UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

27 de abril de 2016

SÉRIES WESTERNS DE TV - GLENN FORD É A LEI (CADE’S COUNTY), SUCESSO NO BRASIL


Glenn Ford em "Gatilho Relâmpago".
Entre os grandes cowboys do cinema está Glenn Ford, não só pelos inúmeros westerns clássicos em que atuou mas também por, na vida real, ser um homem que amava a vida de rancheiro. Colegas de filmagens, diretores, técnicos e dublês ficavam admirados ao ver como o ator canadense montava exibindo enorme habilidade em cima de um cavalo. E como Glenn Ford gostava de atuar em faroestes! Decidia sem hesitar por um western mesmo que um outro filme tivesse diretor e elenco de primeira. Nas décadas de 40, 50 e 60, entre os atores classe A, Glenn Ford somente fez menos westerns que John Wayne e em 1970, o astro de “Gatilho Relâmpago” (The Fastest Gun Alive) percebeu que o gênero que tanto apreciava entrava em indiscutível declínio. Chegava para Glenn a hora de, assim como haviam feito Henry Fonda, Barbara Stanwyck e Audie Murphy, olhar com mais carinho para a televisão. Glenn Ford aceitou uma proposta da divisão de televisão da 20th Century-Fox para estrelar uma nova série fadada ao sucesso em razão do apelo do nome do famoso ator.

A abertura da série; abaixo Glenn Ford entre
Vic Morrow, Sidney Poitier e Paul Mazurski.
Glenn Impondo condições - A negociação não foi nada fácil pois Ford impôs algumas condições, todas aceitas pelos produtores: a série deveria ser western; o ator só trabalharia das 9 da manhã às 18 horas; seu amigo Edgar Buchanan deveria fazer parte do elenco fixo da série; e por último Peter Ford, filho do ator teria de ser contratado também, ainda que como ‘aspone’. A ideia inicial era que Ford protagonizasse um policial responsável por uma instituição que visasse reabilitar jovens que tivessem praticado crimes na adolescência. Sem dúvida uma lembrança do drama clássico “Sementes de Violência” (1955) em que, como um professor de escola pública, Ford se vê às voltas com a indisciplina dos alunos Sidney Poitier, Vic Morrow e Paul Mazurski, entre outros. Esse filme pioneiro sobre o tema da violência estudantil ficou famoso por introduzir o rock’n’roll no cinema através de “Rock Around the Clock”, de Bill Haley and His Comets, ouvido nos créditos iniciais. Glenn Ford não gostou da proposta pois queria mesmo uma série western, mas se deixou convencer quando leu uma segunda sinopse (criada por Rick Husky e Anthony Wilson) que estava mais para um western contemporâneo. Como Sam Cade, um moderno xerife do Condado de Madrid, no Sudoeste do País, ele dirigiria um jipe para caçar os bandidos que se metessem no local onde ele era a lei. O título escolhido para a série foi “Cade’s County”, o velho amigo de noitadas de pôquer e de caçadas Edgar Buchanan foi contratado, assim como Peter Ford seria o treinador de diálogos do elenco. A maioria das filmagens seria feita no grande cenário dos estúdio, em Los Angeles, facilitando a vida de Ford que morava a cidade e queria chegar em casa antes do anoitecer. Inicialmente prevista para ter episódios de 25 minutos de duração, prevaleceu a proposta de 50 minutos para cada episódio filmado em cores.

Glenn Ford com Henry Mancini.
Horário nobre - O tratamento dispensado pelos produtores à nova série foi muito especial, seja na escolha dos roteiristas, dos diretores e do elenco. Além de Ford e Buchanan estavam no cast original Taylor Lacher, Victor Campos e Sandra Ego, atriz com descendência índia. Sandra foi logo substituída na série por Betty Ann Carr, legítima índia Cherokee. Após os primeiros episódios, Peter Ford foi incorporado ao elenco fixo da série. Um ponto altamente positivo da produção foi encomendar ao genial Henry Mancini o tema de abertura de “Cade’s County”. Mancini compôs uma canção bastante alegre e marcante. Acreditando no sucesso absoluto da série, a CBS a programou para um horário ultranobre, os domingos às 21h30, horário sempre ocupado por fortes concorrentes. A estreia de “Cade’s County”se deu em 19 de setembro de 1971, com o episódio “Homecoming”, escrito pelos criadores da série e dirigido por Marvin J. Chomski e com Darren McGavin como ator convidado.

Acima Edgar Buchanan, Glenn Ford,
Taylor Lacher e Victor Campos;
abaixo os amigos Buchanan e Ford.
Baixa audiência e cancelamento - Sam Cade, um solteirão de poucas palavras era auxiliado por seus assistentes J.J. Jackson (Edgar Buchanan), Arlo Pritchard (Taylor Lacher), Rudy Davillo (Victor Campos) e Pete (Peter Ford). A delegacia tinha como secretária a índia Betty Ann Sundown (Betty Ann Carr). O xerife enfrentava e perseguia a bordo de seu jipe todo tipo de fora-da-lei, desde corruptos e extorsionistas a ladrões de bancos e foragidos da justiça, salvando, quando preciso, inocentes condenados à morte. Os bons roteiros, a excelente música incidental de Lionel Newman, convidados especiais bastante conhecidos como Broderick Crawford, Forrest Tucker, William Shatner, Linda Cristal, Edmond O’Brien, James Gregory, George Maharis, Cameron Mitchell, Bobby Darin, David Wayne, John Payne e Russ Tamblyn, entre outros, não ajudaram a confirmar a enorme expectativa por uma ótima audiência. Mesmo o empenho de Glenn Ford, atuando com a costumeira classe como se estivesse numa grande produção de Hollywood não levantou a audiência da série. “Cade’s County” chegou ao fim da primeira temporada com índices alarmantes no Nielsen Ratings, mas Glenn Ford acreditava que na temporada seguinte as coisas iriam melhorar, assim como ocorreu com “Bonanza”. A série com os Cartwrights esteve para ser cancelada após as duas fracas temporadas iniciais mas chegou a campeã de audiência por vários anos, ficando 14 temporadas no ar. Para surpresa e desgosto de Glenn Ford, finda a primeira temporada, após 24 episódios produzidos, a série "Cade's County" foi cancelada.

Glenn Ford como 'Sam Cade' com Bobby Darin; com James Gregory
(centro) e ao lado do filho Peter Ford.


Caixas de VHS da série "Glenn Ford é a Lei".
Sucesso no Brasil - Curiosamente esta série não foi ainda lançada em DVD nos Estados Unidos, havendo apenas episódios em VHS disponíveis para venda. No Brasil a série foi exibida com o título “Glenn Ford é a Lei” e, ao contrário dos Estados Unidos, foi muito bem recebida em seu primeiro ano de exibição sendo reprisada por outros anos. O ator de “Gilda”, “Os Corruptos”, “A Casa de Chá do Luar de Agosto”, “Escravas do Medo” e de tantos faroestes clássicos mantinha, depois de mais de três décadas de carreira, um público fiel no país em que ele havia filmado o acidentado “O Forasteiro” (The Americano), em 1953/4. O relativo êxito da série “Glenn Ford é a Lei” no Brasil se deve à qualidade dos episódios, todos bastante movimentados e com o stuntmen Bill Hart cuidando das sequências perigosas. Mas é fora de dúvida que a enorme legião de fãs de Glenn Ford é quem levantava a audiência dos canais que exibiam a série. E, salvo engano, nenhum outro ator havia tido uma série na televisão brasileira com personagem fictício que tivesse como título o nome do ator. “Alfred Hitchcock Presents” levava o nome do famoso diretor como chamariz; “The Donna Reed Show”, “The Dean Martin Show” e tantos outros eram programas de variedades. “Glenn Ford é a Lei” foi, ao menos no Brasil, um grande sucesso à altura do prestígio desse inesquecível cowboy do cinema.

Glenn Ford com seu dublê habitual Bill Hart; no centro Peter Ford;
na capa da revista TV Guide a pergunta: "Por que atores de cinema
não brilham na TV?"

Mais uma vez Ford e Buchanan; Glenn Ford com Rodolfo Acosta.

23 de abril de 2016

NO RASTRO DOS BANDOLEIROS (SHOOT-OUT AT MEDICINE BEND) – O MAIS DIVERTIDO WESTERN DE RANDOLPH SCOTT


Randolph Scott entre Angie Dickinson e
Dani Janssen.
“No Rastro dos Bandoleiros” foi lançado em 1957 depois de permanecer dois anos nas prateleiras da Warner Bros., filmado que foi em 1955. A razão desse retardamento foi devido ao fato de, nesse ano, Randolph Scott ter feito outros quatro faroestes e cinco filmes num ano é quase uma overdose, mesmo em se tratando dos aguardados westerns de Randy. “No Rastro dos Bandoleiros” havia sido filmado em preto e branco, o que nada ajudava, tendo sido o único western não em cores de Scott na década de 50, além do que o elenco não trazia nenhum nome de real destaque além do prestigiado ator. E o diretor era o pouco conhecido Richard L. Bare, mais um ponto desfavorável ao filme que tinha em sua maior parte Scott vestido não como cowboy e sim como membro de um grupo religioso. Em 1957 o cenário era bem outro pois no ano anterior foi exibido “Sete Homens Sem Destino” (Seven Men from Now), primeiro western da série de sete em que Scott foi dirigido por Budd Boetticher. Esse filme foi muito bem recebido, pela crítica, sendo saudado por Andrè Bazin como um excepcional western, comparado mesmo a “Rastros de Ódio” (The Searchers), de John Ford. O prestígio de Randolph Scott andava alto e ele havia deixado a Warner Bros. que então se lembrou de “No Rastro dos Bandoleiros”, filme que tinha no elenco James Garner, jovem promessa do estúdio e que estreava no cinema. Com tudo para dar errado, este menosprezado filme é um dos mais interessantes westerns entre os tantos em que Randolph Scott atuou.


Randolph Scott, James Garner e Gordon Jones
Cavalarianos vestidos como pastores - O Capitão Buck Devlin (Randolph Scott), ao lado do Sargento John Maitland (James Garner) e do Cabo Wilbur Clegg (Gordon Jones), todos da Cavalaria, cavalgam rumo ao rancho do irmão de Devlin. Lá chegando encontram o local sendo atacado por índios, conseguindo o trio rechaçar o ataque que causou a morte do irmão do Capitão. Sarah (Ann Doran), a cunhada do Capitão Devlin, agora viúva, diz que o marido tentou se defender atirando com um fuzil cujas balas não eram disparadas. O Capitão descobre que isso ocorreu em virtude de os cartuchos não conterem chumbo, mas sim outro tipo de material. A munição fora adquirida em Medicine Bend, numa loja de propriedade de Ep Clark (James Craig) dono também de praticamente tudo na cidade. Devlin, Maitland e Clegg partem então para Medicine Bend para desvendar o mistério das balas que não disparam e resolvem, no caminho, tomar um banho num rio. Distraídos, têm seus cavalos, uniformes, armas e dinheiro roubados. Seminus os três conseguem ajuda com um grupo de religiosos que lhes fornecem roupas que os fazem parecer também religiosos. Assim vestidos chegam a Medicine Bend e descobrem que Ep Clark domina o xerife Bob Massey (Trevor Bardette), o prefeito Sam Pelley (Don Beddoe) e mantém um bando de foras-da-lei a seu serviço. Foram esses bandidos que roubaram os pertences dos militares, assim como roubaram o grupo religioso e praticam assaltos contra caravanas de suprimentos que chegam a Medicine Bend. Ajudado por Priscilla King (Angie Dickinson), sobrinha do comerciante Elam King (Harry Harvey) e ainda pela saloon-girl Nell Garrison (Dani Janssen), o Capitão Devlin desbarata a quadrilha de Ep Clark, liquidando com os malfeitores.

Randolph Scott, James Garner
e Gordon Jones
Esperando pelo tiroteio que não acontece - Assim como acontece em mais da metade dos faroestes, “No Rastro dos Bandoleiros” tem uma cidade dominada por um homem poderoso e inescrupuloso, respaldado por xerife e justiça corruptos, isto até que um destemido e íntegro estranho chegue, vença o chefe e extermine sua quadrilha. Os clichês do enredo deste western, no entanto, param por aí pois a história se desenrola de maneira inusitada, a começar pelos garbosos cavalarianos que repentinamente perdem as fardas e se cobrem com o que conseguem encontrar pelo caminho. As roupas que conseguem com os religiosos fazem com que sejam confundidos com pregadores de alguma seita e o trio assume essa nova identidade para descobrir quem os roubou. Para isso contrariam seus hábitos e o Sargento namorador (James Garner) não pode conquistar nenhuma garota e o Cabo beberrão (Gordon Jones) tem que evitar a garrafa. No balcão do saloon servem-se de... leite, para espanto dos barflies. A esta altura o filme, que se iniciou tragicamente com o ataque índio e a morte do cunhado do Capitão Devlin, descamba para a comédia que só não é mais jocosa porque o ar sério de Randolph Scott promove o devido equilíbrio. James Garner anuncia o modelo cínico que depuraria como Bret Maverick na série de televisão e que o acompanharia por toda sua longa carreira. E Gordon Jones era um comediante nato que, por acaso, um dia (1940) foi o herói Besouro Verde do seriado do mesmo nome. Este western só deixa de ser inteiramente cômico quando se aproxima do final com Scott enfrentando e vencendo cada um dos bandidos isoladamente. O aguardado tiroteio do título original (Shoot-Out) acaba sendo outra piada uma vez que não acontece nenhum tiroteio no sentido amplo do termo, ou seja, intensa troca de tiros entre muitos contendores.

James Garner e Gordon Jones quase enforcados; Jones, Garner e Angie Dickinson.

Randolph Scott e Angie Dickinson;
abaixo Myron Healey.
Resistindo a Angie Dickinson - O que mais agrada em “No Rastro dos Bandoleiros” é justamente o inusitado da situação que envolve Randolph Scott e o veterano ator não se faz de rogado, mostrando que é também capaz de se sair bem num filme menos sério. Imaginar Scott nu num faroeste é algo inimaginável, bem como vê-lo desfilar pelas ruas e saloon de Medicine Bend vestido de pregador, engraçadíssimo, por sinal. Mas este filme de Richard L. Bare tem ainda outros atrativos, como ver os jovialíssimos James Garner e Angie Dickinson em início de carreiras. Quem poderia suspeitar que a doce e inocente Angie, poucos anos depois estaria tão provocante e irresistível num western, conquistando John Wayne 24 anos mais velho que ela. Desta vez quem se rende a Angie é Randolph Scott, 33 anos a mais que ela, despindo o hábito e ficando com a mocinha ao término do filme, ainda que, como sempre, evitando o beijo final. James Garner, que conquistou tantas belas mulheres em sua carreira, teve que se contentar com a loura Dani Janssen, creditada como Dani Crayne. O ‘Janssen’ do nome veio do marido David Janssen, aquele ator que tinha orelhas maiores que as de Clark Gable. Em “No Rastro dos Bandoleiros” Dani Janssen aparece mais que Angie Dickinson e Myron Healey (um dos vilões) aparece mais que James Craig o bandido principal. Entre os demais coadjuvantes a grande e feliz surpresa é a destacada participação de Trevor Bardette, permitindo que o veterano ator de tantos westerns e seriados mostre o excelente ator que era. E viva! Guy Wilkerson, Lane Bradford e Harry Lauter pronunciam diversas frases em diálogos do filme.

Trevor Bardette com Randolph Scott; Bardette com Dani Janssen.

Dani Janssen com Angie Dickinson; James Craig com Myron Healey.

Diversão garantida - Com música (de Roy Webb) e cinematografia (de Carl E. Guthrie) competentes, Dani Janssen interpreta a alegre canção “Kiss me Quick” (nada a ver com o sucesso de Elvis Presley). Que o espectador não se iluda com o descaso que este pequeno e movimentado western recebeu desde sua realização. É diversão garantida, com Randolph Scott (na foto à direita mascarado) em ótima forma, até dispensando dublês, contraponto ideal para os tensos sete westerns seguintes que Randy faria com Budd Boetticher e da obra-prima com que fechou sua magnífica carreira, “Pistoleiros do Entardecer” (Ride the High Country).

Esta cópia de “No Rastro dos Bandoleiros” foi gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador Marcelo Cardoso.

20 de abril de 2016

TOP-TEN WESTERNS DO CINÉFILO, ROTEIRISTA, ATOR E DIRETOR JOSÉ FLÁVIO MANTOANI


Rex Allen
Com uma coleção de filmes que já atingiu dez mil títulos (isso mesmo, dez mil filmes), José Flávio Mantoani é um cinéfilo muito especial. Seu fantástico e diversificado acervo contém por volta de três mil westerns, ou seja, provavelmente a mais completa coleção particular de westerns do Brasil. Desnecessário dizer que José Flávio conhece faroestes como poucos, gênero que começou a assistir ainda menino, nos anos 50, quando mal conseguia ler as legendas dos emocionantes westerns B. Dos ‘far-wests’ com Rex Allen (seu mocinho favorito), Rocky Lane, Hopalong Cassidy, Roy Rogers e tantos outros, assistidos em Brodowski (SP), sua cidade natal, José Flávio passou, com a mesma paixão, para os faroestes de melhor qualidade e grandes filmes de modo geral. Marlon, Brando, Paul Newman, Burt Lancaster, Dirk Bogarde e Tony Curtis passaram a ser os astros preferidos de José Flávio, que se extasiava diante da beleza de Audrey Hepburn, Rita Hayworth, Ingrid Bergman, Sophia Loren e Jane Russell, atrizes que mais gostava. Se eram exibidos faroestes ele procurava não perder e John Wayne, Gary Cooper, Randolph Scott, Glenn Ford, Henry Fonda, James Stewart, Audie Murphy, Gregory Peck estavam entre os atores que também atraíam o cinéfilo brodosquiano nos muitos westerns que faziam.


O grande colecionador musical - Quando as telas de nossos cinemas foram invadidas por protagonistas com nomes estranhos como Ringo, Django, Sartana e Sabata, todos com caracterizações que pouco lembravam os ídolos norte-americanos, José Flávio aceitou a novidade com naturalidade. Mais ainda quando a trilha sonora musical desses filmes era assinada por Ennio Morricone. Apaixonado por trilhas sonoras de filmes, José Flávio percebeu que cada trilha do maestro-compositor era uma preciosidade musical e corria às lojas para adquirir o long-playing correspondente ao western-spaghetti. Quando ainda não existiam as fitas VHS, muitos cinéfilos adquiriam o álbum com a trilha musical dos filmes e José Flávio não fugiu a essa regra, com a diferença que adquiria todo e qualquer disco que trouxesse músicas de filmes. E se o álbum fosse com a orquestra do maestro-compositor Henry Mancini, seu preferido, a alegria do cinéfilo era ainda maior. Como resultado de tantas aquisições, a coleção de José Flávio chegou aos 1.500 LPs de trilhas sonoras, parte especial dos cinco mil álbuns que suas estantes acomodam. Para o bem ou para o mal vieram os CDs que perdiam quanto à beleza gráfica das capas dos LPs e hoje o colecionador possui oito mil CDs, mais da metade deles só de trilhas sonoras de filmes.

José Flávio Mantoani junto a seus amados LPs, grande parte deles
trilhas sonoras originais de filmes.

Algumas das trilhas preferidas.
As melhores trilhas musicais dos faroestes - Profundo conhecedor de músicas de filmes, José Flávio cita a trilha de Elmer Bernstein composta para “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven) como uma das mais perfeitas no gênero western. Mas lembra que Victor Young compôs tantas e tão belas trilhas, entre elas a de “Os Brutos Também Amam” (Shane), afirmando ser quase impossível dizer que uma trilha sonora musical seria a melhor de todas. E cita ainda como magníficas trilhas musicais para westerns as compostas para “Matar ou Morrer” (High Noon), de Dimitri Tiomkin; “A Árvore dos Enforcados” (The Hanging Tree), de Max Steiner; “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country), de Jerome Moross; “O Ouro de Mackenna” (Makckenna’s Gold), de Quincy Jones. O compositor italiano Ennio Morricone está entre aqueles que José Flávio mais admira e mais possui discos, entre Lps e CDs, ultrapassando 300 itens em sua coleção, pontificando as trilhas que Morricone compôs para “Três Homens em Conflito” (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo) e “Era Uma Vez no Oeste” (C’Era Uma Volta Il West).

José Flávio Mantoani como ator em
"Dioguinho - O Retorno do Matador".
Fazendo cinema - José Flávio Mantoani é destacado membro do Grupo de Cinema de Brodowski, que em parceria com a TV Educativa da cidade, já produziu nada menos que 18 longa-metragens. Entre esses muitos filmes está uma excelente refilmagem do faroeste caboclo “Dioguinho” (2002), bem como “Dioguinho - o Retorno do Matador” (2015). Nessas produções José Flávio foi o responsável pela trilha sonora musical, além de escrever roteiros, dirigir e atuar desempenhando convincentes personagens. Com essa invejável bagagem José Flávio Mantoani não poderia deixar de indicar para o WESTERNCINEMANIA quais os faroestes que considera os melhores de todos os tempos. O cinéfilo brodosquiano listou não só os dez melhores westerns mas também os dez subsequentes, filmes igualmente clássicos. Eis o Top-Ten do eclético cinéfilo de Brodowski:


1.º) Rastros de Ódio (The Searchers), 1956 – John Ford


* * * * *


2.º) No Tempo das Diligências (Stagecoach), 1939 – John Ford


* * * * *


3.º) O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance), 1962 – John Ford


* * * * *


4.º) Matar ou Morrer (High Noon), 1952 – Fred Zinnemann


* * * * *


5.º) Os Brutos Também Amam (Shane), 1953 – George Stevens


* * * * *


6.º) Vera Cruz (Vera Cruz), 1954 – Robert Aldrich


* * * * *


7.º) Era Uma Vez no Oeste (C’Era Uma Volta Il West), 1968 – Sergio Leone


* * * * *


8.º) O Matador (The Gunfighter), 1950 – Henry King


* * * * *

9.º) Os Imperdoáveis (Unforgiven), 1992 – Clint Eastwood


* * * * *


10.º) Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven), 1960 – John Sturges



* * * * *


11.º) Três Homens em Conflito (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo), 1966 – Sergio Leone

12.º) Duelo ao Sol (Duel in the Sun), 1946 – King Vidor

13.º) O Homem dos Olhos Frios (The Tin Star), 1957 – Antony Mann
  
14.º) Winchester 73 (Winchester ’73), 1950 – Anthony Mann
  
15.º) Correio do Inferno (Rawhide), 1951 – Henry Hathaway

16.º) O Homem do Oeste (Man of the West), 1958 – Anthony Mann

17.º) Viva Zapata! (Viva Zapata!), 1952 – Elia Kazan

18.º) Pistoleiros do Entardecer (Ride the High Country), 1962 – Sam Peckinpah
  
19.º) Onde Começa o Inferno (Rio Bravo), 1959 – Howard Hawks
  

20.º) Um de Nós Morrerá (The Left Handed Gun), 1958 – Arthur Penn



16 de abril de 2016

CINE SAUDADE - CINEMA PARADISO NA PEQUENA BRODOWSKI


Cândido Portinari e alguns de
seus quadros retratando a
antiga Brodowski
Brodowski é uma pequena cidade da Região Nordeste do Estado de São Paulo, nacionalmente conhecida por ter sido o berço de Cândido Portinari, pintor brasileiro consagrado mundialmente. Muitas das belas e valiosas telas que Portinari pintou foram inspiradas por suas bucólicas ruas (ainda sem calçamento) e por seus moradores, especialmente as crianças em movimento que Cândido tanto gostava de pintar. O menino brodosquiano José Flávio Mantoani bem poderia ter sido uma das crianças retratadas pelo pincel genial de Portinari pois também brincava nas ruas da cidadezinha situada a 27 quilômetros da já populosa Ribeirão Preto. Mas jogar bola, empinar pipa ou brincar de ‘pula carniça’ não eram as diversões que José Flávio mais apreciava. Apelidado de ‘Mith’ pelos amiguinhos, José Flávio gostava mesmo, além da conta, era das sessões para crianças e adolescentes dos três cinemas de Brodowski, o ‘Paroquial’, o ‘Santa Amélia’ e o ‘Paratodos’. Mith frequentava assiduamente as três salas e, como não poderia deixar de ser, o faroeste era seu gênero de filmes favorito. Mith assistia às aventuras de Rex Allen, mocinho que mais gostava, com dúzias de gibis no colo, gibis que antes e no intervalo das sessões eram trocados na porta e mesmo dentro do cinema. Isso ocorria identicamente tanto nas cidades grandes como na Brodowski que possuía, então, perto de cinco mil habitantes.

Gibis que a garotada trocava nos
encontros dominicais das matinês.
As emoções dos seriados - O garoto Mith jamais perdia as matinês dominicais que exibiam faroestes com Roy Rogers, Allan ‘Rocky’ Lane, Hopalong Cassidy, Durango Kid, Bill Elliott e outros que ele admirava em grau um pouco menor que o ‘Cowboy do Arizona’ Rex Allen. Era bom demais ver semanalmente esses mocinhos cavalgarem seus belos corcéis e distribuir socos bem aplicados nos queixos de Roy Barcroft e outros bandidos, além de se emocionar com cada capítulo dos seriados. Este tipo de filme seccionado em episódios exibidos semanalmente tinham um sabor especial para a garotada que, mesmo sabendo que os heróis eram invencíveis, ficava a imaginar como poderiam eles se safar das enormes serras elétricas, explosões, quedas em despenhadeiros e outros criativos perigos. Cada novo seriado como “Os Perigos de Nyoka”, “O Homem Foguete”, “A Espada do Zorro”, “Flash Gordon”, “O Aliado Misterioso”, “Os Tambores de Fu Manchu”, “Super-Homem”, “O Fantasma Voador” e “O Homem de Aço” (Capitão Marvel) era tão aguardado como a chegada das férias escolares ou mesmo Papai Noel com o novo brinquedo. O seriado “A Vingança de El Látego” fez tanto sucesso entre a garotada que o proprietário do Cine Paratodos o reprogramou para nova exibição de seus 12 episódios, atendendo aos pedidos da criançada de Brodowski. O operador de projeção Luiz Stechini teve, pela primeira vez, que reprisar um seriado. Fanático por faroestes, Mith passava muito tempo olhando os lobby cards expostos nas paredes dos cinemas e não se conformava em não poder assistir àqueles filmes de cowboy estrelados por artistas como Gregory Peck, Randolph Scott, Alan Ladd, Gary Cooper e John Wayne. Mith escutava os mais velhos dizerem sempre que aqueles eram os melhores artistas do cinema.

Pôsteres dos seriados que Mith assistiu em Brodowski: "A Vingança de El Látego",
"O Aliado Misterioso", "Os Tambores de Fu Manchu" e "Flash Gordon".

"O Super-Homem", "O Homem-Foguete", "O Fantasma Voador" e "Os Perigos de
Nyoka", todos seriados que Mith assistia episódio a episódio dominicalmente.

"Ao Rufar dos Tambores", "o Anjo e o Bandido",
"Sangue de Heróis", "O Matador" e "Os Brutos
Também Amam", todos assistidos pelo menino Mith.
Ajudante do ‘Seo’ Luiz no Cine Paratodos - Mith impressionava os demais meninos mostrando que conhecia aqueles atores e atrizes que não atuavam nos westerns B ou nos seriados. E eram esses filmes anunciados nos grandes cartazes, uma tentação para o garoto, futuro cinéfilo em formação e que certo dia teve uma tão brilhante quanto ousada ideia. Mith procurou o senhor Luiz Stechini e perguntou se ele não precisava de um ajudante. ‘Seo’ Luiz tinha sim muito trabalho com filmes que se partiam e necessitavam ser emendados, além ainda de rebobiná-los para devolvê-los ao distribuidor. Por que não, então, aproveitar aquele menino que se oferecia para trabalhar sem ganhar nada e que teria a função de rebobinar os filmes exibidos? E Mith, com autorização dos pais, pode então ver o que havia nos fotogramas de rolos de filmes muito falados. “Ao Rufar dos Tambores” havia feito bastante sucesso quando exibido e Mith pode conhecê-lo ali, clandestinamente, na sala de projeção do Cine Paratodos. O mesmo ocorreu com “O Matador”, “Sangue de Heróis” e “O Anjo e o Bandido”, estes dois últimos estrelados por John Wayne, de quem se falava muito naqueles primeiros anos da década de 50. Rex Allen, Roy Rogers e Rocky Lane passaram então a ter, para Mith, a concorrência de Wayne, Joel McCrea, Randolph Scott, Jeff Chandler e James Stewart, entre outros como mocinhos de muitos faroestes com censura acima de 14 anos de idade.

José Flávio Mantoani como ator em
"Dioguinho - A Volta do Matador".
Ligando-se, na prática, ao cinema - Após três inesquecíveis anos passados dentro da cabine de projeção do Cine Paratodos, em Brodowski, Mith teve que deixar a função, com certa tristeza, é claro. Mas já podia assistir a filmes como “Os Brutos Também Amam” e “Matar ou Morrer” sentado na plateia do Cine Santa Amélia e ao lado de outros amigos, se emocionando com Alan Ladd e Gary Cooper. O tempo passou e José Flávio assistiu a um incontável número de filmes durante sua vida, tornando-se um grande colecionador e envolvendo-se diretamente com a 7.ª Arte ao criar, junto com outros amigos, o Grupo de Cinema de Brodoswski. Esse grupo já realizou um total de 18 longa-metragens e três documentários e nessas produções José Flávio Mantoani é um dos membros mais atuantes. Escreve roteiros, cuida da trilha sonora musical e interpreta tipos sempre marcantes como o Presidente do Estado Campos Salles em “Dioguinho” (2002) ou o médico charlatão em “Dioguinho – A Volta do Matador” (2015).

Mith ao lado do cineasta Milton Martins; Mith com os amigos Odair Martins
(protagonista de "Dioguinho"), Ewaldo Marçal Arantes e Aurélio Cardoso.

O 'Totó' de "Cinema Paradiso", em tudo
parecido com o menino Mith.
O Totó de Brodowski - O cinema sempre fez parte da vida de José Flávio Mantoani, o Mith, mas uma emoção incomparável ele sentiu ao assistir “Cinema Paradiso”, em 1990. Naquela poética declaração de amor que Giuseppe Tornatore fez ao cinema, Mith se reconheceu no personagem ‘Totó’ (Salvatores Cascio), o menino que, assim como ele, ajudava o projecionista ‘Alfredo’ (Pillippe Noiret). Ambos, Totó e Mith descobriram clandestinamente o mundo maravilhoso do cinema, emoção que se repetia a cada fotograma olhado com especial carinho ao ver e, como num sonho tocar, o celuloide que estampava um daqueles nomes admirados por milhões de pessoas no mundo inteiro. Totó num pequeno vilarejo siciliano e Mith na sua querida Brodowski, no Cine Paratodos que se tornou um autêntico ‘Cine Saudade’ para José Flávio Mantoani.

Phillippe Noiret e Salvatore Cascio em "Cinema Paradiso"; José Flávio Mantoani
voltando décadas no tempo.

José Flávio Mantoani como Campos Salles em "Dioguinho" e junto com sua
enorme coleção de LPs onde se encontram mais de 300 álbuns só com
trilhas sonoras compostas por Ennio Morricone.

O Cine Santa Amélia, nos anos 50 e em foto mais recente, já desativado.
Como muitos outros cinemas o Santa Amélia virou igreja evangélica
e atualmente no local funciona uma agência da Caixa Econômica Federal.

O Grupo Escolar Tiradentes, onde Mith cursou o Ensino Fundamental;
nas fotos menores ruas de Brodowski, notando-se ainda um único automóvel
ao lado de uma carroça puxada a cavalo e uma carrocinha.