseca adora cinema e possui uma admirável coleção de DVDs que beira os dois mil títulos, sendo que boa parte desse acervo é composta de westerns, especialmente os clássicos. Elaine sempre gostou de assistir filmes, tanto na televisão quanto nos cinemas, tendo sido o Cine Ouro Verde, na Rua da Moóca no bairro em que residia, a sala frequentada semanalmente quando criança e adolescente. Nesse simpático cinema daquele tradicional bairro paulistano Elaine assistiu a “Nos Tempos da Brilhantina” e “Embalos de Sábado à Noite”, dos quais gostou assim como “Inferno na Torre” e “Tubarão”, sendo que este último Elaine, ao contrário do grande público, não achou tão espetacular. Era, porém, no aconchego do lar, que a moça da Moóca se iniciava como cinéfila, isto quando havia uma locadora em cada esquina. ‘Seo’ Eros Fonseca, o pai de Elaine era a princípio quem escolhia os filmes em VHS, geralmente os clássicos da chamada ‘Golden Age’ de Hollywood, películas que iriam determinar a preferência da filha. Elaine e o pai garimpavam nas locadoras atrás de filmes com Gary Cooper, Spencer Tracy, James Stewart, Humphrey Bogart, Rex Harrison e um certo John Wayne. Havia uma discordância entre eles pois o pai não gostava de Cary Grant, enquanto a filha o achava lindo. ‘Seo’ Eros adorava um bom faroeste e ambos assistiam não só aos filmes em fitas de vídeo mas também às séries exibidas na TV como “Big Valley”, “Bonanza” e “Chaparral”.

John Wayne
Embora bastante jovem, Elaine se identificava com atrizes como Audrey Hepburn, Deborah Kerr, Grace Kelly e Katharine Hepburn. Além destas a moça gostava (e ainda gosta) muito da lindíssima Gene Tierney e tem carinho especial por Maureen O’Hara. Afinal a ruiva irlandesa e John Wayne formaram um par incomparável nas telas. Elaine viu sua coleção de filmes aumentar sem parar, ainda mais pela facilidade que passou a ter nos últimos anos para adquirir títulos que nem sempre são encontrados no Brasil. A cinéfila paulistana, formada em Direito casou-se e atualmente mora em Macaé (RJ), passando, no entanto, parte do ano em Orlando, nos Estados Unidos. Lá ela encontra DVDs raros de John Wayne, aqueles da fase em que o Duke era menos conhecido que Buck Jones, Ken Maynard, Tom Mix e outros. John Wayne é o ator favorito de Elaine, pelo menos isso é o que indica o impressionante número de filmes que ela possui do maior cowboy do cinema. São 80 títulos só dos filmes feitos quando Wayne já deixara de ser um mero mocinho de faroestes ‘B’. E desta fase inicial, encerrada quando o Duke filmou “No Tempo das Diligências” (Stagecoach), em 1939, Elaine tem nada menos que 40 títulos. Mas que não se pense que a cinéfila Elaine não goste de atores das gerações seguintes pois Clint Eastwood (como cowboy ou não), Sean Connery (como 007 ou não), Denzel Washington, Tom Hanks, Leonardo Di Caprio, Brad Pitt e Tom Cruise ocupam lugar com seus filmes nas estantes das casas de Elaine. Ao lado destes estão as atrizes mais novas e entre estas suas preferidas são Anne Hathaway, Emma Watson, Angelina Jolie, Meryl Streep e Charlize Teron, demonstrando que Elaine é eclética em seu gosto por cinema. Mas não indique a ela algum filme de Woody Allen, ator-diretor que a cinéfila detesta e passa longe.

Só mesmo grandes colecionadores possuem em seus acervos tantos títulos de faroestes como Elaine, e que ela faz questão de dizer, “todos devidamente assistidos”. Esse fato foi mais que suficiente para que WESTERNCINEMANIA solicitasse a Elaine que listasse os dez melhores na sua opinião. Não foi necessário muito tempo para pensar pois alguns westerns a cinéfila já assistiu mais de uma vez, o que indica que são filmes que mereceram dela uma atenção especial. A lista de Elaine vem acompanhada de pequenos comentários e, como bônus, ela ainda listou outros dez faroestes que considera também excelentes, acima da média no gênero. Eis o Top-Ten Westerns de Elaine Christine Fonseca:

1.º) Rastros de Ódio (The Searchers), 1956 – John Ford
Um filme maravilhoso, com John Wayne em sua melhor interpretação no cinema. Filme que se assiste com emoção do princípio ao fim. O melhor de todos os faroestes.

Natalie Wood e John Wayne; Vera Miles e Jeffrey Hunter

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2.º) Matar ou Morrer (High Noon), 1952 – Fred Zinnemann
Gary Cooper foi premiado com um Oscar por sua interpretação neste faroeste que também é um dos melhores de todos os tempos. Grace Kelly está linda como a esposa que vê seu casamento ameaçado.

Grace Kelly e Gary Cooper; Grace Kelly e Katy Jurado

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3.º) Três Homens em Conflito (Il Buonno, Il Brutto, Il Cattivo), 1966 – Sergio Leone
O fecho de ouro da 'Trilogia dos Dólares' que elevou Clint Eastwood à condição de grande astro. Lee Van Cleef foi outro que aproveitou bem a oportunidade dada por Sergio Leone, assim como o muito engraçado Eli Wallach como ‘Tuco’.

Rada Rassimov e Lee Van Cleef

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4.º) No Tempo das Diligências (Stagecoach), 1939 – John Ford
Com este filme John Wayne começou para valer sua trajetória que o levou a ser o maior cowboy do cinema. Um filme maravilhoso com cenas espetaculares de perseguição feita pelos índios.

Claire Trevor e John Wayne; Claire Trevor

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5.º) O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance), 1962 – John Ford
Este faroeste em preto e branco reuniu dois dos meus atores preferidos, que são John Wayne e James Stewart. Muito interessante a história da lenda do homem que matou o famoso bandido.

Vera Miles e John Wayne; Vera e Jeanette Nolan; Vera e James Stewart

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6.º) Onde Começa o Inferno (Rio Bravo), 1959 – Howard Hawks
Faroeste bastante alegre e divertido de assistir, com John Wayne se apaixonando e música com Dean Martin e Ricky Nelson. E ainda tem o simpático velhinho sem dentes Walter Brennan.

Angie Dickinson e John Wayne; Estelita Rodriguez

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7.º) Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch), 1969 – Sam Peckinpah
Muitos consideram este filme ultraviolento, mas é um tipo de violência que se integra perfeitamente na história e por isso não chega a chocar. O final com a morte dos quatro amigos é inesquecível.

Graciela Doring - Sonia Amelio - Aurora Clavel - Lilia Castillo - Elsa Cardenas

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8.º) Winchester 73 (Winchester ’73), 1950 – Anthony Mann
Quem conhece James Stewart como homem bom e íntegro de tantos filmes não o reconhece neste faroeste em que ele mostra que é fantástico também como ator dramático.

Shelley Winters, Millard Mitchell e James Stewart; Shelley Winters e Dan Duryea

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9.º) Rio Vermelho (Red River), 1948 – Howard Hawks
Este é um filme que os fãs de John Wayne não esquecem porque ele aparece envelhecido e tem muito boa atuação. O melhor filme sobre cowboys, com o melhor dos cowboys.

Coleen Gray e John Wayne; Joanne Dru e John Wayne

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10.º) Os Brutos Também Amam (Shane) – George Stevens
Foi com este filme que passei a admirar Alan Ladd que está perfeito como o pistoleiro que salva a família que o acolheu. O pistoleiro Jack Palance, todo de preto, marcou bastante.

Jean Arthur; Jean Arthur, Alan Ladd, Van Heflin e Brandon De Wilde

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11.º) Os Imperdoáveis (Unforgiven), 1992 – Clint Eastwood
12.º) Sete Homens e Um destino (The Magnificent Seven), 1960 – John Sturges
13.º) Vera Cruz (Vera Cruz), 1954 – Robert Aldrich
14.º) Pistoleiros do Entardecer (Ride the High Country), 1962 – Sam Peckinpah
15.º) Bravura Indômita (True Grit), 1969 – Henry Hathaway
16.º) Por Uns Dólares a Mais (Per Qualche Dollaro in Più), 1965 – Sergio Leone
17.º) Os Filhos de Katie Elder (The Sons of Katie Elder), 1965 – Henry Hathaway
18.º) Por um Punhado de Dólares (Per un Pugno di Dollari), 1964 – Sergio Leone
19.º) El Dorado (El Dorado), 1967 – Howard Hawks
20.º) A Marca da Forca (Hang ‘Em High), 1968 – Ted Post

15 de junho de 2016

FORA DAS GRADES (RUN FOR COVER) – O MELHOR WESTERN DE NICHOLAS RAY


Harriet Frank Jr. e Irving Ravetch
Entre “Johnny Guitar” (1954) e “Juventude Transviada” (1955), Nicholas Ray dirigiu “Fora das Grades” (Run for Cover), um dos filmes menos lembrados de sua filmografia. Mesmo fãs de westerns raramente citam esse faroeste estrelado por James Cagney, um dos grandes nomes do cinema norte-americano e que entre tantos filmes famosos em gêneros diversos, havia atuado em apenas um western que foi “A Lei do Mais Forte” (The Oklahoma Kid), em 1939. E se em 1955 Nicholas Ray era um dos mais festejados diretores, Cagney não ficava atrás em prestígio pois nesse mesmo ano atuou nos sucessos “Ama-me ou Esquece-me” e “Mr. Roberts”. O excelente e de certa forma menosprezado “Fora das Grades” pode igualmente ser considerado um ponto alto nas carreiras de ambos. A história é de autoria de Harriet Frank Jr.-Irving Ravetch, casal mais conhecido pelos inusitados roteiros de “Hombre” e “Os Cowboys” (The Cowboys).


James Cagney e John Derek
Amizade traída - Em “Fora das Grades” o forasteiro Matt Dow (James Cagney) encontra o jovem Davey Bishop (John Derek) e ambos são confundidos com assaltantes de trem. Perseguidos por uma patrulha liderada pelo xerife de Madison (Ray Teal), Davey é ferido gravemente, enquanto Matt consegue esclarecer o equívoco. Davey é levado para a casa do sueco Mr. Swenson (Jean Hersholt), onde recebe tratamento e se recupera apesar de sequela em uma das pernas que faz com que ele tenha dificuldade de se locomover. Matt e Helga, a filha de Mr. Swenson atraem-se mutuamente e Matt é nomeado xerife da cidade, fazendo do manco Davey seu assistente. O banco local é assaltado pelo bandido Morgan (Ernest Borgnine) que é capturado pelo novo xerife. Pouco tempo depois o bando comandado por Gentry (Grant Withers) pratica novo atentado ao banco, roubando 85 mil dólares e durante a ação Mr. Swenson é morto. Perseguidos por Matt e Davey, Gentry e seus homens são encontrados chacinados, vítimas de um grupo de Comanches. O dinheiro é recuperado mas Matt descobre que Davey está envolvido com Morgan, que conseguira escapar, e que Davey pretende matar o amigo Matt para se apossar do produto do roubo juntamente com o comparsa Morgan. No confronto contra os dois, Matt leva a melhor enquanto Morgan e Davey acabam mortos. No retorno à cidade, Matt não revela que Davey havia se tornado cúmplice do assalto, preservando sua imagem de homem honesto. Matt e a sueca Helga então podem finalmente ficar juntos.

James Cagney e John Derek
Conflito de gerações - Em “O Crime Não Compensa” (1949) Nicholas Ray já havia tratado da relação entre um homem mais velho e um jovem, naquele filme Humphrey Bogart e o mesmo John Derek em um de seus primeiros trabalhos no cinema. Com “Fora das Grades” Ray retorna ao tema, desta vez com um homem (Matt Dow) amargurado pela perda do filho há 16 anos e que vê no jovem Davey Bishop a possibilidade de ajudá-lo como se seu próprio filho fosse. Mais ainda por ter se sentido responsável pelo ferimento que aleijou o rapaz. Desde os primeiros contatos Matt Dow percebe a índole criminosa de Davey e encara isso como um desafio, disposto a encaminhar o amigo feito há pouco. Em outras ocasiões Davey mostrará que é incorrigível, frustrando Matt que, como faria com seu filho, perdoa e preserva a imagem de homem íntegro de Davey. Matt resgata o produto do roubo e para os perplexos cidadãos de Madison, incrédulos com a verdadeira proeza, joga-lhes o alforje com o dinheiro e lhes diz: “Com os cumprimentos de Davey”, o mesmo Davey que ele havia matado. Essa ênfase na relação paternal é apenas parte de um western rico em sua tortuosa trama.

Ray Teal (acima) e Jack Lambert
Pena injusta - “Fora das Grades” foge do lugar comum das histórias de tantos faroestes esbarrando no tema ‘Macarthismo’ tão em voga no início dos anos 50. Matt Dow e Davey Bishop são inicialmente confundidos com bandidos e isso tem um preço bastante caro para ambos, especialmente para Davey. E quando é descoberto que Matt Dow cumpriu seis anos de prisão, a explicação é que, novamente, ele havia sido confundido com outra pessoa, pagando injustamente por um crime que não havia cometido. No Macarthismo muitos sofreram por terem simplesmente opinião, o que então era considerado crime. Ninguém melhor abordou esse tema que Allan Dwan no excepcional pequeno western “Homens Indomáveis” (Silver Lode), realizado em 1954. “Fora das Grades” resvala também no influente “Matar ou Morrer” (High Noon), com o personagem do xerife que se vê sozinho, abandonado por toda uma cidade, diante do dever a cumprir. E há espaço para mostrar como se deu a formação do Velho Oeste, não só com o confronto com foras-da-lei, mas com a presença de imigrantes, no caso pai e filha suecos.

James Cagney e Viveca Lindfors
Idílio amoroso - O romance entre Helga Swenson e Matt Dow se desenvolve com brilho raro em filmes de Nicholas Ray, nos quais predomina a dramaticidade e nunca a ternura do amor que floresce. Ray trata o encontro, namoro e declaração de amor entre Helga e Matt, de forma delicada e emocionante, como se vê nos westerns de John Ford, ainda que em meio à rudeza do Velho Oeste. Menos intenso em sua primeira metade, “Fora das Grades” ganha em ritmo na parte final jogando exemplarmente com a expectativa do público com os improváveis rumos que o filme segue. John Derek era uma dos mais promissores galãs dos anos 50 e o desfecho reservado para ele é típico de Ray, para quem a tragédia está sempre à espreita e pronta para acontecer. O final de “Fora das Grades” fica longe do ‘final feliz’ tão comum em Hollywood, como era de se esperar de um ‘outsider’ como o polêmico diretor.

Viveca Lindfors
Um western simples - “Johnny Guitar” não fez sucesso junto ao público norte-americano, mas causou comoções em boa parte da crítica, especialmente a francesa que viu, de pronto, aquele western como uma obra-prima. Toda a extravagância de cores, de caracterizações e a excessiva ornamentação de cenários de “Johnny Guitar” estão, ainda bem, ausentes em “Fora das Grades”, um western simples se comparado com o barroquismo do filme anterior de Ray. Simples e bonito na singeleza com que é mostrada a excepcional beleza da paisagem que cerca a pequena cidade, filmado que foi em sua maior parte no Colorado e ainda nas ruínas astecas no Novo México. Daniel L. Fapp, muitas vezes indicado ao Oscar de Melhor Cinematografia (venceu, finalmente, por “Amor, Sublime Amor”/ West Side Story), foi o diretor de fotografia deste belo filme de Nicholas Ray. A direção de arte ficou a cargo do aclamado Henry Bumstead, o mesmo de “Os Imperdoáveis” (Unforgiven). Mas nem tudo é perfeito neste filme de Nicholas Ray pois, naqueles anos, já que os estúdios impunham o modismo de uma canção cantada durante os créditos que deveria servir de preâmbulo para o que se iria assistir. A canção “Run for Cover” é daquelas que se esquece imediatamente após sua execução, ao contrário do filme. Sequer quem canta a canção é mencionado nos créditos.

James Cagney e John Derek
A marca de Cagney - Decididamente James Cagney é, entre os grandes atores de seu tempo, o que menos se aproximava da imagem de um cowboy, sendo difícil para ele se despir da figura marcante do gângster impiedoso de tantos clássicos do gênero. Ainda assim Cagney convence plenamente, embora por vezes pareça prestes a explodir como o Cody Jarrett de “Fúria Sanguinária”. Aos 56 anos de idade Jimmy cavalga de modo esplêndido e se apaixona, como um cowboy o faria, por Viveca Lindfors. A atriz sueca, uma das muitas cogitadas para seguir os passos de Greta Garbo e de Ingrid Bergman, está perfeita como a madura imigrante submissa ao pai como era o costume de seu povo. John Derek tenta mostrar neste filme que era muito mais que somente um rosto bonito e tem oportunidade em cenas de intensa dramaticidade, saindo-se razoavelmente bem. O dinamarquês Jean Hersholt em sua derradeira aparição no cinema, ele que por seu espírito generoso foi transformado em nome de prêmio pela Academia de Hollywood, premiando aqueles que se distinguem por trabalhos humanitários, como o próprio Hersholt fazia. Grant Withers aparece poucos minutos na tela, como chefe de quadrilha, o suficiente, porém para que se lamente o seu suicídio aos 55 anos de idade, colocando fim a uma vida de luta contra o alcoolismo. Ernest Bornine repete o bandido que interpretou em tantos filmes daqueles anos, ele que surpreendente e merecidamente ganharia o Oscar de Melhor Ator de 1956 por sua interpretação como o tímido açougueiro Marty, no filme do mesmo nome. Ray Teal ótimo coadjuvante como sempre e Jack Lambert desta vez não é um bandido.

Grant Withers; Ernest Borgnine; Jean Hersholt e Viveca Lindfors

Nicholas Ray
Descontando-se “Paixão de Bravo” (The Lusty Men), mais um drama sobre rodeios que um western, “Fora das Grades” é superior aos dois outros westerns que Nicholas Ray dirigiu. São eles o incensado “Johnny Guitar” e “Quem Foi Jesse James” (The True Story of Jesse James), filme renegado pelo inquieto diretor que não aceitou a edição feita pela 20th Century-Fox. “Fora das Grades” é um magnífico western, um dos melhores daquele excelente, para o gênero, ano de 1955.

Pôsteres de diversos países de "Fora das Grades".




10 de junho de 2016

A LEI DO OESTE (RIDE OUT FOR REVENGE) – RORY CALHOUN EM WESTERN PRÓ-ÍNDIO


Bryna era o nome da mãe de Kirk Douglas.
Entre os grandes astros do cinema, Kirk Douglas foi um dos que obteve maior sucesso como produtor com sua Bryna Productions. A Bryna produziu um total de 25 filmes, entre eles os aclamados “Glória Feita de Sangue”, “Spartacus” e “O Segundo Rosto”; no gênero western Douglas produziu nada menos que aete faroestes, sendo “Duelo de Titãs” (Last Train from Gun Hill), “O Último Por-do-Sol” (The Last Sunset) e “Ambição Acima da Lei” (Posse) os mais importantes. Em seus primeiros anos de atividades, a Bryna produziu alguns filmes modestos como o western “A Lei do Oeste” (Ride Out for Revenge), com Rory Calhoun no papel principal, um dos quatro faroestes que ele estrelou em 1957. No ano seguinte Calhoun iniciaria sua participação na série de TV “O Texano” (The Texan), isto após uma bela carreira como um dos principais cowboys do cinema.


Frank DeKova e Vince Edwards com
Lloyd Bridges e Rory Calhoun.
Usurpação de terras - Em “A Lei do Oeste” Rory Calhoun é Tate, o xerife de Sand Creek, hostilizado pelos moradores da cidade por sua declarada simpatia pelos índios. Tate namora Salgueiro Bonito (Joanne Gilbert), jovem índia filha do chefe Lobo Cinzento (Frank DeKova) e irmã de Pequeno Lobo (Vince Edwards). O Capitão George (Lloyd Bridges) da Cavalaria, tem por missão convencer os índios a seguir para a reserva, em Oklahoma, deixando suas terras situadas nas colinas de Black Hills. Lobo Cinzento e seu filho se reúnem com o intransigente Capitão e tentam negociar com ele informando-o, inocentemente, que há ouro em Black Hills. Ao sair do encontro Lobo Cinzento é alvejado e morto por Garvin (Richard Shannon), um dos mais radicais cidadãos de Sand Creek. Liderados agora por Pequeno Lobo, os Cheyennes se organizam para atacar a cidade, iniciando por roubar os cavalos dos militares. Durante essa ação o menino Billy (Michael Winkelman) é morto e Tate, destituído do cargo de xerife, decide investigar a morte do garoto. Testemunha então o assassinato de Pequeno Lobo, executado pelo Capitão George, com quem Tate duela em seguida. O militar é morto e Tate permanece com Salgueiro Bonito, ao lado de quem assiste com tristeza os Cheyennes serem encaminhados para a reserva sem nada poder fazer para salvá-los desse destino.

Acima Rory Calhoun e Joanne Gilbert;
abaixo Gloria Grahame.
Disputa pelo xerife Tate - Nos anos 50 incontáveis westerns tiveram como temática a defesa dos nativos norte-americanos, denunciando o quase total extermínio dos mesmos. “A Lei do Oeste” é mais um desses filmes que, com 78 minutos de duração e orçamento bastante reduzido (em preto e branco), consegue dar uma pálida ideia do que foi a ocupação das Black Hills, em Dakota pelos brancos. Resumidamente mostra que estes se apossaram daquelas terras e qualquer chance de negociação com os nativos desapareceu com o descobrimento de ouro nas colinas de Black Hills. Para contar esse capítulo sangrento e doloroso da capitulação dos índios que habitavam aquela região seria necessário um filme melhor produzido e por essa razão optou-se por um roteiro menos pretensioso. Para tornar este western mais interessante foi inserida uma subtrama em forma de triângulo amoroso com o xerife Tate (consciente e solidário com os Cheyennes) se apaixonando pela filha do chefe ao mesmo tempo que a viúva Amy Porter (Gloria Grahame) disputa o amor de Tate. Amy, no entanto, é preconceituosa como quase todos os brancos, julgando os índios, a quem discrimina, inferiores. Essa disputa das duas mulheres por Tate não chega a entusiasmar por ser o desenvolvimento bastante previsível.

Fotos feitas para a publicidade do filme, com Rory Calhoun entre
Gloria Grahame e Joanne Gilbert.

Acima Lloyd Bridges, Rory Calhoun e
Richard Shannon; abaixo Bridges e
Calhoun ladeando Frank DeKova e
Vince Edwards.
Os muitos defeitos dos brancos - Como mais um western pró-índio, “A Lei do Oeste” cumpre sua finalidade e surpreendentemente contém até violência em excesso para o tipo de público que pretendia atingir. O assassinato covarde do chefe Lobo Amarelo ocorre logo no início do filme; pouco depois o menino Billy é quem morre atingido por um tiro de rifle disparado por um índio que, no escuro o havia confundido; acontece ainda a morte de Lobo Pequeno para em seguida Tate colocar um ponto final na ação do Capitão George. Assim como os demais brancos do filme, George é homem de má índole, que vê os índios segundo a máxima do General Philip Sheridan que afirmava que “índio bom é índio morto”. Ambicioso, o Capitão George é mostrado ainda como alcoólatra. A viúva Amy, por sua vez, se exaspera por ser preterida por Tate que prefere ficar ao lado de uma índia que, como seria natural, com ela se casar. Afinal Amy é uma mulher atraente e dona da pensão onde Tate vivia, precisando apenas mudar para o quarto da humilhada senhoria. Os assassinatos cometidos pelos brancos são feitos de forma covarde, enquanto Lobo Pequeno enfrenta Tate numa luta justa, um dos poucos momentos de ação do filme.

Lloyd Bridges
Lloyd Bridges sempre limitado - Rory Calhoun tem pouco a fazer em “A Lei do Oeste”, ficando para Lloyd Bridges os momentos mais intensos como o maléfico Capitão. Uma pena que Bridges seja um ator tão limitado, canastrão mesmo, ele que brilharia em final de carreira como comediante, isto quando passou a ser mais lembrado como o pai do excelente Jeff Bridges. Vince Edwards em pequeno papel como índio, antes de se tornar Ben Casey, o médico-galã da série de TV com esse mesmo nome e que disputava o público feminino com o Dr. Kildare (Richard Chamberlain). Frank DeKova, ator novaiorquino especializado em interpretar nativos aparece dez minutos na tela. Joanne Gilbert, a índia por quem o personagem de Calhoun se apaixona é inexpressiva como atriz, não tendo ido adiante em sua carreira. A notar as participações apenas como figurantes de Iron Eyes Cody e de Beulah Archuletta, esta a índia ‘Look’ de “Rastros de ódio” (The Searchers). Bernard Girard, diretor que atuou mais na televisão que no cinema dirigiu “A Lei do Oeste”, filme cuja cinematografia ficou a cargo de Floyd Crosby, mais lembrado por seu trabalho em “Matar ou Morrer” (High Noon) e por ser o pai do cantor David Crosby.

Vince Edwards e Frank DeKova; Rory Calhoun.

Gloria Grahame
A desgraça de uma atriz - Gloria Grahame é a grande presença do elenco, parecendo pouco à vontade e desinteressada neste pequeno filme já da fase decadente de sua carreira. Gloria era uma estrela em ascensão, esbanjando sensualidade em cada filme que fazia, recebendo um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua participação em “Assim Estava Escrito”, curiosamente um filme em que Kirk Douglas interpreta um produtor de Hollywood. Gloria era dona de uma beleza invulgar que fugia do padrão das mais lindas atrizes, tendo participado de filmes memoráveis nos anos 40 e até meados dos anos 50. A atriz era casada com Nicholas Ray com quem viveu uma das mais estranhas histórias da capital do cinema. Gloria tornou-se amante do filho adolescente que Ray teve em casamento anterior e, após separar-se do diretor de “Johnny Guitar”, Gloria casou-se com o enteado, com quem viveu por 14 anos, até se divorciar dele. Esse escândalo e ainda o comportamento de estrela que Gloria teve durante as filmagens de “Oklahoma”, em 1955, foram determinantes para que deixasse de receber propostas para filmes melhores, levando a atriz a ser esquecida pelo grande público.

Filme para programa duplo - Se “A Lei do Oeste” tivesse potencial para se tornar um grande filme, certamente Kirk Douglas guardaria para si a oportunidade de interpretar o xerife simpático aos índios. Espertamente Kirk investiu pouco neste filme que foi exibido como complemento de programa duplo. Rory Calhoun prosseguiu em sua carreira que durou 50 anos, com muitos faroestes melhores que este, imperdível apenas para os fãs do ator.

Luta a faca entre Vince Edwards e Rory Calhoun; Calhoun com um rifle;
Lloyd Bridges atirando.

A cópia de "A Lei do Oeste" utilizada para esta resenha foi gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador Marcelo Cardoso.

7 de junho de 2016

5 de junho de 2016

A LANÇA PARTIDA (BROKEN LANCE) – SPENCER TRACY COMO UM TIRÂNICO PATRIARCA


Phillip Yordan (acima) e
Edward Dmytryk
Phillip Yordan foi um dos mais fecundos roteiristas de Hollywood, com nada menos que 67 trabalhos numa carreira que durou mais de cinco décadas. Fãs de westerns lembram bem do nome de Yordan que roteirizou clássicos como “Johnny Guitar”, “Estigma da Crueldade” (The Bravados) e “Quadrilha Maldita” (Day of the Outlaw), além de outros faroestes de menor expressão. E foi com um western que Phillip Yordan recebeu o Oscar de 1955 ao escrever uma história para “A Lança Partida” (Broken Lance), exibido em 1954. Yordan já havia roteirizado o livro “I’ll Never Go Home Again”, de Jerome Weidman para “Sangue do meu Sangue”, excelente drama noir de 1949 estrelado por Edward G. Robinson e Susan Hayward. Pois Yordan gostou tanto da tragédia familiar escrita por Weidman que fez nova adaptação ambientando-a desta vez no Oeste, alterando um pouco a trama mas mantendo o eixo da história que fala da disputa entre pais e filhos pelo império construído pelo velho genitor. E Yordan voltaria ao tema no ano seguinte no igualmente clássico “Um Certo Capitão Lockhart” (The Man from Laramie), cuja história também faz lembrar “Rei Lear”, de William Shakespeare. Em todos esses filmes, ao invés das três irmãs, são irmãos que se desentendem com o pai e litigam pelo espólio, como em  “A Lança Partida”, western dirigido por Edward Dmytryk.


Spencer Tracy; Earl Holliman,
Hugh O'Brian e Richard Widmark
Revolta contra um pai tirano - Matthew Devereaux (Spencer Tracy) é o maior criador de gado de uma região situada no sudeste do Arizona. O velho Matt ficou viúvo da primeira esposa, com quem teve os filhos Ben (Richard Widmark), Mike (Hugh O’Brian) e Denny (Earl Holliman). Matt se casou pela segunda vez com uma jovem índia, filha de um chefe Comanche, e com ela teve o filho Joe (Robert Wagner). Matt trata de forma tirana os filhos do primeiro casamento, enquanto gosta mais do filho mestiço, o que revolta os preteridos Ben, Mike e Denny. Algumas dezenas de reses morrem envenenadas devido à água do rio que passa pela propriedade dos Devereaux ter sido contaminada por uma mina instalada pelo governo, rio acima. Matt e seus filhos se dirigem à mina, invadem o local destruindo instalações. O Governo aciona Matthew que se torna réu e prestes a ser condenado. O advogado do barão de gado propõe que Joe assuma a culpa pelo incidente, além de pagar uma indenização pelos danos causados à mina. A trama é aceita por Joe que é condenado a três anos de prisão, livrando assim seu pai de iminente sentença. Enquanto Joe cumpre pena, o império Devereaux desmorona devido a um ataque cardíaco sofrido por Matt em desavenças com seus três filhos mais velhos. Com a morte do pai o trio se torna dono do que restou uma vez que por ser índia a ‘Señora’ Devereaux (Katy Jurado) não pode legalmente ser proprietária de terras. Após cumprir pena Joe retorna à casa grande da fazenda, que está abandonada, sendo recebido por Two Moons (Eduard Franz), velho índio capataz de Matt. Os irmãos procuram persuadir Joe a deixar o Arizona rumando para o Oregon e para isso tentam suborná-lo com dez mil dólares. Joe não aceita e é perseguido por Ben que tenciona matá-lo, sendo, no entanto, morto por Two Moons, o que marca a destruição da família Devereaux.

Spencer Tracy e Katy Jurado;
Robert Wagner e Jean Peters
Preconceito e discriminação - O prêmio Oscar de Melhor Roteiro concedido a Phillip Yordan é uma das muitas demonstrações que a Academia de Cinema de Hollywood nem sempre é séria. Mesmo consideradas as alterações contidas no script de “A Lança Partida”, de autoria de Richard Wilson, o espectador fica com a impressão de estar assistindo a uma versão de “Sangue do meu Sangue”. A desunião familiar neste faroeste dirigido por Edward Dmytryk tem origem também na ambição e no tratamento despótico do tirânico barão de gado. Este último fato, porém, é justificado em parte, pela entrada na família da ‘princesa’ Comanche e do filho mestiço. Matthew Devereaux entendia que seu poder era ilimitado, permitindo a ele não só praticar a própria justiça, como desafiar a sociedade local casando-se com uma índia. Influente, Matt possibilita que seu amigo Horace (E.G. Marshall) tenha bem sucedida carreira política, chegando a Senador e a Governador. Matt exige ainda que todos chamem sua esposa de ‘Señora’ Devereaux e não vê inconveniente em Ben, seu filho mestiço, se casar com Barbara (Jean Peters), filha do governador, o que não agrada ao político Horace. Casamentos entre brancos e índios contrariam as normas impostas pelos brancos dominadores, o que Matt Devereaux não leva em conta. Essas questões que tratam de preconceito e discriminação propiciam à trama uma dramaticidade ainda maior. O problema é que Edward Dmytrk não estava em seus melhores dias.

Philip Ober e Spencer Tracy;
Russell Simpson
Abatimento moral - O desfecho trágico do drama familiar é previsível desde o início do filme que é narrado em longo flashback. Dos três filhos de Matthew Devereaux com a primeira mulher, apenas Ben tem confrontos mais intensos com o pai, a quem questiona pela preferência pelo meio irmão mestiço. Além disso o velho patriarca insiste em aumentar o abismo familiar com o excessivo respeito à esposa índia, a quem chama de ‘Madame’. Trataria ele assim a finada esposa? O velho Matt consegue criar situação insustentável agravada ainda mais porque os filhos mais velhos há muito se tornaram adultos e a intempestiva investida contra a mina era tudo que o trio de irmãos precisava para uma radical mudança de cenário. A ação contra a mina resulta em processo judicial no qual mais uma vez Matt quer fazer valer seu poder, ignorando que agora não luta contra meros adversários, criadores pioneiros como ele. A mina é explorada pelo governo e a Justiça pende para o lado desta. A sequência de tribunal é dos melhores momentos do filme, com Van Cleve (Philip Ober), o arguto advogado da mina, enredando impiedosamente o insolente barão de gado que, atônito, descobre que seu poder tem limites. Matt se vê moralmente abatido por ser forçado a transferir a culpa de seu ato justamente ao filho Joe, com a consequente condenação deste.

Katy Jurado grisalha;
Robert Wagner e Jean Peters
Filme sem energia e inspiração - Mesmo com a história de Phillip Yordan enriquecida por personagens e situações não presentes no original, “A Lança Partida” não tem força suficiente para envolver o espectador. O filme carece de maior intensidade dramática e mesmo uma sequência vital como quando Matt chicoteia o filho mais velho ao tentar se impor através da violência -  e desaba vítima de um ataque cardíaco - é gritante pela falta de inspiração. Logo em seguida o semiinválido barão de gado parte numa tresloucada cavalgada por caminhos escarpados para morrer de modo até tranquilo sobre o cavalo, cena decididamente patética. O romance proibido entre o filho mestiço de Matt e a filha do governador melhor ficaria num daqueles romances juvenis da 20th Century-Fox, aqui certamente culpa do anódino par amoroso composto por Robert Wagner e Jean Peters. Por outro lado, Spencer Tracy e Richard Widmark são atores talentosos mas cujos embates neste filme não produzem a necessária e esperada energia. Mas nenhum personagem é mais fraco que o da ‘Señora’ Devereaux, submissa ao estranhamente sempre amoroso marido e muda diante dos conflitos que se sucedem. Após ter interpretado dois anos antes, de forma inesquecível a sedutora e forte, ‘Helena Ramirez’ em “Matar ou Morrer” (High Noon), eis que a esplêndida Katy Jurado vira uma índia com um fraquíssimo desempenho, incondizente com sua capacidade interpretativa.

Spencer Tracy; Hugh O'Brian e Richard Widmark

Spencer Tracy e Katy Jurado; Spencer
 Tracy. Earl Holliman e Hugh O'Brian
Mestiço inconvincente - Spencer Tracy é o grande nome do elenco, vivendo personagem apropriadíssimo, no entanto, sem o costumeiro brilho. Na muito boa sequência do tribunal, o clássico sarcasmo de Tracy é sobrepujado pela ótima presença de Philip Ober. Esta sequência desperta a vontade de rever Spencer Tracy em sua excepcional atuação, também dentro de um tribunal, em “O Vento Será Sua Herança” como o advogado que defende a Teoria da Evolução das Espécies. No elenco estão ainda Hugh O’Brian e Earl Holliman, ambos com participações irrelevantes. Robert Wagner entra para a extensa galeria de atores (e atrizes) que interpretam inconvincentemente mestiços, como que se o rosto escurecido pela maquiagem pudesse operar milagres. Eduard Franz também vira índio, completando o trio étnico de intérpretes não índios com Katy Jurado. Wagner, apenas seis anos mais novo que a atriz mexicana passa por filho desta que, no filme, após três anos, aparece envelhecida, enquanto esse tempo de prisão parece ter feito bem a Robert Wagner, jovial como sempre. Spencer Tracy aos 54 anos de idade interpreta o pai de Richard Widmark, então com 40 anos. “A Lança Partida” não poderia ter final mais indicado que Robert Wagner como filho mestiço, renunciando à vingança contra a morte do pai e quebrando a lança, num gesto tão simbólico quanto piegas para justificar o título do filme. Mais uma vez vale citar “Sangue do meu Sangue”, muito mais feliz inclusive nos títulos nacional e original (House of Strangers).

Spencer Tracy e Katy Jurado
Desapontamento - O canadense Edward Dmytryk ainda tentava fazer esquecer sua fama de delator depois de seu testemunho no Comitê de Atividades Anti-Americanas criado pelo McCarthismo quando filmou “A Lança Partida”. Diretor de excelentes dramas como “Rancor” (1947) e “A Nave da Revolta” (1954), Dmytryk esperaria ainda cinco anos para realizar um respeitado faroeste, o que veio a acontecer em 1959 com “Minha Vontade é Lei” (Warlock). O eficiente Joseph MacDonald foi o responsável pela bonita cinematografia deste western, filme que desaponta e que deixa a impressão que poderia ter sido muito melhor.


Spencer Tracy e o pôster de "A Lança Partida"